Mais cinco minutos, talvez?
27 Capitulo 27- Diego
Notas iniciais
Minha mãe engravidou quando tinha 16 anos de idade.
Se pararmos para analisar desde esse ponto da história, posso dizer que os boatos de que nossa família terminaria indo por água baixo começou exatamente aí. Porque até onde eu sei, meus pais eram namorados de escola e ninguém botava muita fé nessa relação. Ele era um encrenqueiro vindo de uma família monoparental de uma emigrante de Porto Rico e ela era uma garota simples, filha de pais conservadores.
Oh, sim, meus avós eram muito conservadores, por sinal. Conservadores do tipo que expulsam a filha adolescente gravida porque a fama da família foi jogada na sarjeta, por exemplo. Bem, quero dizer, eu entendo que esse não era exatamente o futuro promissor que eles queriam para ela, mas aquilo foi muito cruel e desnecessário, convenhamos. Por isso, após ser abandonada pelos próprios pais, ninguém ficaria surpreso se ela fosse abandonada pelo namorado também.
No entanto, ao contrário do que todo mundo pensou que aconteceria logo de cara, meu pai, até então com 17 anos, um emprego furreca em uma pizzaria e nem um local para cair morto, aceitou essa notícia muito bem por sinal. Bem o suficiente para começar a planejar um casamento, quero dizer. Ele largou a escola no ultimo ano e arrumou outro emprego para manter a nova família, enquanto minha mãe precisou repetir o segundo ano porque saiu para ganhar o bebê.
E então, quando ela completou oficialmente 18 anos, eles se casaram.
Após isso, os quatro anos que se passaram entre o nascimento de Caleb e o meu, posso apenas dizer que a vida não foi muito fácil. Minha mãe começou a trabalhar como garçonete em uma lanchonete a 3 km de onde nossa vó paterna cuidava de Caleb, e meu pai começou a trabalhar como instrutor de boxe em uma academia durante o dia, e como manobrista em um restaurante, durante a noite. Como Caleb era apenas um bebê de colo e eu nem era nascido ainda, não lembramos ou sabemos muito sobre como a vida foi realmente fodida nesse meio tempo até as coisas se estabilizarem entre nossos pais, financeira e mentalmente falando. Mas isso certamente é um fato que marcou e influenciou muito o futuro dos dois, já que foi assim que meu pai descobriu sua tendência para o alcoolismo e minha mãe descobriu que adorava homens em jaquetas de couro.
Mas então veio a parte boa: eu nasci!
E peguei uma situação certamente muito melhor do que Caleb. Quero dizer, tínhamos um teto sobre nossas cabeças, comida na mesa e uma vida estável pelo menos. E minha mãe também não precisou lidar com muita humilhação, tristeza e desamparo quando soube da segunda gravidez. Na verdade, foi uma gravidez muito mais tranquila e planejada do que a primeira. Então eles ficaram felizes pelo segundo filho.
Fomos uma família normal por seis anos. Minha mãe também foi uma boa mãe nesse tempo. O que resta da minha memória sobre ela, são apenas coisas boas. Ela cuidava de mim e de Caleb muito bem, na verdade. Toda manhã, ela preparava minha lancheira do homem aranha e me colocava no ônibus da escola com um beijo de despedida, ajudava meu irmão nas lições de casa pacientemente e dava um abraço amoroso em meu pai antes e depois de voltar do trabalho. Uma rotina completamente normal, como qualquer outra família daquela rua.
Até que um dia ela deve ter se cansado de brincar de casinha com a gente.
Oh, meu pai não foi um mau marido ou nós fomos filhos ruins, que fique claro. Não, nada disso. Pelo contrário. Eu diria que éramos bons demais. Era uma família perfeita demais. E ela queria mais do que isso. Queria a liberdade dela de volta. E provavelmente a juventude que ela perdeu. Então na primeira oportunidade que apareceu, ela caiu fora.
Caleb foi o que mais se ressentiu com isso. Ele era mais velho que eu, e também foi o primeiro de nós três a chegar em casa e ver que as coisas dela tinha desaparecido naquele dia. E isso provavelmente foi bastante traumático para um garoto de dez anos, ter que contar para o pai e para o irmão mais novo que a própria mãe tinha ido embora...
