Mais Uma Vez
35 Capítulo 34: Felicidade
Notas iniciais
Capítulo 34: Felicidade
Claire
Estava pegando no sono quando ouvi o carro da minha mãe estacionar na nossa garagem. Busquei o celular na cama para ver as horas e quase caí pra trás de novo. Já passava de meia-noite de quinta-feira. Esse jantar tinha demorado demais para ser só mais um daqueles jantares chatos ao qual às vezes ela ia a trabalho. Telefonei algumas vezes para seu celular, e só recebi a caixa postal como resposta. A pulga que estava atrás da minha orelha desde a manhã voltou a coçar...
Mamãe estava estranha, isso é o mínimo que eu podia dizer. E eu tinha certeza que estava acontecendo algo. Ou melhor, alguém.
Aquela ligação secreta na cozinha, o sorrisinho, o olhar meio perdido, todas as desculpas que ela ficava inventando pra mim... Eu podia ser nova nos assuntos do coração, mas já vi isso um dia, já sabia reconhecer muito bem: mamãe estava de quatro por alguém. Boba e apaixonada.
Mas é claro, não é como se eu pudesse simplesmente chegar e falar "Então, mãe, já tô sabendo de tudo, quem é o boy da vez?" porque além de não me contar, era capaz de me deixar de castigo por uma semana, por ser tão enxerida. Me perguntava se talvez ela estivesse namorando o Riley. Ele era um sujeito bacana, e eu sei que eles se beijaram algumas vezes, mas ela não tinha mais falado nada, e ele nunca mais apareceu lá em casa.
Confesso que me sentia muito chateada, afinal ela sempre foi franca comigo nesses assuntos. Só que dessa vez era diferente, havia algo estranho mesmo nela e eu precisava descobrir logo antes de arrancar meus cabelos.
Eu já tinha aceitado ter que dividir minha própria mãe com o trabalho dela, mas não dava para aceitar perdê-la para um namorado misterioso que eu nem sabia se era legal ou não.
Ouvi os passos dela se aproximando do meu quarto, e instintivamente fechei os olhos, virando de lado quando abriu minha porta. Evitei encará-la porque já estava muito tarde para ouvir seu papinho com desculpas esfarrapadas.
Minha mãe me cobriu, beijou minha testa e apagou a luz antes de sair.
Fiquei ali assim, e voltei a adormecer agarrada aos pensamentos e ao meu celular, que tocou bem no meu ouvido às 7 da manhã.
— Argh, maldito despertador. — resmunguei ao me arrastar para o banheiro.
Terminei o banho numa velocidade de fazer inveja a uma tartaruga, vesti o uniforme e saí para tomar meu café da manhã. Precisava de cafeína urgente pra tirar a leseira que não pertencia a esse corpinho.
Passei pelo quarto da minha mãe e vi que ainda estava dormindo. Lá fui eu mais uma vez tentar tirar a preguiçosa da cama.
— Mãezinha, acorda. – falei, sacudindo seu ombro suavemente.
Ela apenas grunhiu e tampou a cara.
— Acorda, já vai dar oito horas. – insisti, puxando a coberta.
— Ah não. – reclamou ela.
— Ninguém mandou ficar namorando até tarde. – falei baixinho ao ir abrir as cortinas.
— Ahn? – ela perguntou, desnorteada com a claridade.
— Nada não. Você quer ovos mexidos?
— Pode ser...
Desci com o iPod nas mãos e minha mochila nas costas, jogando-a no sofá. Liguei o iPod no som portátil da cozinha e comecei a preparar nosso desjejum à base de música – além do café, só isso me fazia acordar de verdade.
Demorou uns vinte minutos para minha mãe aparecer, já vestida e com a maior cara de bode do mundo. Pelo menos alguém tinha uma leseira maior que a minha nessa casa.
— Por Deus, que animação. – resmungou. — Como é bom ter quinze anos.
— Eu estou um lixo, mas se eu ficar muito quieta o sono vai tomar conta da minha pessoa... Aliás, eu li que os adolescentes precisam de 10 horas de sono pra ficarem bem, o que é tecnicamente impossível pra nossa geração com tantas horas de estudo. Por isso somos um bando de zumbis retardados viciados em café e Coca-cola. – eu disse, colocando nossa comida sobre a bancada. — Falando nisso, eu ainda não tenho quinze anos, infelizmente.
— Só falta uma semana agora, não é? Vai cair bem no dia de Ação de Graças. – ela sorriu enquanto sentava-se. Eu a copiei.
— Eu sei! Sou tão importante que vai ter até feriado nacional. Lide com isso.
— Lidar com quê?! Aliás, preciso ligar pro seu avô e acertar as coisas.
Sorri, lembrando do vovô Charlie. A última vez que nos vimos foi no feriado de Independência. Eu tinha tanta saudade dele, era um cara muito legal e a gente se dava muito bem, apesar da distância.
— Vamos jantar na casa da vó mesmo?
— A não ser que você queria cozinhar...
— Ah claro, deixa comigo. O menu vai ser pipoca e batata frita, pode ser? Nuggets também posso tentar.
— Engraçadinha, você.
Mostrei a língua e voltei a comer.
Eu estava doida para tocar no assunto sobre a noite anterior, mas queria mesmo era que ela falasse antes.
Porém nunca aconteceu. Conversamos sobre minha festa de aniversário, que já estava praticamente toda pronta, e outras bobagens. Ela sequer pediu desculpas por ter me deixado sozinha até tão tarde, o que me chateava bastante. Reparei que mamãe estava bem aérea e misteriosa quando ficávamos em silêncio, o que me dizia que ela estava pensando no mesmo que eu, mas não queria falar nada.
Antes que eu me estressasse, terminei de comer, fui lavar minha louça e escovar os dentes. Dez minutos depois, estávamos no carro a caminho da escola.
Foi só quando estávamos paradas no segundo semáforo que me lembrei: eu havia esquecido completamente de fazer o dever de casa que valia ponto. Tudo culpa meu namorado por ter me ocupado a tarde toda ontem falando no Skype – não que eu me importasse com essa distração mais maravilhosa da Terra, longe de mim.
— O que está fazendo? – minha mãe perguntou, de canto de olho me vendo equilibrar o caderno de exercício no meu colo.
— O dever.
— Cinco minutos antes da aula?
— É matemática, faço rapidinho. – eu dei de ombros.
— Não entendo de onde você puxou essa facilidade toda... — ela contemplou. — Eu e seu pai somos uma negação em matemática.
— Eu digo que sou uma gênia e você nunca acredita em mim. – brinquei.
— Ok, Alberta Einstein.
