Mais Uma Vez
40 Capítulo 39: Primavera
Notas iniciais
Capítulo 39: Primavera
Bella
Não havia mais como esconder. Era o tipo de coisa que só poderia mesmo acontecer comigo: a verdade havia sido descoberta no meio da rua em plena luz do dia, por ninguém menos que a minha filha (e seu namorado). Num dos momentos mais embaraçosos da minha vida, eu quis me enfiar num buraco na frente daquele restaurante – mas não sem antes deixar Claire de castigo pelo resto do ano.
Claro que era tudo um exagero, eu sabia bem. Edward e eu apenas tínhamos caído na nossa própria armadilha, e a Lei de Murphy nunca seria tão generosa em nos deixar escapar. Eu precisava tirar meu chapéu, porém, porque Claire havia sido esperta e sagaz o bastante para conseguir juntar todas as peças e ir atrás da verdade. Ter criado uma menina tão inteligente e cheia de atitude às vezes se voltava contra mim, e essa era só uma das muitas lições que eu aprendia a cada dia como mãe.
A conversa em casa havia sido tensa, reveladora e necessária. Mas pareceu não ser suficiente, pois agora eu e Edward tínhamos a adolescente mais curiosa do mundo. No jantar japonês, Claire quis saber todos os porquês e os detalhes, ouvindo a tudo com um brilho no olhar, como se assiste ao season finale de sua série preferida. Seu interrogatório me lembrou muito das amigas na adolescência, quando eu era a única que namorava. Eu quase me sentia da idade dela novamente.
— É sério, ainda estou chocada como vocês conseguiram esconder tão bem... – ela dizia, indignada e enchendo a cara de peixe cru. – Aliás, como eu consegui não perceber nada.
— Do mesmo jeito que você conseguiu acreditar em Papai Noel até os oito anos. – Edward brincou.
— É, eu acho que você esteve ocupada demais com... Outras coisas, pra perceber. – eu iria dizer seu namorado, mas depois da nossa última interação e o tratamento gélido que Edward deu a ele, preferi não arriscar um desconforto.
— Pra ser sincera, a única vez que eu quase desconfiei foi no meu aniversário, porque os dois sumiram ao mesmo tempo. Por um segundo cheguei a achar que estavam preparando uma surpresa pra mim, mas aí depois só veio o bolo e os parabéns... Vocês estavam juntos, né?
Minha orelha pegou fogo com a lembrança de quase termos sido pegos, de repente envergonhada ao ser confrontada. Foi divertido, mas era tudo tão diferente quando eu não estava mais curtindo o efeito do pós-orgasmo-no-banco-traseiro-do-carro.
— Q-quando foi isso mesmo? – Edward gaguejou, nem um pouco discreto. – Não lembro, acho que...
— Eu lembro, a gente estava conversando no jardim, e depois fui pegar as velas no meu carro. – eu interrompi, implorando com o olhar para ele ficar calado. Ela pareceu se contentar com minha mentira deslavada. Me perguntei quantas saias justas como essa estariam à nossa espera.
— Posso saber mais uma coisa? – Claire tornou a falar.
— Claro.
— Qual é a história do colar?
— Por que você acha que tem uma história? – indaguei, sem saber se Edward estava confortável de partilhar a informação.
— Ah, primeiro porque um: você só tira pra tomar banho, dois: eu já te perguntei e você desviou o assunto, e três: foi o primeiro presente sem ser livro ou porta-retrato que o papai te deu em anos.
— Eu já disse, é só um colar bonito que eu gosto de usar.
Bufando, sem aceitar minha justificativa, ela virou-se para Edward.
— Pai, me ajuda aqui?
Cedendo a pressão, ele pediu minha permissão e começou a contar como a pérola simbolizaria nosso reencontro, por ser parte do processo de cicatrização de uma ferida das ostras.
— Eu achei que a história representava tudo o que sua mãe e eu passamos juntos. – explicou. – Da dor que existiu um dia surgiu algo novo, raro, bonito e durável... Como essa pérola.
Claire piscou por dois segundos, enquanto a sua ficha caia. E então ela sorriu.
— Aww, que lindo, pai! Um pouco cafona, mas é lindo.
— Eu sei que é um pouco cafona. – ele riu da sinceridade dela. – Mas não dizem que o amor é cafona sempre?
Por baixo da mesa, eu segurei sua mão e apertei, feliz por poder estar vivendo um momento leve e amoroso, que me fazia derreter e me sentir a mulher mais sortuda do mundo.
Nos dias seguintes, tentei aproveitar essa sensação, focada em manter minha ansiedade e receios longe dos meus pensamentos. Às vezes era preciso parar e respirar, caso contrário eu ficaria obcecada em tentar desvendar os mistérios que o futuro nos reservava. A dinâmica que nós tínhamos construído como um casal secreto agora seria mudada para encaixar Claire, mas ela era apenas o início. Logo o mundo inteiro saberia e, inevitavelmente, nós teríamos que lidar com os ônus e os bônus dessa nova etapa.
Na sexta à noite, cumpri a promessa de levar minha filha até o nosso karaokê favorito, e depois a deixei na casa de Edward. Apesar de agora podermos ficar todos juntos novamente, eu sentia que ela ainda precisava de um tempo só de pai e filha. Após dois dias de sossego solitário e chás da tarde com Kate, Angela e Ben, a segunda-feira do Dia dos Namorados trouxe um dia tenso no trabalho, além de uma nevasca prevista para a noite inteira.
Eu não ligava muito para Dia dos Namorados – nunca liguei, para ser sincera. Filas homéricas nos restaurantes, presentes caros tentando salvar relações falidas, e a teimosia de alguns casais em esfregar na cara dos solteiros uma suposta felicidade. Nada disso fazia meu estilo. Eu não era anti-romance de forma alguma, mas depois de tanto montar, redigir e revisar mil matérias sobre o assunto, eu sabia que o Dia era "só mais uma data criada para movimentar o comércio". Sim, eu era uma dessas pessoas.
Esse ano, entretanto, Edward tinha me convencido a fazer um programa diferente, e eu estava até animada. Só que não contávamos com a neve que começou a cair ao por do sol das cinco da tarde, me fazendo sair da redação mais cedo e soterrando nossos planos.
Eu já estava sonhando com meu cobertor e todos os filmes que iria assistir naquela noite. No entanto, ao abrir a porta de casa, correndo do frio cortante, encontrei uma cena inusitada.
Cobertores, travesseiros e jogos de tabuleiro cobriam o chão e a mesinha de centro. No meio, minha filha e seu querido pai, sentados frente a frente, duelavam uma batalha silenciosa. Claire e Edward faziam caretas que colocariam Jim Carrey no chinelo – e mesmo assim, nenhum dos dois riu das palhaçadas durante todo o tempo que eu levei para guardar minhas coisas, ir ao banheiro e voltar para o sofá.
