Mais Uma Vez

26 Capítulo 25: O Caminho Certo


Notas iniciais
Disclaimer: Twilight não me pertence, mas essa história, assim como a filha da Bella e do Edward sim, portanto respeitem!
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Obrigada a Cella, a beta que é brasileira e não desiste nunca, e continua me apoiando nessa história mesmo depois de tudo.

Capítulo 25: O Caminho Certo

Os dois segundos de silêncio tenso foram o bastante para me deixar desconfortável. Eu já estava pegando minha bolsa para sair do apartamento de Edward o quanto antes.

- Tanya, não precisa se exaltar desse jeito. — ele a repreendeu em um tom que parecia mais paterno do que de um noivo. — Tenha respeito, por favor.

- Você mentiu pra mim e agora quer falar de respeito? — ela retrucou. Edward deu a volta na mesa e parou em frente à sua noiva. Eu assistia a cena pensando se tinha um jeito de desaparecer dali sem ninguém perceber.

- Não menti pra você. — ele falou e suspirou, certamente para se acalmar. — Bella e eu precisávamos discutir algumas coisas importantes. Só isso que estávamos fazendo.

Tanya enrugou os olhos, e então perguntou, desconfiada.

- Sobre a menina?

Edward me lançou um olhar nervoso, e logo assentiu rapidamente.

- Sim, sobre a nossa filha e... outras coisas. Eu só não te disse que era Bella, porque... Não sei, não veio a calhar.

Ela assentiu lentamente e virou-se para mim. Me senti como se estivéssemos em uma sala de aula, com a garota ciumenta encrencando com a inocente. Era tão ridículo que eu tive vontade de rolar os olhos, mas me limitei.

- Ok. Me desculpe, Bella. — falou de uma forma bem atravessada, claramente detestanto se desculpar. — Não foi minha intenção gritar com você.

- Tudo bem. — disse, e logo me encaminhei para a porta. — Eu já estava mesmo de saída.

- Bella, espera, não precisa ir assim. — Edward pediu, para minha surpresa. E para surpresa da noiva também.

- Não precisa? — ela perguntou. Antes que ele intervisse novamente, me apressei.

- Está tudo bem, Edward. Boa noite a vocês. — eu falei e saí porta afora.

Sequer me sentia ofendida, e talvez fosse porque agora eu podia perceber como era mesmo desequilibrada aquela moça. A única coisa que me fez refletir, enquanto eu descia no elevador foi se Tanya estava com ciúmes de mim. Bom, não me surpreendia, depois de tudo o que ele havia contado sobre sua relação com ela — e comigo. Agora estava explicado muito de seu comportamento ao meu redor, nos poucos encontros que tivemos.

Ela sentia-se ameaçada por mim, e uma pequena parte minha sentia satisfação por isso. Era um sentimento tão feio que eu o escondi debaixo do tapete rapidamente.

Para evitar que a situação na sala de Edward se repetisse no futuro, quando saí de sua casa enviei um SMS pedindo que falasse a Tanya toda a verdade sobre os nossos encontros semanais. Não tinha porquê esconder, afinal. Ele me respondeu pedindo desculpas pelo comportamento dela e me garantiu que diria mais tarde.

Por algum motivo eu não acreditei que ele realmente iria contar, então eu estava desde domingo lhe mandando mensagens de cobrança. Já era segunda-feira, e as mensagens de hoje estavam me entretendo durante uma enfadonha reunião mensal com anunciantes da revista.

Já falou?
- Bella

Ainda não. Ela está trabalhando.
- Edward

Eu sabia que você ia amarelar! Está com medo?
- Bella

Se ela cortar meu pinto fora a culpa é toda sua.
- Edward

Aquela me fez rir um pouco alto demais, e eu tampei a boca quando recebi olhares enviesados. E digitei a resposta.

Ela cortaria seu pinto se nós estivéssemos fodendo.
Não estamos e não iremos. São apenas conversas.
- Bella

Você obviamente não conhece Tanya na TPM.
- Edward

Ela não é nenhum monstro. Conta logo!
- Bella

Você vai me salvar se ela vier atrás de mim com um machadinho?
- Edward

CONTA LOGO. Tchau.
- Bella

E assim baixei o celular para prestar atenção ao que diziam. Foi só no meio da tarde, quase saindo do trabalho, quando de repente eu reparei no que tinha acontecido.

Edward e eu estivemos trocando mensagens, pacificamente, brincando um com o outro, como amigos faziam.

Apesar do conteúdo por trás das mensagens, aquilo me divertiu, eu não podia negar. Não sabia o que isso signficava, mas pela primeira vez não senti desgosto ao ver seu nome estampado na pequena tela do aparelho. Eu estava rindo de suas piadas e escondendo minha diversão dos colegas para não ser pega, adorando a novidade daquilo e o aspecto proibitivo. Eu havia partilhado um momento com Edward sem atritos, estampando um sorriso no meu rosto.