A verdade era que ser vizinha de uma professora de matemática – e minha atual professora — ajudava bastante. Já tinha perdido as contas de quantas tardes passei na casa da Kate fazendo o dever com seus filhos, enquanto ela corrigia zilhões de provas e trabalhos e tirava todas as minhas dúvidas.
Continuamos o caminho inteiro quietas enquanto eu terminava minha tarefa. Mas minha cabeça não parava de incomodar sobre o que não havia sido dito. Eu tinha que falar alguma coisa.
Enfim chegamos na esquina do colégio, e minha mãe estacionou um pouco antes da entrada, como de costume. Guardei minhas coisas, mas não consegui sair. Estava na ponta da língua.
— Claire? – perguntou ela ao me ver parada.
Me virei, e balbuciei.
— Mãe, posso pedir uma coisa?
— Talvez...
— Não chega muito tarde hoje, ok? Você sabe que eu odeio ficar sozinha à noite, nosso bairro tá muito sinistro.
Ela ficou em silêncio por uns segundos e soltou o volante.
— Droga, eu sei que você odeia, me desculpa mesmo por ontem. – ela segurou minha mão. — Eu esqueci de te ligar pra avisar, não foi intencional.
— Você já tinha prometido que ficaria mais em casa depois de ser promovida na revista, lembra?
— Claire, eu prometi isso e estou cumprindo. Eu sei que foi errado o que eu fiz, mas não significa que eu precise ficar com você em casa o tempo todo, eu também tenho minha vida social.
— Não é disso que estou falando, mãe. Você merece totalmente ter um tempo só pra você, assim como eu... Mas não no meio da semana e voltando quase uma da manhã. Nesses últimos meses aconteceu várias vezes. Eu sei que já estou crescida, mas continuo sendo uma garota sozinha em casa nesse mundo louco.
— Da próxima vez que eu tiver que voltar bem tarde, eu te aviso e fazemos como antigamente, você dorme na Kate ou na Alice, ok? Só pra não ficar sozinha.
— Ok... – eu suspirei. – É só que...
— Que foi?
— Você sempre diz que nós somos um time, que precisamos tomar conta uma da outra. Eu fico preocupada, não sei com quem você está andando, além de ficar me escondendo coisas... Se você tem algo pra me contar, por favor me fala logo, se não vou ficar doida. – falei, sem pensar muito, jogando um verde para ver se ela colhia.
— Baby, eu prometo que estou segura, fica tranquila. Você tem minha palavra, não vou deixar isso se repetir.
Eu olhei para minha mãe, esperando que continuasse sua fala. Porém só recebi seu silêncio cheio de conversa fiada. Ela não quis me contar, de novo.
— Tá bom então. – respondi, saindo do carro com um nó na garganta.
— Te amo! – ouvi ela falar enquanto eu me afastava em direção a escola. Apenas acenei uma mão.
xxxx
A semana demorou uma eternidade para passar, mas o feriado e meu aniversário finalmente chegaram.
Tentei driblar a ansiedade convocando minha mãe, tia Alice e Rose para me ajudarem a montar enfeites da decoração da festa durante algumas noites. Fiquei com um pouco de pena por elas, mas o que eu podia fazer? Eu realmente amava fazer aniversário e ficava só um pouquinho empolgada demais.
Minha mãe me acordou como todos os anos: me enchendo de beijos e me agarrando até eu sufocar. Bom, não exatamente, mas era quase isso.
— Parabéns pra bebê mais linda e fofinha da face da Terra! – ela pontuou quase cada palavra com um beijo na minha bochecha.
— Quinze anos, mãe. Quinze. – eu resmunguei, espremida na cama pois ela tinha deitado atrás de mim e me prendido num abraço de urso.
Fingi indiferença para não lhe dar muita moral, mas a verdade era que eu adorava esse mimo todo de vez em quando. Só de vez em quando.
— Não importa! Dia 25 de novembro é quando eu ganhei aquele bebezinho ruivo e rosinha mais lindo que mudou toda minha vida, e mereço comemorar.
— Achei que ia dizer que eu seria pra sempre seu bebê, não só hoje. – eu ri, retornando seu abraço quando tive espaço ao virar e deitar de frente a ela.
— Seria injusto. – minha mãe falou num tom mais sério, penteando meu cabelo. – Ninguém merece ouvir isso depois de certa idade. É bem chato.
— Hmm, bom saber. Vou ter que lembrar como argumento pra quando você não me deixar fazer alguma coisa. – disse, brincando.
Ela rolou os olhos exageradamente e resmungou.
— Garota, você poderia ser menos adolescente por um segundo?
— Mulher, você poderia ser menos mãe por um segundo?
Nós rimos, e ela levantou-se puxando meu braço.
— Vamos, hoje o dia vai ser longo. Já são quase onze, ainda temos que buscar seu avô. Deixei o café pronto lá embaixo, estou passando umas roupas no quartinho.
Eu espreguicei.
— Ok, já vou descer.
Minha mãe saiu e eu busquei meu celular para checar minhas mensagens e o Facebook. Vários amigos já tinham me escrito, mas a única que eu respondi na hora foi a de Jake, perguntando se eu já havia acordado.
Não demorou nem trinta segundos para que o celular vibrasse na minha mão, e meu coração disparou como sempre.
— Alô?
— Ouvi dizer que tem uma gatinha fazendo aniversário nesse número, é verdade? Aqui quem fala é Justin Bieber.
— Palhaço! – eu ri, meu peito ficando quente com aquela sensação boa que dava quando ouvia sua voz.
— Parabéns, Claire. Queria estar aí pra falar pessoalmente, mas hoje fica difícil, sabe como é...
— Eu sei. Obrigada mesmo assim. – falei sem conter meu sorriso.
— Como se sente com quinze anos?
— Bom, eu quase já posso dirigir.
— Você falou com a Bella sobre o carro?
— Falei, ela riu da minha cara. Foi difícil assim pra você?
— Nem um pouco. Mas também não vale, meu pai não via a hora de eu poder dirigir pra ele. – Jake falou, me fazendo lembrar do resto da conversa com minha mãe.
De repente me senti mal por ter tocado no assunto. Jake realmente não tinha muita escolha sobre o carro, não parecia justo eu querer me comparar com ele.
— Ah, lógico. Desculpa por perguntar isso. – falei em voz baixa.
— Sem problemas, baby. – respondeu, e nós ficamos em silêncio por uns instantes até ele retomar a conversa. — Ai ai, meus quinze anos... lembro como se fosse ontem.
— Ah para, como se você fosse um idoso. Tem dois anos só que você fez quinze.
— Dois anos e três meses. Passa rápido.
— Vocês vão mesmo pra casa da sua tia hoje?
