Mais Uma Vez
22 Capítulo 21: Visão
Notas iniciais
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Capítulo 21: Visão
Acordei de sobressalto com o barulho do despertador, sem sequer lembrar de ter adormecido. Já era segunda-feira após um final de semana que se arrastara. Lento, introspectivo, onde o tempo pareceu estar em suspensão apenas para mim.
Entrei no banheiro, logo encontrando no espelho o reflexo dos meus olhos inchados, e sequer me surpreendi. Os últimos três fins de noite haviam sido embalados pelo meu choro. Não conseguia evitar. Era a pior hora para alguém que estava com a cabeça pesada sobre o travesseiro.
Ainda tentava digerir tudo o que agora eu sabia sobre meu passado. Os trechos da conversa de Edward volta e meia apareciam para mim, relembrando-me daquilo que eu precisava reunir, costurar e remendar no meu interior.
Agora, mais do que nunca, aquela ferida doía. Latejava insistentemente, e a essa altura, tudo o que eu queria era que ela se fechasse de vez. Mesmo que minha razão dissesse que logicamente isso não seria possível sem que antes eu passasse por todo o processo de cura que eu precisava.
Deixei o café da manhã pronto antes de sair, para quando minha filha acordasse, com um bilhete dizendo que me ligasse caso fosse para algum lugar. Edward havia trazido Claire um pouco mais tarde ontem, já que ela estava de férias e não teria aula cedo, e por sorte, eu já estava dormindo quando ele veio aqui em casa.
Quando cheguei ao escritório, a atmosfera do dia na redação parecia combinar com meu humor: cinzenta. Havia pendências a serem resolvidas sobre a matéria em andamento, coisas burocráticas e chatas, mas com as quais eu prontamente lidei.
Por volta do horário de almoço, meu celular tocou. Alice, que falara com uma voz estranha, me chamou para conversar em sua casa depois que eu saísse do trabalho, e assim ficou combinado.
Desde o domingo no hospital eu não havia mais encontrado com a minha amiga, então não sabia muito bem o que ela estaria pensando ou sentindo. Parte de mim sentia remorso por não estar ao seu lado num momento tão complicado de sua vida, mas não havia muitas escolhas. A minhaprópria vida estava um caos e meus problemas careciam de mais atenção agora, por mais egoísta que fosse.
Após uma reunião bastante morna com minha equipe durante a tarde, recebi outra ligação, desta vez de Riley.
– Alô?
– Bella, tudo bem? Pode falar agora?
– Claro.
– Bom, eu encontrei alguns erros no material que você me mandou semana passada. Algumas informações estão faltando no levantamento que você fez, e eu preciso disso para continuar o trabalho nessa semana. Você pode dar uma passada no Le Printemps ainda hoje e resolver isso?
Eu respirei fundo, pois pensar no andamento do livro sobre aquele hotel era tudo o que eu não queria no momento.
– É urgente? – perguntei, torcendo para que pudesse haver outra solução.
– Infelizmente nós temos um contrato e estamos trabalhando com prazos, Bella. Eu sei que você tem suas obrigações aí na revista, mas...
– É só que eu não vou conseguir lidar com isso hoje. Riley, por favor, se você estiver disponível, quebre esse galho pra mim.
Algo em meu pedido pareceu amolecer Riley. Sua voz suavizou-se e ele perguntou com preocupação.
– O que aconteceu, Bella? Você parece triste...
– Nada de grave. Mas eu preciso ir visitar Alice hoje. Ela me ligou mais cedo e não gostei da forma como ela soou. Acho que ela está precisando de mim.
– É só isso mesmo? Eu fico preocupado.– disse, substituindo seu tom profissional por um mais carinhoso. — Ultimamente você não está agindo como a Bella que eu conheço.
– Eu sei... Eu... – divaguei, sem saber como responder. — Riley, eu estou passando por um momento meio difícil, e preciso de tempo pra consertar tudo na minha vida pessoal. Não estou sendo a melhor companheira de trabalho ultimamente, e peço desculpas por isso. Prometo que vou resolver toda essa... essa merda em breve.
– Não tem problema nenhum, eu entendo. Se quiser conversar, eu estou aqui. – ele disse com sinceridade, e sua consideração por mim me fez sorrir involuntariamente para o celular.
– Obrigada por entender.
Antes de desligarmos, Riley me garantiu que iria até o hotel verificar o que havia de errado. O meu horário de saída chegou num piscar de olhos, e logo eu já estava no carro a caminho do apartamento de Alice e Jasper.
Quando toquei a campanhia, minha filha abriu a porta.
– Está morando aqui agora, é? – brinquei ao entrar e beijar sua bochecha. Coloquei minha bolsa sobre a mesinha de canto na entrada e tirei os sapatos da rua, como era o costume na casa deles.
– Rose pediu pra me ver. – ela deu de ombros e vi que comia um doce. — Tem duas amigas dela aqui, estamos vendo uns filmes. Tia Ali até fez cupcakes!
Andamos até a ampla e aconchegante sala. No sofá estavam duas meninas que eu não conhecia, minha sobrinha e seu namorado, ao seu lado. Rose parecia bem melhor do que da última vez que eu a vira, mesmo que quando sorrisse a intenção não atingisse seu olhar.
– Bella! – ela falou assim que me viu, tentando se levantar, mas Emmett logo interveio e a impediu.
– Pode ficar paradinha aí. – ele avisou. — Repouso absoluto, não lembra?
– É, pode ficar sentada, Rose. – eu disse, indo até ela, que somente rolou os olhos. Acenando para os convidados da casa, eu falei. – Oi, Emmett.
Eu abracei minha sobrinha e sentei-me ao lado dela, enquanto os outros prestavam atenção ao filme na TV.
– Como você está? – perguntei, pegando em sua mão.
– Já estou cansada de tanto repouso. – falou com um suspiro e sorriu tristonha. — Mas estou bem melhor agora.
– Que bom. – falei alisando seu cabelo. Ela ainda estava um pouco pálida, mas não da forma assustadora como no hospital, da última vez que a vi. Se eu fosse franca, algo além da tristeza tingia sua expressão. Rosalie parecia mais velha. Certamente, algo dentro dela havia mudado com toda essa experiência.
– Eu nem pude te agradecer direito... Muito obrigada por tudo o que você fez, tia. – ela falou baixinho.
– Tsc, bobagem, não fiz nada além do que deveria ser feito.