Era tudo tão incomum. Eu só podia constatar que algo fundamental havia começado a mudar na dinâmica da nossa interação, e me acalentava perceber que era algo positivo.

Na terça-feira, meu telefone tocou quando saí do elevador no horário de almoço. Atendi confusa.

- Edward?

- Tem planos pra almoçar?

- Ahm... Bom, só almoçar. Por quê? — perguntei passando pelo hall de entrada do prédio da New York Week.

- Porque... estou te chamando pra ir almoçar.

Antes que eu pudesse protestar, saí para a rua e quase esbarrei em Edward do lado de fora. Guardei o celular na bolsa, e o vi colocando o dele no bolso do paletó.

- O que está fazendo aqui? — inquiri.

- Tive que vir resolver umas coisas na agência do banco aqui em frente. — falou ajeitando o cabelo de uma forma um tanto nervosa. — Então, quer vir comigo?

- E você ia entrar no prédio mesmo antes de saber minha resposta?

- Ah... Sim. Desculpe por isso. Se você não quer, eu vou embora sem problemas. — ele começou a se afastar, mas segurei seu pulso.

- Espera. — suspirei, vendo seus olhos que pareciam... esperançosos? Eu não conseguia entender o que ele estava tentando agora. — Tudo bem, vamos almoçar.

- Sério?

- Só se for pra me dizer que você já contou tudo pra sua noiva.

Seu sorriso se abriu, então.

- Vamos. Eu conheço um bom lugar.

Nós paramos a dez minutos dali em um pequeno e charmoso restaurante que servia comida italiana, numa rua que eu nunca tinha entrado. Não podia dizer que não estava impressionada.

- Como você sabia desse lugar? — perguntei após sentarmos na mesa para dois. O aroma no ar era delicioso e já fazia meu estômago roncar, mas por sorte o garçom tinha vindo rapidamente e anotado nossos pedidos.

- Bom, às vezes eu preciso lidar com roteiros turísticos e temos que oferecer alternativas de restaurantes. Conheço muitos lugares que ninguém conhece.

- Deve ser muito bom trabalhar em um lugar assim. — ponderei. — Além dos descontos que você deve ganhar. Muitas facilidades.

Ele riu.

- Quem dera. Ok, eu tenho alguns descontos com os nossos parceiros, mas trabalhar em um hotel não é fácil. Nas épocas de alta temporada é uma loucura.

Peguei um pedaço do pão caseiro que o garçom tinha servido e mordisquei.

- Engraçado, eu nunca pensei nesse aspecto. Deve ser muito corrido mesmo.

- Pois é, mas eu não posso dizer que não gosto.

- Então você pode dizer que sente-se satisfeito com seu trabalho? — perguntei, por curiosidade. — Digo, não só com o trabalho em si, mas com uma carreira que você nunca sonhou... Deve ser um pouco frustrante.

- Eu me sinto satisfeito sim. Se esse tipo de trabalho me realiza, aí já é outra história, mas... Eu gosto do que faço. Me distrai, faz passar o tempo, e eu ainda ganho por isso. — ele sorriu sutilmente. — Só que o melhor de tudo é que eu achei uma paixão nesse ramo.

- Qual?

- Nova York. Eu descobri que amo essa cidade. Tem tanta história, tanta cultura... É fascinante.

- Edward Cullen virou um intelectual cosmopolita? — brinquei. — O que o tempo não faz com uma pessoa, hm?

Ele riu.

- Você entendeu o que quis dizer.

- Entendi sim. Eu também gosto muito da cidade. Apesar de já ter tido meus altos e baixos com ela... — falei, me recordando de como nós dois amávamos passear pelas ruas, sem destino. — Antes de 2001 era tudo tão mágico aqui. Eu amava a agitação da cidade, a liberdade. Aí depois todo aquele caos aconteceu, e então minha própria vida mudou tanto... Sabia que eu considerei seriamente me mudar daqui?

- Quando? — perguntou ele, e logo viu a resposta na expressão desgostosa que eu fiz. — Não, nem precisa responder. Já imagino bem quando.

Era impressionante como o assunto nos rondava, mesmo que não estivéssemos falando diretamente sobre Edward ter saído de casa. Estava sempre lá, o elefante branco na sala. Será que nunca iríamos nos livrar disso?

- O que eu podia fazer? — suspirei, tentando manter a conversa o mais leve possível para evitar qualquer indigestão da comida. — Eu tinha que pensar em alguma solução pra me livrar de você e de todas as memórias nos lugares por onde eu passava... Os lugares onde vivemos nossa adolescência e fomos felizes.

- Eu nunca me perdoaria se você mudasse toda sua vida por causa do que eu fiz.

