Notas iniciais
Postando mais cedo pra compensar o atraso de ontem...

Isaac possuía mais de seis cartões de platina com um limite além do necessário para gastar.

Eu só precisei dar uma olhada para saber que, se eu somasse todos aqueles “zeros” disponíveis, eu provavelmente teria grana o suficiente para passar mais de cem anos da minha vida sem nem mesmo precisar dar um prego no pudim.

Gente rica é realmente outro nível...

Descobri esse fato quando ele deixou que eu tomasse conta da carteira dele , já que estava com o cérebro catatônico demais pra qualquer coisa, enquanto fomos para o primeiro lugar que encontramos e que vendesse álcool: Uma boate.

Para ser sincero, não prestei nenhuma atenção real ao espaço ou aonde tínhamos ido. Minha mente estava vagando entre as informações de Isaac e as informações de Caleb que me afligiam, e isso fez com que com qualquer coisa a mais ao meu redor passasse completamente despercebido. Além disso, o local ainda não possuía muitas pessoas considerando que tecnicamente ainda era muito cedo para qualquer coisa. Mas não formos expulsos quando nos sentamos no bar e pedimos doses e doses de qualquer coisa que parecesse interessante, então ficamos. Nem sabíamos mais o que estávamos engolindo, só estávamos.

Minha mente estava a um passo de explodir e eu só conseguia pensar em uma coisa: um conceito da ciência chamada de “Teoria do caos”.

Bem, falando de modo geral, meus conhecimentos físicos e matemáticos estavam um pouco melhores do que o nível de “porra nenhuma”, então não era de se esperar algo muito profundo sobre esse tipo de conteúdo da minha parte... Mas essa teoria em especial me chamou bastante atenção desde a primeira vez que eu ouvi falar sobre, principalmente por saber que ela era a base principal para o que conhecemos como “ efeito borboleta”. Quero dizer, você sabe. A famosa frase: “ Uma borboleta bate suas asas em Tóquio e causa um tornado na cidade de Chicago”... ou alguma coisa assim.

Em resumo: Você pode não saber disso, mas ela é simplesmente uma das leis mais importantes do universo.

Por quê?

Oh, porque ela basicamente é o que governa toda a sua vida... E o bendito universo!

A forma como ela funciona também é fantástica: Uma pequena e aparentemente insignificante acontecimento ocorre no início de um evento, e logo em seguida pode se tornar responsável por gerar consequências caóticas e imensuráveis no futuro. Tão impressionantes, que você provavelmente nunca sequer se lembraria daquela pequena coisa inicial que aconteceu. Assim como você também não saberia se você é o começo dessa cadeia de eventos ou se foi pego apenas no meio dela...

— Por que você também está bebendo? — Isaac me tirou dos devaneios quando me perguntou depois de termos virado o terceiro shot de tequila.

De forma nenhuma contei a ele sobre minha mãe. Aquilo me pareceu muito, muito perigoso para ser contado naquele momento. Não pra mim, exatamente. Mas para ele. Então era preciso primeiro eu conseguir processar os fatos completamente para depois poder passa-los adiante sem fritar o cérebro de mais alguém...

— Acredite, eu preciso disso tanto quanto você. — Respondi a ele. — Ou talvez até mais. Outro por favor!

Eu podia sentir minhas bochechas ficando vermelhas e meu corpo estava mais quente também, de modo que o casaco pesado que eu usava estava começando a incomodar. Erik não era bom com bebidas, mas eu realmente não sabia se queria ficar sóbrio hoje...

Eu provavelmente deveria ficar. Mas eu provavelmente deveria fazer um monte de coisas que geralmente não dou mínima, então apenas continuei bebendo.

Não sei quantos copos e drinks nós viramos e nem quantas horas se passaram desde que estávamos ali acabando com toda a bebida do bar, mas em algum momento a boate outrora vazia, passou a ficar lotada de corpos suados e dançantes e uma música alta e cheia de batida que estremeciam cada parte dos meu ouvidos e fazia minha cabeça doer como o inferno.

Isaac e eu esquecemos um pouco de descontar nosso ódio da vida em nosso fígado e nós viramos em direção a pista de dança para entender um pouco exatamente aonde nós estávamos e...

Bem, não sei quanto a Isaac, mas eu fiquei sóbrio na hora.

— Mas que porra...? — Eu perguntei esfregando meus olhos com força pra ter certeza do que eu estava vendo.

