Mais cinco minutos, talvez?

20 capítulo 20- Diego.


Notas iniciais
Então eu corro para o que eles disseram que iria me restaurar Restaurar a vida do jeito que ela deveria ser Estou esperando esse xarope pra tosse fazer efeito A vida é muito curta para se importar com tudo, oh Eu estou perdendo a cabeça, perdendo tudo (Cough Syrup -Young The Giant) Boa noite, pessoas ♥ Saudades? Espero que sim *o* Hey, gente eu estou realmente orgulhosa de mim mesma por ter chegado ao cap. 20 dessa fic ( mesmo tendo levado 3 anos para isso -__-'' ). Tive muito altos e baixos e muitas vezes a vontade de desistir bateu na porta, mas... Sempre que eu me lembrava de todas as pessoas maravilhosas que essa história trouxe para minha vida, eu me sentia incapaz de fazer isso. Espero que vocês gostem desse capítulo ♥ E eu amo todos vocês *o* Só isso mesmo. Beijão :*** ps: boa sorte para quem, assim como eu, vai sofrer com o horário de verão :/

Alguém estava me sacudindo como se eu fosse uma maldita caixa de suco.

— Erik— Uma voz disse no meu ouvido. —Acorde!

Gemi e coloquei um travesseiro em cima da cabeça para abafar o som. Eu estava babando em mim mesmo e, até segunda ordem, pretendia permanecer assim. A cama estava uma delícia e eu não me importava de continuar dormindo confortavelmente pelo resto do dia.

Porém, você já sabe, a vida não é feita de pôneis cor-de-marmelo e infelizmente meu plano não deu certo.

Não por falta de vontade minha, se quer saber. Mas “seja-lá-quem-era” não parava de empurrar as minhas costas e de chamar o meu nome como se a terra estivesse em perigo e eu fosse a única pessoa disponível para salvá-la. E por mais que eu quisesse continuar me fingindo de morto, aquilo estava realmente me irritando.

Depois de muita insistência, rolei para o lado e arrisquei abrir os olhos, me deparando com um par de íris verdes me olhando fixamente. Segundos depois me dei conta de que eu estava piscando para o rosto do meu irmão, que estava sobre mim e me encarava como se as ações premiadas da bolsa de valores fosse aparecer na minha cara a qualquer instante.

Acredito que, para a maioria das pessoas, acordar aleatoriamente com um cara gigante te observando como se você fosse um rato de laboratório, era uma experiência no mínimo traumática. Uma pessoa normal com certeza teria saído correndo para se trancar no banheiro e chamar a polícia, ou algo assim... Mas eu já estava tão acostumado com aquela cara feia que eu apenas o encarei de volta com a mesma expressão. Até porque eu estava confuso demais para fazer outra coisa.

—Que inferno você está fazendo uma hora dessas? — Engrolei limpando a baba do rosto.

— Eu achei que você nunca mais ia acordar. — Foi o que ele disse para mim. — Tem ideia de que horas são?

Eu não tinha ideia nem de como ele tinha ido parar ali, então que se dane as horas!

Caleb soltou a respiração que eu nem sabia que ele estava prendendo e saiu de cima de mim, se sentando na cabeceira da cama. Apesar de ter se afastado, ele ainda estava me encarando agressivamente, como se eu devesse uma explicação a ele, mesmo que eu não soubesse bulhufas sobre o que estava acontecendo.

— Por que está me encarando assim? O que você perdeu na minha cara logo tão cedo? — Perguntei irritado. Desembolei as cobertas das pernas e dei uma olhada rápida ao meu redor. Uma luz de reconhecimento piscou na minha consciência ainda adormecida. — Mas... Que porra é essa? Por que eu estou no seu quarto?

Foi apenas uma pergunta simbólica, convenhamos. Ele não precisava realmente me responder para que eu já começasse a ter uma ideia sobre o que tinha acontecido. Quer dizer, era óbvio que Erik, por qualquer droga de motivo, tinha ido até ali no meio da noite. Na melhor das hipóteses talvez ele tivesse apenas tido um ataque de sonambulismo, e a coisa acabou assim... Na pior hipótese ele tinha feito alguma merda, e agora Caleb ia me pegar para cristo.

Infelizmente, a primeira hipótese foi descartada.