- Bem, mas eu mudei de vida, de uma forma ou de outra, não?

Edward desviou o olhar e limpou a garganta. Dei graças pois ele decidiu mudar o assunto naquela hora.

- Outro dia eu fui encontrar com minha mãe na St Patrick e passei por aquele parque perto da escola... Você não vai acreditar no que eu achei.

- O quê?

- A árvore-do-céu... — seu olhar pediu para que eu reconhecesse sobre o que ele falava. E é claro que eu reconhecia.

Como eu poderia esquecer do lugar onde eu matava aulas para ouvir um garoto falando besteiras no meu ouvido, sem preocupações na vida? Como poderia esquecer do lugar do meu primeiro beijo? Do nosso primeiro beijo, e de tantos outros.

- Não acredito! Aquela onde a gente...

- Aham. — seu sorriso animado pela notícia me fez sorrir também.

- Caramba. Isso é tão estranho. Eu pensei que tivessem devastado todas as árvores daquele parque. Não tinham construído um teatro aberto ali?

- Sim, mas eles deixaram algumas na asa leste. E eu chequei, ainda tem as nossas iniciais no tronco.

- Mentira! Aquela árvore já deve ter passado por tanta coisa e nem era tão resistente assim.

- Acredite, ela está lá de pé. Se quiser um dia eu te mostro e provo como algumas coisas resistem ao tempo bom ou ruim. A natureza tem dessas.

Nós paramos o papo furado pois a comida chegou naquela hora. E eu fiquei incrivelmente feliz por ter aceitado um simples convite de almoço. Era tudo maravilhoso e nada daquilo que você esperaria comer ao meio dia em plena cidade.

Durante a sobremesa, me lembrei de perguntar sobre o que tinha me convencido a vir com Edward.

- Então, como foi com a Tanya? — inquiri após uma colherada na minha torta de maçã. — Você falou com ela, não falou?

- Falei. Ela deu um pouco de trabalho no início, mas logo aceitou. Eu disse que era pro meu próprio progresso e ela entendeu numa boa.

- Que bom. — disse. Reparei que ele estava há um tempo de olho na minha torta e então ofereci. — Quer um pedaço? Está uma delícia.

Mas ele pareceu não ouvir o que eu falei, e continuou perdido em pensamentos, até dizer.

- Isso é torta de maçã...

- Sim, o que tem de mais? — Edward estava me confundindo bastante hoje.

- Era só o que você conseguia comer quando estava grávida, não era?

- Como você lembra disso?

- Eu lembro de tudo, Bella. — ele sorriu misteriosamente. — Era torta e também sorvete de creme, não?

Eu só pude concordar.

- Aham... E às vezes batata frita.

- Isso mesmo. — falou e riu ligeiramente. — Foram quase nove meses comendo porcarias, e eu acompanhando. Meu pai brigava comigo todo dia por eu dar corda à sua pirraça com a comida, sabia?

- Ei, não era pirraça! — protestei. — Só me sentia enjoada demais. Cinco meses de enjôo, você não tem noção do que é isso.

- Não, mas eu estava ao seu lado o tempo todo. Eu entendi o que você passou. — concluiu com a voz suave.

- É, você estava o tempo todo ao meu lado. — concordei o que era verdade.

Terminei a torta minutos depois, e só então vi meu relógio com um susto.

- Nossa, já tenho que voltar pra redação. Até passei da hora.

- Tudo bem. Vou pedir a conta.

- Eu pago a minha parte.

- Claro que não, eu te convidei.

- Edward, nem comece. Você não me convidou, você só me chamou e eu aceitei.

- Dá no mesmo, eu devo essa gentileza.

- Se aceitei, eu já tinha em mente que iria pagar. — falei e suspirei. — Não vamos discutir por causa disso, ok? Não vamos estragar o almoço agradável que tive.

Vi suas sobrancelhas erguerem ligeiramente, talvez não acreditando que eu tivesse mesmo dito a última frase, tão naturalmente. Nem eu mesma acreditava no que tinha saído da minha boca.

- Tudo bem. — ele concordou, enfim. — Não vou estragar o seu almoço agradável.

Edward fez questão de me acompanhar de volta, mesmo eu dizendo que não era preciso. Nós paramos ao chegar na portaria da New York Week.

- Nos vemos na quinta? — ele perguntou.

- Sim. Eu ainda preciso... Você sabe, me acostumar com tudo. É tanta coisa nova pra assimilar, e eu preciso de um pouco mais de...

- Tempo. — ele completou o que eu queria dizer, e eu confirmei com um olhar. — Eu sei, também preciso. Não é só você que está tirando proveito disso. Eu pretendo cumprir a promessa que te fiz da última vez.

- Que bom. — falei com sinceridade, e virei para encará-lo.