Papai, por outro lado, nunca soubemos o que realmente se passou pela cabeça dele naquele momento. Bem, quer dizer, sabíamos em parte que ele estava arrasado, porque ele passou os três primeiros dias trancado dentro do quarto apenas com a companhia de uma garrafa de whisky; mas fora isso, ele nunca nos disse uma palavra contra ela. Imagino que ele queria que a mãe da nossa memoria e a esposa que ele teve durante aquele tempo, fossem coisas completamente separadas.
Por falar nisso, descobrimos que ela tinha fugido com outro cara porque a cidade inteira só falava sobre isso no dia seguinte.
Bem, a vida virou um inferno depois disso? É, virou. Mas Caleb e eu nos viramos como deu. Por um tempo era um saco ter que ouvir as pessoas falando mal de nós pelas costas. E ir para escola também era um porre, já que quando você tem seis anos, a noticia de que sua mãe foi vista com um motoqueiro deixando a cidade, gera muitas dúvidas. Na verdade, acho isso geraria duvidas em qualquer idade, mas crianças são chatas e cruéis nessa idade, então vale a pena frisar.
Acho que eu já estava de saco cheio quando um garoto qualquer, que eu nunca vi na minha vida, resolveu que era uma ótima ideia me perguntar como era ser filho de uma puta devassa. Honestamente falando, eu nem sabia que merda “puta devassa” significava, e tenho quase certeza de que ele também não, e estava apenas repetindo o que ouviu outros adultos dizerem, mas aquilo foi irritante mesmo assim. E por algum motivo eu não consegui pensar em nada para responder a ele que envolvesse palavras.
Em vez disso, eu joguei nele uma das cadeirinhas infantis do refeitório.
O problema é que aquela porra era feita de aço e o garoto perdeu alguns dentes da frente. Eram de leite de qualquer forma, então ele deveria me agradecer por ter economizado com o dentista. Só que ninguém mais viu isso de forma positiva, e após isso, eu fui encaminhado para o orientador pedagógico junto com meu pai, que foi chamado pela primeira vez na escola por minha causa para discutir “Minhas tendências violentas”. Só que, para minha surpresa, quando contei o que de fato tinha acontecido, ele não ficou com raiva. Em vez disso, ele riu como não tinha feito em tempos e disse que, apesar de ter exagerado, eu tinha feito bem. E, por mais bizarro que essa história possa parecer, foi assim que nossa vida começou a voltar ao normal após a partida dela...
— ... Mas que fique claro, não estou te contando essa merda pra que você faça essa cara de pena pra cima de mim! — Falei, apertando um pacote de costela de porco congelada com força contra o rosto de Isaac.
Há algumas horas antes, o pai de Isaac pareceu não muito satisfeito como o meu chilique repentino. Mas, bem, o que ele podia fazer contra mim? Me bater também? Certo, eu adoraria vê-lo tentar!
E acho que ele também sabia que isso era de longe uma péssima ideia, porque tentou se recompor, mesmo que a cara de galinha mal cozida que ele fazia, tenha ficado bastante evidente. Ele até mesmo me mostrou um sorriso amarelo e disse:
— Isaac é um garoto indisciplinado, Erik. Não entenda errado! — Ele tentou se desculpar. — Ele não me deu nenhuma notícia desde ontem, então eu estava preocupado.
Honestamente eu adoraria saber como entender certo o fato de você mostrar sua preocupação agredindo seu próprio filho gratuitamente, mas de fato não conseguia. E então pedi para que ele me explicasse melhor. Só que o bundão não sabia como explicar isso, obviamente. Então em vez disso, deu um olhar pesado para Isaac como se ele tivesse a obrigação de consertar aquela merda toda.
Isaac não o enfrentou diretamente, mas se manteve em silencio, quase como forma de protesto. Ele abaixou a cabeça e fitou o chão como se fosse encontrar uma passagem para outro mundo, ali mesmo, no hall de entrada da casa do Erik.
Em vez disso, quem falou fui eu:
— Também não dei nenhuma explicação quando desapareci ontem e nem por isso alguém precisou me dar um tapa por isso. — Daí lembrei que a minha cara ainda estava destroçada por causa da noite anterior e aquilo ficaria parecendo uma grande piada da minha parte. — Sem falar, Isaac é meu convidado. Não é como se você pudesse simplesmente decidir que ele está incomodando sem nem saber o que está acontecendo.
