Mais Uma Vez

41 Capítulo 40: Confissões de Travesseiro


Notas iniciais
Disclaimer: Twilight não me pertence, mas essa história, assim como a filha da Bella e do Edward sim, portanto respeitem! Oi? Tá todo mundo aí? Espero que estejam bem! Obrigada leitoras mais lindas e pacientes do mundo por ainda estarem aqui. Vocês são foda! Quem não recebeu os extras antigos, me avisa aí! PS: Nesse capítulo precisei dar uma revisada na fic pra lembrar a história. Acabei reescrevendo bastante do capítulo 23: Primeiros Passos... Não há nenhuma novidade, só reformulei diálogos e estrofes. Se quiser, dê uma olhada pra refrescar a memória

Capítulo 40: Confissões de travesseiro

Bella

Eu sentia um frio incômodo, e o corpo pesado demais para dar um jeito nisso. Algo estava fora do lugar.

Instantes passaram até minha mente letárgica perceber que o motivo disso tudo dormia do outro lado da cama. Abrindo os olhos, encontrei Edward enrolado com quase todo o meu edredom, num leve ronco.

— Ladrão de cobertor. – puxei meu pedaço de coberta com um resmungo.

Ele acordou, logo percebendo, e largou.

— Desculpa. – ouvi.

— Hmm.

Virei de costas, me enrolando para voltar a dormir, porém senti o peso da cama mover e ele encostar nas minhas pernas.

— Que pé gelado. – ele se achegou mais, puxando-me para ser sua conchinha.

Isso, bem melhor agora. Tão aconchegante, tão quente.

Fazia tempo que eu não dormia com alguém além da minha filha. Havia esquecido minha relação de amor e ódio com a situação toda. Ter o meu espaço e conforto era sagrado, mas saber que eu não estava sozinha no momento mais vulnerável do dia era um acalanto.

"Até que seria bom dormir assim sempre",pensei antes de pegar no sono novamente.

Quando acordei de verdade, o sol já entrava pela cortina, e eu sabia que devia passar das dez.

Edward estava voltando do meu banheiro.

— Opa. Te acordei? Desculpa, tentei ser silencioso, mas essa sua descarga faz um escândalo.

— Se quiser consertá-la, fica à vontade. – eu me espreguicei.

— Só me dar as ferramentas. Bom dia. – ele entrou sob as cobertas e inclinou-se para me beijar.

— Hmm bafinho matinal.

— Eu literalmente acabei de escovar os dentes.

— Mas eu não.

— Tudo bem. Faz parte do pacote.

Ele me beijou mais uma vez, por mais tempo, só para comprovar sua palavra.

— Tão romântico. – brinquei, um pouco sem fôlego.

— Agora, estou mesmo preocupado é com seu cabelo, parece que tem um nó aí.

— Ah droga. – resmunguei passando minha mão por um mecha emaranhada. – Não devia ter lavado ontem.

— Fiz alguma coisa errada? – ele perguntou, afinal tinha me ajudado a lavar.

E por ajudado, quero dizer massageado minha cabeça, ombros, costas, seios e todo lugar que suas mãos alcançassem, com a desculpa de lavar meu cabelo depois de fazer amor comigo por horas, lenta e calculadamente.

Ele cumpriu a promessa: não havia uma parte do meu corpo que não tivesse sido beijada e reverenciada ontem.

— Não fez nada errado. Só não posso dormir de cabelo molhado, sempre acontece isso, eu me mexo muito.

— Se mexe mesmo, eu que sei. – ele riu. – Dormiu bem?

— Sim... tirando a hora que fiquei tremendo de frio porque alguém roubou todo o edredom.

— Desculpa. Da próxima vez, vai ser um pra cada um.

— Combinado. Que horas são?

— Onze e pouca.

— Nossa, nem lembro a última vez que dormi até essa hora. Me sinto até estranha.

— Tem alguma tarefa pra hoje?

— Sempre. Mas nada urgente.

— Então relaxa. Você merece.

Fazia tempo que eu não me sentia tão descansada. Dormir até mais tarde depois de um dia de felicidade fazia toda a diferença.

Evitei pensar em todos cômodos da casa que eu deveria arrumar, e todos os e-mails que eu ainda precisava responder para a semana. Exatamente como ele sugeriu, eu suspirei e relaxei, virando-me de lado para encará-lo, espelhando sua posição na cama.

A cena era familiar e ao mesmo tempo novidade. Em silêncio, à espera do próximo assunto, nos admiramos por um tempo – na certa pensando a mesma coisa.

Ele estava ali.

Finalmente. Nada de voltar pra casa depois do encontro, nada de se esconder mais.

Perceber isso me fez ficar emotiva, uma ansiedade estrangeira que instalou-se no meu peito. Busquei seus olhos tão doces à procura de respostas. Qual seriam os próximos passos de hoje? E do futuro?

Sua voz em sussurro me retornou ao presente.

— Tá pensando em quê?

— Que isso aqui é bem legal...

Um sorriso lentamente agraciou suas feições. Ele me compreendia.

— É sim.

— Há quanto tempo a gente não faz isso? – perguntei, porque ele sabia melhor sobre as coisas que eu fiz questão de esquecer.

— Ficar na cama olhando pra cara do outro domingo de manhã?

— Uhum.

— Uns nove anos? Talvez um pouco mais, já que sempre tinha uma criança com fome vendo desenho na sala.

Sorri com a recordação da nossa filha, porém não consegui evitar que minha mente divagasse sobre qual tinha sido a última vez. A última manhã. Me esforcei para lembrar e pareceu impossível. Como poderia recordar, se eu nem sabia que aquela seria a última?

Desde então já haviam sido tantas manhãs sozinha. Porém só agora eu me dava conta de como sentia falta disso na minha vida. Esse nível de intimidade, confiança, proximidade. Eu adorava minha própria companhia, sim, porém no fundo eu era apenas mais uma criatura nesse mundo em busca de um par. Um colo para compartilhar momentos de dor ou de glória – como o de ontem à noite.

