Mais cinco minutos, talvez?

21 capítulo 21- Diego.


Notas iniciais
Disse que eu iria e eu vou embora um dia Antes que meu coração comece a queimar Então, qual é o problema com você? Cante para mim algo novo Você não sabe? O frio, o vento e a chuva não sabem Eles apenas parecem vir e vão embora (Stand By Me- Oasis) Olá, pessoas que provavelmente acharam que eu nunca mais iria voltar kkkk Turu bom? Bem, gente, peço imensas desculpas de coração pelo tempo muuuuuuuito longo de hiatos, mas realmente não estava dando nos últimos meses. Minha faculdade está me desgastando física e mentalmente de uma maneira incalculável e no curto tempo de trégua que eu estava tendo só queria descansar. As coisas não melhoram ainda, porém, estava com muita saudades de escrever, por isso... Comeback! Espero que gostem desse capítulo e muito obrigado a todos os favoritos o/ É isso! Beijinhos :**

Para a surpresa de ninguém, peguei um resfriado dois dias depois daquilo.

Certamente, se você me perguntasse três meses atrás, eu diria que a possibilidade de eu acabar acamado por causa de uma gripe era de praticamente 0%. Eu tinha uma saúde boa demais para isso. Quer dizer, eu nem mesmo costumava ir para hospitais não importava o quanto eu era socado, chutado, mordido ou rasgado. Então, em teoria, uma gripe jamais seria capaz de me derrubar.

No entanto, era exatamente nessa situação ridícula e idiota que eu me encontrava.

— Muito bem! — A mãe do Erik me parabenizou enquanto encarava o termômetro. — Você está com uma febre de 38ºC! O que tem a dizer sobre isso?

— Que eu estou com muito sono e nem um pouco a fim de conversar. — Respondi com uma voz anasalada, puxando o cobertor ainda mais para cima.

Eu tinha sido afagado e entupido de remédios como se, em vez da porcaria de uma gripe, eu estivesse com alguma doença terminal. E o pior de tudo isso é que eu estava tão fraco que não tinha forças nem para reclamar. O meu nariz estava escorrendo, o meu corpo estava doendo, minha cabeça parecia que tinha vida própria e estava descaradamente declarando guerra contra mim e respirar era tão cansativo quanto correr de uma manada de búfalos histéricos. Então o que mais eu poderia dizer?

— Deus do céu, Erik! Você precisa ser mais responsável com a sua própria saúde. —Fui censurado pela milionésima vez. — Você não é mais criança para fazer esse tipo de absurdo. Por que veio para casa todo molhado daquele jeito?

Porque eu estava na droga da escola tentando convencer um panaca a colaborar comigo, é claro. Porém, o panaca me enrolou por tempo o suficiente de eu quase ter uma hipotermia, porque estava na dúvida se mantinha a palavra ou o orgulho e acabou que precisei sair de lá antes de receber uma resposta satisfatória. Em resumo, eu estava com tanto ódio da situação que a minha vontade era de voltar no tempo e arrancar a coluna dele pelos olhos!

...Mas obviamente não foi isso que eu disse a ela.

O que eu disse, na verdade, é que fui dar uma volta no parque e imbecilmente cai no chafariz. E por mais idiota que isso me fizesse parecer, era melhor do que simplesmente dizer a verdade. Esse, aliás, também foi o motivo de eu não ter trocado de roupa na escola. Afinal, como eu poderia explicar de uma maneira descente o fato de eu ter saído vestindo roupas casuais e voltado de uniforme para casa? É, pois é. Isso certamente evitou várias perguntas, mas me custou muitos pontos de saúde.

— De qualquer forma — Ela continuou. — Se sua febre não abaixar até o fim da tarde, te levaremos para o hospital. Entendeu?

— Entendi! — Concordei prontamente. Naquela hora eu estava disposto a concordar até se ela me pedisse para botar um ovo de avestruz pela boca, desde que isso fizesse ela ir embora.

Mas antes que a culpa de todo esse infortúnio seja jogada completamente sobre mim, preciso deixar bem claro que o fato de eu ter mergulhado na piscina em pleno inverno não foi a coisa que desencadeou aquilo. Ou pelo menos, não a única coisa. Até porque, do meu ponto de vista, eu tinha feito um trabalho excelente me descongelando na banheira de água quente assim que cheguei em casa. Mas aparentemente o fato do Erik resolver dar um passeio de madrugada, somado a todo o estresse que ele (e eu também, porque convenhamos...) estava passando, acabou resultando em uma imunidade muito baixa. Fora, é claro, a pré-disposição a ficar doente que ele próprio já tinha.

