Mais Uma Vez

39 Capítulo 38: Comidas, Carros e Beijos


Notas iniciais
Disclaimer: Twilight não me pertence, mas essa história sim, assim como a filha da Bella e do Edward, portanto respeitem! Chegamos a um dos capítulos mais importantes dessa história, pra mim. Foi complicadinho de escrever, balancear entre o cômico e o dram(inh)a... Espero que curtam! (tem extra sim, claro rs veja lá embaixo como receber)

Capítulo 38: Comidas, Carros e Beijos

Claire

— Acho que descobri quem é o namorado misterioso da mamãe...

— Jura? – Jake prendeu o riso, quebrando a promessa de não rir. – E quem é?

— Meu pai.

Dessa vez, ele riu de verdade, e alto. Mas bastou que visse meu olhar feroz e cem porcento sério, para que sua gargalhada fosse cortada pela metade.

— Uh. Você não tá zoando. – ele constatou o óbvio.

— Claro que não, né!

Vi sua testa franzir, como a minha provavelmente estava há dez minutos. Talvez eu ficaria assim para sempre, com rugas precoces. Eu não duvidava de mais nada nessa vida.

— Mas como assim? De onde você tirou essa ideia?

— Acabei de achar isso aqui. – entreguei a foto para ele inspecionar. – Lembra que meu pai me levou a Coney Island ano passado, perto do meu aniversário? Nós tiramos essa foto numa cabine lá, e depois meu pai a pegou e colocou na carteira dele.

— Onde estava? – falou, me devolvendo a bendita foto.

— Debaixo do sofá.

— Ok... E isso é evidência de que Edward é o namorado misterioso? Deve ter caído da carteira quando ele sentou nesse sofá, e daí?

— E daí que não faço ideia de como a foto foi parar nesse lugar, porque a última vez que meu pai entrou aqui foi justamente nesse dia, quando veio me buscar! Eu só consigo concluir que ele esteve nessa casa na minha ausência, e a foto caiu da carteira.

— Ainda não entendi qual é a sua teoria.

Eu grunhi de frustração. Garotos eram tão lentos, às vezes.

— Jake, o que eu quero dizer é que ele esteve sozinho com a minha mãe aqui! Não há outra explicação.

— Tem certeza que você não lembra de ele ter vindo pra cá desde aquele dia? Talvez veio entregar alguma coisa ou conversar com a sua mãe...

— Ela teria me contado, acredite. Ela sempre comenta, porque é muito raro meu pai ser convidado pra entrar... Mas não é só isso. Tem toda a história deles terem parado de brigar, o término do noivado, o presente dela, o moletom suspeito, os telefonemas... – falei rapidamente, despejando aquilo que eu estava pensando e na verdade só fazia sentido na minha cabeça. Jake apenas me olhou como se eu estivesse doida.

E provavelmente eu estava, mas as coincidências fritavam meu cérebro no momento.

Foco, Marie Claire. Respirei fundo, tentando conter a energia que me fazia vibrar no assento, pois minhas pernas não paravam de balançar.

— Olha, eu sei que parece loucura. Não consigo explicar direito, mas eu sinto que agora tudo faz sentido... – afirmei, cada palavra tornando mais reais as minhas suspeitas. – Minha mãe está de caso com meu pai e não quer me contar, sei lá porquê. Eu tenho quase certeza disso, Jake.

Ele assentiu.

— Tudo bem. Mas por que você parece tão surpresa? Não é tão absurdo, eles já foram casados um dia... Casais separados por aí voltam o tempo todo.

— Sim, mas esse casal é o último na face da Terra que eu achava que fosse ter uma recaída.

— Coisas acontecem. – seus ombros subiram e desceram. – E o que você pretende fazer com essa informação?

Levei um tempo refletindo.

Eu conhecia os meus pais; Se eles estavam mantendo uma relação em segredo até agora, é porque estavam comprometidos a levar isso a sério. Nenhum dos dois iria me confirmar nada caso eu perguntasse, ainda mais porque a prova que eu tinha era pequena demais, e facilmente encoberta.

Um plano aos poucos foi se formando na minha mente.

— Eu vou precisar ver isso com meus próprios olhos. – respondi, enfim. – Só tem um jeito de descobrir se esse namorado realmente é o meu pai.

— Qual?

— Vamos stalkear a mamãe. Tipo investigação particular.

Jake olhou para mim boquiaberto.

— Pirou, é?

— Não... Talvez.

— Por que você simplesmente não chega pra sua mãe ou seu pai e pergunta? Agora você tem uma prova concreta, não é suficiente?

— Não vai dar em nada, minha mãe é teimosa e vai negar até o fim. Eu já te disse, Jake, ela tá assim há um tempo. Nunca responde, sempre desconversa, diz que não é hora de eu saber ainda... E meu pai vai pelo mesmo caminho, só que é mais difícil de acusá-lo de algo, porque eu não sei o que ele anda aprontando durante a semana.

Meu namorado cruzou os braços, me olhando esquisito.

— Ok. Então, qual é sua grande ideia? Se for brincar de Três Espiãs Demais, vamos precisar de mais uma pra isso.

— Há-há, muito engraçado.

— Estou esperando...

Suspirei e me levantei, deixando meu protetor labial e minha baquetas sobre a mesinha de centro. Guardei a foto no bolso.

— Vem comigo.

— Onde?

— Pegar sorvete. Preciso de um doce pra enfrentar esse dia.

Eu só consegui contar o meu plano quando estávamos sentados na bancada da cozinha, com meu sorvete de chocolate com calda de caramelo e chantilly entre nós. Deixei ele dividir comigo.

— Jake, você reparou que no último mês minha mãe tem me deixado ficar na sua casa até mais tarde depois dos ensaios de quinta?

— Uhum.

— Então. É porque agora ela sempre sai do trabalho e vai direto jantar fora enquanto estou lá. Quando eu pergunto, ela diz que foi com amigos, colegas da revista, ou que era um jantar a trabalho...

— E isso é estranho por que...?

— Porque é impossível. Ninguém tem reuniões de amigos com dia e hora marcados religiosamente assim, a não ser que você seja um daqueles velhinhos que jogam dominó no parque toda tarde.

— Como você sabe que ela vai jantar fora, especificamente? – ele arqueou uma sobrancelha, lambendo sua colher.

— Porque é o único dia que ela sai toda arrumada pra trabalhar. Hoje foi assim... Ou seja, é só a gente ir ao prédio da redação e ficar esperando até ela sair, assim nós vamos ver para onde e com quem ela está indo jantar toda quinta.

— Isso não vai dar certo. – ele comentou.

— Nós temos que tentar. Qual é, Jake, você está nessa comigo ou não?

Eu vi o debate interno passando por seu rosto. Mas como o bom namorado que ele era, apenas bufou e concordou com a cabeça.

— Tudo bem, o que eu preciso fazer?

— Calma, primeiro eu vou ligar pra ela, e depois pro meu pai. Quero me certificar que eles vão se encontrar hoje mesmo.

