Mais Uma Vez

10 Capítulo 9: Festa! ...Festa?


Notas iniciais
Obrigada a Cella, a beta que aguenta minhas loucuras e partilha do meu gosto por assuntos polêmicos. heheh

Capítulo 9: Festa! ...Festa?

Claire

A semana se arrastou a passos de formiga.

Depois da festa da Vó Esme no domingo, tudo o que eu fiz foi contar os minutos para que a sexta-feira chegasse. Meu pai havia ligado na quarta, a fim de confirmar se eu passaria o fim de semana em sua casa, mas eu precisei inventar uma boa desculpa para recusar ir logo na sexta.

Eu disse que ele precisava recompensar o tempo que perdeu com sua... noiva por conta de toda aquela infeliz confusão na semana passada. Não que tivesse sido fácil convencê-lo — ele ficou, literalmente, sem palavras ao telefone. Mas eu tentei ser franca, explicando que Tanya tinha vindo se desculpar durante a festa da vovó, e que eles precisavam conversar direito. Ele ficou tão surpreso, que eu me senti até um pouco orgulhosa de mim mesma por estar novamente superando expectativas e fugindo de reações óbvias.

É claro que não foi fácil que eu aceitasse as desculpas da BiscaTanya. Ela pareceu teimosa por não querer assumir seu erro, mas soava igualmente arrependida. Depois de muito insistir para que eu sentasse em sua mesa por cinco minutos, tudo o que Tanya disse foi que ela não sabia lidar com crianças — e é claro que nesse ponto eu bufei para a sua insinuação -, e que estava tentando aprender. Ela explicou que se exaltou por "uns motivos que você não precisa saber", nas palavras dela, mas basicamente já fazia duas semanas inteiras que ela não encontrava com seu noivo — no caso, argh, o meu pai -, e isso a deixava estressada. Estava para nascer uma mulher mais insegura do que essa avoada.

Eu rolei os olhos muitas vezes para ela, mais do que o necessário, porém no fim suas desculpas pareceram sinceras. É óbvio que a gente não ia se tornar melhores amigas ou começar a fazer as unhas juntas cantando Britney Spears, mas pelo menos ela tinha se tocado que o melhor a fazer era se desculpar. E se eu pudesse usá-la como forma de distração para o meu pai não fazer perguntas sobre o meu paradeiro durante a noite de sexta, então era um ótimo negócio.

Convenci minha mãe a me deixar ir à festa de Kim prometendo algumas coisas. A primeira era que eu não iria me desgrudar de Rose — o que, obviamente, não ia rolar -, e a segunda era que eu não iria provar ou beber nada que não pudesse ser vendido na cantina da escola. A forma como ela ameaçou me castigar, caso eu burlasse suas ordens, me deixou com tanto medo, que eu sequer queria chegar perto de alguém suspeito de possuir coisas assim.

Rose arrumara meu cabelo de um jeito que não parecesse uma Barbie, mas que ficasse natural e menos armado, e insistiu que eu colocasse o vestido que, segundo ela, me deixava "uma menina graciosa". Mesmo achando que ela estava me zombando, vesti a porcaria do vestido e uma sapatilha, ao invés do meu costumeiro jeans e tênis. Eu estava me achando quase bonita. Mesmo assim, para mim isso não era relevante; tudo o que importava era se a pessoa certa gostaria ou não.

Jake. Até mesmo pensar seu nome já me deixava ansiosa.

Eu encontrei com ele algumas vezes durante a semana e quando ele me confirmou pessoalmente que iria à festa, foi difícil conter a sensação de morcegos batendo suas asas no meu estômago. Morcegos, pois delicadas borboletas não podem fazer esse estrago todo dentro de mim. Eu estava com um sentimento estranho. Um frio na barriga que não me indicava se o resultado da minha expectativa seria bom ou ruim.

Eu só sabia que alguma coisa iria acontecer hoje à noite.