— Vamos daqui a pouco. Ela gosta que todo mundo participe dos preparativos.
— E o que vai fazer amanhã? Eu não vou ter aula... – perguntei, esperançosa. Eu só queria abraçar meu namorado. E roubar uns beijos.
— Infelizmente preciso voltar pra faculdade e terminar alguns trabalhos, semana que vem tenho cinco provas... – falou meio desanimado.
— Ok. – suspirei, decepcionada mas compreendendo que ele tinha um compromisso com a faculdade, e não podia arriscar perder a bolsa. — Nos vemos sábado então.
— Desculpa, tá? Mas olha, prometo que chego bem cedo sábado pra ajudar a arrumar tudo.
— Tá certo. To com saudades.
— Eu também. Não vejo a hora de ter férias de novo. A faculdade tá me deixando doido, e olha que só tem três meses que comecei. – ele falou. — É mais difícil do que eu imaginava.
— Que droga. Mas as festas de fim de ano estão perto, calma. – respondi. — Preciso ir, minha mãe vai gritar por mim daqui a pouco. Temos que buscar meu avô Charlie na estação antes de ir pra casa dos meus avós.
— Ok... Nos vemos sábado... Ah, feliz dia de Ação de Graças pra você e pra sua família. Aproveite seu dia, e o mais importante: prepare o estômago pra overdose de comida.
— Não tenha dúvidas disso! – eu ri. – Obrigada, Jake, pra vocês também.
Nos despedimos e assim que eu desliguei o celular, minha mãe parou na porta no quarto.
— Não me ouviu chamar? – perguntou, com roupas limpas e passadas nas mãos, colocando sobre a minha mesa. – Guarda isso aqui depois.
— Não, estava no telefone. – disse e levantei da cama.
Comecei a procurar roupas para vestir. Peguei um jeans skinny, um cachecol colorido, e um suéter fofo e grande – um look que era basicamente meu uniforme durante o Outono, minha época do ano favorita. Como não amar todas essas roupas aconchegantes e quentinhas?
— Vamos, vem tomar café logo. – minha mãe chamou novamente.
— Tá bom, tá bom.
— Era Jake no telefone?
— Como você sabe?
— Sabendo. Aliás, precisamos falar sobre ele.
— O quê? – perguntei, com medo do que viria a seguir, principalmente por ela estar com aquele ar super sério. Ela tinha assumido totalmente o modo Mãe.
— Você precisa contar pro seu pai que está namorando.
Minha espinha gelou.
— N-não... – um miado fino saiu de mim.
— Claire. Ele precisa conhecer Jacob. Já passou tempo demais! Além disso vocês vão estar na sua festa, vai ficar difícil esconder, não acha? Hoje à noite você fala com Edward.
Não era um pedido, ela já tinha selado meu destino. Pensei um pouco sobre aquilo, e embora eu não quisesse admitir, minha mãe estava certa. Eu só não estava nem um pouco pronta para enfrentar isso. Durante meses eu vinha pensando em estratégias de me safar de uma bronca ao contar a novidade, mas eu tinha uma leve impressão de que fazer beicinho e cara de gatinho do Shrek não me ajudaria dessa vez. Tentaria me preparar mentalmente durante o dia, rezando para pegar meu pai de bom humor logo mais à noite.
— Ok. – eu cedi. — Mas se eu ficar viúva a culpa é sua.
Ela rolou os olhos.
— Para de drama. Vem. – falou, me empurrando pra fora da porta.
— Nossa, mãe, você quer mesmo que eu coma hein?
Quando cheguei na cozinha, entendi sua ansiedade para que eu aparecesse para o café da manhã. Sobre a nossa bancada estava uma bandeja com um girassol lindo num copo, um bolinho red velvet, um copo de Starbucks e um pratinho com nuggets do McDonalds – o tipo de desjejum que minha mãe nunca, jamais deixaria que eu tivesse, embora fossem minhas comidas preferidas do mundo inteiro.
— Mas o quê... Você trouxe minha refeição ideal? Starbucks e McDonalds na mesma manhã. Estou sonhando, né? – perguntei, boquiaberta. Fui direto tomar um gole do meu Pumpkin Spice Latte, apenas a melhor bebida quente já inventada.
— Trouxe, mas só hoje. – ela riu. – Espero que não tenha esfriado, você demorou tanto.
— Como se eu fosse recusar nuggets mesmo gelado.
Puxei a cadeira para sentar e notei sobre ela uma caixa retangular embalada por papel roxo brilhante.
— Isso também é pra mim?
Minha mãe confirmou e eu abri o pacote. Meu queixo caiu ainda mais, e uma excitação tomou conta de mim. Era uma caixa de botas Dr Martens legítimas, que eu sempre quis, mas ela sempre dizia que eram caras demais. Não consegui conter os pulinhos que dei ao achar as botas roxo escuro de couro ali dentro. Tão lindas.
— Gostou? – ela perguntou sorrindo. Eu a abracei apertado.
— Eu amei demais, sério! E vou usar hoje mesmo. Obrigada pelo melhor aniversário possível! Te amo, mãe.
Comi satisfeita enquanto minha mãe conversava animadamente comigo. Nós estávamos em uma boa sintonia, o que me deixava mais feliz.
Saímos de casa quando já era uma da tarde. Passamos rapidamente na casa da Kate para dar um oi e desejar bom feriado para a família, e logo partimos para buscar o vovô Charlie na estação de trem. A cidade dele não ficava tão longe, era uma viagem de umas duas horas.
Ele nos avistou na saída da estação, e veio acenando junto com sua pequena mala de mão. Eu estava ansiosa para encontrá-lo, fazia meses que eu não o via.
— Hey, parece que alguém cresceu. – comentou ao me abraçar e beijar minha testa. Fez o mesmo com minha mãe.
— Deve ser meu sapato novo. – falei, e ambos olhamos para meus pés. – Mamãe que me deu.
— Bonito. Eu tinha um desses quando era mais jovem.
— Sério? – eu não conseguia imaginá-lo com um Doc Martens.
— Seu avó foi punk antes de eu nascer. – minha mãe falou.
Como assim?
— Perai, como é que é?! – exclamei.
— Não é bem assim... Eu só tinha uma moto e uma jaqueta. – ele pareceu mais tímido do que o costume.
— E vários álbuns do Ramones e Sex Pistols. – minha mãe continuou. – Os anos 70 foram meio loucos pra muita gente.
— Por que você nunca me contou isso, vô? Me mostra sua coleção de LPs da próxima vez que eu for na sua casa!
Ele me ofereceu um sorriso meio triste.
— Ah, Claire... não tenho mais nenhum. Sua avó me fez vender todos quando nos casamos, ela não gostava muito que eu andasse daquele jeito.
