Mais Uma Vez

7 Capítulo 6: Não Alimente o Gremlin!


Notas iniciais
Disclaimer: Twilight não me pertence, mas essa história, assim como a filha da Bella e do Edward sim, portanto respeitem! . Obrigada a Cella, a beta pra quem eu to tentando arranjar um emprego num certo hotel aí. lol

Capítulo 6: Não Alimente o Gremlin!

Bella

O meu encontro havia sido um fracasso. Um enorme e ridículo fracasso.

Eu não sei porque ainda me dava ao trabalho de tentar encontrar um homem decente e interessante — mesmo que eu não tivesse tentado dessa vez por espontânea vontade. Não sei se o problema era eu, por ser exigente, ou se eram eles.

Michael Newton — que insistia em ser chamado pelo infantil apelido de Mike — não parecia tão ruim à primeira vista. Tinha uma aparência agradável e era bastante cavalheiro. Porém não demorou trinta minutos para que eu percebesse que seu ego era bem maior do que seu interesse por mim.

Meus ouvidos se esgotaram de tanto ouvir Michael falar de si mesmo, tão absorto na sua própria auto-importância que, em dado momento, ele deu a prova que não prestara a menor atenção em mim o tempo todo.

Sua expressão e sua linguagem corporal quando eu mencionei a minha filha foram como um insulto. Um tapa na cara.

Michael, embora divorciado, claramente tinha aversão à ideia de namorar uma mãe solteira, e nada poderia ser mais repugnante para mim. Fui embora logo após a sobremesa, sentindo-me sufocada pela decepção do jantar. Ele insistiu em me levar para casa de carro, mas eu insisti mais ainda que precisava ficar sozinha. O idiota não se deu ao trabalho de tentar marcar um segundo encontro. Ainda bem.

Quando saí do restaurante, andei um pouco para espairecer a mente, o que acabou funcionando. Tive a sorte de encontrar pelo caminho um brechó-chique, e me lembrei que ainda precisava procurar por um presente para Esme. Sem pensar duas vezes, entrei e resolvi comprar um gracioso conjunto de chapéu e luvas vermelhas, original dos anos 50. Pude relaxar enquanto fazia a compra, pensando em como o conjunto cairia bem em Esme. Ela certamente saberia usar as peças com toda elegância.

Ao chegar em casa mais cedo do que previ, corri para ligar a televisão, e tive a sorte de ver o último bloco da final do American Idol. No momento em que a minha favorita venceu e eu não contive minha felicidade, me peguei com o telefone na mão discando para Claire. Comemorei com ela da melhor forma que pude. E mesmo sabendo o quão ridícula eu parecia, nem me importava.

Hoje era sábado, oito da manhã. E embora eu quisesse nada além do que continuar enrolada na minha cama, precisava me preparar para o dia seguinte com uma pequena sessão de auto-flagelação feminina chamada depilação.

Ao terminar, me levantei e olhei no espelho para dar de cara com minha testa encoberta por suor e minhas bochechas avermelhadas. Como uma sessão de sexo selvagem — só que sem a parte do sexo. Deus, por que eu nasci mulher mesmo?

Tomei meu banho para, finalmente, começar o meu sábado, que seria cheio. Durante toda a manhã, trabalhei na minha última tarefa como editora-assistente de Carmen, e organizei algumas coisas para meu novo cargo. A caneca de café estava pousada ao meu lado, como de costume.

Às duas da tarde, quando meu estômago roncou e a coluna estalou na cadeira, meu celular tocou. Era Garrett me chamando para sair com o pessoal, e combinamos de nos encontrar às nove horas, no Leo's.

Preparei alguma coisa rápida para almoçar, e continuei a trabalhar no meu notebook até achar que meu esforço era suficiente e que já deveria me arrumar para o bar.

Assim que cheguei ao local onde costumávamos ir desde que nosso círculo de amizade se formou, avistei a mesa deles — o que não era tão difícil, já que jornalistas costumavam estar sempre prontos para uma boa discussão. Junte isso ao efeito de algumas garrafas de cerveja, e você tinha a mesa mais empolgada do bar.

— Chegou quem faltava! – Alec praticamente gritou ao me ver, envolvendo sua namorada brasileira, Renata, pelos ombros. Me apressei para chegar até eles, e então cumprimentei cada com um beijo no topo da cabeça. Eles riram e zombaram de mim, dizendo o quanto eu parecia uma tiazona com minha mania de beijos na testa, mas nem me afetei.

