Mais cinco minutos, talvez?
22 capítulo 22- Erik
Notas iniciais
A verdade é que a vida é uma vadia oportunista.
Às vezes, tudo o que ela precisa é de uma decisão precipitada e uma fração de segundos para começar uma inevitável reação em cadeia, fazendo mudanças terem começos, mas nunca um fim. Nos prendendo em um eterno e famigerado efeito dominó de peças aleatórias, onde uma vez que a primeira peça é derrubada, as outras não podem fazer mais nada além de caírem silenciosamente uma após a outra.
Certamente as peças já estavam em movimento quando abri meus olhos naquela manhã.
Eu sabia disso antes de me sentar na minha cama e ver o bilhete sobre o criado-mudo ao lado de uma caixa de presente; antes de Diego me acordar e dizer que “precisávamos conversar”; e também antes de eu perceber que meu corpo inteiro estava molhado de suor e que eu queria tomar banho mais do que queria me enfiar novamente nos problemas da minha vida.
Mas de todas essas coisas, dei prioridade ao bilhete.
Reconheci a caligrafia assim que coloquei meus olhos sobre o papel, da mesma forma que sabia qual era o conteúdo antes mesmo de ler: Meu pai estava indo embora novamente.
Eu já tinha visto aquela cena na minha vida mais vezes do que podia contar. Um bilhete, um presente como “compensação e desculpas”, um adeus com prazo de validade indeterminado... Eu simplesmente não estava surpreso. E como poderia? Ele estaria bem, desde que estivesse longe de mim e dos problemas. Papai já havia gastado muito tempo “se dedicando a família”, e agora ele precisaria de um bom tempo para “fazer algum dinheiro” novamente. Era isso que ele me dizia desde quando eu era pequeno. E isso também queria dizer que demoraria muito tempo até nos vermos novamente.
Embora “tempo” fosse algo que eu não estava podendo me dar ao luxo de ter...
— Ele colocou isso aqui hoje de manhã. Disse que vai para a Austrália ou algo do tipo. — Diego explicou em uma voz contida, provavelmente entendendo errado minha reação apática.
— Tudo bem. — Eu respondi a ele, enquanto dobrava o máximo possível da carta e a jogava na gaveta, junto com várias outras do mesmo estilo. — Demorou até demais dessa vez. Quer dizer, ele passou semanas aqui, sendo que geralmente são apenas alguns dias. Não acho que eu possa dizer algo.
— Você tem certeza? — Ele insistiu. — Se fosse eu no seu lugar, e o meu pai estivesse indo embora quando a minha vida tá uma merda mal resolvida, eu provavelmente tacaria fogo nessa casa.
Quando tentei me levantar, primeiramente minhas pernas falharam e o ar entrou de maneira errada nos meus pulmões, me fazendo tossir. Eu tinha me esquecido que eu tinha estado doente. Eu não me sentia doente há tanto tempo que achei engraçado me esquecer da sensação. Chegava a ser cômico como nos acostumamos às coisas boas rapidamente e demoramos tanto a responder a situações ruins.
— Algo me diz — Falei a Diego. — Que você sabe que não é bem assim que as coisas funcionam.
Ele não rebateu e eu calcei meus chinelos para me arrastar pesadamente até o banheiro.
— Nós realmente precisamos conversar. — Diego disse pela segunda vez naquela manhã.
Ele tinha, literalmente, me acordado com aquela frase. Achei que poderia ter a ver com a repentina partida de papai, mas cada vez que eu notava a entonação grave em sua voz, eu percebia que tinha mais coisas do que aparentava.
O meu banho precisou ser adiado mais um pouco.
— Certo. — Suspirei. — O que você fez dessa vez?
Eu não estava realmente o acusando, que fique claro. Porém, depois de todo aquele tempo, Diego já não era a pessoa mais incrivelmente surpreendente do mundo e eu já estava acostumado com aquele tom de voz. Ele sempre o usava quando precisava dizer alguma coisa que ele supostamente achava que eu não iria gostar. Eu meio que concordava com a última parte. Geralmente eu não gostava mesmo.
— Fiz merda. — Ele contou.
— Isso eu já deduzi. Pare de enrolar.
— Pedi a Isaac que ajudasse a descobrir sobre aquela confusão infernal da sua escola— Esclareceu. — E ele descobriu.
— Pediu a Isaac? — Minha voz saiu alguns tons mais agudos. — Você não tinha me contado essa parte.