Ao chegarmos na festa, Rose rapidamente se dispersou de mim para procurar por Emmett, e Rachel me encontrou, já com uma cerveja estendida para me entregar, mesmo sob meus protestos. Fiz todo tipo de careta ao bebericar aquela coisa amarga e horrível, com mil quilos na consciência por estar quebrando uma promessa à minha mãe. Às vezes eu conseguia ser tão panaca.

O local estava abarrotado de gente que eu não conhecia, ou apenas conhecia de vista, e minha mente girava com o tanto de pessoas e com a música alta. Minha amiga me arrastou pelo pulso para todo canto, me apresentando a pessoas aleatórias, até que sentamos em uma mesa onde um grupo comandado por Kim jogava carteado — e digamos que eu não era a maior expert em jogos de azar. Eu estava entediada, mas só fiquei lá por um bom motivo.

Jacob estava sentado ao meu lado, jogando e sendo lindo e fofo comigo enquanto tentava me ajudar com as cartas. Seria ótimo para eu tentar conversar com ele, não fosse o fato de Leah Clearwater também estar disputando sua atenção, ignorando totalmente o seu status de ex-namorada. Era ridículo.

- Agora é só fazer uma canastra. – ele me dissera alto, lutando contra o hip hop ofensivo que berrava dos alto-falantes. Eu ergui minhas sobrancelhas.

- O quê? Uma sinistra? – perguntei, e Jake rira, sacudindo a cabeça.

- Uma canastra, uma sequência de cartas do mesmo naipe. – ele explicara, e eu assenti como se fizesse muito sentido.

- Se a pirralha não entende, não perca o seu tempo. – Leah abrira a porcaria da boca para me alfinetar. Eu respirei fundo, e adorei quando Jake simplesmente a ignorou.

Depois de uma rodada vencida por Kim, eu descobri que os perdedores tinham que beber algo que vinha de uma garrafa de vidro transparente e que fedia a remédio de limpar ferimento. Estremeci ao pensar em sequer provar aquilo, e vi, com terror quando o copo que rodava a mesa se aproximou e Rachel o pegou prontamente.

- Se quer meu conselho, deixa esse troço pra lá. Minha irmã bebe porque se acha muito adulta, mas você não devia ir na dela. Você é mais esperta que isso. – Jake falou de repente, e pelo mais breve momento virou o rosto para o meu, com um pequeno sorriso que lançou calor naquele lugar entre o estômago e o peito.

Eu estava hipnotizada demais para encontrar as palavras, então apenas pus meu copo de cerveja para longe e recusei aquele que chegava para mim. Um novo jogo foi distribuído, mas antes que pudessem começar, Jacob se levantou.

- Pra dizer a verdade, acho que não quero mais jogar. – ele se pronunciou, recusando as novas cartas. Alguns amigos protestaram, mas ele ignorou e virou-se para mim. – Vou dar uma volta lá fora. Quer vir?

Sim! Sim! Sim! Pra qualquer lugar!, pensei com uma palpitação no peito.

- Ah, claro. – falei bem calma, ao invés de agir como uma menininha boba. Quando me levantei, de repente Leah puxou sua cadeira para trás.

- Também vou, preciso fumar um cigarro. – ela falou, para a minha decepção.

- Você não tinha apostado dinheiro nessa partida? Tenho certeza que não vai querer perder. – Jacob falou, rapidamente colocando as mãos sobre os ombros de Leah e a forçando a se sentar de volta.

- Ei, ei. Você pode tratar de continuar nessa mesa, Leah Clearwater! – para meu alívio, Kim ordenou à amiga. — Honre a nossa aposta!

- Mas eu… – Leah começou a dizer, porém Jacob puxou meu pulso e em poucos segundos já estávamos longe da mesa.

- Ela não dá sossego. Que saco. – murmurou enquanto me levava pela porta até o jardim de trás. Eu estava muito ciente do seu toque na minha pele, e era maravilhoso.

