Mais Uma Vez

11 Capítulo 10: Conversas de Gente Grande


Notas iniciais
Obrigada a Cella, a beta tchutchuca que mora longe demais e isso parte meu coração.

HEY! LEIAM ISSO AQUI!

Sobre as idades dos personagens, que alguém perguntou

Já foi citada a idade da Bella, mas pra esclarecer: Edward e Bella nasceram em 1977. O início da fic é Maio de 2010, então Bella tem 32 anos, fará 33 em setembro, e Edward fará 33 em junho. Claire nasceu em novembro de 1995, quando ambos tinham 18. Alice tem 38 e Jasper, 41. Esme tem 60 e Carlisle, 61. Jake tem 16.

Capítulo 10: Conversas de Gente Grande

Bella

Eu estava oficialmente comandando minha primeira reunião de pauta. Depois de enfrentar o falatório quase desenfreado da minha equipe por uma longa hora e meia, nós enfim conseguimos chegar a um consenso. A enxaqueca que eu tinha, entretanto, continuava martelando meu cérebro.

Foi complicado convencer a todos de que a matéria sobre personalidades importantes de Nova York, sugerida por Laurent, seria uma boa escolha. Alguns argumentaram que seria abrangente demais, e difícil de definir um recorte, além de potencialmente tendenciosa; eu fui estrita em reafirmar que a revista era capaz de grandes feitos, e que daríamos conta tendo o planejamento correto.

Todos concordaram em começar a dividir as tarefas da reportagem. Eu não via por que adiar o seu início, uma vez que já havia tido, pela manhã, o aval de Carmen para realizá-la. Sua única ressalva era que, dentre as personalidades, fossem gastas ao menos duas páginas inteiras para falar sobre seu irmão, Joaquin Denali. Já ouviu falar em uma coisa chamada nepotismo anti-ético, Carmen?

Joaquin, imigrante espanhol como ela, era ninguém menos que o presidente da segunda rede de hotéis mais bem-sucedida da cidade. E obviamente tal rede não era o famoso One Season — não, o destino não seria tão bom comigo. Seu esforços haviam sido recompensados quando o seu Le Printemps aparecera em excelente posição no roteiro de hotéis cinco estrelas de Nova York, há um ano. Se bem me lembro, a reportagem da revista especializada chegava a citar o promissor jovem gerente Edward Cullen, que "segundo rumores", namorava a filha única de Joaquin.

Minha cabeça havia começado a latejar justamente no instante em que saí da sala de Carmen.

Como se os eventos da semana passada não tivessem sido suficientes, eu pressentia que meu futuro próximo estaria de certa forma relacionado ao meu ex-marido. Era um pressentimento forte e as coincidências e acasos da minha vida ultimamente me entonteciam.

Junto à equipe, planejamos, discutimos esquemas e estratégias até depois do sol se pôr e eu sentir meu bumbum quadrado pela quantidade de tempo sentada. Me sentia exausta, e minha enxaqueca não havia sumido de todo, porém percebi que, se tudo desse certo, essa matéria seria um sucesso memorável. Eu nunca senti uma onda de excitação tão grande com o meu trabalho. Ao menos isso.

xxxx

Naquela noite quando cheguei em casa, tudo o que eu queria era tomar um banho e dormir. No entanto, meu corpo me obrigava a comer alguma coisa, então me arrastei corredor adentro, parando para falar com Claire no meio do caminho, que andava em direção ao sofá da sala com seu edredon enrolado nos braços.

- Oi, filha. – beijei sua testa. Ela estava a cada dia mais alta, a qualquer hora ultrapassaria minha altura.

- Oi. – respondeu ela cabisbaixa. Eu estranhei, mas nada comentei, e fui até o banheiro lavar as mãos.

Voltei para a sala e lá estava Claire encolhida num canto do sofá com o controle da televisão na mão, mudando de canais sem parar. Seu olhar não parecia nada interessado no que passava na tela à sua frente.

- Ei. – chamei me sentando ao seu lado no encosto de braço do sofá. — Tá tudo bem?

Ela apenas assentiu a cabeça, sem desviar os olhos para mim.

- Tem certeza?

- Tenho, mãe. – respondeu com a voz miúda.

- Hm. Eu vou preparar alguma coisa pra comer, o que você vai querer? – perguntei ao acariciar seu cabelo preso em um rabo de cavalo.

- Nada não.

- Já jantou? – inquiri e ela sacudiu a cabeça negativamente. — Claire, você precisa comer antes de dormir.

- Não tô com fome. – ela disse e eu franzi o cenho. Minha filha jamais recusava comida.