Sim, Isaac estava incomodando e não, ele não era meu convidado nem de longe. Aliás, eu nunca tinha convidado ele pra lugar nenhum e alguns minutos antes eu adoraria que ele caísse fora do meu quarto; mas naquele momento, era melhor que o pai dele pensasse que sim, já que isso fez o constrangimento ficar ainda maior.
— Seu convidado? — Ele pareceu positivamente surpreso. — Não sabia que vocês haviam voltado a ser amigos! Sempre pareciam tão incomodados quando estavam perto um do outro, que eu pensei que...; mas se este é o caso....
— Vamos apenas embora, pai. — Isaac interrompeu de repente, sem esconder o desconforto na voz. — Não foi por isso que veio, afinal? Para me levar pra casa?
— Isso foi antes! — Ele deu um sorriso, um tanto quanto nojento. — Não sabia que estava em bons termos com o Erik novamente. É bom que tenham amadurecido o suficiente para voltar a parceria...
Do jeito que ele falava, parecia que eu e Isaac estávamos fechando um contrato.
— Sinto muito por isso novamente, Erik. Não queria incomoda-lo. — Ele voltou a pedir desculpas para mim, como se todo os últimos cinco minutos não tivesse sido nada significativo. — Isaac pode ficar o tempo que quiser. Espero que vocês tenham um bom entendimento juntos. — Então e ele se virou um pouco rabugento para a mãe do Erik que ainda estava calada no topo da escada. — Por que não me avisou sobre isso, Felícia? Teria impedido esse constrangimento...
Não prestei mais atenção no que ele disse após isso, porque estava olhando para os punhos cerrados de Isaac. Ele tinha sorte de manter as unhas tão bem aparadas, ou as palmas das mãos estariam sangrando tamanha era a força com que ele apertava.
Ele não olhou para mim, e se eu tivesse que chutar um palpite, esse é um daquele momentos em que ele acha que odeia o Erik mais do que odeia o próprio pai. Mas nós sabemos que no fundo não é realmente assim. Então, enquanto ele me odiava, ou odiava a minha cara, eu o arrastei para cozinha, abri o freezer e catei a primeira coisa congelada que achei lá dentro, no caso as costelas de porco.
Depois contei a ele a história da minha família.
— Não sabia que isso havia acontecido com você... — Isaac disse, depois de um tempo. E eu jurei a mim mesmo que se ele me dissesse “sinto muito” ia acabar vomitando.
Não precisávamos de pena, obrigado!
— Estou te contando isso por dois motivos. — Eu me debrucei contra o mármore da bancada da pia, enquanto olhava para Isaac que apertava as costelas de porco na cara. — A primeira é porque achei justo compartilhar com você como todo mundo tem uma parte meio fodida na família. E a segunda... É porque descobri recentemente que minha mãe está de volta.
Um olhar chocado cruzou o rosto de Isaac por uns segundos.
— De volta? — Ele perguntou. — Por sua causa? Digo, por causa do que houve com você?
Soltei um riso e balancei a cabeça negativamente, enquanto desenhava círculos com o dedo no mármore.
— Não, porque ela vai se casar novamente. — Falei suavemente e então levantei o olhar para Isaac. — Com o crápula do seu pai.
A cozinha afundou em um silencio temeroso após isso. Bom, para ser mais exato, o barulho das costelas de porco congelada caindo no chão quando Isaac as soltou devido o choque, fez um estrondo bastante alto, mas após isso... Nenhum de nós falou nada.
— Por que... Eu sinto que isso não é uma piada? — Ele foi o primeiro a quebrar o silencio, perguntando pausadamente.
— Porque não é. — Eu disse simplesmente, da mesma forma que fiz quando contei a ele sobre mim e dei a escolha para ele acreditar no que quisesse. — E porque sei que não se resolve um problema quando não se fala sobre ele. Na verdade, essa não é exatamente minha filosofia de vida, mas aprendi isso nos últimos dias e estou botando em prática.
Isaac abriu a boca, mas não parecia saber o que dizer. Não pude culpa-lo. Se fosse o contrario também não sei se saberia o que dizer.