- É, ela consegue ser uma chata às vezes. – comentei o que escapou dos meus pensamentos. Isso estava certo, não é? Eu podia falar mal da ex dele sem parecer ciumenta, não podia?

Ele riu de leve. – Às vezes, não. Muitas. Mais do que o suportável.

Sentamos em um banco de pedras que ficava em frente à piscina, e a área estava lotada de gente. Algumas pessoas que utilizavam a jacuzzi aquecida ao lado da piscina fumavam uma coisa com cheiro esquisito que definitivamente não era cigarro. Assisti a eles por um tempo enquanto o silêncio tomava conta entre Jake e eu.

Eu preciso dizer alguma coisa. Eu estou tendo a chance que queria e vou desperdiçar simplesmente porque sou uma tonta sem graça.

- E sua mãe, como está? – perguntou antes que eu elaborasse qualquer frase.

- Está bem. Começou um cargo novo no trabalho essa semana.

- Bacana. – ele falou com um aceno de cabeça. – Ela merece, é uma mãe legal.

- Ah, sim. Com certeza. – afirmei. Jake conhecia minha mãe de tanto que ela já havia ido me buscar na casa deles depois dos nossos ensaios, e de tanto que ele ia buscar Rachel na minha casa. Acho que meu interesse por Jake começou justamente com minhas frequentes idas à casa dos Black para os ensaios da Little Lost Girls.

Sempre que eu chegava lá, Rachel já estava no porão com as meninas e ele estava na sala jogando Xbox. Um belo dia, decidi que eu simplesmente tinha que parar para ver o que o entretia tanto, e assim criou-se uma tradição, um pequeno ritual nosso. Num dia nós descobrimos nosso similar apreço por GTA; no outro eu o ensinei umas manobras novas; na semana seguinte, ele me apresentou um jogo recém-adquirido, e quando dei por mim, quase duas horas tinham se passado enquanto eu jogava ao seu lado até Rachel ligar para o meu celular querendo saber onde diabos eu estava.

O tempo passava voando ao lado dele, e eu buscava mais e mais ter sua companhia, mesmo que só fosse possível nos dias de ensaio, já que eu era covarde demais para me juntar a ele e seus amigos mais velhos no horário da escola. Jake me fazia sentir bem de um jeito que ninguém nunca conseguiu; sempre me enchia de uma calma, colocando um sorriso no meu rosto mesmo quando eu não estava num dia de sorrisos.

Nossa amizade era quase uma realidade alternativa, escondida, mas eu gostava de não compartilhar aquilo com o mundo. Eu só percebi que estava realmente gostando dele quando falou mais alto o impulso de lhe demonstrar meu afeto de formas que, com certeza, amigos não demonstrariam.

A minha única dúvida era se tudo isso seria recíproco. Quer dizer, afinal eu não passava de uma pirralha amiga da irmã caçula dele, certo?

E nós ainda estávamos em um silêncio desconfortável.

- E a sua faculdade? Já tem certeza do que quer? – perguntei o que seria um tópico comumente interessante para qualquer aluno do último ano. Existia o pequeno detalhe de que Jake havia pulado a terceira série. Ele iria começar a faculdade um ano mais novo que a média. Além de tudo, ele era inteligente demais.

- Devo ir para a Universidade de Nova York mesmo. Não sei se vou conseguir ficar longe do meu pai. Ele precisa de mim. – ele falou com uma voz menos alegre que o costume.

O pai deles era um assunto delicado que eu costumava evitar, mas eu não julgava o sr. Black por ser tão amargo com a vida. Perder a esposa e mãe de seus filhos em um acidente causado por você, e ainda sair vivo, mas sem poder andar realmente era difícil achar um lado positivo.