Novamente, eu enxerguei em seus olhos algo diferente. Tentei decifrar o que tinha mudado. Quando ele me olhava antes de eu aceitar conversar e passar tudo a limpo, eu costumava ver a sua auto-piedade e seu arrependimento. Porém agora Edward parecia mais... forte. Mais seguro de si do que semana passada, e talvez até um pouco mais pra cima em seu ânimo. Havia um certo brilho que nunca esteve lá.

Talvez eu também estivesse parecendo diferente aos olhos dele, pois um grande peso daquilo que me corroía por dentro estava começando a sumir.

- Bella?

- Sim.

- Obrigado. Por ter aceitado ir comigo. Foi uma ótima companhia.

- Não há de que. Eu gostei também.

- Então... Até quinta.

- Até.

Ambos ficamos calados por alguns segundos, até que Edward estendesse sua mão para eu apertá-la, como sempre fazíamos. Eu olhei sua mão estendida ali. Mas simplesmente não parecia a coisa certa.

Meus pés foram para frente antes que eu me refreasse, e eu acabei envolvendo meus braços ao seu redor. Ele ficou tenso até entender que eu estava o abraçando e então abraçou de volta. Não durou muito. Entretanto, foi simbólico o bastante para que eu tivesse vontade de falar em seu ouvido.

- Não quero mais brigar, Edward.

Assim, sem que eu precisasse dizer mais, apenas para que ele compreendesse que eu estava em paz.

Ele sussurrou um "eu sei" e me liberou, seus dedos levemente roçando sobre o trecho de pele que escapava da barra da minha blusa, obviamente deixando um arrepio ao passar. Malditas terminações nervosas. Maldito nó que teima em se formar na minha garganta.

Antes de partir, Edward parou e abriu sua pasta.

- Eu quero te dar uma coisa... — eu esperei enquanto ele mexia ali dentro, ansiosa. Tirou um envelope branco e estendeu em minha direção.

- O que é isso? — perguntei, indo abrir o envelope, porém sua mão me interrompeu.

- Abra quando chegar em casa. Ou não abra, sei lá. — ele disse, parecendo incerto e nervoso consigo mesmo. — É só... Uma carta que eu escrevi pra você há uns dias. Você sabe, como aquelas...

Eu me senti ligeiramente boquiaberta por sua coragem. Pude reconhecer o esforço que deveria ser isso para ele.

- E você decidiu finalmente me entregar?

- Se nós já estamos nos abrindo e compartilhando tanta coisa, então eu pensei "por que não?". Eu precisava escrever isso aí naquele dia, aí só sentei e fui escrevendo... Se você não quiser ler, pode tacar fogo, não vou me importar.

- Deixa de bobagem, Edward. É claro que eu vou ler. — eu falei para evitar sua autocomiseração.

- Ok. — ele sorriu, parecendo mais calmo. — Mas não se sinta pressionada pelo que tem aí. Por favor. São só coisas que eu precisava expressar de alguma forma e não achava jeito.

- Entendo. É só mais uma forma de você me dizer coisas. Eu vou ler e então te falo o que achei.

- Está bem. — ele sorriu. — Bom trabalho.

Eu lhe ofereci um meio sorriso e entrei no saguão para voltar ao trabalho, deixando a carta na minha bolsa. Mas na volta, pouco consegui me concentrar nas tarefas.

O sentimento que tinha ficado após o almoço com Edward era novo, e uma importante descoberta não saía da minha cabeça: eu poderia me acostumar com essa convivência pacífica — mais do que isso, realmente prazerosa.

Era tão mais fácil do que viver constantemente com sua presença trocando farpas, com a mente cheia de pensamentos negativos e dúvidas que apenas me deixavam cansada.

Tavez fosse só isso — eu tinha chegado no meu limite. Aos poucos, verdades absolutas e os feios sentimentos enraizados iam caindo, um a um. E no final, agora a mágoa que eu guardei por tantos anos já não importava mais e nem fazia mais sentido, apesar de haver o risco do sabor da decepção imensa que eu vivi perdurar para sempre.

Eu tinha ficado cansada de lutar contra Edward, e quase inconscientemente, ao firmar nossos encontros no café, eu decidi lutar junto a ele, a favor da felicidade de ambos.

Sim, poderia tentar reconstruir nossa relação de amizade no fim disso tudo. Ter um vínculo maior seria positivo até para criarmos nossa filha com mais qualidade. Eu poderia ser amiga dele. Minha admiração tinha crescido muitos pontos hoje mesmo, quando ele me entregou aquele envelope. Edward tinha se tornado uma pessoa muito melhor do que eu podia imaginar — não sabia se por conta da maturidade ou por seu processo de autoconhecimento que ele já vinha tendo há anos, mas eu podia notar o seu imenso progresso. Eu reparava isso toda vez que o encontrava, e me sentia cada vez mais confortável com sua presença.