E com Edward, hoje, eu tinha tudo isso, amplificado pelos anos e pela saudade.

— Nove anos... – suspirei. – Parece que foi em outra vida.

— Pra mim foi.

Eu afaguei seu rosto.

— Senti saudades disso. De verdade.

Ele assentiu.

— Eu também... Você não faz ideia.

Percebi que minha nostalgia tinha tomado um rumo maior que eu previa quando comecei a falar, mas agora não tinha mais volta. Já havia aparecido em seus olhos aquela angústia solitária e reclusa – difícil de ser acessada até mesmo por mim.

Meu coração se apertou.

Era um tipo de expressão que, de tempos em tempos, eu captava em seu rosto, por mais que Edward estivesse vivendo um momento tranquilo como agora na minha cama. Por mais que ele fosse leve e bem humorado em noventa e nove por cento do tempo, por mais que tentasse esconder sua dor de mim.

Isso não era novo, claro. Mas hoje eu conseguia interpretar melhor o significado dos seus silêncios, e os reconhecia como um sinal de alerta.

Agora eu possuía seu aval para questionar o que lhe afligia, e ele responderia como pudesse, pois entendia o quanto seus problemas também podiam me afetar.

— O que você está pensando agora? – retruquei sua frase, esticando a mão para seu cabelo bagunçado.

— Tanta coisa.

— Me conta.

— Não quero estragar o clima.

— Eu meio que já estraguei, fui eu que comecei...

— Foi. – ele bufou uma risada. – Só que... Fico pensando que nunca vou ter esse tempo de volta... E que sinto pena por todas as coisas, todos os acontecimentos que eu perdi. O quanto eu me arrependo por cada dia que acordei sem você.

Se existia resposta para aquilo, eu desconhecia.

— Já passou. – suspirei. – A gente sobreviveu...

— Graças a Deus, sim. Vem cá.

Eu fui. Me moldando ao seu torso e enroscando nossas pernas. A essa altura, já era natural como um dia fora. Ele me abraçou por um tempo, o nariz colado no meu cabelo, me respirando – uma mania estranha que eu já tinha me acostumado, e mentiria se dissesse que não adorava.

Estava distraída ouvindo sua respiração quando sua voz, muito baixa, ressoou no meu ouvido.

— Como foi pra você?

— O quê?

— Aquele dia. Os primeiros meses...

Ergui a cabeça para encará-lo.

— A gente já falou bastante sobre isso. Por que voltar nesse assunto?

Eu falei bastante. Você me contou por alto, e as outras informações eu sei através de terceiros.

— Você realmente quer que eu diga? – insisti.

— Quero. Se você tiver vontade... Eu sei que vai doer ouvir, mas acho que preciso. É uma parte da nossa história que eu não conheço.

Enquanto ele esperava minha resposta, escondi meu rosto sobre seu coração. Inspirei seu cheiro na camiseta de algodão, sentindo seu calor que me envolvia em conforto. Decidi que poderia ser bom para mim, também.

Me dei um tempo a fim de organizar meus pensamentos. Eram memórias escondidas num canto tão profundo, que algumas partes não passavam de um borrão escuro.

De olhos fechados e pausadamente, comecei a recontar o que minha mente custou a enterrar por anos.

— Primeiro eu achei o armário vazio... Depois o bilhete. E aí peguei o telefone, liguei pro seu celular e pra todo mundo que a gente conhecia. Ninguém sabia me responder e eu comecei a me desesperar. Eu nunca me senti tão sozinha, tão confusa... No dia seguinte, você ligou pra sua mãe só pra dizer que estava vivo. Assim, sem mais explicação.

Senti sua respiração errática, e pausei para checar se estava tudo bem. Ele pediu que eu continuasse.

— Depois, lidar com seu silêncio por mais semanas... Foi horrível. A falta de informação me fez pensar as piores coisas de você.

— Tipo o quê? – perguntou numa voz tímida.

— Traição... Drogas, crimes. Sei lá. Eu só sei que naquele momento minha raiva começou a minar tudo o que eu sentia por você. Foi ali que eu jurei nunca mais falar com você, e jurei que se pudesse não olharia na sua cara. Tudo parecia imperdoável pra mim.

— Você até que se manteve firme na promessa por bastante tempo. Deus sabe o quanto eu tentei fazer você quebra-la.

— Mas a parte mais difícil foi tentar manter o mínimo de normalidade, porque no meio disso tudo eu ainda precisava proteger Claire do que estava acontecendo. Ficamos um tempo na casa do meu pai durante as férias escolares, enquanto eu trabalhava pela internet... – sacudi a cabeça. Meu peito doía. – Depois eu só... Segui vivendo, sem parar, sem pensar. No ano seguinte, eu peguei pesado no trabalho, evitava ficar em casa, comia mal e acabei ficando doente várias vezes. Minha imunidade foi ao chão.

— Isso... Parece um pesadelo. Sinto muito.

— É. Não é minha lembrança favorita.

— Você foi tão corajosa. – ele me apertou ligeiramente. – Eu não teria conseguido no seu lugar. Admiro muito a sua força.

— Mas eu não tive escolha, Edward. – suspirei. – Eu queria mesmo não ser forte. Queria colo, queria chorar o dia todo, largar tudo, mas eu não podia... Tive apoio de muita gente querida, graças a Deus, só que no fim das contas eu precisava cuidar de outra pessoa. Por um bom tempo, o que me movia mesmo foi só o meu amor por ela... E a minha raiva por você.

Minha última frase me pegou de surpresa. Certos pensamentos soavam bem menos agressivos na minha mente.

Saí do seu abraço quente para me sentar na cama. Me reorganizar. Ele notou.

— Tá tudo bem? Se não quiser mais falar...