- Bom, mas a NYU¹ é uma faculdade renomada. E eu tenho certeza que você vai conseguir entrar. Você é tão inteligente. – falei com um sorriso, tentando encorajá-lo. Eu queria fazer alguma coisa para reconfortá-lo, mas nada parecia bom o bastante.

- Espero que esteja certa, Claire. – ele deu um fantasma do sorriso brilhante que sempre estava presente, mas tocou minha mão pousada entre nós.

Eu olhei para o céu, que estava escuro e estrelado. A noite de primavera estava sem nuvens, e quando uma brisa bateu varrendo meus cabelos da minha nuca, senti arrepios.

- Tá com frio? – perguntou, enquanto chegava mais perto para envolver meus ombros com um braço. Seu calor foi como um alívio.

- Um pouco. – eu disse e olhei para ele em agradecimento. — É tudo culpa dessa porcaria de vestido que Rose me mandou vestir. Eu podia estar de moletom e quentinha.

Jake desviou os olhos para espiar o dito vestido por um instante, e um outro tipo de arrepio esquisito percorreu meu corpo quando vi uma expressão desconhecida passar por sua face. Seu rosto estava tão perto do meu, que eu conseguia sentir sua respiração. Eu nunca estive tão próxima a um garoto, e isso estava começando a me deixar nervosa.

- Claire, você…– ele falou com hesitação e eu segurei seu olhar com o meu. — Você está diferente hoje.

Diferente. Diferente positivo ou diferente negativo? Porque meninos são tão misteriosos às vezes?

- Obrigada, eu acho.

- Quer dizer, você está muito bonita. – Jacob elogiu e - espere aí. Jake me elogiu!

Ele me acha bonita. Deus, ele me acha muito bonita.

- Obrigada. – falei entre palpitações do meu coração. Sem que eu pudesse evitar, um sorriso apareceu na minha boca.

Jake apertou quase imperceptivelmente seu braço que contornava meu ombro, e minha mão que ele ainda segurava. Ele me fitou mais uma vez com a mesma intensidade de antes, o que me deixava ao mesmo tempo hipnotizada e ansiosa. Sem saber o que fazer, tombei a cabeça para olhar o fiapo da saia que minha mão livre tentava arrancar.

Eu sentia seus olhos queimando sobre mim, mas algo me impedia de encará-lo ou mesmo dizer qualquer coisa. E se ele não estivesse realmente interessado em mim? Eu poderia tentar roubar um beijo só para tirar a prova, mas e como ficaria nossa amizade depois disso?

Marie Claire, eu não acredito que você vai dar pra trás logo agora. Pensei que você tivesse um plano?

Antes que eu tivesse chance de chutar a bunda da minha eu interior, senti Jacob tocar meu rosto e deixei que sua mão me virasse para encará-lo.

- Claire, eu não sei se você vai me achar doido, mas eu queria que você soubesse de uma coisa. Eu… – Ele parou de falar na mesma hora em que ouvi a voz estridente de alguém que tinha caído na piscina. Ambos nos viramos para ver o que era. Merda! Precisam interromper logo agora? Isso não é justo. Não é!

Uns garotos que gargalhavam grosseiramente pairavam na beira do local onde alguém se debatia dentro d'água. Ao identificar a jaqueta laranja que Rachel usava, eu praticamente saltei do banco e, junto a Jacob, nós disparamos até lá.

- Ela não sabe nadar! –gritei ao percorrer a borda da piscina até a parte mais funda.

- Eu sei. – Jake falou com raiva na voz e no instante seguinte, vi o vulto de seu corpo mergulhando na água. Encontrando um pouco de relutância, ele finalmente conseguiu puxar Rachel para a borda, e mesmo fora da água ela continuou a se debater contra seu irmão. Me ajoelhei ao lado deles.

- Ah meu Deus, Rachel, você está bem? – perguntei vendo se ela precisava de uma respiração boca-a-boca ou algo assim.

- Estou ótimaaaa! – ela olhou para mim e soltou uma gargalhada. Confusa, eu franzi o cenho para Jacob e ele sacudiu a cabeça.

