Mais cinco minutos, talvez?
18 capítulo 18- Erik
Notas iniciais
Há uma época da vida onde tudo parece dar errado simultaneamente.
E eu não estou me referindo a uma ou duas situações apenas. Quero dizer tudo mesmo. Desde o momento em que o sol nasce até a hora em que ele se põe, tudo está propício a virar uma grande catástrofe. Como se você estivesse dentro de um trem pegando fogo, desgovernado e sem freio, indo diretamente para o precipício.
Aquela quarta-feira foi exatamente assim.
De alguma forma, quando o despertador tocou às 6h25 da manhã e logo em seguida caiu em cima da minha testa — me deixando com um hematoma enorme e perceptível—, eu já sabia que o dia não seria nada bom.
Depois de praticamente não dormir à noite inteira, minha cabeça não poderia estar pior. Meu corpo estava pesado e parecia que eu tinha engolido tijolos durante a noite. Geralmente não era tão difícil assim me levantar da cama, mesmo depois de uma noite mal dormida. Afinal, eu tinha bastante prática em lidar com insônias e noites ruins. Mas nesse dia em especial, precisei de um longo banho gelado até me sentir acordado o suficiente para me enfiar no meu uniforme e descer para o café da manhã sem parecer um morto-vivo.
Embora fosse exatamente assim que eu estivesse me sentindo depois de tudo: Um morto-vivo.
Você pode pensar que, depois de toda a minha experiência, esse sentimento não era nenhuma novidade. Quer dizer, acordar me sentindo um lixo? Nossa, eu estava nessa há anos! Nem é como se um dia a mais fosse fazer a diferença, não é?
O único problema é que, Isaac até podia ter me caracterizado como um lixo. Mas foi Diego quem me entregou o certificado.
Honestamente, depois da noite anterior eu não esperava muita coisa de Diego. Quer dizer, não que alguma vez eu já tenha esperado. Mas acho que fui ingênuo o suficiente para achar que ele nunca seria um babaca a ponto de me dizer que “ eu tomo decisões ruins”.
Acho que foi justamente por causa disso que a conversa da noite passada acabou tão mal. E, com “acabou mal” quero dizer que... Bem, eu o mandei ir para o inferno e Diego, com toda sua educação britânica, me mandou para um lugar um pouco pior. E depois disso nós dois desistimos de comunicação.
Sendo sincero, isso me fez chegar à conclusão que definitivamente Diego não servia para conversar.
Só que aparentemente esqueceram de avisar isso para ele.
— Francamente, Erik! Às vezes eu tenho a ligeira impressão de que nós estamos casados. — Foi a primeira coisa que ele me disse naquela manhã, enquanto eu me arrumava para a escola. — Mas não um casamento feliz e agradável. Nãão. Estou falando daqueles casamentos bem bosta do século passado, sabe? Onde as pessoas eram obrigadas a ficarem casadas literalmente até a morte, porque o divórcio ainda não existia. Sabe do que estou falando?
A única coisa que eu fiz foi suspirar.
Claro. Eu sabia que enquanto estivéssemos ocupando, literalmente, o mesmo espaço, eu não poderia ignorar Diego para sempre. Assim como eu sabia que, justamente pela conversa não ter tido um fim, ele ainda tinha muita coisa para me dizer. Porém, na minha cabeça, todas elas começavam com “ me desculpe”. “Me desculpe por ter sido um babaca noite passada”, eu já teria aceitado. “Me desculpe por ter mentido pra você sobre a sua própria vida.”, “ Desculpe por tratar você como um idiota que não compreende nada”, “Desculpa não ter confiado em você simplesmente por fazer suposições a seu respeito...”, qualquer uma dessas eu teria aceitado muito bem.
E ele provavelmente sabia disso, mas simplesmente não queria dar o braço a torcer, já que disse:
— Falando sério, você acha mesmo que faria alguma diferença eu ter dito antes? Seja realista, garoto! Não ia mudar absolutamente nada! Você ainda ia agir como se eu fosse um serial killer de velhinhas.
Dessa vez eu respondi:
— Mudaria o fato de que você mentiu pra mim, por exemplo. — Acusei. — E também mudaria o fato de você ter sido um imbecil.