Esfreguei o rosto com as mãos tentando espantar o sono e voltei a olhar para o meu irmão com um fio de esperança, mas o que eu vi não foi nada bom. Aparentemente, enquanto eu estava babando na cama dele, Caleb parecia esgotado como se não tivesse dormido nada durante a noite. Ele estava com olheiras e pela forma que estava me encarando, estava claro que ele realmente não estava muito satisfeito comigo. Não sabia que tipo de festa do pijama tinha rolado na noite anterior, mas certamente não tinha acabado bem.

Suspirei e aceitei o destino iminente.

— Me diz uma coisa — falei para ele depois de um tempo. — Eu vou querer saber sobre o que aconteceu antes ou depois do café da manhã?

Em outras palavras: Você vai me jogar alguma bomba que me fará perder o apetite ou que me fará vomitar?

— Acorde primeiro. Vá lavar o rosto e escove os dentes. Depois conversamos. — Ele ordenou como um general de 60 anos e então se levantou, saindo pela porta e me deixando sozinho.

Com um suspiro conformado, eu fui ao banheiro. Após escovar os dentes e lavar o rosto, só precisei de uma olhada no espelho para perceber que a noite não tinha sido boa para outra pessoa também. Erik estava com uma cara tão lixo quanto a de Caleb. Haviam meias-luas vermelhas embaixo dos olhos e eu não sabia se aquilo significava que ele tinha chorado ou era apenas pela falta de sono.

Mas que merda eles estiveram fazendo noite passada, afinal?

Quando saí, encontrei Caleb esperando por mim na cozinha, com os braços cruzados e a cara ainda de desagrado. Meu estômago estava colado nas costas e se ele queria me importunar logo tão cedo, então que ao menos me deixasse comer primeiro.

Passei por ele, ignorando completamente a aura demoníaca, e abri os armários procurando algo comestível. Mas quanto mais eu olhava mais triste eu ficava.

— Você comeu meus biscoitos? O cereal também? Caralho, você comeu tudo o que tinha? — O vazio e a escuridão do armário refletiam diretamente o meu coração. Nunca pensei que diria isso, mas me deu uma saudade da casa do Erik e de todas as suas mesas gloriosas.

— Não eram mais “seus biscoitos”. — Caleb ralhou, se sentando na mesa. — Você está em coma, lembra? Pessoas em coma não comem biscoito. Elas se alimentam de substancias pastosas através de uma sonda enfiada no nariz.

Me virei completamente horrorizado para ele. Esse era o tipo de comentário maldoso que você nunca espera escutar. Principalmente de manhã e mais principalmente ainda do seu próprio irmão.

— Porra, Caleb! Você foi possuído pelo príncipe do inferno durante a noite? Por que está sendo tão imbecil de manhã tão cedo? Que merda eu te fiz?

— Tive uma noite difícil. — Ele respondeu depois de um tempo. Não posso dizer com certeza se ele tinha se arrependido do que tinha dito, mas ao menos o tom ficou mais ameno.

— E o que caralhos voadores eu tenho a ver com isso? — Cruzei os braços para ele. — Se foi o Erik que fez ou falou algo que te irritou, então fica com raiva dele, porra! Não desconte em mim. Até porque você só teve uma noite ruim, eu estou tendo é a droga de um mês inteiro! Afinal, como você fez questão de lembrar, não é você quem está com uma sonda enfiada no nariz, não é?

Caleb levantou os olhos com um suspiro e analisou meu rosto por um tempo. Quando ele percebeu que eu realmente não estava com saco para aguentar o mal- humor dele, quando eu mal podia aguentar o meu, pareceu mudar de estratégia.

—Bem, pense um pouco pelo meu lado também, ok? É a mesma droga de rosto! — Ele disse como se explicasse alguma coisa. — E eu não sou tão fodidamente controlado ao ponto de separar uma coisa da outra assim!

Continuei sem entender nada, mas eu já estava começando a ficar curioso para saber sobre o que tinha acontecido. Porque eu não conseguia pensar em nada que o Erik pudesse fazer para ofender Caleb daquela forma. Até onde eu me lembrava, ele nem mesmo estava bem no dia anterior! Por que diabos ele sairia de casa só para importunar meu irmão?

— Está bem, vou te dar paz de espirito — Eu disse puxando uma cadeira e me sentando de frente para ele. — Fala logo, o que aconteceu pra você ficar mais rabugento do que o normal?

Caleb suspirou e fez uma expressão, não muito agradável, porém bastante conhecida por mim. O problema é que da última vez em que ele tinha feito aquela cara, foi para contar que a mamãe tinha ido embora.

— Erik veio até aqui essa madrugada. — Ele contou.

— Bem, dã! Isso eu percebi assim que acordei babando na sua cama.