— Ok. – ele consentiu e me observou enquanto eu pegava meu celular.

Deixei o sorvete de lado por um instante e disquei o número, colocando-o no viva-voz para ele ouvir também. Respirei profundamente, tentando me concentrar e acalmar meus nervos doidos.

— Alô? – ela finalmente atendeu.

— Oi, mãe. Pode falar agora?

— Posso, estou na pausa do café.

— Ótimo... Bom, tô ligando pra perguntar se eu posso dormir na Rachel hoje.

— Em plena quinta-feira? Por que não vai amanhã?

— Ai mãe, é que na verdade ela tá meio deprê... Terminou com um carinha que ela tava saindo, e eu queria dar um apoio. Você sabe.

— Aham.

— Então?

— Claire... – ela arrastou meu nome. – Não sei, você tem aula amanhã.

— Ela também tem. Prometo que vamos dormir num horário decente e não vamos nos atrasar. Por favorzinho? Olha pelo lado bom, você vai poder ficar com a noite inteirinha livre. – eu tentei fazer essa ideia soar muito atraente.

— Noite livre de você? – ela riu.

— É, tipo... Pra sair com... Certas pessoas.

— Como assim, certas pessoas?

— Ué, só estou dizendo que você vai poder sair com seus amigos, o pessoal que você sai toda semana.

— Ah sim... – ela murmurou. – Espere aí, Jacob não vai estar lá essa noite, né?

Meus olhos focaram direto no rosto do meu namorado ao ouvir o nome dele. Ele apenas ergueu as sobrancelhas, e eu rezei para que ela não soltasse nada embaraçoso sobre ele. De repente, esse viva-voz pareceu uma péssima ideia.

— Não, não, ele tem que voltar pra faculdade depois do nosso ensaio. – disse com firmeza.

— Você jura que ele não vai dormir em casa?

— Juro, mãe! Eu só quero dar uma força pra minha amiga. Ou você acha que eu esconderia algo tão importante de você? Eu nunca faria isso, acho um absurdo esconder coisas. – enfatizei, propositadamente, para cutucá-la. – Você não acha?

— Acho. Acho sim... – ela falou e ficou em silêncio por uns segundos, até que respirou e disparou. – Marie Claire, você está aprontando alguma coisa que eu deva saber?

Jake arregalou os olhos, quase rindo, e eu tive que prender o meu próprio riso. Minha mãe sempre conseguia saber quando eu estava fazendo besteira ou inventando história. Era um dos muitos poderes secretos das mães. Mas eu me contive para não dar mais bandeira.

— Lógico que não, mãe. – disse da forma mais indignada possível. – Poxa, parece até que não confia mais em mim!

Ela suspirou.

— Eu confio em você, é só que...

— A gente já falou sobre isso, você sabe que eu vou te contar qualquer coisa. Assim como você pode me contar tudo também, é o nosso trato, lembra?

Dessa vez, ela demorou mais para responder, sem dúvidas sentindo o peso da culpa por quebrar nosso pacto de anos. Te peguei, espertinha.

— É, eu sei... – falou, finalmente, com a voz pequena. – Tudo bem. Pode ir.

— Oba! Valeu, mãe.

— Mas oh, me liga quando chegar na escola, hein.

— Pode deixar.

Nos despedimos e eu desliguei. Jake sacudiu a cabeça lentamente, me olhando meio admirado.

— Que foi? – perguntei.

— Por um momento até eu acreditei que você ia mesmo dormir lá em casa, até biquinho suplicando você fez aqui.

— Você está lidando com uma profissional, meu querido. Eu consigo o que quero.

Jake revirou os olhos sem me levar a sério nem por um segundo, mas me acompanhou quando eu me levantei.

— E agora, qual o próximo passo? – indagou.

— Agora... Bom, vamos dar um tempo pra minha mãe avisar ao meu pai que eles vão ter a noite toda livre. E depois eu vou ligar e certificar que ele vai estar fora de casa hoje, também.

— Você acha que seu pai vai recusar o convite dela?

— Acho que não, mas nunca se sabe.

Ele fez uma cara esquisita, e eu perguntei o que ele estava pensando.

— Duvido que o Sr. Cullen recuse passar a noite inteira com a Bella. – ele respondeu. – Será que eles vem essa noite pra cá, ou vão à casa dele pra... Você sabe...

Vi suas sobrancelhas mexendo para cima e para baixo, em uma insinuação óbvia, e eu grunhi de nojo.

— Eca, Jacob!

— O que tem? É a verdade!

— Pelo amor de Deus, eu não quero pensar na vida sexual dos meus pais, dá licença? Já basta conviver com a ideia de que ela existe.

— É engraçado que você fala como se já tivesse completa certeza que eles são mesmo um casal.

— Claro, porque eu conheço os dois, eles são previsíveis.

— Não exatamente, se estão escondendo um romance. É uma aventura e tal.

— Que seja.

Antes que Jake pudesse me irritar mais, eu peguei de volta meu celular e liguei para o meu pai.

— Oi, filhota. – ele atendeu, como de costume.

— Oi, pai. Tudo bem?

— Tudo ótimo, e aí?

— Tô bem... Olha só, eu acabei esquecendo um livro na sua casa, e vou precisar pra amanhã na escola. Será que eu posso passar hoje à noite e pegar?

— Não pode ir agora?

— Eu tô no ensaio na casa da Rachel, e acabei de ver que esqueci minha chave do apartamento. Posso passar aí quando você tiver chegado do trabalho?

— Ah... Ok.

— Algum problema?

— Não, não, é só que eu tenho um compromisso mais tarde, não sei que horas vou estar aqui...

Eu sabia.

— Hmm. Tudo bem, então. – falei. – Amanhã antes de ir pra escola eu pego.

— Está bem.

Nos despedimos e desligamos, e eu fiquei em silêncio por uns segundos, tentando processar aquilo.

— E então? – Jake perguntou, pois eu não tinha colocado no viva-voz.

— Ele não vai estar em casa mais tarde.

— Oh, isso tá ficando interessante.

— É... Agora vamos à segunda parte do plano. Ir atrás da minha mãe.

— Ela só sai em duas horas, tem certeza?

— Se eu ficar em casa esperando o tempo passar, vou comer essa geladeira inteira de nervoso. – disse, me levantando. – Vamos!

Minha mãe só sairia por volta das seis. Mesmo assim, era melhor ir agora, do que dar sorte para o trânsito nos pegar. No caminho, mandei mensagem para Rachel, avisando que não poderia ir ao ensaio porque estava com cólica. Era uma desculpa facilmente compreendida, e ela apenas me desejou melhoras.

Minha consciência doeu só um pouco. Mas tudo bem, porque afinal eu estava em uma missão agora.

Chegamos lá em vinte e cinco minutos. Jake encontrou, por milagre, uma vaga na rua, um pouco antes do edifício onde ficava a redação da New York Week. Estávamos escondidos o suficiente para que ninguém nos visse, mas eu tinha total visão da porta do prédio.