Esse devia ser o Jogo do Sério mais longo da história.
— Ahm... Oi? — limpei a garganta.
— Oi, amor. — Edward respondeu.
— Vão me ignorar pelo resto da noite?
— Shh! — os dois me interromperam.
Um barulho que só podia ser a geladeira batendo me assustou, e me virei para ver Jacob saindo da cozinha com um balde de pipoca e um refrigerante nas mãos.
— Oi, Bella! Pipoca? – ele sorriu, me oferecendo o balde, sentando-se para assistir os esquisitos a nossa frente.
— Oi... Você não devia estar em casa, garoto? – perguntei, preocupada e pegando a pipoca. – Tem um alerta de nevasca.
Ele olhou meio envergonhado.
— Se você não se importar, eu ia pedir pra dormir no seu sofá hoje... É que eu não quis perder o primeiro Dia dos Namorados com ela.
Eu sorri. O primeiro amor era uma coisa linda.
— Aw! Claro que pode dormir aqui. Mas sinto te avisar que você vai ter que dividir a data com os seus sogros.
— Não tem problema. – ele riu, porém logo seu tom mudou. – Bella? É... Foi mal pelo que rolou quinta-feira. Foi meio constrangedor estar lá, imagino como deve ter sido pra vocês. Eu realmente achei que Claire estava só cismando, eu nem sabia que poderia ser verdade.
Ele soava arrependido, e eu aceitei suas desculpas. O choque inicial já havia passado, apesar de eu ainda sentir uma pontada de vergonha.
— Tudo bem, sem ressentimentos. Eu sei como Claire sabe ser persuasiva. Mas... – pausei, percebendo que seria uma boa oportunidade para mostrar que eu era uma mãe zelosa e atenta a tudo que se passava no namoro deles, então finalizei com um aviso. – Jake, quando ela tiver essas ideias muito doidas, tente segurar a onda dela, além da sua. Com relação a tudo, entendeu? Eu confio em você.
As sobrancelhas de Jacob ergueram quase imperceptivelmente ao entender o que eu queria dizer. Ele rapidamente assentiu.
— Claro. Claro, pode deixar.
— Ok. – sorri. – Então, há quanto tempo eles estão ali?
— Uns vinte minutos.
— Ah, mas isso vai acabar é agora!
Cansada de ser ignorada pelos maiores competidores mundiais de Jogo do Sério, resolvi derrotá-los sozinha. Recorrendo ao meu arsenal de piadas idiotas, comecei a recitá-las para Jake. Todos aqueles trocadilhos que eu era obrigada a publicar no jornalzinho da escola quando fui editora tinham que ter alguma utilidade. Não demorou para que os dois caíssem na gargalhada, reclamando por eu ter arruinado tudo.
— Você é muito estraga-prazeres! Eu ia ganhar! – Claire choramingou.
— Eu tenho culpa que você não aguenta minhas piadas ruins?
— Fala sério, Bella! "Por que a esposa do Hulk se separou dele? Porque queria alguém mais maduro." Essa não foi ruim, foi péssima. – Edward recontou rabugento, mas ainda assim riu.
Eu apenas rolei os olhos, me levantando do sofá.
— Vem me ajudar a fazer o jantar. – estiquei uma mão e ele pegou, me seguindo para a cozinha e deixando os namoradinhos a sós na sala.
— Na verdade, eu vim aqui pra isso.
— Você vai cozinhar sozinho? – perguntei incrédula, franzindo os olhos.
— Não, eu trouxe nosso jantar. Está no forno.
Meu estômago roncou ao ouvir a novidade. Chegando na cozinha, dei de cara com um buquê de rosas no meio da bancada.
— Isso é pra mim?
— É. Fiquei procurando um vaso pra colocar, mas nem Claire conseguia achar na bagunça da despensa. – ele sorriu. – Leia o cartão.
Rapidamente, abri o pequeno envelope.
"Para a mulher da minha vida, de todos os meus sonhos.
Eu te amo. Para sempre seu, E.".
Era algo tão simples, e ao mesmo tempo tão sincero, puro, tão Edward. Meu coração ia parar. Ou encher até explodir. Seria possível tanto amor assim?
— Isso é muito lindo. – falei com vontade de chorar e sorrir junto. – Obrigada.
— De nada. Só que mais lindo do que isso foi o jantar que eu trouxe, vai lá ver.
Com um nó na garganta, abaixei minhas rosas delicadamente e corri para abrir a porta do forno, avistando as muitas embalagens de comida divinamente cheirosa à minha espera.
— Tem também duas opções de sobremesa na geladeira. – acrescentou ele, rindo com minha empolgação ao achar quitutes de presente, como criança em dia de Natal. Virei-me com um sorriso imenso, entrelaçando meus braços em seu pescoço, necessitando agradecer de alguma forma.
— Poxa, eu nem comprei nada...
Sorrindo, ele retribuiu o abraço para responder.
— Estar aqui já é meu presente, você sabe disso.
— Já disse que te amo hoje?
— Ainda não.
Então eu me aproximei de sua boca e lhe disse tudo sem palavras, carinhosa e intimamente. Eu poderia beijá-lo por horas ali no meio da cozinha, na ponta dos pés em minhas meias de lã, como se o mundo fosse só nosso. Mas ainda havia outras pessoas na sala à nossa espera.
Afastei meu rosto ligeiramente, deixando o calor do seu pescoço aquecer meu nariz e o abracei de olhos fechados. Respirei profundamente enquanto sentia meu cabelo ser acariciado por sua mão suave. O vento lá fora começou a ecoar na janela, trazendo a primeira camada de neve forte e tirando minha atenção do momento.
— Você sabe que só estar com você é suficiente pra mim também, né? – falei o que estava pensando. – Tudo isso deve ter dado um trabalho pra planejar e trazer de última hora, não precisava...
— Precisava sim. — ele me olhou exasperado. — Me deixa te paparicar um pouco, Bella.
— É que... Sei lá, acho que desacostumei a receber gestos românticos, Dia dos Namorados e essa coisa toda.
— Hm, então vamos treinar pra te acostumar de novo.
— Acho que pode ser uma boa ideia. – eu pisquei um olho, me esticando para beijar sua bochecha. – Me ajuda a colocar a mesa?
O jantar inusitado pareceu menos com uma refeição romântica clichê e mais um jantar em família, como fora no restaurante japonês. Jake e Edward pareciam estar bem, muito longe da tensão que envolveu os dois em seu último encontro. Eu tinha estranhado vê-los tão amigáveis novamente, porém Edward me afirmou que eles já haviam "trocado uma ideia e estavam quites" – palavras dele. Eu só estava feliz por não ter nenhum climão estando trancados numa casa debaixo de neve.
— O que achou do seu primeiro jantar de Dia dos Namorados? – perguntei a Claire quando terminamos a sobremesa.
— Foi legal. Claro que eu preferia estar comemorando sozinha sem meus pais que me enganaram sobre um namoro por meses, mas tudo bem.
