Mais cinco minutos, talvez?
12 capítulo 12- Diego.
Notas iniciais
Sim, eu sei que tecnicamente ele beijou o Erik. E não a mim. Mas isso não tornava a experiência menos traumática, certo?
Afinal, querendo ou não, quem estava no meio do fogo cruzado era eu. E vou te falar: Eu não estava preparado para aquilo. Aliás, a última coisa que eu estava esperando de Isaac naquele momento, e em qualquer momento, era que ele fosse me tacar um beijo. Sério!
Tudo bem que também não foi, necessariamente, a pior coisa do mundo. Quer dizer, ele não beijava mal nem nada assim. Muito pelo contrário. Digo, eu nunca tinha beijado outro cara antes pra poder comparar, mas achei que seria mais... Você sabe, grosseiro. E não foi. Fiquei chocado por isso. De modo que por um segundo ou dois até me esqueci de que estava beijando outro cara...
Embora isso não signifique, em nenhuma hipótese, que eu correspondi. Porque não correspondi, pra que fique claro. Até porque demorou mais de um minuto para que eu conseguisse finalmente fazer aquele corpo esbabacado do Erik ter alguma reação que não fosse beijar Isaac de volta. O que é um tempo consideravelmente ruim para a minha reputação quando nos referimos ao fato de... Bem, de eu estar sendo beijado por Isaac, é claro.
Mas se serve de algum consolo, eu o empurrei com força o suficiente pra ele esbarrar em uma das mesas do refeitório e então tentei dizer:
— Seu babaca filho da mãe! Por que diabos você fez isso?
O problema é que eu quase não podia ouvir minha voz, então não me surpreenderia se de todas essas palavras eu só tivesse balbuciado algumas silabas. Me dê um desconto, ok? Eu tinha acabado de ter um beijo roubado por outro cara. Isso é coisa pra terapia, sabia?
De qualquer forma, seja lá o que eu falei, Isaac pareceu entender. Já que quando ele recuperou o equilíbrio estava dizendo:
— O que foi? Você disse que pra eu chegar perto de você eu teria que ter dar uma chance. Então é o que eu estou fazendo. Jogando o seu jogo.
O cérebro paralisado do Erik começava a voltar à ativa e eu já conseguia compreender melhor o que havia se passado ali: Eu e a minha maldita boca havíamos causado confusão de novo. Como sempre. Nenhuma novidade por aqui.
— Mas não foi nada disso que eu quis dizer, Caramba! Não era pra você beijar o Erik. Quero dizer, apesar de tudo, esse corpo...
— Ah, não me entenda mal. — Ele me interrompeu se aproximando. — Não é que eu goste de você ou algo assim. Muito menos estou preocupado com a relação entre seja-la-o-que-for-você e o verdadeiro Erik. Não é isso. Como eu disse, eu estou apenas jogando o seu jogo. — Isaac segurou meu queixo e o levantou em direção a ele. — Apesar de não saber exatamente o que está havendo, eu quero participar. É mais divertido do que me tornar apenas mais um espectador, não é?
Sabe, é por causa de pessoas como Isaac que eu nunca serei capaz de ganhar o prêmio Nobel da paz. Porque pessoas como ele me irritam. E me fazem, muito, querer bater nelas até que não estejam muito melhores do que eu depois do acidente. Sabe? Com aquele ar de quem foi cuspido por um animal ou algo assim? Pois é.
Embora eu não tenha feito isso. Batido nele, quero dizer.
Eu queria, mas não fiz. Porque até eu conheço a palavra limite. E naquele momento, se eu me engalfinhasse com Isaac, um de nós realmente acabaria indo parar no hospital. Se dependesse apenas de mim, tudo certo em socar a cara daquele cretino até ele vomitar todos os dentes.... Mas eu não pretendia correr o risco de que alguma coisa acontecesse também ao Erik. O que me pareceu bem irônico na hora, porque até uns dias atrás eu estaria pouco me lixando pra este fato.