– Fez muito, sim. Mas eu sei que você é cabeça dura e não gosta de que a gente te dê muitos méritos pelas coisas, então tudo bem. – disse, me fazendo sorrir.
– Bom, na verdade eu vim conversar com sua mãe. – falei me levantando. — Ela está no quarto?
– Sim, só que... Ela ainda está estranha comigo. Tente animá-la um pouco, por favor?
Eu assenti a cabeça. – Vou tentar, meu bem. Agora, fique comportada aí, hein? Você teve uma lesão muito séria na bacia.
– Eu sei, mas só me lembro disso quando dói. – ela resmungou.
Eu deixei os adolescentes na sala e fui em busca de Alice. Vi a porta do seu escritório entreaberta e entrei, sem bater. Ela digitava alguma coisa freneticamente no computador.
– Alice? Cheguei. – chamei. Ela assustou-se com minha presença, mas logo largou o que fazia e veio em minha direção.
– Que bom que você veio. – falou em forma de alívio, me abraçando rapidamente.
– É claro que eu viria. Eu prometi.
Ela assentiu e virou-se para a mesa.
– Venha, sente-se.
Nos sentamos nas poltronas confortáveis, frente a frente. Alice inclinou-se e esticou suas mãos na minha direção. Eu logo entendi o que ela queria, e então me inclinei também, para que ela pudesse segurar as minhas. Ela suspirou longamente, mas quando pensei que ela estava pronta a falar, desviou seu olhar.
– O que houve, Ali? – pressionei.
Ela molhou os lábios antes de começar.
– Acho que nós temos algumas coisas pra acertar.
Meu coração passou a acelerar involuntariamente. Eu não sabia o quanto Edward havia contado para ela, e também não me sentiria confortável caso ela soubesse dos detalhes.
– Sobre o quê? – perguntei.
– Primeiro, eu preciso te agradecer. Rose me contou exatamente tudo que ela passou naquele dia no ginásio, até o hospital... Eu não sei o que poderia acontecer se você não estivesse lá. Você ficou ao lado da minha filha quando eu não pude estar. Muito obrigada, Bella.
– Eu fiz o que devia ser feito. Eu sei que você faria o mesmo por mim e pela minha filha.
– É claro que sim. – ela soltou uma respiração difícil. — Mas... Não sei, Bella. Pra mim ainda é complicado aceitar tudo o que aconteceu. Era, literalmente, a última coisa que eu esperava que fosse acontecer.
– Como você está, Alice? De verdade. Pode se abrir comigo.
– Estou mal. – começou a dizer. — Estou me sentindo péssima. Decepcionada comigo mesma. Fico tentando saber onde eu errei, mas...
– Como assim, onde você errou? Nada disso é culpa sua.
– É sim, Bella. – ela teimou, soltando minhas mãos para passar as suas pelo rosto exasperadamente. — Eu negligenciei minha própria filha. Se eu tivesse prestado mais atenção nela, essa gravidez sequer teria acontecido, como aconteceu bem debaixo do meu nariz.
– Não acho que você conseguiria impedir que ocorresse, caso o destino quisesse assim.
– Ah, eu poderia sim, Bella. Mas não é só isso... – continuou. — Estou principalmente magoada por ela ter escondido durante tanto tempo. Por não ter nem pedido ajuda, nada. Alguma coisa na nossa relação deu errado, e é por isso que sei que errei no meu papel de mãe. Eu falhei.
– Todas nós erramos, Alice. Céus, como eu sei que nós falhamos como mãe... Isso é ser humano. E uma vez que os filhos crescem, nós perdemos o controle sobre a vida deles. Você não pode ficar se culpando por algo que poderia acontecer mesmo se Rosalie estivesse sob sua supervisão durante todo o seu tempo livre. Não pode, simplesmente porque isso é a vida. Deslizes acontecem... Todos estamos sujeitos a errar e a viver coisas que não estavam nos planos.
– Isso é tudo muito bonito no discurso, Bella, mas quando se torna um fato, a realidade é outra. – ela falou. Eu abri a boca para protestar, porém ela foi mais rápida. — Eu sei, eu sei. Você está completamente com a razão. Mas é difícil aceitar que se não fosse por apenas um detalhe, toda a vida da minha família estaria mudada daqui por diante. O futuro de Rosalie poderia ter sido prejudicado. E ela é só uma criança.
– Alice, me desculpe, mas eu acho que tenho um pouco de propriedade dentro desse assunto. – disse com firmeza. — Você nunca pode pensar assim em casos como esse, não dá pra generalizar. No meu caso, Claire nasceu de um erro nosso, mas no final tudo deu certo. E se não fosse por ela, eu seria outra pessoa. Não foi nada fácil chegar até aqui, mas eu cheguei. E tenho certeza que se a gravidez de Rose tivesse ido adiante, ela seria tão bem sucedida quanto eu, ou até mais.
– Sabe o pior? – ela suspirou, parecendo não ouvir o que eu dizia. — Eu nunca imaginei que isso pudesse acontecer comigo. Agora eu posso entender perfeitamente o que meus pais sentiram quando meu irmão, um moleque descabelado, chegou em casa anunciando que ia ser pai. É desesperadora a sensação de incapacidade, de não poder fazer nada pra mudar aquilo...
Eu estava começando a ficar ligeiramente ofendida pela forma como ela tratava da quase gravidez de Rosalie. Mas decidi não levar para o lado pessoal. Alice não estava em seus melhores dias, afinal.
– Está bem, Alice, eu já entendi seu ponto. – falei, terminando sua ladainha. — Mas não se prenda aos "e se?". Esqueça isso. Olhe só para frente agora, e tente trabalhar no seu relacionamento com Rose. Acho que isso é o que vocês precisam agora. Dar apoio uma a outra.
Ela sorriu tristonha.
– É o que eu mais quero, Bella. Mas ainda preciso achar uma forma de reconstruir nossa relação, a minha confiança nela, e minha própria segurança de que não vou pisar na bola novamente. Estou deixando o tempo dizer como devo agir.
– Bom. – assenti a cabeça. — Acho que é um bom começo. E como Jasper está lidando com tudo?
– Ele só diz que nós devemos mandá-la a um psicólogo, porque ela tem problemas a tratar. Está me apoiando como marido, mas como médico ele não aceita que eu diga essas coisas que te falei. Não quer que eu fique me achando a culpada.
– É claro que não. Está vendo? Ele diz isso porque é a verdade lógica. Meu conselho não tem nada de sentimentalista.
– Quem sabe? – Alice voltou a se recostar na cadeira e eu fiz o mesmo.
