Mais Uma Vez
5 Capítulo 4: Oh Happy Day
Notas iniciais
Capítulo 4: Oh Happy Day
Bella
Hoje, a noite seria só das meninas. Bem, sendo as meninas eu e minha filha.
Eram sete quando chegamos ao bar-karaokê, o mesmo que Claire vivia comentando sobre as amigas que faziam "noitadas" lá – obviamente com identidades falsas, já que em nenhum local do país meninas de quinze anos poderiam entrar em um lugar assim.
Mas eu a acompanhei e apresentamos nossas identidades verdadeiras. Ao confirmar que Claire era minha filha e tinha minha permissão para entrar no bar, nós fomos liberadas para entrar. A situação cômica da vez foi terem pedido primeiro pela minha identidade. Foi também, no mínimo, uma grande massagem para o meu ego de mulher de trinta e poucos.
Como era pleno meio de semana e tão cedo, o local estava quase vazio, o que me deixou extremamente aliviada. Somente alguns gatos pingados teriam o desprazer de ouvir minha voz de cantora de chuveiro.
Nos sentamos perto do bar, e o garçom logo veio anotar nossos pedidos.
— Posso pedir champanhe? – Claire perguntou fazendo seus olhinhos, me pegando de surpresa.
— Claro que não, tá louca? – falei em tom de pergunta, sem entender o que ela tinha naquela cabecinha.
— Ah, mãe, poxa. Estamos comemorando sua promoção. Precisamos de champanhe! Por que não?
— Claire, eu vou dirigir e você tem quatorze anos. Não é óbvio?
— Você acaba com toda a graça. – ela respondeu, fazendo um pequeno bico e eu apenas rolei os olhos.
— Traga uma água tônica e uma coca, por favor. – falei, enfim. – Ah, e esses mini-hambúrgueres também.
O garçom trouxe nossas bebidas rapidamente, e nós brindamos à nova fase que eu viveria no trabalho. Em seguida, comecei a contar todos os detalhes do que faria no novo cargo.
— Então, isso significa que você terá mais tempo livre? – indagou Claire quando terminei de contar tudo. Ela tinha ficado especialmente animada em saber que eu teria uma sala só minha, já começando a fazer planos de decoração. Essa menina estava realmente passando muito tempo com Alice, que sempre se animava com esses assuntos.
— Sim. Vou chegar às nove e sair às seis, como gente normal, e alguns dias poderei até sair mais cedo. É o lado bom de ter uma equipe dividindo as tarefas comigo.
— Então, adeus Carmen ligando altas horas da noite ou pedindo coisas absurdas no fim de semana? – perguntou esperançosa.
— Graças a Deus, sim! Mas, em compensação, se houver alguma urgência da minha equipe, terei que ficar na redação até quando for preciso. Seja fim de semana ou feriado. – expliquei, tomando um gole da água tônica.
Vi enquanto ela assentia a cabeça, recolhendo todas as informações. Claire parecia ter aceitado bem o trato que eu tinha feito na revista; eu teria agora o meu fim de semana completo em casa, já que antes Carmen me mantinha refém em seu escritório, em pleno sábado, para repassarmos todos os detalhes da edição que circularia no dia seguinte. Embora existisse a possibilidade de ter que sair a qualquer momento que eu fosse chamada, esse novo esquema era um grande avanço.
— Está bem, agora que já contei tudo, que tal começar a sessão paga-mico? – falei e ela riu.
— Ai, mãe, fala sério. "Sessão paga-mico"? – zombou gargalhando.
— Vamos. Você escolhe a primeira música. – disse me levantando para puxar sua mão e colocá-la de pé. Fomos até bancada do DJ para pegarmos o catálogo com as músicas.
— Hm... – ela falou, coçando o queixo enquanto folheava o catálogo. – Acho que escolho uma em sua homenagem. Pra você relembrar os velhos tempos.
— Está me chamando de velha? – inquiri fingindo mágoa. Já estava imaginando que ela colocaria um Johnny B. Good, algum rock dos anos 50 só para zombar mais de mim. – Olhe lá o que vai escolher, hein?
— Você verá. – disse misteriosamente e apontou a faixa escolhida para o DJ.
Nem precisei ler o nome da canção na tela da televisão onde passavam as letras, pois logo nos primeiros acordes reconheci Cherry Lips, de uma das minhas bandas favoritas dos anos 90, o Garbage.
