Mais Uma Vez
42 Capítulo 41: Garotas e Garotos
Notas iniciais
Capítulo 41: Garotas e Garotos
Bella
Eu os ouvi antes mesmo de virar para a cozinha. Havia uma música agradável, risadas e o cheirinho de bacon que me fez salivar. Claire já estava lá de uniforme, numa animação rara para segunda de manhã, e Edward ensinava-lhe truques do corte de um abacate.
Me dei uns instantes para observar a cena de longe, gravando na memória aquela que ficaria ao lado de tantas outras que tinha com eles. Nossa pequena família. Meus.
Meu coração se encheu até transbordar pela minha boca num suspiro alto. Acabei me denunciando.
— Ah, olha quem finalmente saiu do banho! – Claire me viu na porta.
— Bom dia, amor. – Edward sorriu. Eu caminhei até eles dando um beijo em cada.
— Bom dia. Quanta comida. – observei a ilha da cozinha já arrumada e cheia. – Que horas você acordou, Edward?
— Cinco.
— Cinco?!
— Mas não fiz tudo sozinho. Fui correr, e na volta comprei umas coisas no mercadinho.
— Foi correr a essa hora da madrugada?
— Ué, você sabe que eu treino todo dia.
— Sim, só não fazia ideia que era tão cedo.
— Geralmente vou às seis e meia, mas hoje tinha compromisso com as senhoritas.
— Não precisava fazer esse sacrifício todo só pra alimentar a gente.
— Precisava sim! – Claire interferiu. – Ontem ele ficou se achando por essas habilidades culinárias e me prometeu panqueca, agora tem que comprovar.
— Sim, eu prometi. Não é sacrifício nenhum, estou fazendo porque quero. – ele falou, virando uma panqueca da frigideira.
— E qual o cardápio de hoje? – perguntei.
— Bem, eu sei que você vem tentando cuidar da alimentação, então trouxe iogurte e frutas vermelhas do mercado, e fiz panqueca de aveia com ovos mexidos e abacate. E tem um bacon pra Claire.
— Ainda bem que você lembra da minha tentativa de comer melhor, eu mesma ando esquecendo. Obrigada. – sorri para o seu cuidado. – Mas você sabe que eu vou roubar um pouquinho desse bacon, né?
— Ei, meu bacon! – Claire reclamou. – Faz o seu.
— Se situa, garota, você se alimentou da minha comida por nove meses.
— E dos peitos por dois anos. – Edward salientou.
— Ecaaa. – ela fez careta, mas me deu um pouco do seu prato mesmo assim.
Nosso café da manhã foi rápido e harmonioso o suficiente para revigorar os ânimos para a semana. Edward insistiu em dar carona a Claire até a escola, já que ficava a poucas quadras do seu trabalho, me permitindo chegar cedo à redação e resolver logo um assunto pendente.
Já que eu havia contado para a família de Edward sobre nosso namoro, seria a vez da minha.
Liguei para o meu pai, no telefone do escritório dele pois sabia que sempre esquecia de carregar o celular. Ele atendeu no terceiro toque.
— Chefe Swan.
— Oi, pai, sou eu.
— Oi, filha. – ele tossiu um pouco, eu estranhei. – Acabei de ver sua foto no jornal... Você e um pessoal chique. Tudo na beca, pose de rico.
Não contive meu sorriso para o telefone. Sentia falta dele.
— Deve ser foto de sábado, da festa do Hotel. Foi lançamento do livro, lembra que eu falei?
— Deixa eu ver o que tá escrito aqui... Ô inferno de letra minúscula. – ele resmungou e eu quase podia vê-lo ajeitando os óculos de leitura que odiava. – É isso mesmo. Como foi a festança?
— Um sucesso, ainda bem. Conheci umas pessoas bem legais... Claire e Rose foram também.
— Essas aí não perdem uma farra, né. Parabéns pelo trabalho, Bella. Me enche de orgulho.
— Obrigada, pai. Queria que tivesse ido.
Ele riu.
— Eu te amo, filha, mas me enfiar num terno e sapato apertado em festa grã-fina de Nova York não é pra mim... Tá tudo bem com vocês aí?
— Tudo certo. Você, como tá?
— Me curando de uma gripe que me derrubou por uma semana, mas já estou melhor, graças a Deus.
— Poxa, pai, por que não me ligou? Eu podia ter ajudado.
— Bobagem, garota, te fazer sair da cidade só por uma gripe? A Sue veio aqui, me trouxe umas sopas e chás. Receita poderosa, estou novo em folha.
Apesar do foco aqui ser a saúde dele, tive que pausar, revisando a frase mentalmente.
— Quem é Sue?
— Minha vizinha, Suzanne. Viúva do velho Harry. Vocês se conheceram da última vez que veio com Claire.
— Ah, a bonitona que era bem mais nova que o marido... – eu já pressentia algo a mais nessa história. De fato, nós nos conhecemos na feirinha da cidade, onde Sue vendia seus doces em compota e nos ofereceu um de cortesia. Meu pai só faltava babar em cima da moça, de tanto elogiar os doces.
— É... Uma senhora bonita, eu acho. – ele falou, todo sem jeito e agora eu tinha certeza que os elogios não eram só às compotas.
— Bonita. E que te traz sopa e chá.
— Pois sim, uma gentileza entre vizinhos. Qual o problema?
— Nenhum, só achei legal da parte dela... É bom ter alguém assim por perto, uma mão amiga e tal.
— Uhum. É uma moça bacana mesmo.
— Hm. Você pode retribuir a gentileza qualquer dia desses, viu? Veja se ela precisa de ajuda pra consertar alguma coisa, por exemplo... – eu dei a dica, mas resolvi terminar o assunto ouvindo seu resmungo concordando. Ele já tinha entendido meu recado. – Bom, mas eu liguei mesmo pra contar uma novidade.
— É boa ou ruim? Se for ruim, me ligue mais tarde, ainda não tomei meu remédio da pressão.
Eu ri, porém fiquei apreensiva.
— Pra mim é boa. Espero que seja pro senhor também...
— Bella. Você sabe que eu não gosto quando me enrola.
— Tá bom, desculpa. É que... Eu estou namorando, pai.
— Ah... Parabéns? – ele claramente não sabia o que dizer e eu sabia o motivo. Nos falávamos vez por semana, e eu contava novidades do trabalho, sobre conquistas minhas e de Claire, porém em todos esses anos, Charlie havia tido conhecimento de apenas um namorado sério depois de Edward.