— Tá, e agora? – perguntou, desligando a ignição do carro.

— Agora a gente espera.

Ele assentiu, e olhou para cima.

— Caramba, que prédio enorme. Quantos andares a revista ocupa?

— Acho que dois, por quê?

— Curiosidade. Nunca entrei num desses.

— Você mora nessa cidade desde que nasceu e nunca entrou num arranha-céu?

— Não tive oportunidade. Minha mãe era corretora de imóveis, e o escritório do meu pai sempre foi em cima daquela loja. – ele explicou. Seu pai era arquiteto e dividia o local com um sócio, e continuou, mesmo depois do acidente. – Eles só me levaram algumas vezes para o trabalho deles.

Eu assenti, enquanto recordava que na infância, quando ninguém podia ficar comigo e o papai não tinha emprego fixo, minha mãe me levava para ficar com ela no primeiro jornal onde trabalhou. Era divertido brincar na xerox e ajudar a servir café para o pessoal; eu tinha boas memórias dos colegas dela. Hoje eu sabia que ela teve muita sorte por ter chefes e colegas legais, e que essa não era uma realidade para a maioria das mães.

— É bem grande lá dentro. Já fui algumas vezes. Mas lá é tudo muito restrito. – eu dei de ombros. – Gosto mesmo é do trabalho do meu pai. Eles sempre recebem hóspedes esquisitos que rendem fofocas muito doidas, e tem uma cozinha maravilhosa. Aliás, um dia vou te levar lá, sou assim com o chef.

Jacob riu.

— Você só pensa em comida?

— Por quê o espanto? Você aceitou namorar comigo sabendo disso.

— Não sei como cabe tanta porcaria nesse corpinho.

Eu mostrei a língua para ele e nosso papo morreu ali. Passamos incontáveis longos minutos olhando as pessoas na rua, o tédio invadindo o carro, e minha ansiedade aumentando. Jake tamborilou os dedos no volante, inquieto, até que suspirou.

— Eu achava que essa coisa de ser investigador particular seria mais emocionante. – comentou.

— Ainda vai ser emocionante. Só temos que esperar ela aparecer.

— Tomara. Missa de domingo tem mais emoção que isso aqui.

— É...

Ficamos em silêncio novamente e com ele veio mais tédio. Finalmente, Jake encheu o saco e saiu para comprar um cachorro quente na esquina, me oferecendo também. Eu tinha chocolates e pipoca de saco na mochila, mas não recusei.

Nós devoramos nossos sanduíches e uma Coca, e depois ele foi jogar tudo no lixo. Nós ouvimos música. Ele cantou alto demais e eu dei uma bronca para que abaixasse a voz, senão seríamos descobertos. Eu roí várias unhas e descasquei o esmalte preto de oito delas. Olhei todo o feed do Facebook e do Twitter. Um guarda veio perguntar se estávamos bem, e apesar do susto, só dissemos que estávamos esperando uma pessoa.

Passamos quase duas horas dentro do carro, e nada da minha mãe sair.

Meu nervosismo já estava me fazendo duvidar de que esse plano idiota daria certo. Eu já tinha começado a achar que tudo tinha sido só imaginação da minha cabeça – como um pensamento de algo que um dia, anos atrás, eu desejei muito, e meu subconsciente queria torná-lo real.

Até que às seis e quinze, exatamente, a morena de vestido vermelho escuro drapeado, com meia-calça preta e casaco trench coat bege, mais conhecida como minha mãe, saiu porta-giratória afora, batendo os saltos baixos em direção ao seu carro estacionado do outro lado da rua.

— Jake, olha!

Ele tirou os olhos do celular, murmurou "finalmente", e começou a ligar o carro. Esperamos até ela sair da vaga para segui-la. Meu peito estava a mil, e eu me peguei pensando se deveria ter colocado óculos escuros, boné ou algum tipo de disfarce para passar discretamente. Só rezava para que ela não reconhecesse o carro dele, apesar de estarmos com um outro entre nós.

A esquina para a avenida que levaria a nossa casa se aproximou, e como eu previa, ela não virou ali, mas seguiu em frente. No semáforo fechado, instruí Jake a não parar logo ao lado dela, e conseguimos manter nossa distância segura.

Logo em seguida, entramos numa rua estreita, um atalho que evitava o trânsito caótico da hora do rush, e seguimos para um bairro menos movimentado que eu tinha frequentado pouco na vida. Era cheio de casas e comércios peculiares – passamos por um antiquário, um salão de barba e cabelo, um sapateiro e uma joalheria.

Jake dirigia devagar deixando uma boa distância, já que agora não havia nenhum carro entre nós. Eu estava de olho para ver aonde ela iria, e não foi com surpresa que logo a vi parar próximo a um restaurante escondido entre árvores. O lugar estava movimentado e parecia badalado, desses restaurantes hipsters com arquitetura moderninha num bairro simples.

Nós paramos na rua, uns 50 metros atrás da minha mãe, próximo a um carro estacionado ali, esperando seu próximo passo. Ela ainda não tinha estacionado, e esperou um carro que parecia estar saindo de uma vaga bem frente ao restaurante.

Meus olhos vagaram pelos carros, porém não reconheci nenhum. Observei, então, a porta do local, procurando algum rosto conhecido. E não precisei buscar por muito tempo.

Porracaralhoputamerdadenovo.

Lá estava ele.

Meu coração veio na boca instantaneamente. Mesmo que eu estivesse esperando por isso, ainda assim era um choque.

De terno cinza, meu pai esperava embaixo de uma árvore, encostado na parede do lado de fora fumando um cigarro... Fumando um cigarro? Ele me jurou que tinha parado! Precisei contabilizar mais essa para o rol de coisas que ele me escondia, e o sentimento não foi nada bom.

— Caralho, ele tá ali mesmo, né? – ouvi Jake falar. – Você tá vendo?

— Sim. – respondi, já abrindo a porta do carro.

— Onde você vai?

— Vou terminar o serviço.

— Claire, espera!

Mas eu já estava do lado de fora. Minha mãe tinha acabado de estacionar, e eu comecei a andar calçada abaixo de encontro a eles – teria que ser rápida antes que entrassem. Vi meu pai jogando seu cigarro na lixeira ao lado, e sorrindo ao desgrudar-se da parede quando ela bateu a porta do carro.

Não sei como eles não me notaram vindo, porque a essa altura minhas botas batiam no concreto, e meus pulmões ardiam com o frio e a velocidade com que eu andava, me fazendo arfar.

Minha mãe se aproximou e ele a envolveu num abraço, ficando de costas para mim. Então eles se cumprimentaram.

Com um beijo na boca.

Meus pés estancaram no lugar, freando antes que eu chegasse perto demais. Eu não iria aguentar esperar que eles terminassem, e de repente me ouvi dizendo bem alto.

— Quando é que vocês iam me contar que estão tendo um caso?