- Você sempre tem fome. Tem alguma coisa errada sim. Mas se não quer me falar nada…

Eu me levantei, desistindo, porém quando pus os pés no chão, sua mão agarrou a minha. Ela me olhou com olhos perdidos que eu reconhecia como preocupação e tristeza, e vi uma linha mínima de lágrima se formando em suas pálpebras.

- O que foi, filha? – perguntei e a abracei. Ela me apertou forte e ouvi duas fungadas antes de se afastar. Ela me encarou por um longo tempo com olhos aflitos, parecendo se decidir sobre o que me contaria. Finalmente, ela tomou sua decisão.

- Aconteceu uma coisa ruim na escola, mãe. – falou. — E eu acho que perdi minha melhor amiga.

- Como assim? – indaguei, me sentando no assento do sofá ao seu lado. Claire costumava compartilhar comigo muitas coisas de sua vida, mas com a atribulação da minha vida nos últimos meses devido ao trabalho, tínhamos nos distanciado nesse aspecto, de certa forma. Eu iria aproveitar cada oportunidade que tivesse para remendar essa nossa ligação.

- Ai, mãe, sei lá. Sabe quando você quer muito uma coisa e depois quase consegue, e daí fica persistindo até conseguir, mas acaba perdendo essa coisa de vista?

- Ahn… – tentei buscar por alguma resposta que fizesse sentido à pergunta abstrata dela, mas nada consegui. — Eu acho que sim? Talvez?

Ela bufou. – Eu vou explicar. Mas você tem que prometer que não vai rir ou fazer gracinhas ou qualquer coisa assim.

- Jamais, filha. Pode me contar o que for. Você sabe que eu estou aqui pra te ouvir, sempre. – tratei de afirmar. Ela respirou fundo uma vez.

- É que… eu meio que tô gostando de um menino. – ela falou em um fio de voz, me deixando boquiaberta. — E não me olha com essa cara, você prometeu não me zombar!

- Não, Claire. É só que eu nunca podia imaginar. – eu estava espantada, e sem reação. Claire estava falando de garotos para mim pela primeira vez, e apesar de esperar há um tempo por esse momento, eu não sabia muito bem como proceder. Não é como se eu fosse um exemplo perfeito de relações saudáveis e estáveis. Além disso, jamais tinha sequer reparado qualquer coisa diferente nela nesse quesito; Ou ela escondia muito bem, ou era algo recente.

- Pois é, mas aconteceu. Só que hoje, no almoço, a gente estava conversando e ele… Ele…

- Ele o quê? – inquiri, já imaginando formas de torturar quem quer que tenha feito a minha menina ficar desse jeito.

- Ai mãe, ele me beijou. – ela sussurrou, abaixando os olhos e eu vi, como num espelho, um rubor tão idêntico ao meu colorir toda sua face. Mal consegui refrear meu sorriso enquanto acariciava sua bochecha.

- Seu primeiro beijo. – eu falei sem perceber e ela concordou com a cabeça, rolando os olhos. Como a maior mãe coruja, me inclinei para abraçá-la. Eu nem me importava se ela me chamasse de "ridícula" dessa vez, e ops, acho que caíram dois cílios aqui nos meus olhos, porque só isso explicaria esse pinicar de lágrimas.

- É, é. – ela disse tentando fazer com que o fato soasse menos importante do que era, mas eu não cairia nessa.

- E então? – falei enxugando os cantos dos olhos.

- Bom, é que daí a ex-namorada dele nos viu e começou a fazer escândalo, dizendo que era proibido se beijar dentro das dependências da escola e que iria denunciar a gente pro inspetor, blá blá blá. E você sabe como eu odeio gente brigando. Tudo o que eu queria era sair correndo. – ela falou e falou enquanto choramingava e fungava.

- Ok. Mas você bateu boca com essa ex-namorada? E o que tem Rachel a ver com tudo isso?

- Não, é claro que eu não briguei. Eu a ignorei, assim como ele estava fazendo. – ela disse, e não me escapou a sua tentativa de proteger a identidade do menino. Eu me perguntei o por quê. — E a Rachel, bem, ela simplesmente ficou lá rindo de nós enquanto aquela louca armava o maior barraco, ao invés de nos defender. Porque Rachel tinha que nos defender; ela é a melhor amiga, esse é o dever dela. Eu fiquei tão indignada, que acabei gritando algumas verdades não muito legais pra ela, e agora eu acho que ela nunca mais vai olhar na minha cara. Nem ela, nem ele depois de presenciar aquilo tudo.

- Filha, acho que a única coisa que eu posso te dizer é que amanhã é um novo dia, e que você pode tentar pedir desculpas sinceras a Rachel. E quanto a esse menino, o… como é mesmo o nome dele? – perguntei propositadamente. Ela arregalou os olhos.

- É… J-Jake. – falou tão baixo que eu quase não ouvi. Mas, novamente, não contive meu sorriso.