Considerando meu histórico e ponto de vista liberal, existiam muito poucas coisas nesse mundo capazes realmente de me surpreender ou de me deixar chocado. Mas entender o ambiente em que eu me encontrava, de fato me deixou. Haviam homens que se agarravam enquanto seus corpos estavam completamente colados um no outro. Alguns outros se beijavam de forma tão intensa e explicita que era até difícil não olhar. E havia também homens seminus, sentados no colo de outros homens muito mais velhos enquanto flertavam docemente...

E na realidade, não foi nenhuma dessas coisas que me deixou realmente em choque.

E sim o fato de eu ter me enfiado aqui com Isaac e o modo como estavam olhando para nós.

— Merda! — Eu agarrei o braço do idiota que estavam completamente mudo ao meu lado. — Acho melhor a gente cair fora...

Parecia que tínhamos entrado em algum tipo de realidade paralela naquele momento. Além disso, a estatura, biotipo e feição do Erik não estavam exatamente muito a meu favor naquele, o que fez com que eu quisesse me apressar ainda mais.

Eu estava me sentindo um pedaço de presunto pendurado por um barbante no meio de uma alcateia de lobos famintos. E eu nem sei se lobos de fato comem presunto! (Provavelmente sim, já que estão famintos...)

Por outro lado, não houve resposta por parte de Isaac. Depois de esperar mais alguns segundos do puro silencio do meu colega ao lado, fiquei preocupado se a cena obscena que tínhamos acabado de ver pudesse ter fritado os neurônios dele e me virei para perguntar...

Apenas para descobri que o cara ao meu lado não era Isaac.

Tirei minha mão do braço dele imediatamente enquanto tentava organizar o que eu deveria perguntar primeiro: “Quem é você? Ou “Onde está Isaac?”.

O cara provavelmente conseguiu ler o espanto e as perguntas em meu rosto sem que eu precisasse dizer alto alguma palavra, pois ele apenas riu divertido pra mim.

— Está procurando seu amigo? — Ele me perguntou levando um copo com liquido âmbar à boca.

— Sim... — Eu falei mecanicamente. De onde essa pessoa saiu? — Cadê ele?

— Eu o vi indo em direção ao banheiro com outro cara. — Ele contou casualmente, como se estivesse me falando da lista que ele leva pra fazer à feira aos domingos e onde encontrar as melhores promoções.

Meus olhos triplicaram de tamanho e eu me levantei imediatamente, fazendo com que até o banco em que estava sentado fosse jogado para trás.

— Ele foi pra onde? — Minha voz saiu tão alta que até mesmo a música barulhenta não foi capaz de abafar.

Ele apontou em direção aos banheiros e eu nem pensei duas vezes antes de correr para lá.

Que inferno, por que Isaac seguiu um desconhecido para o banheiro numa situação dessa? Ele tem fetiche por banheiro? Ofereceram doce pra ele? Ele é uma criança que precisa ser alertada para não seguir estranhos ou o que?

Um monte de perguntas caóticas estava girando na minha mente.

Assim que entrei no local, um cheiro forte e ambíguo encheu meu nariz. Toda aquela bebida e a pizza mal digerida ficaram muito tentados a voltar. Mas eu não tinha nem tempo pra vomitar meu desgosto naquele momento, já que eu ainda precisava procurar pelo idiota desaparecido.

Um casal se agarrava contra a parede de modo que quase dei meia volta para não ver além do necessário enquanto tentava ver se ele poderia estar em uma das cabines. Só que... Um dos homens envolvidos nos amassos da parede era ridiculamente familiar.

Meu queixo tinha caído em algum lugar daquele banheiro nojento, mas eu nem tive tempo pra me adaptar ao choque.

— Ah, cacete! — Foi só o que eu consegui exclamar quando voei em direção aos dois e tentei separar o homem grande e corpulento que pressionava Isaac daquela forma.

— Ei, o que você está fazendo? — O cara me gritou quando eu o separei de Isaac, dando uma boa olhada na situação.

A roupa de Isaac estava bagunça e amarrotada. Os botões da camisa estavam desconexos e o zíper da calça estava semiaberto. Mas apesar disso, nada mais catastrófico parecia ter acontecido. Por pouco, muito pouco eu não cheguei tarde demais! Um calafrio subiu por todo meu corpo quando pensei nisso.

— O que eu estou fazendo? O que você está fazendo? — Eu cuspi de volta para o cara. — Olha para a situação dele! Você tá se aproveitando de um cara bêbado!

— Ele não parecia estar achando ruim. — Ele alegou. — Ele é seu?