— Pense pelo lado positivo, é uma história pra contar pros seus netos. – Edward riu.
— Ei, afinal, vocês estão namorando ou não? – ela mudou de assunto. – Não lembro de ter ouvido essa palavra até agora.
Edward e eu nos entreolhamos, percebendo, ao mesmo tempo, que até hoje nunca havíamos colocado um rótulo no que a relação se transformou. Aproveitar a companhia um do outro e nos apoiarmos era o bastante – até agora. Ok, a nossa bolha secreta havia estourado; O próximo passo seria oficializar o que começamos. No momento, porém, eu não tinha respostas, e tampouco queria explicar que ainda não tínhamos conversado a respeito.
— E aí? – pressionou Claire. – Fala sério, não vão me dizer aquele clichê de que não querem colocar um rótulo? Essa coisa moderninha não faz o tipo de vocês.
— Ah, Claire... – eu comecei, precisando falar algo, mas fui interrompida quando Edward se levantou.
— Já volto.
Todos olhamos estarrecidos enquanto ele se dirigia para a cozinha. Será que eu fiz alguma coisa errada?
— O que deu nele? – perguntou minha filha.
— Não sei...
Só tivemos que esperar mais alguns segundos de apreensão para vê-lo ressurgir na sala. Com um olhar compenetrado, ele se aproximou ao meu lado da cadeira e se ajoelhou.
Mas o quê?
Sua mão segurando uma única rosa apareceu na minha frente, e a voz que perguntou a seguir era firme e suave – do jeito que só ele era capaz.
— Quer ser minha namorada?
Boquiaberta, eu o encarei.
E então eu ri – gargalhei— sem acreditar no que acontecia, pois entendi o que Edward estava fazendo, como o romântico incorrigível e cafona que ele, assumidamente, era. Uma vez ele me disse que se lembrava de tudo sobre nós dois. Era uma verdade e uma loucura, na mesma proporção. Meu coração pulou pela milésima vez essa noite.
Ele lembrava; A mesma cena de quase vinte anos atrás se repetia agora.
— Meu joelho tá começando a doer, por favor pare de rir de mim e me responda. – sussurrou apressado.
Eu peguei a rosa de sua mão e assenti.
— Claro que quero. Sempre.
Fui presenteada por aquele sorriso impossivelmente lindo, e ele me beijou com um selinho, sentando-se ao meu lado em seguida.
— O que acabou de acontecer aqui? – indagou Claire, que nos observava com um sorriso engraçado e perplexo.
— Sua mãe e eu acabamos de nos tornar namorados, oficialmente... Foi mais ou menos assim da primeira vez.
— Com a diferença de que estávamos de uniforme num corredor sujo da escola depois do recreio. – argumentei. E ele tinha gosto de cookies de chocolate.
— Ah... Já saquei seus truques, pai. Conquistando a mamãe pelas lembranças dos bons tempos. Assim é fácil.
— Boa, Sr. Cullen. – Jake elogiou, impressionado.
— Pode anotar. – Edward o avisou. – Significa que a gente está prestando atenção, as mulheres adoram isso num parceiro.
Eu o olhei com vontade de rir. Ah não. Eu precisava tirar um sarro da cara dele.
— Está todo romântico, dando dicas de relacionamento... Andou lendo revista de mulherzinha no consultório do dentista?
— Eu li no Tumblr. – deu de ombros.
Ok, agora eu me impressionei.
— Espera aí, você sabe o que é um Tumblr? – eu ri. – Só adolescente usa esse negócio.
— Ei, eu posso ter alguns gostos de velho, mas tô por dentro do que a galera curte.
— Agora você falou igual um VJ da MTV aposentado.
— Pode tentar me insultar o quanto quiser. Eu ainda sou jovem. Você também, Bella.
— A gente tem quase 40 anos.
— Vamos fazer 34 esse ano, mulher!
— Diz isso pros cinco fios brancos que já nasceram aqui. – tapeei minha cabeça como ênfase.
— Papai tem razão. Quando vocês ficam se bicando assim realmente parecem muito jovens, tipo treze anos. – Claire rolou os olhos. – Fui eu que passei uns posts do Tumblr pra ele, umas pesquisas mais realistas sobre o que as mulheres acham romântico. Eu sei o quanto você não gosta de Dia dos Namorados, achei que ajudaria ele a te convencer...
— É verdade. – ele confirmou. – E também uns posts sobre a nova onda do feminismo. Aliás, foi fascinante, essa geração tá muito engajada, é incrível.
Assim, nós continuamos num longo debate sobre o assunto e o que eles tinham aprendido na internet, e acabamos todos concordando que Esme era a maior feminista que conhecíamos. E falando na ditacuja...
Meu celular tocou por volta das dez da noite. A avó mais querida e preocupada estava nos ligando para saber se estávamos bem abrigadas e abastecidas de comida.
— Tudo bem por aqui. – respondi. – Temos muita comida, janelas vedadas, aquecedor funcionando e Netflix a postos.
— Ótimo. Mande um beijo pra Claire, diga que estou com saudades.
Virei para minha filha, mandando o recado.
— Um beijo, Vó! – respondeu ela na direção do meu celular, alto o bastante para Esme ouvir. – Mas depois a gente vai ter uma conversinha, ok?
— Conversinha? Eu fiz alguma coisa?
— Bobagem dela. – expliquei, constrangida. – É só porque você foi a primeira a saber do nosso segredo.
Ela demorou uns instantes para entender.
— Ah... Ahhh! Então Claire já sabe também? Espere, Edward tá aí, não está?!
— Tá... – divaguei e me preparei, colocando o telefone no viva-voz, porque sabia que Esme não deixaria esse detalhe passar.
— Eu tinha certeza que ele estava! – exclamou. – Acabei de ligar pra casa dele e foi pra caixa-postal; liguei pro celular e estava sem bateria. Eu sabia que devia ligar pra você antes de entrar em pânico! Mande ele carregar o celular agora!
— Ele está te ouvindo.
— Oi, mãe! – Edward disse, parecendo se divertir demais com a situação.
— Escuta aqui, garoto, você tem celular pra quê? Faça o favor de colocar essa porcaria pra carregar logo, ouviu? A gente tá no meio da maior nevasca dos últimos anos, como vou te achar numa emergência?
— Tudo bem, tudo bem. Colocando já...
— Ok. – ela pareceu se acalmar. – Mas como foi isso com Claire? Vocês são oficiais agora, posso contar a Carlisle?
— Não! – eu quase gritei. – Não exatamente. Depois eu te conto como foi tudo, ok?
— Está bem... Me prometam uma coisa? Aproveitem esse Dia dos Namorados fora do comum. Eu sei que Bella não liga, mas é o primeiro, vai ser esse que irão lembrar por muito tempo.
— Vamos tentar. – falei, sorrindo.
Ela continuou com as dicas.