- Ela está caindo de bêbada. Eu devia ter previsto. – Jake virou seu olhar de reprovação para a irmã, que não parava de rir. Me perguntei quanto tempo nós havíamos ficado lá fora, para que ela tivesse ficado tão bêbada assim. É claro que eu reparei que ela já não estava completamente sóbria quando eu cheguei na festa, então eu só pensava na burrada que ela tinha feito.

Virei para encarar os garotos que ainda estavam parados olhando a cena, reconhecendo-os da mesa de carteado.

- Vocês jogaram ela na piscina desse jeito? Estão malucos? – gritei e eles riram descontroladamente como hienas idiotas. Um deles apenas ergueu as mãos em defesa.

- Ninguém mandou ela perder a última partida. Nós apenas cumprimos nossa parte da aposta. – o imbecil falou.

- Porra, Rachel! – Jake exclamou ferozmente. — Você não aprende? Eu vou contar isso pro papai e dessa vez você não escapa.

Ele tentou colocar Rachel sentada, mas sua cabeça tombava para os lados e seu corpo estava mole demais para se manter ereto. Eu nunca tinha visto ela desse jeito — quer dizer, nunca tinha visto ninguém desse jeito. Rach estava acostumada a vir a essas festas, mas eu não sabia se isso era normal ou não. Sentia meu coração latejando em meus ouvidos pela adrenalina repentina dos últimos minutos.

Com dificuldade, Jacob uniu forças para levantá-la no colo. Por onde andava, Jake e a irmã em seus braços deixavam um rastro de grama encharcada, caminhando pela lateral da grande casa até chegar ao jardim e sair pelo portão. As pessoas olhavam para nós ao passarmos por elas, umas apontando curiosas e sacudindo a cabeça, outras apenas rindo da cena. Quando chegamos ao carro dele, estacionado algumas casas à frente, eu franzi o rosto.

- Vocês vão entrar assim molhados? Quer que eu pegue uma toalha lá dentro? – indaguei.

- Não, eu só quero dar o fora daqui o mais rápido possível. – Jake falou rispidamente. Eu vi que seu queixo tremia de frio, mas ele se mantinha firme com Rachel no colo, que por sua vez não parava de estapear o braço do irmão.

- Abre logo isso, cara. – ela protestou, enrolando as palavras. — Se você não me colocar no chão eu vou vomitar em você. Eu juro que não vai ser legal.

Finalmente, Rachel conseguiu ser colocada de pé, ancorada na lateral do carro. Eu segurei seu braço para apoiá-la. Jake pegou um cobertor no porta-malas, e Rachel começou a gargalhar escandalosamente. Eu já estava ficando perturbada por vê-la dessa forma; não havia graça nenhuma naquela situação. Aquela menina não lembrava em nada a minha melhor amiga que eu conhecia.

Ela apontou um dedo para mim.

- Ah meu Deus, vocês estavam juntinhos lá fora! Você estava se agarrando com o meu irmão e eu cheguei bem na hora, não foi? – ela falou exageradamente entre risadas, tropeçando em uma e outra palavra. Eu suspirei para não descontar nenhuma raiva nela pela vergonha que sentia no momento.

- Já chega, Rachel. – ordenou Jacob envolvendo a irmã no cobertor velho. Ele a colocou dentro do carro e fechou a porta. Eu joguei os sapatos dela no banco de trás, e me virei para encontrar Jacob parado ao meu lado. A expressão em seu rosto — enraivecido, mas magoado — era tão diferente de pouco tempo atrás, e eu queria chorar pela peça que o fim da noite nos tinha reservado.

- Obrigado pela ajuda, Claire. – ele falou com a voz mais suave.

- Não foi nada. Se ela precisar de alguma coisa, pode me ligar. – falei incerta, mesmo sem saber no que eu poderia ser útil.