Eles se soltaram como um relâmpago, virando-se para me encarar. Se eu não estivesse com tanta raiva dos dois, eu teria rido da cara de espanto patética deles. Ambos ficaram sem palavras, me olhando e se entreolhando, por longos cinco segundos.

— Vamos, respondam! – eu demandei.

— Claire... Calma, eu... Espera aí, como você veio parar aqui? – minha mãe perguntou, passando da surpresa à bronca em um segundo.

— Jake me trouxe, a gente te seguiu.

— Me seguiu?!

— Eu acho que quem deve explicação aqui agora não sou eu.

— Marie Claire, isso é jeito de falar com a sua mãe? – meu pai interviu. – Olha o respeito.

E é claro que eu me senti ultrajada.

— Olha só quem fala de respeito! Além de tudo, você ainda mentiu pra mim dizendo que tinha parado de fumar. O que tem mais pra eu saber? Que eu tenho uma irmã gêmea chamada Elle?

Meu pai bufou, seu rosto contorcido por uma exaltação contida, como eu bem conhecia de quando eu era criança e ele se estressava comigo em público. Mas ele sabia que dessa vez tinha vacilado demais comigo, e baixou a bola. Eu via a culpa em seu olhar resignado.

— Não precisa usar esse tom. Você está bem grandinha pra isso. – ele disse, firme mas sem gritar. – Se quer explicações, vamos conversar civilizadamente.

— Civilizadamente, assim como vocês se escondendo de mim como dois amantes proibidos? Tá de sacanagem com a minha cara, né!

As pessoas estavam olhando, mas eu não conseguia me importar. Enquanto isso, minha mãe, de braços cruzados e cabeça baixa, murmurava.

— Deus, não acredito que isso tá acontecendo... Não era pra ser desse jeito. – sua cabeça sacudiu em negação. E por fim, me olhou, derrotada. – Vem, entra no carro, vamos conversar em casa.

Eu suspirei, tentando conter lágrimas que de repente começaram a brotar.

— Tudo bem, vou pegar minha mochila.

— Aqui! – ouvi Jake dizer. Ele tinha vindo com o carro até a esquina onde estávamos. Me virei e fui pegar a mochila no banco da frente.

— Oi, Jacob. – meu pai falou atrás de mim. Resmungou, na verdade.

— Oi, Sr. Cullen... Edward... – eu vi meu namorado acenar, desajeitado. – Desculpe, eu só...

— Sem problemas. Pode ir pra casa. – ele bateu a porta do carro quando eu saí, e abraçou meu ombro.

— Claro, claro. – Jake falou e acenou pra mim. – Me ligue se precisar.

Eu apenas assenti e me esquivei do braço do meu pai, por não conseguir lidar com contato físico no momento.

Sentei no banco traseiro no carro da minha mãe e meu pai nos seguiu em seu próprio carro. A viagem até nossa casa acabou sendo estranha, silenciosa e carregada de energia, por parte de nós duas.

Quando eu decidi seguir com meu plano imbecil, eu tinha imaginado vários cenários sobre o que eu iria encontrar e o que eu iria ver, como eu reagiria. Mas a realidade era diferente, e eu nunca podia imaginar que a minha reação seria ficar tão magoada como eu estava. Não conseguia entender o porquê de tanto segredo para uma coisa que não era ruim. Será que eles não confiavam em mim mesmo?

A vontade de chorar resolveu reaparecer nesse momento, queimando meu nariz e embolando minha garganta. Eu sucumbi.

— Está chorando? – minha mãe perguntou, olhando pelo retrovisor.

Merda.

— O que você acha? – sibilei, fungando e secando as lágrimas com as mãos.

Ela ficou em silêncio por mais uns instantes, até que paramos no último semáforo antes de casa, e ela virou-se no banco para me olhar. Eu virei o rosto, de repente muito interessada no cachorro mijando na rua.

— Claire.

Eu não respondi.

— Filha, me desculpa... Por favor. Eu fiz tudo errado.

— Ainda bem que você sabe.

Ela não insistiu, e eu fiquei calada até entrarmos em casa e estarmos os três sentados na sala. Eu na poltrona, e eles lado a lado no sofá.

Cruzei os braços para ouvir o que tinham a dizer, e naquela hora, eu pareci estar de frente para dois adolescentes que tinham sido pegos fazendo merda, e não encarando os meus pais. Isso só me deixou ainda mais furiosa.

Meu pai, meio cabisbaixo e de cenho franzido, olhava para qualquer lugar menos para mim, enquanto minha mãe se contorcia sob meu olhar, balançando suas pernas de nervoso, como eu fazia sempre.

Ela suspirou, e finalmente começou a falar.

— Claire, eu só queria dizer... A gente queria dizer que... – mas eu a interrompi, querendo ir direto ao assunto.

— Desde quando isso tá rolando?

Ela levou um tempo para responder.

— Início de outubro, talvez. – falou, sem encontrar meu olhar. – Foi um pouco depois do meu aniversário...

Rapidamente, eu fiz as contas de cabeça.

— Quase cinco meses escondendo isso de mim!

— Agora você sabe o que eu senti quando sua mãe me contou do seu namoro. – meu pai falou, claramente magoado.

Eu arquejei.

Mas como assim?

— Você contou pra ele, mãe? Poxa, eu pedi pra não dizer nada antes da hora!

— Não foi antes da hora, foi só alguns dias antes de você contar no seu aniversário, eu só quis prepará-lo. – ela expirou e virou-se para o meu pai. – Edward, se não vai ajudar, não atrapalhe!

— Desculpa...

Ele parecia arrependido, mas eu continuava irritada e não iria deixar aquilo passar.

— Ah tá, como se as duas situações fossem comparáveis... Eu escondi meu primeiro namorado porque estava com medo do meu pai pirar, e ainda levei bronca por isso. Vocês esconderam um relacionamento da própria filha. Vocês são adultos, não tem vergonha na cara?

— Exatamente. Somos adultos e eu tomei essa decisão por um motivo. – mamãe falou. – Eu não queria expor nada enquanto não fosse tempo.

— Vocês tinham que ter sido mais discretos, então. – falei, pegando a foto que ainda estava no meu bolso e colocando sobre a mesa de centro.

Ambos olharam para aquilo por um instante, até que meu pai xingou baixo e pegou sua foto de volta, guardando-a na carteira.

— O que é isso? – ela perguntou.

— É uma foto que nós tiramos quando o papai me levou a Coney Island. Estava debaixo desse sofá, achei hoje à tarde.

— Como assim...? Eu nem me dei falta. – meu pai murmurou baixo, e então olhou para a mamãe, e eu vi os olhos deles arregalarem.

— Foi naquele dia... – concluiu ela.

— Você disse que ia faxinar e me entregaria qualquer coisa que a gente não tivesse catado. Como não viu isso? Porra, já tem dois meses! – ele perguntou, realmente espantado. – Tá esse tempo todo sem varrer a sala?

— Eu varri a sala, só não tive tempo de faxinar! – ela praticamente choramingou ao se defender. – Eu lá tenho culpa de você carregar um monte de tranqueira na carteira, como eu ia adivinhar que isso tava aqui?