- Oh. Jake? O Jacob Black? – perguntei. Ela assentiu minimamente. Eu não ia dizer nada para não deixá-la ainda mais envergonhada, mas eu estava repleta de alegria e orgulho. Pelo pouco que eu o conhecia, já havia percebido que Jacob era um menino de ouro, e de repente muitas coisas começaram a fazer sentido. Principalmente o fato de Claire, ultimamente, passar mais tempo do que o costume em seus ensaios na casa dos Black. Era um alívio saber que sua primeira experiência amorosa estava sendo com um garoto decente — e, Céus, como é estranho pensar isso da minha menina. Ela certamente estava apaixonada.

- Bom, eu tenho certeza que ele vai entender, filha. Jake parece ser uma pessoa legal e equilibrada. Se ele realmente gosta de você, vai aceitar suas desculpas, mesmo você tendo brigado com a irmã dele.

- É, mas e se a Rach nunca mais me perdoar? Eu falei umas coisas muito horríveis mesmo, mãe. Estou com tanto medo. – ao terminar sua fala, Claire desabou em choro.

Meu coração se apertou. Eu duvidava que ela tivesse dito coisas tão imperdoáveis assim — eu já conhecia sua tendência à exagerar as proporções dos acontecimentos. Não achando mais palavras para reconfortá-la, apenas a abracei por longos minutos enquanto ela umedecia minha blusa com suas lágrimas, e eu acariciava o cabelo fino da sua nuca, como costumava fazer para acalmá-la quando criança.

Muitas fungadas depois e sua respiração mais controlada, ouvi um som de ronco e Claire se afastou de repente.

- Ops. É, eu acho que agora vou aceitar aquela janta. – ela disse tentando um sorriso que se mostrou fraco, e pôs a mão sobre o estômago. Eu sacudi a cabeça e sorri para seu rosto manchado de lágrimas e o nariz vermelho.

- Qualquer coisa que estiver te chateando, você pode falar comigo, ok? Mas eu sei que vai ficar tudo bem. No fim sempre dá tudo certo. – falei tentando soar positiva e limpando as lágrimas quase secas de seu rosto.

Ela assentiu a cabeça, mas continuou quieta. Se desenrolando do edredon, ela se levantou me puxando do sofá.

- Vem. Acho que eu mereço um macarrão ao molho de Muito Queijo.

- É pra já. – eu afirmei e seguimos para cozinha. Respirei fundo, agradecendo por Claire parecer melhor, pelo menos por enquanto.

Eu sabia que não devia me preocupar demais pela minha filha. Era completamente normal ter dúvidas, medos e tudo o que ela estava sentindo. Se eu pudesse, protegeria Claire de todos os tipos de dores do mundo.

Como ninguém jamais foi capaz de me proteger.

xxxx

Na terça-feira acordei com Claire ao meu lado na cama. Ela havia adormecido enquanto assistíamos a um filme, e eu tentei despertá-la o mais suavemente possível. O local onde ela havia deitado em seu travesseiro estivera molhado, e eu vira resquícios de lágrimas secas grudadas em seus longos cílios e bochechas. Em algum momento, ela tinha chorado durante a noite, mas eu sequer percebi de tão pesado que foi meu sono. Felizmente, ela pareceu estar bem melhor quando a deixei na escola.

No fim do dia, Carmen havia enviado por Emily o recado de que eu teria uma reunião com Joaquin Denali em seu escritório na quinta-feira às sete da noite, já que, aparentemente, esse era o único horário mais próximo disponível. Fiquei estarrecida pela agilidade de Carmen em prontificar uma entrevista dessas, quase me esquecendo que isso era algo de seu interesse. E ela fez questão que eu mesma fosse até lá, pois, segundo o seu bilhete, eu era a sua "funcionária de confiança".

Então agora me encontrava à caminho do Le Printemps, enfrentando o tráfico da hora do rush nova iorquino, em plena tempestade de primavera. Meu coração estava levemente disparado e eu queria me dar um soco por ser tão imbecil.

O que é isso, Bella? É apenas o seu ex-marido, pai da sua filha, aquele com quem você mantém uma relação quase-amigável depois que o superou. Certo? … Ok. Certo.

Enquanto dirigia, a única coisa que passava pela minha cabeça era que eu teria que entrar no local de trabalho de Edward, e possivelmente cruzar com ele em algum momento.

Eu consigo encontrar com ele sem esbofetear sua cara cínica, ser adulta e civilizada. Eu tenho força interior.

Meus pensamentos tentavam amenizar a raiva que eu ainda sentia pelo que ele havia feito na outra semana. Se o destino aprontasse mais alguma coisa que pudesse fazê-lo tirar sarro de mim, eu juro que temia pela integridade das partes dele.

