Mais cinco minutos, talvez?
19 capítulo 19- Erik
Notas iniciais
Fui para a sala do diretor apenas porque não sabia mais para onde ir.
Não havia nenhuma chance de eu seguir com as aulas depois de tudo aquilo acontecer e, cedo ou tarde, eu teria mesmo que falar com o senhor Carter. E se eu tivesse que escolher, eu preferia que fosse antes o suficiente do caos se tornar totalmente incalculável. Se é que já não fosse.
Mas não que tenha sido a decisão mais inteligente da minha vida, já que ele não me disse absolutamente nada que soasse melhor do que tudo o que eu ouvi o dia inteiro. Na verdade, até quando tentou ser simpático, senhor Carter deixou transparecer o quanto estava incomodado. Não sei se comigo ou com toda a situação.
Ainda me lembro de que, a última vez em que eu tinha ido à diretoria, meu pai estava ao meu lado e nós estávamos lá para me matricular. Também me lembro do discurso que ouvi do diretor naquele dia. Outra chance, foi o que eles me disseram. Outra chance de ter um futuro brilhante. Outra chance de ser um grande jovem promissor...
A ironia, entretanto, estava no fato de que, naquele momento, eu estava sentado na mesma cadeira, olhando para as palmas das minhas mãos, enquanto nós dois chegávamos a mesma conclusão: de que eu poderia ser muitas coisas... Menos um jovem promissor.
— Como está indo, Erik? — Ele me perguntou. Não querendo realmente uma resposta, mas apenas como um protocolo a ser seguido antes de começar devidamente uma conversa.
Minha resposta deveria seguir a mesma linha de raciocínio: — Estou bem, obrigado, como vai o senhor? — Com um bom sorriso amigável, mas eu estava assustadoramente cansado e irritado para fazer algo assim. Senhor Carter provavelmente sabia ler nas entrelinhas para entender isso. Ele era diretor escolar há mais de quinze anos e certamente já lidou com diversos tipos de alunos.
Os do meu tipo são os mais desagradáveis.
Pelo menos foi o que deduzi enquanto observava ele falando. O diretor não olhou realmente para o meu rosto nenhuma vez sequer. Era como se, de repente, eu tivesse adquirido algum superpoder que faria o rosto dele entrar em combustão caso tentasse olhar para os meus olhos.
—Você parece cansado. — Ele comentou o óbvio. — Gostaria de conversar sobre algo? Algum problema, talvez?
Eu soltei um suspiro irritadiço.
Será que ele não tinha percebido que estava bastante atrasado para se preocupar se eu estava tendo algum problema? Onde ele tinha estado nos últimos dois anos e meio? Ou melhor, aonde ele estava quando colocaram aquela maldita cartolina no mural?
— Senhor Carter — Falei, cruzando as mãos. — O senhor me chamou aqui porque provavelmente soube sobre o que aconteceu. Então, sem ofensas, mas não é meio óbvio que eu estou tendo problemas?
O diretor limpou a garganta.
— É, certo. — Ele murmurou mais para sí. — As coisas definitivamente não devem estar sendo fáceis para terem chegado a esse ponto, não é mesmo, Erik?
Não consegui conter o olhar ligeiramente agressivo em direção ao senhor Carter.
— O que quer dizer com isso?
—Você tem tido oscilações de humor recentemente. — Ele contou como se eu não soubesse. — Tem tido outros problemas além desse? Como problemas de sono ou de apetite?
— Não vejo como me perguntar sobre meus hábitos de sono ou de apetite tem a ver com tudo o que está acontecendo nesse momento. — Respondi de maneira apática, mas de alguma forma, eu sabia exatamente como acabaria aquela conversa.
O diretor levou sua caneca a boca e mesmo que por segundos pude sentir o quanto suas mãos estavam tensas. Então ele resolveu ser mais direto e me perguntou se os boatos que estavam rondando os corredores eram verdade.