— Não, tudo bem. Eu só... Nunca tinha dito algumas coisas em voz alta.

— Você nunca falou sobre isso com ninguém?

— Falei, mas tem algumas coisas que eu nunca consegui. Nem pras minhas melhores amigas... Acho que eu não queria que elas soubessem o quão na merda eu estava de verdade. Não queria mostrar que você ainda me afetava.

— É compreensível. – ele assentiu. – Me fala mais sobre Claire nesse tempo?

— Claire teve pesadelos nos primeiros meses. Eu acordava com ela me olhando, aqueles olhos imensos... A gente acabava dormindo juntas a maioria dos dias. Eu lembro que ela teve febre depois de voltar de algumas das suas visitas, mas era emocional. – Era difícil encará-lo, e meus olhos desviavam a todo instante. – Alice e Jasper tentaram me convencer que ela deveria ir numa psicóloga infantil.

Foi a vez dele sentar-se recostado num travesseiro.

— Eu nunca soube de nada disso. – Admitiu.

— Alice não te contou?

— Não. Talvez tentando me proteger. Ela sabia que eu já me sentia culpado o bastante... E Claire foi à psicóloga alguma vez?

— Não, eu não achei necessário e também nem teria como bancar. Mas eu dei meu jeito, enchi a menina de atividades que a escola oferecia pra ocupar o tempo e a cabeça, e também pra que eu pudesse trabalhar.

— Disso eu lembro. Era futebol, aula de bateria, coral...

— Eu não queria que ela ficasse só em casa. Quando não tinha atividades, ficava na casa dos seus pais depois da escola, até eu buscar à noite. Fiz o que pude pra sua ausência não ser muito notada.

— Você acha que funcionou?

— Na medida do possível, sim. A febre emocional sumiu. Mas algumas noites eram mais difíceis, ela queria que eu te chamasse na hora de dormir, como era antes... Você teve sorte que ela sempre foi doida por você, acho que era incapaz de guardar mágoa. E ela é doida por você até hoje, né? – Tentei sorrir.

— Sim... E eu por ela. – seu sorriso, eu reparei, tinha um pouco de lágrima. Na mesma hora, senti um monte delas se unindo em meus olhos e não impedi que caíssem.

— Mas Claire era muito durona. Se eu pegava ela chorando, logo ia se escondendo, engolindo o choro. Na verdade, ela que me consolava na maior parte do tempo. "Ele já volta. Vai ficar tudo bem, mãezinha." Daquele jeitinho que ela falava, lembra?

Ele sorriu concordando.

— Ela ficou um tempão te chamando de Mãezinha Bella porque viu isso num desenho... Sempre tão doce e compreensiva.

— Mas essa compreensão me deixava furiosa. Eu queria que ela se manifestasse, compartilhasse da mesma mágoa que eu sentia, sabe?

— Entendo. Infelizmente, acho que ela aprendeu a se esconder comigo.

— É... hoje eu sei que sim. Mas na época, eu achava que ela fazia como a minha mãe...

— Como assim?

— Minha mãe odiava demonstrar emoção, ser vulnerável... Elas não tinham contato, mas ainda assim eu temia que a genética falasse mais alto. Tive que ensinar o contrário à Claire. Eu a enchia de perguntas como ela se sentia, como tinha sido o dia dela, dei um diário pra escrever se estivesse a fim.

— Isso foi uma ótima ideia. Eu dei um diário também, mas ela contou que já tinha um.

— É verdade, eu lembro que fiquei com ciúmes, achei que você estava me copiando... Que bobagem. – sacudi a cabeça. – Foi uma fase confusa, eu não tinha muita ideia do que estava fazendo. Tinha muita gente falando mil coisas, dando mil opiniões. Eu só esperava que estivesse fazendo o certo, e que ela não ficasse como minha mãe: fria e fechada.

— Foi o certo. Você foi incrível. Claire é exatamente o oposto disso. E no fim das contas, isso aproximou vocês. Tenho certeza que se vocês são melhores amigas hoje, foi por tudo o que você fez pra manter esse elo.

— Acho que sim. – dei de ombros, abraçando meus joelhos. – Embora eu preferisse que nossa proximidade não tivesse vindo de um trauma compartilhado.

Edward ficou quieto por um momento.

— Diz alguma coisa. – pedi, assoando o nariz com um lenço de papel da minha cabeceira.

— Não sei bem o que falar... – ele disse, secando no dorso da mão suas lágrimas que escorreram. – Quero me desculpar, mas sei que nunca será suficiente, e eu acho que minhas ações daqui pra frente vão falar mais do que minhas desculpas. Mas acho que quero... não, eu devo dizer obrigado por cuidar dela. Por tudo que você passou... Eu te admiro muito, você sabe.

Eu assenti.

— Como você tá agora? – indagou.

— Bem. Foi bom poder falar, você tinha razão. E pra você, como foi?

— Difícil. Mas necessário. – ele sorriu sereno. – E eu queria propor uma coisa. Acho que a gente podia fazer uma terapia familiar. Se você topar.

— Você acha que a gente precisa?

— Sempre precisamos. Mas como você mesma disse, foi um trauma compartilhado... Acho que você e Claire poderiam se beneficiar.

— Pode ser. Vou pensar.

— Obrigado. – ele acariciou meu rosto. – Eu te amo. Nunca esqueça disso.

— Impossível. Eu te amo.

Nos encontramos no meio da cama e, sentados frente a frente, entrelaçamos nossos corpos para um abraço demorado.

E naquele momento, minha certeza de que ficaríamos bem tornou-se completa. A cada dia, a cada minuto, ajudando um ao outro a se curar um pouquinho mais.

— Agora... – Edward foi o primeiro a falar. – Posso demonstrar um pouco de amor nessa manhã de domingo?

Eu o olhei um pouco surpresa.

— Mais? Não tá cansado depois de ontem?