Ao chegar ao hotel, um valete tomou meu carro para estacioná-lo, e eu logo fui gentilmente conduzida por uma recepcionista até o 29º andar, o penúltimo do prédio, onde ficava a ala da presidência. Era um amplo espaço com apenas dois escritórios em lados opostos: um do presidente, já que esta era a sede do Grupo Le Printemps, e atrás da outra porta estava o diretor geral. Eu jamais havia entrado no hotel, apenas havia estado no máximo no saguão nas vezes em que esperava por Claire; era um verdadeiro hotel de luxo, tinha uma decoração de bom gosto que remetia a tempos do passado e era bastante movimentado.

Enquanto esperava na antessala de Joaquin, meus dedos tamborilavam sem parar sobre o sofá.

Eu estava cansada, com fome, e estressada por ter que estar aqui depois do meu horário de trabalho. Meus nervos continuavam em alerta devido às possibilidades de encontrar com Edward. Não bastasse tudo isso, eu já tentava me preparar psicologicamente para entrevistar esse homem.

Presidentes de grandes empresas, seja qual for o ramo, costumavam ter o ego mil vezes maior que seu patrimônio, e não era raro que adjetivos como "babaca" e "arrogante" pudessem ser usados ao se referir a eles. Tudo o que eu menos precisava agora era ter que passar uma hora a sós com alguém desse tipo. Não ajudava em nada o fato de que Joaquin era pai de quem era — Tanya -, embora eu estivesse com uma ponta de curiosidade para saber como era a pessoa que havia criado alguém tão desequilibrada e… excêntrica como essa moça.

Quando a sua secretária chamou-me para entrar, e eu pus os pés em sua sala, porém, subitamente minhas expectativas negativas foram apagadas e reescritas.

Joaquin veio ao meu encontro, levantando-se de sua mesa para me recepcionar. Era um homem de estatura mediana, repleto de marcas de expressão na pele e o cabelo grisalho quase todo coberto de branco. Ao invés de me deparar com um cenho franzido e costumeiros olhos endurecidos, o sorriso caloroso que agraciou seu rosto enquanto ele apertava minha mão, acalmou minhas dúvidas. Ele parecia verdadeiro, honesto e íntegro. Eu expirei de tranquilidade.

- É um prazer conhecer você, Isabella. Aceita algo para beber? – perguntou. Era um homem dócil, embora sua postura fosse firme e segura. Talvez fosse essa a principal semelhança com a irmã, apesar de seus olhos negros conterem traços parecidos.

- Igualmente, Sr. Denali. E eu aceito uma água, por favor. – eu disse enquanto ele me guiava para sentar em duas cadeiras grandes e macias próximas à grande janela, onde ficava um pequeno aquecedor; era como a área da lareira de uma casa, tão aconchegante quanto. Havia uma elegante mini geladeira cinza escondida discretamente em um canto e ele retirou uma garrafa de água para me entregar, colocando-a próximo a um copo no centro da mesinha que separava as duas cadeiras.

- Por favor, pode me chamar de Joaquin. – ele disse e eu sorri ligeiramente, assentindo. — Carmen falou maravilhas de você como profissional e confesso que fiquei curioso, já que esse certamente não é um comportamento típico da minha irmã. Ela pode ser bastante durona, às vezes.

Ele riu, mas eu me senti desconfortável com o elogio.

- Obrigada, Joaquin. – falei, tentando mudar o assunto e bebendo um gole da água. — Bom, acho que podemos começar nossa entrevista?

Ele assentiu a cabeça e eu passei a explicar a proposta da reportagem, antes de ele começar a falar. Auxiliada por um pequeno gravador, fiz anotações a respeito de uma breve biografia sua, além de um pouco da história de seu envolvimento com o Le Printemps. E era uma história de luta invejável.

Vindo da Espanha nos anos 1960, Joaquin começou a trabalhar em Nova York em um pequeno hotel como recepcionista. Ao longo do tempo, e com muito esforço para provar o seu valor, Joaquin conseguiu chegar à presidência do Grupo Le Printemps. O Grupo pertencia à tradicional família irlandesa Murray, que possuía empreendimentos em diversos setores — dentre eles o de hotéis.

Foi naquele pequeno hotel que ele conheceu e se apaixonou por Sasha Murray, uma das herdeiras. Sasha foi a sua única esposa, e quem eu deduzi ser a mãe de Tanya. No entanto, ela falecera onze anos após dar à luz.

- Foram momentos difíceis aqueles. – Joaquin comentou, fazendo uma pausa para recuperar o fôlego. Ele estava visivelmente balançado por recontar sua história, com os olhos entristecidos. Seu sotaque espanhol parecia ficar ainda mais aparente, conforme ele retornava ao passado.