Seria a melhor das hipóteses que eu saísse de toda essa situação perdoando-o e conseguindo a minha felicidade, satisfeita e com meu amor próprio reconstruído, podendo além de tudo tê-lo como um amigo.

Sim, seria.

O problema todo começava com aquelas benditas cartas que eu li, pois agora eu sabia de coisas que se passavam na cabeça dele, e isso era irreversível. Todas as minhas ações em relação ao meu ex-marido atualmente estavam sendo baseadas principalmente no conteúdo daquilo que podia ter sido mantido em segredo para a eternidade, não fosse o meu estúpido acesso de raiva inconsequente naquela noite em sua festa de aniversário.

Não havia formas de fechar os olhos para o fato de que Edward ainda me amava.

Como eu sequer conseguiria lidar com isso agora? Como eu poderia tentar ser amiga do homem que tinha partido meu coração, mas continuou me amando todo o tempo, e ainda assim se comprometera com outra mulher? O seu amor era um impasse que eu não sabia como resolver no momento.

Se eu quisesse ter sua presença constante na minha vida, estaria arriscando uma possível dor de cabeça e teria que lidar com as consequências — afinal, como ele se comportaria daqui por diante? Como eu me comportaria? E caso eu decidisse me manter afastada, tinha medo de sentir como se toda minha luta fora um fracasso, que eu sequer havia conseguido superar o passado e ter sido capaz de conviver amigavelmente com o pai da minha filha.

Tudo isso me deixava puramente triste, por mim e por ele. Não havia mais raiva, nem mágoa ou rancor. Nossa conexão era profunda, eu não podia negar, e me faria incrivelmente feliz se pudéssemos terminar de uma maneira digna da nossa história. Mas é óbvio que sempre deveria haver um obstáculo entre nós.

Quando cheguei em casa naquele dia, eu deixei sua carta bem guardada em minha escrivaninha apesar da minha extrema curiosidade. Tomei um banho e comi qualquer coisa, e só então me tranquei no quarto após dar boa noite a Claire. Eu precisaria estar bem relaxa e com a mente mais aberta o possível para ler aquilo, tinha certeza.

Então com uma xícara de chá bem quente, e confortável com meus travesseiros, eu abri o envelope branco sem destinatário. E comecei a ler a carta de duas páginas com a caligrafia bem controlada de Edward. A primeira carta que ele me entregava pelo menos desde nossa adolescência.

Bella,

Faz um tempo que não te escrevo. E agora que nós estamos nos encontrando, é até estranho falar com você sem ter sua presença. É estranho inclusive ter a sua presença tão constante. Estou tão feliz, você nem sabe e eu tento esconder sempre, porque não quero deixar as coisas mais complicadas entre nós. Eu sei que você não gosta muito do meu entusiasmo. Eu noto o jeito como você age ao meu redor, sempre. Desculpe por meus deslizes.

Eu ando pensando muito (como sempre) com esses nossos encontros... Tem algumas coisas que eu ainda não sei como te dizer. Principalmente aquilo que está me deixando cada vez mais apreensivo.

A espera da nossa resolução final é uma tormenta. Eu nem sei se vamos ter mesmo uma resolução, um desfecho, mas ainda tenho a esperança de que você um dia finalmente me perdoe. Você sabe por que eu quero tanto o seu perdão, Bella?

Eu sei que cometi um erro enorme e muito grave. Se acontecesse o contrário comigo, se você tivesse feito o que fiz, eu mesmo não conseguiria entender, e sentiria raiva por muito tempo. Sei muito bem de tudo isso. É uma das coisas que hoje em dia eu tento consertar dentro de mim.

Você diz querer me ouvir e entender o meu lado, as minhas motivações naquela época... Mas saiba que eu também precisei de um tempão para conseguir fazer isso. Eu tive que aprender a me entender. Aquela noite em que te deixei foi uma ruptura. Meu eu antigo passou a ser uma pessoa que não queria me tornar, alguém que eu não sabia de onde tinha vindo.

Se para você o meu ato de partir foi inesperado, para mim foi muito pior. Imagine, Bella. Eu tinha virado um estrangeiro dentro de mim mesmo, agindo de uma forma que eu nunca sequer cogitei agir.

Nesses anos longe de você passei por tantos momentos terríveis, com muito medo de ter me perdido pra sempre dentro de mim mesmo. Cada passo desconhecido que eu dava, pensava "espera aí, de onde veio isso?". É uma merda viver assim. Viver desejando que você pudesse voltar no tempo, e que tudo voltasse a ser como antes...

