Mais Uma Vez

8 Capítulo 7: Sensações Adormecidas


Notas iniciais
Obrigada a Cella, a beta que adora ficar colocando caraminholas pervertidas na minha cabeça. Eu que não sou besta de não acatá-las. . Bem, esse é o maior capítulo até agora, e está CHEIO de informações importantes. Vou parar de enrolar vocês

Capítulo 7: Sensações Adormecidas

Bella

Como já esperava, eu acordei no domingo com uma ressaca leve. Porém a dor de cabeça chata pôde ser resolvida com duas aspirinas, um café forte e torradas.

Enquanto me arrumava, parada diante do espelho, contemplei se colocaria o biquíni que havia comprado no verão passado, ou um antigo maiô. Ambos eram discretos, mas o maiô me deixava dez anos mais velha.

Bufando, vesti o biquíni preto liso de uma vez, rezando para que as estrias na minha barriga não ficassem tão aparentes. As amigas me diziam que as marcas não eram nenhuma aberração e que eu tinha sorte por ter a pele tão branca, mas me incomodava mesmo assim. Tente ser uma adolescente magrela num dia, e no outro, de repente, ver brotar do seu ventre uma grande bola de basquete. Não era fácil.

Ao sair de casa, o céu limpo me deixou mais feliz. Os Cullen moravam em um bairro do subúrbio afastado do centro de Nova York, e eu levei quase uma hora para chegar, estacionando na calçada tranquila.

A casa de cores claras não era uma mansão, porém os cinco quartos e o espaçoso quintal eram confortáveis o bastante para uma família de quatro pessoas, como era na época em que Alice e Edward ainda viviam aqui. Inevitavelmente, ao atravessar o pequeno caminho do jardim da frente até a porta de entrada, as lembranças que sempre ficavam guardadas em um canto especial da minha mente, eram, uma a uma, redescobertas.

Tantos verões, tantas tardes chuvosas, tantos finais de semana de diversão digna de férias em pleno ano letivo. Tantas noites silenciosas repletas de sussurros e confissões desejosas…

Tudo isso era parte do meu ser, e essa casa tinha sido cenário para momentos importantes e decisivos da minha vida. Suspirei fundo para não deixar que minha memória afetasse o meu presente, e varri as recordações de volta para o seu devido canto antes de bater na porta.

Os saltos delicados podiam ser ouvidos caminhando do outro lado, e logo a própria Esme abria a porta para me recepcionar.

— Bella! – exclamou com um afável sorriso. Afável, Esme era toda assim, e eu a amava por isso. Eu sorri também.

— Esme, feliz aniversário. – inclinei-me para um abraço apertado e sincero. — Sabe que eu te desejo as melhores coisas do mundo, não é?

— Eu sei, minha querida, eu sei. Obrigada. Desejo igualmente a você. – ela falou e deixou um beijo na minha bochecha. A viagem no túnel do tempo de fato tinha sido vertiginosa e me entonteceu tanto que eu senti uma pontada de lágrima ameaçando fugir de mim.

— Já estão todos aí? Espero não ter chegado muito tarde. Claire disse para vir por volta do meio-dia… – falei enquanto ela me trazia para dentro da casa. Eu ouvia conversas animadas e música vindas do quintal.

— Nem todos, mas você está pontual.

— Ah! Eu trouxe isso pra você. – disse quando lembrei de entregar o presente. — Achei tão bonito e especial. Espero que goste.

— É um embrulho tão grande que eu já gostei. — ela riu.

Paradas no meio da sala, esperei por um instante. Quando ergui minhas sobrancelhas, Esme pegou a dica.

— Oh, você quer que eu abra agora, não quer? Sempre tão ansiosa. – brincou.

— Esse é só um dos meus muitos defeitos. – falei, dando de ombros e não me sentindo nem um pouco envergonhada.

— Está bem. – ela riu, mas abriu o pacote. Quando olhou o conteúdo, seu belo rosto reluziu. – Bella, isso é lindo! Não precisava, mas mesmo assim, agradeço.

— Bobagem, Esme. Eu nunca vou ter presentes suficientes para retribuir a tudo o que você já fez por mim.

— Minha menina, foi tudo feito de coração e livre vontade. Você sabe que não precisa retribuir. – falou ela afagando minha bochecha em um gesto maternal. Eu me sentia uma garotinha perto dela às vezes.

Esme não era a sogra — ex-sogra— megera que a maioria das namoradas temiam. Para mim, ela era muito mais mãe do que a minha própria mãe. Quando eu soube que estava grávida, foi para essa casa que eu corri e foi debaixo dessa asa que eu me escondi da fúria de dona Renee.

