Mais Uma Vez

2 Capítulo 1: Insatisfeita


Notas iniciais
Disclaimer: Twilight não me pertence, mas essa história, assim como a filha da Bella e do Edward sim, portanto respeitem. . Obrigada a Cella, a beta mais linda, maravilhosa, cheirosa, gostosa e talentosa do mundo! *puxando o saco só porque eu esqueci DUAS vezes de colocar agradecimentos a ela*

Capítulo 1: Insatisfeita

Bella

O suor escorria pelos meus seios e nuca. Seu corpo colado ao meu molhava-me com seu suor. Eu não me incomodava. Podíamos virar poças de gente naquele salão, contanto que virássemos juntos. Éramos os únicos do mundo em nossa bolha.

Ao redor da grande sala de espelhos, mil velas bruxuleavam pintando o ambiente em tons de amarelos, marrons e vermelhos.

Vermelho era também a cor do meu vestido, que lambia minhas pernas conforme dançávamos. Minha volumosa saia pairava no ar quando ele me girava, e assim riscávamos o chão, éramos um só corpo pulsante. Eu ouvia uma música melódica e sensual, os acordes de um tango lento ditavam nossos movimentos lânguidos.

Minhas costas estavam nuas. Meu decote era profundo, meus seios saltavam aos olhos, nossos quadris se chocavam. Eu o sentia por toda parte.

Mas havia uma parte específica onde eu o queria sentir e já não conseguia mais esperar. Precisava ter aquele homem dentro de mim. Com urgência.

— Eu quero você. – murmurei em sua boca. – Por favor.

— O que você quer, Isabella? Fala pra mim. – a voz grave que respondeu me fez estremecer. A escuridão não me permitia enxergar seu rosto muito bem, porém eu sabia que ele era o homem certo.

— Tudo. Eu quero tudo.

Percebendo-me tão entregue, ele começou a tornar meu pedido uma realidade.

Seu lábios trilharam beijos desde minha garganta até o topo dos meus seios, e com extrema destreza, ele deitou-me no chão sem que eu percebesse. O ardor no meio das minhas pernas aumentava a cada segundo. Eu estava pronta para entrar em combustão.

Parecendo ouvir meus pensamentos, sua mão forte deslizou pela minha coxa. De repente, o vestido havia desaparecido do meu corpo, e agora eu estava nua. Pronta. Meu peito arfava entre nós.

— Tão linda. – ele murmurou. A boca que eu tanto desejava começou a descer pelos meus seios, sugando e lambendo os mamilos, até deslizar pela minha barriga e chegar ao meu sexo.

Ele não pediu permissão. Separou minhas pernas e logo sua boca e língua habilidosas começaram a trabalhar em mim, me fazendo gemer ao sentir a chama me consumir. Suas mãos brincavam com meus seios, e eu as segurei para guiar conforme eu gostava.

Meu orgasmo se aproximava, eu já podia senti-lo vindo quando um barulho começou a me incomodar, e então sua terceira mão surgiu, balançando meu ombro, cutucando insistentemente.

Espera.

Terceira mão?

Eu estava com um alien?

— Mãe, é o seu celular, atende. – ouvi ao longe. A mão não parava de me sacudir, meu amante ficando inerte sobre mim. – Mãããe? Acorda, anda.

A cruel claridade infiltrou meus sentidos, evaporando tudo o que acontecia e levando o deus do sexo de mim como espumas ao vento. Levei alguns instantes para abrir os olhos e reconhecer o rosto da minha filha, que portava uma expressão entediada e sonolenta.

Eu não estava em um salão gigantesco de piso lustroso dançando tango nua com um amante misterioso. Tudo não passava de um sonho. E eu tinha chegado tão perto do fim...

Mas. Que. Merda.

— Atende logo essa porcaria, mãe. – reclamou Claire, jogando o celular sobre a cama. Vi o aparelho quicar duas vezes no colchão enquanto ela saía do meu quarto e fechava a porta. Sentei na cama a contragosto, recostando-me nos travesseiros. Eu ainda arfava e suava, precisei respirar fundo antes de atender.

