Mais Uma Vez
23 Capítulo 22: Encontro Marcado
Notas iniciais
Fala galera! Eu sei, sumi. Mas voltei. Ah volteeei! Voltei para ficaaar, porque aqui, aqui é meu lugaaar.
Backstreet is back, ALRIGHT! (aproveitando o Halloween, esse clipe é um clássico dos anos 90: www. youtube watch?v=O6XE1XRiLeY - nem reparem a mensagem subliminar no link HAHAH)
Tá bom, chega de enrolar. Não sei o quanto vocês lembram ainda dessa história, então vou resumir o final do capítulo passado:
Após um dia estressante na vida de Bella, o companheiro de trabalho e amigo Riley aparece para uma reunião surpresa em sua casa. O dia termina bem mais relaxado, porém o acontecimento inesperado — um beijo entre eles — mexe com a cabeça de Bella, e isso desencadeia a sua epifania. Ela resolve que precisa se desapegar dos erros que ela própria cometeu ao ficar tão presa ao passado, e agora está decidida a buscar compreender o que deu de errado em sua vida desde que Edward a deixou, e entender o que se passou com ele, o que o levou a errar com ela.
Capítulo 22: Encontro marcado
Eu tinha chegado em casa mais cedo do trabalho. Assim que entrei, senti uma vontade imensa de estar com a minha filha, principalmente depois dos acontecimentos da última semana. Nossa relação andava um pouco conturbada, e eu sentia a necessidade de tentar remendar isso a todo custo.
- Claire? — chamei, tirando os sapatos e jogando a bolsa no sofá. Passei pela cozinha e peguei uma banana para comer antes do jantar. Ela não me respondeu, então chamei novamente. — Claire? Cadê você?
- Aqui em cima! — gritou, enfim.
Segui o som e a encontrei no chão do meu quarto em frente a um armário de quinquilharias. Havia várias fotos soltas e álbuns espalhados pelo chão, e eu respirei fundo uma vez antes de ficar irritada pela bagunça.
- Tá fazendo o quê aí? — perguntei entrando e sentando ao seu lado.
- Ah, eu tenho um trabalho de redação. Coisa chata. — respondeu revirando as imagens. — A gente tem que levar uma foto de um dos nossos pais quando tinham a nossa idade, e aí escrever uma carta pra nós mesmos, futuros filhos.
- Nossa, complicado. — disse, mesmo de boca cheia.
- Pois é.
- Quer ajuda?
- Só preciso que me confirme em qual dessas fotos você tinha 15 anos.
- Filha, você tem 14.
- Só por mais quatro meses, então já tenho praticamente 15. — ela rolou os olhos e eu ri.
- Ok. Me mostra as que você separou.
Acabamos selecionando cinco, das quais duas eram minhas com a família, duas com amigos e uma com Edward, em uma viagem de acampamento que fizemos. Claire achou que seria mais legal mostrar os pais antes de ela nascer. De alguma forma, a noite acabou virando uma sessão nostalgia, enquanto víamos fotos antigas, e ela me pedia para contar todas as mesmas histórias que sempre surgiam quando relembrávamos o passado.
Claire, dessa vez, estava especialmente entretida com minhas fotos no último ano na escola. Fazia um tempo que não olhávamos aquelas fotos, e suas perguntas me pegaram de surpresa.
- Por que você sempre usava esse moletom preto? — ela apontou para uma imagem, e depois apontou outras em que eu usava a mesma roupa, em datas diferentes. — É tão... feio.
- Bem, era um dos poucos que me serviam quando eu estava grávida.
- Você tinha vergonha?
- Do quê?
- Digo... Você usava essa coisa enorme só pra não ficar tão aparente, né? Eu sei que deve ser um saco ter que ir pra aula carregando uma barriga. É meio que anormal.
- Não. Eu não tinha vergonha. De jeito nenhum. Na verdade, eu acho que eu usava isso como uma forma de te proteger. As pessoas da escola podiam apontar e rir de mim o quanto fosse, mas eu nunca deixaria que elas apontassem pra minha barriga. Eu não queria que ninguém visse por isso, entende?
- Faz sentido. — ela assentiu a cabeça. — Você acha que a Rose sentiu vergonha de estar grávida? Pra ela ter escondido tanto...
- Não sei, filha. Não sei o que se passou na cabeça dela. Você convive mais com ela do que eu, o que você acha?