— Como sabe disso? — No entanto, se de fato fosse o contrário, esse não teria sido meu primeiro questionamento.
No entanto, não tinha nenhum problema para dizer a verdade a Isaac:
— Ontem, quando você veio chorando para cima de mim me falando sobre o casamento do seu pai, meu irmão também me ligou dizendo que ela estava de volta e que iria se casar. Acreditei que fosse uma coincidência, mas então você me disse o nome dela e eu não acho que exista tantas coincidências assim... — Contei, então sorri sem humor para ele. — E você disse que ela era uma mulher que não se importava com os filhos. E eu sou um desses filhos.
Isaac levou a mão ao rosto e o esfregou na própria cara. Ele parecia chocado, ou descompensado demais para tudo isso. E eu entendia muito bem o que ele estava sentindo agora. Uma enxurrada informação, todas de uma vez? É, não é fácil lidar com isso....
— É por isso que você estava bebendo ontem... — Ele não questiona, porque está bastante obvio agora.
— É por isso que eu estava bebendo ontem. — Confirmei. —Sem falar que, legalmente falando, estamos a um passo de nos tornar irmãos.
— Eu não tenho irmãos! — Ele rebateu com asco.
Dei a volta pela bancada das cozinhas e parei ao lado de Isaac, dando uma palmadinha solidaria em seu ombro.
— Bom, agora você tem. Dois. — Contei os fatos. — E por mais que eu saiba que você quer surtar, preciso que faça isso mais tarde.
Os olhos dele viraram em direção a mim quando me aproximei. Sorri com sinceridade para Isaac e então deslizei minha mão para sua parte traseira.
O corpo inteiro de Isaac se enrijeceu imediatamente, mas eu não prestei atenção, porque estava ocupado procurando algo.
—O... O que você está fazendo? — Eu não sei se ele estava reclamando ou se só estava curioso.
Mas eu já tinha encontrado meu objetivo e assim que tirei o celular do bolso de trás da calça de Isaac, balancei o objeto na frente dele.
— Estou roubando seu celular. — Anunciei. — Não vou devolve-lo, então é bom que você tenha backup do que você gostaria de manter.
Quando Isaac notou que eu já havia me afastado dele e que o celular estava comigo, ele reagiu de maneira cômica batendo a mão no bolso, como se para confirmar que o aparelho não estava mais lá.
— Por que está roubando o meu celular?
— Porque preciso de um e o meu está quebrado. — Falei de forma óbvia. — Mas o chip pode ficar para você. Não vou arrumar problemas para o seu lado.
Ao ouvir isso, Isaac parou e me olhou seriamente.
— O que você vai fazer?
— Vou ouvir você. — Respondi a ele. — Vou... Tentar pegar a minha vida de volta.
Ele piscou para mim, como se não soubesse o que dizer sobre isso de repente.
— Você tomou uma decisão?
Sorri para ele assenti.
— Sabe, antes de toda a confusão com a minha mãe acontecer, quando eu era criança, a coisa que mais gostava de brincar era de montar quebra-cabeças. — Divaguei a para ele. — Gostava de ficar juntando todas aquelas peças e procurando por todo lado entre cada uma delas alguma que se encaixasse, até que aquela grande imagem embaralhada começasse a fazer sentido.
Isaac piscou confuso. Não sei se pelo fato repentino que eu tinha compartilhado ou porque simplesmente não conseguia me imaginar sentado no chão durante horas brincando com um quebra cabeça. Na verdade, nem eu conseguia me lembrar mais de como era isso.
— E então? — Ele questionou depois de um tempo. — Agora a imagem do seu quebra cabeça está fazendo sentido?
— Não. Agora sinto como se estivesse montando um quebra-cabeça de peças em branco. — Falei metaforicamente. — Com milhares de peças, uma em cima da outra, completamente iguais, mas que eu preciso urgentemente fazê-las se encaixar apesar de saber que no final não mostrará imagem nenhuma. Apenas um grande e imenso quadro branco. Mas eu vou continuar, porque as peças ainda precisam ser encaixadas para se tornar ao menos isso...