Ele riu.

— Bom, eu não estava falando sobre sexo, mas se você quiser...

Ele se aproximou para beijar minha boca com a vontade de sempre, para depois trilhar um caminho até meu pescoço.

— Do que estava falando, então? – perguntei, curiosa e distraída.

— Comida.

— Hmm. – suspirei, tombando minha cabeça para trás. Não sabia se pela ideia de encher meu estômago que já roncava ou pelos arrepios que já começava a sentir.

— Então, o que vai querer?

Eu debati por uns segundos. A proposta que ele estava colocando em prática era tentadora, mas minha fome falou mais alto.

— Uhm... primeiro a comida, depois o sexo?

Ele parou e sorriu.

— Seu desejo é uma ordem.

Edward se ofereceu para fazer nosso café da manhã tardio. Ou melhor, exigiu.

Eu devia ter disfarçado melhor minha surpresa. Mas ele tinha mesmo dito que iria demonstrar mais amor, então eu tive que confiar e assistir tudo da bancada da cozinha.

— Para de me supervisionar. Vai ficar bom, eu prometo. – argumentou enquanto bagunçava a pia para bater uma massa de muffins e uma omelete.

— Então você cozinha agora? De onde surgiu isso?

— Ah, quis fazer uma surpresa... Tive umas aulas com o Nahuel, aquele meu amigo chef. Nada muito elaborado, só o básico mesmo pra não passar fome. Não tenho mais cozinheiro disponível como no apart hotel, preciso me virar, né? Não posso viver de congelados.

— Nahuel te deu aula? E você aprendeu?

— Leva fé em mim, mulher. Como você acha que eu sobrevivi a essas últimas semanas depois da mudança?

— Delivery e Starbucks, como todo bom solteirão nova-iorquino?

— Só quando estou muito ocupado. – ele riu. – E eu não sou um solteirão.

— Ah não? Se casou também e não me contou?

— Não casei, mas poderia, se ela quisesse.

Meu coração já sensível hoje deu uma acelerada ouvindo aquilo, mesmo sabendo que ele estava só brincando. Tive que pensar em algo rápido para responder.

— Está me pedindo em casamento enquanto bate uma omelete, descalço na minha cozinha? Que coisa mais bucólica, tão romântico.

Ele sorriu encabulado e desconversou.

— Romance está nos detalhes, eu já falei.

Não retruquei mais, pois a verdade era que eu estava adorando ser mimada sem parar. Era bom ter alguém fazendo coisas para mim, poder relaxar das responsabilidades.

Quando terminamos de comer, ele pediu pelo meu aval.

— Então. Gostou? Pode ser sincera.

— Hmm. Nada mal pra um iniciante. Pode apostar que vou explorar mais essa habilidade nova, viu.

— É só chamar.

— Obrigada. Estava mesmo muito bom. – peguei sua mão para beijar, e me levantei com nossos pratos. – Agora, vou fazer uma ligação rapidinho e já volto. Tem uma estagiária na minha equipe que estava doente, preciso saber se já melhorou ou se terei que arranjar alguém pra fazer pesquisa de campo amanhã. Enfim. Deixa a louça que eu lavo.

— Ok. Vou levar o lixo pra fora, tá transbordando.

— Tudo bem.

Fui resolver as coisas pelo telefone na sala. Vi Edward se movimentando de canto de olho pela cozinha. Ele passou pela sala, e foi ao armário da entrada pegar e vestir meu roupão vermelho de ficar em casa, antes de sair no frio com o saco de lixo.

Sorri silenciosamente ao telefone vendo a cena. Ele estava tão bonitinho.

Eu estava na terceira ligação para conseguir alguém para cobrir a estagiária amanhã, que nem me liguei quantos minutos tinham passado e Edward ainda não havia voltado.

Desliguei, indo ver o que aconteceu. Ao abrir a porta dos fundos, porém, quase dei meia volta.

Ele e nossa vizinha Kate batiam papo na frente da lixeira que compartilhávamos. Ambos com uma expressão um pouco rígida e indecifrável. Droga.

Meu instinto foi de ignorá-la. Mas eu sabia que não poderia mais. Respirei fundo e fui me aproximando calmamente.

— Olá?

— Bella! Ai, menina, estava contando pra ele dos furtos de cartas que está rolando aqui no bairro. – ela falou. – É bom não deixar nada muito tempo na caixinha, hein?

— Ah, sim. Estou sabendo, todo dia eu olho. Que doideira, né?

— Isso, não pode dar mole.

Caímos num silêncio de longos segundos. Edward enfiou as mãos nos bolsos do roupão e trocou o peso entre as pernas. Eu tossi. Kate resolveu quebrar o gelo.

— Então, está gostando da vizinhança, Edward? Soube que mudou há pouco tempo.

— Sim, sim. Por enquanto tudo ótimo, é mais tranquilo do que eu imaginava. Onde eu morava era barulho o dia todo. E é bom estar perto delas... – O celular dele tocou na sala, e Edward pareceu ouvir os sinos de aleluia. – Ah, é o meu celular, preciso atender. Foi bom te ver, Kate.

— Igualmente. – ela sorriu vendo ele sair, e lentamente virou-se para mim parecendo repórter do TMZ que acabou de descobrir a fofoca mais quente de Hollywood. – Então...

— Quê?

— Alguma novidade pra me contar? Porque eu acabei de pegar seu ex indo tirar o lixo, vestindo seu roupão de velha dos gatos. E eu sei que Claire não está em casa... Aí tem coisa.

— Como você sabe que ela não tá em casa? – tentei ignorar todo o resto.

— Ela acabou de postar no Facebook a localização, está almoçando numa lanchonete que abriu no Brooklyn.

— Tsc, já falei pra ela não botar localização na internet que é perigoso. – resmunguei.

— É, deve ser. Mas ei, não foge não. E aí... tá rolando?