Caleb ignorou minha provocação e continuou contando sua trajetória noturna.

Até aí, estava tudo bem. Erik tinha ido até lá e estava chateado, obviamente por causa do que tinha acontecido; como ele não tem amigos, ele foi para minha casa. Isso era um fato interessante que quase me fez rir, mas meu irmão não parecia estar achando graça em nada, então eu fiquei quieto. Porém estava ficando uma coisa realmente muito chata de se ouvir e eu comecei a devanear que, se o que fez Caleb ficar tão estressado logo tão cedo foi o Erik ter dado um soco na cara dele, ele já teria ganhado muitos pontos comigo...

Mas não. Em vez disso...Ele o beijou.

Engraçado como o primeiro pensamento que explodiu na minha cabeça foi: Erik, seu filho da puta! Eu juro que tento te defender, mas como eu consigo algum credito com você fazendo merda a droga do tempo todo?. Mas isso só por dentro. Por fora eu apenas pisquei sem maiores reações para Caleb. Provavelmente pode ter parecido bem insensível da minha parte, mas depois de tudo o que tinha acontecido nas últimas semanas, aquilo tinha sido de longe a coisa menos esquisita de se ouvir.

— Ele te beijou? — Eu perguntei a Caleb e ele assentiu, incomodado. — Hum. E daí?

Caleb apertou os dentes. Eu não sei exatamente o que mais ele achou que eu faria, mas aparentemente, contar aquilo foi sinônimo de quase morte para ele.

— Como assim “ E daí? ”. Você ouviu o que eu disse?

Revirei os olhos, mas soltei um suspiro de alivio.

Pelo menos ele foi só um beijo! Eu fiz coisas piores e sobrevivi!

— Depois de todo o tumulto que você fez eu realmente pensei que o Erik tinha feito algo terrível, mas era só a droga de um beijo? Ah, me poupa Caleb. Nem era a droga do seu primeiro beijo para você ficar desse jeito.

Bem, me desculpem se eu não estava todo sensível por algo assim. Havia tantas coisas verdadeiramente catastróficas acontecendo nos bastidores que me surpreender por algo como isso beirava o impossível! Sem falar que, depois do que aconteceu com Isaac, Erik resolver beijar Caleb era fichinha.

Cada um com seus traumas, certo?

Um olhar magoado cruzou o rosto do meu irmão.

— Você é cruel pra cacete, sabia? — Ele declarou para mim.

Suspirei quando percebi que o incidente realmente tinha ido longe o suficiente para afetar Caleb. E eu sei que eu não estava ajudando muito. Comecei a perceber a gravidade da situação e fui até ele, dar palmadinhas solidárias em seu ombro.

— Certo, foi mal. — Eu disse sinceramente. — Mas não precisa pensar tanto sobre isso. Apenas trate isso como... Um equívoco. Pense que foi outra pessoa e talvez você se sinta melhor. Tenho certeza que o Erik não fez isso para insultar você nem nada assim. É só que ele não estava muito bem ontem também...

Então, como uma ótima forma de desviar o assunto da cabeça do meu irmão, contei a ele sobre o que tinha acontecido no dia anterior. E talvez eu tenha exagerado um pouco para dar um ar ainda mais dramático, apenas para comover Caleb; como na parte em que eu disse que tinha sido igual no filme “Carrie, a estranha”, só que sem a parte do sangue de porco.

No fim das contas, o ar irritadiço e zangado do meu irmão mudou completamente para algo mais piedoso. Ele tem um coração mole para histórias tristes.

E eu sou um cretino por me aproveitar disso.

— Então foi isso? — Ele disse no final. — Agora eu entendo porque ele parecia tão destruído ontem.

Com suspiro de alivio, eu assenti.

— Sim. É por isso que agora eu preciso saber quem fez isso...

Caleb abriu a boca para responder algo, mas antes que ele o fizesse, uma outra voz masculina conhecida preencheu toda a cozinha:

— Por que você está sendo tão barulhento logo tão cedo?

Com um movimento sincronizado, eu e Caleb viramos ao mesmo tempo e demos de cara com o rosto sonolento do meu pai.

Eu totalmente não esperava por isso...

Estaquei imediatamente, enquanto os olhos de Caleb viravam entre o rosto do papai e o meu. Por dentro, eu diria que estava preste a me levantar para abraça-lo e pedir desculpas por ser tão malditamente idiota...

Por fora, continuei aonde estava, como as mãos apoiadas na mesa.