— Obrigada. Só que tem mais...
Ele bufou e desceu uma oitava na voz para resmungar.
— Bells, você tá grávida desse cara?
— Pai! Não! – bati três vezes na mesa. – Não é isso.
— É o quê então, cacete?
— É que a pessoa que eu tô namorando... é o Edward.
— Cullen?
— Aham.
— Ah.
O silêncio do outro lado da linha só fez aumentar meu nervosismo e, de repente, meu coração acelerado tomou minha atenção.
— Você ainda tá aí, pai?
— Bella...
— Fala. Pode falar.
— Você sabe que eu não vou com a cara do sujeito desde o que ele fez com vocês... Não sei o que pensar disso.
— Eu sei, você tem toda razão pra ficar com o pé atrás, o que aconteceu foi muito grave. Mas pai... Dessa vez, não julgue tão depressa, por favor? As coisas mudaram. Ele mudou.
Charlie forçou uma risada.
— É o que todos os canalhas dizem, e eles nunca mudam.
— Mas não é o caso, prometo.
— Como você pode ter certeza?
— Certeza na vida a gente só tem uma, né... Mas não estou no escuro dessa vez, eu sei onde estou me metendo.
— Como?
— A gente conversou muito ano passado. Eu resolvi dar uma chance pra conhecer o Edward de verdade, a história dele. Acabei descobrindo todas as coisas que não queria ouvir antes, durante esses anos... Bom, mas o que importa é que eu já o perdoei. A gente se entendeu, finalmente.
Dei uma pequena pausa para que ele digerisse tudo aquilo. Era estranho ser tão honesta com meu pai sobre meu status amoroso. Devia ser estranho para ele também.
Quando respondeu, a voz veio baixa e densa.
— Eu só não quero ver você sofrendo de novo, menina...
— Eu sei. Não vai acontecer. E mesmo que algo aconteça, eu já aprendi a lição, já sei lidar com o sofrimento. Sou uma menina grande agora, viu?
Ele deu um suspiro pesado, de quem não tinha alternativa senão aceitar a realidade.
— Você está tão feliz naquela foto do jornal, eu devia saber que tinha um motivo especial mesmo. Só vi você sorrindo assim quando ganhou aquela bicicleta da Barbie, depois de me encher o saco o ano todo pra comprar. Perdeu dois dentes por causa da bendita, mas não largava.
Eu ri com a lembrança, antes de confessar:
— Eu nunca estive tão feliz, pai. Com meu trabalho e com meu coração...
— Só vai com cuidado. Promete pro seu pai?
— Prometo. – falei, apesar da minha fase de ir com cuidado já ter passado há uns meses. – E você promete que vai tentar dar uma segunda chance a Edward?
— Que escolha eu tenho, né? Vou tentar. Por você.
— Ok. – suspirei aliviada. – Bom... Eu queria marcar um fim de semana aí na cidade, pra vocês se encontrarem. Levo Claire também. Pode ser?
— Tenho que ver na minha agenda.
— Muitos torneios de pesca, né? Os peixes vão me agradecer.
— Engraçadinha. – ele resmungou, mas enfim cedeu. – Vocês podem vir, claro, serão bem-vindos. É só me avisar durante a semana.
— Obrigada. Vai ser bom.
— Deus queira...
Nos despedimos, e eu comecei a checar na minha própria agenda um bom fim de semana para visitá-lo no interior.
Agora, tudo o que faltava era convencer Edward a ir comigo nessa aventura.
xxxx
Claire
Quatro meses tinham se passado desde que tudo aconteceu, e de vez em quando eu ainda me beliscava mentalmente para lembrar que tudo não tinha sido um sonho muito louco.
Minha mãe e meu pai estavam juntos de verdade. De novo.
Eu brinquei de detetive para pegá-los no meio da rua. E pirei um pouco por causa disso.
Vê-los como um casal era familiar e nostálgico, me fazia lembrar de outra casa, outra vizinhança, outros amigos. Mas até que tem sido fácil se adaptar às velhas novidades nas nossas vidas.
E bota novidade nisso. A começar pela terapia em família.
No início eu estranhei – porque, sério, como achar normal ficar contando nossos barracos para um completo estranho? Mas meus pais me encheram tanto o saco, que eu acabei concordando.
E paguei a língua, óbvio.
Fazer terapia estava sendo ótimo. Eu tinha liberdade para falar tudo que me incomodasse sobre eles, e várias coisas que eu sentia há tempos começaram a fazer sentido.
Como por exemplo, o motivo de eu ter ficado tão chateada pela minha mãe ter estado ocupada demais no último ano. Martha, a nossa terapeuta, sugeriu que seria uma dependência que eu tinha da minha mãe – o que não concordei, mas deixei passar – e também um medo de ser abandonada, pois já havia acontecido uma vez, com o meu pai.
Foi nesse dia que meu pai finalmente abriu o jogo e me contou sobre o dia que ele saiu de casa.
As crises de pânico, a depressão, o medo que ele tinha do meu avô Anthony, o medo que ele tinha de ser como o meu avô...
Eu fiquei me sentindo um lixo por ele, apesar de já saber da existência de quase tudo aquilo. Era barra pesada.
Foi péssimo ter que reviver aquelas memórias, me incomodou. Mas era um alívio enfim saber os trechos que faltavam e conectavam tudo o que eu já conhecia.
Nós falamos sobre aquela época, sobre a separação deles, sobre a reconciliação e a culpa que meu pai carregou durante anos. Acho que o coitado estava esse tempo todo esperando por um perdão meu, e na sessão seguinte, quando eu falei que o perdoava, nós desabamos.
Eu odiava chorar na frente de desconhecidos, e negaria para sempre se alguém dissesse que eu tinha feito isso. Mas aconteceu. Choramos todos, menos Martha.
— Então, me conta direito essa história aí de colônia de férias? – meu pai perguntou enquanto me dava carona para a escola.
Isso tinha se tornado comum, também, durante esses meses. Ele passava cada vez mais tempo com a gente, o máximo que dava.
Era final de maio agora, último dia de aulas e eu estava mais animada que o normal para as férias. Faltavam quinze dias para começar meu trabalho.
Pois é, euzinha trabalhando. Meus dias de vagabundagem estavam contados.
— Ah, é naquele casarão lá no Brooklyn, é o acampamento de ciência e tecnologia pra crianças.
— Você já participou uns anos atrás, não?