– Então, qual era a outra coisa que você queria conversar? – perguntei depois de um tempo de silêncio.
Ela saiu de sua posição confortável na poltrona e pôs-se para frente novamente. Tensa.
– Sobre... você e Edward. – ela disse, e foi a minha vez de ficar tensa no meu assento. — Ele me contou o que houve no dia da festa de aniversário dele. E me contou que vocês conversaram na sexta.
– O que ele te disse? – perguntei, sentindo a boca secar com a menção da fatídica festa de aniversário.
– Bom, que você tinha achado as caixas de velharias de Edward, e que você leu o diário dele, as cartas... Depois, ontem, ele me ligou para contar que vocês tinham conversado. Mas por favor, Bella, não o recrimine por ter me contado essas coisas. Meu irmão precisa de alguém para desabafar sobre o assunto, e ele sempre contou comigo.
– Está bem. – concedi, mas me reservei. — E o que você tem a dizer sobre isso? Eu posso te ouvir, contanto que não queira se meter como já se meteu outras vezes...
– Não, Bella, não é nada disso. – ela foi ágil em dizer. — Eu só quero te pedir perdão. Porque, sim, fui eu que levei aquelas coisas pra casa dos meus pais, e tinha até pensado em te mostrar, mas... Não era para você descobrir tudo daquele jeito, foi por isso que desisti de tentar conversar com você durante a festa. Eu me lembro muito bem da forma como você saiu do quarto dele naquela noite, e eu nunca tinha te visto assim. Me perdoe se te fiz sofrer com algo que poderia ter sido discutido de uma maneira bem menos traumática.
Por uns instante, eu refleti sobre aquilo. Será mesmo que poderia ter sido menos arrebatador, caso eu tivesse descoberto tudo o que li nas cartas de outra forma? Eu duvidava muito que sim. Definitivamente, eu não trocaria o que aconteceu naquela noite por outra situação mais convencional.
– Sabe de uma coisa, Alice? – falei dando um suspiro profundo. — Se não tivesse sido dessa forma, eu tenho certeza que eu ainda não saberia de nada. Ainda estaria cega pela minha própria mágoa. Foi bom poder ter o meu momento, poder confrontar tudo aquilo sozinha, e tirar minhas próprias conclusões, sem envolvimento ou influência direta de ninguém. Ler aquelas cartas foi muito duro, mas me preparou para a conversa que Edward e eu tivemos sexta-feira. Não preciso te perdoar por nada.
– Você não sabe como eu fico feliz de te ouvir falando assim, Bella. – ela começou a dizer, porém a interrompi erguendo uma mão.
– Porém… Você lembra da discussão que tivemos no dia da festa? Sobre você estar se metendo demais na minha vida.
– Me metendo. – ela falou de forma irônica, sacudindo a cabeça. — Eu sou sua amiga, é isso que amigos fazem. Se metem da vida do outro.
– Não é esse o tipo de amizade que eu quero de você. Até porque, existe uma fronteira entre se meter e aconselhar, cuidar… Você ultrapassou essa fronteira muitas vezes, e eu não posso mais permitir isso. – eu falei, querendo que agora ela prestasse total atenção e me entendesse bem. Me inclinei e dessa vez fui eu que peguei suas mãos. — Alice, querendo ou não, nossa amizade é um caso especial. Nós temos em comum uma pessoa que foi e é importante na nossa vida, de diferentes formas. Você nunca vai conseguir ficar neutra quando o assunto envolver o seu irmão e a felicidade dele, ainda mais se eu estiver no meio. Mas para que nós possamos prosseguir sendo amigas, eu preciso que você consiga separar isso; esqueça que um dia eu fui sua cunhada, e que você sempre achou que Edward e eu devemos ficar juntos para sempre. Por favor. Pense em mim e nele como duas pessoas divorciadas que seguiram suas vidas, e que agora podem ser felizes de maneiras diferentes, e não há nada que você possa fazer que irá mudar isso.
Eu terminei meu pequeno apelo, e Alice piscou os olhos algumas vezes. Lentamente, ela assentiu a cabeça.
– Você promete que vai fazer isso? – eu pressionei.
– Prometo, Bella. Me dói ter que fazer essa palhaç… – ela se refreou em dizer, e respirou uma vez. — Sim, eu prometo.
– Ótimo. – eu sorri e me levantei da poltrona, puxando-a para um abraço apertado.
– Eu estou indo contra aquilo que eu acredito só para não te perder, Bella. – ela sussurrou no meu cabelo. — Sou ou não sou uma ótima amiga?
Eu deu uma risada curta. Alice não iria mudar nunca seu jeito intruso e superprotetor com suas pessoas queridas, mas eu sabia que ela cumpriria sua palavra em não mais se meter na minha vida quando eu não a chamasse.
– Bom... – ela começou a dizer.
– O que foi?
– Ah, deixa pra lá. – sacudiu a cabeça.
– Pode falar, Alice. – eu rolei os olhos.
– É que... Eu quero muito saber o que aconteceu nessa conversa entre vocês. Edward só me disse que aconteceu, não divulgou detalhes. Mas tudo bem, eu não vou te pressionar.
Eu avaliei seu rosto, sentando-me novamente na poltrona cor de berinjela. Ela parecia resignada e genuína.
– Se eu te contar, você vai me ouvir somente como uma amiga?
– Sim. – Alice sentou-se. — Além disso, não vou correndo contar tudo a Edward.
– Tudo bem. Ele me contou toda a história, desde o início, e eu ouvi. Foi pacífico, de certa forma. Eu não gritei nem esperneei. Só ouvi e deixei que tudo penetrasse minha cabeça.
– Até que enfim. – ela soltou e eu a lancei um olhar repreendedor. — Ok, desculpa.
– O problema agora é só... O que eu vou fazer com essas informações todas, Alice? Não sei se consigo perdoá-lo por completo. Depois de tantos anos sofrendo por causa disso, é complicado. Só de pensar que estou voltando a mexer num assunto do qual eu pensava já estar me esquecendo...
– Bella, querida, você nunca esqueceu. – ela disse suavemente. — Admita isso a si mesma. E tenho certeza que se não tivessem tido essa conversa agora, uma hora ou outra ela teria que acontecer. Se não, você passaria o resto dos seus dias vivendo com esse peso nas costas. Já imaginou?
– É, eu sei. – bufei. — Mas eu continuo perdida. Agora, mais do que nunca. Não sei o que devo fazer. Não sei se posso perdoar de coração.
– Por que não?