— Alô?

— Bella? Como vai? Espero não ter interrompido nada. – eu quase gemi de frustração com a voz rouca e esganiçada de Carmen Denali, minha chefe.

— Não. Claro que não, imagina. – tinha certeza que eu soava tão travada quanto me sentia.

— Que bom. Mi querida, preciso de um favor imenso. Um dos artigos da coluna de Liam não ficou pronto a tempo, parece que teve um problema no laptop durante o voo enquanto vinha da Holanda. E agora preciso de uma resenha de filme. Para amanhã. E eu sei que só você pode quebrar esse galho para mim.

— Mas... amanhã? Carmen, eu vou ter que fazer pesquisas, assistir a algum filme recente. Não sei se consigo, desculpa. São onze da noite. – falei olhando o relógio na cabeceira.

— Que nada, você consegue, tenho certeza. Veja seu e-mail, há um link especial do novo filme do Scorsese que Liam iria avaliar. Boa noite. – E sem mais delongas, ela desligou na minha cara.

Eu não sabia se chorava pela tremenda frustração de ter sido acordada de um maravilhoso sonho erótico, ou por ter que escrever a merda de um artigo que não era nem minha área, a essa hora da noite, para um mané com um computador quebrado.

Por que me submetia a isso mesmo?

Ah sim, porque eu tinha uma filha para criar e uma casa para sustentar. Engoli o choro com o pequeno lembrete.

Suspirando de derrota, desliguei a TV que ainda passava o filme com o qual eu tinha sonhado e peguei o computador, abrindo o bendito link exclusivo.

Quando enviei o e-mail final da crítica para Carmen, o relógio já marcava uma da manhã. Ótimo. Eu teria apenas cinco horas de descanso para acordar em uma segunda-feira de agenda lotada. Eu tentava não reclamar, mas às vezes a vida não ajudava.

Exausta, entrei debaixo das cobertas, apagando o abajur para esperar que o sono me levasse rapidamente.

Como se isso fosse possível.

Rolei na cama por alguns minutos, minhas pernas inquietas pareciam querer correr uma maratona sozinhas. Meu corpo me incomodava, o silêncio do quarto, tudo.

Eu já devia saber que dormir estressada e insatisfeita nunca dava certo para mim, então desisti de relutar, senão ficaria aqui até amanhecer. Movida pela força do ódio, levantei para trancar a porta e fui até a caixa guardada no fundo do meu armário.

Resolveria minha frustração da maneira que costumava há mais tempo do que queria admitir. Deus abençoe minha amiga Alice e sua mania de me dar presentes embaraçosos.

Tirei minha calça de moletom e bastaram cinco minutos na cama com o vibrador roxo de orelhinhas mágicas e uma imaginação fértil. Voltei a pensar no meu sonho, terminando-o no cineminha da minha mente, mordendo meus lábios para não gemer muito alto, até conseguir o meu tão esperado clímax.

Enquanto recuperava a respiração normal, analisei meu teto na meia luz do quarto. Queria dizer que a satisfação me recobriu de imediato, porém seria uma mentira.

Ter prazer sozinha era ótimo, mas nunca seria a mesma coisa que compartilhar um bendito orgasmo com alguém. Por mais que eu vivesse bem solteira, era inegável, eu sentia falta dessa parte.

Mas agora não era hora de pensar na minha vida amorosa ou sexual. O cansaço falava mais alto e eu tinha outras prioridades, que incluíam tentar dormir o mínimo para aguentar um dia de cão no trabalho amanhã.

Pus as roupas de volta, levantando para cuidar do meu brinquedinho e guardá-lo. Estava bem escondido na caixa entre roupas velhas e livros empoeirados, pois pensar na minha filha descobrindo isso sempre me dava calafrios.

Destranquei a porta como uma mãe devia e deitei a cabeça novamente no travesseiro. O doce alívio do sono me levou em questão de segundos.

xxxx

O que eu ouvia era o som do despertador, eu sabia.