Com um sorriso enorme em nossos rostos, cantamos a música juntas sobre o pequeno palco, fazendo dancinhas, como já tínhamos feito várias vezes em casa com o som nas alturas. Acho que estávamos tão animadas que, ao final, os poucos presentes no bar nos ovacionaram com palmas e assobios, como se fôssemos ótimas cantoras.
Era quase isso. Quer dizer, Claire tinha uma certa noção de tons e acordes, já que suas aulas de bateria haviam lhe ensinado tanto, além da experiência com sua banda também ajudar. Nossa forte conexão com a música talvez compensasse as vozes imperfeitas.
Fazia tempo que não me divertia tanto, e eu me sentia ótima comigo mesma e com a companhia da minha filha; não queria que a noite terminasse tão cedo.
O tempo infelizmente pareceu passar voando. Após mais cinco músicas – algumas escolhidas por mim, outras por Claire -, concordamos que já estava tarde demais, e fechamos com chave de ouro escolhendo Mamma Mia, do ABBA.
Chegamos em casa quase onze da noite, ambas exaustas, e imediatamente subimos para nossos respectivos quartos. Enquanto eu trocava de roupa após me assear, Claire apareceu batendo na minha porta.
— Posso entrar? – ela perguntou, já vestindo o pijama.
— Depende. Já escovou os dentes? – inquiri, e ela assentiu a cabeça. – Então pode.
Ela sentou-se na minha cama, recostando-se, e ficou a me observar enquanto eu penteava o cabelo sentada em frente a minha penteadeira. Seus grandes olhos atentamente acompanhavam a escova subir e descer.
— O que foi? – perguntei. Ela parecia encantada com o meu cabelo, como ficava quando era menor.
— Nada. É que seu cabelo é tão bonito. Queria que o meu fosse igual. – ela deu de ombros enquanto brincava com as pontas de seus próprios fios, avoadamente. Eu franzi o cenho.
— Que bobagem é essa, Claire? Seu cabelo é muito mais bonito. – afirmei.
Me levantei para sentar à sua frente na cama. Penteei uma mecha de seu farto cabelo para trás da orelha, acariciando seu rosto.
— Olha só esse brilho, essas ondas perfeitas, e essa cor? Meu cabelo é tão sem graça perto do seu.
E era verdade, minha filha tinha saído uma mistura perfeita do pai dela e eu. Sempre achei que a beleza ela puxara do pai – eu não podia negar que Edward era extremamente bonito -, mas de resto, nossos traços estavam por toda parte nela.
Seus olhos eram exatamente um equilíbrio entre um verde claro e um aro interno de castanho claro, que de longe pareciam um exótico verde acinzentado. Seus cabelos eram alguns tons de castanho mais claros que o meu, e possuíam diversas mechas que iam do avermelhado ao alaranjado e pareciam hipnotizantes, principalmente sob a luz do sol. Seu sorriso era a coisa mais linda do meu mundo, e as sardas pintavam seu nariz.
Mas é claro que a insegurança quanto a sua aparência, ela tinha que puxar de mim. Eu era igualzinha nessa idade.
— Ah, sei lá. Só queria que meu cabelo fosse menos cheio, mais arrumado. – ela deu de ombros. Eu balancei a cabeça lentamente.
— Não precisa ficar com essa insegurança toda. Você é linda. Seu cabelo é lindo. Muito mais do que o meu, até. – eu falei, e ela pegou minha mão.
— Outro dia… – começou a falar, brincando com meus dedos e sem me encarar. – O papai estava me contando umas coisas.
Eu engoli em seco com a menção a Edward.
— Que coisas?
— Ah, nada demais. Só sobre como eu era quando criança. Aí ele falou que eu ficava horas brincando com seu cabelo quando eu era bebê e ainda mamava. – ela sorriu ligeiramente. – Acho que eu sempre fui fascinada com isso, né?
— É verdade. Às vezes suas mãozinhas pegajosas embaralhavam tanto meus fios que eu demorava um tempão pra ajeitar. – falei, rindo ao me lembrar.
— É, ele falou que você tinha um cabelão que fazia sucesso. – ela disse, e sorriu com um brilho triste nos olhos. – Acho que ele gostava muito também.
— Acho que sim. – respondi, sem saber o que dizer.