Por falar nisso, “Como o Erik ficou com tudo isso?”, você me pergunta. “Bem melhor do que eu, com certeza”, eu te respondo.

Quero dizer, eu não sei se o Erik sabia realmente a verdade sobre Isaac e a piscina. Mas seja lá qual for a resposta, ele apenas não se importava. Ele não fez nenhuma pergunta sobre o assunto. Apenas concordou com qualquer coisa que eu tenha dito. Digo, É claro que eu disse a ele, parcialmente, sobre ter ido à escola e tudo mais. Porém, mesmo depois de quase ter uma crise de hipotermia, ele apenas disse:

— Tanto faz. Não é como se fizesse alguma diferença... — Com exatamente essas palavras.

Quando ouvi isso, realmente cheguei a pensar que ele estava com raiva de mim de novo. Mas quanto mais eu pensava, mais apática aquelas palavras me soavam. Então, conclui que ele apenas ainda estava chateado pelo que tinha acontecido. Por isso não me esforcei muito em arranca-lo do próprio luto. Deixei para fazer isso depois de conseguir alguma conclusão. E eu realmente esperava conseguir uma.

Embora eu não tenha achado muito justo que depois de tudo isso, Erik ainda precisasse lidar com a porcaria do resfriado. E esse era o principal motivo pelo qual eu, e não ele, estava arrancando o couro do nariz em lenços de papel e sendo acordado de oito em oito horas para tomar antitérmicos. E também era justamente por saber de tudo isso que eu não estava nem um pouco preocupado com o fato de passar o fim de semana inteiro dormindo.

E foi o que eu fiz. Durante seis horas abençoadas de trégua, me afundei confortavelmente na terra dos sonhos. Só acordei um pouco depois das oito. Da noite, quero dizer.

E melhor dizendo, fui acordado.

— Hum — A mãe dele tinha voltado. — Erik?

— O quê? — Eu gemi com a cabeça embaixo do cobertor. Pelas minhas contas, ainda não era hora de nenhuma medicação e nem de medir temperatura. E, a não ser que a casa estivesse sendo invadida por hipopótamos guerreiros, eu realmente não conseguia pensar em nenhum bom motivo para ser acordado.

— Você tem visita. — Ela anunciou como quem anuncia uma pena de morte.

E eu só consegui pensar em como aquela era a hora perfeita para receber visitas. Sério! Quer dizer, eu estava descabelado, com o nariz e os olhos inchados, com sono e parecia que eu tinha passado a noite inteira dando uns amassos na morte! Quem iria querer visitar uma pessoa assim? Quem iria querer visitar Erik Bryan em qualquer hora do dia, aliás?

— Quem é? — Decidi que dependendo do nível de importância, eu nem me daria o trabalho de abrir os olhos.

— Isaac. — Dessa vez o tom dela foi de alguém nomeando um carrasco. O meu, provavelmente.

Fiquei calado por alguns segundos absorvendo as informações.

Isaac?

Isaac tinha ido me visitar?

Não mesmo! Quer dizer, ele poderia até ter ido até lá e tudo mais. Mas exclusivamente para me visitar? Eu duvidava muito. Era mais provável que ele tivesse feito o dever de casa que eu havia pedido. Nesse caso eu não me importaria de deixar meu sono de lado por alguns minutos.

— Diga a ele que se estiver com o que eu quero, pode deixá-lo entrar. Caso contrário, apenas mande-o ir para o inferno. — Falei por fim.

— Erik! — Ela me censurou, ao mesmo tempo que outra voz se sobressaiu:

— Eu tenho algo que é do seu interesse.

Isso mudou imediatamente meus ânimos e eu me levantei alegremente para recebê-lo. Ou com o máximo de alegria que uma pessoa febril e doente pode ter, o que não é muita, mas enfim. Me apoiei nos cotovelos e acendi a luz do abajur.

— Nesse caso, seja bem-vindo! — Falei, com falsa doçura.

Vi Isaac revirar os olhos e murmurar um mudo “ hipócrita imbecil”, mas ignorei. Principalmente porque a senhora Bryan olhava para nós dois de uma maneira bem intrigada.