Um ruído chato e repetitivo que queria me tirar do estado confortável no qual me encontrava, porém eu não sucumbiria a ele. Minha cama e meu travesseiro macio pareciam o paraíso naquele momento, e me aconcheguei mais no edredom, formando um casulo.

— Ah, mãe! Eu não acredito que você ainda está na cama, poxa! Não vou esperar, tenho prova importante hoje. – a voz aflita da minha filha me despertou em um segundo. – Tô indo de metrô, tchau.

— Marie Claire, pode parar agora. – grunhi com a voz grogue. Rapidamente sentei na cama e olhei o relógio enquanto me levantava.

7h35? Como era possível eu ter perdido uma hora e meia, se eu só evitei o despertador por alguns minutinhos?

— Nem vem, mãe. Não posso me atrasar hoje, você sabe disso. – ela falou dando as costas para mim e entrando em seu quarto para pegar a mochila.

Ouvi seu bufar de raiva acompanhado por um murmúrio de algo como "Não vejo a hora de fazer dezesseis anos", o que me fez rolar os olhos para a sua pequena ira adolescente.

— Eu sei, mas você não sabe que de metrô chegará mais atrasada ainda? – falei, tonta pelos movimentos bruscos, enquanto lutava para enfiar uma calça jeans e uma blusa. Sem sutiã. Eu definitivamente estava desafiando as leis da gravidade.

Claire saiu do quarto e desceu as escadas correndo, pulando os dois últimos degraus, para meu desgosto; No dia em que ela batesse a cabeça na parede, talvez entenderia porque eu tanto falava para ela não fazer isso.

Eu consegui chegar ao mesmo tempo que ela na porta, com as chaves na mão. Nós saímos, e assim que dei a partida no carro, o primeiro pingo de chuva caiu sobre o vidro, rapidamente preenchendo de gotas grossas todo o espaço.

Quase gemi quando lembrei de como Nova York ficava em dia de chuva; o trânsito era caótico, os pedestres andavam mais enlouquecidos do que o costume.

— Prometo que vou o mais rápido que puder, filha.

— Ok. – ela resmungou.

Claire passou todo o percurso de cara amarrada, ignorando qualquer tentativa minha de iniciar uma conversa.

— Me desculpe, ok? Eu sei que devia ter acordado mais cedo. Tive um imprevisto do trabalho, Carmen me ligou naquela hora que você me trouxe o celular. Não podia deixá-la na mão. Não era meu plano dormir tão tarde.

— Claro, a Carmen ligou, a Carmen pediu, a Carmen quis... sempre ela, mãe. – disse com desdém, e virou o rosto para encarar a chuva que batia no vidro da janela.

— Eu sei, Claire. Eu sei. – falei quando paramos em um semáforo do cruzamento a cinco quadras da escola dela. – Mas já disse que é por pouco tempo. Jessica está quase terminando seu contrato e saindo da redação. Já expliquei que Carmen me tem como preferida para ocupar o cargo, meus horários serão um pouco menos cruéis.

— Sim, e enquanto isso eu fico me atrasando pra escola e comendo lasanha congelada no jantar. – ela murmurou e meu coração se apertou.

Eu sempre prometi à minha filha que estaria ao seu lado, não importando as circunstâncias. Éramos um time.

Desde que Edward saiu de casa, eu tentava compensar pelo fato de ela não ter os dois pais juntos no cotidiano. Prometi que ficaríamos sempre juntas e eu a levaria para qualquer lugar onde eu estivesse, como fiz diversas vezes enquanto ela era pequena e eu estudava na faculdade, ou mesmo no meu primeiro emprego num jornal que era amigável com crianças.

Mas agora, ela era uma jovem de quatorze anos, grande demais para caber num carrinho de bebê ao lado da minha mesa ou ficar brincando de levar cafezinho pela redação, e eu sabia que não podia mais carregá-la debaixo da minha asa.