Fui sincero. Respondi que, a parte de eu ter tentado me matar, era. Mas o resto, nem tanto. Porém, quando disse isso, a postura dele apenas pareceu ficar ainda mais rígida, e o senhor Carter começou a palestrar uma verdadeira enxurrada de coisas que pareciam ter saído diretamente de algum panfleto sobre a valorização da vida ou algo assim. O que basicamente quer dizer que envolvia as palavras “ vida” e “importante” sendo repetidas quase que excessivamente. Quase me obriguei a explicar que não funcionava da forma que ele achava. Não pensava em me matar 24h por dia. Guardava esse tipo de pensamento apenas para dias em que me odiava tanto a ponto de querer me machucar.
Depois ele me disse sobre como a política da escola era contra o bullying e que certamente iria “dar um jeito de me ajudar”. Isso poderia facilmente ter sido confundido com algum tipo de piada cruel, mas acho que, no fundo, o senhor Carter apenas não estava muito crente que alguns dos seus mil e quinhentos anjinhos estudiosos pudesse fazer algo desse tipo.
Então ele completou tudo isso jogando a última bomba do dia:
— Os advogados, tanto da escola como os do seu pai, aconselharam a não permitir que você frequente as aulas até um médico ou outro profissional nos garantir que nada... Drástico irá acontecer de novo. Sinto muito, Erik, mas você representa um risco muito grande. Não só para sí mesmo como para outras crianças.
Demorou realmente um bom tempo até que eu entendesse o que ele estava dizendo. Quer dizer, apesar das palavras solidas e contidas, ficou bastante claro o quanto diretor, e todo o resto, não estavam preocupados com aquele incidente. Eles só me queriam longe. Eu era o problema a ser resolvido.
Fiquei perplexo demais para dizer algo imediatamente.
— Não fui eu quem fez algo de errado! — Foi o argumento que usei em minha defesa.
O que foi uma grande besteira, é claro. Porque eu sabia muito bem que as coisas não aconteciam por ordem de merecimento. A vida é aleatória e eu já devia ter entendido isso.
— E eu não estou dizendo que fez, Erik. — O diretor se apressou em responder. — Se de fato algum dos nossos alunos for o responsável por esse acontecimento, nós vamos descobrir e tomaremos as providências. Mas, até lá, precisa entender o quanto é incerto a maneira que você deveria progredir nessa escola.
— Está praticamente me expulsando? — Perguntei incrédulo demais para acreditar no que meus ouvidos escutavam. — Senhor Carter, faltam quatro meses para eu me formar!
Não que eu realmente fizesse questão das aulas ou algo assim. Nada disso. Eu apenas não conseguia me conformar com a injustiça.
— Eu sei disso. — Ele falou de maneira contida. — Não entenda errado minhas palavras, por favor. É claro que não estamos expulsando você. Estamos preocupados, é diferente. Então, veja isso como... Uma licença médica. Certo?
Eu não consegui responder.
Mas acho que no fundo até fazia sentido. O que era o afastamento de apenas um aluno quando ele tinha uma porção de pais furiosos e ansiosos para jogar um processo em cima da escola caso soubessem das minhas “terríveis más influencias”? Era uma perda mínima, se for parar para analisar. Não era preciso ser um gênio do investimento para entender.
Depois disso nenhum de nós disse mais nada. Então, após alguns segundos de um silêncio quase constrangedor, não vi outra saída que não fosse me colocar de pé e sair pela porta.
Apesar do horário, ainda havia pelo menos umas vinte pessoas no corredor quando comecei a andar em direção a saída. E quase todos eles me encaravam, dizendo coisas um para os outros divididos em duas tristes categorias: Deboche e pena. Os comentários desde os mais cruéis aos mais absurdos tomaram conta do espaço, como um grande rio de verdades e mentiras.
— O garoto morto está passando... — Alguém sussurrou enquanto eu caminhava.
A cada passo que eu dava, eles voltavam alguns para trás. Como se estivessem com medo. Como se eu fosse contagioso... exatamente como eu tinha me sentido na sala do diretor Carter.
Suspirei.
A minha vida inteira eu sempre ouvi pessoas me perguntando o que havia de errado comigo. Mas, enquanto eu caminhava e me lembrava de tudo o que tinha acontecido até as coisas chegarem aonde chegaram, eu só conseguia me perguntar uma coisa: O que há de errado com todas as outras pessoas?
* * *
— E então? — Diego me perguntou um tempo depois, quando estávamos no saguão esperando alguém aparecer para me buscar.