— Olha, eu realmente não pretendia quebrar seu coração nem te magoar ou algo assim, ok? Eu apenas achei que os fins justificavam os meios! E você não me parecia confiável o suficiente para isso...
Deixei um grunhido chateado sair e olhei para meu próprio reflexo no espelho. Às vezes, discutir com o espelho fazia um me sentir menos louco do que de costume. Principalmente quando eu me encarava com uma cara tão medonha.
— Você realmente pensa tão pouco de mim assim? — As palavras saíram engasgadas.
— Não, Erik. É você quem pensa pouco de si mesmo. — Disse tranquilamente. — Eu estou apenas observando e descrevendo o que eu vejo.
Após ouvir isso, não consegui conter outro suspiro de frustração.
Saber da falta de confiança de Diego em mim para assuntos que me afetavam diretamente foi a pior parte. Querendo ou não, aquilo tinha me magoado. Mais que qualquer outra coisa. Principalmente considerando o fato que, depois de tantos anos, a primeira pessoa com quem eu realmente tentei ser sincero, foi ele.
Sei que não tinha nenhum direito em dizer isso, mas eu me sentia traído!
Porém acho que é isso que acontece depois que você corta seu pulso usando um bisturi da escola ou simplesmente tenta ter uma overdose de remédios: As pessoas começam a questionar qual será a sua próxima ação e fazem suposições sobre você. Porque agora você é apenas uma pessoa suspeita e com atos imprevisíveis. Ou melhor, você nem é uma pessoa. Você é apenas um maldito suicida. Nada mais além disso.
Não é ótimo?
— É exatamente isso que faz de você um cretino, sabia? — Resolvi declarar o óbvio, desistindo outra vez de falar com ele.
Porém Diego não compartilhava a mesma ideia:
— Sim, eu sei. Ao contrário de você não fico com churumelas quando jogam meus defeitos na minha cara. — Eu nem precisei responder isso, já que emendou logo em seguida: — Veja, Erik, como você bem fez questão de dizer noite passada, a vida é sua! E eu não vou te impedir de fazer nada do que te der na telha. Nem mesmo morrer. Desde que, é claro, você tenha noção do que está fazendo e das consequências. E algo me diz que você não tem!
Dessa vez não consegui não me sentir irritado.
— É mesmo? — Indaguei. — E você já teve alguma vez na sua vida?
—Não. — Pelo menos ele foi sincero. — Mas é justamente por eu ser um completo irresponsável que eu estou te dizendo isso. — Então explicou: — Eu não estou dizendo que você vai tentar se matar hoje ou amanhã, ok? Mas um dia, talvez, você faça de novo. Porque essa é forma que você achou de lidar com os seus problemas. Só que definitivamente não é assim que eu lido com os meus!
Bufei completamente abismado.
— Francamente, Diego, você acha o quê? Que eu vou arrombar o armário de remédio e fazer tudo isso de novo? Ou que eu vou me afogar na banheira? Ou me jogar na frente de um ônibus? E mesmo se eu fizesse isso, você também não seria beneficiado?
Foi a vez dele de rir como se eu tivesse surtado de vez.
— Amigo, me desculpe, mas o que exatamente você quer que eu diga? “Vai em frente, Erik. Enfia o garfo na tomada e acabe logo com nosso sofrimento”? — Rebateu. — Isso não vai rolar, pequena Julieta. E eu não vou bancar o seu Romeu e pular num plano suicida junto com você. Pelo menos não até ter certeza de que não há mais nenhuma alternativa.
“ Certeza de que não há mais nenhuma alternativa”, ele disse. Pois é. E essa era exatamente a razão da minha insônia e da minha inquietação. As tais outras alternativas...
Diego estava vendo isso apenas como um jogo de vida ou morte. Mas para mim, o resultado era indiferente. Porque, independentemente de quem ia viver ou morrer, não havia qualquer possibilidade de que qualquer um de nós saísse disso ileso. Já estávamos fadados ao declínio desde o começo.