— Vocês voltaram a ser amigos? — Ela parecia horrorizada e encantada ao mesmo tempo.

— Não somos amigos. — Isaac e eu respondemos imediatamente, como se fosse óbvio.

— Ele apenas está me fazendo um favor. — Expliquei. — E provavelmente salvando umas duzentas almas do purgatório ou algo assim...

Ela olhou para mim e franziu o cenho.

— Bem, tanto faz. Eu só espero que vocês não se matem. — Ela declarou de uma forma quase desesperada, apontando justamente na minha direção. — É sério! Eu não aguento mais!

Assim que a porta bateu atrás dela, o rosto de Isaac passou de anjo querubim ao senhor dos demônios em questão de segundos. Eu já estava tão acostumado com aquela ambivalência dele que nem me alterei. Apesar de ter sido engraçado quando ele me encarou de cima abaixo com uma carranca de reprovação.

— Essa não é a novidade do ano, mas você está uma coisa nojenta.

Pela primeira vez na vida, concordei com Isaac.

Eu tinha me sentado na cama e enrolado o cobertor nos ombros. A minha cara ainda estava terrível e o meu nariz não parava de escorrer, então ficava fungando de tempos em tempos. Eu tinha me transformado em uma linda bola de febre e ranho.

— E de quem é mesmo a culpa por eu estar assim? — Perguntei nem um pouco simpático.

— Da sua própria burrice. — Disse de maneira adocicada.

Não que eu estivesse com uma expressão muito boa, mas fechei a cara no mesmo instante.

— Ah, dá um tempo! — Resmunguei. Eu tinha passado os últimos dias ouvindo sermões e mais sermões dos pais do Erik. Certamente eu não precisava de Isaac para fazer o mesmo. — Você realmente conseguiu descobrir alguma coisa?

Um sorriso arrogante e descarado se formou no rosto dele.

— Lógico que consegui. Ou você acha que eu não tenho nada melhor para fazer durante um sábado à noite além de ficar vendo você limpar as melecas do nariz?

— Então diz logo o que você veio dizer e cai fora daqui, cacete! — Eu não estava com paciência para provocações.

— Antes disso, vamos falar de negócios. — Ele disse simplesmente juntando as palmas, como um diretor executivo prestes a começar a apresentar sua proposta. Por um minuto, jurei que ele tiraria um Datashow do bolço e me faria assistir uma apresentação em PowerPoint. — Eu tenho as informações que você quer e eu posso compartilha-las. Porém... O que eu vou ganhar com isso?

Aquele realmente era um péssimo momento para Isaac resolver jogar comigo. Só ele não tinha percebido isso ainda.

— Vai ganhar eu não te dando um soco na cara. — Repliquei sem conter a raiva. — Você esqueceu o que aconteceu naquela piscina ou acha que eu tenho como hobbie dar mergulhos de roupa e tudo? Francamente, Isaac, nada me tira mais do sério do que gente me fazendo de idiota; então mesmo que eu esteja doente, eu vou levantar daqui e eu vou te atirar pela porra da janela se você estiver brincando com a minha cara.

Porém, convenhamos, eu não estava no ápice da minha aparência mais intimidante. Não mesmo. De modo que eu nem mesmo culpei Isaac por revirar os olhos para mim nem um pouco abalado.

— Primeiro que, como eu disse, pular na água foi estupidez da sua parte. Segundo que você pode dizer o que quiser, mas parece precisar de mim mais do que eu de você. — Disse com o tom de voz calmo. — Eu particularmente também não gosto de pessoas mentirosas, e sabe disso muito bem. Porém eu não vou fazer nada sem ganhar algo em troca. É bastante justo.

O pensamento que explodiu na minha cabeça naquele momento foi: Maldito panaca mercenário! Se não fosse tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo eu jamais teria pedido qualquer coisa a ele. Certamente nenhuma pessoa sã e responsável pediria qualquer coisa a alguém tão ridículo.

Mas a questão é justamente que eu não era uma pessoa sã. Muito menos responsável.

— E o que é que você quer de mim?

Ele me estudou cuidadosamente por um tempo antes de dizer qualquer coisa, como se quisesse ter certeza de que usaria aquela vantagem sobre mim com muita sabedoria. Até que com um suspiro pesado, disse:

— Responda sinceramente as minhas perguntas. Apenas a verdade dessa vez. — Ditou.