Quer dizer, eu sabia que Diego estava mais furioso com a situação do que eu e que tinha passado os últimos dias obcecado atrás disso a ponto de ficarmos doente; sendo que eu mesmo já havia lavado as minhas mãos e desistido há muito tempo. Entretanto o mais surpreendente de toda essa situação não era o fato de Diego ter ido pedir algo justamente a Isaac, e sim o fato do outro ter aceitado.
—Eu estou contando agora. — Ele respondeu em uma voz áspera. — E acontece que um tal de Charlie Blake fez aquele cartaz sobre você porque eu quebrei o maldito do dedo dele. Isaac disse que ele descobriu no hospital ou alguma merda do tipo. Ou seja... Foi culpa minha isso ter acontecido e eu sinto muito.
Eu pisquei por alguns segundos tentando entender a enxurrada de informações.
Charlie Blake? Charlie Blake fez aquilo? Eu nem sabia que ele tinha capacidade para isso. Eu provavelmente tinha falando uma ou duas palavras com aquele garoto. Eu também não sabia realmente que tinha sido o dedo dele que Diego quebrou.
Ainda assim, continuei parado perto da porta do meu quarto, esperando que Diego continuasse e me dissesse o que exatamente eu deveria fazer com aquela informação. Quer dizer, eu sei o que ele esperava que eu dissesse. Provavelmente algo relacionado a ir até a casa de Charlie e quebrar a cara dele. Mas nós dois sabíamos que isso não iria acontecer.
Por isso minha resposta foi apenas:
— Ah, bem. Eu entendo.
Ao mesmo tempo que Diego soltou um suspiro irritadiço que combinou muito com o tom de voz que ele usou:
— Você... Entende? Que porra, Erik! O que exatamente você entende? Que Charlie Blake é um filho da puta ou que foi por minha causa que isso aconteceu? Ao menos demonstre alguma reação, nem que seja para me xingar!
Deus, eu só queria ir tomar banho, voltar para minha cama e me fingir de morto por mais alguns dias. Era pedir muito?
Provavelmente sim...
— Olha, Diego, deixe eu te falar uma coisa: Charlie Blake não fez aquilo só porque você quebrou o dedo dele ou sei lá. — Eu disse de maneira contida. — Mesmo se você não tivesse feito nada, nem mesmo aparecido na minha vida, um dia essa bomba ia explodir. Talvez por outra pessoa, talvez até por eu mesmo. Mas essa é a questão e eu disse a você; as pessoas daquela escola não gostam de mim, então não faria diferença descobrir sobre isso porque o resultado sempre seria o mesmo. Por exemplo, valeria muito mais apena se você apenas dissesse que nada disso teria acontecido se eu não tivesse falhado em tentar me matar. Entendeu? É a mesma lógica.
Eu havia passado todo aquele tempo pensando sobre tudo o que tinha acontecido até as coisas acabarem do jeito que estavam. Eu sempre fazia isso quando me sentia deplorável o suficiente para questionar os meus dias de existência. E, mesmo que Diego se sentisse culpado pelo dedo do garoto, eu sabia que não tinha sido ele a derrubar a primeira peça. Eu é que tinha.
— Eu não preciso ser consolado quando quem saiu prejudicado da situação foi você, Erik. — Ele disse, nada conformado. — E, ao contrário de você, eu não entendo e fico bem puto quando me lembro de tudo isso.
— Por que? — Eu dei de ombros. — Se como você mesmo disse, quem saiu prejudicado fui eu.
— Porque você tem estado esquisito desde aquele dia! — Ele rebateu como se fosse óbvio. — Digo, você é sempre esquisito, mas tem estado ainda mais.
Eu tinha? Honestamente, eu já havia desistido de tentar perceber. Na realidade, eu apenas diria que há um certo nível de o quanto seus nervos aguentam serem estimulados até por fim parar de responder. Os meus provavelmente estavam de greve e por isso eu não conseguia mais reagir a nada.
— Bem, — Eu disse a Diego. — Se agora vamos falar sobre meu nível de esquisitice, tenho certeza que podemos fazer isso mais tarde. Então, se não tem mais nada a dizer, eu vou tomar banho...
— Tem mais uma... Coisa. — Ele emendou, apesar de hesitar.
— Ainda tem mais coisa? — Eu suspirei.