- Se o senhor não quiser mais falar sobre isso, eu entendo. Nós podemos pular para as perguntas que eu preparei.

- Não, tudo bem. Acho que já cobrimos toda a minha história pessoal, o resto todo mundo já sabe.

Com sua voz suave, ele falou da recente luta contra um câncer de pulmão, e como no meio de tudo isso, ele ainda conseguiu prevenir que o hotel sucumbisse à maior crise que já enfrentaram, há dois anos.

Pessoalmente, até esse dia eu não fazia ideia sobre a história da família de Tanya. Para mim, ela era apenas mais uma herdeira criada ao Deus dará — sem regras, sendo constantemente mimada -, mas Joaquin não parecia ser esse tipo de pai. E só de pensar que ele teve que, praticamente, criá-la sozinho, era de partir o coração. Ele era uma boa pessoa, e muito trabalhadora.

Ficamos ali durante quase duas horas, muito mais do que eu previa; o tempo passou rápido, enquanto a chuva havia aumentado lá fora. Antes de declarar a entrevista encerrada, eu havia me certificado de que possuía material suficiente para escrever um ótimo perfil de duas páginas inteiras sobre essa personalidade.

Joaquin iria me acompanhar até o térreo, de onde ele partiria com seu chofer. Nós estávamos sozinhos no andar, e certamente a maioria dos funcionários administrativos já deviam ter partido. Agora, esperávamos o elevador que não parecia chegar nunca, e minha bexiga só parecia aumentar.

- Eu agradeço a gentileza, Joaquin, mas creio que preciso ir ao toilette. O senhor pode ir na frente. – falei com delicadeza após alguns minutos.

- Ah sim. Por favor, Isabella, não se acanhe. Há um banheiro naquela porta à direita.

- Muito obrigada, senhor. – eu falei e segui apressada para o banheiro, mas voltei ao ouvir o sinal de um dos três elevadores tocar, indicando que havia chegado. — E o senhor não precisa me esperar. Sabe-se lá quando esse elevador vai retornar, e o senhor parece tão cansado. Por favor, pode ir na frente.

Ele refletiu por um instante, relutando, mas enfim concedeu a minha sugestão dando um sorriso e acenando para mim. Eu saí correndo quando a porta do elevador se fechou, e nunca fui tão rápida para me livrar de obstáculos vestuais e me aliviar. Enquanto lavava as mãos, eu podia ouvir, no silêncio quase assustador do vigésimo nono andar, que a chuva apertava cada vez mais e os trovões eram uma constante.

Rapidamente segui para chamar os elevadores, torcendo para que um deles chegasse logo e me tirasse dali. Eu não tinha medo de tempestades, mas o cenário desolador estava propício a plantar todo o tipo de paranoia na minha cabeça, deixando meu coração acelerado. Um raio particularmente forte trovejou no momento em que o elevador de serviço tocou seu sinal, e eu corri para entrar nele.

Assim que a porta se abriu, revelando que não havia mais ninguém ali a não ser por uma pessoa, eu quis choramingar infantilmente. Era claro que era Edward. Óbvio. Quem mais poderia ser? Todo o meu nervosismo era o pressentimento de alguma coisa, e só isso podia ser a explicação.

Eu soltei uma expiração longa e cansada antes de falar. – Boa noite, Edward.

- Boa noite, Bella. Mas o que está fazendo aqui? – perguntou, me olhando confuso quando entrei.

- Uma entrevista com Joaquin Denali. Para a revista. – expliquei ao reparar que o botão do térreo já estava marcado.

Ele murmurou seu entendimento, e voltou a digitar em seu celular. Assisti com impaciência enquanto os botões do elevador marcavam andar por andar, lentamente, mais do que o normal. Me perguntei se era uma impressão minha, ou se o elevador daqui não tinha um sistema tão moderno quanto parecia. Eu realmente não gostava de elevadores.

Estava pensando o quão estranho era o fato de termos conseguido chegar até o décimo terceiro andar sem que ninguém mais chamasse o elevador, quando as luzes piscaram até apagar e eu ouvir um tranco. O elevador parou até estacionar em algum lugar que, definitivamente, não era o térreo.

- Isso só pode ser brincadeira! – exclamei, sentindo um frio percorrer minha espinha. As luzes de emergência se acenderam, deixando uma atmosfera sombria na enclausurante caixa de metal.

Foi exatamente nesse momento que meu corpo lembrou que eu tinha um imenso pavor de lugares fechados e sem escapatória.

Não. Não. Tudo menos isso, por favor.

- Eu vou tentar ligar para o porteiro. – Edward avisou, indo em busca do interfone.