E de qualquer forma, não é porque eu estava evitando conflitos naquele dia que eu os evitaria pra sempre. Por isso, antes mesmo de Isaac terminar de dizer seja lá o que ele estivesse falando, eu estava com as minhas mãos no colarinho da camisa dele, puxando seu corpo para baixo, e fazendo o rosto dele quase colar ao meu:
— Escuta, Isaac...— Murmurei entredentes. — Eu vou repetir bem lentamente, para o caso de você ainda não ter entendido: Eu. Não. Sou. O. Erik! Então não tente se divertir as minhas custas, e não encoste as mãos nesse corpo de novo sem a minha autorização. Porque senão, preste bem atenção. Eu vou chutar as suas bolas até que elas saiam pela sua boca. — Soltei o colarinho. — Isso não é uma ameaça. É um aviso. E eu só aviso uma vez, ok? Na próxima pode apostar que eu te castro.
Dei as costas para ele depois disso. Torci de verdade para que Isaac não resolvesse me seguir, o que graças aos céus, ele não fez. Porque não seria uma boa ideia. Quer dizer, ele havia, de uma maneira colossal, conseguido piorar todo o meu simples mau humor. E vou te falar, eu queria realmente poder tirar aquilo a limpo. Mas não tenho o dom da oratória e também não podia voltar lá e simplesmente chutar a cara dele, como eu queria. Então eu precisava primeiro me acalmar.
Por sorte, ou não, a escola do Erik tem uma fileira longa de armários. E sim, eu sei que eu não podia descontar minha raiva naqueles pobres armários... Mas, antes eles do que Isaac. Afinal, armários não precisam de dentistas nem te denunciam pra polícia caso você arrebente eles.
— Merda! — Foi minha sentença de desabafo, seguido de um chute na porta de metal. E depois outro, e outro, e outro...
Até por fim Erik dizer:
— Pare com isso! — E eu parei. E esperei. Quero dizer, esperei ele explicar, já que na minha mente, ele tinha que, no mínimo, ter desmaiado depois da cena maldita que tinha acontecido. Mas, em vez disso, o que ele me disse foi: — Para de chutar os armários. Ou eu vou ter quer pagar por eles.
Bem, isso fez com que eu chutasse a droga da porta de novo ainda mais forte.
— Isso é tudo que você tem a me dizer? — Falei mais alto do que deveria. — Depois de tudo isso... Você apenas está preocupado em pagar pelos malditos armários? Bem, Erik... Dane-se! Você, os armários, Isaac e a porra toda!
— A culpa foi todo sua! Eu disse para não o provocar. — Ele tentou me censurar.
— Olha, meu querido, eu vou te contar um pequeno segredo: Eu já “provoquei” muita gente nesta minha curta vida. E quer saber o que é mais incrível? Nenhum deles tentou me beijar depois disso. Nenhum.
— Eu não sabia que ele ia te beijar! Não posso ver o futuro.
Soltei um chiado muito indignado. Que, para meu completo desagrado, saiu muito parecido com o de um rato anêmico.
— Erik, o cara beijou você! Não era os meus lábios ali, eram os seus. — Fiz questão de lembrar. — Mostre um pouco de comoção, por favor! Ou ao menos disfarce o fato de que você gostou de beijá-lo.
Isso fez ele calar a boca de novo. Sabe, uma coisa bem interessante que eu vinha percebendo é que sempre que eu jogava na cara do Erik alguma verdade sobre os sentimentos dele, ele parava de falar.
— É claro que...
— Ah, não precisa se incomodar em negar. — Eu intervi. — Seu corpo já fala por você.
— É claro que não! — Ele tentou de novo e parecia irritado. — Meu Deus! É de Isaac que estamos falando, sabia?
— Sabia. — Respondi a ele. —E você? Sabia que, há cinco minutos, quando Isaac estava com a língua nessa sua linda boquinha era o seu coraçãozinho que batia mais rápido? E sabe o que acontece quando seu coração bate rápido? Seu sangue bombeia mais rápido. E você sabe o que mais? Você fica excitado!
Senti o sangue subir para as bochechas e tive a confirmação do que eu dizia.