— Vocês adoram meus beijinhos, eu sei. Se fosse possível, eu amassaria vocês se eu tivesse mais… busto. – brinquei enquanto sentava na cadeira vaga entre Alec e Riley.

— Se fosse possível, eu é que iria me amassar nos seus peitos assim mesmo, Bella. – riu Riley, já parecendo bem alterado. Eu fingi ficar boquiaberta pela audácia do comentário, mas nada me impediu de soltar uma longa gargalhada.

— Ok, vamos logo com isso, você precisa bebemorar! – brincou Alec quando o garçom deixou na mesa uma outra jarra de cerveja. — Viva a nossa Bella, nossa amiga e mais talentosa editora-subchefe que a New York Week um dia já viu ou verá!

Ele exclamou enquanto Mary servia um copo para mim. Eu balancei a cabeça e ri de seu discurso, mas brindei com eles, rapidamente tomando um grande gole.

— Alguém está animadinha hoje, não? – provocou Mary, olhando meu entusiasmo. Fazia meses que eu não bebia nada além de vinho. Vinho era maravilhoso, mas sempre preferi a simplicidade da cerveja. — Se você vai beber, é porque está sozinha em casa, certo?

— Correto. Eu só não posso exagerar, porque amanhã é aniversário da avó de Claire e eu tenho que estar apresentável e livre de ressacas.

— Tsc, tsc. Só mesmo você para continuar se obrigando a aparecer no aniversário da sua ex-sogra, Bella. – comentou Garrett. — Eu, se pudesse, já não apareceria nem no da minha atual…

Ao ouvir aquilo, Mary bateu de brincadeira no braço do noivo pela insinuação, mas ele retribuiu agarrando o rosto dela para um beijo babado. Todos rimos quando Mary fez som de nojo e se afastou limpando os cantos da boca.

Rimos, zombamos, brindamos e bebemos até alguém ter a brilhante ideia de comprar uma garrafa inteira de tequila para toda a mesa. Não querendo me arrepender dessa noite divertida amanhã, eu recusei. Algum tempo depois, resolvi me despedir de todos – não que eu fosse fazer muita falta ali, já que eles estavam muito mais entretidos com os shots de tequila -, e voltei num taxi, com um sorriso e bom humor que permaneceram até eu dormir.

Claire

No sábado, meu pai me acordou às seis e meia da madrugada, como um velho de setenta anos. Eu resmunguei e enrolei para sair da cama, mas acabei sendo vencida quando ele me chantageou — se eu fosse com ele no parque poderíamos depois tomar o café especial do hotel. E se tinha uma oportunidade que eu nunca passava era provar os quitutes do chef Nahuel, o melhor da cidade na minha humilde opinião.

Eu rapidamente me vesti depois do banho, e fui para a sala fazendo um rabo de cavalo alto. Encontrei meu pai andando de um lado a outro em frente a janela, com o celular grudado na orelha e a maior cara de preocupação. Mal eram sete da manhã e já estavam enchendo o saco do coitado. Concluí que devia ser alguém do hotel. Eu achava um absurdo, mas ele tinha que trabalhar aos sábados também, em meio período.

Ele desligou o celular assim que eu me aproximei.

— Podemos ir? – perguntou com um tom ríspido, bem longe da aparência tranquila de quando me acordou.

— Podemos... – respondi duvidosa. Se ele fosse ficar com esse mau humor a manhã inteira, então eu preferia ficar em casa. — Mas só se você prometer não ficar me dando patada durante o dia com essa cara amarrada. Dá rugas precoces, sabia?

Ao me ouvir, sua expressão e voz suavizaram-se um pouco.

— Eu sei. Me desculpe. Bom, vamos tomar café no hotel às oito e meia, depois que voltarmos. Pode ser, ou você quer tomar um suco antes? – ele questionou e eu sacudi a cabeça.

— Acho que é melhor guardar espaço. – falei com um tapinha sobre o estômago. Meu pai balançou a cabeça rolando os olhos, mas consegui arrancar o mínimo de um sorriso dele. Melhor assim.

Com minha mochila nas costas, descemos para pegar nossas bicicletas nos nichos de cada apartamento, na garagem do alto edifício antes de partirmos para o parque. Além das bicicletas, ali ficava a minha antiga bateria — a primeira que ganhei quando comecei a fazer aulas, aos dez anos. A nova ficava no meu quarto na casa da mamãe e era a minha possessão mais preciosa.