É por isso, Bella, que eu busco tanto o seu perdão. Porque eu já me perdoei, já compreendi os meus atos falhos, já entendi o que deu errado em mim, e lido com as consequências até hoje. Então agora eu só preciso da sua validação para ficar em paz comigo mesmo, com meu passado. Nosso passado. Preciso saber que apesar de eu ter te magoado tanto, você compreende que nada do que fiz foi pensado justamente para te machucar.

Toda vez que eu me despeço de você, fico na expectativa de ouvir essas palavras que tanto espero. "Perdoo você". Elas nunca vem, mas tudo bem. Eu disse que esperaria o tempo que fosse, e continuo esperando pacientemente. Não vou te pressionar a nada. E nem pense que essa carta é algum tipo de ação passiva-agressiva, que eu estou tentando encher sua cabeça de remorso por não me perdoar ainda, e com isso te induzir a me perdoar. Não é, eu prometo pela nossa filha.

Acho que é isso por ora. Vou dormir agora porque minha cabeça está pesada. Eu ainda choro de vez em quando e hoje é um desses dias.

Me perdoe.

Me perdoe também por essa carta que já quase me arrependo de ter escrito e tentado te entregar. (Se você leu até aqui é porque eu consegui que você a aceitasse, então me desculpe por isso também).

Edward

Eu li três vezes aquela carta, seguidamente.

As palavras tinham uma força imensa em todas as situações, mas nesse caso era especial. Suas palavras me cativavam e me peguei querendo sempre saber o que tinha por trás de cada pensamento dentro das frases. Era uma parte tão íntima de Edward, um lado que eu nunca havia conhecido e agora se revelava para mim.

Eu lembrei de como fiquei mexida com as outras cartas clandestinas. Me perguntei brevemente o que teria acontecido caso ele tivesse resolvido enviá-las desde que começou a escrevê-las.

Uma frase havia chamado minha atenção, e nela se desencadeou uma série de pensamentos que me acompanharam até eu estar à beira do sono profundo. "Nada do que eu fiz foi pensado justamente para te machucar."

Eu sabia, no meu coração, que isso era verdade.

E então diversos momentos de nossa intimidade começaram a vir a tona na minha memória. Nós quase nunca brigávamos e isso era um defeito na nossa comunicação, eu já tinha percebido e admitido. Mas mesmo nos momentos problemáticos — os da convivência de casal, que eu costumava perceber dentro da minha casa com meus pais, por exemplo -, aqueles pequenos momentos em que um irritava o outro apenas pela existência, eu não conseguia me lembrar de qualquer ocasião em que Edward tenha sido desrespeitoso comigo.

Ele nunca tinha agido como um babaca no nosso relacionamento, por mais que após a separação eu o acusasse de ser um. Nenhuma vez sequer eu pensei "como eu gostaria de terminar com ele". Talvez estivesse cega de paixão naquela época, mas eu não conseguia sentir nada além de aceitação, amor e dedicação vindo de sua parte enquanto éramos um casal.

Durante os quase dez anos que ficamos juntos, Edward sempre foi tão bom comigo — tão bompara mim. Sempre.

Pensei sobre o que ele clamava naquela carta. Ele tinha se perdido e feito uma escolha equivocada, algo que qualquer pessoa sob essas condições estaria suscetível. O que eu faria em seu lugar, sofrendo das mesmas mazelas? As pessoas reagem de formas diferentes, mas seria eu capaz de aguentar toda a pressão, ou acabaria fazendo algo terrível, tendo uma escolha ruim em um momento de fraqueza e confusão?

Essa podia ser a chave para que eu conseguisse compreendê-lo e perdoá-lo completamente. A constatação fazia muito mais sentido do que qualquer outra acusação que eu poderia tentar achar agora. De repente, meus argumentos contra Edward começavam a perder força. Eu sentia, quase fisicamente, o emaranhado cinzento em minha cabeça se dissipando enquanto buscava o fio que conectava tudo e começava a desembaraçá-lo.

Meu sono chegou forte e me embalou para um sonho que somente me levou ainda mais a crer que minhas revelações estavam certas. Eu e Edward andando lado a lado sobre um trilho de trem abandonado; nos equilibrando, segurando firme na mão do outro para não cairmos no chão, ambos indo em direção a um só ponto comum.

Eu sabia que era a forma do meu subconsciente me dizer que eu estava no caminho certo.

xxx

Na manhã de quarta-feira, acordei pensando em Alice, e em como não falava com ela há um mês — além de poucos emails que trocamos e mensagens de texto. Liguei para minha amiga enquanto esperava no trânsito para o trabalho, e consegui marcar um jantar com ela ainda naquela noite. Quando cheguei lá, Alice me aguardava na mesa para dois.

- Bella! — ela sorriu assim que me viu, e eu retribuí. Levantou-se e nos abraçamos apertado por uns instantes, até que nos sentamos frente a frente.