- Ela precisa é de um bom castigo e um banho frio. – Jake avisou em voz alta propositadamente para a irmã ouvir. — Mas além disso, acho que não vai precisar de mais nada.

- Ok. – eu disse. Sem pensar duas vezes, dei um passo a frente e envolvi meus braços ao redor do seu pescoço, encostando em seu torso molhado. Ele demorou um segundo para retribuir.

- Sinto muito por isso. – sussurrei em seu ouvido. Senti sua cabeça assentindo.

- Eu também. A gente se vê na escola. – falou ele quando me afastei.

- A gente se vê. – respondi com um sorriso fraco.

Jake deu meia-volta, entrou no carro e rapidamente deu a partida, me deixando sozinha na rua escura. Sem mais clima de festa, voltei para casa de Kim querendo encontrar Rosalie e convencê-la a ir embora mais cedo, a fim de deixar para trás essa noite falida.

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Acordei me sentindo um lixo no sábado, já que eu tinha chorado de raiva até conseguir pegar no sono.

Até agora, o fim de semana na casa do papai estava sendo, definitivamente, muito melhor do que o anterior. Nada de interrupções ou intromissões indesejadas. Embora eu estivesse tentando esconder a minha decepção pelo ocorrido na festa, não surtiu muito efeito, já que meu pai passou grande parte do início do sábado olhando preocupado para mim.

- Você está terrivelmente quieta. Está tudo bem? – finalmente inquiriu enquanto almoçávamos no restaurante do hotel.

- Sim, pai. Não é nada, só estou com sono. – despistei arrastando a comida no prato. Era até um pecado fazer tão pouco caso do delicioso almoço do Nahuel, mas eu estava completamente sem apetite.

- Hm. Sabe, eu acho que tenho uma notícia que vai te animar. – falou. Duvido muito.

- Manda.

Sorrindo ligeiramente, ele abriu o paletó para retirar um envelope do bolso interno, e me entregou. Eu olhei desconfiada por um instante, mas abri para revelar o conteúdo, e logo arquejei de surpresa.

- Ingressos pro show do McSky? Pai, isso é... Puxa, Obrigada! – eu disse sem encontrar palavras, e contornei a mesa para me jogar em cima dele. O coitado quase derrubou o prato de comida em cima de nós dois, mas retribuiu ao meu abraço desajeitadamente.

- De nada. – falou e riu quando eu beijei diversas vezes sua bochecha enquanto repetia vários "obrigadas". Quem se importa se todos os hóspedes estavam olhando atravessado para nós? Meu sorriso tinha se aberto pela primeira vez em horas.

- Ué, mas aqui tem três ingressos. – observei ao voltar ao meu lugar e contemplar as tiras retangulares impressas. Ficariam lindos no meu mural depois do show.

- Sim. Um pra você, um para aquela sua amiga doidinha e um pra um acompanhante. – ele deu de ombros. Eu sabia que ele falava da Rachel, mas não fazia ideia de quem mais poderia nos acompanhar. A única vez que minha mãe foi a um show do McSky comigo tinha sido também a última, como ela jurara. Aparentemente, adolescentes berrando não era sua praia.

De repente, eu pensei em Jacob e meu coração apertou-se. Ele não era o maior fã do McSky, mas já dissera que gostaria de me acompanhar em um show. Seria maravilhoso poder considerar essa opção, não fosse a expressão que eu via no rosto do meu pai. Era a carinha de cachorro pidão. Droga.

- Pai. – chamei, e ele limpou a boca no guardanapo.

- Oi.

- Por acaso, esse terceiro ingresso é para um acompanhante adulto? – especulei. Ele assentiu, mais uma vez dando de ombros, como quem não quer nada, mas eu não me deixei enganar. — Por acaso, esse acompanhante adulto deveria responder pelo nome de Edward Cullen?