— Não! Ele não é meu! Ele é uma pessoa bêbada que provavelmente não consegue nem dizer o próprio nome agora, caralho! — Eu rugi. Meus punhos estavam tremendo. Eu não sabia se estava assustado por Isaac ou com uma vontade louca de matar alguém. Provavelmente uma mistura insana dos dois.

O cara riu com deboche me olhando de baixo para cima.

— Olha, eu não me incomodaria se você quiser participar também. Eu adoro fazer a três...

Ele não conseguiu terminar de falar antes que meu punho atingisse com força o queixo dele. Se fosse meu corpo original, eu seria capas de pelo menos deslocar o maxilar dele. Porém, com a minha situação atual, terminou apenas com um corte sangrento no canto dos lábios.

Senti ainda mais ódio por conta disso.

Agarrei Isaac pelo braço ainda puto de raiva, e comecei a arrasta-lo para fora daquele banheiro nojento, mas o cara parecia ter se recuperado do soco rápido demais e tentou me segurar pelo pulso. Como reação instintiva, agarrei de volta o primeiro dedo que consegui segurar e torci para trás até ouvi-lo quebrar. Por conta disso, ele também pareceu agir com extinto. Como resposta, e provavelmente desesperado para que soltasse o dedo quebrado, ele levantou a mão para acertar o meu rosto também. E ele conseguiu, de modo que o lado direito da minha cara inteira esquentou e eu perdi completamente o equilíbrio. Minha cabeça bateu diretamente na quina de uma das pias antes que eu caísse no chão.

Então senti o sangue descer pelo meu rosto e manchar minha visão de vermelho.

— Por que você está agindo como se eu fosse um grande pervertido? — Ele rosnou pra mim, como se fosse totalmente injustiçado. — Ele me seguiu de bom grado até aqui! Eu não queria muito dele. Só queria que ele pelo menos me chupasse...

Não precisei me levantar do chão para dar um rasteira nele e dessa vez foi a vez dele de cair no chão.

Me levantei o mais rápido que eu pude, fazendo questão de pisar na mão com o dedo contorcido no processo.

— Chupa você o seu próprio pau! — Fiz questão de apertar a sola do sapato com mais determinação. Por experiência própria, posso dizer que é uma dor tão filha da puta, que você perde completamente sua força. E essa foi a intenção. E então agarrei o braço de Isaac que ainda parecia tão malditamente entorpecido como se realmente não tivesse se dado conta de tudo que tinha acabado acontecer.

Não dei tempo para o cara se levantar ou Isaac voltar a si, antes de arrasta-lo pra fora.

À medida que a adrenalina se esvaia, eu sentia minhas mãos ficando frias e tremerem. A verdade é que eu adoraria voltar lá e quebrar aquele filho da puta nojento na porrada até meus punhos ficarem na carne viva. Mas eu não era mais eu, meu corpo não era o meu, a força não era minha e os danos que eu sofreria também não. Não restava nada de mim, além da minha alma e minhas memorias. E eu tinha uma bagagem extra chamada Isaac...

Pela primeira vez desde que tinha acordado com o corpo do Erik senti verdadeiramente uma vontade absurda de chorar. Por puro desespero!

Eu não me importava de me enfiar em um monte de situação imbecil uma atrás da outra, mas isso não significa que eu queria arrastar mais gente comigo.

Não queria que Erik ou até mesmo Isaac fossem afetados de forma insana por conta disso.

Enfiei Isaac no primeiro taxi que encontrei quando sai daquele lugar. Minha testa ainda estava sangrando e minhas roupas também tinham ficado machadas de sangue. Isaac praticamente não tinha nenhuma consciência solida, de modo que todo seu peso era segurado por mim. Parecia que eu tinha acabado de mata-lo e estava arrastando seu cadáver para um passeio... Realmente me surpreendi de algum taxista ter aceitado nos dar carona.

— Para onde, Senhor? — O motorista questionou enquanto olhava para mim e Isaac pelo espelho com um olhar desconfiado.

— Onde fica o setor de hotéis? Nos leve lá. — Eu disse ofegante por conta do enorme esforço físico.

Isaac não podia ir pra casa daquele jeito, e eu também não poderia ir pra casa naquela situação enquanto segurava Isaac junto. A noite estava gelada demais e ele não estava usando muitas roupas quentes, de modo que a coisa mais inteligente a fazer era encontrar algum lugar pra lavar todo aquele sangue e passar a noite.