Não estou dizendo que eu não sentia coisas. Eu sentia. Mas não do mesmo jeito que o corpo do Erik. Havia um grande abismo entre os meus sentimentos e os sentimentos dele. De forma que, em situações extremas, o corpo dele reagia sozinho. E sabe? Tudo bem! Eu não vou culpar o garoto. Eu entendo de biologia o suficiente para saber que há certas coisas que a gente não controla. Mas ... Puta merda! Havia algo muito além do que ódio entre Erik e Isaac.
E não vou mentir: Isso estava me irritando pra caralho.
— Eu não tenho atração alguma por Isaac. — Erik insistiu. — Pare de ficar dizendo isso quando você nem mesmo sabe do que fala. E... Quanto as minhas reações, vale lembrar que eu não estou mais sozinho nessa. Você tem tanta culpa, ou mais, que eu. Então, pra que isso não seja pior pra nós dois, será que podemos simplesmente cada um cuidar dos próprios problemas? Me deixa com os meus e você fica com os seus, e não me crie mais um.
— Que ideia fantástica! —Ignorei o fato de estar, tecnicamente, berrando para o vento. — Problemas é o que não está faltando. Afinal, eu estou em coma, possivelmente morrendo, meu irmão está com raiva de mim e, graças a um maldito motivo, eu tive que ser beijado por um cara. E quer saber o que é o melhor de tudo isso, Erik? Todo esse caos que está ocorrendo, não só na minha vida como na sua também, é unicamente por causa da sua existência inútil! Quem você acha que está causando problemas na vida de quem aqui? Então pare de agir como se você fosse o centro do universo e que tudo de ruim só acontece com você, porque só está provando o quanto você é um garotinho mimado e egoísta.
Me amaldiçoei assim que terminei de falar.
Eu já disse, mil vezes, que eu não tenho dom das palavras. Porque eu falo merda. Muita merda. E quando estou furioso, como por de fato eu estava, a coisa fica pior ainda. Mas eu não queria descontar no Erik, ok? Apenas aconteceu!
Senti uma pontada aguda no peito logo em seguida e esperei sinceramente que não fosse um infarto. Quer dizer, já que eu havia me recusado a matar o Erik e tudo mais, talvez tivessem me mandando um infarto de presente. Eu não ia estranhar.
Mas não. Era só magoa mesmo. Do Erik para mim, aliás. Descobri isso no momento em que ele disse com uma voz estrangulada:
— Às vezes eu acho que odeio você. E, outras vezes... Eu tenho certeza de que sim.
É. Pois é. Ele disse isso. E eu nem tive o que responder de volta.
Então, como eu já havia mencionado uma vez: Erik Bryan me odeia. E até aí, nenhum segredo.
O problema era que eu não o odiava de volta.
Ah, não. Eu não conseguia ser filho da puta o suficiente para odiar um garoto claramente perturbado. Eu podia? É claro que podia. Mas eu fazia? Claro que não! Tá, eu não sou a melhor pessoa do mundo. Mas e daí? Eu ao menos estava mantendo aquele idiota vivo!
E eu realmente não tenho nem ideia do porquê.
Mas era basicamente isso: Erik estava com raiva de mim, Caleb estava com raiva de mim e eu fui assediado por Isaac. Também levei uma suspenção por estragar os armários da escola e por cabular aula, o que me dava uma semana de descanso daquele mini inferno. Até que essa parte era boa, mas quando eu pensava em ficar uma semana na casa do Erik, com o Erik, a baranga da mãe dele e o maluco do pai dele eu tinha vontade de chorar.
Pensei em perguntar se podia ficar pior, mas se tem uma coisa que eu aprendi é que nunca se deve subestimar a criatividade do destino. Então fiquei quieto e simplesmente não fui pra casa aquele dia. E por mais zangado que Erik estivesse comigo, ele não criou objeções.
E, de qualquer forma, eu tinha que resolver a minha vida. Ou o que me restou dela. Quer dizer, eu não podia deixar Caleb puto comigo pro resto da vida. Porque eu nem sabia quanto tempo exatamente era “resto da vida”. E, como eu meio que estava chateado com tudo que vinha acontecendo, eu queria mesmo ir pra casa.