Eu não podia mais sair sem autorização desde a vez em que Diego resolveu encher a cara e enlouquecer toda a minha família. E algo me dizia que depois daquele dia, eu não poderia sair para lugar nenhum até fazer oitenta anos.
— Então o quê? — Perguntei de volta, encarando meus pés.
— O que você vai fazer? — Ele cobrou. — Quer dizer, o que você que fazer?
Grunhi em resposta.
— Não vou me matar, se é isso que você quer saber. — Rugi. — Porque você não entra na fila dos que estão esperando por isso?
Diego soltou uma risada debochada. Quase irritante demais para o momento.
—A raiva combina com você. — Ele disse. — Embora eu seja suspeito para falar, já que estou mais familiarizado com ela do que o sentimento de auto piedade. Mas não foi sobre isso que eu perguntei. O que eu quero saber é o que você vai fazer para resolver isso. Ou está realmente crente que o diretor bundão vai fazer algo por você?
Nunca fui ingênuo a esse ponto. Digo, de acreditar que as coisas se resolveriam de forma otimista e maravilhosa como o diretor queria fazer parecer. Por isso minha resposta a Diego foi negar com a cabeça.
— Não sei se quero saber sobre isso. — Falei. — Quer dizer, do que adiantaria descobrir quem foi? As pessoas não estão preocupadas com isso. Elas só veem o que querem ver. E o que elas estão vendo é a pessoa retratada naquele cartaz; no caso, eu. Não querem saber quem escreveu.
Foi a vez de Diego grunhir.
— Não vou realmente te contar minha opinião sobre tudo o que aconteceu dentro da sala do seu diretor. Mas sei como você está se sentindo e sei que está mentindo. Está com o orgulho ferido e quase caindo no choro novamente, por isso quer evitar o assunto. Mas foda-se o colégio! A vida é mais do que essa droga! E quando a gente quebrar a cara do desgraçado que fez isso, tenho certeza que você vai se sentir bem melhor.
Acabei revirando os olhos. Às vezes eu realmente queria que a minha mente funcionasse de forma tão simples quanto a dele.
— Você pode fazer uma coisa por mim? — Suspirei. — Poderia não... Fazer nada? Pelo menos até a poeira abaixar?
— Estou falando sério! Você precisa trabalhar essa sua passividade, garoto. Francamente! — Ele resmungou. — Mesmo assim vou te dizer uma coisa: As pessoas realmente gostam de dizer como e quem nós deveríamos ser, mas somos nós quem decidimos se queremos corresponder à expectativa delas ou as nossas. Você está chateado pelo que aconteceu hoje? Então faça todo mundo calar a droga da boca, Erik. Faça algo a seu favor e pare de se sabotar. Eu estou realmente cansado disso.
Acabei deixando um sorriso escapar.
— Você realmente é a pior pessoa do mundo para se ter uma conversa quando se está tendo um péssimo dia...
... E provavelmente a única que ainda conseguia se importar com algo assim de maneira realmente sincera; mas não disse isso a ele.
Meu pai apareceu no saguão um pouco depois. Ele estava despenteado e parecia um pouco perturbado, para não dizer alucinado. Ficava olhando de um lado para o outro, como uma daqueles cachorros farejadores procurando drogas. No caso, eu era a droga que ele procurava.
— Erik? O que aconteceu? — Foi o que ele gritou assim que me viu. — Como você está?
— Eu… estou… hã…— não conseguia formular nenhuma frase boa para aquela pergunta, porque ele não parava de me encarar tão intensamente. E a expressão no rosto dele, meio de raiva e meio de preocupação, estava me deixando pior do que tudo.
— Vamos para a casa. — Foi o que ele murmurou em tom de ordem, mas não o que fizemos imediatamente.
Meu pai se afastou de mim por alguns segundos, gesticulando consigo mesmo e parecendo ainda mais esquisito do o que o de costume. Ele estava no telefone, foi o que eu percebi depois, mas não posso dizer com toda certeza para quem ele estava ligando. Talvez fosse para o senhor Carter. Ou para os seus advogados. Bem, seja lá quem era do outro lado da linha, com certeza não ia gostar de ver as caras e bocas que meu pai estava fazendo.