Eu quase ri. Uma parte malvada de mim achou legal ver minha mãe se constrangendo um pouco.

— Bom, nós três sabemos que você não é a melhor do mundo em varrer... – eu provoquei. – Esse sofá tá juntando sujeira aí embaixo. Confessa que você tem preguiça de arrastar móveis.

— Tsc, tsc. Que porquinha, Bella, até eu arrasto meu sofá pra limpar!

Ambos olhamos para ela, julgando seus hábitos duvidosos de limpeza da casa.

— Ei! Não me olhem assim. Era fim de ano, inverno e ninguém liga pra isso! Não sou porquinha, eu varro o chão dia sim, dia não e faxino a casa uma vez por mês. – ela me olhou. – E você, mocinha, deve se dar por satisfeita que eu não te obrigo a varrer só por causa da sua alergia.

— Tá bom, mas vamos ter que marcar de fazer uma faxina séria nessa sala em breve. – eu disse, de repente me lembrando de ficar brava novamente. – Mas não fujam do assunto!

Meu pai suspirou.

— Não estamos fugindo do assunt...

— Calado! Agora quem fala aqui sou eu. – eu cruzei os braços de novo. – Eu, que fui a enganada de toda a história. A corna, a última a saber.

— Ai, pelo amor de Deus. – minha mãe rolou os olhos.

— Que traição de vocês dois. – sacudi a cabeça. – Tô tão puta.

— Olha o palavrão, Claire. – os dois falaram ao mesmo tempo, apenas variando a posição do meu nome.

— Ah me poupem de lição de moral a essa altura! – bufei. – Me digam, tem mais alguém que sabe?

— Bom... Só Esme. – ela respondeu.

— O quê?! Não acredito que a minha avó tá envolvida nisso. Outra traíra!

— Ela só soube no jantar de Ação de Graças, eu nem planejava contar. – mamãe explicou.

— Mas eu deveria ter sido a primeira a saber! Poxa, você mentiu pra mim na cara dura, mãe. Em todas as vezes que eu perguntei, você podia ter ao menos dado algum aviso, sei lá, tipo "estou me acertando com seu pai". Tem noção de como fiquei preocupada todo esse tempo? Achei que você estava se envolvendo com um cara estranho ou casado e por isso não me contava.

— Eu tentei te dar pistas, eu disse que tinha me resolvido com seu pai e que algumas coisas tinham mudado...

— É, mas nunca passaria pela minha cabeça que resolvido significava que vocês estavam de casinho. Fala sério, até pouco tempo atrás vocês nem olhavam na cara do outro sem rosnar!

— Na verdade, ela ainda faz isso se eu falo alguma besteira. – meu pai comentou, e eu sabia que ele estava tentando amenizar o clima tenso, mas só serviu para que tanto eu, quanto a mamãe olhássemos feio para ele. – Tô dizendo, olha aí...

Eu continuei.

— Você ficou repetindo que quando fosse a hora certa eu saberia, mas essa hora não chegava nunca!

— Claire, me ouve. Acredite em mim, eu vinha me preparando há semanas pra te contar. Mas o processo todo foi muito complicado. Era tudo muito novo, nós estávamos ainda tentando, vendo se nosso... – ela divagou, olhando para o meu pai. – Se esse novo relacionamento iria funcionar, ainda tínhamos muita coisa em aberto. Eu não queria te dar esperanças, não queria te envolver e ter a possibilidade de te magoar caso não desse certo. O seu pai queria contar desde o início, mas ele acabou entendendo meus motivos e concordamos que seria melhor assim.

Eu queria dizer que ela estava muito errada de achar que eu era imatura o bastante para criar esperanças, mas pensando melhor, eu não tinha tanta certeza disso.

— Então o que isso significa, agora? – indaguei. – Que está dando certo ou não está?

— Está. – meu pai assentiu. – Muito certo.

Um leve sorriso apareceu enquanto ele olhava para minha mãe ao dizer aquilo, a cara de bobo apaixonado denunciando tudo.

Meu Deus, como isso era estranho. Eu me perguntava quanto tempo eu levaria para me acostumar àquilo novamente.

Depois de tantos anos vendo-os agir como gato e rato, a minha cabeça estava com dificuldade de unir a imagem dos dois novamente em uma só moldura. Para mim, eles formavam duas figuras bem distintas. Minha mãe de um lado, meu pai do outro – e de preferência bem longe, para não sair faísca.

Sacudi a cabeça rapidamente, buscando uma forma de colocar tudo no lugar.

— Tá bom, mas afinal, como... Como que isso chegou a acontecer? – inquiri. – De onde surgiu? Eu não lembro de ter reparado nada até pouco tempo atrás.

Eles se entreolharam.

— É uma longa história. – minha mãe falou.

— Estou com tempo.

De novo, os dois trocaram olhares, e meu pai meneou a cabeça sem dizer uma palavra. Eu estava, mais uma vez, diante do casal de esquisitos que se comunicavam só pelo olhar. Tinha até me esquecido que eles eram assim.

Minha mãe limpou a garganta antes de começar a longa história.

— Bom... No aniversário do seu pai ano passado, na casa dos seus avós, eu achei uma carta que ele guardava lá há anos. E eu acabei lendo tudo o que ele nunca conseguiu me dizer e eu nunca tive coragem de saber. Era sobre... Sobre o motivo de ele ter sumido de casa naquela noite, anos atrás.

— Uma carta?

— Isso mesmo. – meu pai confirmou. – Eu gostava de documentar acontecimentos, tinha uma espécie de diário, e naquela época eu escrevi algumas cartas pra sua mãe... Mas nunca cheguei a enviar.

Eu vagamente lembrava desse diário. E me lembrei de outra coisa.

— Foi por isso que você saiu correndo da festa dele, mãe?

Ela demorou uns segundos para responder, cabisbaixa.

— Foi.

— Tia Alice disse que você tava meio transtornada naquela noite. Eu achei que estivesse passando mal, sei lá.

— Pois é. Eu fiquei muito mexida... Depois disso, eu procurei Edward pra conversar, e tentar colocar um ponto final nessa história... E, bem, uma coisa levou a outra. Nós começamos a nos encontrar toda semana, ele me contou tudo, eu o perdoei e nós nos entendemos. Pra resumir, as coisas foram acontecendo, e nesses encontros de reconciliação, viramos amigos... Passamos a nos conhecer melhor e recuperar o tempo perdido, por assim dizer.

— E no seu aniversário, mãe... O colar. – Ela tocou sua pérola quando mencionei. – Vocês já estavam tendo esses... encontros?

— Sim, foi um pouco depois disso que resolvemos ficar juntos de verdade.

— Eu sabia que tinha alguma coisa estranha quando eu vi vocês sozinhos no corredor aquele dia... Foi por isso que você terminou com a sua noiva, pai? – prossegui com meu interrogatório.