Os últimos dois anos tem sido tão corridos desde que fui promovida a editora-assistente na revista. Me entristecia saber que estava perdendo alguns momentos preciosos com Claire, além de enxergar que aos poucos eu perdia a conexão tão profunda que tínhamos. Era uma amarga sensação.

Eu tinha esperanças que Jessica Stanley entregasse logo sua carta de demissão, já que sendo praticamente babá de Carmen Denali, mal me sobrava tempo para respirar.

Jessica era uma das editoras-subchefe, responsável pela sessão de reportagens especiais da revista. Ótimo cargo, com um salário melhor ainda. Seria um salto e tanto na minha carreira se eu o conseguisse.

O trânsito parecia completamente parado ao entrar no quarteirão da St. Patrick, a escola de Claire. E nesse momento, ela tentava me convencer a deixá-la sair a pé nessa chuva.

— Mãe, não tá vendo tudo engarrafado? Me deixa ir andando, vai.

— Não. São só mais cinquenta metros, sossega esse facho. – respondi, começando a ficar seriamente irritada.

— Mas mãe, são cinquenta metros que eu posso ir andando. Vamos ficar presas aqui pelo menos mais cinco minutos. E os portões vão fechar em dois. Eu sei que você não é uma gênia da matemática, mas faça a conta!

— Olha a malcriação! Está chovendo demais. Quer pegar uma pneumonia? – minha filha era sempre tão metida a espertinha. Se eu dissesse que era culpa do pai dela, me chamariam de amarga.

— E você quer que eu perca a prova? Essa não tem segunda chamada. Imagina como vai ficar meu histórico escolar se eu reprovar em matemática? Quer que eu perca uma chance de entrar em Harvard? Em Dartmouth?

O que ela falou mexeu comigo mais do que eu queria, apesar de ser apenas uma chantagem emocional que eu já conhecia de cor.

E se eu realmente estivesse prejudicando seu rendimento na escola, e isso refletisse mais tarde, quando fosse o tempo de Claire se candidatar a uma faculdade importante?

— Mãe! – Claire quase berrou para chamar minha atenção, me assustando.

— Está bem. Vai, vai logo antes que a chuva aperte. – desisti de relutar, e quase mandei que ela voltasse para o carro quando lembrei que não trouxera nenhum guarda-chuva. Ela saiu tão batida que nem tive chance de desejá-la uma boa prova.

Observei enquanto corria os degraus, vendo sua roupa ficar mais molhada a cada passo.

Franzi o rosto pensando no desconforto que ela sentiria, mas me contive para não me preocupar demais com isso. Repeti a mim mesma que, aos quatorze anos, Claire já estava crescida o bastante para saber cuidar de si em situações como essa.

No meio do caminho para casa, lembrei de algumas coisas que deveria ter falado a Claire sobre o dia de hoje e mandei uma SMS.

A correria não parava. Me arrumei voando, e com trinta minutos de atraso, mais vários telefonemas ignorados de Carmen, cheguei ao prédio da New York Week.

Subi aflita os quarenta andares do edifício da New York Week. No elevador, mentalizei para não faltar luz e eu ficar presa ali na tempestade, e que minha chefe não estivesse tão nervosa quanto eu pressentia.

O universo decidiu ouvir apenas a primeira metade dos meus desejos.

Assim que cheguei ao andar da redação, mal tive tempo de cumprimentar as recepcionistas, um braço me puxou em direção à sala de Carmen.

— Qual é a urgência dessa vez, Irina? – perguntei um tanto irritada com sua mania de sair pegando em mim, me arrastando feito boneca de pano.

— Parece que alguma coisa aconteceu com um funcionário nosso que está preso.

— O quê?! Quem?

— Não sei, Carmen vai explicar. Vá lá, entre. – ela disse, empurrando-me para a cova da leoa.

Minha chefa andava de um lado a outro, os saltos finos martelando o chão em um ritmo de doer os ouvidos. Um cigarro estava aceso em uma mão, e na outra, o maço vazio. A sala fedia a fumaça mesmo de janela aberta, já devia ser o quinto do dia.