Noite passada, enquanto minha mente fazia um zilhão de perguntas sobre isso, fiquei imaginando que eu estava em um cabo de guerra. De um lado estava ele e do outro estava eu. Enquanto estivéssemos puxando com a mesma força e em direções opostas, as coisas estariam equilibradas. Mas, se um de nós soltasse a corda ou ela simplesmente arrebentasse... Acho que isso apenas concretizaria o ápice da nossa decadência.
Parafraseando: Éramos a ruína um do outro.
Certo, eu estaria mentindo se eu dissesse que isso não era assustador. Porque era. Muito! Mas não exatamente por mim. Porque, acho que eu não estava realmente muito preocupado com o que me aconteceria. Eu iria morrer? Bem, certo, e quem não vai, não é mesmo?
Mas quando eu pensava sobre Diego, mesmo sabendo que isso iria resolver a situação dele, alguma parte de mim ficava hesitante.
Mas não contei isso a ele. Não por vingança, que fique claro. Apenas queria que Diego percebesse isso sozinho. E ele teria que perceber cedo ou tarde. É claro que, se dependesse dele, seria uma coisa mais tarde do que cedo...
Mas não que ele ao menos não tentasse.
— Olha — Disse, quando eu não o respondi. —Você tem todo direito de estar revoltado, ok? Eu, no seu lugar, já teria tido um ataque de fúria. Mas você precisa aceitar o fato!
—Qual fato? — Se tinha uma coisa que eu estava fazendo desde sempre, era aceitar fatos. Eu ia precisar que ele fosse um pouco mais especifico dessa vez.
— O fato de que eu sou tudo o que você tem agora. —Ele respondeu de forma paciente. — Da mesma forma que você é tudo o que eu tenho.
E isso fez com que eu ficasse mudo.
Talvez tenha sido o que ele disse, ou talvez tenha sido a soma de tudo o que vinha acontecendo e o que estava na minha mente... Mas eu realmente senti vontade de chorar quando ouvi essas palavras. Porque se ele de fato entendesse o que estava acontecendo, como ele achava que entendia, tenho certeza que jamais teria dito aquilo.
Por isso, por mais cruel que tenha parecido, minha resposta para ele foi:
— Mas infelizmente isso não muda absolutamente nada, não é?
Diego nem mesmo se abalou.
— Mas é claro que muda! Tecnicamente eu salvei a sua vida! — Declarou como se isso fosse equivalente a construir o império de Roma.
Soltei uma risada irônica pelo nariz.
Acredito que naquele momento ele também percebeu o quanto meu coração estava acelerado. Assim como também sentiu o quanto ele se apertou no momento em que peguei minha mochila e a joguei no ombro, dando mais uma olhada para o meu abatido reflexo no espelho.
— Não. Você não salvou a minha vida. — Disse a ele. — Você apenas prolongou ela.
E então, como se toda a minha vida e a vida de outra pessoa não estivessem desabando sobre a minha cabeça, eu fui para escola.
Para ser direto, haviam alguns motivos para, apesar de toda a situação, eu ter ido à escola naquela quarta-feira. E o primeiro deles era a prova de francês que me esperava já no primeiro tempo. Porque, você sabe, a escola é assim. Não importa o quanto a sua vida está suja e bagunçada, os professores e as provas não vão demonstrar qualquer simpatia por você.
O segundo motivo era que algo me dizia que Diego sabia sobre francês tanto quanto eu sabia pilotar foguetes. E como tudo o que eu não precisava era do meu pai sendo chamado na escola por conta das minhas notas baixas, eu fui fazer a tal prova. Embora eu tenha quase certeza que não ia precisar de um idioma extra no meu currículo, considerando a hipótese de nem mesmo terminar o ano escolar vivo.
E de qualquer forma, também não era tão ruim assim ir para a escola em dias de provas. Eu sei que isso pode soar irônico, mas é verdade. Geralmente todo mundo estava ocupado demais estudando e preparando cola para prestar atenção em mim.
Enfim, eu fiz a prova. E também me arrastei para as duas aulas seguintes da maneira mais zumbi possível.
Para ser sincero, foi depois das 8h da manhã quando o sono finalmente me atingiu. Tudo o que eu queria era me jogar em qualquer lugar e dormir até a paz mundial ser conquistada. E acho que Diego disse algo sobre fazermos exatamente isso assim que o sinal tocasse. E eu estava quase concordando com essa ideia.