– Porque... – Como eu responderia a isso? A verdade é que o motivo exato e real de não conseguir dar o meu perdão a Edward era turvo, mesmo para mim. Apenas havia um bloqueio. Um muro alto que ainda era difícil escalar e ver o que tinha do outro lado. Então eu tentei explicar. — Você deve saber tudo o que Edward me falou, sobre aquela síndrome... depressão, não sei. Eu acredito que essas coisas são sérias e verdadeiras. Mas e aí? Será que isso era razão suficiente para ele ter feito o que fez? Será que eu posso passar em cima do fato de que Edward escondia de mim um monte de questões e sentimentos, muito antes de ele resolver fugir de casa? É difícil aceitar perdoar alguém sob essas condições, ainda mais alguém que me causou um sofrimento tão grande.
Alice ouvia com paciência. Esperou até que eu acabasse de balbuciar meus questionamentos para falar.
– Posso dar minha opinião?
– Vá em frente.
– Você está com medo. De alguma coisa que eu não sei bem o que é, mas também não preciso saber, porque no fundo, você sabe e é o que interessa. Primeiro, eu acho que você deve tentarentender Edward. Entender de cabeça e coração aberto o que ele estava passando naquela época.
Totalmente desamparada, eu perguntei. – Como?
– Procure saber mais sobre o transtorno que o influenciou, a síndrome do pânico. Eu te aconselharia a até esclarecer diretamente isso com Edward, mas já sei que não devo te induzir a ter contato com ele. – ela falou com um desdém a minha reivindicação, e eu somente rolei os olhos. Mas ela logo se inclinou para pegar em minha mão carinhosamente. — Mais do que tudo, Bella, eu acho que o melhor caminho é você tentar se lembrar de como era sua vida naquela época, de como vocês eram. Só assim você vai conseguir começar a compreender toda a situação, porque agora você já está muito longe dela; agora tem a visão ampla, aberta e pode avaliá-la melhor.
Eu engoli o inconveniente nó que havia formado na base da garganta, e assenti a cabeça.
– Acho que pode ser um bom princípio. Só não sei o quanto eu vou demorar até conseguir realizar isso. Muito menos o que vai acontecer depois...
– Shh. – Alice alisou minhas mãos de forma tranquilizadora. — Dê tempo a si mesma. Não fique se sentindo pressionada, se corroendo por dentro, porque isso faz mal e vai te dar uns cabelos brancos desnecessários.
Eu soltei uma risada abafada, ela sorriu com ternura, e continou.
– Deixe o tempo resolver isso por você. Vocês já chegaram até aqui, já é uma vitória. Se alguma coisa tiver que mudar depois que tudo for resolvido, irá mudar. Se algo tiver que acontecer, irá acontecer.
Eu sorri.
– Você e seus conselhos fundamentais. Eu espero que você esteja certa, Alice.
– Pff, eu sempre estou certa.
Eu balancei a cabeça, mas lhe agradeci.
– Obrigada por tudo, Alice.
– Não há de quê. Eu só quero o seu bem. E o do meu irmão também, é claro.
– Só mais uma coisa. Por favor, não diga nada a Claire sobre o que está acontecendo. Eu não quero que ela saiba, ainda.
– Claro. – ela assentiu. — É melhor protegê-la por enquanto. Mais tarde vocês terão tempo suficiente pra explicar tudo a ela.
– Sim. – respondi sem muita certeza. Pensar em contar em detalhes tudo o que Edward havia me contado sequer havia passado pela minha cabeça. Mas, seguindo o conselho de Alice, deixei essa questão para lá; que eu me preocupasse com isso somente na hora certa.
Ainda não estava totalmente convencida de que tudo seria simples como Alice fez parecer, mas depois da nossa conversa, minhas esperanças para o futuro tinham sido revigoradas. Me sentia um pouco mais confiante para enfrentar tudo o que eu passei fugindo durante quase dez anos da minha vida.
Já era tarde da noite quando Claire e eu fomos embora do apartamento deles. O silêncio do carro na nossa viagem de volta estava me deixando agoniada, então tentei uma conversação.
– Como foi o seu dia hoje? – perguntei à minha filha, já que parecia que ultimamente eu não estava lhe despendendo a devida atenção.
– Nada de mais. Acordei um pouco tarde, depois fiquei vendo umas coisas no computador. Aí a Tia Alice passou lá em casa — sem me ligar, diga-se de passagem -, e me levou pra lá. Depois ficamos só comendo e vendo filmes até você chegar.
– Vida boa, hein? – eu brinquei.
– Vou levando. – ela deu de ombros, me fazendo rir. Mas Claire continou calada depois disso.
– Ei, o que foi? – inquiri. — Está tão quieta.
Ela bufou. – Eu que te pergunto.
– Me pergunta o quê?
– Como foi o seu dia? Ou melhor, dias? – ela inquiriu de modo petulante, me fazendo desviar os olhos da rodovia e encará-la por um instante.
– Ahm?
– Ah, qual é, mãe. Você está toda esquisita nesses últimos dias. Aliás, tem umas semanas que você está assim. Bem antes de acontecer o acidente da Rose. O que está rolando, hein?
Minha boca se abriu para que eu respondesse, mas não havia nada na ponta da língua. O que eu poderia dizer sem que aguçasse ainda mais a sua curiosidade? Não muita coisa.
– Não está rolando nada. É só... muito trabalho. Estou cansada, só isso.
– Você já esteve cansada de trabalhar outras vezes, mas nunca foi assim. – ela rebateu, seca. E doeu. Eu mal estava reconhecendo a minha menina.
Parei o carro no semáforo vermelho abruptamente, quase dando um pinote.
– Qual é o seu problema? – perguntei, me virando para ela. Seu cenho estava franzido.
– O meu problema? Não sou eu quem está escondendo coisas da própria filha!
– Eu não estou escondendo nada! – eu falei um pouco mais alto do que o necessário, e senti meu coração acelerado.
– Ah não? Aí, você está mentindo, eu vi. Você sempre desvia os olhos quando fala alguma mentira pra mim.
Eu não conseguia mentir para Claire. Era fisicamente impossível. Então não respondi de volta. Soltei uma respiração e me virei para esperar o semáforo abrir, em silêncio, deixando que ela esquecesse sua curiosidade momentânea.
Porém não escapei por muito tempo.
– Você não vai mesmo me contar, não é? – ela disse quando já estávamos na rua de casa.
– Eu já disse, Claire. Não é nada. – falei tentando ser mais suave, enquanto estacionava o carro na garagem.
