Mais cinco minutos, talvez?
26 Capitulo 26- Diego
Notas iniciais
Tomar decisões por outra pessoa que não seja você mesmo, é um saco.
Na verdade, tomar decisões por você mesmo também é um saco, mas pelo menos se der merda o problema será apenas seu, e não de mais alguém por culpa sua. Talvez seja por isso que não pretendo ter filhos. Sou péssimo tomando decisões. Para mim ou para os outros.
Não me lembro com exatidão como eu acabei nessa linha de pensamento sobre os filhos que eu provavelmente não teria no futuro, mas tenho certeza que foi em algum momento após eu ter ligado para Caleb usando o telefone público da recepção do hotel.
Era um pouco depois das oito da manhã. Eu tinha tomado banho e estava usando a camisa que Isaac havia comprado quando foi buscar o gelo. Meu rosto ainda estava horrendo, mas pelo menos eu não estava mais parecendo a versão alternativa de Carrie, a estranha. Apesar de que o cheiro rançoso de sangue tenha ficado impregnado no meu casaco.
— Quem é? — Ele atendeu depois de um tempo.
— Sou eu! — Respondi para ele. — Deixei meu celular cair no chão ontem e ele quebrou enquanto eu ainda estava falando com você.
Tentei fazer minha voz parecer sincera e arrependida o máximo possível. Embora a verdade fosse que eu não me importava nenhum pouco com não ter terminado aquela ligação. Não mesmo. Mas de alguma forma, funcionou. Caleb ficou mudo do outro lado da linha por um momento. Depois um suspiro profundo veio de sua garganta mostrando que ele claramente preferia não comentar o assunto.
— Você está bem? — A voz dele suavizou um pouco quando ele perguntou.
Mesmo que ele não pudesse ver, eu assenti.
— Estou bem!— Afirmei e então me lembrei da pequena pendência: — A mamãe realmente está por aqui?
— Ela provavelmente ficará até que os papeis do divórcio saiam totalmente. Ontem ela insistiu em visita-lo no hospital e ficou lá por um bom tempo. Depois disso não sei mais. Parece que ela está decidida a te transferir e...— Ele fez outra pausa dramática. — Ela parece querer recorrer a sua guarda.
Meus olhos cresceram de surpresa por um tempo. Fiz aquela pergunta apenas na esperança que Caleb negasse e dissesse que eu tinha alucinado com essa parte confusa da minha vida.
Uma pena que não.
— Nos sonhos dela talvez ela consiga. Falta só alguns meses para que eu seja totalmente de maior, o que diabos ela quer com a minha guarda agora?
Caleb soltou outro suspiro.
— Ela pode recorrer porque você está... Incapacitado agora. — Ele falou com pesar. — Você não tem consciência e está vulnerável... Ela pode fazer isso. Embora eu também não veja sentido...
Ok, esse era outro assunto que eu deveria pensar, mas não naquele momento ou minha cabeça daria um nó. Então escolhi resolver uma coisa por vez. Aproveitei essa deixa melodramática para contar para Caleb as boas novas que eu havia conseguido:
— Por falar nisso, eu acho que descobri uma maneira de conseguir arrumar tudo isso. Erik me mostrou isso em um sonho ontem. — Contei de forma mística a Caleb. — Alias, você pode me buscar? Não dá pra explicar esse tipo de coisa por telefone...
Erik tinha vasculhado seu próprio inconsciente atrás de algo que pudesse nos ajudar e isso não era pouca coisa. Eu não sei até que ponto ele estava determinado a acabar com isso, mas não recusei essa ideia. Segundo o que eu havia lido, existia uma chance de 50/50 de que a coisa terminasse de forma positiva ou negativa. Mas apesar de incerto, pelo menos era uma sugestão.
Caleb também parecia ter ficado emocionado quando escutou isso. Pelo menos foi o que eu deduzir quando pela primeira vez ele não reclamou por eu tê-lo tratado como meu motorista particular.
Assim que desliguei a ligação, voltei para onde Isaac estava sentado contemplando o nada enquanto bebia uma garrafa de água com gás e fingia que não estava morrendo por dentro com uma ressaca filha da puta e uma dignidade esmagada.
— Para quem você ligou? — Ele perguntou quando eu me sentei ao lado dele.
— Meu irmão mais velho. — Não escondi. — Ele está vindo nos buscar.