O parque estava cheio de babás e mamães com suas crianças, e velhinhos fazendo seus exercícios matinais. Eu provavelmente era a única pessoa da minha idade por aqui, afinal garotas com pais normais estavam dormindo em pleno sábado às sete e dez da manhã. Puxei meu Ray Ban da mochila para colocá-lo, e papai colocou o dele. Assim, fiz minha proposta.

— Aposta corrida até o lago? Você me deve uma, pela última vez. – falei. Ele olhou para mim erguendo as sobrancelhas por trás dos óculos escuros.

— Duas voltas no lago, a pé, para quem perder. – ele declarou. Eu assenti e me preparei na bicicleta.

— Ok. No já. Um, dois, três e… já!

Assim que terminei a contagem, ambos disparamos com nossas bicicletas, pedalando com rapidez. Arfei, juntei forças e pedalei até minhas pernas começarem a queimar, mas enfim consegui vencê-lo, chegando primeiro no local onde marcamos.

Uma velhinha, dois cachorros e um carrinho de sorvete foram os objetos quase atingidos pelo caminho dessa vez. No sábado retrasado, eu consegui atropelar um ganso que atravessava correndo a ciclovia — bom, não era culpa minha se ele era um ganso-suicida, sabe? Por sorte, nem pato nem ninguém se feriu… muito.

Quando desembalei a velocidade e parei a bicicleta, eu me joguei no chão, não conseguindo ficar de pé. Meus pulmões pareciam que iam inflar até me esmagar por dentro. Meu pai parou logo em seguida e debruçou o corpo para colocar as mãos sobre os joelhos, igualmente arquejando.

— Pode se jogar no chão, pai, eu sei que você quer… Perdedor! – gritei, já que estávamos a uns metros longe.

— Isso... – ele começou a dizer com um dedo apontado para mim. Pegou fôlego e continuou. – Isso vai ter volta. Você vai ver só, mocinha!

— Uhh, estou morrendo de medo. Com essa, já são cinco corridas pra mim e duas pra você. – informei.

— Me agradeça por ter te ensinado a andar de bicicleta tão bem assim. Não fosse por mim, você nem chances teria!

— Admita, pai, sua filhinha é melhor que você, e ponto. – falei e sorri satisfeita. Ele veio até mim quando eu me movi para me levantar, e estendeu uma mão. Eu aceitei a ajuda, e me ergui, batendo a poeira das minhas roupas com a outra mão.

— Você acha que é melhor, é? – sibilou ele, e antes de que eu soubesse o que aconteceu, vi tudo de cabeça para baixo. — Isso você não consegue fazer, né, garotinha?

— Pai! Me solta! – gritei contra suas costas, já que ele havia me pegado como um pedaço de carne de abate sobre o ombro. Ele começou a fazer cócegas na parte de trás do meu joelho e eu ri descontroladamente, enquanto me remexia. — É sério! Me solta, eu vou cair!

— Agora vai dizer que ainda é melhor do que eu? – desafiou, sem parar os dedos nervosos sobre minha pele. Era a segunda vez em menos de dez dias que eu era atacada por cócegas. O que deu nos meus pais essa semana, hein? Me sentia com cinco anos de novo.

— Sim! Quer dizer, não! Mas me solta, por favor! – berrei rindo. Ele me colocou de volta no chão e eu bufei enquanto arfava. Ele não parou de rir da minha cara por um segundo.

— Você está quase lá. Mais um pouquinho e aí sim vai ser a melhor. – zombou com um tapinha na minha cabeça e ajeitando um pouco meu cabelo. Como meu pai é bobo.

Caminhamos por um tempo, lado a lado, nossas bicicletas andando conosco enquanto aproveitávamos a quietude agradável do parque quase vazio. De repente, me lembrei da novidade da semana, e não me aguentei — eu tinha que contar.

— Sabia que a mamãe conseguiu uma promoção no trabalho? — comentei. Ele virou sua atenção total para mim. Sempre que eu falava qualquer pequena informação sobre minha mãe ele parecia super interessado.

— Ah é? Qual o cargo?

— Agora ela é editora subchefe, vai comandar a equipe das reportagens de capa. Finalmente se livrou daquela chata da Carmen e vai ter mais tempo livre.

— Uau. Isso é… grande. — eu vi seu pequeno sorriso de esguelha, e comecei a sorrir também. — Mande meus parabéns.