E, aparentemente, tinha. Diego me contou que Isaac tinha ido até lá na noite anterior e ele contou sobre fazerem algum acordo estupido. Não me impressionava Diego participar desse tipo de coisa sem noção, mas jamais pensei que Isaac se envolveria com algo desse tipo. Para ser mais exato, nunca imaginei que Isaac conseguiria se interessar por alguma outra coisa além de me ajudar com a minha autodestruição.
Embora todos esses pensamentos tenham morrido quando Diego terminou de contar a história.
— Então ele... Disse que gosta de você? — Por algum motivo, algo me dizia que nada do que Isaac fazia deveria ser capaz de me surpreender àquela altura, mas isso conseguiu arrancar uma reação de mim.
— Ele não disse isso. — Ele usou em defesa. — Na verdade, eu o expulsei daqui antes que ele dissesse alguma outra coisa. Ou aquilo poderia ter acabado com outro nariz quebrado.
— Ou com vocês dois agarrados em algum outro cômodo da minha casa. — Soltei. E me arrependi segundos depois.
— Ah, puta merda! Não jogue veneno em cima de mim só porque está com ciúmes! — Ele reclamou. — Eu fiquei tão chocado quanto você, ok? E eu nem sei se ele estava falando sério. Não consigo creditar em nada que aquele cara faz ou fala.
Mas essa era a questão. Isaac não brincaria com isso. Assim como ele não teria aceitado se eu tivesse pedido a ele para me ajudar com a situação do cartaz. Ele não viria na minha casa para fazer um acordo estupido de perguntas comigo. Ele nem mesmo era capaz de me dar a droga de um telefonema e perguntar sobre a história do suicídio. Era como se tudo isso estivesse exposto o tempo todo. Talvez eu apenas não quisesse saber o que eu já sabia.
— Isaac não brinca com esse tipo de coisa.
— Bom, e eu não ligo para o que Isaac faz. — Diego rebateu. — Puxa, Erik, eu quebrei o nariz dele! Isso com certeza já deveria dizer muita coisa.
— Você o atacou no banheiro!
— Sim, mas e aí? Agora eu estou devendo um pedido de casamento a ele ou algo do tipo? Isso não faz sentido. É o seu corpo, não o meu. É você que ele vê, não eu!
Suspirei tentando voltar o foco.
— Por que mesmo estamos falando sobre isso? — Questionei. Quer dizer, se Diego nunca falasse, eu não saberia. E, pela primeira vez, queria que ele tivesse feito isso.
— Porque — Diego pareceu irritado. — Eu não quero que você saia ainda mais magoado de tudo isso. Eu não acho essa merda justa. Eu não acho absolutamente nada do que está acontecendo com a gente justo!
Eu também não achava, mas que diferença isso fazia?
— Tudo bem. — Eu disse novamente. — Eu não me importo.
— Logico que se importa, cacete! — Diego explodiu. — Você se importa com o seu pai indo embora, com a merda que a exposição daquele cartaz te causou, com essa porra que Isaac está fazendo... você se importa com tudo isso e um monte de outras coisas. E, honestamente, Erik, fingir o contrário não vai tornar nada disso melhor.
Certamente não ia. Mas ainda assim, eu costumava dizer a mim mesmo que se eu fingisse por muito tempo que não me importava, então cedo ou tarde eu realmente deixaria de me importar. Quase sempre dava certo e eu preferia continuar assim, mas Diego sempre gostava de me arrancar da minha zona de conforto e dizer “ Encare o que você está sentindo”, mesmo que eu não quisesse fazer isso.
Nossa discussão praticamente morreu aí. Foi o tempo que eu tive para tomar banho, trocar de roupa e fingir que estava tudo bem de novo.
— Eu não irei fazer nada com o seu corpo pelos próximos dias. — Foi o que ele disse. — Além de eu estar exausto por todo esse tempo, está na hora de você mesmo recuperar algum controle da sua vida.
Só que eu acho que estava bem longe de recuperar o controle de qualquer coisa.
Naquele dia, fiquei deitado na minha cama por um tempo, enquanto encarava o teto do meu quarto. A casa estava vazia, e com exceção dos meus próprios pensamentos, tudo estava silencioso novamente.
Eu estava pensando em como aquilo acabaria. Como acabaria para mim. Diego. Caleb. E, agora... Isaac.