Eu sentia meu coração disparando aos poucos, e em segundos, pude ouvir o martelar da pulsação em meus ouvidos. Minha respiração estava tão acelerada que soava alta para mim. Me virei para a parede, tentando esconder meu rosto e meus olhos do local onde estávamos, enquanto ouvia Edward murmurando atrás de mim sobre como a porcaria do interfone não era atendida.

- Bella? Você está bem? – ouvi ele me chamando. Eu sacudi a cabeça, tentando fazer com que ele me deixasse em paz.

- Eu preciso sair daqui.

- Bella, você está tremendo. – senti sua mão sobre o meu ombro, e ele xingou. — Merda, sua claustrofobia!

Não queria ficar pensando em como ele havia se lembrando que eu tinha esse pequeno problema, e antes que me desse conta, eu havia virado meu corpo e procurado por Edward. E o abracei com força, e sequer me importei se estava machucando suas costas com minhas mãos em forma de garras. Levou um instante, mas ele apertou seus braços ao meu redor.

- Calma. Shh, shh. – ele sussurrou, me embalando de um lado a outro suavemente enquanto eu sentia minhas pernas amolecidas. Estava hiperventilando e precisava me concentrar em qualquer outra coisa.

Isso é apenas um elevador. Você não vai cair. Não vai acabar o ar. Respire, Bella. Respire.

- Respire com calma, Bella. – ouvi ele dizendo, se confundindo com minha consciência. Sem dúvidas, Edward conseguia sentir meu coração batendo contra seu corpo, tamanha era a reverberação que fazia em meu peito.

- Fala comigo. – pedi. Era a única forma que eu sabia para enfrentar esse tipo de ataque, lembrando da última vez que havia acontecido.

- Eu estou aqui. Calma. Estou aqui e não vou a lugar nenhum. – ele disse e eu pude jurar que senti seus lábios encostando sobre minha testa. Meus olhos estavam cerrados e eu apenas sentia o toque de sua mão acariciando minhas costas em círculos, a outra sobre minha nuca.

- Liga… liga pra alguém. – pedi, enquanto tentava regularizar minha respiração. A segurança da presença de Edward estava funcionando minimamente, eu me concentrava naquilo.

- Sim. Mas fique calma. Vou pegar meu celular e tentar ligar. Ok? – ele declarou, me afastando um pouco para procurar seu aparelho no bolso. Edward discou um número enquanto resmungava sobre o sinal fraco e eu rezei para que a ligação pegasse. Me senti consideravelmente mais aliviada quando ouvi ele dizer 'Alô'.

- Eu acho que estamos perto do décimo terceiro… Isso… Está bem… Mas peça para que venham rápido, por favor. – ele conversava com alguém enquanto continuava a me abraçar. Agora, ele havia passado a acariciar meu cabelo de uma forma que, mais tarde, eu me arrependeria de ter gostado. Mas no meu atual estado, era tudo o que eu precisava.

Ele desligou o celular em seguida.

- Liguei para Heidi, e ela disse que estamos sem energia. Parece que atingiu todo o bairro.

Quem diabos é Heidi? eu devo ter pensado em voz alta, já que Edward me respondeu.

- Heidi, minha secretária. – falou erguendo meu rosto. — Já se sente melhor?

Já tinha afrouxado minhas garras nas costas de seu paletó e não mais hiperventilava. Mas o pensamento e a sensação de aprisionamento voltavam e me faziam estremecer novamente.

- Quase. Acho que quero sentar.

Edward me levou até o canto mais iluminado do elevador, e gentilmente me ajudou a sentar. Eu sequer havia percebido que tanto a minha bolsa quanto sua pasta haviam caído no chão durante o meu ataque de pânico. Quando menos esperei, senti seu braço ao meu redor, e ele me pôs entre suas pernas, me aninhado sob seu corpo, como se eu fosse um bebê.

Eu me sentia uma idiota. Mas não conseguia me mexer daquela redoma segura por nada nesse mundo.

Relutante, encostei a cabeça em seu ombro, enquanto sua mão acariciava meu braço sobre a fina camada do casaco que me cobria.

- Eu nunca pensei que você pudesse continuar a ter esses ataques de claustrofobia. Achei que tivesse ficado pra trás com a adolescência. – comentou Edward algum tempo depois quando me sentia muito mais controlada.

- Pois é, eu também pensava. – falei, me lembrando de quando dois amigos haviam pensado que trancar uma Bella franzina dentro da casinha da piscina dos Cullen era a ideia mais divertida do mundo.

- Você estava tão apavorada naquele dia… Ainda bem que eu cheguei a tempo. Aqueles imbecis… – ele murmurou, parecendo perdido em lembranças como eu.

- Podemos falar sobre outra coisa? – implorei em um fio de voz.

Ele assentiu a cabeça. Seu rosto estava perigosamente próximo ao meu, e eu podia sentir sua respiração e seu hálito. Não era desagradável, pelo contrário. Meu incômodo tinha outros motivos.