- Eu acho que sim. Tipo, o pessoal da escola é muito sem noção, muita gente tem inveja dela porque ela é lider de torcida e ao mesmo tempo é super inteligente. E a Rose é... bem, ela é daquele jeito, né? Ela não se ilude com popularidade. Você sabe que ela não se mistura com gente idiota. Mas acho que ela ligou muito mais para as aparências do que a gente achava que ligasse. Esse foi o problema.
- É, pode ser. A gente nessas horas fica um pouco pirada, sem direção. Mas eu tenho certeza que ela aprendeu alguma lição disso tudo e vai melhorar.
- Tomara. — ela falou, antes de me passar outra foto. Edward e eu estávamos no quintal da minha casa, e ele me carregava nas costas. Era no meu aniversário de 17 anos. — Gostei dessa. Vocês parecem muito... felizes.
- É.
Eu olhei para nossos rostos sorridentes, e o brilho que havia nos olhares. Era tão estranho ver aquilo, principalmente porque eu não conseguia me lembrar de ter sido tão feliz assim recentemente. Tão livre e esperançosa. Será que eu nunca mais seria como aquela menina? Será que a minha juventude já tinha ido embora, junto com tudo o que me fazia ser daquele jeito?
Eu tinha fé que em algum lugar aqui dentro ainda devia haver um pouco dela, embora eu soubesse que seria complicado achá-la.
- Mãe?
- Hm?
- Você não sente falta dele? — ela perguntou num fio de voz. — Nunca?
Eu suspirei.
- Eu sinto falta... do que a gente era. Tenho saudades desse garoto aqui. — apontei Edward na foto. — E dessa garota também.
- Sabe, eu acho que o papai não mudou tanto assim.
- Ah, minha flor, ele mudou sim. — falei mexendo em seu cabelo. — E eu também, não sou mais essa menina da foto. O tempo só anda pra frente, só faz a gente mudar, sabe.
- Tá falando que nem a vovó. — ela riu, e ficou quieta por um tempo. — Você se arrepende de ter engravidado? Porque provavelmente vocês ainda estariam juntos se eu não tivesse nascido.
Senti minha testa enrugar com o que ela disse, tentando entender sua lógica.
- O que uma coisa tem a ver com a outra?
- Quero dizer... Bom, se vocês não tivessem se casado, ele provavelmente não teria te deixado. E vocês só se casaram por minha causa.
- Claire, acredite, você não tem nenhuma culpa sobre o que aconteceu com o seu pai. E não, eu não me arrependo. É claro que eu tive o maior susto da minha vida quando soube, mas desde a primeira vez que eu pude ouvir seu coração bater, eu sabia que você seria a melhor coisa a me acontecer. A gente sempre pensou em um dia casar e ter filhos, então eu posso te garantir, você sempre foi amada e desejada. Uma hora iria acontecer, mesmo que você tenha vindo um pouquinho antes só de implicância. — falei para provocá-la e após um sorriso fraco, ela ficou calada novamente.
- Eu tenho pensando em algumas coisas... — ela virou-se para me encarar.
- Que coisas?
Ela demorou cinco segundos para falar, e pude ver a ansiedade na forma como arrancava as cutículas com os dedos. Um hábito ruim que tinha puxado de mim.
- Por que meu pai foi embora? Eu nunca soube de verdade...
Por um momento eu fiquei sem reação.
E de repente, toda a conversa que eu tinha tido com Edward, tudo o que vivemos nos últimos meses veio à tona, para pousar na ponta da minha língua e se expôr a Claire. Mas eu sabia que não podia. Ainda não era a hora certa. Como eu poderia explicar tudo a ela, se nem eu mesma ainda havia compreendido e aceitado de verdade?
- Bem... Você sabe o que eu te falei quando a gente se divorciou, né? Que a gente não dava mais certo. Então. — respondi. Havia sido o que eu tinha contado a ela na época, uma mentira. É claro que um dia isso viria puxar meu pé.
- Mas mãe... Ele me disse que ia embora, mas depois voltaria. Eu lembro muito bem disso. Como pode vocês se divorciarem porque não davam mais certo, se ele falou que ia voltar? Além disso, eu nunca ouvia vocês brigando, não é como se a convivência fosse horrível entre vocês.
- A gente tinha problemas sim, como todo casal. Seu pai estava enfrentando muitos problemas pessoais naquela época.