— Posso dormir aqui com você hoje? – ela indagou timidamente, e eu senti meu sorriso se abrir.
— Ah, minha filhinha quer dormir comigo depois de anos? Mas é claro que pode, vem cá. – eu disse, e parti para atacar Claire com beijos e cócegas.
— Para, mãe! Para! – implorou arquejando e gargalhando contra sua vontade, até que eu parei. – Depois reclama quando eu te chamo de chata.
Eu apenas ri mais, dando um tapinha em seu bumbum e entrando debaixo das cobertas com ela. Apagando o abajur, desejei uma boa noite para Claire.
— Eu te amo, mãe. – ouvi ela cochichando no escuro, segundos depois. – Estou muito orgulhosa de você.
Deixei um beijo na sua testa, segurando suas mãos.
— Também amo você, minha flor. Obrigada. – respondi suavemente. Senti o sorriso perdurar em meu rosto até mergulhar na inconsciência do sono.
xxxx
A semana pareceu ter voado. Na quinta-feira ao meio-dia, Alice me ligou dizendo que estaria livre até duas da tarde, e me chamou para almoçar com ela em um restaurante no meio do caminho entre a St. Patrick e o meu trabalho.
Eu a deixei a par de todas as novidades da minha vida, e ela falou das dela. Tudo estava correndo bem até que minha melhor amiga e ex-cunhada colocou suas asinhas de fora.
— Então, como tem passado o brinquedinho mágico? Está cuidando bem dele? – perguntou de repente, assim que a garçonete deixou nossos pedidos na mesa. – Você sabe que ele requer cuidados especiais.
Meu "brinquedinho", o rabbit, havia sido seu presente de Dia dos Namorados para mim, já que era um costume antigo nosso nos presentearmos nesta data. Eu lhe dei uma batedeira nova. Ela me deu um vibrador. Conseguem ver a discrepância na nossa relação de amizade? Pois é.
— Está tudo ótimo com ele, obrigada. Estou aproveitando muito. – disse em voz bem baixa, com medo do casal de turistas idosos na mesa ao lado escutar tudo.
— Quê? Não entendi a última parte, fala mais alto. – disse ela.
— Tá tudo ótimo. Vamos mudar de assunto?
— Ah, para, agora está fazendo a recatada, com vergonha de falar de sexo?
— Não é nada disso, mas comporte-se, estamos em público. – falei quase sussurrando agora. É claro que eu não me envergonhava de ter brinquedos eróticos, mas ninguém precisava ficar sabendo que eu os possuía.
— Qual o problema? Isso tudo é vergonha de falar do seu vibrador? – ela disse a última palavra alto, propositadamente para me constranger e eu quase me escondi embaixo da mesa.
— Por que você é assim, hein? Pior que as amigas da minha filha.
Ela riu da minha cara, tomando um gole de suco.
— Bella, relaxa. Só estou te provocando. Você sabe que eu só quero o seu bem; quero que aproveite mais a vida!
Ergui uma sobrancelha para ela.
— Do que está falando? Eu aproveito muito bem a minha vida, obrigada.
— Oh, mulher, por favor. Com quantos homens você teve algum tipo de relacionamento desde que se separou de Edward? Hein? Três em sete anos? – ela lançou a pergunta. Involuntariamente, fiz as contas na cabeça enquanto mastigava minha comida.
Teve o Quinn, aquele metido a poeta quando estava recém-separada. Depois veio o caso relâmpago com Ben, meu vizinho na época, que não durou mais de duas semanas e que acabou se casando com Angela, minha amiga da escola (porém sem ressentimentos, continuávamos todos amigos).
E por último... James. Ainda podia sentir o gosto amargo de sua traição em meus pensamentos. E logo com aquela vaca da Victoria Simmons.
Nenhum deles, no entanto, parecia ter me satisfeito completamente. E não me referia somente a sexo – embora James tivesse sido maravilhoso na cama e me fizesse experimentar várias coisas, até eu descobrir que ele não era maravilhoso apenas comigo e sim com mais duas ao mesmo tempo.
A verdade é que eu sempre sentia falta de algum elemento que nem sabia explicar, mas se fôssemos seguir as convenções, eu diria que era falta de sentir aquele amor arrebatador preenchendo meu coração, e toda essa baboseira romântica.
E eu duvidava que algum dia voltaria a sentir isso. Já havia me acostumado com o destino reservado a mim.