Uma coisa que aprendi desde cedo é que toda escolha gera uma perda. Talvez, se tiver sorte, serão perdas boas e provavelmente de coisas que você deveria ter se livrado da sua vida desde o início. Porém outras vezes, na maioria delas, serão perdas grandes e que farão você remoer cada decisão tomada em toda sua vida, como se de repente tivesse pisado em uma granada no meio de um campo minado e agora precisasse correr para se livrar de todas as explosões.
Eu sempre me lembrava disso quando pensava na morte. E, ao contrário do que muita gente acha, nem todas as vezes que desejei morrer eu pensava necessariamente em suicídio. Às vezes, eu gostava de fantasiar que algum acidente trágico aconteceria. Talvez um carro desgovernado, ou um desequilibrado mental com uma arma, uma catástrofe natural... Qualquer coisa era válida. Eu gostava de imaginar que morreria assim. Era simples e fácil. Ninguém colocaria a culpa e mim, nem na minha família e nem fariam perguntas que jamais teriam respostas. Eles apenas aceitariam, como geralmente aceitam sempre que alguém é vítima do universo e suas casualidades...
Porém as vezes, só as vezes, eu realmente ficava cansado de esperar alguma resposta do universo. E era quando eu resolvia tomar uma atitude eu mesmo.
Diego e eu, e a nossa trágica situação, foi uma dessas vezes onde fiquei cansado de esperar...
Mais tarde naquele mesmo dia, liguei para Caleb.
A ligação caiu em caixa postal, mas eu não me incomodei em deixar a mensagem pela secretária eletrônica:
— Hey — Eu disse com uma voz que saiu animada demais para ser minha. — Você ainda está chateado pela outra noite? Espero que não. Sinto muito, eu estava perturbado aquele dia.— Ainda estava, mas não disse isso na mensagem. — É só que... Eu pedi algo a você e queria saber até que ponto me entendeu. Então, se puder... Retorne. Acho que é importante para você também.
Demorou 55 minutos para que uma resposta viesse. Não veio como uma ligação, e sim em uma mensagem. Apenas um endereço seguido pela frase “ Me encontre”. Curto e objetivo, exatamente como Caleb.
Meu corpo ainda não parecia totalmente recuperado do resfriado, mas considerando que eu não havia mais tido nenhum quadro de febre concluí aquilo como um sinal positivo o suficiente para poder sair de casa. E eu conhecia o lugar onde Caleb me pediu para encontra-lo. Era uma cafeteria que ficava duas ruas abaixo do hospital onde estava Diego.
Caleb estava sentado em uma das mesas perto da janela, de modo que não deu trabalho algum encontra-lo. Apesar dele parecer cansado, seus cabelos estavam molhados e eu não conseguia dizer se ele estava vindo de casa ou do hospital.
— Você parece péssimo!
Essa foi a recepção que ele me deu quando me aproximei, me olhando dos pés à cabeça como se eu fosse uma espécie de espantalho medonho. Não pareceu falar aquilo por maldade, então eu não pude culpa-lo. Mais cedo, quando eu conferi meu rosto no espelho, eu realmente parecia ser o que restou dos sobreviventes da madrugada dos mortos.
— Eu sei. — Admiti, sem disfarçar o constrangimento, enquanto me sentava na cadeira a sua frente. — Eu estava doente. Diego, não disse?
— Não, ele não disse. — Ele ainda me encarou com os olhos preocupados. — Tem certeza de que você está bem?
— Estou. — Assenti. — Já tive dias piores.
O olhar de Caleb não mudou, o que me fez deduzir que eu não tinha sido muito convincente, apesar de ter falado a verdade.
— Então — Ele disse finalmente. — Por que precisava falar comigo?
Inicialmente dei de ombros para a pergunta, puxando o cardápio até então ignorado que estava sobre a mesa.
— Para ser sincero, eu não preciso. Eu apenas quero. — Respondi logo em seguida, sem encara-lo. — E também porque eu queria me desculpar pelo o que eu fiz. Você sabe... Aquele dia.
— Eu não estou com raiva de você nem nada assim, se é o que você acha. — Ele se recostou na cadeira. —Tem sido dias difíceis, eu entendo isso. E meu irmão me contou o que fizeram com você.
Não queria entrar naquele assunto novamente, então permaneci sem levantar meus olhos para ele.
— Como Diego está?
Uma pergunta estupida. Porque, na verdade, eu já sabia como ele estava: Destruído. Morrendo. Nós dois sabíamos disso.
