Mais cinco minutos, talvez?
23 Capitulo 23- Erik
Notas iniciais
Caleb me levou para casa mais tarde naquele dia.
Não conversamos sobre o que aconteceu algumas horas antes. Sobre o beijo, quero dizer. Não fizemos mais nada além disso, mas também não falamos sobre. E não sei dizer se era necessário. Talvez fosse, mas, ao mesmo tempo não parecia. Algumas pessoas dormem umas com as outras sem nem mesmo saberem seus nomes, então que grande pecado eu e Caleb cometemos? Pelo menos nós sabíamos nossos nomes...
Acredito que tanto ele quanto eu estávamos com nossas mentes em outro lugar, de forma que poderíamos simplesmente passar uma viagem inteira, lado a lado, sem conversa.
Porém, assim que paramos em frente minha casa, não desci do carro imediatamente. Em vez disso olhei para Caleb ao meu lado:
— O que você acha que vai acontecer depois que ele acordar? — Perguntei.
O “ele” em minha frase não precisava de maiores explicações. Da mesma forma que a certeza em minhas palavras sobre Diego acordar, também não precisava.
Caleb apertou os lábios e balançou a cabeça com os olhos fixos em lugar nenhum. Por fim soltou um suspiro doloroso.
— Eu não sei. — Ele lamentou. — Os médicos não tem expectativa sequer de que ele possa acordar, então ainda não pensamos muito a frente. Eles não querem nos dar falsas esperanças...
Falsas esperanças... De alguma forma essas palavras me deixaram atordoado.
— Entendo... — Foi o que eu respondi apaticamente, voltando a olhar para frente.
Durante um tempo nenhum de nós falou mais nada. Minhas mãos estavam prontas para alcançar a maçaneta do carro para sair, mas antes que eu pudesse me despedir de Caleb, ele quebrou o silêncio primeiro:
— Me desculpe, Erik...
Aquilo me pegou desprevenido, de modo que parei totalmente minhas ações e olhei para o rosto conturbado que ele me mostrava. De tudo que alguém poderia ter dito naquele momento, eu sinceramente não esperava por um pedido de desculpas.
— Pelo quê? — Perguntei sem esconder a confusão.
Ele apertou os lábios como se tivesse muita coisa para falar, mas como se não soubesse muito bem por onde começar ou como se expressar. Eu entendia melhor do que ninguém esse tipo de sentimento. Então apenas olhei para os olhos claros que pareciam ter tanto sentimento que quase substituía palavras.
— Apenas... Por tudo isso. Realmente sinto muito! — Ele resumiu.
Acabei sorrindo para ele, mas não disse mais nada a esse respeito. Lembrei do calor que havia sentido em meus lábios alguns momentos antes e foi como se algo de repente tivesse acendido dentro do meu cérebro e eu pude de fato entender o que tinha acontecido. Era como se Caleb se sentisse na obrigação de me dar algum tipo de compensação. Talvez eu tenha mostrado um lado tão lamentável e digno de pena que não importa o quão egoísta fosse meu desejo, ele cumpriria rapidamente. Não muito diferente de um prisioneiro condenado a morte tendo o direito a escolher sua última refeição. Não que fosse totalmente sem sentimentos. Apenas que o sentimento era o da piedade...
Mas não que eu estivesse esperando algo melhor que isso.
Totalmente patético...
Acabei rindo dos meus próprios pensamentos.
Levantei minhas mãos e toquei a lateral do rosto de Caleb. A pele áspera da barba por fazer arranhava as pontas dos meus dedos, mas estava longe de ser uma sensação ruim.
— Obrigado! — Foi o que eu disse. — Apesar de tudo... Eu fiquei feliz de ter conhecido você... Vocês.
Não me enganei dizendo a mim mesmo que se a situação fosse outra, talvez nosso relacionamento tivesse desenvolvido de uma forma melhor. Porque eu tinha certeza de que se de fato a situação fosse outra, nos sequer teríamos nos encontrado nessa vida.
Cabelo lambeu os lábios com a ponta da língua, como se engolisse mais algumas palavras.
— Até mais, Erik! — Ele sussurrou para mim.
Não desmanchei meu sorriso para ele em momento algum. Eu já havia mostrado muita das minhas lagrimas a ele, mas por algum motivo, dessa vez queria que ao se lembrar de mim, lembrasse do meu sorriso também.
— Adeus, Caleb!
Após isso, a primeira coisa que fiz ao chegar em casa foi tomar um banho como se eu pudesse lavar minha vida inteira de mim mesmo. Bem, não pude, obviamente, mas pelo menos enquanto a água quente batia em minhas costas, eu poderia muito bem fingir que sim. Eu era bom em fazer isso. Fingir que a vida não acontecia, quero dizer.