Minha mãe não me expulsou de casa ou me deserdou, embora eu achasse que ela só não o tinha feito por impedimento do meu pai. O fato é que desde então minha relação com ela jamais foi a mesma.

Eu lembrava com extrema clareza do dia em que recebi o resultado do teste e fui procurar Renee com mãos trêmulas e um sentimento inexplicável — como se eu estivesse empoleirada na beira de um abismo escuro. Só que ao contrário do meu pai, minha mãe nunca foi de guardar os seus pensamentos para si.

E como eu ouvi sua mente naquele dia.

Muito choro, muito grito, muitos xingamentos. Entretanto, o que mais me magoou e fez pesar meu sentimento de culpa foi ver a decepção nos olhos dela.

Por muito tempo eu não a perdoei. Renee foi praticamente ausente durante os primeiros dois anos da vida de Claire. Apareceu na maternidade no dia seguinte ao nascimento, me desejou sorte, deixou um beijo em mim e um na minha recém-nascida, e foi embora quinze minutos depois. Naquela época eu ainda era imatura demais para compreender que sua decepção era nada mais do que seu sentimento de falha pessoal; Renee simplesmente me via como o grande fracasso da sua vida.

Atualmente, nos comunicávamos, talvez mais por peso em sua consciência após saber de tudo o que eu passei, porém não éramos tão próximas — e para ser sincera, acho que jamais voltaríamos a ser.

Eu daria tudo para ter minha mãe ao meu lado, como tenho quase toda minha família, mas não se pode ter tudo nessa vida, não é?

Complica-se ainda mais o fato de que enquanto eu estava ocupada demais trabalhando em dois lugares diferentes para pagar o aluguel do antigo apartamento, meu pai e minha mãe estavam, finalmente, sucumbindo à crise no casamento deles. Renee voltou a morar em Phoenix, no Arizona, sua terra natal, quando eu tinha vinte e três anos, deixando meu pai para se virar sozinho por aqui, até ele decidir se mudar para uma cidade interiorana do estado de Nova York.

Tanta coisa mudou desde aquela época…

— Bella? – a voz de Esme me chamou e voltei meus olhos para ela.

— Desculpe, perguntou o quê mesmo?

— Perguntei como eu estou. – falou com um sorriso, mostrando-se com o chapéu que eu havia lhe dado.

— Você está a definição do charme, meu amor. – antes que eu pudesse responder, Carlisle falou por mim. Virei-me para vê-lo saindo da cozinha e entrando na sala com dois drinques nas mãos.

— Como vai, Bella? – ele me cumprimentou, puxando-me para um abraço desajeitado, da melhor forma que pode-se abraçar alguém segurando duas Margaritas.

— Vou muito bem, e você, Carlisle? – falei rindo.

— Estou bem… um pouco alcoolizado. Mas, shh, não conte para minha esposa. – ele piscou um olho e vi Esme rolando os seus ao meu lado. — Vim procurar a aniversariante que demorou tanto que pensei ter sido sequestrada.

— Pois eu estou aqui. Agora, me passe essa Margarita e vamos para o jardim.

Esme nos guiou até o quintal de trás, onde ficava a piscina. O local já estava razoavelmente cheio de convidados, e logo avistei minha filha conversando em uma cadeira de sol com Rosalie. Assim que me viu, ela veio correndo ao meu encontro, quase escorregando no piso molhado. Eu franzi o rosto.

— Qual é, mãe, não vai dar um abraço na sua filhinha? – falou ela enquanto abria os braços respingados de água da piscina. Eu me afastei.

— Não até que você esteja seca. Ou eu esteja molhada. Esse vestido é novo, não vou estragá-lo. – eu disse com uma risada, mas me inclinei para beijar sua testa. – E vê se não fica correndo na borda da piscina, viu?

— Ai, mãe, tá tudo certo, não vou cair. Não sou você.

— Engraçadinha. – falei comprimindo os olhos. — Colocou o protetor solar? Suas bochechas já estão rosadas.

— Botei sim. Agora eu vou voltar lá, porque preciso terminar de ouvir essa fofoca da Rose. Tchau! – ela disse, e tão rápido quanto veio, foi embora. Rosalie não tinha se levantado, mas me viu e acenou com um sorriso para mim. Uma camiseta enorme demais encobria o seu magro corpo, e eu estranhei o fato. Desde que Rose ganhara seios, ela jamais deixou de mostrá-los, e no entanto, agora parecia estar... com vergonha? Adolescentes eram tão complicadas.