- Como está a nossa filha? – ele disse e eu senti meu coração desacelerar aos poucos ao pensar em Claire. Entretanto, meus olhos permaneceram fechados para que eu não me recordasse de onde nós estávamos.

- Bem. Acho que estava na TPM essa semana. – disse me lembrando de sua crise de choro, antes de franzir o rosto para a informação desnecessária que eu havia dado. Se tinha uma coisa que minha filha detestava, era que discutissem seu ciclo menstrual. Ainda mais se fosse um choro misturado com as pertubações de um primeiro amor.

- Pobrezinha. Eu quase nunca a encontrei assim. Não sei muito bem como é. – ele falou e eu podia jurar ter ouvido um tom de tristeza em sua voz. Abri um olho por um tempo para questioná-lo com o olhar. Edward deu de ombros. — Que foi? É uma parte importante da vida dela. Quer dizer, eu sou homem e graças a Deus não preciso lidar com isso todo mês, mas eu sinto que a cada dia perco uma parte do crescimento de Claire.

Estávamos entrando em um assunto demasiadamente desconfortável para os meus padrões. Tentando amenizar a minha sensação de incômodo, me afastei de seu corpo, já que sentia a claustrofobia abrandar, e sentei-me no lado oposto ao seu. Suas longas pernas estiradas pelo chão pareciam encurtar as minhas, e eu cruzei-as, trazendo-as para meu peito, tentando me sentir mais à vontade.

A última coisa que eu queria agora era discutir com Edward sobre como o motivo de ele estar perdendo o crescimento de Claire ser puramente culpa sua.

Eu jamais tive completa convicção sobre suas razões para partir das nossas vidas, embora eu tivesse uma única certeza que tinha sido suficiente para me dilacerar profundamente.

Edward havia me traído.

Era amargo até mesmo pensar tal afirmação. Mais amargo ainda foi o momento em que uma mensagem em seu celular deixado para trás chegou, na manhã seguinte à sua partida, destruindo qualquer resquício de esperança minha.

"Eu estava curtindo a nossa noite ontem, mas você saiu tão depressa. Agora você já tem meu número. Me liga. Beijos, Lauren."

Essas palavras me atormentaram por dias. Eu havia decorado uma por uma. No instante em que li aquilo, uma explicação plausível para diversas situações precedentes se concatenou na minha mente e, para o meu horror, nenhuma resolução tinha um final feliz.

Eu havia acordado com uma casa vazia; uma metade do armário oca. Era uma parte de mim que havia parado de existir. Ele partiu deixando para mim apenas um bilhete curto que continha um pedido de desculpas vago, mas que nada justificava. Eu fiz questão de queimá-lo após ler.

Na época, eu não fazia ideia de que ele pudesse estar tendo um caso — ou vários -, então só pude supor que ele me abandonara para ficar com outra pessoa. Os parentes e amigos mais próximos me diziam que não havia mais ninguém na vida dele e nunca houve. Mas como acreditar nisso quando eu vi a prova com meus próprios olhos?

Ele fugiu de mim tão de repente e o tempo que passávamos longe apenas ajudava a aumentar nossa distância.

Depois de três meses sem dar notícias, ele voltou a fazer contato. No início eu estava magoada, ferida demais pela sua traição para sequer olhar em seu rosto, embora as dúvidas e questionamentos me corroessem. Demorou um ano até que eu o encontrasse pessoalmente mais uma vez, fora as vezes em que ele surgia, do nada, em frente ao apartamento e eu o evitava a todo custo. Inutilmente, ele tentou se explicar, me afirmando que jamais poderia ser capaz de me trair.

Como se fosse tão fácil assim. As condições da nossa relação nos meses que antecederam sua partida, e seu comportamento não eram nada favoráveis para que eu acreditasse naquilo.

Ao longo dos anos, seguíamos um padrão — nos encontrávamos por um curto período de tempo, ele tentava esclarecer o seu desaparecimento, e acabávamos discutindo ferozmente, mesmo que por bobagens. Em dado momento, Edward pareceu desistir.

Eu sentia que, aos poucos, suas tentativas ficaram mais raras, à medida que sua vida longe de mim evoluía. Creio que nos últimos anos, desde que começou a se relacionar com Tanya, Edward havia desistido completamente, já que estávamos convivendo pacificamente há meses. Tudo isso me fazia acreditar que ele, de fato, estava contente com sua nova vida.

Eu sentia raiva, ciúmes e simplesmente a sensação de dúvida dolorosa — a porra de uma gigante interrogação entalada na minha garganta, e que cruzava meu peito. Por que fazer isso, quando ele tinha tudo comigo? Ele sempre jurou que nos amava — a mim e a Claire — mais do que a própria vida.