Mas, exatamente como eu disse anteriormente, há uma época da vida onde tudo parece dar errado simultaneamente.
O momento em que eu tive certeza de que aquele dia estava se encaminhando para ser péssimo foi na hora da chamada da aula de química. Quando o professor chamou o meu nome e assim que eu respondi um engrolado “ presente”, escutei as risadas atrás de mim. E então sussurros.
Mesmo assim, fui otimista o suficiente para acreditar que eu não tinha absolutamente nada a ver com aquilo. Ninguém queria saber sobre o fracassado Erik Bryan durante a semana de prova, não é mesmo?
Não. O pior é que não. Alguém cutucou as minhas costas e fez com que esse pensamento morresse.
Era alguma coisa sobre mim. E algo me dizia que eu não ia gostar de saber o que era.
Me virei para trás com muito pouca vontade.
A pessoa que se sentava atrás de mim, e que também era responsável pelo cutucão, era Karen Noyes. E ela também estava em mais outras duas aulas minhas. Não que eu a conhecesse bem, mas ela fazia parte do clube do jornal e vez ou outra estava atrás de Isaac.
Porém essa era definitivamente a primeira vez que falava comigo.
— O que foi, Karen? — Perguntei em um fio de voz, não sabendo se ia querer ouvir a resposta.
Ela estava com um bloco de anotações em mãos e me olhava como se eu fosse um extraterrestre que acabou de sair de um disco voador. Um misto de pavor e excitação.
Assustador, foi a única coisa que eu consegui pensar.
— Você não ficou com medo? — Foi o que ela me perguntou. Aleatoriamente.
Bem, eu não tinha a menor ideia sobre o que ela estava falando, mas posso dizer o que estava me dando medo: ela!
— Do que exatamente? — Perguntei de volta.
Mas antes que a própria Karen pudesse me responder, ouvi claramente quando os garotos na fileira a minha frente sussurraram um para o outro as palavras “ garoto suicida”. Então senti como se estivessem olhando para mim.
Desviei minha atenção dos olhos curiosos de Karen, apenas para comprovar que havia mais uma porção deles voltados em minha direção. Pares de olhos, quero dizer.
Além dos sussurros, que pareciam gritos na minha cabeça, comecei a ouvir um zumbido baixo nos meus ouvidos. Minha mente estava rodando, como se o sangue não estivesse chegando ao meu cérebro.
O que estava acontecendo, afinal?
Mas foi apenas quando Mark Wasserman disse em alto e bom som, para que todos da turma escutassem, “ Se eu fosse Erik Bryan, eu também iria querer me matar”, que eu percebi o tamanho do tsunami que estava vindo para cima de mim.
Algumas pessoas riram do comentário. Como se realmente existisse algo de engraçado nisso. Outras pessoas me olhavam com pena. Outros me olhavam como se eu fosse completamente maluco.
Apertei meus braços ao redor do meu corpo, como se de alguma forma isso fosse me proteger de qualquer coisa que viria a seguir.
Eu me sentia com treze anos de idade novamente. Deitado em uma cama de hospital, com o pulso devidamente costurado e com ataduras. Meu pai choramingando no canto como se a culpa fosse dele...
Ainda me lembro da conversa com a psiquiatra naquele dia:
— Você já tinha tentado se matar antes? — Ela me perguntou.
— Não tentei me matar. — Eu insisti. Tinha dito isso ao médico, ao meu pai, à felícia e agora estava dizendo à psiquiatra. E até em então, nenhum deles havia acreditado em mim.
— Tem alguma coisa acontecendo na sua vida que está te fazendo tão mal a ponto de pensar em suicídio?
Essa foi a única pergunta em que fui totalmente sincero:
— Sim. — Eu respondi a ela. — Sempre que eu abro meus olhos.
Depois disso, fiquei internado por mais uns dias, antes de receber alta. E mesmo depois disso, meu pai não me obrigou a ir para as aulas nas duas semanas seguintes. Foi quando eu o convenci a me mudar de escola.