Mas meu coração ficou um pouco apertado nessa hora e meu sorriso sumiu.

— Bom, eu mandaria, mas não sei se ela queria que eu te contasse, então…

— Ah. Tudo bem então. — ele falou meio decepcionado. Eu detestava ter que fazer esse tipo de coisa, mas não havia solução. Eu não queria deixar as coisas entre eles mais tensas, jamais.

Nós paramos em frente ao estacionamento de bicicletas, e as acorrentamos. Como depois do que eu lhe falei ele parecia um garotinho que teve o pirulito roubado, eu decidi aliviar sua barra e deixar que ele desse só uma volta no lago, como de costume. E eu o acompanhei.

Ficamos um tempão quietos enquanto andamos — especialmente ele, que parecia estranho depois do que eu contei sobre minha mãe. Eu me perguntei o que ele estaria pensando, se estava mesmo orgulhoso como eu estava, ou se estava com raiva por não poder saber muito da vida dela. Eu não conseguia decifrar sua expressão.

Vai saber. A relação atual dos meus pais era tão esquisita. Minha mãe se irritava facilmente se eu falasse sobre ele em casa, e sempre desviava o papo. Meu pai sabia disso, e às vezes parecia ficar magoado, mesmo não dizendo nada e se fazendo de durão. Talvez eles implicassem tanto um com o outro por esse motivo, mesmo que as ceninhas de briga que eles protagonizavam na minha presença fossem cada vez menos frequente.

— Posso te perguntar uma coisa? — falei depois de um tempo, querendo saber algo que começou a me encucar.

— Pode, ué.

— Você e a mamãe não tem mais brigado como antes, não é?

— Nós nunca brigamos, Claire. Por que está perguntando isso? — ele parecia confuso.

— Nem adianta fingir. Vocês brigam sim, de vez em quando. Quase sempre é por minha causa. Pelo menos desde que vocês se separaram, sempre rola uma tensão entre vocês… Mas de um ano pra cá vocês parecem estar mais calmos, sei lá.

— Não sei, filha. Talvez. — ele respondeu, um pouco perdido em pensamentos. — Você está percebendo isso?

— Aham.

— Então deve ser. Bem, da minha parte você sabe que a gente não brigaria nunca, mas sua mãe é tão teimosa e cabeça dura…

— Pai. — ralhei, para que ele não começasse a difamá-la na minha frente sem necessidade.

— Desculpe. Mas é a verdade.

— Certo. — eu suspirei. — E como está indo sua terapia?

— Muito bem. Seu pai já não é o mesmo de antes. Já estou quase me dando alta. — ele falou, e na mesma hora um orgulho por ele preencheu meu peito.

— Ah pai, que legal. — eu sorri. — Mas sabe de uma coisa, eu nunca entendi direito porquê você precisava de terapia. Eu sei que você tem todos aqueles problemas, mas…

Meu tinha uns problemas de família e psicológicos que ele nunca gostava muito de falar comigo — e eu também nunca gostava de tocar no assunto. Sempre me deixava sofrendo por ele, e acabava não sendo legal para ninguém. Eu só sabia o necessário. Mas era muito bom saber que ele estava melhorando tanto nesses últimos anos.

— Não é só por causa disso. A gente faz terapia por um monte de motivos, mas pra mim é principalmente pra… Pra consertar uns erros do passado.

— Consertar uns erros do passado. — eu falei imitando sua voz grave. — Isso parece sério.

— É coisa de adulto, garotinha. — ele brincou mexendo no meu rabo de cavalo, e assim disparou para correr. Eu corri atrás dele.

Quando saímos do parque, meu pai já estava ruborizado, com manchas de suor na camiseta e umas mechas do cabelo bagunçado grudadas na testa. Nojento!

Demos a volta na esquina de sua rua antes de oito e meia. Eu me limpei rapidamente, porém meu pai me deixou esperando no sofá, impaciente e com a barriga roncando por mais quinze minutos enquanto ele tomava banho e se aprontava para o trabalho. Quando ele saiu – em um estado mais decente e ajeitando sua gravata -, eu disparei pela porta da rua, carregando minha mochila com meu caderno e iPod, pois as chances de eu querer ficar matando o tempo por lá, ao invés de ficar em casa sozinha, eram grandes.

— Eu juro que já estava quase comendo o estofado. Que demora, parece mulher! – falei ao chamar o elevador.