Nós saltamos e rapidamente entramos pela porta da cozinha. De repente, Claire girou e parou na minha frente. Eu vi lágrimas prontas para caírem em seu rosto, e meu coração se partiu no mesmo instante em que ela começou a falar.
– Você costumava contar tudo pra mim, mãe. Você dizia que eu era sua melhor amiga. Eu não quero que isso mude só porque eu não sou mais tão ingênua quanto antigamente.
– Meu amor. – eu chamei dando um passo a frente e a tomando em meu abraço que ela não recusou. — Eu prometo que você ainda é minha melhor amiga. Só estou passando por algumas coisas que são complicadas... Mas eu juro que quando tudo se acalmar, quando for a hora certa, eu te conto.
– Você jura mesmo? – ela disse com a voz abafada em meu cabelo. Eu acariciei o seu e assenti a cabeça.
– Juro.
Claire se afastou, limpou as lágrimas e ajeitou o meu cabelo onde ela havia bagunçado. Eu limpei a garganta antes de dizer a ideia que acabara de ter.
– Bom, você está de férias, mas eu não. Preciso dormir. Que tal nós saírmos juntas quando eu chegar do trabalho na sexta? Vamos fazer algum programa só nosso, e a gente põe a conversa em dia. O que acha?
Ela fungou o nariz e assentiu a cabeça.
– Pode ser. Eu vou procurando alguma coisa boa pra fazer.
Eu sorri e beijei sua testa.
– Ótimo. Agora, vou tomar meu banho e ir deitar. – falei me afastando e saindo da cozinha. — Vê se não fica a noite toda nessa internet, viu!
– Tá, tá! Chata. – ela resmungou de saco cheio para minhas recomendações de mãe.
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Nos dias seguintes, tudo o que mais fiz foi pensar.
Refletia sobre o que Alice havia me aconselhado, e de forma natural, acabei reservando uma parte do meu dia a fazer isso. Em geral durante o banho e um pouco antes de dormir, sozinha, quando o meu eu ficava em plena evidência. Como se minha consciência já estivesse se acostumando com os acontecimentos do último mês, a minha urgência de chorar, de sofrer dentro da minha auto-piedade ia se extinguindo, pouco a pouco.
Semanas se passaram, e eu mal pude notar, de tão imersa em meu trabalho que estava. Edward cumpriu sua palavra de manter distância e me dar espaço para digerir nossa conversa e tomar decisões sozinha. Eu não o via desde aquele dia em sua casa, e já devia fazer um mês ou mais.
Percebia que a fase do torpor, da raiva e da tristeza profunda haviam passado. Não que eu não mais sentisse nada disso, porém agora eu começava a enxergar outras facetas da situação. Estava vendo o passado com outros olhos, sendo instigada quando pensava sobre o meu futuro. Euprecisava passar por isso, agora eu entendia.
Minha armadura ficava um pouco mais forte a cada dia, mesmo que ainda fosse constituída por um material delicado, que corria o risco de desmanchar nas mãos de quem a manuseasse sem cuidado. Levaria um tempo até que eu estivesse inteira novamente. Mas eu sabia que ainda chegaria lá.
Algumas das conclusões mais significativas a que pude chegar foi a noção de que algo muito forte me impedia de viver plenamente minha liberdade emocional. Era tão óbvio, que somente uma tendência a ignorar problemas e crises que existia em mim conseguia mascarar isso.
Essa constatação se tornou clara num dia como outro qualquer, surgida de onde eu menos esperava.
Era quinta-feira e o prazo para a entrega de mais uma reportagem de capa estava no limite, e nada estava dando certo. Sequer consegui achar tempo para almoçar, e no fim do dia sentia-me fraca, a ponto de desmaiar de cansaço. Depois de sair da redação, parei em um fast-foodqualquer para comer durante o caminho da volta, dirigindo e travando uma batalha contra um hamburguer gorduroso.
Ao chegar em casa, porém, eu não contava em abrir a porta da cozinha e dar de cara com o piso completamente inundado. Como a cereja do bolo de merda do meu dia.
– Claire! — chamei, jogando sobre a bancada da pia os restos do lixo do meu almoço muito tardio e minha bolsa.
– Aqui em cima!
– O que é essa água no chão? — gritei.
– Água?
– Claire, desce!
Ouvi seus passos apressados e pesados se movendo pelo assoalho no andar de cima, enquanto eu tentava salvar meus sapatos e os tirava para andar pela cozinha à procura da fonte do desastre. Mas não consigui encontrar nada. Isso não era nada bom. Nada bom.
Minha filha chegou correndo, parando sob o portal e gritou.
– Cacete!
– Você pode explicar isso?
– Não faço ideia, fiquei no quarto o dia todo. Juro que tudo que fiz na cozinha hoje foi ligar a lava-louças.
Assim que as palavras saíram de sua boca, corri até a dita máquina para inspecioná-la.
– Puta que pariu! — era só o que eu podia gritar ao ver que a porcaria do cano havia se soltado da parede e certamente já devia ter jorrado toda a água da casa para fora, já que a essa hora nada escorria por ali.
Claire correu até onde eu estava.
– Precisa de ajuda?
– A não ser que você saiba consertar um cano, então não.
– Calma, mãe. Podemos ligar pra alguém.
– Não tem ninguém pra ligar! São quase oito da noite, todos os encanadores dessa merda de cidade já devem estar em casa coçando o saco e vendo TV.
– Mãe...
– Vou consertar isso. — falei, já me virando para pegar a quase inutilizada caixa de ferramentas na garagem. Meus pés descalços formavam uma lama por onde eu passava, mas eu nem me importei. A raiva que me impulsionava impedia que eu reparasse em qualquer obstáculo.
Quando voltei, Claire estava apenas parada ao lado da máquina com os braços cruzados.
– Dá licença. — pedi, mas ela não se moveu.
– Mãe, você vai piorar a situação.
– Não vou piorar nada, é só colocar o cano de volta.
– Eu já dei uma olhada, não é tão fácil assim, parece que tá faltando alguma peça. Chame alguém amanhã.
Eu respirei fundo.
– Marie Claire, saia da minha cozinha. — falei em tom baixo, mas ameaçador o bastante.
Ela bufou.
– Céus, que TPM é essa que te deu, hein? — E assim virou-se, de repente, marchando para a sala. — Ok, fique aí estragando ainda mais a sua cozinha.