- Estava com saudades. — falei, pegando sua mão e apertando uma vez. — Me diz, como estão as coisas em casa?

Ela suspirou.

- Melhorando, na medida do possível.

- Sério? Você parece tão cansada... — comentei com cautela para não ofendê-la.

- Eu estou exausta, Bella. Física e emocionalmente. — falou, e deu de ombros. — Mas é só minha obrigação. Rose está trabalhando pesado na fisioterapia, e agora começamos a fazer alguns exercícios em casa. Eu estou tomando todo meu tempo de férias nisso, e como ela está com movimentos limitados, eu acabo tendo que fazer muita coisa por ela.

Eu lancei um sorriso de compaixão.

- Ela está bem? Da última vez que eu a vi ela parecia ainda abalada com tudo.

- Rose está levando... Jasper a encaminhou a uma psicóloga amiga dele, e ela começou semana passada. Ainda me dói ver como ela parece tão perdida nesse momento, mas eu tenho fé que isso vai passar. Ela sabe que eu e o Jasper estamos dando total apoio. O maior problema agora são os planos que tivemos que mudar.

- Que planos?

- Nós devíamos ter ido essa semana fazer a matrícula na faculdade. Rose tinha escolhido a California como prioridade, mas agora... Simplesmente não tem jeito. Não posso mandá-la pro outro lado do país nessas condições, e as aulas começam no final do mês.

- Que pena. Ela devia estar tão animada.

- É, isso a deixou ainda mais abatida, e mesmo já sendo maior de idade, ela sabe que não pode ir sem a nossa ajuda. Mas nós resolvemos fazer a matrícula na segunda opção, Columbia, pra poder ficar perto da gente aqui em Nova York. Eu prometi que assim que tudo normalizasse, ela poderia tentar uma transferência para a California.

- E o namorado... Emmett? Ainda estão juntos?

- Sim. E mais forte do que nunca. — ela sorriu. — Sabe, é engraçado. Estou positivamente surpresa por esse rapaz. Ele não saiu de perto dela nem um momento. Está sempre ligando, oferecendo ajuda... E sabe o que foi mais? Ele recusou a faculdade na California, porque iriam juntos. Resolveu ir para a Columbia também.

- Parece mesmo um príncipe encantado. — eu brinquei. — Eles fizeram provas para os mesmos lugares e foram aceitos em todos?

- Só essas duas, ao que parece. E sim, Emmett é um menino muito bom, mas... Nada disso anula o fato do que aconteceu. E apesar de eu estar tentando lidar da melhor forma, ainda me sinto afetada. Acho que agora estou me doando muito mais. Estou dando tanta atenção à minha filha, que tenho medo de estar sufocando.

Meu coração apertou por Alice e seu sofrimento. Os meus problemas de repente pareciam insignificantes perto do que ela estava passando. Por que mesmo ainda teimava em complicar tudo sempre?

- Sinto muito ouvir isso. — falei suavemente. — Mas eu acho que você vai encontrar a solução. Converse com Rose. Eu sei que você tem sensibilidade o bastante pra saber quando parar. Se não souber... ela vai deixar claro.

- Eu sei. Vamos deixar o tempo agir, certo? — ela falou com um suspiro. — Bom, mas me conta de você. É impressão minha ou eu estou vendo uma coisa diferente em você?

Eu olhei para baixo, me avaliando.

- Diferente? Eu não fiz nada no cabelo, Alice. Deve ser impressão.

- Não estou falando disso, estou falando de... — ela franziu os olhos. — Você parece mais leve, descontraída. Não consegue nem esconder o bom humor mesmo eu contando todo esse drama da minha vida. O que houve?

Eu desviei o olhar, me sentindo muito consciente do que ela dizia e quase envergonhada. Mas eu não tinha nada para me envergonhar, pelo contrário. Portanto ergui a cabeça.

- Ahm, bem... Muitas coisas aconteceram. A primeira delas é que... eu voltei a conversar com Edward.

- Ele me disse. Mas eu não sabia que era esse tipo de conversa. Mudou de nome, é? — ela insinuou de uma forma bem juvenil, e eu rolei os olhos.

- Não, nada disso. Nós só estamos nos falando... Dialogando, passando a limpo muitas coisas. Eu me sinto muito bem mesmo. Acho que finalmente estou em paz com Edward.

Alice abriu um sorriso enorme.

- Bella! Não acredito! Isso é tão bom. Estou feliz por você finalmente ter parado de ser cabeça dura.

- É, mas ainda não chegamos ao fim desse... ciclo. Eu tenho ouvido muito das explicações dele, e tudo o que ele precisava me dizer e convencer sobre o que o fez sair de casa. E eu também consegui enxergar muios dos meus erros. Agora o que mais quero é conseguir perdoá-lo e deixar tudo para trás de uma vez.