— Sim e não... – ele respondeu com cautela. – Nossa relação já estava desgastada há tempos. A oportunidade de estar com a sua mãe foi só mais um incentivo.

— Você traiu a Tanya com a mamãe, não foi?

Meu pai levemente arregalou os olhos, e eu sabia que tinha passado um pouco dos limites. Não pude evitar, a pergunta apenas saiu da minha boca. Eu precisava saber.

— Claire, isso não é relevante...

— É claro que é. Poxa, eu nem gostava da Tanya, mas ela tem todos aqueles problemas e você vai e faz isso... Desculpa, eu tenho que ser honesta. Isso não foi nada legal, pai.

Ele fez uma cara de remorso tão forte, que eu quase me arrependi de citar qualquer coisa.

— Eu sei disso, acredite. – ele suspirou. – Mas eu e ela já conversamos, e a nossa história acabou. Só isso que importa agora.

— Certo. – murmurei, olhando para o centro da mesinha.

Precisei ficar quieta um momento e me esforçar para fazer todas as informações terem sentido.

O choque havia sido grande. Como eles tinham passado do nada para o tudo em tão pouco tempo, eu não fazia ideia. Talvez era como diziam mesmo: entre o amor e o ódio havia uma linha tênue.

Agora que a euforia da raiva tinha passado, eu me sentia estranha. Meu estômago estava contraído desconfortavelmente, e ainda sentia lágrimas apertando minha garganta. Fechei os olhos, apoiando a cabeça nos joelhos, e somente respirei para me acalmar, sem saber exatamente como lidar com as notícias que me deixavam completamente dividida.

— Filha... Fala com a gente, por favor... – eu ouvi meu pai chamar, depois de um tempo.

— Pode desabafar, meu amor, eu sei que é muita coisa pra entender de uma vez só. – a mamãe completou com a voz suave.

Como eu diria tudo aquilo que eu pensava? Minha mente estava um caos, eu nunca tinha sentido algo assim antes. Respirei fundo, e então tentei desabafar.

— Eu... Eu estou me sentindo confusa, traída e muito decepcionada com vocês... Espero que nunca mais escondam nada de mim, mesmo se for pro meu próprio bem, é sério... Se querem saber, eu acho que vocês são o casal mais teimoso, doido e complexo que já existiu, e...

Com um suspiro, abri os olhos e ergui a cabeça. Vi suas mãos entrelaçadas, suas caras idiotas e o quão felizes eles pareciam estar com a presença um do outro, mesmo em meio a apreensão pelo ocorrido.

E meu coração derreteu.

Eu estava perdida.

— E...? – minha mãe perguntou, aflita.

Me levantei, eles me olharam com surpresa, e fui sentar entre os dois no sofá. Peguei suas mãos, uma de cada lado.

— E eu tô principalmente chateada por vocês terem escondido algo que não é nada ruim, pelo contrário... – Encarei a mamãe e depois o papai, vendo seus olhares esperançosos, e enfim falei. – Mas a felicidade de vocês é a minha felicidade também, então é claro que eu fico feliz de ver meus pais juntos de novo. Eu posso ser esquentadinha, mas também não sou nenhuma vilã sem coração, né?

Lentamente, os sorrisos voltaram a aparecer, e antes que eu pudesse protestar, estava sendo esmagada entre seus beijos, abraços e risadas de felicidade. Por um instante, era como ser criança de novo, sendo amada e paparicada pelo amor intoxicante deles. Fechei os olhos para sentir aquilo e não pude evitar meu sorriso, também.

Me virei para abraçar um de cada vez no sofá, e quando soltei meu pai, ele ergueu a mão para limpar uma lágrima do meu rosto que eu nem sabia que tinha caído. Eu devo estar de TPM, só pode. Karma por ter mentido pra Rachel sobre a cólica.

— Se você chorar, eu também choro. – disse ele.

— Não tô chorando, só tô suando pelos olhos.

— Certo. – ele riu.

— Então estamos bem, Claire? Quer falar mais alguma coisa? – mamãe perguntou.

— Por enquanto não... Mas pode deixar que eu vou pensar em algo. Me aguarde, Dona Isabella.

Ela deu uma risada com os olhos também marejados.

— Tudo bem. Bom, o que vocês acham de irmos jantar agora?

— Só se eu escolher o lugar. – falei.

— Ok... Mas nada de pizza, por favor. – ela reclamou.

— Ah! – eu joguei minhas mãos para o ar. – Olha só, eu continuo puta com vocês pela mentira toda. O mínimo que vocês podem fazer agora pra se desculpar é me deixar comer o jantar que eu quiser.

— Ela tem razão. – meu pai opinou, fazendo a mamãe abrir a boca, indignada.

— Edward!

Seus ombros subiram, e ele fez cara de culpado.

— Eu sempre estou a fim de pizza também, desculpa. – falou.

— Esqueceu que estou cortando carboidratos à noite?

Oi? Eu tive que rir.

— Conta outra, mãe, ontem você jantou risoto.

— Meu deus, vocês hoje tiraram o dia pra fazer bullying comigo? Me ajudem aqui!

Meu pai se virou para mim.

— Ela tem razão...

— Ok. – rolei os olhos. Ela estava mesmo tentando fazer uma dieta. Tentando. – Sushi é light o bastante para você?

— Pode ser. – ela sorriu, e nós levantamos.

Pegamos nossos casacos e saímos rapidamente de casa. Eu já me encaminhava em direção ao carro da minha mãe, como de costume, mas meu pai pegou minha mão.

— Vem comigo, quero falar com você. Se sua mãe não se importar...

— Claro que não, tudo bem. – falou ela, entrando em seu carro.

Sentei-me no banco da frente, e esperei ele ajustar o aquecedor, ligar o iPod no rádio, escolher uma daquelas músicas lentas desconhecidas que ele amava, e colocar o cinto, para perguntar.

— E aí?

— Calma, garota, temos meia hora de trânsito ainda.

— Mas eu já perdi tempo demais com a enrolação de vocês.

— Tá certo... – rindo baixo, ele me olhou de canto de olho, sacudindo a cabeça.

— Então?

Fizemos uma curva, e ele começou. O trânsito da hora do rush já havia passado.

— Primeiro, eu quero te pedir desculpas, filha. Eu sei que sua mãe e eu podíamos ter lidado com tudo de um jeito melhor... Outras pessoas acabaram descobrindo, como você, antes da hora, e nós ficamos um tanto perturbados com isso.

— Que pessoas?

— Ah... Pessoas do meu trabalho, mas isso não vem ao caso. O que eu queria te pedir, é que tente compreender a situação... Entendo que esteja chateada, mas não seja muito dura com a sua mãe quando estiverem em casa. Esses últimos meses foram turbulentos, ela teve que lidar com muita coisa.

— Se não posso ser dura com ela, posso descontar minha raiva em você, então? – eu brinquei. Mais ou menos.

— Engraçadinha. Estou falando sério, Claire.

— Tá bom, tá bom, vou tentar...