Eu rolei os olhos, mas não tinha tempo de dar corda para suas malcriações. Pus a caixa de ferramenta sobre a mesa e fui atrás da máquina avaliar o que podia ser feito. Tentei encaixar o cano ligado à lava-louças ao buraco na parede, porém ele não ficou nem dois segundos no lugar. Tentei de novo, e de novo, mas algo estava errado ali.
Peguei uma chave que eu não sabia nomear, mas que certamente servia para isso e trabalhei na base que havia no buraco, tentando girar de modo que o cano encaixasse. Forcei algumas vezes, mas parecia que o cano estava menor do que o lugar de conexão à parede. Na terceira tentativa, uma leva d'água começou a brotar do buraco. Não, não, de novo não.
O momento exato que um grande jato jorrou, inundando a cozinha novamente, foi o instante que escolheram para tocar a campainha. Se antes eu não estava em desespero, agora era uma certeza.
– Mas que merda! — berrei. Corri até a porta e abri.
– Oi. — Riley estava do outro lado. Sorridente, elegante como sempre em seu terno, e carregando um vinho na mão e sua pasta na outra. Mas tudo o que minha mente viu foi: um homem. Um homem que deve entender melhor de encanamentos do que eu.
E nem pensei duas vezes.
– Entra aqui! — com pressa, peguei sua mão e o guiei até a cozinha. — Você precisa me ajudar! O que eu faço com esse cano?
– Opa! — ele falou, parando na cozinha. — O que houve aqui?
– A merda do cano da lava-louças saiu do lugar. Eu não estou conseguindo de jeito nenhum colocar de volta, e agora essa água que não para de vazar, e se você me salvasse nesse minuto eu ficaria eternamente grata.
– Calma. Respira. — ele disse antes de colocar suas coisas sobre a bancada. — Já desligou o registro de água?
Oh.
– Já volto. — falei e corri para procurar pelo registro que ficava... bem, ficava em algum lugar do lado de fora da casa. Quando achei, rapidamente virei e o fechei, esperando que pelo menos isso já ajudasse. Voltei para dentro, encontrando Riley debruçado por trás da máquina de lava-louça. Estava descalço e tinha a camisa de botões com as mangas enroladas até os cotovelos, a jaqueta do paletó pendurada sobre as costas de uma cadeira e os sapatos jogados na sala.
– Prontinho. — menos de dois minutos depois, ele virou-se, segurando a chave de cano com um sorriso triunfante.
– Como você fez isso? — perguntei, boquiaberta.
– Só enrolei um pouco de fita isolante pra que o cano pudesse encaixar direito. Mas é melhor pedir ajuda a um profissional depois, porque parece que o parafuso que o prendia sumiu dali. Por ora, isso vai impedir que a água vaze.
Eu soltei um suspiro de alívio.
– Muito, muito obrigada. Já estava entrando em pânico.
– Não tem de quê. — deu de ombros. — E... eu percebi que você estava em pânico. Está pálida ainda, parece abatida. Está tudo bem?
– S-sim. — Não está tudo bem, sua mentirosa. — Só tive um dia ruim.
– Certo. — ele respondeu sem parecer muito convencido.
– Droga, você ficou todo molhado. Vou pegar uma toalha e ver se te arranjo roupas secas. — falei enquanto ia até a dispensa antes de sair. Limpei um pouco com o rodo para tirar o excesso de água e joguei panos de chão no piso da cozinha para que evitasse sujar toda a casa. Em seguida, entrei no banheiro do andar de baixo para pegar uma toalha limpa antes de subir as escadas até o meu quarto.
No meu closet, fui à procura das peças mais largas e neutras que eu tinha, mas não havia muita coisa que coubesse nele. Avançando para dentro do armário, meus pés chutaram sem querer a caixa que eu mantinha no fundo sob uma prateleira. Acima estava um grande saco transparente com minhas roupas da época da gravidez e moletons que eu havia guardado de lembrança da adolescência. Me abaixando, abri o saco esperando encontrar algo ali, mas a única coisa que minha visão captou foi uma camiseta preta-cinzenta que destoava das outras. Meu peito arfou.
Segurei a peça na mão, debatendo se puxava dali ou não. Era masculina. Estava limpa. Caberia em Riley perfeitamente. Mas não era certo. Era a única roupa de Edward que ainda dividia um armário comigo.
A última vez que vira essa camiseta havia sido há uns dois anos. Naquela época eu ainda dormia esporadicamente com a peça, até decidir que não havia mais sentido continuar com esse hábito. Além do mais, algumas coisas dentro de mim mudaram quando soube da notícia de que havia um casamento em vista na vida dele e que não seria comigo.
Bufando, decidi levar um enorme moletom preto. Voltei para o corredor, mas parei para bater na porta de Claire, que estava fechada.
– Já consertamos! — falei alto. — Quer dizer, Riley consertou pra mim. Ele está lá em baixo.
– Ok. — foi só o que ela respondeu.
– Pode abrir a porta? Não quero ficar gritando.
Ouvi ela murmurando qualquer coisa, e demorou alguns instantes até que seus passos se aproximassem e a porta se abrisse.
– O que é? — perguntou emburrada. Com uma mão segurava o telefone sem fio, enquanto tapava o bocal com a outra para que a nossa conversa não fosse ouvida.
Eu suspirei. — Me desculpe, está bem? Estou estressada, tive um dia péssimo, e ainda cheguei aqui e encontrei a cozinha pronta pra refilmagem de Titanic. Descontei em você. Não foi justo.
– Tá bem.
– Ok... Vou descer pra dar esse moletom aqui a Riley, ele se molhou todo. Depois vou pedir alguma coisa pro jantar, talvez comida chinesa, pode ser?
– Pode.
Suas respostas curtas denotavam que ela ainda estava chateada comigo. Devia ser a segunda vez no mês. Maravilha.
– Hey. Eu já te pedi desculpas. — falei com suavidade novamente.
– E eu já falei que tá tudo bem.
– Certo... Bom, quando chegar a comida eu te chamo.
Claire tinha o lábio inferior entre os dentes enquanto assentia a cabeça. Eu me afastei e ela fechou a porta rapidamente. Quando cheguei na sala, Riley estava sentado no sofá escrevendo em seu caderno, e olhou para mim quando terminou. Na mesinha de centro, haviam algumas folhas espalhadas.
– Não achei nenhuma calça, desculpe. Mas espero que isso sirva. — falei, oferecendo o moletom a ele. — Era o que eu usava quando estava grávida, então deve caber.