Minha cabeça latejava com tanta força que por um minuto achei que realmente tinha subestimado aquela pancada e agora estava com um aneurisma. O sangue ainda estava saindo e o meu rosto inteiro estava ardendo.

E eu me recostei no banco com a respiração ofegante, ainda com Isaac apoiado em mim, enquanto pensava o quanto todas as minhas decisões nos últimos anos tinham me arrastado até ali. E por algum motivo eu realmente me sentia muito culpado por tudo...

Não existe destino quando se toma decisões ruins...

— Eu sinto muito, Isaac... — Sussurrei, sem ter certeza do porquê ou se pelo menos o garoto ao meu lado escutou algo. Provavelmente não, mas eu não me importei, e continuei desse jeito até chegarmos ao pequeno setor de hotéis.

Entrei no que parecia mais perto para entrar enquanto arrastava Isaac e pedi um quarto para a noite toda.

A moça na recepção deu um olhar curioso em mim e no desacordado Isaac, mas não disse nada antes de nos entregar uma chave. E eu nem mesmo estava com humor para tentar imaginar o que se passava pela cabeça dela...

A primeira coisa que fiz quando entrei no quarto foi jogar Isaac na banheira e tentar dar um banho nele. Eu esperava sinceramente que isso pudesse ajudar a apagar o que tinha acontecido hoje à noite...

Fiz isso tudo em piloto automático. Eu nem sei mais para onde minha mente estava vagando, de modo que só voltei a mim quando Isaac já estava dormindo na cama e eu estava em pé diante do espelho encarando a minha aparência horrenda.

Havia uma fenda de tamanho considerável em cima da minha sobrancelha e minha camisa estava manchada com muito sangue, como se em vez de ter batido a cabeça, eu tivesse esfaqueado um porco enquanto o abraçava. Um rosto inchado e sangrento...

Porcaria de dia! Porcaria de mês! Porcaria de vida!

Soltei um suspiro.

O que eu ainda estou fazendo aqui, afinal? Quando essa fase de odisseia maldita vai acabar?

Voltei para o quarto onde Isaac ainda dormia e me sentei na beirada da cama me recostando na cabeceira. Comecei a me perguntar se no futuro eu poderia acabar me tornando uma pessoa obcecada e controladora, tão malditamente preocupada com o futuro. Porque de repente, ver que eu realmente não tenho controle de nada estava começando a me irritar.

Você é a borboleta ou o tornado? , eu perguntei a mim mesmo...

Mas naquele momento, eu estava tão cansado... Eu realmente só queria dormir um pouco. Então fechei meus olhos e me permiti me afastar um pouco daquela noite inusitada.

Então tive um sonho que quase serviu para compensar toda a porcaria do dia inteiro.

No meu sonho, Erik e eu éramos pessoas diferentes com corpos diferentes, como sempre deveria ter sido. E ele estava parado na minha frente com uma expressão que eu particularmente nunca o vi fazendo. Olhos azuis pareciam mais brilhantes e ele tinha um sorriso animado no rosto magro.

Então ele segurou a minha mão.

— Eu descobri uma coisa! — Ele me disse com uma voz melódica e animada. — Talvez isso possa ajudar a encontrar a resposta que procuramos...

Após falar isso, Erik desapareceu e a cena do sonho mudou.

Um garotinho pequeno, com bochechas coradas e profundos olhos azuis cuspia palavras terríveis para outro garotinho de cabelos pretos e que parecia estar a ponto de chorar. Eu não conseguia ouvi-los muito bem, mas parecia que uma briga estava prestes a começar. E eu estava certo. Eles se socaram e se empurraram por um bom tempo, até o garotinho de cabelos pálidos e língua afiada acabar caindo dentro da piscina de água gelada.

Reconheci Erik e Isaac quando ainda eram dois pirralhos barulhentos. O motivo pelo qual isso estava vendo isso no meu sonho... Bem eu também estava curioso.

No entanto, o que o pequeno Erik não sabia é que Isaac não conseguia tira-lo daquela piscina sozinho e por isso precisou correr para buscar ajuda, mas isso levou tempo. Eu fiquei na beira da piscina vendo o pequeno Erik debater suas mãos e pés até por fim parar completamente de se mover. Um minuto, dois minutos, três... Doze minutos no total foi o tempo em que ele ficou submerso até os seguranças o tirarem de vez da piscina e arrastarem seu corpo para o chão.