- Bem… Você fala tanto dessa banda, que parece até que é uma parte da sua família. Não posso dizer que não fico curioso… – ele disse evasivo e eu ri.

- Pai, você quer ir porque está com ciúmes do McSky ou porque quer mesmo conferir o show?

Ele demorou um segundo para responder, mas sorriu maroto ao falar. – Os dois…?

- Tá bom, vai. Você pode ir. Mas tem certeza que vai estar livre nesse dia?

- Absoluta, já até desmarquei reuniões no dia seguinte à data. – ele disse, confessando que eu não teria outras escolhas.

Eu ri e rolei os olhos. Era fofo da parte dele querer participar mais da minha vida, e eu percebia a grandeza do gesto. A gente nunca foi a nenhum show juntos, e eu lembrava muito de quando era menor, de tantos planos que ele fazia para nós quando eu crescesse. "Você vai conhecer música de verdade, filha. Vamos ser companheiros de estrada e ir a todos os festivais desse país. Espere só até você ter 18 anos," ele me dizia. Aos seis anos, isso parecia a maior aventura de toda uma vida, e eu mal podia esperar.

Mas o destino tinha sido imbecil o bastante para tirar essa chance de nós. Não que a gente ainda não pudesse sair viajando em busca de música pelo país, mas as circunstâncias atuais tornavam isso quase impossível, por várias razões. Primeiro, porque eu duvido que minha mãe deixaria, e segundo, pelo trabalho do meu pai tomar tanto tempo.

Às vezes eu ficava pensando em tudo o que eu perdi com a separação deles, e em como nossa vida poderia ser diferente. Até pouco tempo atrás eu ainda tinha esperanças infantis de que eles pudessem voltar a ficar juntos. Porque ele tinha feito uma promessa. E promessas de dedo mindinho na infância são para sempre. Ou deveriam ser.

Era vívida a lembrança que eu tinha do dia em que ele partiu – ele foi até o meu quarto no meio da noite, e disse que estava indo passar uma semana com o tio Jasper para estudar, mas que isso deveria um segredo entre nós, pois ele estava certo de que dessa vez ele iria conseguir entrar na Escola de Medicina, e por isso queria fazer uma surpresa para a mamãe. Na hora eu fiquei chateada, mas minha cabecinha de criança sabia que ele precisava disso para poder passar na prova. O tio Jasper, sendo recém-formado na Escola, estivera há meses ajudando o papai a estudar, então eu nada estranhei.

É claro que naquele dia eu não fazia ideia das consequências que aqueles minutos iam ter para nós. Era muito raro ver meus pais brigando, e uma separação deles era a última coisa em que eu pensava.

Mas daí a semana passou, ele acabou sumindo por três meses. Eu lembro de ficar preocupada pois ele devia estar dormindo na minúscula casinha da piscina da casa dos meus tios, já que, pela minha lógica, esse era o único lugar onde ele podia dormir; Eu ia até lá brincar com Rose e perguntava se eu podia ver o papai, mas sempre inventavam uma desculpa. Um dia, ele voltou a ligar para nossa casa, e vez ou outra avisava que estava bem e que continuava estudando demais. Eu nunca desconfiava o motivo de ele só falar quando eu atendesse, pedindo que eu não contasse nada à mamãe. Como eu adorava ser sua cúmplice, eu acatava.

Quando a gente é criança tudo parece brincadeira e conto de fadas, e o tempo tem medidas diferentes.

Na minha mente infantil, eu confabulava mil histórias para poder explicar a sua ausência, e todas elas tinham um final feliz: a de que ele tinha conseguido passar na prova e de que estava estudando em uma enorme Escola de Medicina longe de Nova York para ser o médico que ele tanto queria ser e ajudar às pessoas, portanto não podia gastar seu tempo brincando de casinha comigo. Um dia minha mãe me levou até a casa dos meus avós e lá estava meu pai, para minha surpresa e alegria. Eu tinha pensado que havia chegado o momento em que ele voltaria para nós, mas ele apenas se desculpou ao dizer que seus planos deram errado, e prometeu que ia voltar quando fosse a hora certa e estivesse pronto. Como eu só queria a sua felicidade, aceitei. E acreditei como uma tola.