Ninguém, além da equipe médica do hospital, dos coordenadores da escola e meu pai sabia sobre o que tinha acontecido. E todas as partes concordaram e jamais falar sobre o assunto. A escola não falaria por não querer carregar esse tipo de escândalo. Meu pai não queria que o único filho fosse visto como um doido de pedra. E o hospital não queria levar um processo milionário nas costas. Então, durante anos, todas as minhas recaídas e todas as minhas falhas tentativas de acabar com tudo, foram mantidas completamente em sigilo.
Bem, mas aparentemente alguma coisa deu errada nesse tempo. E agora eu tinha uma escola inteira sabendo quem eu era e, literalmente, o que eu tinha feito no verão passado.
Mas é isso que acontece quando o seu teto é de vidro. Sempre existirão coisas que você não pode controlar. Você pode apenas torcer para que nada o quebre. Que nenhuma rachadura ou buraco seja aberto. Porque caso contrário... Todo o seu interior será revelado.
Antes que eu me afundasse de vez na minha mente turbulenta, uma voz me trouxe de volta a realidade.
A minha voz:
— Muito bem, seus urubus de merda! — Era o que eu tecnicamente estava gritando. — Qual de vocês é o filho da puta que está espalhando esses boatos?
Diego provavelmente notou que a minha mente estava entrando em pane. E como bom intrometido que era, ele tomou as dores da situação.
As palavras que ele havia me dito de manhã, sobre só termos um ao outro, ecoaram mais altas que nunca na minha mente. De modo que, com o máximo de força que eu ainda tinha respondi um sincero:
— Obrigado!
Eu ainda podia sentir meus olhos encharcados e turvos de lagrimas, mas Diego não parecia a ponto de chorar. Ele parecia pronto para estrangular alguém.
Em algum momento dos meus devaneios, Diego foi quem assumiu o controle. Ele estava em pé em cima da minha mesa— Ignorando os protestos do meu professor— berrando aos quatro ventos que ia matar a pessoa que começou com os boatos.
— Não sabemos quem começou. — Karen foi quem respondeu. Seus olhos curiosos mais afiados que nunca, provavelmente pela minha repentina mudança de postura. — Alguém colocou um artigo sobre você no mural de entrada. Todo mundo apenas leu!
O mural de entrada? Eu nunca lia o mural de entrada! Era um lugar que as pessoas usavam para divulgar festas ou alguma atividade escolar que, com toda certeza, eu jamais apareceria. E, seja lá quem colocou algo sobre mim ali, sabia muito bem disso.
Diego desceu da mesa no mesmo instante, marchando porta a fora, provavelmente em direção ao mural. Mas ainda deu tempo de ouvir alguém gritar:
— Tente novamente, Erik! Na próxima você consegue!
A resposta de Diego para isso foi levantar o meu dedo do meio.
— Cacete, Erik, você estuda em um zoológico? Nunca vi tanta gente escrota reunida em tão pouco espaço. — Ele proferiu furioso, quase correndo pelos corredores. — E nem pense dar ouvido a qualquer um deles, você ouviu?
Essa última parte me deu vontade de sorrir.
— Tudo bem. — Murmurei.
— Não! Não está nada bem! — Ele rugiu. — Ninguém ficaria bem com isso.
Quando chegamos ao mural, não foi difícil achar o meu “ artigo”. Na verdade, nem era um artigo realmente. Era uma enorme cartolina laranja com a foto da minha carteira estudantil pregada nela, acompanhada do título “ O suicídio de Erick Bryan-parte 1”. A probabilidade de possivelmente existir uma parte 2 me assustou mais que qualquer coisa.
Diego arrancou o cartaz e o segurou nas mãos, lendo detalhadamente cada palavra escrita ali:
“ É provável que nenhum de vocês saiba sobre isso. Mas por muito pouco nossa adorável escola não se tornou palco de uma escandalosa tragédia recentemente.
O protagonista? O excêntrico Erick Bryan. Vocês provavelmente sabem quem é.
Mas para Erick, toda a calorosa atenção que ele recebe na escola não estava sendo o suficiente. Ele precisava se destacar por outras qualidades. Algo que realmente mostrasse seu lado mais... curioso e hediondo.
Então ele preparou um plano nos bastidores.