— Marie Claire, florzinha, vá dormir cedo e deixe seus pais namorarem a sós... Ok?
— Nem pensar! – ela protestou, uma mão no queixo segurando seu rosto sobre a mesa. – Se eu não posso namorar a sós hoje, eles também não podem.
— Jake está aqui, Esme. – expliquei.
— Ah, oi, Jake!
— Oi, Esme.
— Não ligue se meu filho rosnar pra você, ele fez isso com o namorado da minha outra neta por alguns meses, mas no fundo ele tem coração mole igual a mim. Ele só é muito protetor.
— Obrigado, bom saber. – Jacob riu. Edward revirou os olhos e tentou parecer bravo.
— Ok, preciso ir, só liguei pra saber como estavam. Carlisle está me esperando na banheira.
— Argh, mãe, ainda estou te ouvindo. – Edward lamuriou tal qual a filha.
— Deixa de ser fresco... Boa noite, amo vocês!
— Também te amamos, tchau! – respondemos e eu desliguei.
A incessante tempestade, de fato, não permitiu que os rapazes fossem para suas respectivas casas, e dois filmes do Senhor dos Anéis depois, eu já tinha dificuldades em manter meus olhos abertos. Como prometido, Claire não deixou que ficássemos sozinhos. Também, nem haveria como. Na hora de dormir, ela veio para a minha cama e nossos namorados dormiram em seu quarto.
Enquanto eu tentava dormir, ouvindo o vento da neve na minha janela e o leve ressonar da minha filha ao meu lado, não podia deixar de reparar como tanto havia mudado em pouco tempo. A felicidade vinha em ondas, e hoje eu havia me banhado nela. Mais do nunca, agora eu me sentia melhor preparada para reconhecer e aproveitar esses momentos sem medo ou rancor.
Fechei os olhos e agradeci, porque era só o que eu podia fazer. Seria mesmo um dia para se lembrar por muito tempo.
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O convite para o lançamento do livro do Le Printemps chegou no final de fevereiro. A festa, que também marcaria o aniversário da rede, seria no primeiro dia da primavera, final de março, num trocadilho banal com o nome francês e seu significado: a tal estação do ano.
Receber o convite me deixou apreensiva. Os motivos eram tão torpes, que eu mal podia acreditar em como eu estava sendo precipitada. Eu sabia uma hora ou outra haveria de enfrentar toda a família Denali, e seria inevitável encontrá-los na festa.
No mês que se passou, eu tentei organizar meus sentimentos, buscando reações para todos os possíveis cenários.
Enquanto isso, a decisão da mudança de Edward havia se concretizado, e eu, Claire e toda a família dele tiramos dois finais de semana para ajudá-lo a dar esse passo importante. Na mesma semana do lançamento, num mutirão liderado por Esme, nós acabamos de pintar, reformar e montar o seu novo apartamento. Não era luxuoso como o último, porém tinha privacidade, além de ser muito mais a cara do dono. O quarto-e-sala em um prédio antigo mas conservado até parecia aconchegante após os retoques e dicas de todos nós.
Obviamente, Alice ficou extasiada com a novidade, principalmente pela proximidade entre a casa dele e a minha – dez minutos a pé. Ela me olhou estranho ao me encontrar pela primeira vez no apart-hotel, ajudando-o a encaixotar DVDs e videogames, mas não fez nenhum comentário. Eu podia ver em seus olhos o quanto ela estava doida para me encher de perguntas, e embora eu já me sentisse mais à vontade para lhe revelar a verdade, eu gostava de ver que todo o meu apelo por mais privacidade na vida amorosa pareceu ter surtido efeito. Queria brincar de torturar sua curiosidade só mais um pouco.
A grande noite chegou, enfim. À tiracolo, eu tinha Claire como minha acompanhante e uma promessa que fiz diante do espelho: encarar com calma e equilíbrio o que viria pela frente. Parecia que eu estava pressentindo o que aconteceria naquela festa.
Depois do breve deslumbramento da minha filha ao ver sua primeira festa de adultos ricos, nós encontramos Rosalie, que viera como convidada de Edward a pedido de Claire, e nos sentamos na mesa que eu dividiria com Riley.
A atmosfera criada pela luz e decoração de primavera realmente impressionava. Uma extensa mesa com exemplares do livro bem arrumados entre ramos de flores se destacava em um canto. Eu via matérias minhas na revista quase toda semana, mas isso parecia diferente. Era o meu trabalho e pesquisa de meses, afinal, e um senso de orgulho me invadiu ao ver aquilo.
Terminando meu primeiro champanhe, deixei Claire e Rose na mesa tirando suas milhares de selfies para ir ao encontro dos anfitriões que haviam acabado de chegar. Joaquin e seus sócios se reuniam na porta posando para fotógrafos. Sua irmã Carmen se misturava às esposas dos diretores, todas impecavelmente arrumadas. Não havia nem sinal de Tanya, o que me deixou estranhamente aliviada. Quando me viu, Joaquin acenou para que eu me aproximasse.
Apesar de seu rosto sereno, imediatamente lembranças de nosso último encontro me pegaram em cheio. Senti que me olhava com aparente desconforto, e eu sabia que seu pedido de desculpas e a forma como ele mostrou-se vulnerável foram atos sinceros. Mesmo assim, ainda me magoava saber que esse senhor aparentemente tão inofensivo havia tentado me subornar. Meu sorriso saiu forçado.
— Bella. – ele disse cordialmente, com um aperto de mão.
— Está linda a festa. Parabéns, vocês merecem.
— Obrigado. Mas você faz parte dessa festa também, por nos ajudar a contar nossa história tão bem. Agradeço em nome de todos da empresa.
— Eu que devo agradecer pela oportunidade. Foi uma experiência que eu não vou esquecer. – por mais de uma razão, completei mentalmente.
— Quero te apresentar a algumas pessoas hoje, tudo bem?
— Claro. – concordei com algo que fazia parte do meu trabalho. Naquele instante, seu olhar me atravessou, e ele ergueu a mão para alguém atrás de mim.
— Ah, ali está seu companheiro.
Por um segundo, pensei que se referia a Edward e meu coração disparou, achando que começaria ali a minha humilhação pública como a amante do meu ex-marido, o ex-noivo da filha de um Denali. Felizmente, virei-me para dar de cara com Riley e uma loira. Flashes piscaram em nossa direção.
— Ora, se não é a jornalista mais ocupada desse país. Há quanto tempo! – Riley me abraçou. – Como vai, Bella? Sr. Denali, como vai?
Ele nos cumprimentou, em seguida apresentando Jane Ford como sua namorada pela primeira vez. Eu fiquei feliz em ver que ela era exatamente a mulher que sempre imaginei como o par ideal de Riley. Uma ex-modelo tão alta quanto ele, cujo rosto era a versão moderna da Brigitte Bardot, e tão simpática como seu namorado.