Ainda estava sorrindo quando eu disse isso, então olhei para Isaac mais uma vez. Tenho certeza que por causa dos machucados no meu rosto, meu sorriso era um pouco feio e destorcido, mas isso não me importava:
— Eu quero ir para casa. — Confessei a ele algo que nunca tinha dito em voz alta. — Estou muito cansado de tudo isso, Isaac. Então não vou esperar mais pelo amanhã. Não quero perder mais de mim do que eu já perdi. Não quero me esquecer de quem eu sou!
Vi Isaac engolir em seco.
— Você... você quer eu vá com você? — Ele me questionou, aparentemente realmente se propondo a isso. Quase gargalhei nesse ponto com as voltas que o mundo dá...
— Não. — Balancei a cabeça. — Mas tenho que concordar com você em uma coisa.
Isaac parecia tão surpreso com essas palavras quanto eu fiquei ao saber que elas eram verdade.
— Em que parte?
— Consideração é importante. Mas não é o suficiente.— Falei. — É preciso ter algo de coragem também. Por isso, seja lá o que tiver que acontecer, começa essa noite. A minha vida ou fim dela.
Isaac levantou a mão como se quisesse leva-la ao meu rosto, mas antes que ele fizesse isso, eu já tinha me afastado até a porta, enquanto brincava com o celular dele nas mãos.
— Vão ligar para cá mais tarde. — Eu me virei para dizer a ele. — Se der errado, mantenha a boca fechada e apenas diga que não sabe de nada.
— O que quer dizer? Quem vai ligar? — Isaac deu um paço para frente, mas parou como se conseguisse enxergar uma linha invisível entre onde eu e ele estávamos. E não era hora para cruza-la.
— A polícia. Ou os bombeiros ou... Um carro funerário, eu não sei. Mas alguém ligará. — Falei simplesmente. — Sua situação não é muito boa, pelo que eu pude entender. Então apenas faça como sempre fez e aja como se não fosse da sua conta.
Ele não discutiu. Isaac era inteligente. Tenho certeza que ele sabia disso sem que eu precisasse lembra-lo, mas achei melhor avisa-lo com antecedência para não o pegar muito de surpresa.
Tinha acabado de dar as costas para ele e já estava saindo completamente da cozinha quando ouvi ele me chamando novamente. Então me virei.
— Isto é um adeus? — Ele então perguntou.
E eu não consegui não rir. Porque, novamente, se eu estivesse no lugar dele, essa não seria uma pergunta que eu faria.
Mas a ele falei o que eu sabia de verdade:
— Eu não faço a mínima ideia!
Não sei o que Isaac fez depois que saí, mas pelas próximas horas, fingi que nada havia acontecido naqueles últimos dias. Em vez disso, fui procurar a carcaça do celular do Erik para substituir o chip do celular de Isaac pelo do celular quebrado. Ah, mas tive a consideração de coloca o chip do celular roubado de Isaac na escrivaninha junto com um post-it avisando a ele. E que não digam que Diego Vega é um desalmado!
Quando o aparelho reiniciou com o novo número, coloquei no bolço e sai de casa. E então, pela segunda vez naquele dia, me enfiei em um taxi e pedi para que fosse em direção a saída da cidade.
Tentei falar com Erik novamente durante esse tempo. Eu queria ouvir o que ele tinha a dizer, mas não consegui. Estava começando a acreditar que revirar a própria cabeça tivesse esgotado ele de uma forma dolorosa a ponto de ele adormecer daquela forma.
Assim que vi a ponte que Isaac havia comentando naquela manhã, pedi para que o taxista parasse.
Isaac tinha razão em alguns pontos: Era um local perfeito para quem gosta de dar mergulhos radicais, apesar de haver algumas barricadas alertando o perigo, mas que poderiam ser facilmente puladas para chegar na parte da grade. No entanto, o rio lá embaixo não parecia muito calmo. Realmente não era o tipo de lugar que alguém que não sabe nadar iria gostar de cair...
Enquanto olhava para baixo e analisava novamente minha situação, me perguntei como Erik conseguia fazer isso tão facilmente. Encarar a morte, quero dizer. Não só uma ou duas vezes. Mas ele fez. E eu não conseguia nem calcular o quanto ele deveria estar desesperado para que o desespero dele de permanecer vivo fosse muito maior do que o de morrer.