— Que demora, Isabella! Feche a porta. – ordenou e eu obedeci. Minha boca se abriu querendo me desculpar pelo atraso, mas Carmen começou a despejar sua raiva sem me dar chance. – Estamos na maior crise de imagem que já enfrentamos! Em trinta anos de profissão, nunca vi algo assim, é um absurdo. Eu vou destruir a carreira desse infeliz irresponsável do Liam.

— Liam? O que houve com ele, além do computador quebrado?

Ela começou a explicar que Liam Callegher havia sido pego no aeroporto com dez quilos de ecstasy vindos da Holanda. E como se ter um funcionário acusado de tráfico já não fosse catastrófico o bastante, os pacotes estavam todos embrulhados em páginas da New York Week, nossa querida revista.

— Justo hoje! Quando todos os inimigos e concorrentes dessa revista estarão no maldito jantar! – ela tagarelava sobre o evento que teríamos mais tarde, nervosa como nunca a vi.

Meu sonho era sacudir seus ombros para dar-lhe um tabefe no rosto que findasse seu ataque de pelancas pelo choque. Ah, se eu pudesse... Eu seria a assistente pessoal mais feliz do mundo.

— Carmen, por favor, sente-se. – falei, sentando em uma das poltronas para encorajá-la. Evitei dizer a palavra "calma" para não sobrar para mim. – Tenho certeza que vamos achar uma solução juntas.

— Que solução? Tinha um traficante aqui dentro, Dios mio! A concorrência vai à loucura com isso, daqui a pouco a notícia vaza. Minha reputação estará na lama, e—

Enquanto ela gralhava, deixei-a em segundo plano, meu raciocínio fluindo rapidamente para bolar uma solução. Afinal, sobre crises urgentes eu era bem versada, sabia como lidar. A vida havia me preparado a duros golpes.

Aproveitei uma brecha de silêncio seu para dizer o que eu tinha pensado: uma reunião urgente com todos os diretores de departamentos e um plano de ação para nossa defesa. Sigilo total.

— Isso! – ela me apontou com seu dedo de unha longa e vermelha. – Ótima ideia. Faça isso, enquanto eu vou tentando garantir o silêncio do delegado que me telefonou.

Ignorei sua sutil confissão de suborno a uma autoridade no meio de seu desespero, e saí da sala.

Era a primeira vez que eu chefiava uma reunião, e logo sobre um assunto tão delicado. Minhas mãos tremiam, discretamente, porém reuni toda a firmeza e confiança para falar em nome de Carmen aos dez responsáveis pelas diferentes sessões e departamentos da revista. Pareceu funcionar.

Ao fim da manhã, a grande maioria dos meus colegas portava semblantes muito mais sérios que o de costume. A tensão era geral.

Não sei se era delírio meu, mas, de alguma forma, parecia que me olhavam com algo semelhante a temor e respeito. Era o que eu via neles quando lidavam com nossa chefe, e isso me assustou um pouco. Não sabia se gostava desse sentimento, para ser sincera.

Já Carmen, por outro lado, mesmo que ainda acendendo cigarro após outro, pareceu satisfeita pelo meu rápido trabalho. Não havia um "obrigada", mas ao menos ela parou de gritar comigo.

No meio da correria da tarde, nem tive tempo de responder a mensagem que Claire enviou, avisando que ficaria a tarde toda vendo filmes na casa da prima. Eu não gostava que fizesse isso em dia de aula, mas deixei passar, era um dia atípico.

Às sete da noite, me despedi de todos, correndo para ir em casa me arrumar. Depois de tudo, ainda havia o jantar de aniversário da Readers, a editora responsável pela New York Week. Esse devia ser o dia mais longo do ano.

Quando finalmente consegui chegar em casa e terminar de me arrumar, estava atrasada. Irritadíssima. E claro, só para variar, o meu celular tocou enquanto eu lutava com o fecho dos saltos.

— Alô? – atendi, vendo um número confidencial no identificador de chamadas.