Também admirei meu corpo no espelho por um tempo depois disso. Olhei para a tatuagem ridícula no final da parte traseira, para as marcas que viravam cicatrizes nas minhas mãos, para o meu cabelo mais curto e desconexo do que eu costumava usar e para meu abdômen que apesar de ainda ser magro, estava começando a se tornar mais firme do que um dia eu sequer poderia imaginar...
De alguma forma, era fascinante o quanto uma pessoa poderia deixar o corpo de outro alguém cheio de marcas mesmo sem nunca a ter tocado fisicamente...
Foi ainda mais estranho quando eu descobri que, afinal de contas, eu talvez não odiasse tanto assim todas essas marcas...
Após me vestir, caminhei em direção a porta que dava à sacada do terceiro andar. Já havia anoitecido e eu não me dei o trabalho de acender as luzes, de forma que a única fonte de iluminação eram as luzes da lua e estrelas.
Fechei meus olhos sentindo a brisa no meu rosto como se esse fosse meu último dia na terra. Tentei segurar as lagrimas que pressionaram a parte de trás dos meus olhos enquanto meus lábios se curvaram em um sorriso dolorido.
Era como estar apenas a pouco mais de cinco centímetros da morte. Uma altura de mais dez metros certamente era capaz de algo assim...
Essa não era a primeira vez que eu me pegava de pé naquela sacada pensando nesse tipo de coisa. Mas também não é como se de fato eu estivesse pretendendo pular daquela altura ou algo assim. Eu apenas gostava de devanear sobre esse tipo de coisa quando não conseguia pensar sobre uma solução para um problema maior. Então, como se fosse apenas um ritual de boa sorte, eu me debruçaria sobre a sacada e olharia para baixo enquanto me perguntava o que aconteceria se alguém realmente caísse daquela altura.
Bem, quero dizer, era meio obvio o que aconteceria. Segundo a física, dependendo da altura, peso e velocidade de queda, era muito provável que a única coisa que restaria era um corpo destroçado e contorcido lá embaixo. E era justamente por saber isso que saltar de lugares ridiculamente altos nunca tenha sido minha primeira opção para morrer. De alguma forma, eu ainda tinha senso de consciência o suficiente para sentir pena desse corpo e não querer que ele se tornasse carne moída no asfalto. Sem falar que eu não era egoísta ao ponto de querer que as pessoas tivessem a visão daquela cena grotesca. Afinal, quem limparia aquela bagunça?
Mas, por outro lado, eu gostava de calcular quantos passos eram precisos dar para despencar de vez para... O que exatamente? O além? O céu? Ou, muito provavelmente, o inferno?
Eu ainda estava pensando nisso quando aquela voz falou em minha mente:
— Hoje não parece que irá chover...
Foi uma frase simples e boba. Não estava chovendo há dias, então por que diabos hoje iria chover?
Porém, como uma resposta condicionada a essa frase, minha cabeça se levantou e eu olhei diretamente para o céu escuro acima de mim. E de fato, não parecia que iria chover. Não haviam sequer nuvens espalhadas pela massa escura da noite, de forma que as estrelas pareciam exibir um brilho ainda mais feroz e chamativo. Era lindo de se olhar, na verdade.
— Sim... — Respondi apaticamente a Diego. — Parece que não irá...
— Bem, e parece que você finalmente está olhando para a direção correta. — Ele zombou. — Existe uma imensidão de possibilidade literalmente em cima da sua cabeça, mas você se concentra justamente na parte de baixo triste e deprimente... Ah, francamente, Erik!
Não fiquei surpreso por ele conhecer meus pensamentos naquele momento. Mas não pude deixar rir da maneira boba e infantil que ele usou para interromper isso.
— Você gosta de olhar as estrelas? — Perguntei a ele.
— As estrelas me pareciam mais interessantes que a grama ressecada lá embaixo...
Estávamos em meados do inverno e provavelmente a temperatura iria cair ainda mais nos próximos dias. Essa era época do ano que mais me sentia depressivo. Dias frios geralmente me lembravam do que ocorreu entre mim e Isaac e me faziam ficar ainda mais para baixo.
Dessa vez, para completar, eu também estava pensando sobre a situação de Diego.
— Qual a primeira coisa que você quer fazer quando voltar para o seu corpo? — Perguntei, tentando mudar minha linha de pensamento para algo mais otimista.
— Quero comer pelo menos duas pizzas tamanho grande, sozinho! — Ele não parou para pensar na resposta. — Caleb não pode saber, se não vou ter que dividir com aquele cretino, e ele come como se tivesse passado fome a vida inteira.