Meu peito doía ao pensar nisso...
— O sol logo vai se por. — A voz que tentei ouvir o dia inteiro finalmente falou comigo. — é uma boa hora para isso. Quando a temperatura está caindo...
Soltei o folego que nem sabia que estava prendendo.
— Erik... — Eu chamei, sem disfarçar o alivio. — O que você de fato estava pensando quando me mostrou aquele sonho?
— Na mesma coisa que você está pensando enquanto olha para água. — Ele não hesitou. Ele não hesitou em nenhum momento. — Na verdade, eu estava preocupado em você não concordar com isso. Então nesse caso...
— Nesse caso, você viria aqui e pularia sozinho. — Eu completei. Porque tinha certeza absoluta de que era isso o que ele planejava.
Erik ficou em silencio por um momento e depois concordou.
— Sim...
— Por que? — Minha voz saiu urgente. Na verdade, eu estava querendo muito fazer aquela pergunta a ele. Quer dizer, Erik sabia. Ele sabia dos riscos. Ele sabia do inferno que era... Então por que? — Eu pedi para que confiasse em mim!
—E eu confio em você. — Ele respondeu gentilmente. — Confio que você vai acordar. Confio que tudo isso vai voltar a ser como era. Confiança é única coisa que eu tenho agora, Diego. Não nos restou mais nada além disso. Não é por esse motivo que você está aqui também?
Não chamaria de confiança. Chamaria de desespero!
— Não ficou desapontado? — Perguntei. — Por ter vindo aqui, sem falar com você antes?
— Geralmente você nunca fala comigo antes de fazer qualquer coisa. — Ele rebateu. — E, não há nada de errado em querer viver, Diego. Hoje eu entendo isso. Você é uma pessoa que ama a vida. Deixar isso se perder, não seria justo. Então eu fiquei mais aliviado do que qualquer outra coisa...
— Foi uma ideia incrível, Erik. —Fui sincero. — Mas você sabe... Estou dizendo, a morte pode ser o menor dos problemas caso isso acabe dando errado...
— Bem, não é como se as coisas estivessem dando certo agora... — Ele disse. — E deixar como está não vai transformar tudo em um mar de rosas de qualquer forma.
Não consegui responde imediatamente sobre isso.
—Mas não precisa ser exatamente você. — Falei depois de um tempo. — Eu posso fazer isso também...
— Também não precisa ser você, mas sempre é. — Falou, rindo como se fosse uma grande piada. — Você sempre quer ser quem salva o dia. Você sempre quer me salvar! Mas eu também quero poder fazer isso pelo menos uma vez. Me salvar... E salvar quem é importante pra mim.
— Isso custa a sua vida! — Eu não conseguia deixar de martirizar esse fato.
Erik soltou um riso sem humor.
— Acredite se quiser, já paguei preço piores... — Ele respondeu como se não fosse nada. Como se ao invés da porra da vida dele, estivéssemos falando sobre um caro presente de natal que ele queria comprar.
Ficamos em silencio após isso, porque eu particularmente não tinha ou não sabia o que dizer. Fui eu quem tinha ido até ali primeiro. Então o que mais eu poderia responder?
Por um instante, o vento e o barulho da água corrente eram as únicas coisas que podíamos ouvir e sentir naquele momento.
Então Erik quebrou o silêncio:
— Lembra quando perguntei o sobre que você gostaria de fazer quando voltasse ao seu corpo?
Apertei meus lábios e sorri quando me lembrei daquilo. Fiz uma pequena piada com ele e Erik levou a sério o suficiente para me deixar comer duas pizzas inteiras após isso. Como poderia esquecer?
— Logico! — Respondi a ele. — Creio que estou digerindo aquela pizza até hoje...
Erik também pareceu rir disso.
— Na verdade, também há algo que eu quero, quando tudo isso acabar.
Abri minha boca em um formato oval ao ouvir isso. Quer dizer, não há nada mais inspirador do que ouvir de alguém que está literalmente a um passo de pular de uma ponte, sobre os planos do futuro. Afinal, significa que essa pessoa ainda planeja ter um.
— Diga-me então, Erik Bryan, o que você gostaria? — Perguntei. — Você me deixou comer duas pizzas como forma de compensar o meu desejo. Tem algo que posso fazer para compensar o seu?