Quando ele desligou e finalmente fomos para o carro, papai bateu à porta com tanta força que a única coisa que consegui fazer foi encolher meus ombros e desejar que o banco de couro me engolisse vivo. Porém isso não aconteceu e ele apenas pisou fundo no acelerador, fazendo os pneus gritarem.
Às vezes eu sentia o olhar dele sobre mim, mas eu não conseguia de maneira alguma manter qualquer contato visual. Tudo o que eu queria era poder sair correndo dali e simplesmente desaparecer. Começar tudo do zero. Eu não sabia nem por onde começar a explicar tudo aquilo para o meu pai e nem acho que eu queria fazer isso.
Porém...
—Escuta, precisamos conversar. — Foi o que ele soltou na metade do caminho.
Apertei minhas mãos no banco de couro e suspirei.
— Sobre o quê, exatamente? Sobre o que aconteceu na escola? Ou o que disseram da gente? Ou talvez o fato de praticamente me tratarem como se eu fosse um psicótico que a qualquer momento colocará todo mundo em perigo? Qual é o tópico da conversa?
Eu realmente não pretendia ser tão mau naquele momento, mas não tinha conseguido evitar. Era como se a minha mente não conseguisse acompanhar as minhas palavras e a coisa toda saía de forma desproporcional.
— Não, eu... — Papai hesitou. — Eu só queria que soubesse que eu sei que as coisas têm sido difíceis...
Soltei um chiado maldoso. Fazia muito tempo que as coisas estavam difíceis. Nem sei, na verdade, se alguma vez tinham sido fáceis.
— Eu estou bem. —Menti para encurtar a conversa.
— Olha, eu sei o quanto garotos na sua idade podem ser cruéis.
— É sério, deixa pra lá...
—É só que eu não imaginava que as coisas iriam piorar tanto assim! — Ele insistiu. — E, quero que saiba que tomamos a decisão de afastá-lo da escola para o seu próprio bem. Não fique muito chateado por isso.
— Tudo bem. Eu entendo.
— Você... Hum... talvez você tenha feito algo para alguém ter tomado esse tipo de atitude contra você? Quer dizer, eu só... Estou tentando entender, sabe?
Olhei para ele pela primeira vez sem esconder a mágoa.
— Está realmente me perguntando isso? Se eu fiz alguma coisa para merecer ter a minha vida exposta dessa forma e ainda ter uma escola inteira me tratando como se eu estivesse contaminado com algum tipo de doença radioativa? É realmente isso que você quer saber?
Acho que estava concordando com Diego em um ponto: A raiva era a melhor opção para lidar com tudo aquilo. E certamente menos humilhante do que as lagrimas.
Papai limpou a garganta e se mexeu de forma desconfortável. Ele não gostava de cruzar a linha. Tinha medo de ver o que tinha do outro lado dela...
...Por isso era sempre o primeiro a me abandonar quando a coisa piorava.
— Eu não quis... Quer dizer, não entenda errado, Erik. Eu só quero ajudar. — Ele começou, mas não sabia como terminar, então emendou: — Talvez devêssemos...
— O quê? Conversar sobre isso mais tarde? Sim, essa é uma ótima ideia! — Completei, olhando para fora da janela.
Mas a verdade é que nunca conversamos. É assim sobre tudo. Apenas dizemos que um dia conversaremos sobre isso, e as vezes falamos sobre como nós realmente deveríamos conversar. Mas isso nunca acontece e não insistimos no assunto.
* * *
Naquela noite, Diego pegou no sono rapidamente. Como eu disse antes, a mente dele era simples demais para que perdesse a noite por algo assim. Ele imaginava que ia achar a pessoa que fez aquilo, bater nela e... então, o quê? Honestamente, eu não sabia. Mas daria tudo para que fosse tão fácil quanto ele fazia parecer.
Eu, por outro lado, não tenho ideia de que horas adormeci. Considerando que também não havia dormido nada na noite anterior, aquilo deveria ter sido fácil, mas definitivamente não foi. Eu estava muito triste, furioso, inconformado e várias outras coisas que eu certamente tinha razão para sentir naquele momento.