Isaac assentiu e deu outro gole na água, levantando os olhos para mim de forma questionadora.
— Seu irmão sabe sobre você e o Erik?
— Assim é! — Dei de ombros. — Ele foi o primeiro a descobrir, na verdade. Não consegui manter isso em segredo ...
Deixei de fora a parte em que invadi minha própria casa e fiz um escanda-lo...
Isaac não disse mais nada sobre o assunto e eu também não me incomodei em explicar mais.
Vinte minutos depois Caleb parou em frente ao hotel, não muito feliz por ver o lugar em que eu estava hospedado.
— Um motel, Diego? Sério? — Ele reclamou assim que me viu.
Nem me incomodei em explicar alguma coisa antes de abrir a porta do carro e entrar, com Isaac logo em seguida entrando na parte de trás do carro. Caleb ficou mais irritado ainda com essa última parte.
— E quem diabos é você? Sai do meu carro! — Ele berrou.
Achei que seria um momento perfeito para contar a Isaac e Caleb que eles logo seriam futuros irmãos. Quer dizer, havia um clima muito harmônico e fraternal surgindo de nós três, então realmente queria poder gritar para Caleb que logo- logo ele teria outro irmão mais novo para encher o saco. Isso não era fabuloso?
Porém ainda não era hora e nem a melhor forma de flertar com a morte. Por isso engoli essas palavras pra mim mesmo.
— Cala boca, ele está comigo. — Eu interrompi sem dar a chance de Isaac responder ao chilique. — Apenas ligue o carro.
Caleb ignorou completamente meu pedido e olhou para Isaac pelo espelho e depois voltou a me encarar como se eu fosse uma esposa cruel que acabou de ser pega cometendo adultério.
— Estava num motel com outro cara...?— Então ele fez uma pausa como se só agora estivesse realmente me vendo. — Cacete, o que houve com o seu rosto? Ele fez isso com você?
— Claro que não! — Eu e Isaac respondemos juntos imediatamente.
— Eu cai ontem e bati minha cabeça em uma pia— Falei meia-verdade a ele. — Sim, passamos a noite juntos no hotel. Não sei porque ainda tenho que esclarecer isso, mas não, nós não transamos. A bunda dele está intacta e a minha também. Podemos ir agora?
Fiz questão de que todas a duvidas de Caleb fossem sanadas para que pudemos sair para fazer algo mais significativo do que continuar parados ali nos encarando.
Funcionou, porque ele ligou o carro.
— Meu nome é Isaac. — Isaac se apresentou depois de um tempo. Era mais como se ele quisesse só anunciar a sua presença do que realmente se apresentar. E eu não pude julga-lo. Um pequeno príncipe como Isaac, recebendo um ombro frio de um plebeu como Caleb, deveria realmente ser ultrajante.
Caleb desviou o olhar da direção para o espelho, dando uma olhada no cara emburrado sentado no banco de traz e depois voltou a prestar atenção na pista.
— Tá. — Foi a cortesia que Caleb deu a ele, enquanto eu apertei meus lábios para não rir alto.
Então ele se virou pra mim me perguntando com o olhar questionador de onde Isaac tinha realmente saído.
“Rolo do Erik”, movi meus lábios de forma muda para ele.
Caleb pareceu surpreso, mas ainda assim assentiu.
— Onde você mora? — Caleb perguntou a Isaac. — Vou te levar para casa primeiro.
Ao ouvir isso, Isaac se moveu para frente, segurando entre meu banco e o de Caleb como se de alguma forma fossemos chuta-lo para o meio da pista.
— Eu não estou indo para casa. Eu vou ajuda-lo. — Ele apontou para mim. E não parecia uma negociação.
Oh, não que Isaac quisesse muito estar ao meu lado e me ajudar no que fosse preciso. Longe disso! Ele apenas não queria ir para casa como um bom adolescente rebelde sem causa e eu era uma desculpa perfeita.
Ainda no hotel, Isaac me perguntou porque eu estava tão interessado em artigos de medicina de repente. Eu não tinha mais nenhum saco para bolar desculpas para quem queria saber sobre a minha vida, então contei a ele sobre toda a situação comigo e o Erik e nosso pequeno problema de vida ou morte.
Pude ver pela expressão estranha em seu rosto que ele claramente estava achando aquilo tudo uma loucura sem tamanho. Mas por sorte, eu não dava a mínima.