Nós três ficamos em silêncio por um instante com a menção da minha avó Renee. Eu sabia que ela era uma mulher dura, mas não tinha ideia que seria a ponto de tentar tomar conta da personalidade do vovô. Bom, para alguém que tinha virado as costas para a própria filha grávida, isso não era nada.
— Oh. Sinto muito. – falei para quebrar o silêncio desconfortável.
— Bem, eu devo ter guardado um ou outro, talvez. Preciso procurar na garagem. Da próxima vez me lembra de te mostrar. – ele disse, sem jeito. Buscou algo em sua bolsa e me entregou. — Se eu soubesse que você ficaria tão empolgada com LPs velhos, não teria comprado isso aqui... Feliz aniversário, Claire.
Ele me entregou uma sacola pequena da MAC, e vi com alegria um kit com dois batons e um rímel.
— Que isso, vô, não precisava. Eu adorei, obrigada. Mas peraí, desde quando você sabe comprar maquiagem?
— Pedi a uma colega do departamento pra comprar. Ela conseguiu um desconto incrível, aliás. Esse negócio de Black Friday é a melhor coisa da América.
Minha mãe riu.
— Pai, não precisa dizer valores. É presente.
Ele apenas deu de ombros, e nós começamos a andar ir em direção ao carro.
Meu avô não estava mais acostumado com a cidade grande, era meio bicho do mato, quase literalmente – chefiar um departamento da Guarda Florestal do Estado era seu trabalho desde que se mudou de Nova York, quando eu tinha uns 3 anos. Então ele sempre fazia uns comentários e umas caras muito engraçadas quando vinha para a cidade e andava conosco. Eu adorava sentar com ele no Central Park e apenas observar pessoas, era hilário.
Fiquei o caminho até a casa dos meus avós paternos conversando com o vô Charlie e pensando como ele deveria ter sido como um punk na juventude, só para depois mudar tão radicalmente.
Será que eu mudaria totalmente quando fosse adulta? Será que um dia me tornaria quadradona? Não podia imaginar minha vida sem a minha banda, sem minhas músicas preferidas e meus ídolos. Sem Jacob. Uma melancolia tentou tomar conta de mim, mas dispersei esses pensamentos logo.
Era claro que eu continuaria a mesma... Eu gostava de mim assim.
Chegamos à casa dos meus avós, e praticamente toda a família já estava lá, só meu pai ainda não havia chegado. Fui recebida com todos os mimos que eles sempre faziam para os aniversariantes: ganhei mais presentes e muitos carinhos, e ri quando vi a faixa de letras douradas na parede escrito "Feliz Aniversário/Ação de Graças", ideia do tio Jasper. Na cozinha, um bolo estava sendo confeitado por tia Alice e Rosalie.
Aniversários eram levados muito a sério nessa família.
Vó Esme nos levou para a cozinha, onde ela fazia alguma comida muito cheirosa que eu senti desde a entrada. Enquanto isso, meus dois avôs e o tio Jasper foram tomar uma cerveja e conversar no quintal, e eu sorri vendo a cena. Cada vez que se encontravam, vô Charlie e vô Carlisle ficavam mais amigos.
— Suas habilidades manuais me surpreendem a cada dia, Alice. – minha mãe comentou, sentando na cadeira ao lado dela. Sentei ao lado de Rose.
— Fiz um curso de confeitaria no verão. Achei que Claire gostaria desse estilo. Está bonito? – ela perguntou mostrando o bolo coberto por bolinhas amarelas e pretas de vários tamanhos.
— Lindo. Mas não precisava ter esse trabalho todo, tia. – eu respondi.
— Ah, não é trabalho. Eu gosto, é quase terapêutico. – ela sorriu. – Já viu o cabelo da sua avó?
— Sim! Vó, você está arrasando com esse cabelo novo. – comentei.
Ela tinha platinado o cabelo todo para um cinza meio loiro que, combinado com os óculos de aro grosso, estava deixando minha avó super moderninha.
— Também achei, Esme. – minha mãe falou. — Combinou muito com você.
— Obrigada, meninas. Estava precisando de uma mudança. Me sinto até mais jovem. – ela respondeu sorrindo, antes de abrir o forno para checar o peru.
— Onde está meu pai? – indaguei.
— Falou que estava quase chegando. Daqui a pouco ele aparece. – minha avó disse.
— Posso ajudar em alguma coisa, Esme? – mamãe perguntou, olhando as panelas sobre o fogão. Cada vez que ela abria uma tampa, um cheiro maravilhoso invadia meu nariz.
— Acho que não, querida, já está quase tudo pronto... Mas você pode tentar organizar a pia, porque Carlisle daqui a pouco vem preparar a torta de abóbora, vai precisar do espaço livre.
— Hmm, torta de abóbora. – comentei alto meu pensamento. Elas riram de mim.
— A torta do vovô é irresistível, mas não esqueça do meu bolo, hein. – Rosalie falou.
— Oi? Você está falando com Marie Claire Swan Cullen. Essa garota aqui não recusa comida jamais! É claro que eu vou comer seu bolo, minha prima querida. – disse, abraçando-a pelos ombros.
— Vamos trabalhar, eu vou lavar e você seca. — minha mãe falou ao levantar, puxando minha mão.
A pia ficava em frente a uma janela grande que dava para o quintal. Podia ver meu tio e meus avôs perto da piscina conversando, o por de sol se aproximando. Eu e minha mãe entramos no modo equipe para organizar a bagunça que tinha acumulado do dia, e enquanto ela lavava as panelas, eu secava e guardava.
A cozinha estava do jeito que eu adorava: aquele cheiro maravilhoso, cheia de gente, muita risada e música que Rose havia trazido. Me virei para colocar um pote dentro de um armário baixo, e quando voltei, minha mãe estava parada com a torneira aberta, olhando para frente. Estranha.
— Que foi? – perguntei, indo olhar a janela.
Então eu entendi. Meu pai tinha chegado e estava lá fora falando com vô Charlie. A última vez que eles tinham se visto provavelmente foi no meu aniversário passado. Certamente minha mãe estava tão apreensiva quanto eu por ver a interação dos dois. Eles tinham um respeito mútuo, mas eu sabia que meu avô nunca tinha realmente perdoado o papai por sair de casa anos atrás.
De repente, me veio a lembrança de minha mãe e eu indo passar um tempo na casa do vovô, quando a mamãe estava trocando de empregos e tentando se ajeitar sozinha. Me senti um pouco desconfortável quando tentei lembrar de mais. Não sei, não era um período que eu gostava muito de lembrar. A minha memória a cada ano ficava mais apagada sobre aquele tempo.