Até hoje aquele era um período turvo na minha vida, já que eu vivia na omissão – os adultos sabiam de tudo e nada me esclareciam, porque obviamente crianças não devem saber a verdade. O tempo passou e eu fui percebendo que ele nunca mais iria voltar. Quando tornaram a se encontrar, minha mãe e ele começaram a brigar constantemente, e eu caí na real que a separação era para sempre.

Quer dizer, eu não sei realmente se aquela história toda foi uma invenção sua para amenizar o que quer que fosse que ele tenha feito para abandonar a mamãe. Era até incrível saber que eu tinha acreditado em toda aquela baboseira. Tudo bem, era verdade que ele estudou medicina por quatro anos na faculdade, e tentou por duas vezes ingressar na Escola de Medicina para poder exercer a profissão. Mas alguma coisa aconteceu e de repente ele desistiu de tudo, e agora nós estávamos aqui, almoçando no hotel onde ele havia arranjado emprego após estudar administração.

Um dia eu ia tentar descobrir a verdade. Mas não agora. Era um assunto que eu preferia evitar para não entrar numa fossa terrível. Revirar o passado nunca acabava bem.

- Claire? – meu pai chamou e eu olhei para ele. — Você tem certeza que está bem? Nunca te vi tão calada, estou preocupado.

- Sim, já disse. Bom, eu já acabei de comer, podemos subir? – perguntei.

- Também terminei. – ele disse e nós saímos do restaurante para subir até a sua sala. Eu iria ajudar sua assistente Heidi a carimbar uns papeis.

- Você gostou mesmo do presente? – ele questionou depois de um tempo. Eu sorri para livrá-lo da insegurança.

- Claro, pai. Melhor presente do mundo. – falei com honestidade. O telefone tocou, e ele foi chamado para fazer alguma coisa lá embaixo, me deixando sozinha com meus pensamentos.

O meu celular vibrou na minha bolsa, e eu li a mensagem inesperada com um sorriso no meu rosto.

Claire, obrigado por ontem. Eu adorei passar a noite com você. A gente se encontra na hora do almoço segunda?
- Jake.

Eu não fazia ideia do que ele queria conversar comigo — ok, isso era mentira. Mas, eu só conseguia pensar em torcer para que ele estivesse tentando retomar do ponto em que fomos interrompidos na festa. As minhas esperanças, de repente, estavam renovadas.

Já sabia que passaria o resto do fim de semana esperando pela segunda. Mais uma vez contando os minutos no relógio.

Notas finais
N/A: ¹NYU = New York University

Ainda tem alguém aí? Todo mundo fugiu com medo do lobo mau?

Eu já disse que esse Jake é um menino de ouro. Ele está aqui porque Claire precisa de um companheiro de aventuras - que não seja seu Toddynho matinal. Eu sei que muita gente não é fã dele, mas enfim. Pensem que ele se chama Jack e ficará tudo bem. Vamos ler sem preconceitos! E não se preocupem pois o romance dos dois não vai aparecer sempre, já que esse não é o foco da história. E agora Claire vai aparecer cada vez menos em capítulos próprios.

E NÃO ENTREM EM PÂNICO, POIS NÃO TERÁ LEMONS COM ELA E JAKE. Deixei claro?

Coisas que eu NÃO recomendo: menores de idade se divertindo como adultos. Na boa, a ressaca não vale a pena quando seu organismo é novo demais pra aguentar.

Coisas que eu recomendo: me deixar reviews avisando que vocês não abandonaram o barco e ainda estão aqui comigo!

Obrigada à gaja de Portugal que se manifestou na review! Gostei de ver hahah :)

Até semana que vem, beijos!