Continuei olhando para a cara dele, piscando sem muito interesse, esperando que mais coisa estava por vir, mas não veio. Quer dizer, estava imaginando que Isaac podia me pedir muitas coisas: Massagens nos pés, comida, dinheiro, levar o cachorro para passear, faxina na casa, coisas ilegais ou impróprias para horário... Enfim, era uma lista bastante diversas de coisas que ele poderia querer de mim, mas... certamente algo tão estupido não tinha passado pela minha cabeça.

— Só isso? — Perguntei.

Isaac se aproximou ainda mais do que deveria e levou a mão ao meu queixo, levantando minha cabeça em direção a ele e me observando como se fosse algum tipo de professor astuto prestes a pegar seu aluno colando. Eu reconheci aquele tipo de olhar. Ele estava me julgando.

— A verdade. — Ele frisou. — Eu já ouvi todas as respostas evasivas possíveis vindas de você, então não caio mais nelas. Não tente me enrolar como você sempre faz.

Tirei a mão dele do meu irritado rosto.

— Eu não entendo porque insistir tanto em encher o saco com algo que nem é realmente da sua conta.

Nada de bom acontecia quando alguém se metia demais na vida caótica de outra pessoa. Eu sabia disso melhor do que ninguém. E as coisas já estavam bem ruins sem Isaac para atrapalhar.

Mas aparentemente ele não pensava como eu, e por isso ainda se deu ao luxo de ficar com raiva:

— Como assim isso não é da minha conta? É por sua culpa que ultimamente eu tenho estado... — Porém Isaac parou de falar como se tivesse mudado de ideia na metade do caminho, respirando fundo e tentando formular algo melhor. — O motivo não é o foco no momento. A questão é que você quer algo de mim e eu quero algo de você. Podemos entrar em um consenso?

Eu não podia ver o futuro nem nada do tipo, mas se fosse para dar um palpite, diria que Isaac tinha um futuro promissor como advogado de porta de cadeia.

Então pensei comigo mesmo: Certo, e daí? Quer dizer, e daí se Isaac soubesse? Eu e o Erik já estávamos ferrados de qualquer forma. Que diferença isso faria? E considerando a pessoa com que eu estava falando, era um preço bem mínimo a se pagar, se parar para pensar. Não tinha como alguma coisa em relação a isso piorar. Sem falar que esse era eu. Diego, o contador de verdades. Minha vida era ser um livro aberto. Contei a verdade ao meu irmão, ao Erik e agora, — por que não? — a Isaac.

— Bem, tanto faz. — Eu disse a ele finalmente. — Apenas diga logo o que você descobriu e depois eu respondo o que você quiser.

— Não confio em você. — Ele soltou imediatamente. — Preciso de alguma garantia primeiro.

Revirei os olhos para descrença dele. Isaac esperava o quê mais de mim? Que iriamos fazer um ritual à meia noite usando um punhal centenário para nos cortar e depois fazer um pacto de sangue? Eu não ia fugir como um criminoso. Eu nem conseguia sair da cama!

—E eu não confio em você mais do que você em mim, considerando que já fui enrolado antes. — Dispensei. — Então vamos ter que tentar a sorte ou passar a noite toda nisso. Você quem sabe.

Isaac me estudou por alguns segundos ponderando a situação. Eu sabia que aquilo era complicado. Esse era o nosso problema: Nós dois tínhamos uma personalidade que gostava de discutir, e jamais gostava de perder.

Por isso não fiquei surpreso por ele não ceder.

— Me diga o seu nome. — Ele jogou para mim. Percebi que ele se esforçou para fazer o tom de voz parecer uma ordem, mas saiu mais como uma súplica.

Pisquei sem interesse para ele.

— O meu nome? — Repeti depois de um tempo. A coisa nem tinha desandado ainda e eu já estava com dor de cabeça de novo. — Você já não sabe a droga do meu nome?

Isaac balançou a cabeça para mim, como uma naja prestes a dar o bote.

— Você sabe que não é disso que estou falando.

E, de fato, eu sabia. Então nem valia a pena fingir que não.

Eu o encarei com o cenho franzido.

— Que diferença isso faz pra você?

— Toda; nenhuma. Vai depender do que você me responder.