- Tem alguma coisa a ver com aquelas sessões de terapia, né? — ela foi direta ao falar, o que me deixou intrigada.
- Por que você tem essa hipótese?
- Uma vez eu perguntei porque ele fazia terapia e aí ele falou que era o que ajudava a superar alguns erros do passado. Algo assim. Aí concluí...
Eu assenti.
- Acho que a terapia o ajuda nisso sim. Mas eu não sei muito mais do que isso. — disse, e olhei para o relógio, necessitando desviar o assunto. — Meu bem, está ficando tarde e eu acordo cedo amanhã. É melhor a gente conversar isso em outra hora, não acha?
- Você não quer me contar?
- Não é isso, é que... Tem certas coisas que ainda... ainda não estão prontas pra serem ditas.
- Eu mereço saber, mãe.
Seu olhar estava triste. Pela centésima vez, eu havia decepcionado minha filha. Era um dos piores sentimentos do mundo.
- Sim. É claro que sim. — peguei sua mão e a beijei. — Quando o tempo certo chegar, você vai saber. Eu prometo.
Ela mordeu o interior da bochecha e me fitou. Eu rezei para que ela não enxergasse a mentira e o tormento em meus olhos. Assentindo lentamente, ela se levantou.
- Ok. — abaixou-se e beijou o topo da minha cabeça. — Vou tomar banho. Até amanhã.
Ela me deixou ali, olhando para nossas fotos, vendo todas as nossas lembranças.
Eu só conseguia reparar em como quase todas de alguma forma me remetiam a Edward. Ele sempre estava lá, presente em quase todas as melhores lembranças que eu tinha. Mas o que doía mais é que ele também aparecia nas piores memórias, e todas elas somente começaram depois que ele partiu.
Os períodos de sofrimento, de decepção, o divórcio, as brigas e as trocas de farpas que sempre surgiam quando eu me encontrava com ele. Era difícil entender como eu poderia ter passado a sentir tanta raiva e mágoa de uma pessoa que um dia foi tão próxima.
Quando adolescentes, nós costumávamos nos desentender por bobagens insignificantes. Como uma briga entre irmãos, cinco minutos depois fazíamos as pazes. Nunca levávamos muito a sério. Não levávamos nós mesmos a sério. Era sempre assim. Depois de nos separarmos, porém, essas pequenas brigas ficaram mais intensas, mais ferozes, sem qualquer tom de brincadeira. E já não podíamos mais fazer as pazes do jeito que fazíamos. Nossa intenção por trás das palavras havia mudado, e no lugar de implicância havia mágoa concreta e real.
A tristeza pelo que passamos começou a me inundar em uma onda imensa. Era um daqueles dias. Guardei toda a bagunça na caixa de volta no armário e me levantei. Preparei um banho na banheira, e deixei que o peso do dia e da situação fosse aliviado pela água morna.
Depois da minha epifania no início da semana, eu tinha decidido ir atrás do que era certo. A tristeza por tudo o que era errado na minha vida ainda estava aqui, e eu sabia que só iria embora quando eu começasse a perseguir as falhas e remendar os buracos.
Eu havia me recordado de tantas situações do nosso passado nesse último mês, tentando chegar a alguma solução, tentando achar uma chave para entender toda a nossa história. Tentando conseguir uma forma de como eu poderia perdoá-lo.
Meu pai sempre dizia que perdoar é o ato mais corajoso e maduro do ser humano. Deixar ir. Tudo. A mágoa, o rancor, a raiva pelo erro da outra pessoa. E principalmente, começar de novo. Era o que eu mais precisava agora. Mas qual seria o caminho para que eu pudesse perdoá-lo?
Por isso, no dia seguinte, assim que acordei, fiz o telefonema que já deveria ter feito há tempos. Sem mais enganar a mim mesma.
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Eu havia passado o dia todo olhando no relógio, à espera daquela hora. A cada minuto que se aproximava, meu coração ficava um pouco mais disparado.
E agora ela estava ali.
Tentei não me afobar. Guardei minhas coisas com uma calma meticulosamente controlada, desliguei o computador e me despedi dos colegas. Saí da redação e comecei a descer em direção ao que me esperava no fim da rua.
Meus passos estavam travados. Também pudera — minhas pernas pareciam bambas. Mas a decisão que eu havia tomado me impulsionava, e nada seria capaz de me parar agora, nem mesmo minha ansiedade.