— Eu posso fazer refeições enquanto estou no escritório e você sabe disso. Pode ficar tranqüila, pois você vai ter a minha companhia.

— Quem disse que eu ligo pra sua companhia? Eu não quero é que acabem-se os bolinhos e a panqueca de doce de leite. Não estou nem aí pra você. – eu falei dando de ombros, minha boca aguando ao pensar nos itens do café do Le Printemps.

— Ah é assim, é? Então eu quero só ver como você vai fazer pra entrar na cozinha quando quiser sorvete à meia-noite e não tiver a minha chave. – meu pai chantageou pela segunda vez no dia ao entrarmos no elevador.

— Não! – eu quase gritei. Tirem tudo de mim, menos a minha banana split. Agarrei seu pescoço em um abraço esquisito. – Não, paizinho, eu juro que você é a melhor companhia do mundo!

— Você só gosta de mim porque eu te forneço comida. Eu já saquei tudo. Bem que seu tio me falou que você só aparece na casa deles pra comer.

— Que absurdo! Até parece que eu sou uma gulosa interesseira.

— E não é? — ele falou com um brilho de diversão no olhar, e eu sabia que estava só me zoando. Eu rolei os olhos, sem dar mais trela.

Quando entramos no Le Printemps, eu cumprimentei o segurança, o porteiro, a recepcionista, o ascensorista, e quem mais encontrava pela frente. Todos nesse hotel me conheciam e eu os tratava pelo primeiro nome, de igual para igual, assim como meu pai havia me ensinado desde pequena.

É claro que eu sabia que eu só era tão bem-vinda por ser sua filha. Às vezes eu aparecia aqui depois da escola um pouquinho desarrumada, e com tênis sujos de tanto andar. Se eu fosse uma garota qualquer, jamais deixariam que eu entrasse num lugar tão chique.

Apesar de eu adorar vir aqui, havia um fenômeno que me incomodava um pouco. Eu tinha sempre que lidar com as bajulações de certos funcionários comigo, principalmente da ala feminina. Eu não era cega, e sabia que meu pai sempre fez sucesso com as mulheres; cresci convivendo com desconhecidas dando tapinhas na minha cabeça, falando um meloso: "Oh, mas que gracinha, é sua irmãzinha? Não? Ora, mas que papai jovem você é! …É pai solteiro?" — o que podia ser bem traumatizante para a dita garotinha que se perdeu no supermercado após o pai dela engatar um flerte com alguém.

Às vezes ter pais tão jovens era um saco.

O resto dos funcionários, principalmente os mais antigos, eram gente muito boa e trabalhadora. Os meus preferidos eram os da cozinha e restaurante, principalmente o chef, Nahuel Nuñez. Um cara meio exótico e esquisito a princípio, vindo de alguma cidadezinha da Colômbia, mas que era legal o bastante para concordar em preparar qualquer coisa que eu pedisse.

Adentramos a porta de serviço da cozinha e meu nariz captou o cheirinho gostoso de café fresco, pães, bolos, tortas, chocolates, sucos, doces… eu juro que poderia morar aqui dentro se eu não tivesse que ir para a escola. Tinha até internet wi-fi, como eu já chequei.

— Menina Claire por aqui tão cedo. Caiu da cama só para visitar minha cozinha? – Nahuel falou com um sorriso ao me avistar.

— Bom dia pra você também. – eu disse. — E o que você acha? É claro que só vim aqui visitar sua cozinha, né? Quer dizer, vim testar a qualidade do café da manhã de hoje também.

— Sim, é só para isso que você vem aqui. Isso magoa, ok? – ele falou colocando uma mão sobre o coração com uma expressão dramaticamente falsa.

— Claire não é só assim com você, Nahuel, eu acabei de constatar. Por que acha que ela vai para minha casa? É só porque eu tenho acesso a sua cozinha. – meu pai falou, concordando com o chef.

— Dá para vocês dois pararem de drama? Eu podia estar dormindo a essa hora, mas estou aqui com vocês! – expliquei. Os dois riram, e logo nós fizemos nosso pedido, o café completo para que entregassem no escritório do meu pai.

Chegando ao andar onde ficava a administração, passamos por Heidi, sua secretária, a quem desejamos bom dia, e entramos na sala. Eu me sentei na ponta do sofá de couro branco, ansiosa para que a comida chegasse logo.