— Tem! — Ele disse, em um tom de voz mimado que na verdade nunca ouvi usando antes. — Quero... poder ver você pessoalmente. Quero ter certeza de que tudo isso foi real. E principalmente... Quero que se lembre de mim. Não importa o que. Eu realmente quero que se lembre de mim...
O sorriso do meu rosto diminuiu gradativamente ao ouvir isso, até desaparecer completamente.
Eu nunca, nem se eu realmente quisesse, me esqueceria de você..., foi o primeiro pensamento que me veio a cabeça. Mas não foi o que eu disse a ele.
— Bem...Primeiro precisamos ficar vivos para fazer isso. — foi o que eu disse.
— Sim, precisamos... — Erik concordou decididamente.— É por isso que temos que seguir com isso.
— Erik... — Eu mal tinha chamado o nome dele antes dele me interromper:
— Eu sei! Eu sinto o quanto é difícil para você. — Ele falou quase em um sussurro. Como se estivesse me consolando de algo. — Por mais duro que você se faça parecer, o seu coração é gentil demais para fazer algo assim. No entanto, essa não é o tipo de situação que você pode hesitar. E é por isso... que eu vou fazer isso no seu lugar.
Então, tudo o que eu sei é que as próximas ações não vieram de mim.
Quem tomou o controle de toda a situação foi Erik. Erik foi quem tirou o casaco pesado que usava e calmamente o dobrou, colocando apoiado na grade de proteção. E também foi quem tirou os sapatos e os alinhou perfeitamente na parte de concreto da ponte. Tão meticulosamente, que parecia que todas essas ações faziam parte de uma carta de despedida.
— Assim saberão que eu fiz isso de propósito. — Ele explicou calmamente.
Me choquei ao ouvir isso.
— Quer que saibam que foi de propósito?
— É mais fácil para explicar. — Erik disse como se fosse simples. — Se for eu, será mais fácil ainda.
O tempo estava tão gelado que após a retirada do casaco, eu podia sentir como se tivessem injetado um copo de água gelada nas veias. O corpo do Erik sempre teve uma facilidade muito grande para perda de calor, então se expondo de tão bom grado assim, não demorou para que as mãos dele gelassem até os dedos doerem.
Mas parecia que eu era o único que sentia tudo isso. Erik parecia ainda tão calmo como se estivéssemos fazendo um Piquenique na beira do lago.
Após todas essas ações, ele tirou o celular do bolso calmamente. Não sei dizer se ele soube que aquele celular não era dele, e sim de Isaac. Mas se percebeu, não pareceu fazer nenhuma diferença.
Ele discou o número da emergência.
— Um garoto acabou de pular da ponte na saída sul da cidade. — Ele disse para a telefonista do outro lado da linha. Por causa do frio ou talvez do nervosismo, a voz que ele usou saiu tremula, dando a impressão de que ele estava em pânico com essa informação. — Por favor, precisam vir imediatamente!
Logo em seguida ele desligou,sem nem mesmo questionar se eles viriam.
— Espero que eles não pensem que é algum trote.
— Não vão. — Erik disse mais tranquilo do que eu. Na verdade, ele parecia tão tranquilo que estava me deixando em pânico. — Frequentemente algumas pessoas tentavam se matar nessa ponte alguns anos atrás. Mas então descobriram que não morreriam imediatamente pela queda, e quem sobreviveu ficou... Decepcionado? Bem, não importa. De qualquer forma a morbidade do ser humano é algo curiosa, já que foi esse fato que atraiu as pessoas até aqui, e então passaram a usar esse lugar como um ponto turístico para comprovar se realmente você não morreria se pulasse daqui. Então ocorrências desse tipo acontecem toda hora.
Erik se debruçou contra a grade de proteção e espiamos a água corrente lá embaixo novamente. Dessa vez, por causa da escuridão que já havia tingindo o céu, lá embaixo não era nada mais do que uma imensidão de massa escura, como um buraco negro prontos para nos engolir.
Então ele fechou os olhos e subiu na grade congelada. Numa área tão silenciosa como aquela, demorou cinco minutos até que os barulhos de sirene começassem a ficar altos suficiente para que ouvíssemos. E nós dois entendemos que estava quase na hora.