- O que está te impedindo, então?

- Eu... eu não sei. Não sei exatamente, só sei que o pensamento disso me deixa muito desnorteada.

- Bella, posso te dar um conselho?

- Pode.

- O tempo está passando. E ficando cada vez mais curto.

Eu esperei que ela elaborasse, mas nada se seguiu.

- O que isso significa?

- Significa que eu não sei porque você precisa enrolar mais. Passe logo uma borracha em cima de tudo isso, e bola pra frente. Vocês já perderam tempo demais.

Eu sabia que Alice estava certa. E não sabia mais o que estava me impedindo, na realidade. A essa altura, eu já não conseguia mais pensar em nada que ainda prendesse às minhas antigas concepções a respeito de Edward. Todos os meus argumentos contra ele tinham sido, lentamente, abafados por novas dimensões de quem ele era. Hoje sentia que eu o conhecia de verdade, a fundo. Ele estava sendo honesto comigo, e aquela carta dessa semana havia me pegado de jeito.

- Eu vou ver o que posso fazer. — respondi, para acalmar seus ânimos, por ora.

- Ah, eu não aguento essa sua indecisão, francamente... — Alice, parou de falar de repente e olhou para minha cabeça. — Bella, isso é um cabelo branco?

Coloquei minha mão no alto da cabeça.

- Ahm, onde? — mas ela foi mais rápida e logo puxou um fio. — Ai! Isso doí!

- Ah, com certeza é um fio branco. — falou enquanto analisava-o antes de soltar no chão.

- E precisava arrancar assim? — disse, irritada.

- Essa é a prova de que você está ficando velha, amiga.

- Não precisa me dizer, ok? Vou marcar o cabeleireiro amanhã e dar um jeito nisso.

- Ei, não pira. Só tem esse por enquanto. Pior eu, que já tenho quase metade da cabeça branca... — ela tocou seu cabelo curto e pintado de um castanho escuro. Quando a conheci com o cabelo natural, Alice era uma loira quase ruiva. — Malditos genes. Não sei como Edward ainda não começou a ficar grisalho.

- Ele é o caçula, foi mimado até na loteria genética.

- Aquele moleque! — ela esbravejou com raiva verdadeira e eu ri. Porém logo o humor foi se afastando enquanto eu refletia no quanto havia mudado esse ano. O quanto eu tinha amadurecido.

Eu suspirei.

- Eu realmente me sinto mais velha, sabe, Alice. Acho que cresci muito esse ano, em vários aspectos.

- É verdade, esse está sendo um ano e tanto. Ainda bem que está quase acabando... — eu vi que ela começou a ficar desconfortável ao relembrar de todos os acontecimentos recentes, e mudou de assunto rapidamente. — Falando nisso, o que vamos fazer pro seu aniversário? Já é semana que vem.

Eu fiz uma careta ao me lembrar. Não estava necessariamente querendo uma grande comemoração para os meus 33 anos, até porque ultimamente eu andava tão absorta na resolução dos meus problemas e no trabalho, que quase havia esquecido do meu próprio aniversário.

- Não pensei em nada. — dei de ombros. — Talvez só um jantar em algum restaurante.

- Eu vou pensar em algo, deixa comigo. Nós precisamos celebrar! — ela afirmou um tanto misteriosa, o que quase me deixou receosa pelo que ia aprontar. — E Claire? O aniversário dela também está perto.

- Ah, não sei. Falta muito. Ainda não conversamos sobre isso.

- Faltam dois meses. Se você quiser, eu planejo a festa. Vai distrair minha cabeça.

- É, acho que ela vai acabar querendo mesmo uma festa na casa dos avós, como todos os anos. Eu falo com ela e depois te ligo.

Nós continuamos falando besteiras, e enfim pedimos nosso jantar, depois de tanto tagarelar. Cheguei em casa cedo o bastante para poder assistir um pouco de TV, porém tudo o que eu fiz assim que me aprontei para dormir foi abrir a gaveta da escrivaninha e pegar aquele envelope.

Eu li a carta de Edward mais uma vez, já decorando suas palavras. E minhas suspeitas estavam certas. Eu me sentia pronta. Não havia em mim mais nada que me fizesse desistir de perdoar Edward.

Não seria fácil se acostumar com a ideia, e também nem por isso o que aconteceu no passado seria apagado. A ferida continuaria tendo existido. A diferença é que agora eu sentia que ela havia, finalmente, cicatrizado por completo.

Notas finais
N/A: Como (a maioria de) vocês, Alice também é 100% Beward. heheheh
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Para quem deixar review dessa vez eu vou enviar um EXTRA do passado - uma cena solta que eu escrevi, mas não coube em lugar nenhum. É uma cena fofinha e tals sobre aquela árvore que eles citam.
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Até semana que vem, beijos!