No entanto para minha surpresa, Isaac se ofereceu logo em seguida para me ajudar. Sem suborno, sem acordos estupido ou qualquer coisa desse tipo. Quase uma alma abnegada.
Até que eu entendi o que ele estava fazendo. E logicamente, eu não recusei.
Ajuda era algo que eu realmente ia precisar.
Por isso anunciei em voz alta:
— Ele sabe sobre mim e o Erik, Caleb. — Então acrescentei:— E mesmo se não soubesse, com você berrando meu nome daquele jeito, qualquer um perceberia.
— Você contou para ele? — Caleb me censurou, ignorando completamente a última parte das minhas palavras.
— Eu descobri e ele apenas me confirmou. — Isaac interveio.
Eu dei de ombros e assenti.
— Isso aí!
Caleb balançou a cabeça como se aquilo fosse inacreditável. Por sorte havia algo mais interessante para desviar a atenção dele naquele momento.
— Então, qual o seu plano?
Uma sensação forte de adrenalina percorreu meu peito quando Caleb me fez aquela pergunta. Era isso que eu estava esperando o tempo todo, então não pude me conter quando comecei a conta para Caleb sobre o sonho com o afogamento de Erik e a relação com os artigos sobre quadros de hipotermia.
— Acho que se eu conseguir fazer algo parecido com o que aconteceu há alguns anos atrás com o Erik, nós dois possamos sobreviver. — Falei a ele. — Preciso conseguir para de respirar até que meu coração pare completamente. Mas ao mesmo tempo eu preciso estar em circunstancia em que a minha temperatura corporal consiga estar abaixo dos 30 graus...
— Você quer se congelar até a morte? — Caleb parecia um pouco horrorizado com a ideia. Da mesma forma que Isaac ficou quando eu contei a ele sobre isso.
— Não exatamente. Pense nisso mais como... Uma maneira segura de morrer. — Expliquei calmamente. — Apesar de não saber com exatidão, as pesquisas mostram que o risco de dano definitivo ao cérebro é muito menor nessas circunstâncias. Então preciso fazer com que o corpo morra de uma maneira que seja reversível, e a única forma que eu encontrei, foi estando em um estado hipotérmico. Não sei qual será o grau das consequências disso, mas querer uma solução sem riscos é utopia.
Caleb estava com o cenho franzido cada vez que eu falava mais sobre o plano.
Por fim ele soltou:
— Isso é loucura...
— Sim, é! Mas o que nessa situação toda não é uma loucura? — Eu dei de ombros. — Bem, você queria que eu fizesse algo, eu finalmente estou fazendo. Vai ou ajudar ou não?
— É logico que eu vou! — Ele não hesitou. — É só que... Isso não é uma coisa simples, Diego. Duas pessoas vão presenciar você se afogando até a morte e ninguém vai achar isso estranho?
Eu parei um pouco meu ritmo quando ouvi aquilo. Os motivos foram o seguinte: Caleb tinha razão. Ele e Isaac poderiam acabam presos por tentativa de assassinato se isso não desse certo. O segundo motivo, no entanto, era que ele parecia ter intendido de formar errada as minhas intenções.
Mas antes que eu pudesse explicar corretamente, Isaac interrompeu:
— Não se fizer parecer um acidente. — Ele falou. — Nós chamaremos o socorro e prestaríamos assistência. Não poderíamos ser acusados nesse caso.
Ao ouvir isso, me virei para trás para olhar para os olhos calmos e inabaláveis de Isaac e por um minuto achei que tínhamos dado carona para um serial Killer.
— Ótimo, voz da experiência, então nos diga como simular esse tipo de acidente? — Caleb perguntou.
Quase contei a Caleb que tecnicamente Isaac era realmente a pessoa com mais experiencia nesse assunto, já que foi ele quem presenciou isso acontecendo ao vivo.
— Há alguns quilômetros da saída da cidade, existe uma ponte que corta para uma pequena cidade da zona rural. — Isaac falou levemente, mas com segurança. — Na época do verão, alguns garotos gostam de usar essa ponte como trampolim. Ela é alta o suficiente para cair no rio logo abaixo, mas não irá mata-lo pela queda. Porém não é o tipo de lugar que você pode pular se não souber nadar. E ninguém está fazendo isso agora na época do frio porque a temperatura da água está muito abaixo do normal. Me parece a ocasião perfeita...