A parte cretina e rebelde de mim teve vontade de rir e desconversar. Porém, eu estaria descaradamente me esquivando de algo que estava claramente explicito. Por isso resolvi me poupar folego.

E que se dane! Era só um nome, certo?

— Diego. — Eu disse depois de um tempo. — Esse é o meu nome. Certo? Quer o número do meu CPF também?

Mesmo que a minha expressão estivesse claramente fechada, eu reconhecia o fato de que aquilo tinha sido um pedido simples, com uma resposta mais simples ainda. Mas por algum motivo, ao fazer isso, me senti mais exposto do que se ele tivesse me pedido para tirar a roupa. Era como se algo estivesse errado de alguma forma.

— Diego — Isaac repetiu, como se fosse uma palavra alienígena. — Não combina muito com você...

— Nesse corpo, não. — Concordei olhando para minhas mãos. — Mas combinava... Antes.

Os olhos dele se apertaram para mim, como se tivesse acabado de ganhar alguma aposta lucrativa.

— Eu realmente não estava louco, no fim das contas. Vocês realmente não são a mesma pessoa — Isaac me olhava como se estivesse acabado de encontrar o santo graal — Inacreditável!

— Enfim! — Eu o cortei. — Não está na hora de meditar sobre os significados ocultos do universo. Está na hora de começar a falar.

Eu sabia que ele queria fazer perguntas. Estava escancarado na cara dele. Mas isso teria que esperar. E Isaac teve que aceitar isso.

Com um suspiro frustrado ele se recompôs.

— Certo — Disse por fim. — Indo direto ao assunto, eu descobri muitas coisas... interessantes nestes últimos dias. Por onde eu devo começar?

Dispensei as fofocas aleatórias. Eu tinha um foco e não me importei de especificar isso:

— Quem fez aquela bosta de cartaz?

Isaac não pareceu surpreso, de modo que ele tomou folego por apenas um momento antes de apontar para mim e dizer:

— Charlie Blake. — Porém seu tom de voz fez soar como se a resposta fosse bastante óbvia tanto pra mim quanto para ele.

Franzi o cenho e fiquei esperando que Isaac desenrolasse uma explicação além do nome aleatório, mas ele não fez. Apenas permaneceu me encarando com cara de parede mal rebocada.

— Tá, e quem diabos é Charlie Blake? — Perguntei quando percebi que Isaac não ia continuar.

Ele, por falar nisso, me olhou com uma expressão incrédula e cômica ao mesmo tempo.

— Está realmente me dizendo que você não sabe quem é?

— E eu deveria?

Isaac soltou uma risada bastante divertida e nenhum um pouco condizente com a situação.

— Bem, deveria... — Respondeu enfim. — Já que foi você quem quebrou o dedo dele e tudo mais.

Meu cérebro estava amortecido e com bastante preguiça de pensar naquele momento, então minha primeira reação foi de apertar meus olhos para Isaac e perguntar sobre que porra ele estava falando. Porém, no segundo seguinte, eu me lembrei.

Quer dizer, me lembrei no vago sentido da situação. Eu lembrava que tinha quebrado o dedo de algum fedelho da escola, mas se você me colocasse de frente com o infeliz eu provavelmente não o reconheceria de novo. E como poderia? Eu já havia quebrado dedos, e outras partes do corpo, de mais pessoas do que o meu cérebro era capaz de armazenar.

Mesmo assim, quando minha ficha caiu, um sentimento irritadiço tomou conta de mim. Não fiquei revoltado. Fiquei puto.

— Aquele babaquinha fedendo a mijo fez isso? — Minha voz saiu raspando em minha garganta e isso causou uma dor agoniante, mas eu estava puto demais para ligar. — Você só pode tá zoando!

Fazia sentido, mas não deixava de ser revoltante.

— Foi bem fácil descobri, pra falar a verdade. Como você disse, as pessoas me contam tudo. — Isaac falou presunçosamente, se sentando ao meu lado na cama. — E ele nem se incomodou em negar quando eu perguntei. Na verdade, confessou como se tivesse ganhado o prêmio Nobel de física por isso. Acho que ele achou que eu ficaria impressionado...

— É, eu aposto que achou. —Se eu soubesse que isso ficaria assim, eu teria quebrado os 27 ossos das mãos dele, em vez de apenas a droga de um dedo! Talvez isso ao menos me fizesse sentir melhor.