Logo, chegaram Carmen e os outros sócios na nossa roda. Minha chefe me parabenizou, mas sem muita efusividade. Eu não fazia ideia se Carmen Denali já havia descoberto tudo através de seu irmão, embora Joaquin tivesse prometido sigilo. Entretanto, desde que Tanya voltou para a cidade após a estadia na reabilitação, ela me tratava com um pouco mais de frieza do que o costume.
Eram sutilezas. Nas poucas ocasiões que tinha oportunidade de me elogiar, ela o fazia com o semblante sério, e reparei que eu nunca mais havia sido enviada para coquetéis e vernissages em nome da revista quando ela não poderia estar presente. Embora não afetasse, diretamente, meu cargo e meu emprego, eu sentia o gelo como um castigo. Era difícil saber. Ao contrário do irmão, a mulher era uma muralha quase impenetrável.
A festa seguiu, e eu fui apresentada para metade dela, além de atender à imprensa. No meio de toda a confusão, duas horas adentro, eu apenas tinha conseguido ver Edward de longe. Não que ele estivesse me evitando de propósito, mas nosso combinado era irmos separados para a festa e agir discretamente, como estava sendo há meses. Eu não o via há alguns dias, desde sua mudança. Sentia saudades.
Olhando pelo salão novamente, o avistei saindo da mesa onde nossa filha estava. Rapidamente, ele desapareceu por uma porta de vidro onde uma escada levava a um segundo andar alheio a festa. Embora eu tentasse, o papo sobre economia digital de investidores do Le Printemps não estava me interessando, e agora muito menos. Bastou vê-lo por alguns segundos e eu estava completamente distraída pensando onde meu namorado tinha se enfiado.
Namorado.
Ainda soava um pouco estranho usar a tal palavra para me referir a ele. Chamá-lo de um jeito que não o chamava há tantos anos era como voltar ao início, porém da melhor maneira. Às vezes eu parava para pensar nas muitas fases da minha vida em que ele esteve presente de formas diferentes. Quantas transformações nós passamos, juntos e separados.
Houve um tempo, o mais doloroso e sombrio, em que ele não tinha nome para mim – a própria ideia de sua existência estava anulada, como um fantasma. Passado o choque inicial, por muitos anos ele foi apenas ele, que definitivamente existia, mas a mim era indiferente. Depois voltou a ser Edward, um alguém na minha vida, e finalmente, o meu Edward. Meu novo e, se o destino assim quisesse, último namorado.
Perdida em pensamentos, voltei para o presente, notando que os convidados que me prendiam já haviam mudado de assunto e achado uma nova interlocutora. Pedi licença, então, resolvendo ir até a porta na qual vi Edward entrar, esperando passar despercebida. Quando consegui subir os dois lances da escada de granito, acabei chegando em uma sacada que contornava todo o prédio. Vazia. Percorri o espaço a procura dele, até olhei futilmente para cima e para baixo, porque vai que o danado tenha resolvido dar uma de Homem-Aranha? Mas nada.
Aproveitando meu celular que carreguei o tempo todo para fotos e anotar contatos da festa, mandei uma mensagem perguntando seu paradeiro. À espera de sua resposta, me debrucei no balcão, olhando a parte de trás do hotel, um jardim bonito onde aconteciam atividades e eventos.
A noite estava menos fria que algumas semanas atrás, apesar do vento gelado tipicamente nova-iorquino que começou a bater em meus ombros nus. Fechei olhos, respirando o aroma vindo das flores bem cuidadas lá de baixo, um sentimento bom me invadindo.
Finalmente já era primavera, minha estação favorita desde criança. Era o tempo que a natureza, em seus recomeços, trazia esperança e frisson pelo verão a seguir. As ruas ficavam mais bonitas, menos soturnas. As pessoas faziam planos. Havia toda uma expectativa geral por boas novas, para que aquela viagem dos sonhos acontecesse ou aquele romance novo engatasse.
Sentia que hoje marcava um dia especial por mais de uma razão. Pelo final de um trabalho que me rendeu frutos – depois de anos, eu consegui quitar todas as parcelas da minha casa própria, além de aumentar significativamente a poupança da faculdade de Claire. Mas também porque eu sabia que seria o fim de um ciclo, e eu já plantava sementes para a próxima colheita, com todos os contatos importantes que eu havia feito hoje e até algumas conversas sobre trabalhos futuros.
Eu estava ansiosa, meu estômago inquieto, mas eu sabia: estava pronta para a próxima. Fechando meus olhos novamente, um "Obrigada" em voz alta saiu dos meus lábios, esperando que o universo captasse minha gratidão e felicidade. No mesmo instante, senti que não estava mais sozinha. Um arrepio percorreu minha espinha, fazendo meus olhos abrirem rapidamente.
— Desculpa, não quis te assustar. – Edward, com a voz suave, falou enquanto se aproximava. – Você parecia tão compenetrada...
— Tudo bem, só estava pensando na vida. – respirei aliviada pelo susto em vão. Ele me estendeu uma taça enquanto segurava outra. Eu aceitei.
— Champanhe? – perguntei, preocupada ao lembrar de seus remédios. – Está podendo beber?
— Só uns goles, pra brindar o seu sucesso.
— Não quero te deixar mal por minha causa.
— Relaxa, amor. Não tem problema.
— Certo...
Clicando sua taça com a minha, ele anunciou, – À estrela da noite. – e deu um gole, me olhando enquanto eu tomava o meu.
— Obrigada. – sorri. – Mas a estrela da noite é o Hotel e todos aqueles engravatados lá embaixo que construíram isso aqui.
— Pode ser... Mas duvido que algum deles seja tão inteligente, talentoso e fique tão bonito quanto você nesse vestido.
— Hm, será? Eu nunca vi Joaquin Denali na intimidade, vai que...
Ele gargalhou, fazendo meu coração pular, acelerado ao reparar o quanto aquele homem estava lindo hoje, com seu terno azul escuro e a gravata um tom acima que eu comprei para, secretamente, combinar com meu vestido vinho. Sem pensar muito, cheguei mais perto, tentada a roubar um beijo. Seu riso cessou. Ao invés de me beijar, ele bebeu mais um gole, sem tirar os olhos da minha boca.
— Nossa... – murmurou ao abaixar a taça, sacudindo a cabeça.
— Que foi?
— Você é linda sempre, mas hoje, realmente... – seu olhar me percorreu de cima a baixo, me deixando fraca. – Está difícil me concentrar em outra coisa.
— Você também está uma delícia hoje, Sr. Cullen. – toquei o colarinho da sua camisa, alisando seu peito. Flertar com ele era um dos meus passatempos favoritos.
— O sucesso te cai muito bem, Isabella Swan. Eu te vi mais cedo falando com todas aquelas pessoas, tão à vontade e feliz. O sonho de toda jornalista da sua idade.
— Eu estou bem feliz, sim. Tenho tido muita sorte.