Então juntei o útil ao agradável .
E não, Caleb não ficou feliz em me ver. Ninguém ultimamente ficava.
Ele estava molhando o jardim quando eu o vi. Bem, foi engraçado da minha perspectiva vê-lo com aquela cara de tédio molhando aquelas plantas. Porque em outra época, era eu quem deveria está fazendo aquilo. Mas, como a situação não permitia, era ele mesmo. E talvez, isso tenha influenciado na cara feia quando me viu.
Não que eu tenha ficado surpreso. Até já sabia e esperava por isso. Quer dizer, ele é meu irmão. Brigar com ele é tipo tomar banho.
— Olá. — Ele ao menos disse, mesmo que não tenha demonstrado nenhuma emoção.
— Olá. — Eu respondi de forma menos tensa. — Você ainda está muito puto ou a gente pode conversar?
Caleb cruzou os braços sobre o peito e suspirou.
— E com quem eu deveria falar? Porque todas as vezes que te encontro parece que estou falando com uma pessoa diferente e, para ser bem honesto, isso é um saco.
Eu cheguei a mencionar que eu estava do lado de fora do portão? É, eu estava. De novo.
— Caleb, eu posso ser até a Beyoncé se você quiser. Desde que pare de escrotisse e fale comigo como um homem. — Suspirei. — Eu não estou tirando férias no Caribe, irmão. Eu estou, literalmente, entre a vida e a morte.
— Eu sei! — Caleb vozeou. — Eu já me dei conta disso. Me pergunto se você também se deu. Porque, pra mim, você está apenas brincando com um corpo que sequer é seu...
— Ah, me poupe dos sermões por hoje, ok? — Me apressei em dizer. — Eu tive um dia bem ruim, fui suspenso da escola, um cara me beijou e ainda teve toda essa história de você está com raiva de mim. Então, se você realmente não pretende me ouvir, avisa logo que eu nem me dou ao trabalho de insistir.
Tá, eu sei que aquela não era a melhor forma de “ fazer as pazes” com ele. Mas você realmente acha que eu estava com paciência o suficiente pra ouvir as lamuria de Caleb pra cima de mim? Eu não estava com saco pra aturar nem a mim mesmo, quem dirá os outros.
E de qualquer forma, algo no meu apelo fez com a postura de Caleb mudasse totalmente. Quer dizer, ele até tirou a carranca da cara e apenas me olhou com os olhos arregalados.
— O que você disse?
— Disse que eu tive um dia bem ruim. E que se você não quer me ouvir eu vou embora, porque to meio sem saco pra discutir hoje.
Mas a minha resposta não pareceu responder a pergunta de Caleb, já que ele ainda estava me olhando.
— Quem te beijou? — Ele perguntou.
Revirei os olhos. Caleb mais uma vez só estava ouvindo o que lhe era conveniente. A parte que eu fui suspenso, por exemplo, ele nem questionou. E, tá, tudo bem que isso não era exatamente novidade pra ele, mas podia ao menos ter fingido que sim.
— É uma longa história. Que está inclusa no meu dia ruim. — Abri um sorriso cínico pra ele. — Se você está tão interessado, vamos conversar. Te conto exatamente o que você quer tanto saber e você me dá alguma coisa pra beber pra que eu me sinta um pouquinho melhor. Ok?
Caleb não pareceu muito conformado. Mas a minha proposta não era de se jogar fora. Então ele aceitou. Ou apenas deduziu que me estrangular no meio da rua não favorecia muito a reputação dele.
E a primeira coisa que fiz assim que entrei em casa foi me jogar no sofá e aspirar fundo o cheiro de casa. Aquilo me acalmava mais que bater em armários. Mas não o suficiente pra me fazer desistir da ideia de lavar um banheiro usado o corpo de Isaac como esfregão.
— Então... — Caleb me arrancou dos meus devaneios sentando ao meu lado. — Comece a falar.
— Primeiro me dê algo pra beber.