Meu pai se sentou atrás de sua mesa, na grande cadeira preta, e abriu uma pasta que Heidi havia lhe entregado. Sem nada melhor para fazer, aproveitei para observar o quadro novo que haviam pendurado na parede. Um troço cheio de rabiscos que devia ser arte contemporânea, ou qualquer besteira dessas. Eu alternei entre avaliar o quadro e olhar para a porta, à espera do meu desjejum.

— Você está fazendo aquilo de novo. – meu pai comentou, me lançando o olhar por um instante antes de voltar ao que lia com o cenho franzido.

— Fazendo o quê?

— Quicando no seu assento. – ele disse. Eu não percebia, é claro, mas quando reparei, me peguei não só balançando as pernas freneticamente, como também movendo meu torso para frente e para trás num movimento lento em sincronia com as pernas. Tentei amenizá-lo, mas minhas mãos não conseguiram parar quietas.

— É assim que eu fico quando estou sem açúcar. – inventei.

— Não seria o contrário, você deveria estar quieta? – ele riu de leve.

— Não, ué. Sei lá. – dei de ombros.

— Você está parecendo um gremlin alimentado depois da meia-noite. – riu ainda mais, me deixando confusa.

— Ahn?

— Nada não. Piada que não é da sua época. – meu pai falou sacudindo a cabeça, mas sem tirar o sorriso de sarro do rosto. E eu continuei sem entender nada.

Após uma eternidade, finalmente um dos garçons entrou com um carrinho que servia também de mesa, e eu abri caminho para que ele a empurrasse até o centro da sala. Puxei uma das cadeiras que ficava do outro lado da mesa do meu pai, e sentei-me, nem esperando que ele se levantasse para me acompanhar.

— Obrigado, John. Agradeça ao Nahuel por mim. – papai falou enquanto o garçom saía da sala, e eu servia meu suco.

Obrifada, Chon! – chamei com minha boca cheia de muffin de baunilha. Vi meu pai levantar-se da grande cadeira, por algum motivo rindo de mim. Sentou-se na outra cadeira menor, ao lado da pequena mesa improvisada.

— Marie Claire, a comida não vai fugir. – ele chamou minha atenção. Talvez eu estivesse comendo um pouquinho rápido demais. Talvez. Tentei mastigar com mais calma.

Eu passei para ele o bule de café e ele me passou a geleia de morango, e eu a espalhei pelo restante do meu muffin.

Nós comemos e conversamos um pouco quando havia espaço. Ele perguntou como tinha ido minha prova de matemática, e me parabenizou quando falei que tirei nove e meio. Não que meu pai fosse muito presente nos meus estudos, mas ele sempre queria saber como eu estava indo na escola.

E também não é que ele precisasse perguntar diretamente para mim. Minha avó Esme era a diretora do meu colégio, e tia Alice era professora de música lá, portanto todos eles tinham a oportunidade de fofocar sobre meu rendimento escolar. O que era meio que um saco, se eu fosse sincera. Queria eu poder esconder uma nota vermelha de vez em quando.

— E a banda, como está? – perguntou, tomando seu café puro, com tiras de bacon e ovos no seu waffle.

— Não conseguimos ensaiar essa semana, e eu acho que estamos sem vocalista por enquanto. A Kim emendou uma laringite com estudar para as provas finais do terceiro ano, e daí a gente se ferrou. – falei, me lembrando que deveria lançar um anúncio à procura de uma substituta, mesmo que temporária.

— Hm… quando forem se apresentar de novo, me convide. Quero ir dessa vez. – ele pediu, e eu fui lembrada de que ele havia faltado ao último show da Little Lost Girls por ter tido algum compromisso social inadiável com Tanya.

Respirei fundo para não deixar a raiva que senti naquele dia subir à minha cabeça e estragar o meu café.

— Se você não tiver nada melhor pra fazer, eu te chamo. – murmurei.

Eu tinha chorado tanto, mas tanto naquele dia, que isso custou a ele duas semanas tentando falar comigo, muitos pedidos de desculpas, e um dia de folga na praia. Tinha sido nossa estreia num clube, com público de verdade assistindo. Eu merecia o prestígio de quem eu amava, e isso não era pedir muito.

— Claire, você não sabe o quanto eu me arrependo de não poder ter estado lá naquele dia? Pensei que já tivesse me entendido.

— É, eu sei. Eu já te perdoei. – disse com um suspiro e encerrando a conversa. Apesar de ter doído, eu já o havia perdoado por aquela mancada. Eu não conseguia ficar muito tempo brava com ele. Na verdade, eu não era uma chata rancorosa com ninguém.