— Eu queria muito poder te beijar agora. – disse, sem aviso.
— Não tem ninguém por perto...
— Não, mas há olhos por todos os cantos. – ele meneou a cabeça para cima, onde vi uma câmera de segurança.
— Ah. Tecnologia voyeurística maldita. – resmunguei, mas sem me afastar, perto demais para sentir seu perfume e algo a mais. – Você esteve aqui mais cedo?
— Sim. Depois eu desci e te vi subindo.
— Estava fumando?
Ele riu, acanhado.
— Como você descobriu?
— Tem uma embalagem de chiclete no seu bolso, e um resquício de cheiro no seu paletó... – eu sabia que o cigarro era uma válvula de escape para ele, um último recurso. Por isso, perguntei. – Tá tudo bem?
— Tá, fiquei um pouco ansioso com toda a interação social, só isso...
— Mas você vê a maioria dessas pessoas todos os dias no trabalho. Aconteceu alguma coisa?
— Não... Está tudo bem, Bella. Hoje a noite é sua, não quero ficar falando dos meus problemas.
— Para de bobagem. Pode falar.
Ele suspirou, e hesitou por alguns instantes. Quando falou, senti seu esforço para pronunciar as palavras fora de sua mente.
— Mais cedo, meu... pai me ligou.
— Carlisle te ligou?
— Não. Anthony Masen.
— De novo? Ele não tinha ligado semana passada?
— Sim, está insistente dessa vez, ameaçando ligar pra minha mãe... E aí pra piorar meu estado, agora eu chego nessa festa, e dou de cara com...
— Com ela? – eu não precisei elaborar. Ele sabia que eu falava de Tanya.
— É. A gente se encontrou.
— E aí?
— Foi triste. Desconfortável. – ele deu de ombros. – Ela mal conseguia me olhar nos olhos. Trocamos umas dez palavras só e depois cada um foi pro seu canto.
— Entendi...
Em silêncio, tomei o resto do meu champanhe. Edward me ofereceu o resto dele, vendo como eu bebia rapidamente. Eu não sabia o que dizer. Não sentia ciúmes, mas me sentia... diferente. Angustiada, ao pensar que ela poderia tentar alguma coisa com ele – seja beijá-lo ou atacá-lo, por mais que ambas as hipóteses fossem praticamente impossíveis.
— Viu? – senti seu suspiro irritadiço em meu rosto. – É por isso que eu não queria dizer nada. Cortei seu barato.
Eu respirei fundo. Éramos dois ansiosos problemáticos. Eu deveria me manter firme.
— Não cortou nada, fez bem em falar. Nós prometemos boa comunicação, não foi? – eu o encarei. – Pelo menos posso te dar um abraço?
Edward pegou as duas taças que eu, ridiculamente, segurava e as colocou sobre o balcão ao nosso lado para me envolver num abraço apertado, me tirando o ar da melhor forma. Senti seu dedo percorrer do meio das minhas costas até a nuca, e quase saltei de arrepio.
— Posso contar um segredo? – sussurrou no meu ouvido. – Tudo o que eu mais queria agora era tirar esse vestido, e...
— E? – eu provoquei para ver até onde iria chegar, ficando em suspense enquanto ele pensava. Lentamente, começou a expirar suas palavras.
— E beijar cada parte do seu corpo. Comemorar com você essa noite, até amanhecer.
Aquilo seria suficiente para me fazer desistir de ser uma profissional responsável e sumir daquela festa, ou pior, arrastá-lo para um canto escuro ali mesmo. Mas, tive uma ideia melhor, e a expus quando reencontrei minha voz.
— Quando a festa acabar... Vai pra minha casa. Dorme lá.
Ele se desvencilhou do meu abraço, afastando-se para me olhar.
Seu espanto era justificável. Em todo esse tempo, mesmo desde Claire nos descobrir mês passado, eu jamais havia conseguido me sentir à vontade para pedir que ele dormisse comigo, em meu quarto. Era um costume antigo, eu nunca havia levado nenhum cara para dormir lá enquanto minha filha estava em casa. Pensando bem, Edward e eu não amanhecíamos na mesma cama há quase dez anos. O momento parecia ideal.
— A noite toda? – perguntou. – Tem certeza?
— Sim.
— Mas e Claire...? Você disse que-
— Podemos ser silenciosos.
— Se tudo der certo, silenciosos é o que não vamos ser.
Eu ri. – Tudo bem, então. Eu convenço Claire a dormir na casa da prima.
— Fechado. – piscando um olho, ele pegou sua taça vazia. – Vamos, senão vão sentir nossa falta.
Nos dispersamos com certa discrição, e logo fui arrastada pelo braço por uma colega que não via há anos, querendo me parabenizar. A festa seguiu em seu ritmo, parando para o jantar e uma apresentação do quarteto de cordas que, entre vários clássicos, tocou – obviamente – As Quatro Estações, de Vivaldi.
Era uma e meia da manhã quando pedi licença para ir ao banheiro, sentindo um pouco o peso de quatro taças de champanhe. A decoração do hotel deixava lindo até o banheiro, mais luxuoso que minha casa inteira jamais seria. Do reservado, ouvi alguém entrar, usar a torneira, e depois o silêncio. Ótimo. Eu tinha agonia de fazer xixi com plateia. Ali sozinha no banheiro cheiroso com música ambiente, sentindo-me inebriada pela primeira vez, eu pude relaxar.
Talvez por isso eu tenha tomado um susto tão grande quando saí pela porta do reservado e dei de cara com uma aparição de dourado, em seu vestido Hervé Leger colado e os cabelos loiros displicentemente presos num coque. Tanya Denali, a própria, me esperava sentada em um banco de veludo preto em frente a pia.
Meu corpo gelou. Por um instante a habilidade da fala me faltou e a sobriedade me atingiu em cheio, deixando meu cérebro em alerta.
— Oi, Bella. – ela levantou-se.
— Oi...
— Eu te assustei? Desculpa.
Saindo do meu transe, sacudi a cabeça e fui lavar as mãos. Eu tremia. Era patético, mas eu tremia. Eu sabia que alguma coisa ia acontecer hoje. Estava tudo indo bem demais pra ser verdade. Meus instintos não mentiam nunca.
— Sem problemas, eu me assusto fácil. – respondi, olhando-a pelo espelho e secando as mãos.
— Posso falar com você um instante?
— Eu... Preciso voltar, tem gente me esperando. – menti, querendo fugir.
— Por favor. E-eu realmente preciso fazer isso. – falou, enquanto mexia nos nós dos dedos, num ato de clara ansiedade. – É por você e por mim.
Estudei sua face. Os olhos, apesar de bem maquiados, pareciam inchados e avermelhados, como se tivessem chorado por um tempo. Ela estava mais magra, e apesar do estilo característico das roupas sensuais, seu ar arrogante de Rainha do Baile estava ausente. Havia algo diferente nela, mas eu não a conhecia bem o bastante para saber o quê. Me perguntei se Edward havia reparado a mesma coisa.