Cruzei os braços, de repente tímida. Kate parecia muito interessada, mas não pela fofoca. Porém, no fim das contas, era apenas uma amiga querida que só queria me ver bem.

— Ah. Tá, né. – respondi.

Ela sorriu boquiaberta.

— Oi? Como assim? Me conta isso, menina.

Gastei uns minutos para resumir a história sobre como estávamos juntos há meses e tínhamos escondido tudo até agora. Voltei para casa encontrando Edward no sofá mexendo no celular, vestindo a roupa que trouxe na mochila ontem.

— Pronto pra fugir? Já está até de sapato.

— Eu? – ele me encarou com ar de culpado – Ah. É, troquei de roupa. Estava ficando confortável demais na sua casa. Péssimo hóspede. Desculpa.

— Ai, para. Você dormiu comigo e me fez comida. Não é bem um hóspede comum, né?

— Mesmo assim... Eu te botei numa saia justa. Devia ter tido mais cuidado.

Fui até ele no sofá para sentar em seu colo. Meu moletom cinza sobre seu jeans. Ele abraçou minha cintura.

— Tá tudo bem. Kate é uma amiga, não é uma vizinha fofoqueira qualquer. – Toquei seu rosto. – E, por favor, não fala como se você fosse algo que eu me envergonhasse e precisasse esconder. Já passamos dessa fase.

— Certo. – ele suspirou. – Então, como foi com ela?

— Tranquilo. Ela foi receptiva, mas principalmente muito curiosa, ficou espantada. Já vi que daqui a pouco vou ter que reunir meus amigos pra contar, e espero que seja todo mundo junto, porque não vou ter saco de repetir a mesma história em detalhes mil vezes.

Vi sua testa franzida em preocupação, e o cutuquei.

— Que foi?

— Você acha que eles vão me aceitar?

— Como assim? Eles já te conhecem. Alguns eram amigos seus também, não lembra?

— Sim, mas depois a maioria deles ficou do seu lado, e com razão... O quanto eles sabem da nossa história?

— O suficiente. E sim, eles já me ouviram falando muito mal de você.

— Ah não. – resmungou. – Mal como?

— Mal. E não vou retirar o que eu disse, provavelmente foram coisas que você mereceu na época. – eu sorri provocando-o, porém falando sério. – Mas não estou preocupada com isso. Tenho certeza que eles vão te aceitar de volta quando souberem da história toda, vão ficar felizes por mim.

— Eu só não quero que você tenha nenhum mal-estar com suas amigas e amigos por mim, ouviu? Eu sei que você preza muito a opinião deles.

— Prezo... Mas isso não quer dizer que eu vou te largar se eu contar toda a história e eles não gostarem do que ouviram... A não ser que você se importe que eles saibam? Eu sei que são coisas íntimas.

— Não. Pode falar. Não tenho do que me envergonhar, né?

— Claro que não. E, olha, talvez nem seja um baque tão grande, faz um tempo que eu não reclamo de você pra eles. – eu sorri e pisquei, tentando acalmá-lo. – Pensando bem... Eu acho que hoje seria um bom dia pra gente contar pra algumas pessoas. Pra sua família, por exemplo.

— Tem certeza? Você ainda parecia reticente ontem sobre isso.

— Ontem a gente estava num ambiente de trabalho. Além do mais, conversar com Tanya me deu segurança. Ela parece que está indo bem, isso aliviou um pouco o peso na consciência. E já faz tempo que vocês terminaram, não vai mais parecer que estamos esfregando o relacionamento na cara dela. O que você acha?

Eu vi o desconforto em sua postura rígida. No entanto, ele concordou.

— Ok. Por mim tudo bem. Quer marcar um jantar hoje?

— Sim. Alice, seus pais, Jasper, quem mais puder aparecer. Será que eles topam?

— Posso ver. Vou ligar pra minha irmã. – ele foi pegando o celular, e eu o interrompi.

— Espera. Tive uma ideia.

Depois de tanta insistência em não me ver mais solteira, eu achava que Alice merecia um pouco de suspense e emoção quando soubesse. E pelo que eu a conhecia, ela provavelmente ficaria até mais feliz do que Claire.

Nós só conseguimos marcar com ela e Esme. Seus respectivos maridos já tinham compromisso hoje. Rosalie e Claire tinham ficado o dia todo juntas passeando e preferiram ficar assistindo filmes com os namorados em casa.

Eu liguei para Alice dizendo que queria apresentar o meu namorado novo, mas fiz mistério, só contaria no jantar. Ela aceitou na hora.

— Ué, cadê? – falou ao me encontrar, já na mesa do restaurante.

— Oi pra você também, amiga. – zombei. Mãe e filha vieram me cumprimentar e sentaram-se do outro lado. – Ele está vindo.

— Tem certeza?

— Sim, está numa avenida próxima.

— Desculpa, eu quis dizer tem certeza que ele existe mesmo? – Alice perguntou. – Isabella namorando... Não é pegadinha isso não?

— Não. Ele é bem real. – eu olhei para Esme, que estava a par de tudo e sabia que eu queria fazer uma surpresa para Alice.

— Então… Ele é bonito? É divertido ou é quadradão? Trabalha em quê? Fode bem?

— Meu Deus, filha, uma pergunta de cada vez. – Esme sacudiu a cabeça.

— Vamos por partes. – respondi. – Ele é lindo, e eu o acho muito divertido. Trabalha... com turismo. E eu não vou responder a última, tá doida?

— Por que não? Aposto que ele é maravilhoso. Sua pele tá brilhando como nunca. Olha isso, mãe. – ela me apontou, e eu senti minha orelha queimar. Eu podia ter a idade que fosse, mas discutir minha vida sexual com minha sogra presente era demais para mim.

— Alice, não seja inconveniente.

— Ah, até parece que nunca falamos disso. Desde quando Bella virou pudica?