— Sim, você chamava de Acampamento dos Nerds.
— Sério? – ele riu ao volante.
— É, mas agora vou ser monitora junior.
— Um upgrade na escala de nerdice.
— Ah, me erra! – reclamei, rindo sem querer. – Pelo menos vou ganhar dinheiro pra isso. Paga até bem pra meio período.
— Que bom. Eu nunca fui disciplinado como você, queria ter feito essas coisas. Acho que vai gostar da experiência.
— Tomara. Espero que me deixem fazer alguma das atividades práticas, e não só ficar cuidando dos pirralhos o tempo todo.
Nós chegamos na esquina do meu colégio, e ele parou para eu saltar.
— Nos vemos mais tarde? – perguntou. – Vou fazer uma lasanha.
Era sexta, o dia que ele levava sua trouxinha pra dormir lá em casa e só iria embora na segunda de manhã.
Geralmente, eu deixava os pombinhos a sós para poder sair com Jacob ou com as meninas. Porém gostava de estar em casa à noite para aproveitar o jantar. Cada dia era um prato diferente que ele inventava de fazer.
Ah sim, Edward Cullen tinha aprendido a cozinhar de verdade – e estava mandando muito bem. Miojo com salsicha queimada era coisa do passado.
— Tenho uma festa surpresa depois da aula, mas não deve terminar tarde, chego lá pelas seis. É aqui perto, no prédio da Hanna.
— Vai voltar como?
— Jake vai passar lá.
Eu finalmente tinha sido liberada do castigo que eles me deram depois de tudo que meu namorado e eu aprontamos pelas costas deles. Demorei meses para reconquistar a confiança, mas agora eu poderia sair de carro com Jacob, bastava eu dar todos os detalhes da saída.
Era um saco.
— Sua mãe tá sabendo?
— Sim. – falei a verdade.
— Ok. Avisa quando estiver saindo de lá?
— Claro. – eu saí do carro, botando a mochila nas costas. – Bom trabalho, pai.
— Boa aula. Juízo, hein.
Eu acenei com a cabeça antes de ir andando, e assim segui para mais um dia da nossa nova rotina diária.
Na sexta à noite, foi videogame com o papai e Jake; no sábado, paintball com minhas amigas, e agora já era domingo. O dia que minha mãe e eu sempre corríamos pelo parque com meu pai.
Éramos péssimas e sempre ficávamos para trás, porém não desistíamos de ir. Não só pela companhia dele ou pelo exercício, mas porque era realmente divertido.
Durante anos, eu e minha mãe fomos um time; uma dupla que funcionava muito bem. Mas com o papai junto, quase tudo ficava ainda melhor. Nas coisas legais, ou nas chatas (como cozinhar e fazer exercícios).
Apesar de hoje não andarmos de mãos dadas na Disney como eu fantasiei um dia, quando pensava como seria se eles voltassem, agora tínhamos os momentos especiais que eles reservavam só para a família. Isso já estava bom pra mim.
E foi assim que entendi porque eles haviam escondido o namoro no início, e porque fizeram isso alegando me proteger.
Pois eu estava começando a me apegar demais à nossa rotina de família feliz e saudável, e pensar na possibilidade deles terminarem – de novo – me deixava péssima.
Nossa terapeuta falou para eu focar no presente, e era o que eu estava tentando. Aproveitava tudo até a última gota.
Mesmo que eu tivesse que acordar cedo no domingo.
Eram oito e dois da manhã. Ambos me esperavam na sala enquanto eu escovava os dentes.
Desci as escadas fazendo bastante barulho, mas parece que não adiantou. Quando cheguei ao térreo, eles estavam de pegação no sofá. Meu rosto fez uma careta involuntária.
— VAMOS? – falei bem alto.
Mamãe saiu de cima dele com um pulo, limpando um pouco a boca. Nojento.
— Claro. – meu pai respondeu, se levantando e ajeitando os cabelos. Passei direto por eles fingindo cegueira súbita para abrir a porta.
Veja bem, eu estava super feliz pelos dois. Isso era fato. Porém há certos limites do que uma filha pode aguentar, e esse era um deles.
Eu tinha me esquecido como era ser filha de um casal tão jovem que sempre foi muito amoroso fisicamente.
Eram assim comigo. Minhas bochechas na infância foram tão apertadas, beijadas e mordidas, eu tinha até medo de ficarem grandes para sempre. Brincávamos, rolávamos no chão, nos abraçávamos.
E era assim também entre eles. Eu os via se pegando pelos cantos, roubando beijos no café da manhã ou abraçados me olhando brincar no parquinho.
Mas agora, na minha idade, eu sabia o que tudo isso significava e qual era a sensação, e era estranho.
Por isso, eu fazia questão de anunciar minha presença antes de entrar em algum cômodo onde estavam. Deus me livre me tornar uma filha traumatizada por ver mais do que devia nessa idade.
— Ah, até que enfim me enviaram o email confirmando o hotel na Sicília. – minha mãe falou olhando o celular, horas depois, quando paramos para descansar num banco do parque.
Meu pai já havia pago sua corrida de hoje e tinha ido comprar picolés para a gente.
— É aquele de frente pro mar? – perguntei.
— Esse mesmo.
Ela estava há meses empolgada com a viagem para a França e Itália que faria com minha avó Esme. Iria no final de junho, e passearia por quinze dias enquanto eu ficaria em casa com meu pai, que não podia tirar férias na época mais movimentada do Hotel.
— Ai que inveja.
— Você que não quis ir pra ficar trabalhando. Perdeu, garota.
— Sim, vou ficar trabalhando, juntar meu dinheiro e ir um dia.
— Meu amor, então prepare-se para muitos e muitos verões trabalhando. Olha quanto tempo eu demorei pra conseguir?
— Conseguir o quê? – meu pai voltou com uma sacolinha, logo me entregando o picolé de frutas vermelhas.
— Dinheiro para viajar pra um lugar lindo e ficar num hotel caro. – ela respondeu, aceitando o seu de limão e hortelã. – Ah, falando em viajar... A gente precisa resolver logo quando vamos visitar meu pai, ficamos de decidir uma data, lembra? Já tem meses que falei com ele.
— Por mim, podemos ir o quanto antes. – avisei. – Tô morrendo de saudade do vovô.
— Ótimo. Edward?
O papai demorou a falar, entretido com seu picolé de chocolate belga.
— Oi?
— Topa ir a Poughkeepsie visitar Charlie no próximo fim de semana?