— Tá tudo bem, não vou tentar te matar ou algo do tipo. Eu só faço isso comigo mesma. – ela riu nervosamente. Seu humor depreciativo foi uma das coisas que aprendi sobre Tanya naquela noite.
Estupefata, eu permaneci calada, sem saber o que responder. Ela tentou novamente.
— A porta não está trancada, não se preocupe. Mas eu pedi a um segurança pra não deixar ninguém entrar.
A ideia de um brutamonte nos ouvindo do outro lado, de repente, me tranquilizou, mesmo sem eu saber se ela blefava. Olhei rapidamente a porta, e de fato, não parecia trancada. Suspirando, me inclinei na bancada. Ela manteve uma boa distância, encostada na parede oposta. A curiosidade para saber o que ela tinha a me dizer era maior que o medo das consequências, e então eu finalmente concordei.
— Ok. Pode falar.
Tanya não perdeu tempo, indo direto ao assunto.
— Bom... Eu fiquei sabendo o que meu pai fez com você.
— Que ele me ofereceu dinheiro pra sair da cidade? – perguntei rispidamente.
— É... – ela sacudiu a cabeça, lidando sobre o assunto com dificuldade de me encarar. – Eu... Me senti no dever de te pedir desculpas pessoalmente. Foi vergonhoso o que ele fez.
— Você teve alguma coisa a ver com isso?
— Não, de jeito nenhum. – respondeu rapidamente, os olhos azuis imensos. – Quando Edward e eu terminamos, eu implorei que meu pai não se intrometesse. Mas ele é teimoso, só faz o que quer.
Ponderei um momento, tentando adivinhar até que ponto da história ela sabia. Se ele havia lhe contado sobre tudo, sobre a espionagem em Edward, sobre nós dois.
— Foi uma situação muito constrangedora… Mas você não precisa se desculpar por ele. Nós tivemos uma boa conversa naquele dia, me resolvi com seu pai. Tudo bem que pedi que ele não contasse nada pra ninguém, mas acho que Joaquin Denali só faz mesmo o que quer, afinal.
— Na verdade, ele não me contou espontaneamente. Eu que perguntei o que tinha acontecido, porque depois desse dia, ele vem agindo estranho, me falando coisas que nunca falou na vida, nem quando descobriu o câncer... Aí ele me contou que teve uma experiência de humildade com você. Não sei bem o que isso significa, o velho às vezes fica meio doido por causa dos remédios.
— Só falei o que eu pensava sobre… A situação de vocês. – expliquei, lembrando das minhas palavras naquele dia.
Ela bufou uma risada forçada.
— Engraçado. Se fosse outra ocasião eu mandaria você ir se ferrar e diria que você não tem nada a ver com a minha vida… — disse, me olhando quase desafiadoramente. Porém sua pose desmoronou. – Mas seja lá o que você disse, surtiu efeito. Alguma coisa mudou mesmo.
— Como assim?
— Ele veio me visitar na reabilitação com passagens compradas, dizendo que vai tirar férias pela primeira vez em dez anos e vamos visitar parentes na Espanha no verão... Acho que a última vez que passamos tanto tempo juntos foi logo depois da mamãe morrer.
Sua esperança e felicidade ao me recontar tudo isso soavam quase infantis. Meu coração amaciou um pouco.
— Eu nunca quis dar nenhuma lição de moral, mas é bom saber que eu fui ouvida. — falei. — Espero que aproveitem a viagem. Joaquin trabalha demais, ele merece. Você também.
Ela assentiu, dando de ombros.
— Tem uma parte de mim que ainda acha que ele só quer me manter livre de mais confusões por aqui, como foi minha vida inteira. Mas... Minha terapeuta diz que eu devo acreditar na mudança e aproveitar a oportunidade de ter mais tempo com meu pai, então não me resta nada a fazer.
— Isso é bom. Eu te diria o mesmo, ela parece sensata.
— É, pelo menos não é como a última. A mulher cismava que eu sofria a perversão do complexo de Édipo, acredita? – contou, indignada. – Tá, eu sei que tenho problemas com meu pai, sou bem porra-louca, mas não sou nenhuma pervertida, né? "Freud explica" é o caralho!
Pega de surpresa, eu ri, o que a fez rir também.
— Freud era o próprio pervertido que achava que todos também deveriam ser. – brinquei. – Você é normal, não se preocupe.
E, assim, num piscar de olhos, a leveza sumiu de seu semblante para afirmar sua sina de vida.
— Normalidade é algo que não existe no meu vocabulário, Bella. Por bem ou por mal, eu nasci desse jeito e vou morrer assim.
— Tudo bem. Normalidade é um pouco superestimada mesmo. – tentei amenizar, mas ela retrucou.
— Não quando você é uma bipolar viciada em remédios com problemas de autoestima e tendência suicida. – eu a olhei, espantada com sua autodescrição tão precisa. Ela riu. – Não me olhe assim. Sim, eu sei bem quem eu sou. São quase vinte anos de terapeutas e psiquiatras, tinham que servir pra alguma coisa.
Meu senso de realismo quase pessimista queria concordar com ela. No entanto, vendo como o ser humano abalado na minha frente parecia sofrer com aquilo, eu busquei uma palavra de conforto.
— Olha, eu não sei o que você passa, mas pelo que ando aprendendo na vida, estou começando a crer que algumas pessoas podem mudar se tiverem as ferramentas certas. – falei, lembrando-me da trajetória de Edward. – E eu acho que você as tem. Nada é tão fatal assim.
— Como eu queria que isso fosse verdade... Mas a reabilitação não faz milagres quando a vida não ajuda. Acho que algumas pessoas não tem sorte mesmo... – ela divagou, negando com a cabeça. – E dessa vez eu nem sei como vai ser daqui pra frente. Minha vida tá de cabeça pra baixo como nunca esteve antes.
Eu podia sentir o desespero em sua voz sobre aquilo, o tom sério muito raro para a Tanya que eu conhecia. Eu reconhecia aquela sensação de ter sua vida jogada à esmo de uma hora para outra.
— Bem, eu... – tentei novamente. – Não quero me comparar ao que você vive, de jeito nenhum, mas eu entendo um pouco como é estar nesse lugar escuro que parece não ter saída. Às vezes é complicado achar, mas ela existe se a gente souber procurar.
— E você já achou a sua?
— Achei...
A expressão vazia de seu olhar me fitou por um tempo. Apesar de eu ter gasto todo o meu repertório de frases de auto-ajuda à toa, seu silêncio perdurou, enquanto ela movia-se para sentar na ponta do longo banco de veludo preto e armação dourada. Minutos passaram, e eu já estava agoniada querendo sair daquele banheiro, quando fui surpreendida novamente por sua voz.
— Sabe, é engraçado como eu sei tanta coisa sobre você, mas você não sabe nada sobre mim.