A ligação para Edward tinha sido estranha e tensa. Fazia mais de um mês que eu não ouvia a sua voz. O que me deu um pouco de alívio foi saber que eu não estava sozinha, pois o nervosismo transpareceu nas poucas palavras que trocamos. Então rapidamente combinamos: às seis da tarde de quinta feira, no Joe's, o café ao fim da rua onde ficava o prédio da New York Week. Achei que o lugar confortável e discreto seria o ideal para o que precisávamos discutir, principalmente por ser um território neutro.
Adentrei o estabelecimento dez minutos depois, e não foi difícil encontrar a figura debruçada sobre seu celular na mesa reclusa no canto esquerdo, uma das poucas livres naquele horário.
Nas costas de sua cadeira estava seu paletó, e as mangas de sua camisa azul clara estavam suspensas deixando seus antebraços à mostra. Meus saltos anunciaram a minha chegada enquanto eu me aproximava, e Edward logo ergueu a cabeça, levantando-se com rapidez.
- Oi.
- Oi... Desculpa meu atraso. — falei me sentando. Ele sentou-se de volta.
- Tudo bem. Eu que cheguei cedo demais.
- Certo. — eu suspirei, finalmente conseguindo relaxar na cadeira. Ele tinha uma xícara ainda cheia à sua frente, e gesticulou para ela enquanto guardava seu celular na pasta ao seu lado.
- Eu pedi um cappucino, acabou de chegar. Quer pedir alguma coisa?
- Vou só beber água.
Edward chamou a garçonete que passava. Por pura pressão da senhora efusiva que nos atendeu, acabei pedindo também um pedaço de cheesecake que certamente acabaria mofando na minha frente. Meu estômago estava apertado demais para comer qualquer coisa.
- É bem bacana aqui. — ele comentou olhando ao redor, ao ficarmos sozinhos novamente.
- É... Eu venho sempre com Riley. A comida é gostosa.
- Riley? — ele perguntou, franzindo o cenho ligeiramente. Eu o fitei por um instante, sem entender sua supresa. Mesmo assim, justifiquei.
- A trabalho.
Edward assentiu.
- Ele tem estado muito presente, não é? — assim que ele falou, o flash daquela noite passou por meus olhos. Riley tentando me beijar. A sensação era tão estranha e confusa que eu não me permiti pensar muito naquilo.
- Nós fazemos um trabalho juntos e ele é meu amigo. Não é lógico que ele estaria presente? — inquiri, tentando não me alterar.
- Desculpe. Só estou achando... interessante que ele tenha voltado pra sua vida.
- Riley nunca saiu da minha vida. Você que saiu das nossas.
Ele deixou escapar em seu olhar a mágoa pelo que eu falei, e quase me arrependi, mesmo que uma parte de mim ainda não conseguisse evitar comentários dessa natureza.
- Eu sei. — falou desviando o olhar. — Eu sinto falta dos nossos amigos, sabia? Mas fico feliz que eles tenham permanecido ao seu lado.
- Fico feliz também. Tenho ótimos amigos. — respondi.
O assunto morreu ali, e só voltamos a nos falar quando a sra. Moore voltou com nossas tortas.
- Então... — ele começou. Eu respirei fundo.
- Não sei bem por onde começar. — admiti, mexendo no cheesecake com a colher.
- Pela borda. Eu sempre começo pela borda. — ele respondeu, e eu o olhei, apenas para ver o traço de um sorriso. Soltei uma curta risada para sua piada infame, e sacudi a cabeça.
- Não sei como você consegue achar humor nessas horas.
- Foram anos de treinamento. A gente tem que saber achar graça no próprio sofrimento.
- É justo. — eu concordei. — Bom... Acho que eu tive bastante tempo pra processar algumas coisas desde a nossa última conversa. Me desculpe se demorei tanto tempo pra dar um retorno.
- Nem pense em se desculpar. Eu disse que ficaria aqui esperando o quanto fosse preciso.
- É, foi bom ter esse tempo porque muita coisa mudou pra mim. Isso é óbvio. — falei e tomei um gole de água. — Eu tenho pensado muito... em tudo. E consegui chegar a algumas conclusões.
Aquilo captou seu interesse.
- Fico muito feliz que nossa conversa tenha surtido algum efeito. Você nem imagina.
- Surtiu. Muito mais do que eu esperava. Eu quero discutir essas coisas com você, mas não sei se vamos ter tempo suficiente hoje. Quer dizer, tenho certeza que não.