— Sim, mas e daí? Você sabe que eu vou a encontros ocasionalmente, eu saio pra me divertir com você e o pessoal, aproveito uns drinques de vez em quando. Tudo bem que o trabalho tem sido um pouco estressante ultimamente e mal tenho tempo para ver vocês, mas já disse que vai melhorar.
— Meu bem, sejamos sinceras, há quanto tempo você não sai com um cara? Assim, de verdade, pra dormir com ele... Deve ter um ano, correto?
Ela já estava me enervando com o assunto.
— Sei lá, Alice. Deve ser, por aí. Não sei onde quer chegar com esse papo.
— Trepar, Bella! Estou falando de trepar! Que é o que você precisa!
Quando as palavras saíram sonoramente de sua boca, meus olhos se arregalaram e quase engasguei com a água. Ela estava querendo me matar de vergonha, tinha certeza agora.
— Alice Cullen, shh!
— Eu sei, eu sei, tenho que me calar. Mas eu só quero te ajudar. – ela se inclinou para falar em tom normal dessa vez. – A vida não é só trabalhar, Bella. Caramba, olhe só pra você! Sua cara denuncia: está precisando urgentemente de uma boa foda.
Eu sacudi a cabeça, tapando meu rosto com uma mão e fingindo que ela não existia. Se alguém tirasse uma foto nossa nesse momento, os negativos mostrariam Alice ao lado de um pimentão vermelho de vestido preto.
— Estou mentindo? – perguntou.
— Não, mas—
— Taí, eu sabia! Oh, Bella. Você vai fazer trinta e três anos, está perdendo o melhor da vida. Sabe todas aquelas histórias sobre a melhor idade da mulher ser na faixa dos trinta e quarenta? Completamente verdade. Estou beirando os quarenta, e nunca tive orgasmos melhores!
— Você está falando igual revista brega pra donas de casa dos anos 80. Tem certeza que não tem vodka aí nesse suco? – falei tentando mexer em seu copo. Alice bateu em minha mão para afastá-la.
— Eu tenho a solução perfeita. – ela começou a falar, seus olhos brilhando de malícia e travessura. – Mike Newton é um colega de Jasper, trabalham juntos. Ele é uma graça, Bella, tenho certeza que vocês se darão muito bem.
— Não... não acho que seja uma boa ideia, não estou realmente procurando por ninguém agora, Alice.
— Tsc. Você está em uma ótima fase da vida, já conseguiu o que queria no trabalho. Bella, tente… Nem que seja só sexo por uma noite. Vai te fazer muito bem. – ela pegou o celular, abrindo uma foto para me mostrar. Me estiquei para olhar, só pela curiosidade. – Olha só, como ele é um gatinho. Ficou super interessado quando falei de você.
Ele não era uma aberração, mas também não era exatamente o meu tipo. Diria que era bonitinho, um loiro padrão. Inofensivo. Insoso.
— Parece simpático, mas não sei, Ali... Você sabe que eu detesto essa coisa de encontro às escuras.
— Por favor? Eu prometo que vão se dar bem. Mike também é divorciado há uns anos, vocês tem tudo a ver.
— Só por termos o divórcio em comum? Você acha que nós, divorciados, somos um clubinho? – falei irritada. Ela não entendia e jamais entenderia. Seu casamento com Jasper Hale era uma fortaleza inabalável há quase vinte anos.
— O que estou dizendo, é... Eu quero ver meus amigos felizes, e acho que vocês tem chance. Por favor? Só uma noite, tenta. Se não der certo, é só sair fora. Pode até me usar de bote salva-vidas, se precisar, me liga e venho ao seu resgate.
Sempre pedi aos amigos mais próximas para que nenhum tentasse bancar o cupido e me arranjasse com alguém. Entretanto, dessa vez, eu sentia que Alice não iria sossegar até me ver com um novo homem nos braços. E no fim das contas, se esse cara fosse terrível, eu poderia para sempre culpá-la e me livrar de suas investidas na minha vida amorosa.
— Tudo bem. – suspirei. – Você venceu. Eu saio com Mike Newton.
— Isso, garota! – Ela abriu um sorrisão. – Está livre amanhã?
— Sim. Espera, por quê?
— Vou te dar o telefone dele, vocês combinam. Ele estará livre amanhã, só aguardando você ligar.
— Você já tinha feito tudo pelas minhas costas, né?