— Diga quem beijou você. — Ele mandou.
— Isaac me beijou. — Respondi simplesmente.
Ele franziu as sobrancelhas.
— Quem é Isaac?
— Você realmente não vai me dar nada pra beber? — Bem, eu estava com sede, ok? Eu havia ido da escola do Erik até ali andando. Estava fazendo uns trinta graus aquele dia e todo dinheiro que eu tinha gastei em comida. Quem pode me culpar?
— Levanta e pega, droga. — Caleb espinafrou. — Você sabe onde fica tudo aqui.
— Sim. — Eu disse, me acomodando ainda mais no sofá. — Mas tecnicamente eu sou uma visita. E você não vai deixar que a visita se sirva sozinha, certo?
Errado.
Porque Caleb é um péssimo anfitrião e disse que se dependesse dele eu ia morrer de sede. Então eu tive que me virar. E foi exatamente isso que eu fiz. Só que assim que me sentei, bem mais feliz, de novo no sofá, ele apertou os olhos pra mim e apontou pro copo em minha mão:
— O que é isso? — Ele falou pausadamente.
— Gim! — Sorri.
Caleb não riu de volta. Na verdade eu pensei que ele ia me matar, já que ele pulou, literalmente, em cima de mim e tudo mais. Tente imaginar o trabalho que deu segurar aquele copo, sem derramar, com Caleb me atacando igual a um mamute? É, não foi fácil.
— Você não pode beber no corpo desse garoto! — Era o que ele estava resmungando.
— Posso sim. — Garanti a ele. — Apesar da cara de quem nem passou pela puberdade, Erik tem dezoito. Ele é mais velho que eu. Agora sai de cima.
— Eu não bebo... — Ouvi Erik resmungando pra ninguém em particular (Porque ele meio que ainda estava sem falar comigo). E aquilo queria dizer que eu ia precisar tomar muito cuidado com o que eu ia falar.
— Erik, depois de hoje, o mínimo que eu preciso é do seu fígado, ok? — Sussurrei pra ele, e a Caleb falei: — Me poupe ao menos de reviver o dia de hoje sóbrio, tá bom?
— Isso é forte demais e esse não é o seu corpo, e não me parece que o garoto tem muita resistência. Vocês vão apagar. — Caleb ainda reclamou.
— Eu não curto vodca. E se encostarmos no whisky do papai seremos nós dois mortos. Três, com o Erik. Então, sim. Eu fico com gim.
Certo. Vou falar a verdade: Não era só isso. Eu realmente queria beber aquele dia. Porque, como eu disse, eu meio que estava um bocado chateado desde a visita ao hospital. E não era exclusivamente por causa da briga com Caleb. E como não me pareceu uma boa ideia ir a um bar com aquela aparência delicada em que eu estava, o melhor era ir mesmo para casa. Era de graça e ainda teria Caleb pra ouvir minha lamurias.
Virei a dose toda de uma vez. E talvez fosse a falta de costume do corpo ou sei lá, mas queimou igual fogo quando desceu garganta abaixo.
— É verdade mesmo essa história do beijo? — Caleb insistiu.
— É verdade — Respondi com o máximo de dignidade que eu consegui. — Fiz o que não devia e acabei com um macaco aranha perdurado na minha boca. E como não podia bater diretamente nele, espanquei alguns armários e por isso fui suspenso. A mãe dele quando souber disso vai arrancar meu couro com uma faquinha de serra. Ah, e o Erik me odeia.
Suspirei assim que terminei de falar e olhei pra Caleb, que me olhava de volta com o cenho franzido e um toque de piedade.
— Eu acho... — Ele disse depois de um tempo. — Que eu também vou beber com você...
E foi o que ele fez.
Até que por fim nós acabamos com toda a garrafa de gim do papai. Eu esperava que Caleb fosse esperto e substituísse aquilo antes que dessem falta dela, mas eu não conseguia dizer a ele.
Bem, isso porque eu estava bêbado.
Caleb não estava. Ele estava ótimo. Parecia que tinha tomado guaraná ao invés do gim. Irritante, se quer saber. Mas eu? Bem, eu estava mais pra lá do que pra cá.