— Ah, como eu sinto falta dessa pirralhinha correndo pela casa! – exclamou Carlisle para mim.

Da cadeira onde estava sentada, Claire virou o rosto e gritou indignada.

— Ei, eu ouvi isso! Poxa, pirralhinha não, né?

De cá, nós rimos.

— Senti saudades de vocês duas, Bella. — ele virou-se para mim. — Parece que você só tem tempo para as mulheres dessa família.

— Eu sei, e já me desculpo pelas minhas ausências. – realmente, fazia alguns meses que eu não os visitava aqui. Apenas raramente encontrava Esme para um almoço durante a semana. — Eu andava muito ocupada com o trabalho, mas já vai passar. Estou com um novo e melhor cargo na New York Week, e se tudo der certo, vou ter mais liberdade com meus horários. Agora sou editora subchefe.

— Isso é ótimo, Bella! Meus parabéns. – falou ele com um sorriso charmoso. Eu sempre achei incrível como seus filhos tinham sorrisos e trejeitos parecidos com os dele, mesmo Carlisle não sendo o pai biológico de Edward e Alice. Era algo que só podia ter alguma explicação para além da natureza.

— É mesmo maravilhoso! Você merece tanto. – Esme completou ao seu lado. Eu sorri.

— Obrigada. Estou levando muita fé nesse novo cargo.

— A gente precisa comemorar isso. Então, o que vai querer beber, Bella? Eu sei que parece cedo demais para tequila, mas essa mistura que Carlisle preparou está irresistível. – Esme me perguntou em seguida, e eu achei graça na ironia; eu tinha fugido da bendita tequila ontem, mas hoje não me deixariam escapar.

— Vou começar com algo mais leve, por enquanto, mas prometo provar a Margarita mais tarde, ok?

— Sem problemas. Fique à vontade, por favor. Você sabe onde encontrar o banheiro, se quiser se trocar e entrar na piscina.

— Pode deixar. – falei assentindo a cabeça para ela.

— Acho que vou dar um mergulho. – avisou Esme, tirando o sarongue que vestia. — Querido, quer vir comi-–

Antes que ela conseguisse terminar a frase, Carlisle roubou Esme para si e a arrebatou em um beijo, esquecendo-se completamente da minha presença. Discretamente, me afastei para deixá-los a sós.

Mas bastou dar dois passos para que meu pé prendesse em alguma coisa, me fazendo tropeçar para trás.

Apenas não caí no chão porque mãos me seguraram firmemente pela cintura, e eu apoiei o resto do meu peso sobre o torso dele. Porque claramente a pessoa era um homem, e como eu pude constatar ao olhar para baixo e reconhecer as mãos, aquele era Edward. Ótimo.

Ficamos um momento imóveis, e respirei fundo uma vez antes de me virar e tentar livrar qualquer embaraço que poderia surgir. Sentia meu rosto queimando e certamente eu estaria ruborizada, mas podia muito bem não deixar isso transparecer.

Corrigi minha postura para falar.

— Obrigada. – sibilei solenemente.

— Foram anos de prática. – comentou com um brilho de provocação nos olhos, como se fosse cair na gargalhada a qualquer minuto.

— É. – bufei, não acreditando na situação ridícula. Apenas comigo aconteceria uma coisa dessas.

Mas que se dane.

— Como vai, Edward? – estendi uma mão a ele, já que eu não era tão má educada assim. Ele a aceitou e sacudiu.

— Vou bem. Eu fiquei sabendo da sua promoção na revista. Meus parabéns, é um grande cargo.

Ao ouvir aquilo, minha boca se abriu involuntariamente, pois eu não esperava por essa.

Sim, eu havia me perguntado o que Edward diria se soubesse sobre minha promoção, mas eu não esperava ouvir um elogio tão cedo. Ou melhor, eu sequer esperava estar com ele nessa festa. Digamos que não era muito do nosso feitio desejar felicitações um ao outro — sequer trocar mais do que meia dúzia de frases. Estávamos mais para destilar veneno em uma ou outra palavra acusatória do que conversas de verdade. Eu não conseguia evitar.

Mas antes que pudesse agradecer, um brilho reluzente ofuscou meu olhar ao cintilar contra um raio de sol, e eu desviei o rosto rapidamente.

Quando me voltei, foi impossível não reparar na mão que havia se apossado do ombro esquerdo de Edward, com seu grande anel de um único grande brilhante. Se pudesse falar, o anel diria "Vejam! Olhem como eu sou esperta e consegui fisgar o babaca para casar comigo!".