— Ahm… Tenho que ver se tenho algum evento do trabalho.
— Ué? Ontem mesmo você estava querendo me levar na tour gastronômica que a Mia está fazendo no fim de semana...
— Pois é, devo estar esquecendo algum outro compromisso. – ele se levantou, mudando totalmente o assunto. – Vamos andando? Tem abertura de exposição de arte indiana no MET hoje, eu tenho convites, querem ir depois do almoço?
Ele foi andando na frente, nos deixando sozinhas sem olhar para trás. Eu e minha mãe nos entreolhamos.
— Ele está fugindo da gente? – mamãe murmurou boquiaberta.
— É o que parece...
Ela levantou-se rapidamente e foi atrás dele, bufando. Eu os segui.
Quase fui atropelada por um patinete.
— Edward! Volta aqui, vamos decidir isso de uma vez.
— Bella, eu já dei minha resposta, não posso decidir agora. – ele disse andando, porém minha mãe se meteu na sua frente e o parou, cruzando os braços e firmando os pés no chão.
Meu pai xingou baixo, percebendo que minha mãe ia comer seu fígado com molhinho.
— Vamos começar de novo. – ordenou ela. – Se não puder essa semana, então podemos ir na próxima?
Ele abriu a boca mas não saiu som algum. Minha mãe suspirou.
— O que foi, hein? Fala logo.
— É só que... Minha presença é mesmo necessária? Vocês podem ir sozinhas.
— Sua presença é mais que necessária. – explicou ela. – O objetivo principal é vocês se encontrarem, e eu ficaria muito feliz se vocês tentassem se entender, porque você é parte da minha vida agora... De novo.
— Como eu vou me entender com Charlie? Ele não quer me ver nem pintado de ouro.
— Ah, qual é, pai. Vamos! O meu avô é super de boa. – falei.
— Claro que é. Pra você. Comigo a história é outra.
Eu tive que rir da cara apavorada que ele fazia.
— Que isso, tá com medinho do vô Charlie?
— Fica na tua, pirralha. Eu vou estar oficialmente conhecendo meu sogro policial pela segunda vez, e a primeira já me fez suar frio.
— Para de drama, ele é da polícia Florestal. – eu rolei os olhos.
— Medo de encarar meu pai, Edward? Sério que essa é a sua desculpa?
— Ele não gosta de mim. Não é desculpa, é um fato. Precisamos mesmo criar esse conflito desnecessário?
— Se precisamos? Quero apresentar ao meu pai alguém importante na minha vida, isso não é um motivo bom o bastante?
Ele bufou pesado.
— Olha, eu já preparei o terreno, ele já está sabendo sobre nós. – minha mãe tentou de novo. – Não vai ser um choque, não vai haver conflito, meu pai não é disso. Por favor? É importante pra mim.
Ele variou o olhar entre minha mãe e eu, agora, também de braços cruzados na sua frente. Sem saída, deixou pender a cabeça, enfim concordando.
— Tá... Vamos sim. Vamos ver Charlie no próximo fim de semana. – falou voltando à sua caminhada rumo ao metrô para casa, resmungando. – O que eu não faço por vocês...
— Isso vai ser divertido. – falei para a mamãe, que não parecia tão animada assim.
— Deus nos ajude.
xxxx
Bella
A vida esse ano estava corrida.
Eu olhava a Bella de um ano atrás, sonhando com a tranquilidade após deixar de ser assistente de Carmem, e ria da cara dela.
O meu trabalho na revista continuava com a mesma carga horária. Porém, o convite da amiga de Edward, Mia Takahashi, havia felizmente ido adiante, e eu agora estava no comando de três livros sobre sua família e seus restaurantes. A diferença é que dessa vez eu estava sozinha, e rapidamente percebi como esse trabalho solo era cansativo.
Mas eu não podia – nem queria – reclamar. Era exatamente o que eu havia pedido por tanto tempo. Estava no lugar onde queria estar. Finalmente.
Apesar de que estar numa praia italiana tomando drinques e comendo lagosta também era onde eu queria estar, e era só o que eu pensava durante as semanas que precediam a minha viagem.
Edward me ajudou a escolher os melhores hotéis e destinos, comigo o tempo todo ao seu lado fazendo dengo e apelado para chantagem emocional, tentando convencê-lo a ir comigo. Falhei miseravelmente.
Ele ficaria trabalhando. E Claire também, por incrível que pareça. Esse verão já estava sendo bem peculiar.
A ideia de ir com minha sogra, no entanto, não era nada mal. Há anos eu ouvia suas histórias de viagens, e sabia que estava em boa companhia. Esme tinha um grupo de amigas de várias idades que viajava uma vez por ano, e eu seria seu par dessa vez.
Minha rotina, meu trabalho, meu amor. Tudo estava indo tão bem e estava sendo tão empolgante, que eu nem ousava dizer em voz alta, com medo de estragar. Era melhor não tentar a sorte.
Hoje, estávamos a caminho de Poughkeepsie para visitarmos meu pai após o expediente de sexta-feira.
Claire, já de férias, Edward e eu. Embora, se eu não estivesse dirigindo ao seu lado, poderia jurar que Edward nem estava aqui. Vinha calado e introspectivo desde que saímos, e o carro há uma hora era preenchido apenas pela conversa entre minha filha e eu.
Eu não o pressionei, porém. Só de estar nos acompanhando já era um grande feito; eu sabia que fazia isso por mim.
Pela primeira vez, não ficaríamos na casa do meu pai. Chegamos na hora prevista ao hotel que era gerido por uma conhecida de Edward, com quem ficou conversando por um tempo enquanto eu fazia nosso check-in.
Claire estava animadíssima por ficar sozinha num quarto de hotel pela primeira vez. E eu, feliz por ter Edward só para mim por duas noites inteiras.
— Deixe suas coisas lá e desça logo, seu avô já avisou que está pronto pra jantar. – disse, dando a chave à ela, que quase saltitou subindo as escadas.
Cheguei em Edward alisando suas costas. Ele me olhou, sorrindo ligeiramente. Esperei que terminasse de falar com a senhora Moore, a quem ele já tinha nos apresentado.
— Desculpe, mas temos que ir, nossa reserva é às nove. – avisei.
— Claro. Foi um prazer revê-la, sra. Moore. Amanhã nos encontramos no café?
— Com certeza. Tenham uma boa estadia. – a senhorinha simpática de cabelos brancos sorriu e nos acenou.