Apenas sei que em alguma hora o cansaço me venceu, pois me lembro muito bem da hora em que acordei. 3h da manhã, os números do relógio piscaram alto para mim.
Era madrugada do dia seguinte ao do pior dia da minha vida e eu realmente não sabia o que fazer.
Eu não teria mais que ir à escola, graças ao diretor que me considerava uma aberração; e provavelmente também não teria café da manhã, já que o clima na minha casa estava em algum lugar entre o péssimo e o ruim. Coisa que resultou em uma prisão domiciliar por tempo indeterminado — Ou tempo suficiente para que tudo voltasse ao normal. O que poderia muito bem ser... Nunca —. Por outro lado, eu ainda tinha que lidar com uma possível resolução trágica do meu problema com Diego que, por falar nisso, era a única pessoa que sabia e parecia se importar em como eu estava me sentindo com isso tudo. O que era legal da parte dele, se não fosse o pequeno fato de que ele estava em coma e possivelmente morrendo.
E de tudo isso, a única coisa de que eu tinha absoluta certeza era que o meu limite de bizarrices tinha estourado.
É por isso que eu sabia que se eu continuasse naquela casa, na minha cama e remoendo meus pensamentos daquele jeito, eu desaparecia ante do nascer do sol. Porque não sei se eu ainda conseguiria aguentar mais dias como aquele.
Mas, pela primeira vez na vida, fui um adolescente imprudente de uma forma normal: Eu fugi de casa. Troquei de roupa, peguei minha carteira e escapuli pela janela. Simples assim.
O lado bom é que, ao contrário da maioria das crianças, nunca tive medo do escuro. Muito pelo contrário. O fato de me sentir invisível nele, era quase prazeroso. Por isso não me senti assustado nem nada disso quando me vi de pé, sozinho, no meio da rua durante a madrugada. A sensação era muito parecida com a de estar completamente só no mundo. O que não era tão diferente assim do que eu realmente me sentia.
Mas, preciso dizer que, a linha tênue entre o estar e o sentir era o real problema de tudo.
Para onde eu iria? O que eu deveria fazer? Não sei e também não queria pensar no que faria a seguir ou no que aconteceria depois. Eu só queria viver aquele momento o quanto ele durasse. Então a única coisa que eu sei é que, logo depois disso, eu estava pegando um taxi, com meu coração preso em minha garganta e torcendo para que todo aquele papo de Diego de que eu ainda podia fazer algo, não fosse totalmente uma grande mentira.
Acho que se eu pudesse escolher realmente, teria ido ao aeroporto e pegado o primeiro voo para qualquer lugar do mundo onde não me conhecessem. Mas eu não tinha dinheiro e nem passaporte disponível para fazer algo assim. Então optei para um lugar mais perto.
Assim que desci do taxi, inalei o ar frio, enquanto analisava a casa em que já havia estado algumas vezes. A casa de Diego. Não me pergunte o porquê. Apenas foi o primeiro lugar que me veio à mente naquele momento. Estava completamente escura e combinava totalmente com o horário.
Apertei o interfone e esperei por um longo momento de silêncio.
Eu não estava com relógio nem nada que me dissesse a passagem do tempo, então não sei quantos minutos se passaram até que eu estivesse prestes a ir embora e o portão se abrisse.
— Diego? — A voz de Caleb indagou, arrastada e ainda no escuro. Sonolenta, na verdade. Logo em seguida ele entrou em meu campo de visão. Estava descalço e com uma aparência não muito diferente da última vez em que eu o tinha visto acordar em seu quarto. — O que você está fazendo? São quase quatro da manhã, droga!
Coloquei as mãos no bolço, porque não sabia mais o que fazer com elas.
— Eu sei. Sinto muito. — Me apressei em dizer. — É só que eu não sabia mais para onde ir e não queria ficar em casa...
Caleb pareceu analisar minhas palavras por um tempo. Depois apertou os olhos como se tentasse me enxergar melhor apesar do escuro.
— Erik? — A voz dele mudou de sonolenta para completamente surpresa. — Está tudo bem?
Abri a boca e pensei em dizer que sim, mas... Por que diabos eu bateria na porta dele de madrugada se eu estivesse bem? Era uma resposta sem sentido. Mesmo que qualquer outra coisa que eu dissesse também não fosse a resposta certa.