— Ele descobriu sobre a sua tentativa de suicídio quando foi ao hospital consertar o bendito dedo, sabe? — Isaac explicou como se lesse meus pensamentos. — A irmã dele é casada com o vice-diretor de lá ou algo assim. E quando Charlie contou a eles quem tinha feito aquilo, o seu nome sem querer veio acompanhado da palavra com “s”. O cara tava puto com você, descobriu um podre seu e usou isso pra te derrubar. De certa forma, realmente impressionante.

— Impressionante, o caralho! — Explodi para ele. — É sobre a porra da vida de alguém que estamos falando! Ele não pensou nas consequências?

— Você também não parece ter pensado muito quando quebrou o dedo dele. — Ele me acusou. — Charlie é do time de vôlei, e por causa do dedo quebrado precisou ficar fora dos campeonatos. Como esse é nosso último ano na escola, foi uma perda e tanto para ele.

Dei um olhar atravessado para Isaac.

— Tá tentando fazer com que eu me sinta mal pela situação? Porque não ta dando certo. — Avisei. — Na verdade, está fazendo com que eu te deteste mais do que eu já detesto, então é melhor a calar a boca.

Mas o problema é que Isaac não estava apenas sendo vaidoso em querer jogar aquilo na minha cara. Claramente eu tinha uma parcela de culpa muito alta pelo que tinha acontecido. Não ao tal Charlie, é claro. Eu tava cagando para a triste história de vida dele. Mas me refiro ao Erik, que sem querer acabou pagando o pato pela minha atitude, e provavelmente ficaria um bocado chateado quando eu dissesse a ele.

De repente eu não estava muito certo se ter mexido naquele ninho de vespa tinha sido uma ideia muito inteligente...

Bem, maldita seja a lei da causa e efeito!

— De qualquer forma, não é como se eu fosse dar apoio ao que aquele pateta esquisito fez, então isso não vai demorar muito a achegar aos ouvidos do diretor Carter. Não estou te prometendo nada, mas com sorte, pode ser que eles deixem você voltar para a escola até mês que vem... — Isaac continuou, mas eu não estava mais interessado em ouvir.

Eu não queria voltar para a droga da escola. Queria era deitar o tal Charlie Blake na porrada até eu me sentir satisfeito!

Mas em vez disso, apenas voltei a olhar para Isaac.

Bem, para dizer a verdade eu estava surpreso por ele ter se mostrado tão malditamente competente depois de tudo. Eu jamais colocaria minha mão no fogo por ele ou qualquer coisa do tipo, mas eu tinha que admitir que pela primeira vez ele tinha conseguido me surpreender positivamente.

— Bem, obrigado. — Eu disse, por esse motivo. — Por ter levado a sério o lance do cartaz, quero dizer. Não é como se compensasse metade das merdas que você já fez e tudo mais, mas ainda assim vale a pena ser reconhecido.

Acho que Isaac não esperava nenhum agradecimento formal nem nada assim, por isso não conseguiu disfarçar a cara surpresa.

— Certo. — Foi o que ele respondeu, meio idiota. — De nada.

— Mas não espere que eu vá cair aos seus pés em adoração, porque isso não vai acontecer. — Avisei. — Você me chantageou e eu estou doente por sua causa. Pra ser sincero, estou começando a fazer as contas para saber até que ponto isso foi vantajoso para mim e não estou conseguindo muita coisa...

— Eu não chantageei você. Nós fizemos um acordo. — Ele explicou como se eu fosse demente. — Que por sinal, está na hora de você cumprir.

E que outra escolha eu teria, não é mesmo?

— O que realmente você quer saber? — Meu tom saiu mais grosseiro do que eu queria, mas acredito que não fez muita diferença.

Isaac pareceu pensar cuidadosamente no que iria dizer, e eu achei isso particularmente bem inteligente da parte dele, porque meu PH para perguntas idiotas estava em -10. Naquele momento eu estava irritado, doente e impaciente. Era a combinação perfeita para um desastre, mas não seria eu a impedi-lo de continuar.

Por fim optou pela zona de conforto:

— Como realmente aconteceu de você acabar... Bem, desse jeito? — Ele apontou para mim.

Aquele era de longe o pior assunto para se conversar quando se está tendo dias muito ruins, como no meu caso. Principalmente porque sempre fazia eu me sentir um sobrevivente do apocalipse narrando a parte da minha vida que não existia mais.