Edward continuamente olhava para minhas mãos, sem disfarçar. Eu estava tremendo. Embolei as mãos em punhos para escondê-las.
- Eu só estou... com pressa de falar tudo. — expliquei e suspirei para tentar me tranquilizar. — Essa história toda já está começando a me fazer mal, eu só quero que tudo se resolva logo.
- Eu também quero. Mas não precisa ficar nervosa. Se tem alguém que deve estar nervoso aqui sou eu.
Eu assenti. E percebi que precisava de uma vez deixar claro o que ele tanto queria saber.
- Antes... Eu só quero esclarecer que... Que ainda não estou pronta pra te perdoar. — falei. — É uma das coisas que não estou sabendo digerir ainda.
Vi sua face contorcer-se em desapontamento, mas ele se manteve de cabeça erguida. E foi um grande alívio ver aquilo. Assim seria bom, estaríamos em par de igualdade.
- Eu já esperava por isso. — ele assumiu. — Eu sei que não vai ser de uma hora pra outra. E nem pode.
- Certo. — eu limpei a garganta. — Sabe, Edward, nessas últimas semanas eu pensei muito. Passei por uma verdadeira catarse. Foi muito duro, doeu bastante... Mas tinha que acontecer. Eu passei a entender melhor o seu lado, embora eu ache que agora existam muito mais perguntas do que quando eu não sabia de nada.
- Você sabe que eu estou aberto a tudo que você quiser me perguntar.
- Eu sei, sim. E fora isso, também tem tudo aquilo que eu passei a entender sobre mim mesma. Talvez seja o que esteja me incomodando mais no momento. Eu queria que você me ouvisse sobre isso hoje.
Me permiti comer um pedaço antes de continuar, só para adoçar a boca. Edward apenas me olhava apreensivo, à espera do que eu iria dizer.
- Sabe, desde quando encontrei aquelas cartas, eu tenho me lembrado de tantas coisas. Principalmente coisas que não deram certo pra mim depois que você saiu da minha vida. Tantas situações... Aos poucos fui percebendo e contabilizando cada setor que estava em falha no meu sistema. — falei com um pausa, para ver sua reação. — Eu sei que parece impessoal falar dessa forma, mas esse foi meu mecanismo pra... pra lidar melhor com tudo o que vem acontecendo.
Ele aquiesceu.
- Faz todo o sentido, claro.
- Sim. E... Eu comecei a prestar atenção em algumas situações da minha vida, principalmente minha atitude diante dos relacionamentos que eu tive com outras pessoas.
- Bom, não sei o quanto você sabe da minha vida amorosa nos últimos anos, mas...
Hesitei, pois de repente me senti incomodada por declarar isso a ele. Era quase como se eu estivesse declarando a sua vitória — mesmo que, logicamente, não houvesse qualquer competição aqui.
- Mas?
- Deus, isso é difícil. — eu expulsei o ar em uma bufada forte.
- Tudo bem, Bella. Se você não quer tocar nesse assunto, não precisa. Não se force.
- Não, eu preciso sim. — afirmei. — O que eu quero dizer é que... Nenhum dos meus relacionamentos deu muito certo. Eu sempre... sempre tive problemas pra me prender às pessoas. Sempre tive muito medo de confiar, de me entregar.
Assisti sua cabeça concordar lentamente.
- Sinto muito por saber disso. E eu tenho plena consciência de que tudo o que você passou é um resultado do que eu fiz, toda a minha...
Mas eu o interrompi antes que começasse a falar.
- Não, Edward. Me deixe terminar. — eu vi seus lábios se fechando, e ele deixou que eu prosseguisse. — Então eu fiquei me perguntando por quê isso acontecia comigo? Por que eu nunca consegui voltar a ser feliz da forma como eu era quando estava com você? Eu só consegui concluir que era porque... eu não me permiti. Porque eu mesma errei em tantas coisas nesses anos todos.
- Você quer dizer que errou com relação... a nossa história ou...? — ele pareceu confuso.
- Sim. Nossa história.
- O que você pode ter feito de errado, Bella?
- Edward, não aceitar te ouvir foi estúpido. Só para começo de conversa. — argumentei. — Não sei se é porque hoje eu sei dos seus motivos pra ter fugido de casa, mas agora eu consigo ver com clareza o quão errada eu estava em não querer sequer tentar te ouvir, mesmo que fosse pelo telefone e sem ver a sua cara. Eu só estou querendo expressar a minha parcela de culpa. Eu errei nessa história também. Acho que está na hora de ambos aceitarmos isso.