Eles ficaram conversando por alguns minutos e nós terminamos nossa tarefa. Um pouco depois, meu pai entrou pela porta de vai e vem da grande cozinha, segurando uma sacola de papel branca. Oba, mais presente.
— Finalmente! Por que você está sempre atrasado, hein? Achei que ia chegar só na hora de ir embora. Já até escureceu. – vó Esme reclamou, abraçando o filho.
— Desculpa, tive que resolver uns problemas no financeiro do Hotel. – ele falou, enquanto deixava um beijo na cabeça de tia Alice e de Rose. E sorriu quando me encontrou. – Ah aí está ela, minha filha favorita. Feliz aniversário, meu amor. Vem cá.
Ele me abraçou tão forte que chegou a me tirar do chão. Não sem antes dar um pequeno grito gutural pelo esforço. Antigamente ele fazia isso com mais facilidade, mas eu não ia dizer nada.
— Como vai, Bella? – perguntou ainda me abraçando, para minha mãe que estava atrás de mim.
— Ótima, obrigada. Está tudo bem?
— Com certeza melhor agora. – falou beijando minha testa, e me soltou. Ele me entregou a sacola de papel. — Toma aqui, eu sei que você está doida pra abrir.
Mostrei a língua para ele ao pegar meu presente, mas sorri quando vi a caixinha rosa bebê elegante e abri. Era um perfume e um creme corporal, ambos Miss Dior Cherie.
— Sua mãe falou que você estava querendo um perfume, espero que eu tenha acertado.
Peguei o vidro do perfume e borrifei sobre os pulsos, sentindo o cheiro gostoso.
— É maravilhoso. Obrigada, pai! – falei, dando meu pulso para minha mãe cheirar. Ela sorriu, assentindo a cabeça em aprovação.
— Hm, muito bom. Escolheu bem, Edward, você tem bom gosto. — falou.
— Menos pra escolher mulheres, né... – tia Alice comentou do nada, quase inaudível.
— Alice! — minha mãe e vó Esme exclamaram ao mesmo tempo, naquele tom de reprovação.
— Isso foi ofensivo tanto pra Edward quanto pra mim, sabia? – mamãe falou, cruzando os braços.
— Deixa, Bella. – meu pai interveio. — Minha irmã, mesmo burra velha, às vezes consegue ser meio imatura.
— Ok, ok. Desculpa pros dois. Foi só uma piadinha infeliz. – tia Alice falou, parecendo arrependida. — Desculpa, Bella, não quis te ofender, você sabe que não estou falando de você. Mas também, nem precisava se revoltar tanto, já que você não é mulher desse cabeça-oca há séculos... Ou agora é, e eu não estou sabendo? Agora que Tanya está fora da jogada, vai que...
— Alice. Chega. — disse meu pai, muito sério.
— Tá bom, vou ficar quieta pra não estragar a festa. Conversamos depois. — tia Alice resmungou e se levantou, começando a limpar a mesa com os confeitos. — Vocês só ficam putos comigo porque eu falo as coisas na cara.
Eu assisti a pequena treta familiar um pouco em choque, sem saber o que dizer. Minha tia sempre fazia uns comentários meio inconvenientes mesmo, e eu senti o quanto meus pais ficaram sem graça com o assunto. Vi os dois trocando um olhar, enquanto ele sacudia a cabeça e sussurrava um "desculpa" para minha mãe.
Era tão estranho vê-los se tratando sem a frieza e sarcasmo de costume. Se a tia Alice tivesse comentado aquilo sobre o mau gosto para mulheres há um tempo atrás, minha mãe provavelmente concordaria com ela – como eu concordei um pouco, internamente, claro. Mas nos últimos meses tem sido assim entre eles, ao menos enquanto eu estava presente. Nunca mais ouvi aquelas briguinhas idiotas ou minha mãe bufando ao falar dele.
Devia admitir que eu gostava muito de ver meus pais desse jeito, agindo como adultos civilizados, com respeito. Finalmente. Já estava ficando chato aguentar as farpas o tempo todo quando estavam no mesmo lugar. Não fazia ideia do que realmente tinha acontecido entre eles, embora mamãe tivesse dito que conversou com ele, e agora não sentia mais vontade de brigar. Mas eu reparei que algo havia mudado. Pensei um pouco sobre há quanto tempo eles não brigavam na minha frente. Talvez desde o aniversário da mamãe, quando o papai deu aquele colar de presente, que ela usava até hoje. Deve ter sido tipo uma bandeira branca entre os dois...
Fui interrompida nos meus pensamentos pela entrada do resto dos homens da família. A cozinha de repente ficou lotada. Acabamos sendo todos expulsos para deixar que o vô Carlisle começasse a torta, e fomos carregando algumas bebidas e aperitivos para a sala de estar, onde a música tinha mudado para as antigonas da Motown que a vovó adorava.
Minha mãe me puxou no canto por um momento, antes que eu pudesse sentar.
— Claire. Lembra da nossa conversa sobre Jake?
Meu coração bateu mais rápido. Oh não, agora não. Rápido, Claire, pensa numa desculpa.
— Precisa ser agora? Não posso esperar até o papai estar de bucho cheio e contente?
— Eu acho que é melhor agora. Vamos lá, não vai ser nada demais, eu prometo. Já estive na sua pele e sobrevivi. – falou olhando para o seu próprio pai que estava sentado na poltrona ao lado da vó Esme.
Droga. Meus avós também iam ficar sabendo hoje. Nem queria pensar na reação deles. Ser a caçula da família às vezes era um saco.
Apesar de tudo, eu respirei fundo e tomei a decisão. Devia começar a agir como uma adulta responsável e me responsabilizar pelos meus atos – não era isso que todos diziam? Eu tinha quinze anos agora, afinal.
— Ok. Vamos.
— Pessoal, Claire tem uma coisa a dizer. – disse ela, caminhando de volta para a sala.
De repente, todos deixaram de falar, de bebericar os licores e de comer os aperitivos para me olharem. Meu Deusinho, meu coração parecia explodir. Eu queria sair correndo, fazer xixi, comer o bolo todo e gritar. Tudo ao mesmo tempo.
— Claire? – meu pai chamou me fazendo voltar à realidade.
— É... não é nada de mais, sabe. É só que... tem esse garoto que eu conheci na escola. E eu meio que to namorando.
Ouvi minha prima rindo, tia Alice fazendo "uhuu" e tio Jasper assoviando, eu – totalmente despreparada — quase me enfiei sob o tapete, querendo dar na cara de todos eles.