— Você sabe muito sobre mim? – senti meu cenho franzir, sem ter ideia de onde isso iria chegar. Ela assentiu a cabeça, os braços cruzados.
— Edward e eu sempre tivemos uma relação muito franca. Ele me contava quase tudo sobre a vida dele. Presente e passado.
— Ah é? O quê, por exemplo? – indaguei com medo da resposta.
— Eu sei porque vocês se separaram, porque não reataram logo depois... Também sei que alguns meses atrás Edward passou um bom tempo tentando te convencer a voltar pra ele.
Então falaríamos sobre o assunto. Eu suspirei, indo me sentar na outra ponta do banco.
— Tanya, não foi bem isso que aconteceu.
— Mas funcionou, não é?
Ao invés de responder, eu fui evasiva.
— Ele só me esclareceu muitas coisas. Coisas que eu deveria ter ouvido muito antes, mas nunca tive coragem. A gente conversou muito, era o que faltava pra colocarmos um ponto final numa história pendente.
— Por favor, Bella, eu posso parecer fútil e avoada, mas não sou otária. – ela bufou, irritada.
— Eu sei que não, Tanya.
— Olha, eu sei das coisas, ok? Eu sei bem que Edward nunca deixou de te amar profundamente, ele nunca me iludiu sobre isso. Ele era sincero quando dizia que me amava de um jeito diferente, sempre me tratou bem, foi meu melhor amigo e estava comigo até nas minhas piores crises... Mas ele sempre disse que a mulher da vida dele era a mãe de sua filha, uma pessoa que ele tinha magoado muito no passado. Por isso eu sempre morri de medo que uma hora ou outra você voltasse atrás e o aceitasse de volta, porque ele iria correndo.
Ela estava impaciente. Naquele momento, vislumbrei um pouco da mulher que eu estava acostumada a ver antigamente em eventos da família. Arrogante e arredia. E hoje, eu sabia: extremamente insegura e machucada.
Sua posição no relacionamento com ele não era das melhores, e eu já havia deixado claro a Edward o quanto desaprovava a forma como ele lidou com seu amor não-resolvido por mim. Talvez fosse uma boa hora para colocar em prática minha empatia por ela.
— Sinto muito, de verdade, você não merecia passar por nada disso. Mas por que está contando essas coisas, Tanya? Onde quer chegar? – perguntei delicadamente.
Ela me encarou.
— Quero que você me diga qual é a situação de vocês agora.
— Desculpe, mas isso só diz respeito a mim e a ele.
— Por favor, Bella. – sua maneira incisiva me sobressaltou. – Por favor, me fale, porque eles só querem me proteger e eu não aguento mais. Preciso ouvir sua confirmação, pra que eu possa tentar seguir em frente. Você me entende? Ficar longe dele está me matando, mas ficar na esperança que ele volte é pior ainda.
Ouvindo seu apelo, de repente que seria bom também para mim poder falar sem medo, sem amarras. Já estávamos nos escondendo há tempo demais. Eu respirei fundo, decidida.
— Tudo bem, já que você quer assim, então vamos falar como mulheres adultas que somos... Nós estamos juntos sim. Foi um processo lento, mas aconteceu.
Um instante de espanto se passou, e eu vi dor e raiva em seu semblante. Ela retornou sua inquisição com a voz falsamente controlada.
— Há quanto tempo?
— Alguns meses.
— Nós ainda éramos noivos quando vocês…?
Eu a encarei, vendo seu choro começar a brotar, e sem entender porque ela queria saber sobre detalhes que claramente a magoavam. Entretanto, eu não iria dar para trás agora.
— Sim... Mas não por muito tempo, eu exigi que ele terminasse tudo logo.
— Merda. – ela chorou com um soluço, virando-se para a parede. Eu me vi sem saber o que fazer, então tentei amenizar um pouco da minha própria culpa.
— De toda essa história, isso é o que eu menos me orgulho, Tanya... Te peço desculpas, de verdade.
— Não. Não precisa. – secando o rosto com as mãos, ela voltou-se para a frente. – Eu perdi Edward como perco todo mundo que eu amo. Eu já esperava por isso, foi só mais um pedacinho do meu karma vindo me punir.
— Como? – indaguei, confusa e cansada.
— Eu dormi com outro cara. – explicou, me fazendo lembrar da traição que desencadeou sua última tentativa suicida. – Edward não te contou?
— Contou, por alto...
— Foi horrível o que eu fiz com ele. E eu sinto que tudo o que veio depois disso foi culpa minha, por ter sido tão fraca e não ter tentado mais. Essa é minha punição.
— Não acredito nisso de punição. Mas se te consola, pense que agora vocês estão quites. Os dois vacilaram na relação. Karma equilibrado.
Tanya riu, uma risada desajeitada em meio ao choro.
— Minha vida é tão ridícula, que a pessoa que eu deveria odiar fica tentando me consolar e sendo fofa comigo.
— Você me odeia?
— Não... Eu só odeio que você seja você, e eu não possa ser quem ele deseja.
— Mas ele te desejou um dia. Ele esteve do seu lado por tanto tempo porque valeu a pena e foi bom enquanto durou. – eu dizia coisas que eu gostaria de ouvir. – Tenha isso mente, Tanya. Você foi amada por muito tempo e pode ser ainda mais, por outra pessoa igualmente maravilhosa como Edward.
— Não, eu não posso, essa não é minha realidade. Minha vida nunca é do jeito que eu quero que seja.
— A de ninguém é. Mas você tem as ferramentas, lembra? Se ame, se cuide. – eu implorei para que ela entendesse. – Vá viver a sua vida como você merece, porque Edward e eu já estamos vivendo a nossa.
Ela não tinha mais palavras para me rebater, e eu vi o momento em que desistiu. Nosso tempo tinha acabado.
— Preciso ir. – falei, me levantando. – Já deve estar todo mundo doido atrás de mim.
Assentindo, Tanya voltou a me olhar.
— Desculpa por desabafar com você. Se eu estava com vergonha antes, agora então...
— Sem problemas. – abri a porta do banheiro, sendo invadida pela festa novamente. – Você vai ficar bem aqui? Quer que eu chame alguém?
— Eu me viro...
Estava quase saindo quando ouvi meu nome.
— Bella?
— Sim?
— Prometa que vai não vai abandoná-lo quando ele estiver num período difícil, nem desistir... Prometa que vai fazê-lo feliz.
— Eu prometo que darei o meu melhor. É o que eu mais quero.
Suas palavras finais ficaram na minha mente por muito tempo.
Até depois de ir para casa e recontar a Edward todo o encontro, já de madrugada na minha cama. Ele apenas disse que me amava ainda mais por eu ter sido tão paciente e compreensiva. Naquela hora eu o beijei em agradecimento, me moldando ao seu corpo nu, e me empenhando para cumprir mais uma pequena fração da minha promessa.
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