Oi, Bella? Sou eu...

Ao ouvir aquela voz, imediatamente, toda a aura de irritação ao meu redor pareceu duplicar. Eu parei tudo o que fazia.

Era meu ex-marido.

Havia entre nós um acordo invisível: ele só ligava para o meu telefone quando era realmente necessário. Para falar com a nossa filha, telefonava direto para o celular dela.

Pensei em desligar e evitar o quer que Edward estivesse planejando para me tentar a paciência dessa vez, justo no dia mais estressante dos últimos tempos, porém prossegui. Podia ser urgente.

— Oi. Fala.

Ah, como eu estou? Vou muito bem, obrigado. – ele disse num tom teatral e debochando. – E você, como está?

Eu revirei os olhos, sem tempo para esse jogo.

— Você quer alguma coisa, Edward? Tenho pressa pra sair, e não estou num bom dia.

E quando está?— murmurou baixo pensando que eu não ouviria. Apenas ignorei.

— Bom, já que só ligou pra me dar lição de etiqueta, eu vou desligar, tch—

Espera. Eu só estou procurando Claire. Queria falar com ela, o celular está fora de área.

Dei uma respirada, tentando me acalmar.

As pessoas ao nosso redor costumavam dizer que às vezes eu exagerava com ele, e embora eu jamais fosse dar o braço a torcer, é claro que eu sabia quando pegava pesado. Não é como se houvesse muita escolha. Eu tinha os meus motivos, e Edward sabia muito bem que eram ótimos.

— Ah, está na casa de Alice, pode ligar pra lá. – expliquei.

Ok... Olha, eu já depositei a pensão do mês. Soube que ela teve que ir ao dentista essa semana e adicionei um pouco mais.

— Tá bom... Obrigada. Mas não precisava, minha empresa tem convênio com uma rede de dentistas, usei o desconto familiar.

Oh. Tudo bem, então, compre um presente pra ela com o que sobrou.

— Bom, acho que ela não está precisando de nada por enquanto, vou botar na poupança.

Ela disse que quer um tênis... é o Adidas novo, pode dar.

— Tsc. Edward, ela está cheia de tênis novinhos aqui, quase não tem mais espaço no closet. Não precisa, tá? – falei tentando adocicar a rispidez da minha voz, e torcendo para que ele não percebesse o esforço. Falhei miseravelmente.

É só um presente, Bella, o quê que custa?

Eu respirei fundo, doida para findar a conversa de uma vez. Quando ele teimava com coisas pequenas assim, era um grande teste para mim. Minhas defesas subiam, se aprontando para uma batalha que sempre me deixava esgotada e machucada.

Vinha sendo assim há quase oito anos.

— Olha, desculpa, mas eu não vou dar, não gosto de comprar coisas desnecessárias. Se Claire quiser mesmo, ela vai comprar com a mesada dela. Ou você mesmo compra, eu te devolvo o dinheiro.

Meu Deus, como você é difícil...

— Eu não sou difícil, Edward. Só dou valor ao dinheiro e não gosto de mimar a minha filha quando ela pede um tênis da moda só porque as amiguinhas ricas da escola estão usando. Daqui a dois meses lançam um novo e ela vai querer trocar. Parece que você não lembra como era estudar naquele colégio?

Pelo longo silêncio que seguiu, Edward parecia não ter mais contra-argumentos.

Tudo bem, pode botar na poupança, então.— falou, a voz de quem havia sido contrariado e derrotado.

Venci dessa vez, sim, mas era uma vitória com gosto amargo.

Eu detestava discutir por conta de Claire, e já há algum tempo havia prometido a mim mesma que tentaria manter o mínimo de civilidade com meu ex-marido só por conta dela. Essa era a tarefa mais difícil da minha vida, e olha que eu tinha muitas no dia-a-dia.

— Ótimo. Bem, eu preciso sair agora. Tem outro assunto importante pra tratar?

Não, só isso mesmo.

— Ok. Tchau, Edward. Boa noite.