— Isabella Swan. – falou Tanya com um sorriso enjoativamente doce. — Não esperava vê-la por aqui.

— Ahm… Esme é minha amiga, eu não perderia essa festa por nada. – elaborei secamente, mas mesmo assim tentei ser simpática. — Olá, Tanya, como está?

— Estou ótima. Nunca estive melhor! – exclamou, tamborilando os dedos da mão adornada sobre o ombro de Edward. Céus, seria menos óbvio se ela urinasse sobre as roupas dele, se era para demarcar território seu. Bom, não que eu estivesse tentando clamar alguma coisa dali como minha…

— Ah. Que bom. – dei um sorriso amarelo.

O som de Carlisle e Esme caindo na piscina desviou minha atenção, e olhei para eles até perceber que Alice e Jasper já estavam sentados em uma das mesas ao redor. Alice acenou para mim, e eu peguei minha deixa.

— Bem, com licença, vou me sentar. – avisei aos dois pombinhos. Andei até meus amigos e os cumprimentei.

— Me agradeça por ter te salvado da cobra. – falou Alice quando me sentei. Eu ri de leve, mas sacudi a cabeça.

— Ela ladra, mas não morde. Eu acho. – comentei.

Assim como a minha filha, Alice também expressava claramente o seu desprezo pela mulher que seu irmão Edward tinha escolhido para casar. Eu jamais convivi o bastante com Tanya para saber do seu caráter, mas o pouco que vi da sua personalidade, indicava que ela era uma pessoa um tanto… difícil. O que não ajudava era o fato de eu a conhecer somente através dos relatos de Alice e Claire, tornando meu ponto de vista sobre ela naturalmente negativo.

— Você acredita que ela deu de presente um roupão e chinelos para a minha mãe? E não são daqueles que você encontra na Victoria's Secret, são aqueles que você encontra na seção de moda asilo das lojas de departamentos. Como se minha mãe fosse uma velha caquética de 80 anos! – Alice alfinetou Tanya enquanto olhava em direção a ela. Tanya estava com os braços ao redor do pescoço de Edward dizendo qualquer besteira em seu ouvido que o fez gargalhar.

— Deixa ela, Alice. Eu tenho certeza que Esme não se sentiu ofendida, pelo contrário, ela adora coisas confortáveis assim. Esme não parece querer ser sexy 24 horas por dia, ao contrário de você. – brinquei. Jasper acompanhou minha risada, mas Alice continuou.

— O pior de tudo é aquele perfume. Não sei como você não desmaiou intoxicada quando ela chegou perto.

— Alice! Não acha um pouco infantil ofender gratuitamente alguém assim? – ralhei. Tudo bem que Tanya Denali não parecia ser a mais virtuosa das mulheres, mas se Edward decidira dividir sua vida inteira com ela, então alguma qualidade boa ela devia ter.

Para ser sincera, ela aparentava ser o tipo de pessoa que não havia nascido para ser genuinamente má. Talvez lhe faltasse um pouco de inteligência, mas não parecia ter má índole. Pelas histórias que eu ouvi, Edward a conhecera há uns seis anos no consultório de terapia que frequentavam, e namoravam há três. Se ela fazia terapia, então pelo menos significava que tinha intenção de se tornar uma pessoa melhor.

Ou não. Vai saber.

Ano passado, Alice havia enrolado por duas semanas para me contar que Edward se casaria novamente. Foi uma das conversas mais estranhas que eu já tive. Vergonhosamente, eu senti raiva por ver que ele estava sendo feliz, enquanto eu ainda não tinha encontrado ninguém bom o suficiente para ter em minha vida.

No entanto, um único pensamento martelava minha mente: eu simplesmente não podia acreditar que, dentre milhões de mulheres solteiras nesta bendita cidade, Edward fosse se envolver justamente com a sobrinha da minha chefe. Aquela foi uma semana muito estranha entre Carmen e eu no trabalho.

O destino, definitivamente, me detestava.

— Estou apenas falando a verdade, que é o que sempre faço. — Alice argumentou. — Ah! Falando em verdades, me conte como foi o encontro com Mike? Não esconda nada, você sabe que preciso ouvir todos os detalhes.

Pela sua urgência, era como se tivesse sido ela a participar do encontro. Era impressionante que mesmo com seus trinta e oito anos, ela continuava a ser o mesmo espírito irrequieto que sempre foi, e provavelmente sempre seria.

Antes que eu respondesse, Rosalie e Claire se juntaram a nós para comer o sorvete que carregavam em taças. Elas sentaram ao meu lado, rapidamente resumindo a conversa entre si.