As palavras de Isaac eram tão emocionantemente precisas e simples que parecia mais que ele estava nos contando uma curiosidade trivial do dia-a-dia. Aquilo me surpreendeu mais do que eu podia imaginar. Confesso que não esperava nada muito certo vindo dele, mas aquilo foi realmente impressionante. Ele pareceria realmente disposto a ajudar!
Pena que...
— Sua ideia não é ruim, Isaac. — Eu elogiei sinceramente. — Só que isso não vai servir.
Com essa simples sentença, repente eu tinha dois pares de olhos penetrantes em minha direção.
— Por que não?— Ambos falaram ao mesmo tempo, mas com tons muito diferentes.
Isaac questionou provavelmente tendo a ideia errada de que eu não queria ouvi-lo por pura pirraça. Caleb, no entanto, já tinha entendido que as coisas não eram tão simples quanto Isaac fazia parecer.
— Isso é um plano suicida em todos os sentidos. Se der errado, é morte certa.— Eu lembrei a eles. — É obvio que eu não iria sujeitar o corpo do Erik pra algo perigoso assim!
Ao ouvir isso os olhos de Caleb triplicaram de tamanho e ele quase bateu em uma placa de trânsito.
— Diego... — A voz dele saiu em um grunhido e fez com que a temperatura parecesse ter caído uns trezentos graus negativos. Eu não sabia se ele estava sofrendo ou ficando com raiva.
— Então como você pretender fazer algo assim? — Isaac perguntou ingenuamente.
Me apressei em colocar o sinto de segurança e me segurar bem, por vias das dúvidas. Se Caleb tinha ficado transtornado só pela ponta do ice Berg, não queria ver o que ele faria quando eu dissesse que nosso Titanic estava prestes a bater de frente com ele.
— Em todos os artigos que eu li, sempre era frisado sobre os perigos desse procedimento, e que deveria sempre ser realizados por profissionais da saúde e de preferência dentro das dependências de um hospital. — Eu expliquei. — E é exatamente nesse ponto que tudo isso fica mais fácil e difícil ao mesmo tempo, já que precisamos de alguém que esteja dentro de um hospital recebendo tratamento.
Olhei de forma significativa para Caleb e esperei que meu sorriso doce pudesse amenizar um pouco os efeitos que aquelas palavras provocaram.
Não deu muito certo, mas ter colocado o sinto foi de fato uma decisão inteligente. Assim que minhas palavras caíram, Caleb pisou no freio com tanta força que achei que ele queria parar o carro usando apenas a força dos pés. Por outro lado, Isaac, que estava completamente despreparado para isso, foi arremessado para frente e bateu com tudo no banco onde eu estava.
— Você enlouqueceu? — Caleb berrou na minha cara, ao mesmo tempo em que puxou a gola da minha camiseta.
Adoraria poder ganhar dinheiro por cada vez que já escutei essas duas sequencias de palavras durante toda a minha vida. Provavelmente hoje eu teria uma fortuna maior do que a do pai do Erik ou da soma dos cartões de Isaac para gastar.
Apertei meus lábios por um momento quando percebi que o olhar de Caleb continha mais medo do que raiva de fato. Ou uma raiva que havia se transformado em medo, não sei dizer.
— Eu disse a você incontáveis vezes: Eu não vou machucar o Erik. — Levantei meu braço livre para acertar o ligamento do cotovelo de Caleb para fazê-lo me soltar, mas ele agarrou minha mão antes que eu pudesse fazer isso.
— Fui eu que te ensinei defesa pessoal, seu imbecil. Não tente usar essa merda em mim. — Ele ficou ainda mais puto me sacudindo como se quisesse que eu voltasse para realidade. — Agora me diga, no que você está pensando?
Então eu disse a ele o que eu estava pensado:
— A pessoa que irá morrer nessa ocasião não será o Erik. Serei eu... Ou mais precisamente, o meu corpo. — Falei abertamente a ele. Palavra por palavra, lentamente para que ele pudesse entender perfeitamente o que eu estava dizendo.
Bem, não sejamos hipócritas. Por quê estaria tudo bem eu afogar o corpo de outra pessoa, completamente saudável, correndo o risco de transformá-lo em um vegetal, sendo que Erik não era o único que podia fazer isso? Por mais que pudesse parecer que não, era muito menos cruel do que qualquer outra coisa. E se de fato nada disso desse certo, pelo menos um de nós ainda estaríamos bem no fim do dia.