– Não tem problema com a calça, nem está tão molhada assim. E o moletom parece grande o bastante, eu acho. Obrigado. — ele disse pegando a roupa e se levantando. — Pelo menos não tem nenhuma estampa de Ursinhos Carinhosos ou algo assim.
– Na verdade, o dos Ursinhos está bem guardado lá em cima. Pode usar da próxima vez. — brinquei, fazendo ele rir, e me fazendo sentir completamente mais relaxada do que quando cheguei em casa.
Ele começou a desabotoar a camisa, então, e eu passei alguns segundos sem saber se deveria desviar o rosto ao invés de assistir a troca de roupa. Acabei analisando o tapete.
Céus, isso foi constrangedor.
– Viu? Coube perfeitamente. — falou, já vestido, enquanto arregaçava as mangas.
– É, adorava usar roupas uns dez tamanhos maiores. — eu dei de ombros.
– Você não usava roupas, você se escondia nelas. — ele riu, e eu tive que concordar.
– E o que é tudo isso? — falei, apontando para a mesinha de centro. Ele sentou-se de volta.
– Bom, eu tive algumas ideias novas para acertarmos a configuração de capítulos. Quero te mostrar logo, porque se eu deixar pra depois, nosso cronograma pode embolar. Me desculpe por vir de surpresa, mas eu tentei te ligar o dia todo e você não atendeu, só depois consegui falar com sua secretária. Ela disse que você teve um dia atarefado e acabou saindo correndo da revista antes do horário.
Olhando a garrafa que ele colocara sobre o balcão da cozinha, um toque de decepção me atingiu. Eu bem que estava precisando de alguma coisa para relaxar.
– Então você veio aqui a trabalho?
– Sim. — ele sorriu de leve. — Deveria vir por outro motivo?
– Ahm... Não. Quero dizer, pensei que tivesse vindo me visitar. Como amigo. Você trouxe vinho, eu só pensei que...
– Ah sim, o vinho! Isso é o meu pedido de desculpas por aparecer sem termos combinado nada. Mas... acho que você não está muito bem, é melhor eu ir embora. — ele se levantou de repente, me fazendo dar um passo a frente.
– Não, imagina, pode ficar! Eu preciso de um pouco de distração hoje.
Riley sorriu. — Está bem. Vem cá, aqueles restos de Burguer King eram seus?
– Eram. Foi meu almoço.
– Tsc, não me admira você estar abatida comendo essa porcaria. — falou antes de pegar seu celular. — Vou pedir um jantar bom e saudável pra gente. Sua filha come vegetariano?
– Ahm, bom, não sei. Eu ia pedir chinesa, na verdade. É melhor deixarmos as experimentações pra outro dia. — eu ri meio sem graça.
– Você é que manda. Comida chinesa, então. — falou antes de se levantar. — Você pede enquanto eu sirvo o vinho pra gente?
– Ok.
Meia hora depois, nós já estávamos sentados no chão da minha sala, encostados no sofá onde meu laptop se encontrava aberto e usando a mesinha a nossa frente para apoiar caixinhas de comida chinesa em meio a papéis e rascunhos. Claire descera para pegar seu jantar e subira sem muitas palavras, mas nem me importei com essa atitude.
Riley me mostrava suas ideias e nós debatíamos com incrível sintonia. Não parecia uma reunião como estávamos acostumados. Talvez a presença do vinho aliviasse meus nervos e mandasse pra longe a tensão sobre meus ombros, porque eu me sentia bem e nada entediada.
Quase uma hora mais tarde, ele terminou de mostrar o que tinha feito, e nós chegamos a um consenso sobre algumas coisas. Demos por encerrada a reunião e de forma natural passamos do modo profissional para o modo amizade.
Riley definitivamente sabia como conduzir uma boa conversa. Nós acabamos com toda a garrafa, e no fim da noite eu me encontrei mais próxima dele. Mental e fisicamente. Eu sequer liguei muito para isso, apenas me deixei levar pelo seu papo bom e sorriso fácil. Agradável.
Então era apenas lógico que alguma hora a minha bolha inebriada de asbtração seria bruscamente rompida. Porque nada nunca era tão gratuitamente simples na minha vida.
Não conseguiria dizer em detalhes como aconteceu, mas uma hora Riley estava olhando para mim e em seguida sua face se inclinava na minha direção. Senti seus lábios encostarem tão leves nos meus que eu prendi a respiração. Por um instante, sua boca se moveu sobre a minha, o toque macio me alertando que eu apenas devia fazer alguma coisa. Devia reciprocar? Isso estava certo?
Quando a ficha caiu instantes depois, tudo o que eu conseguia pensar era não, ainda não.
Não era o correto — havia alguma coisa errada, alguma coisa que não tinha como dar certo. Riley era um amigo. Ótimo amigo, ótimo homem. Ele era perfeito demais, ele iria partir meu coração. E se tinha alguma coisa que eu não conseguiria lidar a essa altura era ter o coração partido mais uma vez.
Com uma mão, empurrei Riley pelo peito e para longe de mim. O ar que ficara preso em minha garganta foi expelido violentamente enquanto eu tossia. Meu coração martelava em meu peito.
Seu rosto todo estava tingido de surpresa. Riley também não entendia muito bem o que estava acontecendo.
– Me desculpe, eu não posso... — comecei a dizer, afobada, mas ele ergueu uma mão para me impedir.
– N-não, Bella, não precisa se desculpar. — falou com suavidade. — Merda, eu que não devia ter feito isso.
– Tudo bem. — sibilei respirando fundo uma vez. — Acho que eu passei a impressão errada pra você. Só me deixei levar por tudo...
– É Edward, não é? — ele perguntou, de repente, antes que eu pudesse concluir minha frase, e o frio percorreu minha espinha.
De todas as palavras que Riley poderia pronunciar nesse momento, ele tinha que escolher justo esse nome.
– Como é?
– Você está assim por causa dele. Eu sei que você anda evitando encontrá-lo quando precisamos ir até o hotel. Aconteceu alguma coisas entre vocês.
Maldito Riley por ser tão bom observador. Maldita eu por me deixar transparecer tanto.
– Não, não é nada disso. É... complicado. — falei me levantando. — Desculpe, mas eu acho melhor não falarmos sobre esse assunto.
Eu não estava sendo honesta com ele, nem comigo. Estava tudo correndo quase perfeitamente bem. Seria fácil, confortável, leve. Por que então eu não consegui beijá-lo?
Riley levantou-se em seguida, e eu mal podia olhar em seus olhos, tamanha era minha vergonha no momento.