— Não precisarei dar muitos detalhes, simplesmente porque foi um fracasso. – respondi a Alice. — Digamos que Michael e eu não temos muito em comum.

— Você o chamou de Michael? Então você realmente não gostou nem um pouco dele. – interviu Jasper. — Mas eu bem que avisei a Alice que Mike é uma pessoa… complicada para relacionamentos.

— Tá, mas quem disse que você precisa de alguém que tenha a ver contigo só pra transar e cair fora? – interrogou e eu arfei em surpresa.

Alice, eu não usaria esses termos. – sibilei entre dentes apontando para Claire com o olhar. As duas meninas fingiam não estar prestando atenção, muito mais entretidas com suas taças de sorvete. Olá, momento embaraçoso.

— Como se ela não fosse grandinha o suficiente para saber o que os adultos fazem em encontros.

— Bom, mas o fato é que não rolou e nem vai rolar nada com Michael. E ponto final. – afirmei, me levantando. — Já volto, vou pegar alguma coisa pra beber.

Caminhei até uma mesa onde estavam jarras diversas de sucos que pareciam deliciosos e refrescantes, reparando pela primeira vez na decoração elegante que Esme tinha preparado para a festa dos seus sessenta anos. Todo o quintal continha um ar de simplicidade e alegria, deixando o local com um charme e vitalidade jovial — o que refletia exatamente a personalidade da dona da festa. Era o cenário perfeito para uma celebração em plena primavera.

Ao chegar na mesa dos sucos, vi Edward debruçado sobre uma jarra, examinando-a.

— Quer ajuda? – indaguei, mesmo supondo que ele não precisaria. Ele olhou para cima assim que ouviu minha voz.

— Na verdade sim. Isso aqui, – falou enquanto mexia o conteúdo. — É laranja ou tangerina?

Que tipo de idiota não sabe diferenciar o ácido da laranja do adocicado da tangerina? Aparentemente, Edward.

— Prove. – falei dando de ombros. Ele assentiu a cabeça como se fosse a ideia mais genial do mundo, e eu fui em frente para buscar um chá gelado. Enquanto eu colocava limão e açúcar, Edward decidiu conversar. Suspirei discretamente.

— Quer dizer então que você está saindo com Mike Newton. – comentou, tomando um gole do suco e fazendo uma careta. Então era laranja.

— Eu não estou saindo com ele, foi apenas um encontro. E será só isso. – disse. Quem foi que contou isso a ele? Alice, a cada momento você está cavando sua sepultura mais e mais.

— Ah. Ele não te falou das casas que tem na praia? Tenho certeza que ficaria interessadíssima. – ele zombou, e eu o olhei, incrédula.

— O que você está insinuando? Michael e eu não temos nada em comum, e isso não mudaria por dinheiro algum. Aliás, nem sei porque estou me explicando, não devo satisfações a você.

Marchei em direção à mesa onde estava sentada, mas no meio do caminho, senti meu braço que não segurava o copo ser puxado.

— Bella, me desculpe. Eu só estava brincando, não quis insinuar nada. – Edward disse depois de me virar para encará-lo.

— Pois então saiba que eu não te dou liberdade para fazer esse tipo de brincadeira. – rosnei e me soltei do seu aperto, marchando novamente para a minha mesa.

Me sentei e, por um instante, captei o olhar entristecido de Claire, que sem dúvidas havia testemunhado a cena que seus pais causaram. Eu suspirei fundo para conter o senso de decepção em mim mesma que viria — e a raiva por Edward ter feito nossa filha infeliz, mesmo que por esse momento. Às vezes você consegue ser um imbecil completo, Cullen.

A tarde passou praticamente do mesmo jeito. Eu tinha cumprimentado algumas pessoas que conhecia, alguns convidados que chegaram depois, porém passei a maior parte do tempo sentada conversando com Jasper e Alice enquanto beliscava os quitutes que estavam postos sobre uma bancada para nós. Às três horas, um delicioso almoço foi servido.

Estava tudo indo muito bem até o momento em que Jasper me induziu a tomar a Margarita congelada que eu tinha tentado evitar. Depois da terceira taça, sentindo uma tontura começando a se instaurar, eu achei melhor parar. Eu me sentia alegre e relaxada, e já estava de bom tamanho.

Quando o sol da tarde ficou mais intenso e o suor começou a escorrer na minha nuca, decidi que seria uma ótima ideia dar um mergulho na piscina.

Ledo engano.