Tentei não o lembrar que comer duas pizzas grande sozinho também não era exatamente o padrão alimentar que dava margem para ele poder julgar Caleb...
Mas antes que eu dissesse alguma coisa ele continuou:
—... Mas não é como se isso pudesse acontecer de qualquer forma... — Ele completou e riu sem humor.
— Por que não? — Eu tentei animá-lo. Logo eu! — Tenho certeza que se for escondido nenhum médico iria te impedir.
— As inúmeras lesões me impediriam, Erik. — Ele disse de forma trivial. — Eu perdi cerca de cinco ou seis dentes, se não me falha a memória. Então, nada de Pizza ou alimento solido para o Diego aqui...
Engoli em seco ao ouvir essas palavras. Não sabia o que dizer...
— Oh, não que isso seja grande coisa! — Ele disse repentinamente mais cheio de vida. — A maioria dos meus dentes já não eram realmente meus. Eu já tinha perdido alguns deles em algumas lutas. Meu pai gastava uma grana desgraçada com dentista todo ano por conta disso.
Meu sentimento de pena por ele morreu ali mesmo.
— Que seja...
— Para ser sincero, isso é algo que me pergunto todos os dias. — Ele disse depois de um tempo, com uma voz mais suave, como se fosse só um pensamento em voz alta. — O que eu deveria fazer se eu voltar para o meu corpo?
Era tão raro sentir sentimentos tristes vindos de Diego que de repente eu me peguei realmente sem saber o que fazer.
Ele tem uma boca suja, exibe uma brutalidade sobre-humana e age como se fosse o dono do mundo tão o tempo todo que as vezes eu realmente me esqueço que ele ainda é só um garoto de dezessete anos.
— Não sei o que te dizer quando você fala assim... — Confessei, apertando minhas mãos uma na outra.
—Sério? Achei que você começaria a se lamentar junto comigo... — Ele debochou. — Aí gente até podia assaltar a adega do seu pai e beber tudo o que tem lá dentro para curar a amargura da vida. Eu nem gosto tanto assim de vinho, mas eu adoraria saber se o gosto dessa coisa que custa mais do que todas as casas do meu bairro é realmente tão impressionante assim...
Revirei os olhos enquanto escutava essa baboseira. Diego tinha feito algum curso para destruir todo e qualquer clima? Será que ele não sabia ler o ambiente?
Durante esse pensamento, acabei me lembrando do rosto pálido e machucado que eu havia visto no hospital há algumas semanas. E alguma coisa nisso fez meu peito se apertar. Provavelmente o fato de saber que aquela voz sarcástica e vívida que ressoava na minha cabeça um dia pertenceu aquele corpo frágil e debilitado sobre aquela cama.
— Pra ser sincero eu só... Gostaria que isso... nada disso tivesse acontecido com você...— falei.
Diego interrompeu seu discurso idiota por alguns segundos. Depois soltou algo como um suspiro.
— Também gostaria que isso não tivesse acontecido comigo. — Ele falou simplesmente e eu quase podia imagina-lo dando de ombros. — Mas quem causou isso foi eu mesmo e não há muito o que fazer. A situação já é ruim sozinha e eu não pretendo te convidar para montar um clubinho de autopiedade.
— Pensei que você quisesse que eu me lamentasse com você para podermos roubar as garrafas de vinho. — Eu contra-ataquei.
Ele riu alto na minha mente.
— Você está disposto?
— Não mesmo! — Eu ri de volta.
Eu havia chegado ao ponto em que Diego havia passado de uma irritante entidade intrometida na minha vida, para uma pessoa marcante o suficiente para que eu quisesse poder fazer algo. Meu espirito sempre havia sido egoísta o suficiente para que eu não me importasse com nada ao meu redor, mas agora, eu realmente não queria que nada mais acontecesse com ele.
Ele havia tentado me proteger da maneira dele. E agora eu queria poder protege-lo também.
—Diego, você vai voltar para a sua vida. — Eu falei firmemente a ele.
A risada melódica que ainda soava em minha mente parou subitamente.
—Oh? — Foi o som que ele emitiu— Mesmo? Como? Vai saltar da sacada como estava pensando agora a pouco?
Engoli amargo as palavras dele.
Mesmo assim, pela primeira vez eu sentia a minha mente bastante clara. Clara o suficiente para perceber que toda aquela situação, se olhada pelo ponto de vista certo, não era tão difícil de resolver. Era uma simples questão de colocar na balança. Quer dizer, se Diego desaparecesse, Caleb ficaria arrasado. Seu pai ficaria arrasado. Talvez até Isaac, que nunca o viu pessoalmente, também ficasse triste. E eu também ficaria triste! Era como se a vida sem Diego seria muito mais impactante e notável, a ponto de muita gente acabar sendo terrivelmente afetado por sua ausência.