— Tente de verdade. Bella só não queria que você soubesse muito cedo porque você é a coisa mais preciosa que nós temos, e te deixar com expectativas seria um crime... Como ela falou, nós precisávamos desse tempo a sós pra nos conhecermos melhor, nos reaproximarmos, entende?

Com uma sobrancelha erguida, eu encarei seu perfil.

— Como assim? Vocês se conhecem há vinte anos, fala sério!

— Sim. Mas passamos quase dez anos separados. As pessoas mudam, Claire... Eu e sua mãe passamos por muitas coisas, crescemos como pessoas nesse tempo. Depois de resolver todos os mal-entendidos, a gente teve que começar do zero. – explicou, dando um meio sorriso. – Por sorte, nós descobrimos que gostamos muito das pessoas que nos tornamos e nos apaixonamos de novo.

Eu assenti. Os dois haviam mudado um pouco, isso eu tinha que concordar.

— Ok, faz sentido... Me diz uma coisa, é por isso que você vai sair do apart-hotel?

— Não dá pra esconder nada mesmo de você, né? Você percebe tudo. – ele gargalhou, e eu nem entendi o porquê, já que ele mesmo tinha me contado a novidade semana passada. – Vou me mudar porque estou numa nova etapa da vida. Quero me distanciar da família de Tanya e ficar mais perto das minhas meninas.

Minhas meninas? Já saquei você sendo fofinho só pra cair nas minhas graças de novo, Sr. Cullen.

— Está funcionando?

— Um pouco... Continua.

Nós paramos num semáforo de longa cronometragem. Eu já tinha perdido o carro da minha mãe de vista. Meu pai virou-se para mim, antes de falar muito sério.

— Filha, eu quero que você saiba que, se depender de mim, isso não vai ser passageiro. Eu tive uma nova chance e não pretendo desperdiçá-la, nunca mais.

Assenti, averiguando sua expressão e a sinceridade por trás das palavras.

— Você realmente ama a mamãe, né?

— Sim, muito. – sorriu suavemente. – Acho que nunca deixei de amar.

— Hm...

— Que foi?

— E eu que achava que era coisa da minha cabeça.

— O quê, você achava que eu ainda a amava?

— Não sei, às vezes eu via uns olhares... Mas não sabia se era realmente amor, era algo como uma nostalgia, meio melancólica.

— Talvez tenha sido... Eu passei muito tempo me sentindo culpado e perdido, sem saber como me comportar na presença dela.

De repente, me recordei de algo que eu não pensava há algum tempo.

— Sabe, pai, na noite que você foi embora... Você me disse pra eu não me preocupar, que só iria ficar um tempo fora de casa estudando com o tio Jasper pra conseguir fazer a prova de Medicina, e me prometeu que voltaria um dia. Lembra disso?

— Mais ou menos... Foi uma noite turbulenta pra mim. – falou, voltando a dirigir quando o semáforo ficou verde.

— Bem, não sei se por trás daquilo você quis dizer que voltaria pra mamãe ou só pra mim, mas aquela foi uma promessa tão firme, que eu acreditei completamente. Depois, é claro que eu fui crescendo, o tempo foi passando e eu vi que não ia acontecer porque vocês dois foram tendo vidas separadas, e eu fui obrigada a aceitar isso. Mas acho que, lá no fundo, eu sempre desejei que uma hora ou outra vocês se acertassem de novo.

— Acho que isso acontece com muitos filhos de pais separados. – ele concordou, calando-se depois.

Esperei que ele continuasse, enquanto via a rua passar, até que precisei dar voz ao que eu realmente queria saber.

— Você não vai me contar o que rolou naquele dia, e o que tinha na carta que a mamãe achou?

Sua energia pareceu vacilar por um momento, enquanto ele refletia sobre meu pedido.

— Vou. Claro. – suspirou. – Mas gostaria que fosse outra vez, é uma história pesada...

Senti uma certa angústia em ver como seu rosto mudava e seu olhar tinha ficado mais triste. Meu Deus, que história pesada era essa? Eu já não tinha tanta certeza se queria mesmo saber, embora eu tivesse uma certa suspeita.

— Pode me responder só uma coisa, pai?

— Depende da pergunta.

— Por acaso tem a ver com as suas crises? Sabe, o motivo por você fazer tratamento com o psicólogo e psiquiatra...

— Sim.

Isso explicava muita coisa. E meu coração pareceu se contentar com essa resposta, por enquanto.

— Tudo bem. Quando quiser me contar, eu estou aqui. – afirmei.

Nós dirigimos em silêncio por alguns minutos. Fiquei prestando atenção na música que tinha começado, tentando decifrar qual língua era aquela, e quase não ouvi quando meu pai voltou a falar, agora a poucas quadras do restaurante japonês.

— Ah, sobre o cigarro...

Eu abaixei o rádio.

— Aha! Ainda bem que você não esqueceu. Que coisa feia, viu? Você jurou que tinha parado.

— Eu não voltei a fumar, ok? Só tenho algumas recaídas quando a coisa aperta, se o dia foi tenso. Hoje eu estava bem nervoso, acabei comprando um avulso pra fumar enquanto esperava sua mãe.

— E quantas recaídas você teve nos últimos tempos?

— Bem poucas. Eu juro.

Desde criança, eu pedia para ele parar. Eu tinha ficado meio traumatizada depois de ver um vídeo horrível na escola sobre fumantes, e a imagem de um pulmão humano todo preto jamais saiu da minha mente. Nada contra quem fumava – vários amigos fumavam depois do colégio, e todos nós tínhamos um vício, quem era eu para julgar –, mas eu não queria meu próprio pai sofrendo com um pulmão nojento.

— Está bem. Mas tente não repetir.

— Vou tentar, Claire. Por você.

Nosso carro fez a curva para entrar na rua do restaurante que ele nos recomendou, achamos uma vaga logo no início, o resto da rua completamente cheio.

— E o que aconteceu hoje, afinal, pra você ficar tão nervoso? – indaguei.

Ele quase se atrapalhou enquanto fazia baliza e me respondia.

— Ah... Meu pai... Digo, Anthony Masen entrou em contato comigo. Você sabe que é sempre um problema quando ele aparece.

— Caramba. Que droga. Mas tá tudo bem agora?

— Na medida do possível. Ele só queria... Uma ajuda, como sempre.

Ajuda significava dinheiro, e eu já tinha percebido isso há um tempo. Mas meu pai continuava sendo muito gentil, e nunca falaria mal de ninguém, mesmo com todas as coisas ruins que meu verdadeiro-porém-falso-avô Anthony já tinha feito.

— Entendi. – falei, enquanto tirava o cinto e saía do carro. Andamos para encontrar a mamãe, que já estava parada em pé na porta, de braços cruzados.

— Vocês sabem que estou morrendo de curiosidade pra saber o que vocês conversaram no carro, né? – disse ela.

— Ah, nada demais... – meu pai falou, e piscou para mim. – Só planejamos mais bullying contra a sua pessoa.

Eu entrei no jogo rapidamente.