O restaurante ficava no final da rua. Na cidade pequena, era um dos poucos, e bem movimentado, os moradores com as famílias enchiam o lugar na sexta à noite.
Nós nos sentamos na mesa reservada para esperar meu pai, sua casa ficava a cinco quadras daqui. De repente, senti minha cadeira tremer, e percebi que era Edward com sua perninha nervosa. Tive que pará-lo com a mão.
— Relaxa. Tá tudo bem. – reafirmei. Ele me olhou e soltou a respiração presa na garganta, parando de se mexer.
— Tá tudo bem, pai. – nossa filha falou. – O vovô não vai querer te matar com tantas testemunhas, está salvo por hoje.
— Marie Claire! Não tem graça! – eu briguei, mas não tive moral alguma, ela só riu com a mão na boca e voltou a mexer no celular.
— Droga, eu devia ter usado uma gravata, estaria mais arrumado. – ele resmungou ajeitando sua camisa de botão azul já perfeita.
— É só Charlie, ele não liga pra essas coisas. Se ele não aparecer de uniforme do trabalho, já estamos no lucro.
— Mas de gravata eu imponho mais respeito. Acho que devia ter passado um gel no cabelo também.
— Você não vai vender bíblias, Edward.
— Porra, por que saímos tão rápido? Mal penteei o cabelo. – ele me ignorou, e eu comecei a perder a paciência.
— Caramba, nem quando fomos contar que eu estava grávida você ficou assim.
— É, eu era menos traumatizado e me achava muito destemido aos dezessete anos.
— Pois agora temos trinta e três, vamos lidar civilizadamente como adultos. Não tomou seu remédio pra ansiedade hoje?
— Tomei. Mas às vezes ela ultrapassa os limites, e eu não consigo evitar. A dose que estou tomando agora é a menor até hoje.
— Tudo bem, então tente aguentar só um pouco mais. Vai dar tudo certo.
Ele estava prestes a argumentar, quando Charlie finalmente surgiu na porta do restaurante. Eu acenei e me levantei enquanto ele ziguezagueava as mesas até a nossa.
— E aí, filhota. – ele sorriu e me abraçou apertado. Trocamos beijinhos na bochecha.
— Oi, pai. Que saudades.
— Eu também... Como foi a viagem?
— Tudo bem, não pegamos trânsito.
Ele se afastou me olhando com cenho franzido.
— Minha filha, tá magrinha. Nova York não tem comida decente, não?
— Pai! Não se comenta sobre o peso das pessoas. – eu ri, envergonhada, lembrando que ele era sem noção assim. – Fiz uma reeducação alimentar e tenho trabalhado muito, é só isso.
— Tá, tá, desculpa. – ele virou-se para Claire, que também tinha levantado. – Minha neta favorita.
— Eu sou a única, né, Vô. – ela sorriu. Ele sempre fazia mesma piada, mas ela sempre respondia com carinho. Se abraçaram apertado também, até que ele se afastou, olhando-a como fez comigo.
— Achei que estava alta quando nos vimos pela última vez, mas agora parece que não vai parar de crescer. Daqui a pouco está do meu tamanho, criança.
— Tenho quinze anos, esqueceu? Estou três centímetros maior do que a mamãe, já. – Claire respondeu com orgulho.
— Deve crescer mais um pouco, com certeza. – falei. – Bem, o pai dela é alto, né.
Charlie entendeu a minha deixa, e virou-se para Edward, que parecia uma estátua de pé ao meu lado. Ele ofereceu uma mão, seu semblante sério porém amigável.
— Como vai, Edward?
— Muito bem, obrigado. E o senhor?
O aperto de mão firme que eles deram parecia sincero, embora os dois estivessem claramente nervosos, cada um à sua maneira.
— Ótimo. Melhor agora, estava com saudades das minhas meninas... Que bom que vocês vieram. – falou, antes de acrescentar. – Todos vocês.
Aquilo pareceu pegar o meu namorado de surpresa. Ele sorriu discretamente, e eu apertei sua mão como conforto.
Charlie sentou-se primeiro, e nós o acompanhamos. O garçom logo chegou para nos entregar água da casa e os cardápios de comida caseira italiana que fazia roncar meu estômago só pelo cheiro no ar.
— Estou animado para ver a cidade, não conhecia. – Edward falou enquanto escolhíamos os pratos.
— Não vá esperando mil maravilhas por aqui. Mas até que a cidade tem seu charme. – meu pai comentou. – Posso levá-los a alguns lugares.
— Por favor. Meus pais falaram muito sobre o parque estadual da região. Vinham direto acampar aqui quando eu e minha irmã éramos adolescentes, era a escapada sem filhos que faziam todo ano.
— Ah sim, fiquei sabendo. Aqueles dois tem história, hein... – meu pai riu de uma piada interna que eu nem queria saber. Ele tinha ficado muito amiguinho de Esme e Carlisle em sua última visita. – Como estão meus amigos, falando nisso?
Engatamos numa conversa sobre meus sogros e depois sobre a minha viagem com Esme. Falamos do trabalho de férias de Claire, e meu novo projeto com os livros da família Takahashi.
Até a comida chegar, Edward praticamente não havia dito nada. Meu pai decidiu romper o silêncio dele.
— Então, Edward... – o próprio parou de comer para prestar atenção. Acho que eu e minha filha também paramos, já que era a primeira vez que Charlie se dirigia diretamente a ele. – Ouvi dizer que se mudou para perto das garotas?
— Ah, sim. Tem alguns meses... Está sendo ótimo. Foi a melhor decisão.
— Onde morava antes?
— Bom, eu estava num apart-hotel perto do Hotel onde trabalho. É da mesma rede, na verdade.
— Você trabalha no Hotel que Bella escreveu o livro, certo? Como se chama mesmo?
— Sim, o Le Printemps... Eu soprei o nome dela numa reunião, foram pesquisar, e ela acabou contratada.
— Claro. Seriam tolos se não contratassem. Mas por que se mudou? Cansou de morar ao lado do trabalho num lugar com serviços à disposição?
— Bem... – ele olhou para mim, como se buscasse aval para a resposta. Eu não disse nada, deixei que ficasse livre para escolher contar ou não. – O meu ex-sogro é o diretor do grupo Le Printemps, e quando terminei meu noivado as coisas ficaram um pouco estranhas. Era o único jeito de me afastar, a outra opção seria deixar meu emprego.