Vocês conseguem imaginar qual?
Aparentemente, há cerca de um mês, ele deu entrada em um hospital próximo, após ter uma overdose de remédios. Mas não de uma forma casual. E sim, proposital. Erick queria declarar ao mudo que estava findando sua própria vida.
O que, é claro, não deu certo.
Mas ninguém soube sobre isso antes, não é?
Claro que não! Afinal, Erick e toda sua família superprotetora— Ou será que deveria dizer negligente? — Fez questão de ignorar o fato. Provavelmente por vergonha do quanto o único filho conseguia se mostrar tão patético.
Porém a razão desse ato ter permanecido inimputável até então, ainda é um mistério. O que nos deixa apenas à mercê de teorias.
Talvez Erick tenha pensado que, quando se matasse, ele conseguiria a atenção que queria. Afinal ele ganharia uma assembleia, um memorial e talvez até algumas homenagens por parte dos alunos. Mesmo que no fundo ninguém se importasse. Mas ele certamente conseguiria se manter como um tema entre todos até a formatura.
Ou será que Erick estava apenas querendo fazer um favor ao mundo? Essa também é uma opção a ser considerada...
Porém, apenas o garoto prodígio sabe o que se passa em sua mente.
A questão, no entanto, é que ele certamente não deveria estar nessa escola. Ou melhor, em escola nenhuma. Erick Bryan deveria estar em um hospício! Ele é uma ameaça a sanidade de outros alunos. Uma péssima influência que jamais deve ser seguida.
Por isso fica a dúvida: Continuaremos ao lado de uma pessoa, que coloca em risco nosso ambiente escolar, sem fazer absolutamente nada ou será que Erick conseguirá cumprir seu propósito antes de precisarmos tomar atitudes maiores?
Isso ficará a critério de todos...”
Pontos começaram a surgir na minha visão e nenhum de nós conseguia ler mais nada. As lagrimas não me deixavam enxergar.
— Erik, para de chorar! — Diego me censurou. — Droga, para de chorar! Eu não consigo ler.
Mas não é como se eu estivesse fazendo de propósito. Eu também não queria chorar na escola depois de algo como isso. Mas era como se meu próprio corpo sentisse o quanto aquilo era cruel. Então os meus ombros começaram a tremer e a minha garganta doía.
Alguém havia exposto a parte mais sombria da minha vida. Pegado o meu lado mais podre e logo em seguida mostrado a todos, de uma forma completamente pervertida. Uma versão suja e degenerada de quem eu realmente era.
Mas o mais triste de tudo isso, é que mesmo estando em uma escola onde quase todos os alunos me odiavam ao ponto de fazer algo tão cruel, apenas um nome ocupava minha mente como o autor daquilo: Isaac Miller.
— Não é perfeito? — Eu disse a Diego. — Isaac, quero dizer. Depois de mais de dez anos ele conseguiu a vingança perfeita contra mim. Ele conseguiu me humilhar da pior forma possível. Exatamente como eu fiz com ele naquele dia...
Mesmo com todas as lágrimas que saiam, Diego continuava encarando aquela cartolina.
— Acho que não foi Isaac que fez isso, Erik. — Ele respondeu sério.
— Ah, certo! — falei, sem esconder a magoa. — Então foi apenas uma pequena coincidência que uma situação tão parecida tenha acontecido comigo? Mesmo sabendo de todo rancor de Isaac? Mesmo sabendo de tudo isso...
Suspirei. Ou Diego suspirou, no caso.
— Quantas pessoas sabem o que aconteceu com vocês dois no jardim de infância? — Ele perguntou.
Aquilo era ridículo! Ele ia mesmo tentar me convencer o contrário? Logo eu, que sabia melhor do que ninguém sobre o que Isaac era capaz? Nem tinha sentido o fato de Diego estar defendendo Isaac, para começo de conversa.
Mesmo assim me dei o trabalho de responder:
— Até onde eu sei, apenas você. E Isaac é orgulhoso demais para contar para outra pessoa. Então que diferença isso faz?
— Bem... — Diego disse simplesmente. — Acho que tem alguém querendo te ferrar mais do que ele. Isaac é inocente dessa vez.