Foram mais dez minutos até os paramédicos chegarem e tentarem acorda-lo com massagem cardíaca. Eles pararam depois de um tempo e balançaram a cabeça um para o outro.

Parecia muito obvio para qualquer um: Aquele garoto estava morto! Ele se afogou até a morte!

Mas Erik definitivamente não tinha morrido naquele dia... Então... o que era aquilo tudo?

Assim que me Fiz essa pergunta, meus olhos se abriram. E tanto o garoto molhado com a pele azul e roxa, quanto a piscina ou os paramédicos... Tudo desapareceu.

E eu acordei com alguém limpando minha testa gentilmente.

— Oh, você acordou... — Isaac constatou quando nossos olhos se encontraram.

Me sentei imediatamente na cama. Pela janela coberta com cortinas brancas eu pude ver que ainda não havia amanhecido completamente. Então voltei meu olhar para Isaac.

— Você está bem? — Perguntei de forma sincera a ele. Ele parecia ter voltado a consciência e não parecia mais tão lesado ou decadente como ontem. Mas nunca se sabe.

Isaac parou o movimento de molhar um pedaço de pano em um recipiente com água e depois de um tempo assentiu.

— Estou bem.

— Ótimo... — Eu disse. — Obrigado por limpar o sangue, aliás. Eu me esqueci de fazer isso.

Dessa vez ele olhou diretamente para o meu rosto.

— Não preciso do seu agradecimento — Ele falou em um fio de voz. — Você me ajudou noite passada.

Apertei meus lábios para ele. Então apesar de tudo ele ainda se lembrava...

— Eu juro que eu não sabia aonde estávamos! — Me defendi mesmo não sendo acusado de nada. — Eu tomei um puta susto quando percebi que você não estava ao meu lado...então fiquei em choque com o que eu vi. Mas eu realmente não imaginava que algo assim ia acontecer...

— Eu sei! — Isaac interrompeu. — Não vamos falar sobre isso agora.

De repente não falar sobre isso e a calma tibetana em que ele se encontrava me incomodou mais do que se Isaac tivesse simplesmente me xingado e destruído o quarto inteiro por ódio como eu imaginei que ele faria...

Mas também não sabia o que falar para ele que o fizesse se sentir melhor, então apenas me levantei silenciosamente da cama e fui ao banheiro.

A água da torneira estava absurdamente fria, o que fez com que eu acabasse me lembrando do insano sonho que tive. Erik se afogando até a morte, os paramédicos desacreditados...

O que o Erik queria eu tirasse disso tudo? Aliás, aquilo realmente tinha a ver com o Erik de fato ou era apenas consequência do meu cansaço mental?

— Você precisa de gelo. — A voz pesada de Isaac me tirou dos meus devaneios. — Eu vou comprar pra você.

— Eu posso fazer isso sozinho. — Me apressei em dizer. Isaac estava muito prestativo naquela manhã e eu estava começando a entrar em pânico. Sem falar que eu não estava acostumado a alguém se prestando pra comprar gelo pra mim depois de uma briga...

— Você ainda está sujo de sangue. O dia está clareando e não seria bom se você saísse desse jeito...

E ele não me deu escolha, antes de sair pela porta e me deixar sozinho naquele quarto.

Minha cabeça ainda estava doendo e meu estomago estava enjoado. Aproveitei que Isaac não estava mais ali e coloquei o dedo na garganta para vomitar tudo o que não vomitei na noite passada.

Me senti revigorado após fazer isso!

Isaac voltou um pouco depois de uns vinte minutos. Nesse tempo eu tinha lavado meu rosto completamente, e limpado a bagunça que fiz. Apenas a ferida sangrenta e o hematoma na bochecha tinham restado.

Falando nisso, Isaac comprou muito mais do que apenas um saco de gelo. Ele comprou remédio pra ressaca e uma camisa nova também. Além de alguns produtos para curativo.

Peguei a bolsa de gelo e coloquei sobre a parte do meu rosto que acabou ficando roxo escuro. Acabei fazendo uma careta, tanto pela dor quanto pelo frio que me atingiu, e isso não passou despercebido para Isaac.

— Dói muito? — Ele me perguntou.

— O machucado em si, não. Mas parece que alguém está usando uma britadeira no meu cérebro — Respondi com sinceridade.— Você deveria se preocupar com você mesmo, na verdade. Você quer... Sei lá, ir na polícia fazer uma denúncia ou algo assim?

Isaac olhou pra mim como se eu tivesse ficado completamente maluco por sugerir algo assim.