— Isso! Mãe, vem aqui, você é quem faltava pro nosso time ficar completo! – ouvi Claire me chamando enquanto eu voltava do banheiro, onde eu tinha colocado meu short e o protetor solar. Olhei para a piscina e além de alguns convidados, estavam minha filha, Rosalie, Edward e Tanya, em uma roda no meio. Tanya usava seu chapéu de aba larga, parecendo completamente desconfortável ali.

— Que time? – perguntei, prendendo meu cabelo em um coque para evitar o possível emaranhado que ficaria. Tirei o short para me sentar na borda e colocar os pés dentro d'água.

— De briga de galo, né. – ela respondeu, como se fosse óbvio.

— Claire, eu não sei se estou com vontade… – tentei recusar sem ter que explicar que provavelmente eu acabaria derrubando a qualquer um que fosse o meu par. Tequila e brincadeiras na piscina não eram uma combinação muito boa.

— Vamos lá, tia Bella, não se faça de difícil, já me contaram o quanto você é boa nisso. – Rosalie interferiu ao se aproximar. — Não é mesmo, tio Edward?

Eu olhei para onde Edward estava com a noiva, e ergui uma sobrancelha. O rosto dele indicava que ele havia feito alguma coisa que sabia que eu não iria gostar. Mas mesmo assim, ele deu de ombros, e sorriu presunçoso, acenando a cabeça para que eu entrasse na água. Então ele queria uma batalha.

Desafio aceito.

— Está bem. Lutaremos em duplas, mas temos aqui cinco pessoas. Alguém vai ter que ficar de fora. – falei para ele enquanto andava dentro da piscina até chegar ao meio. Rosalie e Claire me seguiram.

— Tanya. – ele foi rápido em dizer. — Benzinho, você não se importa, não é?

— Eu? Deus me livre, acabei de fazer as unhas ontem. Vou é pegar sol. – exclamou ela em resposta, e saiu com seu maiô de recortes dourado. Eu queria não detestar a sua peruagemclichê, mas ela estava, além de tudo, usando pulseiras de ouro dentro da piscina. Assim ficava difícil.

— Eu fico com Claire, que é menor, você com Rosalie. – ordenei olhando para as duas garotas. — Não vale socos nem pontapés. Perde o primeiro a ser derrubado.

— Fechado. – Edward concordou.

Antes de colocar Claire sobre meus ombros, me preparei esticando um pouco os músculos e amarrando com força o sutiã do meu biquíni. A última coisa que eu queria era algum tipo de acidente envolvendo meus seios de fora.

— Prontos? – perguntei, firmando as pernas da minha filha sobre meus ombros.

— Mais do que nunca. – falou Rosalie, que tinha puxado o mesmo espírito competitivo de seu pai Jasper. Ouvi Claire rindo.

— Você não perde por esperar, priminha. – ela falou e contou. — Um, dois, três, valendo!

Assim que dei meu passo a frente, as duas começaram a empurrar uma a outra. Finquei meus pés no fundo da piscina para tentar resistir a força que Rosalie, consequentemente, fazia contra mim enquanto Claire pesava sobre meus ombros. Vi o rosto de Edward se contorcendo por um instante, mas seus braços seguraram forte o quadril de Rose, da forma como eu havia lhe ensinado há anos. Usando os meus truques contra mim, que audácia!

Cheguei mais perto dos dois para que Claire tivesse melhor acesso.

— Mais embaixo, Claire! – gritei para ela. Espertamente, ela entendeu o que eu queria que fizesse, e começou a empurrar Rosalie pela lateral do corpo.

Rose gritou e cambaleou, mas Edward se manteve firme. Eu franzi os olhos para ele, que já estava com os cabelos molhados grudados na testa, com uma feição de completa concentração.

Os tendões de seu pescoço estavam aparentes pelo esforço, os lábios comprimidos, o maxilar travado e aquelas suas características duas linhas no meio da testa. Engraçado, se minha memória não falhava, era exatamente a mesma cara que ele costumava fazer antes de gozar intensamente. Devia ser a minha expressão preferida em homens bonitos como ele... O quê? De onde surgiu isso? Que tipo de pensamentos são esses?

Foco. Foco!

Edward me pegou olhando para ele e, lançando-me um olhar feroz, aproveitou minha desatenção na disputa para dar um pinote para frente. Senti Claire ser jogada para trás com força e não consegui mais resistir ao empuxo da água. Ambas fomos derrubadas com um grande impacto na piscina.

Voltando para a superfície, peguei o exato momento em que Edward e Rosalie batiam as mãos, cumprimentando-se pela vitória. Suas risadas de escárnio me incomodaram profundamente.