A ferocidade com que Diego estava defendendo a crueldade de Isaac estava realmente me enlouquecendo.
— Diego, mais ninguém sabe sobre o que aconteceu! Ninguém mais além de Isaac teria interesse em me humilhar dessa forma. As pessoas dessa escola podem até me odiar, mas só existe uma pessoa nesse mundo que se dedica ao meu bullying mais do que à própria vida...
— Você sabe quantas vezes o seu nome apareceu durante esse texto? — Diego me interrompeu de repente.
— Que diferença isso faz? — Eu insisti, irritadiço.
— nove vezes, contando com o título. — Ele apontou para cada uma delas, como se tivesse que provar o que falava. — E em todas essas nove vezes, o seu nome está escrito de forma errada.
Foi como se tivessem aplicado anestesia no meu cérebro. De repente esqueci completamente minha linha de raciocínio.
— Como assim?
— Um cara que te conhece bem o suficiente a ponto de notar a diferença entre eu e você em questão de minutos, não teria escrito seu nome errado nove vezes, Erik... — Ele deu de ombros. — Não foi Isaac que fez isso.
Não foi Isaac que fez isso.
Não foi Isaac que fez isso.
Não foi Isaac que fez isso.
Mas então... Quem? Quem faria isso e por quê? Quem ia querer arquitetar um plano tão repulsivo contra mim apenas para me machucar dessa forma?
Quem mais me odiava tanto a esse ponto?
A resposta dessa pergunta era tão óbvia que chegava até a doer: Um monte de gente. Eu simplesmente colecionava pessoa que queriam a minha cabeça! Não é como se fosse fácil apontar um único suspeito.
Isaac era a resposta fácil e óbvia. E Diego me tirou dessa zona de conforto. Mas talvez se eu apenas continuasse acreditando que era ele o responsável, tudo na minha vida pudesse voltar ao normal...
Se ao menos a lei do “olho por olho” estivesse valendo...
— Erik Bryan, por favor, comparecer ao gabinete do senhor Carter — uma voz robótica soou no alto falante. —Erik Bryan, por favor, comparecer ao gabinete do senhor Carter.
O senhor Carter era o diretor. E ser chamado para a sala do diretor nunca era uma coisa boa. Não para mim. Não naquele momento.
Eu sabia muito bem porque motivo estava sendo convocado. Porém, se até o senhor Carter já estava sabendo sobre aquilo... Quem mais também estava? Meu pai? A polícia? A imprensa? O país todo?
Aquilo não estava brincando só com a minha vida. A minha família foi chamada de “negligente”! Eu não conseguia nem pensar no que poderia acontecer por conta disso, mas certamente o meu pai também ia acabar prejudicado...
Meu corpo inteiro parecia se encher com algum sentimento violento. Intensamente, como se pudesse sair dos meus poros. Desespero? Medo? Raiva? Eu não conseguia distinguir!
Senti meu estomago se revirar, meu peito começou a doer como se fosse partir em milhões de pedaços. E então a hiperventilação chegou.
— Erik... — Diego chamou de maneira ofegante. — Eu sei que a situação atual não é muito fácil... Mas... Teria como você se acalmar? Eu não estou conseguindo respirar!
Mas não tinha como eu me acalmar. Nada na minha vida estava calmo! E eu nem conseguia lembrar qual foi a última vez em que tinha estado.
Noite passada, quando Diego disse que não cofiava em mim porque eu tomava decisões ruins, falei a mim mesmo que ele estava sendo cruel. Mas... Ele não mentiu! Eu tomava mesmo decisões ruins. A minha vida era infestada de provas disso. Diego apenas percebeu isso antes e tentou me alertar.
Mas eu não dei ouvidos, como sempre.
Erik Bryan era mesmo um idiota!
Mesmo que eu fingisse que não, a vida gostava apenas do que era ordinário. Então ela certamente jamais gostaria de mim. Era tarde demais para que alguma coisa mudasse na minha vida.
Mas talvez não fosse tarde demais para que eu mudasse a vida de outra pessoa...
Diego provavelmente não notou. Mas foi exatamente nesse momento que a corda do nosso cabo de guerra, enfim, se partiu.
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