— Ah. Entendo. – meu pai baixou os olhos de volta à comida, e eu sabia que ele estava preparando algo para dizer. Meu namorado me olhou, até que Charlie finalmente parou de mastigar e voltou a falar. – Desculpe minha intromissão, Edward, mas... Não é estranho trabalhar para seu ex-sogro?
— Pai... – senti necessidade de intervir.
— Tudo bem, Bella. – Edward me acalmou. – Olha, claro que foi desconfortável no início, mas nós somos muito profissionais. Nos respeitamos.
— Então não há nenhum tipo de retaliação? Quero dizer, se você fosse meu empregado e desse o pé na bunda da minha filha, não sei se conseguiria continuar olhando pra sua cara.
Dessa vez, eu não me aguentei.
— Ok, acho que esse assunto já deu, né?
— O que foi que eu falei demais?
— Pai. Você sabe.
— Desculpa, Bella, eu só estou curioso mesmo, essa história toda é meio complicada pra minha cabeça. – ele tocou a mesma. – Não queria ofender. Perdão, Edward.
— Tudo bem. – ele replicou. – É complicado mesmo, o senhor tem razão.
Charlie parecia realmente curioso e Edward, compreensivo. Mas eu não queria que ele se sentisse obrigado a aceitar as alfinetadas do meu pai só por eu ter pedido a paz entre eles.
Respirei fundo para tentar outra vez.
— Foi complicado, mas agora já resolvemos tudo o que tínhamos pra resolver.
— Resolvemos? – o bigode do meu pai chegou a tremer. – Você também se meteu nessa história, filha?
— Não. Foi modo de dizer. – eu menti. Não iria piorar a situação revelando que Joaquin tentou me subornar, ou sobre todo o drama envolvendo Tanya. – Ajudei Edward a resolver, dei conselhos. Foi isso.
— Ah, sim. Que bom que está tudo bem agora... Certo?
— Sim, claro. Tudo bem. – Edward sorriu, embora eu pressentisse que havia algo o incomodando seriamente por trás do sorriso.
O jantar terminou, a conta chegou. E com ela, a briga por dominância masculina mais idiota que eu já presenciei.
— Deixa comigo. – Edward puxou a cartilha da conta, porém meu pai contra-puxou para si, do outro lado da mesa.
— Negativo. Vocês são meus convidados.
— Eu faço questão, Sr. Swan. – ele agarrava a conta, com certeza para mostrar ao meu pai que podia ser um bom provedor. – Viemos visitar o senhor, não é certo dar esse trabalho.
Meus olhos rolaram. Claire estava achando divertidíssimo, só faltou a pipoca.
— Ah, que papo é esse, garoto? Para de palhaçada. Me dá aqui, eu pago.
Discretamente, peguei meu cartão na bolsa e botei na mão do garçom. Em seguida tirei, à força, a conta das mãos deles. Ambos me olharam com expressões que foram da raiva, surpresa e vergonha em segundos.
— Eu pago hoje. Amanhã vocês dividem as contas do almoço e jantar, pode ser?
— Claro. – responderam em uníssono com olhos baixos como cachorro depois da bronca, e eu teria rido se eles não tivessem me irritado tanto.
Combinamos de nos encontrar amanhã depois do café e iríamos até o parque estadual onde ficava sua estação policial, o mesmo onde meus sogros acampavam.
Edward e eu caímos na cama do hotel exaustos, quase meia-noite. Ele virou logo para dormir, enquanto eu terminava de revisar um texto no laptop.
— Ele me odeia. – ouvi um tempo depois.
Olhei para o homem ao meu lado, que encarava a parede oposta.
— Ele não te odeia. Ele só está tentando te entender e buscar sentido nessa situação toda.
— Charlie não sabe nem a metade do que realmente aconteceu. Quando souber...
— Charlie é muito mais compreensivo do que eu. É um traço que eu gostaria de ter herdado dele. Tem coração mole, sempre enxerga todos os lados... Você não o conhece direito, mas eu sim, então confie quando digo que vai ficar tudo bem.
O silêncio pairou por uns instantes, e eu sabia que ele remoía minha afirmação. Porém, não foi suficiente ainda para lhe dar segurança, e ele tornou a lamuriar.
— Ele me chamou de garoto.
— E daí? Ele me chama de garota às vezes. Ou criança.
— Você sabe que é diferente. Ele nunca vai me ver como um adulto responsável. Só como o cara que engravidou a filha adolescente dele e sumiu anos depois, desgraçando a vida dela.
— Pff, Charlie não é tão dramático... – eu tentei amenizar o clima. Fechei meu laptop na mesinha, me virando para abraçá-lo numa conchinha. Ele relaxou um pouco nos meus braços, e eu beijei sua nuca. – Amanhã nós três conversamos melhor. E mesmo se não for como esperamos que seja... Não tem problema. Você tem a sorte de que ele mora a duas horas de casa e não terá de conviver com ele.
— Mas eu quero que dê certo. Por você.
Sorri preguiçosa, apertando-o e fechando meus olhos.
— Eu sei.
xxxx
Charlie nos levou numa caminhada até uma cachoeira escondida dentro do Parque, e foi lindo. Era um passeio que ele queria fazer comigo e Claire há anos, mas nosso espírito de atividades ao ar livre ainda não tinha surgido nas nossas vidas. E esse espírito tinha nome e sobrenome.
Ele estava respirando fundo no momento.
— Quem dera ter um lugar assim pra correr todo dia. – Edward falou. Já voltávamos pela trilha, quase chegando ao início. – Esse frescor, esse ar puro é quase um remédio.
— É puro demais, vou me afogar. – Claire constatou com uma careta.
— É a umidade. Seu narizinho de cidade grande não está acostumado. – meu pai argumentou. – Mas fique aqui uma semana, nunca mais vai conseguir voltar pra poluição.
— Deus me livre! – ela berrou antes de se conter. – Quer dizer, nada pessoal, Vô, mas eu sou uma garota da cidade mesmo, não nasci pro mato.
— Pode deixar, Sr. Swan, estou tentando botar um pouco de natureza na vida dela. – Edward comentou. – Nós estamos indo correr em parques todo domingo. Quem sabe podemos começar a ir mais longe, fora da cidade.
— Faça isso, por favor. Eu bem que tentei quando elas moraram comigo, mas Bella só trabalhava no computador e a pequena só queria saber de videogame. Ô vício!
— Ei, meu pai joga comigo quase todas as noites agora, não sou a única viciada. – Claire protestou.