— Só digo que estou bem satisfeita, obrigada. – falei, sem revelar que cinco minutos antes de sair de casa, eu agarrei Edward.

E rolou ali mesmo, na parede do corredor, com roupas, perfume e salto alto. Meu corpo ainda vibrava. Se eu aparentava estar tão bem como me sentia, então estava mesmo linda.

Não estava acostumada a ter sexo espontâneo com ele – nunca tivemos muita privacidade pra isso –, e com certeza já era uma das minhas novidades favoritas.

Esme tentou desviar a atenção de mim um pouco contando da viagem que planejava para a Europa no verão, tentando me convencer a ir também.

— Vamos ver... Se eu conseguir economizar. – falei. – Preciso mesmo viajar. Você imagina que eu nunca fui pra Europa? Quer dizer, fui duas vezes à trabalho quando eu era assistente da minha chefe, mas não vi nada além de hotéis.

— Ah, então agora você vai de férias. Eu faço questão! A gente aluga uma casinha.

— Vou fazer de tudo pra conseguir.

— Cadê esse cara, hein? – Alice bufou, olhando no relógio, parecendo alheia à conversa.

— Está chegando, já falei.

— Ai. Me desculpa, viu, mas já perde um ponto comigo. Você sabe como eu acho super cafona gente que atrasa.

— Relaxa. Você vai gostar dele. Só deve estar preso no trânsito.

Meu plano era que ele chegaria um pouco depois para garantir o suspense. Provavelmente estava dando uma volta a pé no quarteirão. Discretamente, enviei uma mensagem avisando que já poderia vir.

— Há quanto tempo vocês estão namorando? – ela perguntou.

— Quase seis meses.

— Tudo isso? Uau...

Seus lábios se cerraram de um jeito que eu conhecia. Estava se segurando para não falar mais.

— Que cara é essa? – indaguei.

— Nada.

— Fala, Ali.

— Não que seja da minha conta nem nada, mas... Posso saber por que não quis me contar antes? Eu merecia saber, né? Tenho ficado na minha, tenho sido tão boazinha.

— Ô, uma santa!

— É sério, Bella.

— Ah, Alice... Eu só queria dar um tempo pra saber se daria certo mesmo. Esse relacionamento é... Diferente dos outros.

— Por quê?

— Porque ele é especial.

— Um homem especial? Agora tô imaginando uma mistura de Brad Pitt com Príncipe William.

— Cruzes, aquele careca? – Esme mostrou indignação.

— Shh, ele é charmoso. – Alice se defendeu. Eu rolei os olhos.

— Você vai entender quando ele estiver aqui.

— Certo... Bom, onde vocês se conheceram?

— Através de um amigo em comum... – respondi, o que não era mentira. – A gente se conhece desde a escola. Nos reencontramos recentemente.

— Mentira? Coisa de destino, hein. E vem cá, como é o nome dele mesmo? Não estou lembran... – de repente, ela parou de falar, olhando para frente fixamente e sacudiu a cabeça. – Ih... Ferrou.

— Que houve?

— Edward está aqui.

— Ah é?

— Tomara que ele não veja a gente. Imagina o climão se o cara chegar agora também? Ah não! Ele tá vindo pra cá. Olha, você vai contar que estamos esperando seu namorado, Bella, eu não tenho coragem de falar isso pro meu irmão.

Ele finalmente chegou na nossa mesa.

— Eddie, que surpresa! – ela falou numa voz açucarada. Sorrindo, ele foi dar um beijo e um abraço na irmã e na mãe.

— Oi, moças bonitas. Quanto tempo, hein? – puxou a cadeira vazia ao meu lado para sentar, e apertou minha coxa uma vez. Eu quase pulei.

— É só me ligar, meu filho. Estou pelo Centro todo dia até às seis.

— Prometo que ligo, vamos almoçar qualquer dia. E aí, qual o assunto?

— Alice estava interrogando Bella. Você chegou na hora certa. – Esme comentou com um brilho brincalhão no olhar.

— Com licença, eu só estava tentando descobrir mais sobre... Uma pessoa. Porque essazinha aí parece que esqueceu que sou amiga dela e não me conta mais nada.

— Que pessoa? – ele perguntou.

— Meu namorado. – respondi.

— Ah sim.

— Você sabia disso, Edward? – Alice inquiriu. Eu o vi prendendo o riso.

— Bom... Sim?

— O quê, até ele já sabia e eu não?!

— Quase ninguém sabe, Alice, não pira. – falei.

— Como assim ninguém sabe? É assunto confidencial de FBI isso? Bem, pra você estar escondendo tanto assim deve ser alguém importante mesmo. Um político, ou um bilionário... – ela falou e arquejou. – É uma celebridade, só pode ser! Ai, por favor, diz que sim. Meu sonho ter parente famoso.

— Não, Alice. – eu gargalhei. – De onde você tira essas ideias?

— Ué, a gente nesse restaurante que é o olho da cara, super VIP, entramos sem reserva... Só sendo famoso mesmo. – ela virou-se para Edward. – Por que você tá aqui, aliás?

— Fui convidado pra um jantar importante com umas mulheres maravilhosas. – sorrindo, ele olhou no relógio de pulso. – Que bom, só dez minutinhos atrasado.

— Tsc, então vai logo pra sua mesa. Coisa mais deselegante se atrasar pra jantar, as pessoas ficam esperando, morrendo de fome. Maior falta de consideraç... – ela parou de repente, e eu vi sua expressão mudando para o espanto quando sua ficha caiu, antes de emendar – PUTA QUE PARIU, Edward é o seu namorado!

Ela exclamou tão alto enquanto se erguia da cadeira, que eu tenho certeza que o restaurante inteiro se virou para nos olhar.

Uma reação tipicamente Alice. Eu fiquei igualmente envergonhada e gargalhando pela cara dela.