Dei de ombros e ele suspirou.
— Você quer... Sei lá, entrar? — Caleb me perguntou abrindo o portão para que eu passasse por ele.
Eu o segui pela sala de estar em que tinha estado na última vez. Parecia que tinha sido há tanto tempo, mesmo que só tivesse se passado uma semana. Andávamos praticamente na ponta dos pés quando Caleb se virou para mim com um dedo na boca em sinal de silêncio.
— Não faça nenhum tipo de barulho. — Ele orientou em um sussurro quase mudo. — Meu pai está dormindo á poucas portas de distância. E eu não sei se consigo explicar você para ele.
Assenti.
Na verdade, eu não havia me lembrado desse fato. O que eu teria feito se não tivesse sido Caleb a abrir a porta? Também acho que não teria como explicar aquilo...
Caleb trancou a porta do quarto assim que passamos por ela.
— E então? O que aconteceu? — Ele questionou, sentando-se na cama. — Por que você veio aqui uma hora dessas?
Não sabia o que fazer, então apenas fiquei de pé. A janela estava aberta e o vento que entrava fazia eu me sentir menos nervoso do que eu deveria.
— Não foi um plano consciente. —Confessei. — Pelo menos eu acho que não. Acho que está mais para uma coincidência.
— Não acredito nesse tipo de coincidência. — Ele devolveu. — E você não me parece o tipo de pessoa que sai durante a madrugada só pra dar uma voltinha.
Eu ainda estava olhando para a janela. Honestamente eu não tinha a menor ideia do que dizer ou de qualquer motivo que pudesse soar convincente o suficiente para que Caleb não me colocasse para fora. Ele provavelmente já tinha notado o quanto eu conseguia ser uma pessoa desajeitada e aleatória. A droga do tempo todo, por falar nisso.
A coisa toda não tinha como piorar, não é?
— Talvez eu só... Não quisesse ficar sozinho. — Respondi e me senti ainda mais idiota quando estas palavras saíram da minha boca.
Quer dizer, provavelmente eu deveria ter ido a uma igreja e começado a falar com um padre ou algo assim. Era mais lógico do que aparecer desse jeito na casa de alguém. Embora eu acho que a opinião da igreja sobre o que eu tinha a dizer também não seria a melhor do mundo; e aquilo poderia muito bem acabar comigo sendo expulso de outro lugar em menos de vinte e quatro horas...
Talvez só não houvesse lugar para mim e ponto.
— Entendo. — Foi o que ele respondeu, no entanto.
Nada de “ isso não é motivo” ou talvez “ cai fora da minha casa, pelo amor de Deus”. Apenas “entendo”. Aquilo me pegou realmente de surpresa, de forma que fez com que o meu peito se apertasse um pouquinho.
— Eu devo parecer realmente muito idiota, não é? Quer dizer, por aparecer de madrugada na casa de alguém, que tecnicamente eu não conheço, com esse tipo de motivo.
Caleb suspirou. Ou bocejou. Honestamente não sei dizer, estava escuro demais para isso.
— Eu diria que você parece mais desesperado do que outra coisa. — Então ele fez uma pausa. — Você está?
— Estou o quê?
— Desesperado?
— Talvez. — Respondi, e percebi que era verdade. — Eu não sei. Não sei porque vim aqui. Apenas parecia que... Eu tinha que sair pra fazer alguma coisa que não fizesse eu me sentir um prisioneiro da minha própria vida novamente. E eu sei que não somos amigos nem nada do tipo, mas você é única pessoa que eu conheço que no momento não me acha um lunático ou algo assim.
Diego não estava nessa lista, é claro. Muito pelo contrário. Eu estava realmente grato por tê-lo e tudo mais. Talvez fosse uma atitude mesquinha da minha parte, mas o fato dele interferir em situações onde eu não conseguia lidar diretamente, era um alivio quase extasiante.
Mas naquele momento eu estava falando de pessoas físicas.
— Não somos amigos? — Caleb me perguntou e o tom de bom-humor em sua voz me pegou mais de surpresa do que a pergunta em sí.