— Temos... hum... Visita. — Foi o modo que Caleb achou de me explicar para ele.

Papai apertou os olhos em sua expressão típica de “com-raiva-de-nada” e colocou os olhos diretamente em mim. Tenho certeza que se fosse qualquer outra pessoa, teria se sentido bastante intimidada...

Mas eu só senti um doloroso aperto no peito.

— Quem diabos é você? — Meu pai perguntou me olhando dos pés à cabeça.

Quer dizer, eu sempre soube que papai jamais me reconheceria naquela aparência e tudo mais. Porém vê-lo me olhando como se eu realmente fosse um completo estranho machucou mais do que eu podia disfarçar.

Demorou um tempo até que eu percebesse que ele estava falando comigo. Quando voltei a mim, Caleb já tinha começado a dizer:

— Ele é...

— Vendedor de bíblia! — Emendei rápido demais para voltar atrás. — Bom dia, senhor!

Os olhos de Caleb voaram para mim e em uma mensagem telepática ele gritou “Que merda você está fazendo? ”.

Eu dei de ombros para ele correspondendo o olhar: “ O que mais você vai inventar? Ele jamais acreditaria que somos amigos ou qualquer coisa assim! E ele não colocaria um simples vendedor de bíblia para fora, certo?”. Caleb pareceu entender meu olhar também, graças a Deus.

— Ah! — Foi a resposta do meu pai. Ele nem mesmo duvidou. — Não sabia que vocês começavam logo tão cedo.

Dei um sorriso amarelo para ele e assenti, incapaz de dizer mais nada.

Papai passou por nós indo direto para a geladeira. Assim como Caleb, eu notei a ressaca que o acompanhou nesse percurso.

— Caleb, precisamos fazer compras. — Ele disse com a cabeça dentro do frízer. — Passe no mercado quando sair do hospital.

— Certo. — Ele respondeu, com os olhos fixos em mim.

Meus olhos, por outro lado, estavam fixos na figura alta a minha frente. Papai tinha perdido peso e parecia bastante cansado. Olhar para ele por mais de quinze segundos estava fazendo eu me sentir realmente mal. Eu queria poder dizer alguma coisa a ele. Eu queria dizer para ele parar de se desgastar daquele jeito. Para ele dormir melhor. Dizer a ele que não valia a pena ficar assim por minha causa...

...Mas obviamente isso se tornaria bem confuso saindo da boca do “ vendedor de bíblias”.

Suspirei e ele me notou novamente.

— Você ainda está aí? — Ele realmente pareceu surpreso. — Parabéns pelo trabalho duro, jovenzinho. Mas não temos interesse!

Ele estava dizendo a mim, mas eu permaneci parado, enquanto o encarava seriamente.

Caleb agiu mais rápido.

— Era exatamente isso que eu estava dizendo a ele. Não é mesmo? — Caleb me puxou pelo cotovelo, forçando minhas pernas a voltarem a funcionar. — Ele já estava de saída!

Me virei para ele, repentinamente confuso.

— Eu estou?

— Está. — Ele respondeu convicto. — Vou acompanha-lo até a porta!

Caleb realmente me arrastou para fora, mas não saímos do quintal. Ele me soltou e voltou para a porta para ter certeza de que papai ainda estava na cozinha. Apenas quando ouvimos a porta do quarto bater novamente, foi que ele se virou para mim e me fez apenas uma pergunta:

— Você viu?

Era óbvio que eu tinha visto. Talvez fosse mais sensato me perguntar se eu tinha digerido aquilo. Porque isso eu poderia responder com toda certeza que não.

Foram apenas alguns minutos, mas o suficiente para ser cruel.

—Vi! E é por isso que eu disse que não queria vê-lo. — Resmunguei em um sussurro.

Caleb soltou uma risada sem humor.

— Por quê? Por que faz a sua consciência pesar? Que ótimo, então! Quem sabe um choque de realidade funcione nessa sua cabeça dura.

— Ah, Caleb, hoje não! Pode ser? — Cortei, antes que ele se aprofundasse no sermão. — Eu já não estava no ápice da felicidade quando acordei, então imagine agora. Se isso é tudo o que você realmente tem a me dizer, eu prefiro ir embora. Afinal, minhas “bíblias” não vão se vender sozinhas.

Com uma revirada de olhos, eu passei por ele indo em direção ao portão. Mas antes de chegar nele a mão de Caleb me puxou para trás.

— Tem uma coisa que eu preciso te dizer. — Ele disse. — Eu sei que você já contou ao Erik sobre o que está acontecendo. Foi uma das coisas que ele mencionou noite passada.