Muitos segundos de silêncio e tensão se passaram, me deixando ainda mais nervosa. Enfim me desafiei a olhar para o papai. Ele não estava soltando confetes, mas também não parecia roxo nem vermelho, estava com uma cor normal de gente equilibrada. Não era nem perto da reação que eu esperava.
— Então? Não vai dizer nada? – perguntei.
— Ahm... – ele pigarreou. — Que bom, Claire. Qual o nome dele? Quer dizer, quando posso conhecê-lo?
Fiquei sem saber o que dizer. Como assim ele não tinha dito nem um "ai" contra? Nada de "quem é o sujeito?" ou "isso é um absurdo" e nem um "você não acha que está nova demais pra namorar?"; Devia ter algo errado com ele, não era possível.
— Ele vem na minha festa... – respondi meio aérea, sentindo minhas palmas frias e suadas.
— O nome dele é Jacob Black. – minha mãe respondeu por mim e abraçou meu ombro, me fazendo relaxar. — É irmão da Rachel, melhor amiga dela. Eu o conheço, é um garoto ótimo, trabalha e estuda. Vocês vão gostar dele.
— Espere aí, quantos anos você está fazendo mesmo? – o vô Charlie interveio, de repente.
— Quinze. – respondi incerta.
— Caceta, estou velho mesmo. A pirralha já com essa de namorado... – ele murmurou com aquele jeitão meio bronco, fazendo todos rirem e quebrando a tensão da sala. E eu respirei mais aliviada.
Todos resumiram suas atividades de antes, como se nada tivesse acontecido. Tudo estava normal novamente.
— Eu disse que não ia ser tão ruim. – minha mãe sussurrou no meu ouvido.
— Obrigada. – falei segurando sua mão. E assim fui sentar ao lado do meu pai, com minha mãe do outro, para aproveitar o meu aniversário-barra-ação de graças.
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Bella
Minha bichinha parecia que ia desmaiar de tão nervosa, coitada. No fim das contas, foi bom para Claire que eu tivesse contado a Edward sobre o namoro antes. Ele agiu como um pai maduro, como todos deveriam ser. Até os avós de Claire foram super legais e compreensivos ao ouvir a novidade, perguntando um pouco sobre Jacob num papo bem mais descontraído do que ela podia imaginar.
Em certo momento após a conversa esfriar, Claire levantou-se para dançar com a prima e a avó. Eu sorri, assistindo a diversão delas por um momento. Alice aproveitou para vir de fininho com sua taça de licor de chocolate sentar-se no lugar vago entre eu e Edward, a fim de me pedir desculpas novamente.
— Você sabe que não falei por mal, né? – ela começou. Eu estava ainda um pouco irritada com ela, mas vi seu olhar sincero e aquiesci. Não deixaria nada estragar meu bem estar hoje.
— Eu sei, Alice. Mas você sabe também que eu não gosto dessas brincadeiras. Fora que eu já te pedi pra não se intrometer nesse assunto. Você lembra da nossa conversa.
— Lembro. E você viu como eu tenho te dado espaço.
— Sim. E que continue assim. – reforcei, tomando um gole de chá de pêssego.
— Eu só quero saber se você e meu irmão estão contentes, só isso. Você nunca mais me contou nada depois daquelas conversas que teve com ele...
— Eu estou muito contente sim, obrigada. – falei suavemente, tentando evitar entrar muito no assunto. — Agora, quanto ao seu irmão, eu não sei. Pergunte a Edward.
— O que tem eu? – o próprio virou a cabeça com a maior cara de falsa inocência. Como se ele não estivesse ouvindo toda a conversa antes. Eu rolei os olhos.
— Você está feliz, meu irmão? – Alice perguntou, segurando o braço dele, trazendo-o mais perto de nós.
Ele variou o olhar entre Alice e eu, deixando-nos em suspense. Em seguida, sacudiu a cabeça.
— Ah... acho que sim. Que pergunta é essa?
— Só quero saber se você está bem. Estou preocupada com você, com tudo o que rolou com Tanya esse mês. E me desculpe por aquilo na cozinha, foi infantil mesmo, eu assumo. – ela desculpou-se e tomou seu licor antes de inquirir. — Então, como estão as coisas com a sua noiva? Aliás, agora é ex, certo? Vocês terminaram mesmo, não foi?
Edward demorou uns segundos para responder, provavelmente incerto sem saber o que poderia ser dito. Desviei meu rosto, evitando que ele buscasse o meu olhar, e fingi observar novamente as meninas dançando Stevie Wonder dos anos 70. Até balancei a cabeça.
— Tanya está melhorando. Está em processo de reabilitação, como eu te falei. – respondeu ele. — Só a visitei uma vez, mas sei que ela está bem melhor agora, às vezes Joaquin me dá notícias suas. E eu estou bem também, Alice. Não se preocupe. Já resolvemos tudo, o pior já passou.
— Que bom. Mas isso significa que você está solteiro ou não? – ela pressionou. Senti meu peito acelerar por um momento com o assunto, enquanto ele não respondia.
— Estou, Alice. – respondeu Edward sutilmente.
— Ouviu, Bella? – ela chamou.
— O quê?
— O pior já passou. Meu irmão está feliz. E solteiro. – falou Alice, erguendo as sobrancelhas enfaticamente.
— O que quer dizer com isso, Ali? – indaguei.
— Nada não... – Alice virou o rosto para mim, depois para ele. — Vocês dois são muito fofos juntos, sabia? Sempre foram.
— Nós não estamos juntos. – eu argumentei, me sentindo meio perturbada. Parecia errado dizer aquilo em voz alta.
— Oh, é mesmo, desculpa minha gafe. Estou entre vocês aqui. Vou voltar pro meu lugar agora mesmo. – ela falou com um sorriso malicioso, e ergueu-se do sofá, apenas para cambalear para trás devido a velocidade e ao álcool.
— O quanto de Baileys você já bebeu, Ali? – Edward peguntou, segurando a irmã, claramente irritado.
— Suficiente pra me deixar feliz como vocês. – ela riu, se desvencilhando dos braços dele. — Não estou bêbada. Essa é a primeira taça.
Alice sentou-se novamente, e eu logo fiquei ansiosa pensando nos próximos comentários que ela poderia fazer. Fora o meu medo de ficar sozinha com Edward logo agora. Parecia que depois de voltarmos a nos relacionar fisicamente estava muito mais difícil de esconder o que acontecia entre nós, e hoje era nossa primeira reunião familiar depois de tudo que aconteceu. Me sentia imatura sem saber agir ao redor dele, porém nossa situação complexa pedia discrição até mesmo diante da nossa família, infelizmente.
Procurei avidamente alguma saída, e levantei-me.
— Vou dançar. – falei, indo em direção a improvisada pista de dança.