— Nós somos? — Perguntei de volta.
— Bem — Ele disse. — Você vomitou em mim, deixei você dormir na minha cama, te dei uma carona para casa e também abri o portão para você entrar, mesmo sendo quatro fodidas horas da manhã. Ah, e também estou batendo um papo muito estranho com você, mesmo que tudo o que eu queira fazer é voltar a dormir. O que mais você quer?
Acabei sorrindo sem querer.
Caleb era gentil. Diego também tinha seus momentos, convenhamos. Eram pessoas realmente incríveis, depois de tudo. E eu cada vez mais não fazia a menor ideia de como eu poderia continuar com eles sem estragar tudo.
Suspirei.
— Você quer conversar sobre alguma coisa específica? — Caleb me perguntou quando eu não o respondi.
Eu queria? Honestamente, acho que não. Eu sabia que, por mais que Caleb estivesse demostrando boa vontade, ele não era nenhum tipo de ser mágico que poderia sumir com meus problemas só porque eu queria isso. Então não valia a pena despejá-los sobre ele.
— Na verdade, não. — Balancei a cabeça. — Acho que não quero falar sobre nada.
— O que você quer fazer, então?
Ele era a segunda pessoa que me fazia essa pergunta e eu ainda não tinha uma boa resposta para ela.
—Eu não sei.
— Você se meteu em alguma encrenca ou algo assim?
— Algo assim.
Caleb se levantou parecendo realmente confuso. Meus olhos haviam se acostumado com a escuridão o suficiente para que eu percebesse isso. A proximidade dele também ajudou.
— Olha, eu realmente preciso que você me dê respostas melhores do que essas para que eu possa te ajudar.
Um nó se formou em minha garganta e meu corpo inteiro parecia dormente. Não queira me ajudar, eu queria dizer a ele. Mas o que eu fiz na verdade foi me virar em direção ao seu rosto.
— Por que quer me ajudar? — Perguntei.
Caleb suspirou impaciente.
— Talvez porque já passou das quatro da manhã e você está no meu quarto parecendo que terá algum tipo de colapso? Pode ao menos me dizer ...
— Você me beijaria? — Eu o interrompi de repente.
Caleb parou de falar no mesmo instante e depois piscou por um tempo.
— O quê?
— Você me beijaria? — Repeti e ele continuou me encarando. Acho que ainda não conseguia acreditar no que os próprios ouvidos escutavam.
— Mas... Que droga de pergunta é essa? — Ele perguntou depois de um tempo.
— É uma pergunta simples. — Eu insisti. — Sim ou não?
Caleb franziu o cenho. Não sei dizer se eu o tinha deixado constrangido ou simplesmente irritado. Seja o que for, Caleb se afastou de mim alguns passos. Agora ele, como todo mundo, também tinha a ideia de que eu era um maluco em potencial.
— Eu não vou te responder isso.
Eu sorri, porque esperava por algo assim.
— É claro que você não vai. — Concordei com ele. — Não porque não exista uma resposta. Mas porque você não sabe como responder. E isso incomoda.
— Como é? — Ele subiu uma sobrancelha.
Suspirei.
— Eu passei o dia escutando coisas que fizeram eu me sentir assim. Perguntas que eu não queria responder. Perguntas que eu ainda não sei responder... — Meus ombros pareciam tão pesados que por um minuto achei que alguém havia se apoiado neles. — Para ser sincero, hoje fizeram algo muito ruim, mas... Depois de tudo, eu sinto como se quem fez o algo ruim, na verdade, fui eu. Então saí de casa para ver se essa sensação passava e vim aqui. E agora acho que isso também foi uma péssima ideia...
Caleb ficou em silencio por um tempo, antes de volta a se aproximar e colocar uma mão no meu ombro. Imaginei que ele começaria a questionar mais alguma coisa, mas tudo o que ele fez foi dizer:
— Acho que já passou da hora de você ir para cama, garoto.
E então, pela segunda vez em uma semana, eu me peguei deitado na cama de Caleb. A ideia foi dele, apesar de eu não ter negado. De repente eu já não estava tão preocupado com os problemas da escola para não poder dormir, e isso meio que foi o lado bom.