Soltei meu braço das mãos de Caleb, mas não me movi.

— Bem, se ele te contou, é menos um motivo para tocar nesse assunto de novo. Certo?

Caleb apertou os lábios.

— Ele me pediu uma coisa.

Me virei para ele.

Ah, Jesus! Lá vem...

— O que é agora, Caleb?

Ele hesitou. Caleb, que geralmente não tinha medo de cuspir os desastres na minha cara, hesitou o suficiente para olhar para o céu, em vez do meu rosto.

— “ Salve ele”. — Ele disse finalmente.

Na hora, o sentido não ficou claro, por isso fiz uma careta incrédula.

— Eu já não disse que ia tentar? Ajudaria muito se você não ficasse me pressionando.

Caleb balançou a cabeça.

— Foi isso que o Erik me pediu, Diego. — A expressão dele estava séria. — Eu vou repetir exatamente as palavras dele:

“ O tempo está acabando, mas que seja apenas o meu. Diego não tomará a decisão certa, Caleb. Então espero que você faça isso. Portanto, quando isso acontecer... Apenas salve ele, ok? Não se preocupe com o resto. Eu ficarei bem.”.

Caleb interpretou a coisa toda tão bem que eu quase pude ver o Erik realmente dizendo algo como isso. Era bem a cara dele dizer esse tipo de coisa. Coisa essa, aliás, que me deixou ainda mais irritado com os dois.

— Agora lascou a porra toda! — Explodi. — Por que diabos ele foi te falar esse tipo de coisa? Logo pra você, que já é doido sozinho! Vou avisando, Caleb, não me venha com nenhuma ideia miraculosa, senão eu nunca mais falo com você!

O rosto dele permaneceu sério. Estava nítido em cada ponto de sua expressão que ele tinha levado aquelas palavras bem a sério. E isso meio que me preocupava um bocado.

— Você deveria realmente levar isso em consideração. É o corpo dele, então que seja a vontade dele também.

Bufei.

— Não leve essa merda tão a sério. Eu disse a você que o Erik estava pirado ontem. — Expliquei.

— Mas ele não falou nenhuma mentira. — Ele revidou. — Não sei se você finge não perceber, Diego, mas o Erik não é como você acha. Ele não age de maneira realmente precipitada como você insiste em dizer. Mesmo que ele diga o contrário, todas as ações dele parecem bastante metódicas para mim. E ele não parecia estar brincado noite passada. Sobre nada, aliás.

Essas últimas palavras de Caleb soaram mais como um aviso do que como um simples comentário pessoal. De modo que, não consegui achar nenhuma resposta para dar a ele naquela hora. E mais tarde, quando eu já havia voltado para casa do Erik, eu ainda não tinha conseguido tira-las da minha cabeça.

Voltei, por falar nisso, não porque eu realmente queria, mas por falta de escolha. Cheguei em um momento ótimo, por assim dizer, aliás. Eles tinham acabado de perceber o meu sumiço e tinha apenas começado a entrar em pânico. Por isso conseguir controlar o caos mais facilmente dessa vez.

Mas apenas esperei que a poeira abaixasse e eles me esquecessem para poder sair novamente. Afinal, Erik tinha os planos dele... E eu também tinha os meus. E por falar nele, Erik ainda não tinha dito nada. E por mais ridículo que isso possa parecer, eu estava começando a ficar preocupado com toda aquela paz celestial.

Porém, por ora, precisei deixar Erik e o assunto de vida ou morte um pouco de lado para resolver outro pequeno problema que estava corroendo o fundo da minha alma: Quem foi o filho da puta que colocou aquele cartaz?

Foi esse delicado pensamento que me fez voltar para a escola do Erik com apenas uma mochila nas costas e nenhuma vergonha na cara, pronto para tocar o terror naquela espelunca.

Bem, mas obviamente eu não podia simplesmente entrar desfilando pelo portão da frente como se eu fosse a própria rainha Elizabeth, já que eles haviam praticamente me banido do território e coisa e tal. Então, em vez disso, eu passei por baixo da cerca. E essa era a vantagem de ter aparência de um garoto que ainda não chegou na puberdade: Você se enfia em qualquer buraco. Literalmente.

Depois de rastejar pela terra e de uma boa quantidade de lama ter ficado nas minhas roupas, eu segui direto para o vestiário. Erik sempre tinha roupas extras e era mais fácil circular pela escola se eu estivesse de uniforme. Sem falar que era começo da tarde, o lugar deveria estar supostamente vazio. O que poderia dar errado, não é?