A força de Caleb sobre a minha camisa relaxou gradativamente à medida que ele absorvia minhas palavras e ficava tão chocado que não sabia nem como reagir.
— Você quer fazer isso a você mesmo? — Isaac, que ainda estava se recuperando da pancada de alguns momentos atrás também pareceu chocado quando entendeu o que estava acontecendo. — Isso é ainda mais loucura!
— Não tem ninguém lá dentro agora. — Eu falei sobre o meu corpo, me virando para Isaac. — Não é como se alguém fosse sofrer terrivelmente por isso. E me parece mais humano do que afogar eu e o Erik ao mesmo tempo.
O rosto de Isaac mudou um pouco mostrando que ele parecia estar pensando no que eu havia falado. Caleb, no entanto, ainda estava pálido e me olhando como se fosse pular para fora do carro.
— Seu corpo não aguentaria algo assim! — Ele tentou me convencer. — Um corpo debilitado ou um corpo saudável, qual tem a melhor probabilidade de isso dar certo?
— O meu. — Eu bati na mesma tecla sem me abalar. — É um corpo em coma. A atividade cerebral já está baixa e o coração pode parar a qualquer momento. Meu quadro se encaixa perfeitamente em todos os critérios para esse procedimento. Eu só preciso fazer com o que o meu coração pare por uns... 30 minutos deve ser o suficiente.
Na minha cabeça, tudo estava sendo explicado com o máximo de eloquência da minha parte. Mas pela cara que meus ouvintes faziam, comecei a me perguntar se o que estava saindo da minha boca era algum cântico de uma sociedade histórica extinta em vez de palavras.
— 30 minutos? — Caleb estava horrorizado.
— Não aconselho a passar disso. — Eu ignorei o ponto principal do questionamento. — Se demorarmos muito, meu cérebro pode acabar ficando não muito diferente de uma couve-flor...
— Acho que você está complicando as coisas. — Isaac falou, ignorando a expressão de Caleb, cujo cérebro também parecia ter dado pane. — Se Erik mostrou algo assim a você, certamente não foi para que você fizesse tudo isso no seu corpo. Ele te deu um atalho, e você não quer usá-lo. Por que?
Eu me virei para olha-lo.
— A vida do Erik pode não importar pra você Isaac. Mas pra mim, importa. — Eu disse.
Ele cruzou os braços para mim como se fosse uma grande piada.
— Não estou dizendo que a sua consideração seja ruim. — Ele declarou. — Mas é um fato que essa mesma consideração é o que vai matar vocês dois. Erik parece ter entendido isso há mais tempo do que você. Por isso ele te mostrou esse sonho.
Não consegui responder após isso. Porque no fundo eu sabia que ele tinha razão. Eu sabia e isso me irritava. Me irritava saber que essa era a intenção do Erik desde o início, e me irritava ainda mais o fato de Isaac entender isso tão melhor do que eu.
Caleb voltou a ligar o carro.
— Eu vou levar você para casa. — Ele declarou com uma voz pesada. — Você não deve tomar nenhuma decisão desse tipo antes de conversar diretamente com o Erik. Ele tem o direito de dar a decisão final.
Mas só que eu já sabia qual era a decisão que ele tomaria. Só não conseguia aceitar isso.
Só que nesse dia, dessa vez... A palavra final não foi a minha.
Quando Caleb deixou eu e Isaac em frente a casa do Erik, nenhum de nós três falamos nada. Também não me despedi de Caleb, ou rebati quando Isaac me seguiu para dentro de casa, como se isso fosse algo natural a se fazer.
— Erik, você... — A mãe do Erik me chamou assim que entrei pela porta, então sua atenção desviou para a pessoa atrás de mim e seu tom amenizou: — Oh, Zack está aqui também.
— Oi, tia... — Isaac deu um cumprimento baixo.
Ela assentiu para ele e se voltou para olhar para mim novamente, e assim que seus olhos caíram sobre a minha pessoa, achei que ela teria um troço.
— Meu Deus, Erik! O que houve com o seu rosto? — Então ela se voltou a Isaac novamente, com uma pitada de pânico na voz: — Vocês brigaram novamente?