Ele me fitou por um bom momento, os olhos comprimidos e o cenho enrugado. Quando falou, sua voz parecia magoada.
- Eu não consigo te achar uma culpada nessa história. — sibilou, sacudindo a cabeça. — Não dá, me desculpe.
- Mas eu consigo. A minha atitude só trouxe ainda mais sofrimento pra gente, e principalmente pra mim mesma. Será que não consegue entender isso? Eu passei muito tempo me enganando e culpando o resto do mundo por tudo o que estava errado comigo, mas não é esse o caminho. Você deve saber disso.
Ele bufou uma risada fraca. Eu apenas o olhei para tentar desvendá-lo.
- Que foi?
- Você parece Stefan falando.
- Quem é Stefan?
- Meu terapeuta.
- E o que isso quer dizer?
- Quer dizer que eu já ouvi todo esse tipo de lógica antes, mas... Eu te conheço, Bella. Você sempre quer estar à frente das coisas, quer sempre carregar todo o peso nas costas sozinha. Por que se culpar justo com algo que é apenas mais uma consequência do que eu fiz?
- Edward, você não me conhece, não mais. Tenho certeza disso. Eu mudei tanto... E você também, eu sei que mudou.
- Tudo bem, a gente pode ter mudado, mas...
- Não. Sem mas, Edward. — falei com firmeza. — Eu estou aqui admitindo a minha falha. Porque o que você fez é só a ponta do iceberg. A felicidade é sim uma escolha, assim como a tristeza, a raiva, e tudo de ruim que eu nutri por você esse tempo todo. Você fez uma coisa horrível comigo e eu escolhi viver a miséria disso, usando a ignorância como meu mecanismo de defesa.
Edward inclinou-se na mesa, ficando mais próximo. Ele arrastou seu prato para o lado e passou a me encarar atentamente. Eu me refreei em me afastar para trás, tentando me manter firme no meu lugar.
Coragem, Bella. Você consegue.
- O que te faz sentir assim, como se tivesse escolhido viver o lado ruim de tudo isso? Me fala. — ele pediu com veemência. — O que te deixou dessa forma... fechada durante esse tempo em seus relacionamentos? Eu quero saber.
Então eu resolvi explicar desde o começo, para que ele entendesse completamente.
- Edward, cada memória boa que eu tenho do passado, você está nela. Eu me sentia tão completa quando estávamos juntos, e eu admito isso. A gente vivia numa bolha, você se lembra de tudo o que nós passamos na escola e depois, na vida lá fora. Só que... amar dessa forma talvez tenha sido obsessivo e exagerado. Nós éramos adolescentes que se amavam demais, esse foi um de nossos erros conjuntos.
Ele bufou.
- Amamos demais? Isso sequer existe?
- Existe sim. E foi por isso que eu sofri tanto. Porque a forma como você me deixou foi brutal, tão repentina que foi como se uma parte de mim tivesse ido junto com você e nunca mais retornado. Definitivamente alguma coisa dentro de mim mudou pra sempre. E é a partir daí que entram as minhas escolhas. As escolhas erradas que eu fiz.
- Quais delas? Estou tentando te acompanhar, acredite.
- Eu sempre me orgulhei por ser independente, disso você sabe. — eu falei, e ele assentiu. — Mas eu não conseguia ser independente de você. Pra você ter uma ideia, eu nem lembrava de quem eu eraantes de te conhecer. Eu consigo ver agora como isso não foi nada saudável.
- Você tem razão. Eu também não me lembro muito das coisas que eu fazia antes de te conhecer. Minha vida era tão triste antes...
- É. É bonito falando assim, hipoteticamente. Mas, Edward, amor desse jeito só pode funcionar nos romances. Isso aqui é vida real. A gente ferra com tudo o tempo todo.
- Eu sei, mas não anula o fato de... Bom, deixa pra lá. Acho que eu continuo vendo a vida de uma forma idealizada e romântica.
- Só que eu não estou falando só das coisas boas, mas do lado ruim também. Se alguém me perguntar "você foi feliz nos últimos dez anos?" Eu diria que sim, fui. Eu sou feliz. Mas mesmo assim, sempre existe algum obstáculo. Porque eu deixei que existisse. Meu nível de loucura chegou a um ponto máximo por causa disso, e eu tive um exemplo claro essa semana.