A última parte é ironia, é claro.

O problema geral era que, para passar para o vestiário, primeiro precisava passar pela área da piscina. Considerando que estávamos no meio do inverno e aquele era um dia nada convidativo para um mergulho, fui sem medo de ser feliz, mas...

Me esqueci que havia alguém cuja alma era mais fria que os montes do Himalaia e que não se importava muito com esse fato.

Fazia realmente tanto tempo que eu não via Isaac que até me permiti ficar surpreso com aquele nível de simultaneidade entre nós. E de qualquer forma, confesso que, originalmente, meu plano não envolvia a presença de Isaac em absolutamente nada. Na verdade, eu nem pretendia me encontrar com o dito cujo até então. Porém, assim que eu reconheci a figura aquática naquela piscina, uma ideia fantástica se delineou na minha cabeça e eu decidi investir nela.

Afinal, quem disse que eu precisava conversar com os burros se eu podia falar com o dono da carroça, não é mesmo? Quero dizer, quem melhor que o próprio Isaac, o babaca-rei daquela merda escolar, para descobrir qual dos seus carrapatinhos tinha tido aquela ideia mirabolante? Aquilo me pouparia tempo e paciência.

Acompanhei as braçadas de Isaac pela borda da piscina. E não posso mentir dizendo que eu não estava admirado. Realmente era incrível existir alguém com disposição para nadar àquela hora e com aquele clima. Fiquei assistindo todo aquele vai-e-vem molhado por mais alguns segundos, até por fim Isaac bater na borda e emergir, puxando o ar com força e tirando o excesso de água do rosto. Demorou um certo tempo até que ele levantasse os olhos e me visse, mas, quando isso aconteceu, começou a piscar freneticamente. Eu não sei se era porque a agua ficava pingando nos olhos ou se ele simplesmente não estava muito certo da minha presença, mas Isaac não fez questão alguma de esconder o choque ao me reconhecer.

Só para provar que eu era real e que nadar no frio não tinha deixado ele completamente maluco, coloquei um sorriso feliz no rosto e acenei.

— Boa tarde, meu nêmesis. Como vai?

Isaac pareceu mais assustado do que surpreso. Por um minuto, pensei que ele ia começar a nadar para o lado oposto da piscina. Mas simplesmente ficou lá, me encarando, como se em vez dele, eu é quem estivesse espremendo minha bunda em um calção de banho.

Antes que eu abrisse a boca pra dizer mais alguma coisa, Isaac tomou impulso para sair da piscina e veio em minha direção a paços largos.

— De que inferno você saiu? — Ele me perguntou, agarrando meu braço e me arrastando para bem longe dali.

Só me soltou quando chegamos no vestiário, ao mesmo tempo em que eu olhei para a poça de água que se alastrava pela minha blusa onde Isaac tinha segurado.

—Meu Deus, Isaac, será que dá para você não me deixar molhado? — Comentei. Minhas roupas ainda estavam cheias de terra e a única coisa que eu não precisava era virar um boneco de lama ambulante.

Isaac trincou o maxilar e pareceu prender a respiração. Depois ficou vermelho e começou a olhar para o chão. Nem forcei a minha mente para saber o porquê. Aquele cara ficava mais entranho a cada dia...

— O que você está fazendo aqui? Não tinha sido afastado ou alguma merda do tipo? — Ele estudou meu rosto mais atentamente. — Você não é realmente o Erik, é? Quem você é hoje? Dr. Jekyll ou Mr. Hyde?

Cocei a cabeça tentando achar um jeito de encurtar aquela conversa o máximo possível.

—Escuta, Isaac, eu não tenho tempo de ficar com essas porcarias de joguinhos com você agora, tá bom? — Esclareci, antes que a coisa tomasse outro rumo. — E você provavelmente sabe o que eu estou fazendo aqui. Ou esteve no fundo daquela piscina por todo o dia de ontem?

Isso fez com que Isaac parasse de procurar a dignidade no chão e voltasse a me encarar como se tivesse lama na minha cara. E provavelmente tinha.

— É por causa daquela história de você ter tentado se matar?

Assenti cuidadosamente.

—O problema é que isso não é uma história. — Contei a ele.

Isaac piscou por alguns segundos, como se a mente dele tentasse desvendar uma mensagem criptografada.

— Era sério?