— Por que estão rindo? – perguntou, a voz alta e fina. – É verdade isso?

— Sim, é verdade. Agora senta e para de gritar. – pedi.

— Só vou sentar porque aquela senhora ali me olhou estranho e eu não sei se ela quer enfiar um garfo em mim ou é só botox mal feito.

Ela sentou-se como uma criança birrenta na cadeira e todos continuamos a rir. Principalmente o irmão dela.

— Ugh! Seus traíras, quase me matam de susto. Fiquei toda tensa aqui, achei que iam voltar a brigar quando o outro cara chegasse.

— A sua cara foi impagável. – Edward zombou.

— Mas é um idiota mesmo!

— Eu só quis fazer uma surpresinha. Gostou? – falei.

— Sei lá! Que história é essa, vocês estavam escondendo o tempo todo da gente?

Esme limpou as lágrimas e parou de rir para responder com cara de santa.

— Da gente não... De você.

— Como é? Você sabia e não me contou?

— Por que todo mundo fica contra mim por saber guardar segredos? – Esme reclamou lembrando de Claire, que fez a mesma reclamação. Alice a ignorou e virou-se para mim, cruzando os braços.

— Mas que ratinha sorrateira, fazendo tudo pelas minhas costas. Como escondeu isso de mim por meses? E olha que eu fui super direta quando perguntei o que tava rolando entre vocês!

— Desculpa, não sabia que ficaria chateada... Eu só não queria dizer logo porque você ia ficar ansiosa demais, eu não ia aguentar a pressão.

Aos poucos, a compreensão tomava seu semblante. Ela suspirou, menos irritada.

— Não estou chateada, estou só... Surpresa. Então é real mesmo, isso não é uma pegadinha?

— É cem por cento real. – respondi, pegando a mão de Edward.

— Realíssimo. – ele adicionou.

Ela olhou nossas mãos entrelaçadas e eu pude ver seu coração derretendo.

— Ai. Olha só vocês... Casal mais bonito que eu já vi, que raiva! Deixa eu abraçar esses idiotas. – ela se levantou e circulou a mesa. – Estou tão feliz por vocês, seus babacas. Meu Deus.

— Obrigada, Ali. – falei enquanto ela me apertava, depois indo para o irmão.

— Valeu, maninha.

— Por favor, me digam que pelo menos a filha de vocês está ciente disso?

— Está, há um tempinho.

Ela voltou à sua cadeira, e ficou segundos boquiaberta, nos entreolhando sem parar e sacudindo a cabeça. Nós lhe demos tempo para que processasse a informação nova.

De repente, começou a rir e não parou até que notasse nossas caras de interrogação.

— Huh. – murmurou. – Então Jasper estava certo...

— Como assim?

— Ele viu vocês no seu carro no aniversário de Claire quando saiu pra fumar. Mas ele tinha bebido e eu achei que estava tirando sarro.

— No carro? A gente só estava conversando. – respondi na defensiva.

— Jura? Não sabia que conversar deixava vidros embaçados... Uau, sexo dentro do carro numa festa. Vocês tem dezesseis anos de novo?

— Cala a boca, Nanica. – Edward jogou o guardanapo de pano pra cima dela. – Quem chamou ela mesmo?

— Não aconteceu nada. – falei, mesmo sabendo que era uma meia-verdade. – Era festa da minha filha, você acha que eu faria isso? Ai, mas que droga! Eu fico dando satisfação da minha vida sexual pra Alice, que feitiço é esse?

— O seu histórico não está a seu favor, amiga. Deus sabe como meu primeiro carro era feito de motel todo fim de semana por vocês no ensino médio.

Pra minha felicidade, Esme resolveu intervir.

— Ok! Chega, crianças! Fiquei vinte anos sem saber de nada disso, não preciso saber agora. Para de implicar com eles, Alice.

— Obrigado, mãe. – Edward virou-se apontando um dedo para a irmã. – Vai ter volta.

Ela apenas levantou o dedo do meio.

Edward estava pronto para rebater quando uma moça asiática de roupa social e várias tatuagens se aproximou, o chamando. Ele se levantou para cumprimenta-la, e depois virou-se para nos apresentar.

— Gente, esse é Mia Takahashi, ela comanda o restaurante e foi responsável pelo buffet da festa do Hotel ontem... Essa é minha mãe, Esme. – ele começou a apontar uma por uma. – Minha irmã, Alice. E essa é minha namorada, Isabella Swan, que por acaso foi uma das escritoras do nosso livro.

— Namorada? Nossa. Muito prazer.

Eu reparei que Mia deu uma olhada confusa para Edward ao perceber que a namorada não era a mesma que ela provavelmente conhecia até meses atrás. De qualquer forma, ela apertou nossas mãos e nos cumprimentou.

— Parabéns pelo buffet de ontem, estava tudo delicioso. – comentei.

— Obrigada! E parabéns também pelo lançamento. Aliás, ontem eu ia mesmo perguntar a Edward quem era responsável pelo livro, mas não nos esbarramos... Estou pensando em montar um com a história da minha família e nossos restaurantes. Será que podemos conversar qualquer dia, Bella?

Pega de surpresa, eu olhei para ela por um instante antes de responder.

— Ah, claro! Deixa eu te passar meu contato.

Vasculhei por um cartão de visita na minha bolsa, e me xinguei mentalmente. Justo hoje tinha decidido usar a menor bolsa do meu armário, só carregando o essencial.

Um minuto de quase afobação depois, consegui achar um cartão antigo na minha carteira, e entreguei a ela, agradecendo. Mia nos desejou um bom jantar, e nos ofereceu uma garrafa de vinho de cortesia antes de ir embora.

Assim que ela deu as costas, Alice fez um som de celebração, e Esme pegou minha mão, parabenizando pelo lançamento do livro. Elas perguntaram e eu contei como havia sido a festa.