Eu estava cansado demais para dar a mesma droga de explicação de novo, então apenas deixei esse serviço para Isaac. Ele me devia essa, pelo menos. Então subi as escadas e fui direto para o quarto, me jogando na cama tão pesadamente que achei que poderia despencar para o andar de baixo.
Fiquei assim, deitado com meus olhos fechados por uns vinte minutos. Nesse tempo, tentei falar com Erik, mas ele não me respondeu. E eu não sabia quando ele iria.
Depois desses vinte minutos, Isaac bateu na porta.
Foi a primeira vez que ele mostrou algum comportamento de cortesia comigo, mas isso nem mesmo me agradou, tamanha era o sentimento amargo que eu me encontrava.
Isaac entrou depois de um tempo, quando eu não respondi. O que foi completamente contrário do que ele deveria fazer, mas... Bom, era Isaac! Não dava para esperar muita coisa dele.
Não abri meus olhos para vê-lo e na verdade estava esperando que ele tivesse o bom senso de entender que isso essa era um sinal claro que eu não queria a presença dele.
E nem a de ninguém, na verdade. Nem a minha.
— O que exatamente te incomoda nisso tudo? — Ele teve a coragem de me perguntar. — Se você não tem coragem, então apenas deixe o Erik fazer. Ele não é tão frágil quanto você faz parecer...
Eu abri os olhos apenas para saber a localização exata de Isaac antes de arremessar qualquer coisa que estivesse ao meu alcance, nele. Para a sorte dele e o aumento da minha raiva, era apenas um travesseiro.
— Por que você está se intrometendo em algo que nem é da sua conta?
— Você parecia precisar de ajuda. — Ele deu de ombros.
— E em vez disso você me fodeu com essa história toda! — Eu falei para ele.
— Eu só falei o que você parecia não querer ver. — Ele não se abalou. E então deu um riso seco e sem humor. — As vezes, você parece ser uma pessoa completamente de outra realidade. É tão chocante que não tem como comparar com o Erik. E tem outros momentos, no entanto, que vocês dois são tão pateticamente parecidos que eu nem sei mais com que eu estou falando...
Puxei outro travesseiro, mas dessa vez coloquei contra a minha cabeça que havia começando a doer. Eu não sei se foi por tudo o que estava acontecendo ou porque eu tinha apertado a ferida da minha testa quando afundei minha cara no colchão anteriormente.
— Só vai a merda e me deixa em paz...
— Vocês dois gostam de ver só o que querem ver. — Ele continuou. — Tudo ao redor, qualquer outra pessoa que não esteja dentro do seu maldito mundo imaginário... Nada disso importa. Vocês querem se importar com todo mundo, mas não se importam com ninguém...
Não sei se ele queria dizer aquilo para mim o de fato para o Erik, mas isso fez eu me levantar e encará-lo.
Não respondi a ele. Na verdade, apenas olhei para ele por um tempo.
— Afogamento ou asfixia é uma das formas mais dolorosas de morrer. Para qualquer um. — Eu disse depois de um tempo. — Se essa for a única opção...
— Se essa for a única opção então é justamente por isso que você deveria tentar. — Ele me interrompeu. — Pelo que eu entendi, não é uma questão de escolha. É um fato. Você mesmo falou: Solução sem consequência é utopia.
Eu pisquei para ele por um tempo e depois não consegui evitar rir.
— Não acredito que eu cheguei ao ponto de receber conselhos de você... O sol certamente vai se pôr no lado Leste hoje...
Isaac abriu a boca para dizer mais alguma coisa, mas antes que fizesse isso alguém bateu na porta. Não consegui disfarçar a minha cara irritada quando me levantei.
— Eu não tenho um minuto de paz neste caralho... — Eu falei abrindo a porta.
Era a mãe do Erik, para nenhuma surpresa minha ou de Isaac. No entanto, descobri que o procurado da vez não era eu, já que os olhos dela passaram por mim e pararam em Isaac.
— Seu pai veio busca-lo, Zack... — Ela disse.
Poderia ter sido a minha impressão, mas senti como se ela tivesse dizendo que a morte veio busca-lo em um patinete elétrico. E essa ideia se reforçou quando as costas de Isaac endureceram e ele passou por mim, quase marchando como um soldado.
Eu segui logo atrás dele. Quer dizer, tecnicamente eu teria um futuro padrasto e estava curioso para conhece-lo, então não vi problema nisso. Agora veja, a palavra é curioso, e não ansioso ou contente.