– Está tudo bem, Bella. — disse enquanto juntava suas coisas. — Eu não quero que isso faça nosso relacionamento ficar estranho...
– Não, claro que não. — fui rápida em afirmar.
Terimando de guardar suas coisas na pasta, ele virou-se para mim, se aproximando.
– Bella, posso ser sincera com você?
– P-pode. — engasguei ao dizer.
– Você é uma mulher maravilhosa. Eu acho que já te disse isso, mas eu falo de coração. — ele esticou uma mão, como se fosse pegar na minha, mas logo desistiu. Talvez meu corpo tenso e rígido como uma estátua não estivesse tão convidativo no momento.
– Obrigada. — disse com a voz miúda.
– Não é só isso... Eu quero só o melhor pra você, Bella. Você merece ter um futuro brilhante pela frente, e vai ter. Você é daquelas garotas que querem abraçar o mundo com as pernas de tão gananciosas, mas adivinhe só? Você tem umas belas pernas que vão até a Lua se precisar. — ele sorriu, o que só fez o nó na minha garganta aumentar. — Saiba que qualquer coisa que esteja te afligindo e te impedindo de viver bem e ser feliz, você não merece.
Eu não respondi com palavras, pois não seria possível. Por que, sinceramente, como se responderia à altura a algo assim? Então somente joguei meu corpo para frente e lacei seus ombros, abraçando o mais forte que eu conseguia. Riley envolveu seus braços ao meu redor, me aceitando sem qualquer problema.
– E lembre que antes de tudo eu sou seu amigo. — ele susssurou no meu cabelo. — Nesses últimos tempos nos aproximamos tanto, e eu posso dizer com certeza, que eu vou querer estar ao seu lado sempre.
– Obrigada. — falei o óbvio antes de me afastar. Eu chorava, e devia estar com o rosto borrado de maquiagem, mas isso era o de menos agora. — Eu também quero você ao meu lado. Obrigada por ser compreensivo.
– É o meu trabalho. — ele deu ombros, e com um último sorriso voltou-se para porta. Eu o acompanhei e nos despedimos com um simples "boa noite". Assisti seu carro até desaparecer na rua escura.
Subindo as escadas para me preparar para a noite, pude sentir que alguma coisa forte começava a acontecer comigo, e dessa vez eu não seria capaz de impedir. Era como uma peça de um quebra-cabeça há muito tempo perdida se encaixando em seu devido lugar.
No banheiro, lavei o rosto e escovei os dentes. Minha mente trabalhando ao mesmo tempo que minhas mãos. Não havia como não parar de pensar no quase beijo com Riley, e mais ainda, o porquê de eu não conseguir beijá-lo de volta.
Isso me fez lembrar de que todas as minhas relações amorosas depois de Edward haviam dado errado, e o caminho mais fácil sempre foi culpá-lo por todas as falhas nesse campo. Ora eu era carente demais, ora eu me fechava na minha redoma pessoal com medo da rejeição e traição. Bastou apenas mais uma grande traição na minha vida, e bum! O último strike havia sido conquistado por James ao se envolver com Victoria, e esse acontecimento havia fechado de vez meu coração. Desde então não conseguia deixar ninguém chegar perto de mim. Sempre acuada, sempre na defensiva.
Eu conseguia sentir a cada dia diversas pequenas cicatrizes resultantes da decisão de Edward, e agora eu podia enxergar isso com clareza e amplitude. Desde que ele me deixara, eu havia me tornado uma pessoa carente de afeto, insegura emocionalmente, e desesperada para provar a mim mesma que eu tinha valor, que eu era uma mulher perfeitamente amável. Por fora, para meus colegas de trabalho e os demais, eu era Isabella Swan, uma mãe solteira que era uma respeitada e independente jornalista. Mas por dentro eu ainda era Bella, a garota assustada e abandonada por ter uma filha para criar sozinha — uma versão de mim que teimava em atrapalhar minha vida por mais que eu tentasse domá-la.
Hoje, minha crença de que nada acontecia por acaso estava mais viva do que nunca.
Riley estivera certo. Eu não merecia passar por mais sofrimento, não merecia o peso que ainda me afligia. E não adiantava culpar Edward por isso. Afinal, por tudo que eu passava somente havia um alguém culpado — eu mesma.
Caindo na cama com o peso da epifania que estava tendo, me abracei ao travesseiro. Eu quase sentia falta de ar pela emoção de finalmente acreditar e entender esse discurso.
Se antes eu fugia de Edward, agora tudo o que eu queria era me aproximar, ver de perto tudo o que eu fantasiava sobre ele, tudo o que me provocava medo e me prendia a ele. Se antes eu tinha pavor de enfrentar a verdade, agora não fazia mais sentido não enfrentá-la. Eu não me iludia — sabia que não seria simples. Seria doloroso, mas ficar nessa situação não seria mais possível.
Resolvi, então, que eu iria atrás de mudança. O meu processo de cura já havia começado nesse último mês, e sentia-me pronta para a segunda fase dele — o tão temido período de transição.
Eu já havia estado de luto pela minha vida durante muito tempo. Oito anos, para ser exata. Estava na hora de retirar o preto que envolvia meu coração. Eu iria atrás da minha felicidade, estava decidido. Nem que para isso eu precisasse me deflagrar fisicamente contra Edward.
Eu iria buscar perdoá-lo por completo, e eu simplesmente sabia que havia alguma maneira de alcançar esse estado mental. Era só uma questão de descobrir qual.
Notas finais
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Esclarecendo a dúvida de algumas pessoas: nem que eu demore meses pra atualizar, eu NÃO VOU ABANDONAR A FIC. Sejam pacientes. Estou no meu penúltimo período da faculdade, tenho uma monografia pra escrever sozinha até novembro. Não sou uma máquina nem autora profissional. Por isso, dou prioridade a minha "vida real", mas não vou abandonar a fic de jeito nenhum, porque essa história precisa ter um desfecho, é uma questão de honra! hahah Se por acaso eu demorar a aparecer de novo, vocês já saberão o motivo. Ok? ;)
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Muito obrigada por todas as reviews do capítulo passado. Espero que o extra tenha superado suas expectativas, e convido a quem comentou só por isso, que comentem sempre. Pode não parecer, mas eu levo em conta o que vocês dizem e reparam na história. O olhar de fora de vocês é muito importante, pode me servir de guia e a preencher lacunas.
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Portanto, comentem, por favor!
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Até daqui a duas sextas-feiras.
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Beijos!
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