Enquanto tentava sem muito sucesso seguir os passos das jovens ao som de Thriller, olhei para o sofá e vi os irmãos conversando seriamente. Rezei para que nada muito comprometedor estivesse sendo dito. Alice sabia dos limites quando estava sóbria, mas eu não confiava nela sob o efeito de Baileys – e só Deus sabe quantos ela já havia tomado de verdade. Eu precisava confiar na promessa de Edward de não contar nada sobre nós à irmã linguaruda.
Pouco tempo depois, o celular de Claire tocou. Ela saiu para atender e ao voltar, me puxou no canto.
— A Rachel tá me chamando pra dormir na casa da Ashley quando todo mundo terminar de jantar. – falou. – Ela disse que tem uma surpresa pra mim.
— Quem é Ashley?
— A loirinha que faz balé. Posso? Por favorzinho.
— Se é uma surpresa, por que ela já te contou? – perguntei, desconfiando de que algo parecia estranho naquela história.
— Não sei, mãe, a Rachel é doida. Por favor, sim?
— Deixa eu falar com ela.
— Rachel?
— Ashley.
Minha filha ligou para o número.
— Oi, Ash... Sim, to sabendo... Olha só, minha mãe quer falar com você um instante. Ok.
Ela me deu o telefone e eu coloquei no viva-voz.
— Oi, Ashley, tudo bem? Bella aqui. Quem mais vai estar aí?
— Oi, tia! Olha, por enquanto só vai estar a Kim, a Rachel, a Hannah... acho que a Taylor também está pra vir.
— Os seus pais vão estar em casa? Eles aprovaram essa festinha do pijama em plena noite de Ação de Graças?
— Sim, claro. Minha adora receber visitas. – ela riu.- Se quiser falar com ela...
Olhei para Claire, que revirou os olhos quando Ashley disse aquilo. Eu estava sem clima para me estressar, então deixei para lá.
— Não precisa. – suspirei. – Ok, mais tarde deixo Claire aí.
— Oba! Até mais então! – a menina falou antes de desligar.
— Obrigada, mãezinha. – Claire disse, batendo palmas e quase pulando de excitação.
— Mas se comporta, hein. E nada de ficar o dia todo lá, porque vamos passear com vovô Charlie amanhã.
— Sem problemas. – ela me beijou e saiu andando, olhando para baixo ao digitar freneticamente em seu celular.
Perto das nove da noite, o peru finalmente terminou de assar e todo o delicioso banquete preparado pelos Cullen tinha ficado pronto. Todos ajudamos a trazer as travessas e potes para a mesa, e Esme anunciou que finalmente estava na hora de comer.
— Eu acho que a ponta da mesa esse ano deve ser minha, hoje é o meu dia! – Claire decretou, sem cerimônia nenhuma indo para a cadeira.
— Marie Claire, não seja inconveniente! O lugar é da sua avó. – ralhei, me sentindo um pouco envergonhada. Esme sempre sentava-se na ponta, e ao seu lado esquerdo ficava Carlisle, era tradição em todos os jantares dessa casa.
— Que isso, Bella, não tem problema. Pode sentar sim, meu bem. – Esme falou sorrindo. — Hoje você pode tudo.
Eu rolei os olhos quando Claire sorriu satisfeita para mim por conseguir o que queria, e pedi licença para ir ao banheiro.
Quando retornei, todos já haviam se acomodado em seus devidos lugares e começado a encher seus pratos – uma cena que eu já me acostumara a ver depois de tantos anos participando dos jantares especiais dos Cullen. Mas agora, quando busquei meu lugar, meu coração saltou em meu peito, me fazendo parar no caminho. O único lugar vazio era entre Edward e meu pai.
— Quer trocar de lugar comigo? – meu pai perguntou ao me ver atrás deles, para minha vergonha.
— Não, tudo bem. – respondi, rapidamente sentando na cadeira destinada. Não queria atrair uma atenção desnecessária ao fato.
Eu tinha conseguido passar ilesa pela nossa tensa interação com Alice falando besteira na cozinha e no sofá. Tínhamos conseguido razoavelmente ignorar um ao outro nesta noite, mesmo estando próximos no mesmo ambiente. Salvo alguns olhares furtivos, acho que consegui evitar dar muita bandeira até o momento.
Entretanto agora, sentada ali, eu estava tão consciente da sua presença ao meu lado. Sentia meu corpo retesando involuntariamente, numa tentativa de evitar encostar em Edward e todos vissem qualquer coisa que ainda não podia ser vista.
Mas como conseguir não ser afetuosa com ele, depois de tudo – ainda mais hoje, na comemoração da nossa filha? Meu desejo era o de ficar ao seu lado e ter beijos roubados entre uma garfada e outra, como fazíamos quando mais jovens nessa mesma mesa, mil vidas atrás.
Apesar de tentar ser discreta, eu não queria que ele sentisse que eu estava o rejeitando, ou incomodada por estar ali. Senti seu olhar de soslaio e foi a oportunidade para que eu lhe oferecesse um pequeno sorriso.
— Me passa as batatas, por favor? – pedi, tentando disfarçar.
— Está tudo bem? – ele sussurrou ao entregar o prato.
Confirmei que sim com a cabeça.
— Você está usando meu colar de novo. – Edward falou, só para os meus ouvidos captarem. — Semana passada não estava.
Um calor passou por meu corpo ao lembrar da semana passada, na banheira de sua casa. Só de pensar em quanto carinho e amor foram transmitidos naquela noite eu ficava mole. Ouvir seu desabafo sobre o que realmente acontecia na sua vida e na sua mente me fez sentir tão próxima a Edward. Foi certamente um dos momentos mais íntimos que já compartilhamos. Talvez tenha sido a nossa última fronteira, agora ultrapassada.
— É... tinha tirado e esqueci de colocar. – respondi, devolvendo as batatas assadas, antes de implicar um pouco com ele. — Você tem uma obsessão por esse colar ou o quê?
Ele soltou uma risada sutil.
— Significa muito pra mim. Gosto de pensar que é uma parte de mim que você carrega.
— Você não está errado. — sussurrei de volta, sorrindo-lhe rapidamente.
Olhei ao redor e vi que nossa troca de palavras aparentemente passou despercebida na mesa barulhenta. Estávamos seguros na nossa bolha.
À mesa, a cena familiar que se desenrolava me divertiu. Do outro lado, Alice brigava com Jasper para que não colocasse tanto sal na comida, Esme cortava fatias do peru em pé, e Carlisle servia vegetais a Claire; ao meu lado direito, meu pai, entretido demais, esperava sua coxa do peru, enquanto Rosalie olhava para o celular.