— Uma cúpida nunca revela seus segredos. – piscou um olho, enquanto eu rolava os meus.
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Liguei para o tal Michael no caminho de casa. Era um rapaz agradável, mesmo. Acabamos marcando para amanhã à noite, um restaurante maravilhoso que ele descobriu. Usou essas palavras, entusiasmadíssimo. Talvez esse divorciado estivesse mesmo mais necessitado do que eu.
No entanto, bastou eu pisar em casa para lembrar de um certo compromisso inadiável que eu havia feito com Claire, justamente amanhã à noite.
Ela estava em algum canto ouvindo música exageradamente alta, como sempre, e segui para onde o som me levava. Juro que essa menina vai ficar surda qualquer dia desses.
— Oi, cheguei. – anunciei entrando na cozinha. Ela estava debruçada sobre o fogão, balançando os quadris. O ar cheirava a fritura.
— Claire? – chamei mais alto para que ela me ouvisse. Ela me lançou um breve olhar sobre o ombro.
— Oi, mãe.
— O que está fazendo aí? – quando ela se metia na minha cozinha, geralmente era para preparar alguma besteira.
— Batata frita. Tia Alice me deixou na vontade desde quando almocei lá. – ela explicou, cantarolando baixo uma canção de Kelly Clarkson. Era uma tradição nossa fazer uma preparação pré-final do American Idol ouvindo todos os CDs dos nossos vencedores favoritos; fazíamos a mesma coisa em todas as temporadas.
A final que, por acaso, seria amanhã. Eu estava ferrada.
— Como assim? – inquiri. Essa tia Alice parecia interferir demais na nossa vida ultimamente.
— Rose passou mal e ela teve que fazer um macarrão sem graça. – ela deu ombros.
— Ah sim. Quando terminar, pode ir no meu quarto? Preciso falar com você.
— Claro. – ela falou, sorrindo radiante.
Meu coração se apertou tanto. Coitada da minha bichinha. Lidar com essas pequenas decepções da vida materna eram a coisa mais difícil. Eu poderia lidar com decepcionar o mundo inteiro, menos minha filha.
Respirei fundo e subi para me preparar para ver a carinha de decepção que Claire faria daqui a pouco. Justo quando minha semana tinha sido ótima, especialmente por ter podido compartilhar minha felicidade com a minha filha.
Por que eu não sabia dizer não às pessoas? Às vezes queria ter o coração totalmente gelado. Me pouparia tanto.
Claire
Minha mãe estava ridiculamente roendo as unhas quando eu cheguei em seu quarto. Ela enrolou para contar o que queria me falar, mas logo desembuchou depois de eu demandar que parasse de me enrolar.
— Acontece que surgiu um encontro pra ir amanhã à noite e por isso não vou poder estar aqui pra assistir a final do American Idol com você. Eu nem estava pensando em ir, mas acabou que esse cara é muito amigo de Alice e Jasper, ela insistiu tanto... – disse de uma vez só, antes de parar e respirar. Ela estava tão aflita, que sua veia da testa estava saltando como sempre quando ficava nervosa.
— Ah. – Pausei por um momento, e fiquei à espera da raiva que viria. Sabia que deveria começar a acusá-la de me abandonar agora, como eu faria – e já fiz – em outras ocasiões. Abri minha boca para tentar falar alguma revolta, mas nada saiu.
Eu senti a decepção pelos planos desfeitos, mas, ao mesmo tempo, as imagens da quarta-feira no karaokê não saíam da minha mente. Ela pareceu tão mais leve e jovial – jovem, como ela realmente era. Eu desejava vê-la assim sempre. Além do que, fazia eras que ela não me apresentava a um namorado novo – e quando a mamãe namorava era ótimo para mim, porque além de mimos dos moços, eu ganhava a oportunidade de ter a casa livre algumas horas a mais do dia. Todos saíam no lucro.
Minha mãe já tinha se sacrificado em tantos aspectos, e por mais que eu quisesse tê-la ao meu lado sempre, sabia que ela precisava ter algum lazer. Ninguém merecia só trabalhar e viver em função de uma porcaria de empresa.
— Tudo bem. Pode ir tranquila. – falei, enfim, e ela me olhou com desconfiança. Acrescentei – É sério, mãe, eu acho que você está merecendo se divertir.