Após pedirmos nossos pratos, Edward pediu licença para ir ao banheiro, me deixando sozinha com as duas.

Alice foi a primeira a quebrar o silêncio.

— Desculpa por falar aquilo do carro... Tô pegando no seu pé, eu sei. Mas é porque fiquei empolgada. Você sabe o quanto eu torci por isso.

— Eu sei. – sorri em gratidão.

— Então... Esse namoro aí. Como está sendo?

— Ótimo.

— Quê? Só isso? Me chamou até aqui, e só recebo um "ótimo"?

Eu ri, suspirando.

— Ah... No começo foi um pouco estranho. Mas agora já entramos no nosso ritmo. A gente se fala todo dia, se vê com frequência. Ontem ele dormiu lá em casa pela primeira vez. Fez café da manhã pra mim hoje e até arrumou minha sala enquanto eu respondia uns e-mails.

— Nossa, Edward cozinhando e fazendo tarefa doméstica? – Esme se espantou. – O negócio é sério mesmo.

— Seu filho está mudado, e pra melhor. Ele cresceu, né? – eu sorri. – Nós dois crescemos.

— Eu sei, eu vejo o quanto vocês estão melhores hoje. O tempo faz essas coisas. Às vezes o casal só precisa de tempo pra amadurecer. Vocês precisaram desses anos separados pra crescer e se tornar melhores um pro outro. – Esme comentou com a sensibilidade de sempre.

— Vocês parecem muito felizes, de verdade. – Alice comentou.

— Nós estamos, sim.

— Agora... Quero saber tudo que aconteceu até chegar em Edward na sua cozinha. Quero detalhes. Desde o início!

Edward voltou no meio da conversa para me ajudar a recontar o que acontecera nos últimos meses, incluindo as partes com Tanya, sua ida à reabilitação e a tentativa de suborno de seu pai.

Ouvindo opiniões de fora, foi intenso e bom relembrar. Elas não nos julgaram, nem mesmo nas partes da história onde eu mesma me julgava. Senti uma leveza que só a liberdade de poder falar sem medo trazia.

Nós terminamos de jantar, nos despedimos delas e fomos buscar Claire na casa de Alice no meu carro.

No meio do caminho, comecei a repassar na mente os acontecimentos do jantar. Eu estava contente com tudo, havia sido melhor que eu esperava. Entretanto, um pensamento me incomodou e eu precisei externá-lo.

— Você já sabia que ela queria me contratar?

— Ahm? – Edward estava distraído olhando o celular.

— A sua amiga Mia. Você já sabia que ela queria me chamar pra fazer o livro, por isso levou a gente lá no restaurante?

— Não. Não sabia mesmo. – eu vi ele sacudindo a cabeça. – Total coincidência. Por quê?

— Nada. Sei lá. – falei, refletindo de onde tinha vindo a dúvida.

Esperei até chegarmos num semáforo vermelho para falar. Eu o encarei, tentando por em ordem minhas ideias.

Só agora eu estava começando a sentir a ressaca de tantos anos incubado e acumulando sentimentos a respeito dele. Afinal, se o amor e todas as coisas lindas que eu tinha guardado voltaram, as partes ruins também podiam reaparecer.

— Que foi? – indagou.

— Eu acho que ainda sinto uma espécie de orgulho em conseguir coisas importantes sem ajuda. Um primeiro instinto de repelir a ajuda...

— Não entendi.

— Quero dizer, sobre a sua ajuda. Porque ajuda eu tive, sim, de muita gente e nunca recusei... Mas pensar em aceitar coisas vindas de você sempre foi complicado. Sempre coloquei meu orgulho em primeiro lugar.

— Faz sentido, foram anos alimentando isso. Mas se eu tivesse interferido agora, seria um problema?

— Não. Eu sei que você faz com boa intenção. Hoje eu sei. Você que indicou meu nome pros diretores do Hotel, e obviamente sou grata por isso.

— Bom, se você quiser minha ajuda em coisas muito importantes como trabalho, você sabe que vai ter se eu puder dar. Se não quiser, eu fico na minha.

— Eu quero. Só peço que você me avise antes de marcar encontros pra falar sobre trabalho, tá? Gosto de estar preparada nesses casos.

Mais? Mulher, você nasceu preparada.

Eu sorri balançando a cabeça.

— Não nasci não, foi um longo caminho até aqui. Mas agradeço o elogio. – falei, tomando a partida do carro novamente quando o verde apareceu.

— Bom, agora você já descobriu que eu te trago sorte. Não vai conseguir se livrar de mim.

— Uhum. Vou te carregar como amuleto na minha bolsa.

— Ou no sutiã.

Eu rolei os olhos para sua resposta boba, mas continuei sorrindo. Como não queria perder essa sensação, não me refreei em perguntar se ele gostaria de dormir na minha casa mais uma noite.

— Não vai ter problema? – perguntou duvidoso.

— Não. Você mal viu Claire essa semana. Aproveita o finzinho de domingo com ela... Podemos ver um Netflix juntos antes de dormir ou jogar alguma coisa.

— Tá bom... Que horas vocês acordam mesmo?

— Lá pelas seis. Por quê?

— Pra ver o que vou preparar pro café da manhã.

— Hmm, agora é assim? Todo dia tratamento VIP com café elaborado por um chef? Vou ter que te levar pra dormir comigo todo dia, então.

— Pode levar. Minha escova de dentes já está preparada.

Eu sorri e suspirei, enamorada por nossa nova dinâmica e muito ansiosa pelo que estava por vir, pois eu podia sentir os ventos da mudança soprando em nossas vidas.

Notas finais
O próximo capítulo está praticamente pronto e vai vir tão rápido quanto Alice disparando perguntas sobre sua vida sexual :) Quem não recebeu os extras antigos, me avisa hein! Quem sabe não vem um extra novo? Me deixem um comentário? Por favorzinho? Beijos e até a próxima!