No entanto, respondi mesmo assim:

— Na minha opinião, acho que não tinham mais nenhum outro ótario disponível para o cargo de trouxa do ano e me colocaram nessa situação. Então peguei uma moto, sofri um acidente e morri. Esse tipo de coisa catastrófica que você lê nos jornais, sabe? Depois acordei e do nada eu me chamava Erik Bryan e tinha acabado de tentar suicídio no meu quarto por causa de um imbecil que ficava enchendo o meu saco. — Olhei calmamente para ele. — Devo especificar quem é o imbecil?

Mas Isaac não se preocupou muito em responder minha indireta porque estava ocupado demais me encarando como se eu fosse algum tipo de doido que acidentalmente tinha caído de paraquedas em frente a ele. Aposto que ele não estava acreditando numa única palavra do que eu dizia. Eu com certeza não acreditaria.

Isaac apenas continuou me olhando com cara de paspalho.

— Qual a probabilidade de tudo o que você está me dizendo ser uma completa mentira novamente?

— Cabe a você decidir ser quer acreditar ou não. Eu particularmente não dou a mínima. — Eu disse sinceramente.

Mas algum crédito eu devia estar tendo, já que ele assentiu depois de um tempo.

— Então foi isso que aconteceu... — Ele disse sério. Não era uma pergunta.

— Foi isso que aconteceu. — Confirmei.

— Sinto muito. — Ele emendou e eu levantei meu olhar para ele.

Não deveria ter feito isso. Sério. Porque por algum maldito motivo o olhar de repulsa com que ele geralmente me encarava não estava lá. Simplesmente não estava mais lá! Muito pelo contrário. O olhar de Isaac parecia quase... complacente demais.

— Olha só, — Eu disse a ele. — Eu espero mesmo que o fato de eu estar te contando a minha história fodida de vida não esteja, sei lá, conquistando o lado caloroso e amável do seu coração. Então não espere que agora a gente vá se abraçar, chorar e preparar biscoitinhos um para outro, porque não vai rolar!

Vi os cantos dos lábios de Isaac se curvarem ligeiramente para cima.

— Não se preocupe. Vai precisar de um pouco mais do que isso para conseguir impressionar meu coração. — Ele disse voltando ao seu tom arrogante natural.

Isso fez com que eu suspirasse, literalmente, mais aliviado.

— Bem, de qualquer forma, é isso. Não há muito o que dizer. — Dei de ombros.

Achei que com isso, Isaac ficaria satisfeito e iria finalmente embora. Mas estava enganado.

— Você tem... Uma ligação direta com o verdadeiro Erik, não é? — Ele continuou.

— Fisicamente e mentalmente, sim. — Falei cansado. — Quer dizer, Pensamentos, sentimentos... As vezes as esquisitices também. Mas geralmente depende da intensidade da situação.

— O que aconteceu entre a gente no banheiro foi uma dessas situações? — Ele tacou a bomba sem hesitação.

O safado tinha me pegado. Quando ele tinha dito sobre perguntar qualquer coisa, eu estava sendo ingênuo o suficiente para pensar que Isaac estava apenas curioso sobre mim e o Erik. Tinha sido bem egocêntrico da minha parte pensar assim, eu reconheço. Porém, é claro, o demônio interior dele precisava falar mais alto.

— Você quer mesmo falar disso? — Devolvi a pergunta. — Quer dizer, pelo que eu me lembre, você estava bastante azedo com o Erik quando ele tocou no assunto...

— Não estou falando com o Erik agora, estou? — Foi a minha inacreditável resposta.

Abri um sorriso cheio de dentes para ele.

— Você é um cretino bem hipócrita, sabia? — Balancei a cabeça. — Bem, se você quer apenas uma resposta, eu posso dizer que o que aconteceu tem uma explicação puramente fisiológica. Porém, se você quer uma resposta sincera, não é comigo que tem que falar. É com o dono desse corpo. É nele que você está interessado.

A expressão de Isaac não se abalou nem por um segundo. Na verdade, o olhar dele pareceu ficar ainda mais afiado em minha direção.

E de novo, aquela sensação de que algo estava errado me atingiu.

— E se não for? — Ele disse simplesmente. — E se não for o Erik, a pessoa em que eu estou interessado?

Notas finais
É isso ♥ Espero voltar em breve o/ Vamos torcer pra que sim! kkk