— Logico que não! Eu nem saberia como explicar uma porra dessa para mais alguém!

Então entendi porque ele estava tão estranho naquela manhã. Ele estava envergonhado demais para falar qualquer coisa.

— Não sei se fingir que nada aconteceu seja a melhor opção...

— Mas nada aconteceu realmente.— Ele falou. — Você chegou antes. Então, vamos apenas deixar assim.

Isaac tinha sido macio comigo tantas vezes nas últimas horas que eu estava começando a me questionar se havia uma alma extra no corpo dele também.

— Certo! — Eu falei. Então levei minha mão para a sacola para pegar o necessário para os curativos.

— Eu vou fazer isso. — Isaac se ofereceu.

E ele fez mesmo.

Eu estava olhando para o rosto concentrado de Isaac que colocava a pomada e o curativo no corte da minha cabeça, com tanto cuidado, que quase comecei a achar que eu era feito de porcelana. Se ele olhasse apenas pelo canto do olho, como de fato eu o vi fazendo algumas vezes, ia parecer que eu estava constrangidamente olhando para o rosto bonito dele sobre o meu. Mas se ele olhasse de fato para mim, teria percebido que eu estava com cara de horror e boquiaberto, tentando entender se a minha teoria de ter entrado em um universo paralelo era realmente verdade...

— Valeu! — Eu agradeci depois que ele se afastou.

Após isso o quarto afundou em um silencio mais dramático do que deveria. Continuei a pressionar o gelo contra minha bochecha e comecei a pensar. Isaac pareceu fazer o mesmo; não sabia em que ele estava pensando, mas eu estava me concentrando na sensação fria do gelo e tentava entender aquele sonho...

Então me lembrei que a outra parte evolvida naquela história estava agora mesmo sentado bem na minha frente!

— Hey, Isaac, mudando de assunto... — Eu interrompi o silencio abruptamente. — Quando o Erik caiu naquela piscina quando vocês eram crianças... O que realmente aconteceu nesse dia?

Isaac apertou os olhos para mim com uma cara de desgosto.

— Você não disse que já sabia sobre isso? Por que ta me perguntando?

— Porque quero ouvir a sua versão da história. O que aconteceu depois que o Erik caiu na piscina?— Tecnicamente era verdade. Erik tinha ficado inconsciente naquele dia. Não dava para saber maiores detalhes desse jeito!

Isaac respirou fundo como se fosse começar a revirar algo incomodo dos fundos da sua memória.

— Você... Digo, o Erik se afogou. — Ele anunciou. — Os seguranças demoraram para chegar e quando tiraram o corpo da piscina, ele teve uma parada cardiorrespiratória e não voltou mesmo depois de terem feito as massagens de reanimação. Foi assim por quase uma hora.

Toda essa informação batia com exatidão com o conteúdo do meu sonho...

— Então... Como ressuscitaram ele?

— Com algumas cargas do desfibrilador e três injeções de noradrenalina. Na verdade, a coisa toda foi caótica, então foi feito no desespero. E eles também falaram que o fato de o Erik estar com a temperatura bem abaixo do normal foi o que realmente ajudou. Quando conseguiram subir a temperatura novamente e fizeram os procedimentos, acabou dando certo. Aparentemente ele entrou em uma fase de coma que ajudou o cérebro a se preservar mesmo sem a circulação do oxigênio ou algo do tipo. Mas o fato de não ter tido grandes sequelas ainda foi um milagre.

Temperatura abaixo do normal? Hipotermia?

Hipotermia... Repeti essa palavra na minha mente por um tempo.

Então voltei a olhar para Isaac.

—Você pode me emprestar seu celular um segundo? — Meu celular tinha quebrado depois da ligação de Caleb e não estava mais em condição de uso, mas eu precisava de alguma coisa que pudesse se conectar rápido com a internet.

Isaac hesitou por um tempo, mas depois alcançou o aparelho e me entregou.

Abri uma página de busca e digitei as palavras “ hipotermia em caso de parada respiratória”.

Li uma considerável lista de artigos médicos que eu pouco entendia com termos tão rebuscados, mas que afirmavam que em casos de pessoas hipotérmicas, a chance de ressuscitação em relação a asfixia prolongada tinha grandes chances de serem bem sucedidas...

Ressuscitação após asfixia...

Olhei para todas aquelas palavras na minha frente, absorvendo cada uma delas, e comecei a me perguntar como eu deveria lidar com toda aquela informação. Porém um plano insano, mas esperançoso, começou a delinear em minha mente.