Mas se eu desaparecesse, por outro lado, a vida iria apenas continuar.
Não é um pensamento muito dramático considerando como tinha sido todos esses anos. Todo aquele choro, culpa e responsabilização, ligações para psiquiatras e terapeutas e uma busca intermitente por ajuda após o primogênito da família tentar suicídio? Não duraria. Em menos de dois dias, meu pai sairia para trabalhar normalmente como qualquer outro dia. Felícia cuidaria de sua própria vida com uma responsabilidade a menos. Isaac... Provavelmente faria uma festa em cima do meu caixão com direito a open bar e os melhores DJ’s da atualidade...
E Diego? Provavelmente nem se lembraria de mim depois de acordar.
— Eu apenas pesei na balança o que valia mais a pena. — Falei calmamente a ele. — Talvez você também devesse pensar assim. Por mais que os toques de piedade um pelo outro nos tenha empurrado para esse beco sem saída, é melhor ser racional agora do que se arrepender depois...
— Ser racional? — A voz de Diego debochou. — E que critérios, exatamente, você usou para isso? Sua vida farofenta e triste? Então deixe-me te informar algumas variáveis: O corpo humano de uma pessoa comum tem 206 ossos, sendo 62 deles apenas nos membros inferiores. Desses 62, 38 dos meus ossos foram completamente esmagados e pulverizados após o acidente. Vamos supor que, com muita sorte, eu apenas sobreviva lindamente a essa situação. É provável que a minhas chances de correr novamente sejam equivalentes a zero. Andar, talvez depois muita fisioterapia, seja possível, mas eu ainda estarei mancando devido ao fato de que nunca mais seria o mesmo. E não vamos desconsiderar também todas as dores, que farão com que meus movimentos sejam tão ágeis quanto de um velho de 100 anos. Tudo isso, somado com os olhares de pena e deboche que muito provavelmente eu vou receber, diga-me, o que realmente pesará mais no final?
Fiquei calado e engoli cada palavra que eu tinha para rebate-lo enquanto escutava aquele doloroso desabafo. Porque, mesmo que Diego tentasse disfarçar, senti que cada palavra dita tinha saído de coração. Era como se todas aquelas coisas fossem seus reais medos e obstáculos. E acho que de repente entendi o ponto dele.
Derrubar uma pessoa que já estava no chão desde o começo não era algo muito relevante, depois de tudo. Mas derrubar uma pessoa que estava no topo de uma montanha não seria muito diferente de matá-la...
— Se você realmente quer ser racional, pense bem, Erik. — A voz de Diego estava gentil. — Isso não é só sobre você, é sobre mim também. E eu sei que você não quer realmente morrer. Você só está desesperado. Mas você ainda tem a chance de consertar a sua vida. Só que não vai conseguir fazer isso se estiver morto. E eu ainda estou pensando em como consertar a minha..
Passei minhas mãos geladas por todo meu rosto enquanto tentava conter o sentimento agressivo e desesperado que crescia dentro de mim.
— Então o que eu deveria fazer, Diego? O que eu posso fazer por você? Por favor, me diga?
— Confie em mim! — Ele respondeu prontamente. — Eu prometo pra você que vai dar tudo certo. Então, só confia!
Tudo certo?
Tudo certo para quem, exatamente?
E por que sempre era Diego que precisava ficar com toda a carga sozinho? Eu realmente não era capaz de fazer nada pela única pessoa da qual eu finalmente consegui me aproximar depois de tantos anos?
Eu queria falar tudo isso para ele, mas antes que minha voz saísse outra voz falou atrás de mim.
— Oh, Erik, o que faz aqui? — Felícia entrou na sacada de uma vez. — Você ainda não está totalmente recuperado, não deveria estar aqui tomando esse vento!
Não havia falsidade na voz dela. Ela estava de fato preocupada com a minha situação.
Eu a encarei por um tempo, enquanto ela colocava um pesado casaco sobre meus ombros e me arrastava para dentro de casa.
—Hum, Felícia...? — Eu a chamei.
— Sim?— Ela continuou andando sem se virar diretamente para mim.
— Nós podemos ter pizza para o jantar? — Minha voz saiu baixa quando perguntei.
Isso deteve os passos delas e ela virou para me olhar confusa.
— Achei que você não gostava desse tipo de alimento...
— É só... Que hoje eu fiquei com vontade de experimentar. — Sorri para ela.
Meu estomago certamente não aguentaria devorar duas pizzas grandes inteiras, mas eu podia pelo menos emprestar meu corpo para uma pequena satisfação pessoal de Diego, não podia?
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