— É, estamos apostado pra ver quem consegue te fazer passar vergonha primeiro. Pensei em pedir pro garçom um babador e palitinhos com elástico, como eles servem pras crianças.

Papai riu.

— Ohh, isso seria ótimo.

— Ei! Eu sei comer com hashis muito bem, tá? – ela se defendeu.

— Sim, mas imagina sua cara... – falei.

— Nem pense nisso.

— A gente só tá brincando. – o papai afirmou.

— Eu sei lá! Do jeito que vocês são, poderiam muito bem estar falando sério. Quando vocês se juntam assim viram duas crianças pentelhas.

— Nós enchemos seu saco só porque te amamos. – eu disse, pegando sua mão, e a guiando para dentro do restaurante.

— Uhum, sei.

Meu pai chegou e a abraçou pelos ombros, sorrindo.

— É verdade. – falou, e beijou minha mãe na boca, fazendo-a esquecer que estava segurando minha mão e soltar.

Eu gemi e andei sozinha, deixando-os para trás.

— Agora vou ter que aguentar essa melação de vocês o tempo todo... – resmunguei.

— Tem beijinhos pra você também, não se preocupe. – minha mãe riu, vindo atrás de mim, mas eu desviei.

— Para, mãe, todo mundo olhando!

Ela simplesmente deu um tapinha na minha bunda e me deixou sair, ficando para trás com o papai, provavelmente para se lamberem.

No restaurante, nós falamos sobre amenidades, fofocamos sobre a família. Ok, eu devia admitir que não foi tão difícil estar com eles assim, embora ainda houvesse uma certa tensão, como se eles estivessem me poupando de algo.

Não houve menção alguma a história que faltava, sobre a noite que ele foi embora. E eu também não fiquei insistindo. Agora que as coisas estavam mais claras, eu sabia que era uma questão de tempo até que eles sentassem comigo novamente para conversar.

Minha mãe pediu para não espalhar a notícia, por enquanto, pois eles queriam esperar mais um pouco. Apesar de eu estar doida para contar tudo para Rose e ver a reação da Tia Alice, eu prometi segurar minha língua.

A conta foi dividida pelos dois, e quando chegou a hora de ir embora, meu pai nos levou ao carro.

— Até domingo? – perguntou, sobre nosso novo esquema.

— Aham.

— Ok. Lembre do que eu pedi, viu? Tente.

— Tá bom... – eu bufei, sem saco nenhum para quando me diziam a mesma coisa duas vezes.

Ele me abraçou, beijando o topo da minha cabeça. Em seguida, virou-se para a minha mãe, e ao contrário do que eu esperava, dessa vez eles deram apenas um selinho contido de mãos dadas, seguido de sorrisos tímidos. Eu me senti o próprio Vovô Charlie esperando o namoro terminar no portão, e faltou bem pouco para eu rolar os olhos.

Durante o caminho até nossa casa, minha mãe não tardou em perguntar o que queria há muitas horas.

— Posso saber como foi a conversa de vocês no carro?

— Eu poderia te contar... – respondi e sorri, meio maléfica. – Mas vou te deixar no suspense, provando do próprio veneno.

— Você sabe que eu continuo sendo a sua mãe e posso te obrigar a me contar, né?

— Eu sei, mas eu também te conheço e sei que jamais faria isso.

— Sorte a sua que eu sou muito boazinha. Aliás, não pense que eu esqueci do que você aprontou hoje com Jacob...

— Você não disse que era boazinha? – eu bem que tentei contradizê-la, mas ela me ignorou.

— Ficar rodando de carro por aí, fingindo que estava no ensaio pra ir atrás de mim, invadir minha privacidade... – sua cabeça sacudiu desaprovando. – Isso merecia um castigo.

— Desculpa, ok? Eu estava desesperada, surtei mesmo quando achei aquela foto, assim do nada. O que eu podia fazer?

— Você poderia, por exemplo, ter esperado eu chegar em casa e me perguntado.

— Eu tenho certeza que você não ia abrir o bico se eu perguntasse assim! Mas qual o grande problema, afinal? Em minha defesa, vocês estavam em público.

— Sim, mas o ponto é que não quero você rodando sozinha pela cidade sem que eu saiba onde está indo.

— Eu estava com o Jake.

— Exatamente.

Eu cruzei os braços, bufando.

— A gente nem estava tão longe de casa. Qual o problema de eu ficar andando de carro com meu namorado?

Ela ficou em silêncio por só um segundo, e eu sabia que lá vinha bomba.

— Como você acha que foi concebida, Claire?

— Ah não! – eu resmunguei com nojo. – Não preciso dessa imagem mental, muito obrigada.

Ela riu enquanto entrávamos na nossa garagem. Começamos a sair do carro, porém ela continuou no assunto.

— Fica tranquila, não foi num carro. Mas quase foi...

— Olha só, isso já é tortura. Me ponha de castigo logo!

— Não. Vou deixar passar dessa vez...

Nós entramos em casa, deixamos nossos casacos e sapatos no hall de entrada, e antes que eu pudesse subir, ela me chamou. E eu fui, pegando a mão que ela oferecia para me levar e sentar no sofá.

— Me desculpa, tá? – falou suavemente alisando minha mão. – Por ter te decepcionado, pelas mentiras, tudo.

Eu suspirei.

— Vai ser difícil esquecer. – respondi, séria. – Vocês vacilaram pra caralh...caramba comigo.

— Eu sei. Vou tentar recompensar. Não sabia que ia te afetar tanto.

— Nem eu, mas é que... Eu senti muito a sua falta esses meses, sabe? Eu sei que agora tenho mais coisas pra me ocupar, com a escola, com a banda e Jake. Você pode achar que eu não ligo mais pro nosso tempo juntas, mas eu ligo sim. E está me fazendo falta.

— Aw, ela tá com saudades da mamãezinha dela. – ela disse numa voz afetada só para implicar.

— Não assim, eu não tenho três anos. Mas você entendeu.

— Claro. – ela sorriu. – Vamos marcar um dia de garotas, só nosso? Que tal ir ao karaokê amanhã?

— Acho ótimo! – respondi sem nem pensar.

Minha mãe me abraçou tão forte que eu quase fiquei sem ar.

— Eu te amo. – sussurrou.

— Também te amo.

Notas finais
Aww, essas duas! O EXTRA é o ponto de vista do Edward do jantar e um pouco da conversa com Claire! Tá bem fofinho hahah. (aquele esquema: pra agilizar o recebimento, deixe seu email ou Facebook ou twitter pra eu te enviar!) Pra receber extras anteriores, basta comentar nos capítulos correspondentes. Você pode achar a reação de Claire exagerada, mas lembre-se que ela é adolescente, a cabeça cheia de incertezas, medos, humor oscilante, hormônios doidos... Quem nunca passou por isso, né? Hahahah Eu disse que era um capítulo importante porque não apenas Claire descobre a verdade, mas se inicia uma nova etapa pra essa família. To doida pra ler o que vocês acharam. Comentem! Beijos, até breve!