Mas o que Caleb me respondeu em um suspiro foi:
— Dormindo. Como sempre.
Após ouvir isso, levantei meu olhar para ele.
— Você quer que eu o acorde. — Não perguntei. Não achei que era necessário.
— Você quer fazer isso?
— E isso importa?
Caleb soltou o ar ruidosamente. Talvez eu estivesse pressionando demais aquela ferida, mas eu queria que ele me respondesse. Eu queria que ele me respondesse que “ não” ao mesmo tempo que estava desesperado por um “sim.
Mas não foi nada disso que eu ouvi. Em vez disso, ele cruzou as mãos sobre a mesa, sem olhar para o meu rosto.
— Sabe, Erik — Ele começou, fitando o vidro da janela de uma forma nostálgica. — Minha mãe nunca quis que meu irmão aprendesse a brigar e nem que tivesse nada a ver com lutas ou coisas do tipo.
Fiquei surpreso ao ouvir isso. Ainda mais por ele mencionar repentinamente a mãe. Eu sabia que ela tinha ido embora há muito tempo, mas Diego quase não falava sobre o assunto e achei que Caleb seria a mesma coisa.
— Não queria? — Minha voz saiu curiosa. — Por que?
Por um tempo achei que ele não daria continuidade, porém, após uma pausa, ele sorriu. Não para mim, mas para a lembrança.
— Diego nem sempre foi como ele é hoje. — Ele voltou a me encarar. — Pode parecer piada, mas ele foi uma criança muito calma e quieta. Ele não costumava ter muitos amigos e passava mais tempo desenhando com giz de cera do que falando com outras pessoas.
A imagem de um Diego pequeno e introvertido não conseguia aparecer na minha mente. Era como se alguém me falasse que o sol é frio. Simplesmente não tinha sentido. Nunca havia passado pela minha cabeça que alguém tão expansivo e prepotente pudesse ter sido de outra forma antes.
De repente eu queria saber mais. Sobre ele, quero dizer.
— O que aconteceu para que isso mudasse?
A expressão de Caleb de repente se tornou fria e apagada.
— Ela foi embora. — Contou amargo. — Meu irmão era mais apegado a ela do que eu. Na verdade, ela também parecia gostar mais dele. — Ele me encarou novamente. — Não estou dizendo isso como um ciumento irmão mais velho. Apenas digo a verdade. Mamãe gostava mais de Diego, principalmente pelo fato dele se parecer mais com ela. Enquanto eu, sempre me pareci mais com meu pai.
— Bem, vocês dois são muito parecidos a meu ver... — Não pude deixar de comentar.
Caleb balançou a cabeça com um meio sorriso.
— Apenas fisicamente. — Ele disse. — Mas mentalmente, eu e meu irmão temos estruturas completamente diferentes. Ele herdou isso dela. E eles são assim. Os tipos que fazem primeiro e se preocupam depois. Que quando tomam uma decisão, é só isso que importa. E não quem fica ou precisa lidar com ela... — Ele fez outra pausa e suspirou. — No fundo, ela já sabia disso. Como Diego era, quero dizer. Por isso nunca deixou que meu pai o ensinasse a lutar. Provavelmente ela tinha medo que ele se tornasse uma besta incontrolável no futuro, exatamente como aconteceu.
Eu podia sentir todo o ressentimento na voz dele. Porém, não podia fazer nada além de cruzar as mãos sobre a mesa e escutar.
— Você o ensinou, não foi? — Perguntei. — Diego sempre se orgulha em dizer isso.
Minha intenção com aquele argumento era fazer com que Caleb se sentisse melhor. No entanto, de boas intenções o inferno está cheio e eu realmente não sirvo para consolar ninguém, pois quando voltou a me olhar, Caleb parecia magoado.
— Eu não me orgulho disso. — Ele rebateu. — Mas... A questão é que depois que ela foi embora, a nossa vida virou de cabeça para baixo. Todo mundo estava falando de nós, e fomos praticamente coroados como os filhos da piranha da cidade. Eu consegui sobreviver bem, já que ninguém queria realmente mexer comigo. Eu era mais velho e sabia me virar. Mas meu irmãozinho estava indefeso. Ele mal falava, Erik! E eu não podia deixar que destruíssem ele. Por isso ensinei ele a destruir primeiro.
— E desde então, ele vem destruindo muitas coisas... — Comentei.