— Mas pela manhã estou de pé às seis pra treinar na rua. É uma questão de achar o meio-termo.
— Muito bem, Edward. O equilíbrio é o segredo da vida. Esse é o caminho. – meu pai falou nos guiando de volta ao estacionamento. Vi Edward escondendo um sorriso, certamente feliz pelo reconhecimento do Chefe Swan. Meu coração se apertou pela fofura.
Fomos almoçar num restaurante ali perto, com peixes frescos do rio. Meu pai pagou, sem fuzuê dessa vez.
O lanche da tarde foi na casa dele. Tinha dois bolos, café, chás e potes de geleia da barraca da Sue. Quando perguntei por ela, Charlie respondeu que estava bem e trabalhando no momento, e fiquei com a sensação de que talvez ele tivesse tomado minha dica e se aproximado dela de verdade. Não pressionaria. Ele me contaria quando e se houvesse algo.
Estávamos assistindo TV, um programa do National Geographic que era comum nessa casa. Claire tirava um cochilo com os pés no meu colo, e meus olhos piscavam, escorada em Edward.
Até que, enfim, meu pai, cansado de esperar uma iniciativa nossa, lançou a pergunta-tema da nossa visita nesse fim de semana.
— Então... Como foi que isso aconteceu? – nós o olhamos, vendo sua mão balançar em nossa direção, a outra segurando uma cerveja. Eu me ajeitei.
— Bem... – falamos em conjunto. Edward me deixou começar. – Começou há quase um ano.
— Estão juntos há um ano?! – meu pai se exaltou.
— Não. Calma, eu vou chegar lá... No aniversário dele, ano passado, eu descobri umas coisas sobre o dia que ele saiu de casa, e sobre o que aconteceu depois… E aí resolvi chamá-lo pra conversar. A gente se aproximou, acabou se entendendo, e... Enfim, estamos aqui.
Ele suspirou lentamente.
— Mas essas coisas que você descobriu… Achei que já soubesse antes?
— Não, eu só sabia a minha versão, esse tempo todo. Eu vim meio fugida pra sua casa depois que aconteceu tudo principalmente porque eu não queria saber de nada. E nesses anos todos eu nunca busquei saber.
— Entendi. – ele assentiu, os olhos fixos em Edward, e só tirou para abaixar o volume da televisão. – Posso saber do que se trata?
— O quê, exatamente?
— Suas descobertas. Você sabe que eu não sou de me meter na vida dos outros, mas me ajudaria a entender melhor essa… História entre vocês.
— Claro.
Eu deixei que Edward contasse a sua parte da história.
Nunca vi meu pai prestando tanta atenção em algo ou alguém. Ainda bem que eu sabia ler suas micro-expressões como ninguém, e não foi difícil ver raiva, mágoa, espanto, pena passando em sua cabeça durante a explicação.
Edward resumiu praticamente tudo, desde suas crises de pânico e depressão, o limbo dos meses após a separação, até como era seu tratamento hoje. Deixamos de fora detalhes sobre Tanya, ou sobre como nos envolvemos antes de seu noivado terminar oficialmente. Ninguém precisava saber disso.
— Um bicho difícil isso, né... Essas coisas da cabeça. – Charlie murmurou, muitos minutos depois.
— A gente chama de transtornos, pai.
— Certo. – ele deu um gole na cerveja. Claire, não sei como, ainda dormia, agora quase roncando. – Minha mãe tinha isso. Depressão. Eu acho. Pelo menos é o que eu ouvia pelos cantos... Não se falava disso em casa naquela época.
— A vovó Helen? – meu coração se apertou com a revelação.
— Sim. Ela chegou a ir num psicanalista, o velho a entupiu de remédios... Não sei a dimensão do caso dela, essas doenças eram um tabu antigamente.
— Ainda são, um pouco. – Edward falou. – Mas é bom ter alguém, como o senhor, que esteja aberto a ouvir e entender.
Charlie deu um um meio sorriso.
Continuamos conversando até a noite cair. Ele foi compreensivo, como eu esperava, apesar de ainda ter dificuldade em aceitar o fato de Edward ter deixado suas crises ficarem tão grandes ao ponto de fazer o que fez.
Mas tudo bem. Eu entendia sua ressalva. Tudo a seu tempo.
No dia seguinte, nosso último antes de voltar à Nova York, meu pai fez questão de cozinhar o almoço para a gente. Sua especialidade – a única – peixe frito e assado. Eu ajudei a preparar os acompanhamentos e tudo estava delicioso.
O clima mais leve entre Edward e Charlie foi notório e me encheu de conforto e ternura. Eu nunca imaginei aquilo existindo depois de tantos anos. Talvez eles finalmente fossem se entender.
E eu pude ter a certeza disso no meio daquela tarde de domingo, quando Claire e eu acabamos de preparar nosso brownie especial, enquanto eles viam TV na sala.
Ia chamá-los para se servirem, mas a conversa que ouvi no corredor me tirou o fôlego.
Parei, me escondendo deles.
— ...importante pra mim. Eu sei que não sou muito presente, mas faço o que posso. – meu pai falava sério. – Elas são tudo o que eu tenho.
— Eu entendo. Pra mim também foi muito bom vir até aqui.
— Preciso que me prometa uma coisa, Edward.
— Sim?
— Que irá fazer as coisas certas dessa vez. Que não vai abandonar o barco quando houver tempestade. E eu sei que Bella se vira muito bem sozinha, mas se você estará perto, trate de cuidar bem dela.
— Claro que prometo, Sr. Swan. Tem minha palavra.
— Veja lá, hein... Eu sei que Claire vive brincando que eu te mataria caso você não se comporte, e eu posso não ser um assassino, mas... Tenha certeza que eu não deixaria barato dessa vez. Pelo menos uns cascudos você levaria.
A risada de Edward soou forçada pelo nervosismo.
— É compreensível. Eu faria a mesma coisa pela minha filha.
Eles ficaram em silêncio por um tempo, e eu estava quase saindo do meu esconderijo quando Charlie voltou a falar, mais baixo.
— Sabe, Edward... Eu acreditava em você, no seu potencial. Sabia o quanto fazia pela minha filha e minha neta, poucos garotos na sua idade fariam o mesmo no seu lugar. Pode imaginar como me senti decepcionado e com raiva quando você fez aquilo...
— Claro, imagino. Não há perdão suficiente que eu possa pedir a todos pelo que fiz.