O lado ruim, no entanto, é que o fato de eu estar dividindo a cama com outra pessoa era, no mínimo, estranho. Da primeira vez, eu estava chapado demais para saber como era a sensação, mas naquela noite eu estava muito acordado para não sentir cada parte. Caleb não parecia estranhar tanto quanto eu. Não mesmo. Ele pegou no sono cinco minutos depois de deitar; enquanto eu permaneci estacado olhando para o teto.
O problema é que quarto todo cheirava como ele. O travesseiro, o lençol, o maldito ar.... E cada vez que eu inspirava mais fundo que o normal, fazia eu me sentir um pevertido.
— Você realmente não consegue dormir, não é? — Caleb me perguntou vinte minutos depois. O que me fez pensar que minha respiração estava alta o suficiente para chamar atenção.
— Desculpe. — Respondi. — Estou incomodando? Quer que eu vá embora?
Caleb se mexeu ao meu lado erguendo o corpo e se apoiando no cotovelo.
— Não é isso, Erik. — Ele suspirou. Agora ele parecia incomodado. — Olha, vou ser sincero com você: Desde que essa coisa toda começou com você, Diego e tudo mais, eu realmente comecei a ver você como um irmão também. E sério, eu até entendo o porquê de ele ter esse extinto de proteção tão forte. Você meio que faz as pessoas se sentirem assim. Como algum tipo de bichinho atropelado e abandonado no meio da estrada. Você quer que alguém te ajude, mas ao mesmo tempo não deixa ninguém chegar perto.
Continuei imóvel. Eu sabia o que Caleb queria dizer, ao mesmo tempo em que algo me dizia que aquilo não era realmente verdade.
Quando voltei a olhar para o rosto dele, os olhos de Caleb pareciam túrbidos.
— Não é que eu não deixe ninguém se aproximar — Falei a ele de forma um tanto quanto amarga. — O problema é que todos parecem querer me consertar. Uma coisa quebrada onde todos querem a responsabilidade para arrumar. E eu odeio isso! Eu não sou um maldito móvel!
Caleb ainda estava me encarando. Eu não queria transferir nenhuma das minhas chateações para ele, mas aquilo simplesmente saiu.
— Eu não quero consertar você. — Ele disse depois de um tempo. —Eu só estou tentando entender.
— E eu acredito em você. — Respondi. Porque realmente acreditava. De todas as pessoas com todos os motivos do mundo, ele era a pessoa que mais poderia me dizer isso com sinceridade.
Esse foi um desses momentos estranhos da vida onde você não sabe ser quer rir ou chorar.
— Posso responder à pergunta por você? — Perguntei por fim.
Caleb apertou os olhos.
— Que pergunta?
E então eu o beijei.
Foi premeditado, eu confesso. Meu ato repentino fez com que Caleb perdesse o equilíbrio, e que meu corpo caísse em cima dele. Embora em minha mente eu estivesse esperando uma reação realmente ruim por causa daquilo. Caleb poderia muito bem terminar aquela noite me odiando, mas aquela não seria, nem de longe, a pior coisa que eu já tinha feito na vida.
Mas ele não fez nada do que eu pensava. Na verdade, ele correspondeu. Rápido e talvez por reflexo, mas o suficiente para que a parte errada e confusa da minha cabeça desaparecesse como se não existisse. A outra parte, no entanto, se sentia culpada por fazer aquilo. Eu tinha acabado de adicionar outra pessoa a minha longa lista de pessoas que decepcionei.
Foi quando eu tive certeza absoluta que eu era uma pessoa terrível por não me arrepender realmente de ter feito aquilo.
— Eu não sou seu irmão, então não precisa pensar em mim como um. — Respondi a ele quando me afastei. A respiração ofegante dele serpenteava em meu rosto e a temperatura parecia ter subido muito mais do que deveria.
— Por que fez isso? — Ele quis saber, colocando as costas da mão sobre a boca.
Meu coração batia tão alto contra meu peito que acho que Caleb meio que podia senti-lo.
— Porque... Acho que eu não terei outra chance de fazer algo assim novamente. — Dei a ele um sorriso conformado. — Pretendo “devolver” seu irmão em breve. Mas, antes disso, preciso que você me ajude com uma coisa...
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