— Ok, eu exijo um segundo round. – falei entre dentes enquanto arfava. Não ia deixar barato.

— Ah não, mãe, nem vem. Não vou lutar com você de novo nem a pau! – protestou Claire.

— Não precisa, filha, acho que podemos trocar de duplas. – Edward interveio. — Agora Claire fica com Rosalie, e eu com Bella.

— O quê? – exclamei indignada. — Não! Eu fico com Rosalie e você com Claire!

— Você mesma disse que Rosalie é pesada demais para você. E eu acho que minha sobrinha tem força suficiente para se aguentar com Claire.

— Exatamente. – falou Rose. — Vem, priminha, sobe aqui.

Não era possível. Meu intuito era me vingar de Edward, e não lutar em cima dele.

— Vai logo, mãe. – reclamou Claire, que já estava sentada nos ombros da prima.

Eu bufei, não acreditando que todos tinham me passado a perna, mas flutuei até Edward. Ele olhou para mim por um momento com uma expressão estranha, hesitando, e se abaixou na água depois de um momento. Eu subi em seus largos ombros, e segurei sua cabeça para me equilibrar, assim que ele voltou à superfície.

— Não precisa me degolar, Bella. – ele provocou.

— A minha vontade é fazer exatamente isso, sabia? – falei apertando minhas mãos em seu cabelo e minhas pernas em torno de seu rosto.

Não que tivesse sido uma boa ideia, pois o resquício da barba que ele provavelmente não tinha feito durante o fim de semana, roçou na parte interna das minhas coxas, lançando um arrepio que, como um relâmpago, subiu pela minha coluna até se concentrar em calor no centro das minhas pernas. Mas que merda é essa?

— Está tudo bem aí? – Edward inquiriu, apertando minhas pernas, na parte superior aos joelhos. Suas palmas praticamente circulavam por inteiro o trecho onde seguravam. Tão grandes, tão másculas. Ok, Bella, você necessita de sexo. E já está ficando ridículo.

— Está. – respirei fundo para varrer para longe os pensamentos impróprios que eu subitamente estava tendo com meu ex-marido. Todo esse contato físico não estava ajudando em nada.

Céus, eu devo estar tão bêbada.

— Um, dois, três, valendo! – Rosalie contou e voltamos à nossa disputa, que foi praticamente igual a anterior.

A exceção era de que, dessa vez, eu é que estava sofrendo com o aperto de Edward em meus quadris, com a sua barba mal feita que esfregava deliciosamente entre o interior das minhas pernas, e os sons de esforço que ele fazia toda vez que Claire me golpeava com mais força. Eu juro que não estava inventando coisas, ele fazia exatamente esses mesmos sons durante o sex…Chega, Bella, chega!

Sim, eu definitivamente estava alcoolizada.

Para variar, eu paguei pela minha desconcentração e minha intenção de não querer machucar minha filha. Em menos de cinco minutos de partida, Rosalie e Claire conseguiram nos derrubar. Eu caí na água emaranhada em Edward, já que tinha tentado a todo custo me prender sobre seus ombros, e acho que o atingi com meu pé em algum lugar. Quando consegui voltar a uma posição vertical, ele nos emergiu ao segurar meu torso.

— Você se machucou? – perguntou com preocupação. Olhei para seu rosto, uma confusão de cabelos e gotas que escorriam para seu peitoral, e fiquei extremamente desconfortável com sua intensidade. Seu braço que envolvia minha cintura estava com a mão cravada nas minhas costas. Ele estava tão próximo a mim, como há anos não ficava.

— Não. – arfei, e por um breve momento desejei ter dito que sim, apenas para saber o que ele faria.

— Que bom. – ele disse, e então seus olhos lancearam para baixo por um breve segundo e ele rapidamente se afastou. — Ahm, Bella, o seu…

Olhei para onde ele havia apontado com o olhar e é claro que tinha acontecido o pior: a lateral do meu biquíni havia saído do lugar e meu seio esquerdo estava querendo dar um olá a todos os convidados da festa. Um olá a Edward.

— Ah meu Deus! – mortificada, me virei e abaixei rapidamente na água para consertar. Edward se inclinou sobre mim, mas antes que eu pudesse empurrá-lo para longe, eu entendi que ele queria apenas tapar a visão dos outros.

— Obrigada. – agradeci quando me senti segura com meu sutiã. Obviamente, meus bicos estavam tão eretos quanto poderiam estar. E um deles fez uma aparição para Edward. No aniversário da minha ex-sogra. Alguém. Me. Mate.