— Peguei no pulo espiando os outros! – Claire sussurrou no meu ouvido, e eu tremi de susto. Calei sua boca, puxando-a para trás de mim. Ela lambeu minha mão. Soltei rápido e fiz sinal de silêncio.
— ...certeza farei tudo ao meu alcance pra que nossa vida seja a mais feliz possível. – voltei a ouvir o meio da frase de Edward. – Eu a amo. E amo Claire. Elas são a minha vida.
Não havia outra forma de reagir àquilo senão as lágrimas que prontamente começaram a rolar pelo meu rosto. Minha filha, percebendo, me abraçou por trás, e eu encostei a cabeça na dela.
— Ele é tão fofo. – ela murmurou.
— Espero que se cumpra. – meu pai continuou. – Estou torcendo pra isso. Acredito que temos a felicidade das duas como objetivo comum.
— Temos. E... Sr. Swan... Obrigado por ter cuidado quando eu não podia. Abrigá-las na sua casa, naquele tempo... Acho que foi crucial pra amenizar o drama todo.
— Imagina, rapaz, não tem nada não. A casa de um pai deve estar sempre aberta aos filhos. Foi isso que me ensinaram. – ele pigarreou, talvez também tomado por emoção. – Bom... Sinto cheiro de bolo pronto, elas devem estar fofocando lá na cozinha e esqueceram da gente. Vou tirar uma água do joelho, avise às moças que estamos com fome, sim?
Ao ouvir o farfalhar dos sofás, nós corremos de volta à cozinha, e eu tentei limpar o rosto.
— Esse brownie sai hoje ou no Natal? – Edward chegou, e eu tentei fingir normalidade.
Falhei.
— Que houve? – perguntou.
— Nada. O brownie tá pronto. – disse fungando.
— E ficou horrível?
— Claro que não, por quê? – perguntei meio insultada.
— Você tá chorando.
— Não tô não.
— Ok... – ele me olhou estranho. – Onde estão os pratos?
Claire mostrou onde ele deveria pegar, e começou a cortar o doce. Não me aguentei vê-los juntos, tive que ir e pegar Edward pelo colarinho.
— Eu te amo. – falei, me esticando para beijar sua boca. – Muito, muito.
Ele retribuiu meus beijos sorrindo e achando graça.
— Eu te amo, também, mas achei que tínhamos combinado de deixar os beijos fora da casa do seu pai?
Nossa filha bufou.
— Ai, ela tá assim porque tava ouvindo vocês atrás da porta, até chorou.
— Claire! – ralhei.
— Ele iria te contar de qualquer forma. – ela deu de ombros, e Edward riu.
— Você estava mesmo ouvindo?
— Ela estava também. – me defendi.
— Tsc, tsc. Ainda bem que só falamos bem de vocês, imagine se eu perguntasse por algum podre...
xxxx
A hora da despedida, naquela noite, foi mais difícil que qualquer uma das nossas visitas nos últimos anos.
Meu pai e eu nos abraçamos por mais segundos que o habitual, porém depois que ele se despediu deles, segurou meu ombro.
— Ah. Espera... Eu não ia fazer isso, mas acho que preciso. Posso falar com você a sós?
— Claro.
Claire e Edward me esperaram no carro, enquanto eu me sentava na cadeira de balanço da varandinha. Charlie ficou em pé encostado na madeira branca, de braços cruzados.
— O que foi?
— Tenho uma coisa pra te contar...
— Então não sou a única com novidades por aqui? Bom saber... – eu já estava imaginando que ele enfim admitiria um namoro com a Sue ou algo assim.
Mas sua real novidade me pegou desprevenida.
— Sua mãe me ligou. – replicou, na lata, gelando minha espinha. – Disse que precisa muito te encontrar e pediu que eu falasse com você, pra você retornar as ligações dela.
— Ah... Você tem falado muito com ela?
— Não, a última vez tem uns cinco anos, quando consegui vender nossa casa de Nova York... Ela só ligou agora porque é um assunto importante, e ela quer te ver pessoalmente.
— Por quê?
Ele suspirou pesado antes de falar.
— Renee vai voltar pra Nova York.
Agora, eu que precisei respirar fundo e até fechar os olhos para acalmar meu peito facilmente acelerado.
Minha mente já voava com vários cenários possíveis com minha mãe estando novamente perto de mim, de volta à minha vida. As tentativas de reaproximação que ela vinha fazendo nos últimos meses agora faziam mais sentido.
— C-como assim? Por quê? – gaguejei.
— Parece que o marido foi transferido, eles chegam no final de julho. Mas não me deu detalhes, só disse que queria muito reatar... com você.
— Oh. Ok... Eu...
— Bella... Olha, eu não quero me meter, eu sei o quanto você ficou magoada com ela, e eu mesmo acho que ela errou pra burro, viu. Mas acho que deveria dar uma chance, ouvir o que ela tem a dizer.
— Pai... Não sei. Acho muito difícil. – minha voz falhou. – Não sei consigo.
— Mas já faz tanto tempo que ela foi embora, isso já era pra ter ficado pra trás. Vamos lá, não te criei pra ser essa pessoa rancorosa.
— Não mesmo. A vida se encarregou disso. – falei um pouco sarcástica demais, e me arrependi imediatamente.
— Isabella. Respondendo pro seu pai a essa altura da vida?
— Desculpa... É só que... Não estou pronta ainda pra reatar laços com ela, entende?
— E quando vai estar? Por favor, não demore muito. O tempo voa. Seus velhos já não tem mais trinta anos.
— Eu sei. – minha garganta se comprimiu, mas eu respirei fundo, precisando de um tempo para refletir sobre aquilo. Fingi olhar no relógio. – Preciso ir. Já deu nossa hora.
— Tudo bem.
Eu me levantei e fui até ele, abraçando-o novamente.
— Pai... Eu amo você. Obrigada por tudo.
— Também te amo, Bells.
Parecia que eu estava sonhando.
A sensação permaneceu pelo resto da noite, durante a viagem de volta e até estar na minha cama.
Não quis dizer nada por enquanto a Edward ou Claire. Não queria dizer nada nem a mim mesma. Eu teria até o final de julho para me preparar para o encontro inevitável, e não deixaria a ansiedade disso estragar todas as coisas maravilhosas que ainda iriam acontecer até lá.
Apenas esperava que nenhuma outra surpresa dessas estivesse ao meu encontro. Iria vivendo um dia de cada vez.
Fale com o autor