Mais do que tudo, eu me sentia traída não da forma carnal, mas da pior forma possível: depois de tantos anos, depois de tudo o que passamos juntos, o mínimo que eu esperava era que ele fosse estar ao meu lado para sempre, como havíamos jurado em frente à merda de um juiz de paz.

Pois um dia, eu ingenuamente acreditei que, de todas as coisas, ele me deixar seria a última a acontecer.

- O importante é que ela está crescendo bem, e está ótima. – declarei, minha voz cheia de orgulho. Por Claire e por mim mesma. — Ela é uma ótima pessoa.

- Sim, ela é. – concordou Edward.

- Ah, e… obrigada. Pelos ingressos. Ela não para de falar nisso um minuto. Eu já estava pensando em comprá-los, mas você foi mais rápido.

- Sem problemas. – falou suavemente.

Ficamos quietos por um momento. O local se recobriu dos sons do hotel abafados pelo vão do elevador, e a agitação de pessoas tentando se movimentar no escuro ou com as parciais luzes de emergência. Era um silêncio pesado.

Me perguntei se mais alguém estava preso nos outros elevadores, e quase desejei que Edward e eu não estivéssemos completamente sozinhos ali. Eu não sei por quanto tempo mais aguentaria o desconforto que a tensão que parecia estar sempre presente entre nós me causava, e, nessas horas, estar em meio a outras pessoas poderia ser positivo.

Estar confinada com ele aqui dentro, visto toda a fragilidade do meu estado psicológico não ajudava em nada. A impressão era de que eu sufocava ainda mais com a sua presença, mas de uma forma completamente diferente das reações causadas pela claustrofobia.

Eu sempre acreditei que cada pessoa possuía uma energia própria, uma espécie de aura que a envolve e que quando estamos por perto podemos sentir, mesmo de olhos vendados. A energia que vinha de Edward até mim era mais forte do que qualquer outra pessoa que eu já encontrei. Sua presença era marcante, imponente e, invariavelmente, eu me sentia sendo atraída para o redor de sua órbita. E no entanto, eu não sabia se isso estava relacionado à forma como ele se portava, ou se era pelo vínculo que um dia tivemos.

A única coisa que eu sabia era que toda essa… tensão, essa intensidade estando aqui a sós com ele me deixava zonza. Só me perguntava se ele sentia o mesmo. Eu ainda tinha tantas dúvidas em relação a tudo que nos envolvia, porém nenhuma delas conseguia ultrapassar a mágoa do meu coração e sair pela minha boca. Era uma tortura lenta.

- Então, o quê, exatamente, você veio fazer aqui com o meu sogro? – ele questionou, repentinamente.

Eu tinha quase me esquecido que Joaquin tinha uma ligação com Edward; principalmente porque em nenhum momento o Sr. Denali citou ou fez qualquer menção ao meu envolvimento com seu genro. Não sei qual seria a reação de Edward ao saber que agora eu tinha algum conhecimento sobre a situação da família para a qual ele estaria entrando em breve. Não sabia se ele algum dia iria divulgar aquelas informações para mim, ou se ele sequer gostaria.

Por isso, suspirei uma vez antes de começar a falar.

Notas finais
N/A: HEY! LEIAM AQUI DE NOVO!

Eu sei, parei o capítulo na pior parte! Mas…

Se por acaso eu conseguir escrever alguma coisa do próximo capítulo (vejam bem, é uma HIPÓTESE), envio uma previazinha via resposta pra quem deixar review logada. Se você não tem perfil aqui no site, mas quer receber tb, coloque outra forma que desejar:

1) se quer por email, escreva assim, por ex, "Oh _ Carol (arroba) hotmail . com" com espaços mesmo, mas tem que ser ASSIM, senão será apagado.

2) se é por twitter, ponha o seu perfil de lá e eu mando reply em twitlonger.

Daí você pergunta: "mas por causadiquê a Carol não divulga logo no twitter?" Simples, pois nem todo mundo que lê me segue. Mas aí você se pergunta novamente: "e porque raios logo agora ela resolve dar spoiler de um capítulo?"

Pois bem. Farei uma pausa de UMA semana pra escrever uma oneshot que eu darei como presente de Amigo Oculto. Lembram-se do Amigo Oculto de Natal que um pessoal bacana fez ano passado? Então. Edição de Férias dessa vez, que será postada dia 31/07.

O teaser é só pra vocês me detestarem menos até eu voltar! hahah

Essa semana não tive tempo de responder a quase nenhuma review, mesmo tendo lido e apreciado TODAS. Suas dúvidas e desejos quanto a fic, eu espero estar respondendo pouco a pouco na história. Acho que esse capítulo já teve um pouco disso. Certo?

Até daqui a 2 semanas :)

Beijos!