Ou me salve, que foi exatamente, graças a Deus, o que Carlisle fez naquele momento ao anunciar a todos que chegara a hora do parabéns.

Saímos da piscina e me apressei para pegar minha toalha, o tempo todo rezando para que ninguém mais tivesse visto o meu showzinho na água. Terminei de me secar no momento em que o bolo foi trazido para o quintal já com as velas acesas.

Após a tradicional canção, Esme apagou as velas. Seu marido, sempre naturalmente galanteador, fez um breve discurso emocionado, selando-o com um beijo. Enquanto todos os convidados batiam palmas, eu sorri vendo a felicidade de um casal tão querido e fundamental na minha vida.

Com meu pedaço de bolo em mãos, sentei na cadeira ao lado de Alice. Jasper e as meninas estavam em busca de alguma bebida.

— Belos mamilos. – falou Alice, como se comentasse da previsão do tempo. Eu parei com o garfo na metade do caminho.

— Como é? – indaguei me fingindo de desentendida.

— Ahn? Nada, só estou te elogiando. Seus seios ficaram divinos nesse biquíni. – ela falou, fingindo-se mais do que eu.

— Todo mundo viu, não é? – bufei em derrota.

— Só quem assistia à disputa. – ela riu. — Mas não se preocupe, foi só por um instante. Edward segurou sua retaguarda.

— Era o mínimo que ele podia fazer. Eu só fui derrubada por causa dele. – espezinhei. Bem, não era de todo mentira.

— Sim, claro. E você adorou.

— O quê? – ergui minhas sobrancelhas.

— Vocês pareciam exatamente como o casal adolescente que eu conheci. Eu vi muito bem no seu rosto, Bella Swan. Você adorou tirar uma casquinha do meu irmão.

— Eu? Acho que você bebeu demais hoje, Alice.

— Pense o que quiser, mas lá no fundo você sabe a verdade. Está pesando na sua consciência. – ela disse com um tom de sobriedade e mistério, e o riso que tentei dar soou pateticamente fraco. Alice sempre deixou claro que se um dia eu quisesse tentar me acertar com seu irmão novamente, ela me daria todo o apoio porque, segundo ela, nós dois "ainda tínhamos muita história para contar". Mas eu simplesmente não via isso acontecendo. Nunca. Nossa história estava no passado, e lá ficaria.

Minha consciência nesse momento estava pesando o dobro de mim, e um milhão de dúvidas começavam a se espalhar.

Por que diabos eu tive essas reações quando senti o corpo de Edward, como se eu fosse uma adolescente idiota regulada por hormônios malucos?

Era óbvio que eu continuava a achá-lo atraente apesar de toda mágoa que eu sentia pela pessoa dele. Mas eu não me lembrava da última vez que isso havia ocorrido — não lembrava de quando foi a última vez que tivemos tanto contato físico assim. Eu devia sentir repulsa por tê-lo tão perto. Isso estava errado.

E se isso voltasse a acontecer, e se um dia a gente se esbarrasse de novo? Era um caminho sem volta?

Não. Definitivamente, não. Eu estava carente e sexualmente frustrada, só isso. Quando eu encontrasse um homem que pudesse me dar um jeito, eu voltaria ao meu normal. Tudo o que eu precisava era de alguém que pudesse me foder até meu cérebro apagar os episódios desse domingo esquisito.

Além do mais, eu precisava estar cem por cento sóbria novamente, sem a cortina do álcool desinibindo os meus sentidos e atrapalhando meu julgamento.

Eu odiava dar o braço a torcer e admitir que Alice estava certa. Talvez eu realmente estivesse precisando de um pouco de atenção física. Agora, tudo o que eu precisava fazer era achar alguém que fosse capaz de preencher essa necessidade.

Enquanto eu nada poderia fazer agora, peguei a quarta taça de bebida da tarde, com mais ódio de Edward do que nunca por me trazer esses pensamentos.

— Alice, se eu estiver bêbada demais até a hora de ir embora, você guia meu carro até em casa? – pedi. Ela me lançou um olhar como quem sabia demais, e eu detestei a forma como ela sempre soube me ler como um livro.

— Claro. Você merece. – falou com empatia, e voltou a observar a festa.

Por que nada podia ser simples na minha vida, meu Deus? Por quê?

Notas finais
Coisas que eu não aconselho: beber e depois dirigir; Dar ouvidos à Alice Cullen. Coisas que eu aconselho: provar Margarita; Me deixar muitas reviews. Beijos!