Apesar do rosto apático, eu sabia que Erik não estava tão calmo quanto ele fazia parecer. Porque quando subiu nas grades, e podia sentir o coração dele batendo disparado no peito.
Ele engoliu em seco algumas vezes e uma lufada de ar branco saia de seus lábios quando ele respirava fundo. Eu também podia sentir os lábios trêmulos dele, que poderiam ser pelo frio alucinante que fazia lá em cima, ou simplesmente por toda a emoção do momento.
— A morte sempre me rejeitou quando eu procurei por ela. — Ele disse com uma voz solene, com os olhos fixos na escuridão. — Então eu espero que ela possa fazer isso por mim mais uma vez.
Não tivemos tempo para dizer mais nada, porque ele simplesmente saltou após isso.
Sem despedidas. Sem palavras finais. Sem hesitação. E eu sabia que não era porque ele não tinha mais nada a dizer. Mas porque Erik queria me dizer suas palavras novamente quando tudo isso acabasse. Quando estivéssemos frente a frente.
E só queríamos que aquilo acabasse logo.
Foi como enfrentar um abismo infinito antes de atingirmos a água. Não sei quanto tempo demoramos no ar, mas provavelmente foram apenas segundos. Mas foi como uma vida inteira.
Foi como ver o Erik de oito anos se afogando na piscina de casa. Foi como ouvir do meu irmão sobre como fomos abandonados. Foi como sofrer anos e anos de bullying por um erro que do qual ele se arrependia mais do que tudo. Foi como estragar toda a minha vida por um momento de loucura com uma moto...
Sempre dizem isso. Sobre como a nossa vida sempre passa diante dos nossos olhos quando estamos à beira da morte, mas o que eu vi, e o que eu senti, não foi uma vida. Mas duas. Duas vias inteiras. Sendo congeladas até a morte.
O instinto de sobrevivência começou a gritar alto quando atingimos o fundo do rio. Só havia água por toda a nossa volta e não havia nada para se agarrar. Quanto mais Erik se debatia, mais para o fundo ele era arrastado. O que parecia uma tonelada de água gelada foi a única coisa que, tanto eu quanto ele, sentimos entrando pela boca e nariz, traqueia e esôfago. Não havia mais ar nos pulmões, apenas água. E pareciam que eles estavam sendo esmagados.
Acho que foi um péssimo momento para eu começar achar aquilo uma péssima ideia.
A morte não foi pacifica conosco. Não foi gentil e acolhedora de forma nenhuma. Ela parecia furiosa, dolorida, cruel e raivosa. Esqueça tudo aquilo de “ver uma luz” e encontrar a paz. Aquilo foi simplesmente os três piores minutos que eu já tive em toda a minha vida.
Sim, durou apenas três minutos até que Erik perdesse a consciência e parasse de se debater. Mas para mim, foi como se tivéssemos ficado anos presos lá embaixo. Foi doloroso para nós dois sentirmos tudo isso, mas foi uma tortura ainda maior ter que assistir sem poder ajuda-lo.
Não fomos criados na igreja, nem eu ou meu irmão. Não tínhamos os hábitos de rezar ou de acreditar em algo realmente divino. Mas naquele momento, eu rezei. Não para um deus especifico, ou para alguma grande santidade. Não. Eu rezei para qualquer um que pudesse escutar. Eu rezei independente de qualquer coisa, pelo Erik. Para que ele ficasse bem. E para que eu pudesse realizar aquele pedido estupido que ele me fez.
“Quero que se lembre de mim”, ele havia me dito.
Bem, eu achava muito difícil conseguir esquecer a pessoa que literalmente deu a vida por mim.
Na escuridão da água, pelo tempo em que ficamos submersos, a tênue linha da vida e do que viria a seguir começaram a se cruzar. imaginei por um momento que eu tinha meu corpo de volta. E imaginei, que eu poderia abraça-lo.
E desejei, com toda sinceridade do mundo, um dia poder abraça-lo de verdade...
Aquela primeira parte do plano deu certo, por falar nisso. Depois de um tempo, o coração de Erik Bryan realmente parou de bater.
E, sem que nós soubéssemos, ao mesmo tempo em outro lugar, outro coração também havia parado de bater.
O meu.
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