— O que você acha? — Respondi impaciente. — Mas eu não vim aqui pra ter um consulta terapêutica com você, ok? A questão é que alguém espalhou isso para a escola inteira e a coisa toda saiu do controle. E agora, como você já deve imaginar, eu estou atrás do bastardo que fez isso!

O rosto de Isaac nublou de repente e ele olhou para mim de cara fechada.

—É por isso que você está aqui? — Apontou. —Para descobrir se fui eu?

Se eu não o conhecesse até diria que ele pareceu um pouquinho magoado, mas como eu achava que isso era impossível de acontecer, não dei muita bola. Apenas me apressei em dizer:

— Ah, não. Claro que não. Em momento algum achei que você fosse o autor dessa zona. — Dispensei. — Você jamais faria algo tão óbvio desse tipo. E, caso a sua infantilidade atingisse esse nível, você estaria assistindo o circo pegar fogo de camarote. E não nadando em uma piscina como se fosse a pequena sereia ou algo assim.

A postura de Isaac ficou rígida e de novo um leve tom de vermelho atingiu seu rosto.

Mas que porra era essa? Ele estava doente ou algo assim?

— Então o que é que você quer? — Ele me perguntou, claramente incomodado.

— Eu já disse! Quero saber quem foi. — Repeti, mas Isaac continuo olhando para mim com tanta presença de espirito quanto um pato de borracha. Precisei ser completamente explicito para o cérebro dele entender: — Tudo bem, pequeno Nemo, eu quero que você descubra quem fez isso, certo?

Isaac fixou os olhos em mim e me encarou por um logo tempo antes de soltar uma risada debochada e começar a agir como se eu tivesse pedindo para ele se transformar em uma capivara azul. Soltei um suspiro. Ia dar um tremendo trabalho fazer com que ele entrasse na minha. Muito mais trabalho do que eu havia planejado...

— Tá falando sério? — Ele soltou quando percebeu que eu não estava achando muita graça naquela merda toda.

— É claro que eu estou falando sério. — Resmunguei. — Você é o cretino chefe que coordena esse bando de macaco adestrado. Então ninguém melhor para resolver todo este caralho, não acha?

Pensei que ele ia explodir em gargalhadas. E se ele fizesse isso, eu não sei se poderia conter o meu punho de acertar o que restou da cara dele. Eu podia ver o ego de Isaac se inflando como um balão a quilometro de distância.

— Eu posso estar enganado, mas... Essa não é a melhor postura pra alguém que está pedindo um favor.

— Não estou pedindo um favor. — Cortei, mas Isaac ignorou.

—Seu orgulho está decaindo, Erik? — Falou de maneira sarcástica. — Nunca pensei que viveria o suficiente pra ver você me pedindo pra salva a sua pele...

Senti a veia em meu pescoço pulsar.

—Ah, pelo amor de Deus, não fode comigo hoje! — Rosnei entredentes. — Você sabe que essa droga toda indiretamente é culpa sua, não sabe? Por causa desse seu comportamento ridículo e rancoroso que as coisas ficaram desse jeito. Tem consciência do quanto isso faz de você um grande filho da puta?

Isaac desviou os olhos e apertou os lábios. Quase me fez acreditar que ele sentia alguma coisa parecido com “ culpa”. Mas para isso, era preciso ter um coração, e essa ideia já havia sido descartada.

— Sim, já fui informado disso por você. — Ele respondeu. — Agora, se foi só pra isso que veio, já pode ir. A minha resposta é “não”.

Isaac nem me deu a chance de resposta ante de passar por mim e fazer o caminho contrário de volta para a piscina.

Eu fui logo atrás.

— Não me venha com essa merda de “não”. — Eu o segurei pelo ombro. — Isso não é uma negociação. Eu estou bancado o advogado do diabo só por estar falando com você!

Isaac se virou de novo para mim e suspirou.

— Não. — Ele repetiu — E eu realmente não sei o que te fez pensar que eu faria algo por você. Principalmente em relação a isso. Então, só pra esclarecer: O fato de eu não estar participando disso, em nenhum momento significou que eu me importo com o que acontece com você.

Perdi completamente a paciência.

— Ah, garoto, para de agir como se você fosse o lorde negro dos Sith! — Esbravejei. — Olha, sinceramente, eu sinto muito pelo o que aconteceu com você na sua infância e tudo mais, tá bom? Mas francamente, isso não é desculpa pra você ser um babaca o tempo todo. Quer dizer, a sua vida foi difícil? Porra, e você acha que alguém aqui teve uma vida fácil? Eu morri com dezessete ano de idade, cacete! Está todo mundo no mesmo barco, meu amigo!