— Boa noite.

Curta e grossa. Odiava ser grossa, gostava de ser curta. Eu fazia de tudo para minimizar nossa comunicação apenas para o mais básico, era mais forte que eu.

Até chegar aqui, foram anos de treinamento suprimindo minhas mágoas e emoções para falar com ele. Eu não queria ser a ex-mulher histérica, e para isso era preciso colocar a máscara e seguir em frente. Tínhamos uma vida em nossas mãos, era só isso que me importava. Era só por ela.

Estava me virando para sair, a valer agora, quando o telefone de casa que tocou. Ah não. No impulso, acabei atendendo sem paciência.

— Alô?!

Mãe? – a voz diminuta de Claire me desarmou.

— Ah. É você, amor. Desculpa, achei que era outra pessoa...

Okay...? Você vai ao jantar mesmo?

— Sim, estou de saída, aliás. Por quê?

Nada, só liguei pra avisar que fiquei na casa da tia Alice. Eu mandei mensagem, mas você nem respondeu...

— Tudo bem. Eu li, só não tive tempo de responder... Aliás, eu te mandei outra agora pouco avisando que vou te buscar, você não viu?

Não, meu celular tá todo travado aqui.

— Meu Deus, essa porcaria de iPhone trava toda hora!

Ah, a culpa não é minha, dessa vez eu não estava jogando nada, juro! O que você falou na mensagem?

— Só pra te avisar que vou te buscar quando sair do evento.

Quando você sair? Poxa, mãe, eu tenho aula amanhã, estou de uniforme ainda, nem tomei banho. Você só vai sair depois de dez da noite, se liga.

Eu expirei o ar, exausta com seu tom. A voz inconveniente de Edward falando que eu era "difícil" ecoou na minha cabeça. Creio que Claire tinha mesmo a quem puxar, e a cada ano de sua adolescência, eu provava mais do meu próprio veneno.

— Tá, então o que vai fazer? Dormir aí de uniforme?

Tia Alice tinha dito que me levaria em casa, vou falar com ela.

— Tudo bem, então. Só não saia muito tarde, tá?

Mãe...— ela me chamou com uma voz tão estranha, que eu tive que parar antes de desligar.

— Sim?

Por que não avisou que teria compromisso hoje? Segunda-feira fez a mesma coisa. Você costumava me avisar com antecedência antigamente...— ela fez uma reclamação válida e verdadeira, porém algo em mim não conseguiu aceitar que eu havia falhado com a minha filha. De novo.

Meus instintos me colocaram na defensiva.

— Não avisei porque... Porque não, ué! Não preciso ficar dando satisfações de tudo que eu faço, isso é coisa que só a filha deve à mãe. Semana passada você não me avisou que ia ficar a tarde inteira na casa da Rachel, avisou?

N-não, mas—

— Filha, estou muito atrasada. Depois a gente conversa, está bem? Um beijo, até mais. Te amo.

Beijo.— sua voz chapada soou pelo telefone, e a linha ficou muda no mesmo instante.

O alertou de que talvez eu tivesse sido dura demais com ela começou a piscar com força. Debati se ligava de volta e pedia desculpas, mas sabia que não tinha mais tempo, precisava estar no evento em meia hora.

Conversaríamos mais tarde quando eu chegasse. Ou talvez amanhã. Ou quem sabe quando eu tivesse oportunidade de encontrar minha filha pessoalmente.

Instantes antes botar o pé para fora da casa, fechei os olhos, desejando com força que algo muito bom acontecesse nesse jantar.

Algo que me trouxesse de volta o equilíbrio da vida que eu tanto lutei para ter com a minha filha, como merecíamos.

Notas finais
Bom, agora a fic começa pra valer. No próximo capítulo venho com uma surpresa... quer dizer, ou algo assim. Eu espero muito que vocês curtam a forma como eu resolvi contar essa história. *rói as unhas* Deixem reviews pois sou insegura! O que acharam dessa Bella estressada e sexualmente frustrada? HAHA Beijos.