Caleb assentiu com a cabeça.
— Mas o que eu quero dizer é que mesmo depois de tudo isso, meu irmão se manteve inocente. — Ele disse, enquanto me olhava fixamente. — Isso pode parecer loucura ou não fazer sentido para você, mas ele ainda não perdeu isso. E, eu não sei o que vai acontecer quando essa parte dele for destruída.
Mesmo com tudo o que dizia, foi apenas enquanto meu olhar ainda estava preso ao dele, que eu finalmente entendi porque gostava tanto da presença de Caleb. Não era pela aparência imponente ou pela atitude resignada em relação a mim.
Era porque o olhar dele parecia com o meu.
Nós dois tínhamos sido corrompidos há muito tempo por pessoas que gostávamos, e tínhamos consciência disso. Tentávamos lidar com esse fato, cada um com a sua maneira. Mas Diego não era assim. Ele ainda conseguia manter essa parte pura o suficiente para acreditar que poderia salvar alguém. Que poderia me salvar. Ao contrário de Caleb, que havia entendido o mesmo ponto que eu de que não havia salvação.
— Eu sei o que você quer dizer. — Eu olhei para minhas mãos. — Eu realmente sei.
— Então isso volta a nossa pergunta inicial: O que você quer? — Ele passou a mão pelos cabelos. — Eu não sou idiota, Erik. Eu não sei se você finge que não, mas nós dois sabemos que você é uma pessoa metódica. Você parece calcular cada coisa que faz, mesmo que depois você justifique como impulsividade. Mas você não é impulsivo. Não realmente.
Não realmente, eu concordei.
Sorri para ele, apesar de sentir uma preção em meu olhos.
— Gosto de você, Caleb. — Confessei. —Não apenas porque você as vezes se parece comigo, mas porque não cria falsas expectativas facilmente. E por isso sinto que é alguém que eu não sou capaz de decepcionar. Isso faz com que eu me sinta seguro.
— O que isso quer dizer?
— Quer dizer que nós dois sabemos que eu vou destruir o seu irmão de qualquer forma. — Fui sincero. — Se não fisicamente, talvez mentalmente... Eu não sei. Não sei até que ponto eu vou se um impacto na vida dele... Não sei até onde posso levar isso.
Caleb me estudou por mais um tempo, antes de bufar e apertar os lábios até que ele se tornasse apenas uma linha em seu rosto. Por fim empurrou a cadeira para trás de forma ruidosa e se levantou, agarrando minha mão no processo.
— Primeiro, vamos sair daqui. — Ele disse simplesmente.
Eu me levantei atrás dele. Que outra escolha eu tinha, aliás, além de seguir Caleb porta a fora? Ele ainda estava prendendo minha mão quando atravessamos a avenida. E apenas quando paramos perto de uma marquise pouco movimentada, Caleb finalmente se virou para mim.
— Aonde estamos indo? — Perguntei.
Mas ao invés de me responder, ele levantou as mãos grandes, que antes estavam sobre a minha, e as levou ao meu rosto, esfregando minhas bochechas com força.
—Droga, se você vai começar a chorar ao menos me avise antes. As pessoas estavam olhando como se eu estivesse te intimidando ou algo assim! — Ele disse simplesmente.
Fiquei confuso e precisei levar minhas próprias mãos ao meu rosto para entender sobre o que ele estava falando.
E fiquei surpreso com aquela reação. Nos últimos dias eu tinha me sentido tão entorpecido que nem sabia se ainda era capaz de ter alguma lagrima para derramar. Mas aparentemente, eu não precisava sentir. Elas cairiam de qualquer forma, como se simplesmente soubessem qual eram sua função e quando deveriam agir.
Por quem eu estava chorando dessa vez? Por Diego? Ou por mim mesmo?
— Sinto muito. Eu não percebi. — Falei a Caleb, secando o resto da minha dignidade e passando a língua pelos meus lábios, tentando voltar a controlar meus nervos. — Acho que isso sempre acontece quando eu não consigo lidar com algumas situações.
Ele voltou a agarrar minhas mãos.
— Você também está tremendo.
— Eu estou com medo. — As palavras pularam para fora da minha boca antes que eu conseguisse nota-las. E então percebi que eram verdade.
Eu estava com medo.
Ironicamente, nunca sentia medo antes. Não senti medo quando resolvi cortar meu pulso. Nem quando ficava imaginando a reação dos outros pela minha morte. Não senti medo nem quando pensei em ter uma overdose de remédios. Simplesmente... Não senti medo.