- Qual?
Eu respirei fundo, sem saber se seria certo contar o que havia ocorrido com Riley. Mesmo assim, eu queria usar todas as minhas cartas na manga. Precisava fazê-lo entender tudo o que eu estava passando.
- Edward, nessa semana... Um cara me beijou.
Sim, medi minhas palavras e nem citei o nome do meu colega de trabalho. Não precisava de mais complicações a essa altura. Mesmo assim, o que eu disse me fez ter a atenção total do homem do outro lado da mesa. Seus olhos lançaram-se na minha direção.
- Um cara? O que isso tem a ver com qualquer coisa?
- Tudo. Ele me beijou, mas eu não pude beijá-lo de volta. — eu expliquei e respirei. — Ele não me beijou no meio da rua. Foi na minha casa, na minha sala. O lugar onde eu mais me sinto à vontade no mundo.
- Ele... te beijou na sua casa? — falou e comprimiu os olhos. — Você quer dizer alguma coisa com isso?
Eu sacudi a cabeça, com uma pontada de irritação. Quase me arrependia de ter contado aquilo.
- Pare de prestar atenção só no fato de ele ter me beijado, preste atenção ao que eu fiz! Eu quero dizer que eu o afastei porque não conseguia corresponder. Porque eu estou tão emocionalmente envolvida com essa nossa situação, que eu não pude deixar de pensar que embora ele parecesse um cara perfeito por fora, eu mal o conhecia de verdade, e que no fim eu poderia acabar me ferrando de novo, do jeito que eu me ferrei com você. Entende o quão fodido e absurdo isso é?
- Então agora você está me culpando por não gostar do cara que você mal conhecia? — ele riu sarcasticamente.
- Não se faça idiota, Edward. — falei com um pouco mais de força do que o necessário, antes de amansar o tom de voz. — O que estou dizendo é... Não dá pra continuar vivendo assim. Estou no meu limite e tudo isso é porque eu ainda tenho esse vínculo com você... especialmente com as cicatrizes que você deixou. Não é que eu não seja feliz hoje, é só que não é por completo, não é sadio. Há alguma coisa faltando em mim, e eu quero ser feliz por completo de novo.
Ele ficou em silêncio por vários momentos, e eu me peguei olhando atentamente a sua face, em busca de alguma reação. Foram várias, na verdade. Eu podia ver que ele estava tão confuso quanto eu.
- Fala alguma coisa. — pedi.
- Minha mente está indo a lugares muito longe nesse momento, Bella. Você quer dizer com isso que... O que você precisa pra ser completamente feliz de novo é... O que você tinha no passado? Por que é isso que te falta?
Seus olhos brilharam por um momento, mesmo que eu conseguisse ouvir um tom áspero que mascarava a esperança em sua voz. Foi mais difícil do que eu pensava dizer o que precisava responder.
- Não. Não estou falando sobre você. — falei sem olhar para ele. — Não é a você que eu quero de volta. Não é como eu pensava antigamente.
- Ok. Acho que eu preciso abaixar um pouco a minha bola, não é? — ele riu sem jeito, e por um instante senti pena. Não havia outra forma de falar aquilo, infelizmente.
- Sinto muito, mas tem que ser assim. — eu disse. — Deixa eu me explicar melhor... Eu cheguei a conclusão de que a minha felicidade não deve depender de qualquer coisa externa, eu preciso consegui-la sozinha. Tenho que reconstruir esse vão que existe aqui dentro de mim por mim mesma. Eu tenho que conseguir me sentir plena novamente sem tentar buscar isso em outras pessoas... Você, Claire, meus amigos, amantes... qualquer um. Me sentir amada e desejada é bom, é maravilhoso, a melhor sensação, mas eu tenho certeza... Só vou conseguir ser feliz de novo se estiver em paz com o meu passado, deixá-lo lá sem me incomodar no presente. E eu acho que chegou a hora de remendar esse buraco. É isso. Coloquei na cabeça que o ponto de partida é entender toda a dor que eu passei esses anos todos.
Edward pareceu tomar tudo o que eu dizia muito atentamente. Eu estava até estranhando o fato de estarmos nos entendendo tão bem nessa conversa. Ambos estávamos agindo da forma coerente como deveríamos ter agido sempre.