Isaac franziu o cenho.

— Eu não tenho a menor ideia sobre o que você está falando...

— Você sabe muito bem sobre o que eu estou falando! — Apontei. — Então, Isaac, recolha o que sobrou da sua dignidade, e vamos começar toda essa droga de novo, ok?

Isaac me deu um sorriso de escarnio antes de saltar de volta para piscina, como um verdadeiro nadador profissional. Ele emergiu logo em seguida.

—Você quer que eu faça isso pra você? — Ele provocou. — Então me pegue.

E... Esse é um dos meus problemas. Eu sou um bastardo competitivo para caramba. De modo que as palavras de Isaac surtiram efeitos imediatos no meu espirito.

— Então tá!

E foi por isso que, antes que o meu bom senso me atingisse, eu me peguei correndo em direção a enorme piscina e me atirando dentro dela. Acredito que aquilo tenha surpreendido Isaac um bocado; tenho certeza que ele pensou que eu jamais faria algo como aquilo. Até porque, tecnicamente, Erik jamais entraria em uma piscina em sã consciência.

Mas o que mais eu posso dizer? Ideias ruins me dominam muito facilmente!

Afundei imediatamente. E água estava ainda mais gelada do que eu tinha imaginado. Pensei que poderia ser uma daquelas piscinas com aquecedor, mas, se era, esqueceram de ligar naquele dia. Também notei que não era só uma piscina normal. Era um tipo de piscina olímpica, ou seja, mais funda do que o necessário.

Bem, mas não entenda errado. Eu não pulei lá dentro com o mesmo ímpeto que, por exemplo, o Erik pularia. Quer dizer, eu não estava pensando em morrer nem nada assim. Até porque, mesmo que ninguém ali soubesse disso, eu sabia nadar. Não era nenhum Michael Felps, é claro. Mas sabia o suficiente pra não morrer afogado. Porém Isaac mergulhou com diferença de poucos segundos logo atrás de mim, e antes que eu pudesse mostrar a ele que as minhas habilidades aquáticas não eram de todo ruim, ele já estava me agarrando pelos ombros e me puxando de volta para a superfície.

Certo. Eu fiquei com um pouco de raiva daquilo. Quer dizer, eu não queria que ele me resgatasse ou algo assim. Eu ia emergir de qualquer forma. Eu só queria ver a cara de paspalho dele primeiro. Eu não pensei que me subestimaria o suficiente para ir me salvar, caramba!

Isaac só me soltou quando chegamos a parte rasa. E não totalmente por falar nisso. Ele continuou com as mãos no meu ombro enquanto me encarava como se a qualquer instante o olho que tudo vê fosse aparecer na minha testa.

Eu estava muito ocupado tentando recuperar o folego para dizer alguma coisa, então Isaac falou:

— Você ficou louco? — Certo, ele gritou.

— Você me desafiou, lembra? — Respondi a ele, mas meus dentes começaram a bater e provavelmente essa frase saiu com mais silabas do que o necessário. — E não é como se eu tivesse algo a perder. A fama de suicida eu já tenho mesmo.

Isaac me sacudiu, fazendo meu cabelo molhado balançar. Ele parecia a ponto de ter um colapso nervoso. Fiquei com vontade de rir, porque ele quase me lembrou o meu irmão. Quase.

— E aí você resolve morrer na minha frente? — Ele continuou berrando. — Sério, qual é o problema com você?

Ao ver Isaac se comportando tão agitado, acabei deixando um sorriso vitorioso surgir e o segurei pelo queixo.

Eu o peguei! Acordo é acordo.

— Sinto muito por te assustar, Ariel. Agora, vamos parar com os jogos. Seja um bom garoto e vá fazer o que eu te pedi, ok?

Notas finais
Eu sempre fico torcendo para ter um feriadão onde eu consiga ter tempo livre e criatividade para poder escrever. E graças a Deus, isso rolou ( embora seja mais porque estou doente e sem poder sair da cama) o/ Obviamente estou com um trabalho para entregar, mas a gente supera kkk Então gente, a história está entrando na reta final ( Não exatamente, já que ainda falta uns... 10 cap., eu acho haha) e eu ja começo a me sentir triste :´) A cada capitulo me sinto feliz, e triste ao mesmo tempo. Dá pra entender? Haushuas mas é isso. Espero que tenham gostado e até a próxima! ps: Torçam para que eu passe bonitinho nesse semestre para que tenha mais capítulos U.U Grande beijos, babys ♥