Quando terminei de comer, me levantei para lavar as mãos. Meu celular tocou dentro da mochila, em seguida, e corri para ver a mensagem que tinha chegado. No mesmo instante, o meu dia melhorou infinitamente.

— Vai rolar festa da Kim na próxima sexta. Vc vai, né?
Ps: meu irmão tb vai, se serve de incentivo ;)
Bjs, Rachel

Meu. Deus. Isso! Sim, sim, sim!

Meu coração disparou e senti meus lábios se abrirem no maior sorriso possível depois de ler a SMS. Eu queria fazer uma dancinha de comemoração, mas acho que não ia cair muito bem tendo alguém para ver minhas loucuras, então apenas saí do chão em uns pulinhos, abraçando meu celular ao peito.

Eu não podia perder essa festa, simplesmente não podia. Tudo o que eu precisava era dessa confirmação que eu tinha recebido agora.

É claro que a Rachel já havia sacado que eu estava a fim do irmão dela. Ela não era idiota, e com certeza tudo o que eu sentia devia estar escrito em vermelho na minha testa — como sempre estão. Por um lado era bom que ela soubesse, se ela não se mostrou contra até agora, então já era um avanço. Por outro, eu ainda tinha o grande receio de gostar de alguém e não ser correspondida.

Quer dizer, não que eu soubesse que essa é a verdade, afinal, eu ainda não havia contado a ninguém sobre isso, a não ser para Rose. Mas eu sentia que a chance de tirar a prova seria nessa festa. Eu já me sentia tão empolgada, que mal via a hora de ser segunda-feira novamente, para que a sexta pudesse chegar logo.

— Mas você está quicando feito bola de basquete hoje, Claire. O que deu em você? Vai dizer que agora é o excesso de açúcar? – meu pai falou enquanto saía do banheiro, secando as mãos.

— Eu, eu… nada não, estou só feliz por uma notícia que recebi. – tentei disfarçar. — Ah, você se importa se eu der uma volta pra comprar alguma coisa pra vó Esme?

— Ainda não comprou? A festa é amanhã.

— Não tive tempo. — falei, sem conseguir arranjar desculpa melhor para ir até sua casa usar o computador. Eu precisava conversar com alguém sobre aquela notícia e dessa vez não daria para fazer isso na frente do meu pai.

— Tudo bem, vá. Mas volte para o almoço. – ele assentiu e sentou-se de volta em sua larga cadeira preta de couro. Eu senti que ele queria minha companhia, porém eu estava ansiosa demais para ficar mais algumas horas sentada nesse escritório.

— Claro que volto. — Percorri rapidamente o outro lado da mesa para beijá-lo na bochecha, e me mandei. — Até mais tarde, e bom trabalho!

Eu corri de volta para o apartamento, me sentindo tão animada com a perspectiva do que poderia acontecer na festa da Kim, que meu coração não se aquietou nem um minuto. Para variar, me peguei quicando no lugar enquanto subia o elevador. Vai ver a história do açúcar era realmente verdade, porque jamais senti uma sensação tão calorosa e doce como a que passava por mim nesse momento.

Eu me sentia tão boba, mas não queria que esse sentimento passasse tão cedo. Por favor, sexta-feira, chegue logo. Chegue logo!

Notas finais
Algumas referências... . 1. Gremlins são criaturas de um filme homônimo dos anos 80, que não podem ser alimentados depois da meia-noite, senão perdem sua aparência fofinha, virando mostrinhos. bit. ly/ m0z2zY 2. Um Muffin é isso - bit. ly/ lG4VCf 3. Um Waffle é isso - bit. ly/ lKxuiK 4. O nome Little Lost Girls, a banda de Claire, vem da música e álbum de mesmo título de The Runaways. Façam a lição de casa e baixem algum álbum delas, porque é bem legal. 5. A localização aproximada do endereço deles: todos moram em Manhattan; Edward mora de um lado mais nobre, Upper West Side, e Bella mora do lado oposto, no Harlem. Aqui um mapinha via google bit. ly/ mKaJTA . Quem adivinhar quem é o irmão da Rachel ganha um muffin de morango virtual. Se você adivinhou e começou a surtar, não fuja ainda! Ele é do bem. ;) . No capítulo que vem teremos o primeiro encontro de Bella e Edward, na festa de Esme... Beijos!