Ele enfim assentiu a cabeça.
- Isso é um tapa na cara, mas... Acho que você tem razão. E é muito corajoso da sua parte. Muito maduro.
- Um tapa?
- Ouvir você falando dessa forma tão direta que... Que não precisa mais de mim.
- Eu preciso de você pra me ajudar a entender o que passou. Acho que foi pra isso que eu te chamei aqui... Não sei, talvez eu tenha me perdido nesse papo todo. Eu só quero entender as coisas. Entender tudo o que aconteceu, porque e como aconteceu. E quero entender porquê eu não consigo deixar de uma vez o passado em seu devido lugar. Eu quero descobrir qual é o ponto que liga tudo isso e que está errado. Quero ir em frente e buscar a minha felicidade o mais completa que eu puder ter, porque é isso o que eu mereço.
- Você merece. — ele concordou. — E eu quero te ajudar a entender isso, Bella. Vai ser bom pra mim também. É tudo o que a gente precisa, eu acho.
Eu concordei com Edward, e após isso ficamos em silêncio, comendo o que ainda restava na mesa.
Senti que nossa conversa havia chegado ao fim, pois eu já tinha dito tudo o que precisava falar por hoje. Meu corpo parecia uma tonelada mais leve do que ontem. De agora em diante seria assim, eu tinha certeza. Dia após dia eu iria me sentiria mais forte, mais inteira.
Olhei ao redor, e vi que a garçonete já começava a limpar o balcão. Havia pelo menos cinco mesas ainda ocupadas, e eu me preocupei em olhar para o relógio. Já passava das oito.
- Eu preciso ir, daqui a pouco Claire vai começar a ligar. Nem sei como não ligou ainda.
- Eu pago a conta dessa vez, está bem? — ele falou quando me viu tirar a carteira da bolsa, e sem relutar, eu aquiesci.
Nós saímos e cinco minutos depois, Edward me acompanhava até meu carro na rua já escura e menos movimentada. Tinha deixado estacionado ao lado do prédio da redação, e nem me liguei em movê-lo antes.
- Eu só quero pedir uma coisa... Não vamos contar nada sobre o que está acontecendo para Claire. Não por enquanto, ok?
- Sim, claro. Eu acho que é o melhor a fazer.
- E por favor também não comente sobre... Você sabe. — eu engoli em seco. — O que eu te falei aqui, sobre o beijo. Vai confundi-la, vai gerar perguntas, e...
- Tudo bem, Bella. Eu não quero complicar ainda mais a sua vida.
Ele caminhou ao meu lado calado, e eu podia sentir uma certa estranheza em ter sua presença após uma conversa como aquela.
Eu havia confessado tantas coisas que estavam entaladas há tanto tempo. Tantas coisas que eram íntimas demais para confessar, e agora ele sabia. De certa forma, porém, podíamos nos considerar quites — igualmente vulneráveis para o outro. Agora eu também sabia dos seus problemas mais íntimos, de tudo o que tinha o atormentado e afligido por toda uma vida. Sua história com seu pai alcóolatra, suas crises de pânico, sua grande frustração na vida com os seus sonhos falhados.
De repente, percebi que uma grande parte de mim sentia uma imensa vontade de tentar entender a complexidade de Edward ainda mais, e eu sequer achei absurdo. Sabia que era apenas o natural a fazer.
Chegando em frente ao meu carro, me virei e estendi a mão para cumprimentá-lo. Ele apertou com firmeza. Em seguida, abriu a porta para mim, mesmo que eu tivesse protestado.
- Obrigada. — respondi, entrando no carro e fechando a porta. — Podemos marcar nesse mesmo lugar, semana que vem? Ainda temos muito pra conversar.
Da janela do motorista, eu vi Edward sorrir.
- Marcado. Vou esperar ansioso. — ele acenou. — Dirija com cuidado!
E pela primeira vez em muito tempo, ao invés de raiva, eu senti paz ao ver seu bonito sorriso.
Notas finais
Reviews ainda me deixam toda animada, e ainda me ajudam MUITO a entender como estou indo com a história. Obrigada a todas que ainda persistem aqui, que não desistiram da fic, que me mandam sempre perguntas pra saber quando vai ter update. É muito legal saber que alguém gosta tanto de uma coisa que você faz com tanto prazer e carinho, sério mesmo, ó *faz coraçãozinho cas mão* s2
Até semana que vem,
Beijo!
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