Mas enquanto eu olhava para o rosto assustado de Caleb, pude perceber o desespero na minha própria voz.
Aparentemente, quando o assunto é apenas autodestruição, eu não tenho nenhum problema. Mas eu não conseguia lidar com a destruição de outra pessoa também. E eu não queria fazer aquilo com Diego. Talvez, de alguma forma, ele tivesse se tornado importante demais para que eu quisesse fazer isso. Provavelmente era isso que chamavam de carma. E eu estava apenas recebendo da pior forma aquilo que tanto busquei, mas nunca quis de verdade: Minha destruição definitiva.
Depois de quase dez minutos deploráveis da minha parte, e de deixar Caleb completamente sem jeito — Eu estava ficando bom em fazer isso com ele. — , finalmente consegui colocar meus pensamentos em ordem de novo.
— Desculpa. — Falei de novo.
— Pare de ficar pedindo desculpa toda hora. É um saco. — Ele me censurou, enquanto me oferecia uma garrafa de água que eu constrangedoramente aceitei.
— Eu estou esgotado. — Confessei. — Tenho pensado em muitas coisas ultimamente.
— Eu percebi.
— Desde o que aconteceu na escola, tenho a sensação de que vou desaparecer a qualquer instante. Geralmente me sentia assim o tempo todo, mas isso tem se tornado mais frequente nos últimos dias. — Me virei para ele. Meu botão de pausa tinha sido removido, e resolvi apenas dizer: — Por isso te beijei naquela noite. Achei que nunca mais nos veriamos. E não queria morrer sem nunca ter beijado alguém eu mesmo.
Caleb se virou para mim, se esconder o olhar surpreso.
— Você nunca tinha beijado ninguém?
Balancei a cabeça e dei ombros.
— Não sou bom com nenhum tipo de relacionamento. Nem familiar, nem de amizade... Não acho que eu precise dizer muito sobre o romântico.
Não disse a ele sobre Isaac. Não achei que era conveniente comentar que a única outra pessoa que havia me beijado, queria o irmão dele.
— Isso é meio... — Ele disse sem jeito.
— Patético. — Completei. — Eu sei.
— Não vou beijar você de novo. — Ele emendou em uma posição um tanto defensiva.
Isso arrancou uma risada de mim, que me fez encara-lo.
— Eu não estou pedindo para fazer isso! — Me defendi. — Só estou lamentando. É o mínimo que ainda posso fazer.
— Eu sei, mas estou me sentindo mal, por alguma droga de motivo. — Ele justificou. — Sempre me sinto assim quando falo com você.
— Aparentemente eu faço isso com todo mundo... — Falei enquanto olhava para os meus pés. — Mas não precisa ficar com pena de mim. Eu ficarei bem.
— Mesmo?
— Mesmo.
Nós dois ficamos em silêncio, enquanto eu olhava para o céu, que em algum momento havia se tornado completamente escuro. Eu ainda me sentia razoavelmente lamentável, mas aos poucos aquilo estava melhorando.
Quando voltei a olhar para os olhos de Caleb, me permiti dar a ele um sorriso sincero.
— Se a situação fosse diferente, eu realmente queria que tivéssemos nos tonado amigos. — Eu disse a ele.
Não sei o que ele viu no meu rosto após isso, mas Caleb não respondeu.
Em vez disso, ele segurou meu rosto entre as mãos e levantou minha boca para encontrar a dele. Eu não respirei, nem pensei, nem senti nada além dos lábios que estava sobre os meus, e por um minuto me esquecendo de quem eu era e de tudo que estava acontecendo.
Não sei quem se afastou primeiro. Talvez tenha sido eu.
— Achei que tinha dito que não faria isso... — Falei débil. — Por quê...
— Não gosto de sentir como se estivesse devendo algo a alguém. — Foi o que ele respondeu imediatamente, ainda segurando meu rosto.
— Bem, se é assim... Eu não me importo de fazer dividas com você. — Falei, enquanto me inclinava em direção a ele novamente.
Foi a primeira e única vez que senti como se ainda estivesse vivo depois de tudo.
Mas não durou muito.
O que nenhum de nós sabia naquele momento, é que exatamente 72 horas depois daquilo, minha estranha e trágica história com Diego enfim terminaria.
Fale com o autor