Caleb também estava falando alguma coisa pra mim. Olhei para ele, tentando ver se eu entendia alguma coisa do que ele dizia, mas tudo que eu enxergava eram três Caleb’s. E aquilo fez com que eu risse ainda mais, porque se um já era chato imagine três dele!
— Ah, eu sabia que você não deveria ter bebido desse jeito...— Era parte do que ele estava falando. E eu até queria prestar atenção, mas estava ficando com muito sono pra isso.
Acabei deitando no colo de Caleb, que por algum motivo pareceu extremamente confortável naquele momento. E como eu estava com muita preguiça pra me arrastar pro meu quarto, simplesmente me joguei sobre ele e fechei os olhos. Fiquei esperando ele me empurrar ou algo assim, mas ele não fez.
— Acho que eu vou morrer...— Balbuciei baixinho.
Caleb apenas bufou.
— Eu imagino que sim. Despois de beber desse jeito é um milagre que você ainda não tenha entrado em coma alcoólico.
— Não, não é disso que eu estou falando. — Resmunguei.
— E está falando do que? — A voz dele pareceu distante na minha cabeça.
Abri meus olhos por um estante e o encarei. Eu ainda não tinha falando a verdade pra Caleb. Falei muitas coisas pra ele, mas não a verdade.
E eu deveria, não é?
— Estou dizendo que não posso trocar minha vida pela do Erik. — Contei finalmente. — Recebi uma proposta indecorosa que me dizia que se eu quisesse voltar, o Erik tinha que ir. E quer saber? Eles que vão pro inferno! A minha vida não vale mais que a desse garoto. — Acabei rindo. — Você entende o que eu digo?
Ele continuou sem dizer nada e eu precisei esticar o pescoço pra ver se Caleb não tinha dormido ou algo assim. E não tinha.
— Você está inventando isso? — Perguntou depois de um tempo.
Balancei a cabeça negativamente.
— É a mais pura, e cruel, verdade. Eu só não queria contar— Confessei. — Porque não sei como o Erik agiria se soubesse disso. Talvez ele nem faça nada, mas talvez ele tente morrer de novo. E seja o que for, por algum maldito motivo, eu me importo. Porque eu não quero que ele morra...
Caleb estava analisando alguma coisa na minha cara. Eu só torcia pra que eu não estivesse babando ou algo assim.
— Hã, Diego... — Ele disse em um tom muito sério. —Quando você disse que estava gostando de um garoto, você não estava, na verdade, se referindo ao Erik. Não é?
O “ Não é” dele era meio que uma sentença pra que eu concordasse. Mas de qualquer forma, aquilo soou tão idiota aos meus ouvidos que eu acabei rindo alto.
— Meu Deus, não! Eu só disse isso pra que ele calasse a boca. Eu não gosto de ninguém. — Então parei de rir. — Mas de qualquer forma, não tenho ideia do acontece de agora pra frente. Quer dizer, é provável que eu...
— Você não vai morrer. — Caleb me interrompeu. — Eu nem sei se o que você está falando é papo de bebado ou...
— Não é que eu queira morrer, ok? — Eu também interrompi. — Eu apenas estou dizendo que talvez não haja nada a ser feito. E se realmente for isso, apenas quero que deixe aquele corpo do hospital ir embora. E depois esqueça toda essa bagunça de possessão.
Observei o pomo de adão de Caleb subir e descer quando ele engoliu.
— Está... Basicamente, me dizendo que entre você e o Erik, eu escolha o Erik?— Caleb chiou.
— É. Exatamente isso que estou dizendo. — Mostrei o polegar em satisfação pela resposta.
O ar saiu pesado quando Caleb suspirou sobre mim.
— Você ao menos está se ouvindo?
— Eu estou me ouvindo. — Garanti a ele. — Mas e você? Está me ouvindo também? Você pode me prometer que, se as coisas realmente não derem tão certo assim, você vai esquecer tudo sobre essa loucura e vai simplesmente me deixar morrer como uma pessoa normal?
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