Isaac desceu as escadas mais rápido do que eu. Eu ainda estava na metade da escada quando ele já havia decido completamente os degraus e se colocava de frente para o homem grisalho e com olhos gelados lá embaixo.
Então, sem que ninguém se preparasse, um tapa tão alto quanto o bater de um martelo ecoou por todo local. Tão de repente, que parei imediatamente meus movimentos de descer e olhei estagnado para a direção de onde aquilo veio.
Não foi um tapa para derrubar, mas foi o suficiente para deixar algumas marcas de dedos e o anel que ele usava cortou a lateral dos lábios de Isaac, que apenas lambeu a ferida e se recompôs rapidamente como se nada tivesse acontecido.
— Pai. — Ele cumprimentou inabalável e simplesmente.
Eu pisquei para aquela cena e me virei para a mãe do Erik que estava um pouco atrás de mim, com os lábios apertados, mas não ousando dizer nada, como se ao invés de um tapa, ele tivesse dado apenas um aperto de mãos ao filho.
Comecei a questionar se eu estava alucinando...
— Vamos para casa agora. — Com uma voz tão grave e contida, essas foram as únicas palavras que ele dirigiu a Isaac antes de seu olhar frio cair sobre mim, que ainda estava parado na escadaria.
E, impressionantemente, a única coisa que meu cérebro conseguiu pensar naquele momento foi: Se esse velho filho da puta vier caçar briga comigo, eu vou dar uma voadora nele!
Mas para minha completa surpresa, o olhar de repudio dele mudou drasticamente, se tornando quase gentilI.
— Nós incomodamos você, pequeno Erik! — Ele disse para mim com um meio sorriso constrangido. — Sinto muito.
Isaac não disse nada. Ele também não olhou para mim do começo ao fim.
Eu pisquei atônito para a cena a minha frente. tentando entender que merda foi essa que acabou de acontecer.
— Por que diabos você está me pedindo desculpas? — Eu não consegui não dizer. — Você acabou de dar um tapa na cara do seu filho como se estivesse amaciando um bife e vem pedir desculpas para mim? Tá chapado, meu senhor?
De alguma forma isso fez com que Isaac virasse para mim, porém seu rosto demostrava uma pitada de desespero.
E eu comecei a entender o porquê depois de tudo, de tanto tempo, Erik nunca contou a ninguém o que Isaac fazia com ele. Mesmo depois de ter sofrido tudo o que sofreu, Erik ainda conseguia parar para pensar sobre o que aconteceria com Isaac caso esse tipo de coisa viesse à tona. E ele não queria que algo acontecesse.
Acabei rindo quando percebi isso. Que coisa mais ridícula!
— Que merda, Isaac! — Eu gritei, descendo finalmente as escadas e parando na frente dele.— você acabou de fazer eu me sentir um lixo covarde lá em cima e agora você está simplesmente abaixando a cabeça como uma vadia submissa? — Eu ralhei. — Você não é mais uma criança de oito anos! Por que aceitar isso?
— Pequeno Erik... — O velho me chamou, e eu imediatamente me virei para ele.
— “Pequeno Erik” é o meu ovo. Você é um pai de merda e alguém precisa urgentemente te dizer isso! — Eu disse. — Trata seu filho como se fosse um pouco melhor do que o nada... Que inferno...?
Isaac segurou meu braço, como cenho franzido, me impedindo de continuar a falar.
— Para com isso! — Ele me censurou.
Ficamos nós olhando por um tempo. Eu olhei diretamente nos olhos claros de Isaac, que pareciam um pouco assustados mesmo que ele não transparecesse e então soltei uma risada sem humor pelo nariz.
— Em breve, eu não estarei mais aqui. — Eu disse seriamente a ele, enquanto tirava a mão que segurava o meu braço. — Eu vou voltar a ser a mesma pessoa que eu deveria ser. Que eu sempre fui, na verdade. Mas e quanto a você? Quem você será? Um valentão para os mais fracos? Ou um cachorro submisso para o seu pai?
Não houve resposta. Mas eu não precisava de uma. Isaac deveria responder isso para si mesmo, da mesma forma que eu também precisava fazer a minha escolha.
Eu fiz. E 12 horas depois, o resultado não foi bem o que esperávamos...
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