— Você jura? – questionou, e eu afirmei com a cabeça. – Huh. Ok… Mas você me desculpa por estragar nossos planos? Eu prometo recompensar, depois a gente faz o que você quiser.
— Relaxa, mãe. Sim, eu te desculpo. Quer dizer, eu só estou um pouco preocupada, sabe. – falei e ela me olhou com aqueles olhos arregalados.
— Com o quê?
— Ué, olha só pro estado das suas unhas, mãe! Você nem teve tempo de passar numa manicure. Sabia que 40% dos homens se importam com a aparência das unhas de uma mulher, e reparam isso à primeira vista? É verdade, tá, eu li na Cosmo.
— Quanta bobagem eles ensinam nessas revistas... Mas espera aí. – Minha mãe fez aquele negócio com os olhos, de franzi-los ao mesmo tempo em que fechava um mais que o outro, o que sempre demonstrava sua suspeita a alguma coisa. – Então quer dizer que você não está chateada, mesmo? …Ou está debochando?
— Ai, mãe, é claro que não estou chateada. Eu já sou grandinha o bastante pra aceitar que minha mamãe querida não vai poder estar sempre ao meu lado. – eu falei, e subitamente me dei conta de que todas as noites em que eu havia ficado sozinha em casa esperando-a chegar do trabalho nos últimos meses havia servido de alguma coisa. Eu estava tendo uma atitude muito mais madura do que um ano atrás. Pelo menos isso, né?
— Bom, se você diz estar bem, então eu estou bem também. – ela disse com um sorriso e libertando o fôlego que estava preso esse tempo todo. – Me ajude a escolher uma roupa legal pra amanhã?
Passar o tempo com ela assim era uma das coisas mais legais que tinha. Dei minhas dicas e opiniões, fiz minha mãe ficar mais gata ainda do que já era. Nos divertimos pelo restinho da noite, enquanto ouvíamos música e comíamos besteira.
No dia seguinte, fui da escola direto para a casa do papai, sozinha.
Como ele ainda estaria trabalhando por mais umas horas, ele disse para ir ao seu apartamento, já que eu tinha a chave. O prédio apart-hotel onde meu pai morava fazia parte do Grupo Le Printemps, dono do hotel onde ele era o gerente executivo, e ficava no mesmo quarteirão de seu local de trabalho.
O papai se mudou para cá há 4 anos. Antes, ele morava em um apartamento minúsculo que cheirava a mofo no Brooklyn, desde que se mudara do antigo apartamento onde vivia comigo e minha mãe.
E atualmente eu adorava esse flat, porque além de ser perto do seu trabalho, também era próximo à minha escola, apenas a umas cinco quadras distante. Eu já perdi as contas de quantas vezes saí da aula sedenta por um sorvete, e senti meus pés dirigirem-se sozinhos para o hotel — eles tinham uma das melhores banana splits da cidade, e acredite, eu era uma especialista no assunto.
Chegando ao décimo terceiro andar, caminhei pelo familiar corredor até a porta à direita. Haviam apenas dois apartamentos por andar, e apesar de não serem exageradamente amplos, era mais que o suficiente para uma ou duas pessoas habitarem.
Virei a chave na porta da cozinha e acendi as luzes para encontrar um amontoado de panelas sujas sobre o fogão e trocentos talheres dentro da pia; até o chão tinha respingos de algo que devia ser molho.
Cara, meu pai precisava urgente de uma faxina por aqui.
Não imaginava o que diabos ele podia ter tentado preparar — porque é sério, Edward Cullen era o solteiro mais sortudo do mundo por trabalhar em um lugar que fornecia comida 24 horas por dia. Papai quando tentava cozinhar era um caso de chamar a defesa civil, pois as chances de avalanche na cozinha eram grandes. E mesmo assim, eu nunca tinha visto uma bagunça tão grande.
Entrei na área de serviço para deixar meu tênis sujo e atravessei o caminho até a sala tentando não melecar minhas meias de molho esparramado no chão. A casa estava um breu, já que o dia nublado escurecera cedo demais. Ao entrar na sala, um cheiro forte de comida me atingiu e meu estômago embrulhou. Não era um cheiro bom, muito pelo contrário.
Busquei o interruptor tateando pela parede, intrigada para saber de onde vinha aquele cheiro.
Mas antes eu não tivesse acendido a porcaria da luz. A sala acendeu e eu encontrei o meu pior pesadelo.
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