Sorri, sentindo um bem-estar profundo. Nada nesse momento me fazia mais feliz do que estar na companhia de pessoas que eu amava, celebrando nossas conquistas e a vida da minha filha.
— Eu sei que a gente não costuma fazer isso, mas alguém gostaria de dizer suas palavras de gratidão esse ano? Foi um ano movimentado. – Esme perguntou, como se lesse meus pensamentos.
— Eu nunca fiz isso, mas hoje eu quero... – falei suavemente, olhando os rostos virarem pra mim. Sentei-me ereta na cadeira e suspirei. – Bom, eu estava aqui olhando pra vocês, e só queria agradecer pela forma como vocês me acolhem na família, e também ao meu pai por estar sempre ao meu lado. Esse ano foi muito importante pra mim, tive muitas conquistas, e felizmente foram mais coisas boas do que ruins. Eu agradeço sempre ao universo por me trazer coisas boas, e agora devo agradecer por ter vocês na minha vida, pessoas com quem eu posso compartilhar a minha felicidade.
Ouvi um "aww" coletivo e cada um retribuiu o carinho da sua forma. Alice esticou a mão para pegar a minha, Esme soprou beijos, meu pai me abraçou. Eu nem ousei olhar para Edward, senão explodiria em choro ali na hora, mas senti sua mão quente pegar a minha debaixo da mesa, apertando-a e acariciando. Deixei-a ali por um tempo.
— Bella, você é sempre bem-vinda, querida. Nós te amamos como uma filha. – Carlisle disse. – Também quero dizer que sou grato pelas alegrias de sempre. Apesar do susto que nossa Rose deu na gente esse ano, tudo correu como devia ser e nos deixou ainda mais unidos, não é?
Assim o jantar iniciou, recheado de amor, fartura, comida deliciosa e muita conversa. Falamos sobre Rose na faculdade e qual curso Claire estaria interessada, sobre meu trabalho e o livro, sobre as viagens de Jasper, sobre o curso de astrologia que Alice e Esme pensavam em fazer e ouvimos as histórias hilárias de bêbados na floresta que o chefe da polícia florestal Charlie tinha para contar.
Porém o mais divertido ficou para o final. Uma discussão acalorada sobre futebol que Rose, Carlisle, Edward e meu pai tiveram – a melhor parte foi ver meu pai concordando com Edward, só para tentar convencer Carlisle e Rose de que as regras da competição nacional não deveriam ser renovadas.
— Ok, crianças. – Esme falou subitamente se erguendo. — Já entendemos que todos os quatro sabem tudo de futebol, mas vou ter que interromper vocês, está na hora de trazer o bolo da minha neta.
O silêncio reinou por apenas uns segundos até ela virar-se para a cozinha e eles voltarem a discutir. Troquei um olhar com Claire, que apontou para os moços ao meu redor e caímos na gargalhada vendo as faces coradas e enfurecidas tanto de Edward quanto do meu pai. Homens.
Esme trouxe o bolo, e eles se calaram aos poucos, todos se levantando para cantar os parabéns. Claire soprou a vela após a canção e fez um gesto pedindo silêncio.
— Gente, eu sei que não sou muito boa com essas coisas, mas eu quero dizer que estou muito grata por estar comemorando com minha família hoje, e que vocês significam tipo... Muito muito mesmo pra mim. – ela falou, meio sem jeito. Eu levantei para abraçá-la, e todos me seguiram.
— Coisa fofa da tia! – Alice brincou, indo beliscar as bochechas de Claire, mas ela fugiu.
— Hey! Eu não sou mais bochechuda. – falou com um bico enorme. Eu ri.
— Não, mas ainda é fofa. – Edward disse mas parou, como se pensasse um pouco. – Bem, às vezes é meio aborrescente chata, mas isso vai passar.
Claire abriu a boca, indignada.
— Vai deixar seu filho falar assim de mim na sua própria casa, Vó?
— Eu vou. Não posso te mimar muito, senão sua mãe briga comigo. – Esme falou para mim, e eu sacudi a cabeça achando graça.
Tiramos várias fotos, comemos o bolo e a torta de abóbora, e após limparmos a mesa, iniciaram-se os preparativos para a maior tradição de Ação de Graças dos Cullen. A polêmica partida de Monopoly.
— Quem vai jogar? – Jasper perguntou, preparando o tabuleiro.
— Fiquei de mostrar meu equipamento de pesca para Charlie. O que você me diz, amigo? – Carlisle perguntou.
— Ah, pode ser. – meu pai respondeu, visivelmente alegre por ter uma saída. – Eu não sou muito bom nesse jogo mesmo.
Os dois se ergueram e se dirigiram para a casinha da piscina.
— Bom, eu to saindo fora também. – falei ao me levantar. — Não quero perder mais uma vez esse ano, não aguento mais dever dinheiro falso pra vocês!
— Vai amarelar, Bella? – Edward desafiou, implicando comigo num tom de voz que eu não ouvia há tempos.
— Que opção eu tenho? Não tem graça, você e Claire são competitivos demais, saem comprando todas as propriedades sem dar chance pros outros.
— O nome do jogo por acaso é Mo-no-pó-lio, não é Comunismo! – Claire respondeu, fazendo todos rirem.
— Você não tem sorte no jogo, só isso, meu bem. Eu também não tenho. – Esme respondeu piscando um olho, se levantando. – Quero dar uma volta lá fora, me acompanha?
— Claro. – disse. – Claire, quando eu voltar nós vamos embora, ok? Senão fica muito tarde.
— Já vão tão cedo? – Edward perguntou.
— Vou dormir na casa de uma amiga, pai.
— Em pleno feriado?
— As meninas me chamaram pra uma festa do pijama surpresa de aniversário. Ou algo assim. – respondeu meio confusa, nem ela mesma entendendo.
— Surpresa é? – ele ergueu uma sobrancelha. — Quem vai estar lá?
— Umas amigas da escola. Acho que você só conhece a Kim e a Rachel que são da minha banda.
— E o irmão da Rachel vai estar lá?
Rose, que separava o dinheiro falso do jogo, reprimiu uma risada.
— O que ele faria numa festa só de garotas, tio Edward? – disse Rose, zombando.
— Pois é. Ele está em casa com o pai, e amanhã vai ficar o dia todo estudando. – Claire ofereceu. – Mas por que a pergunta? Não faz sentido.
Aquele papo tinha acendido um alarme na minha cabeça, e eu sabia o que Edward estava pensando. Olhei para minha filha, tentando ver se estava me escondendo algo. Mas eu sabia que não. Sua cara não tinha aquele ar de malandragem como às vezes ela fazia, um que eu reconhecia bem.
— Eu já falei com a garota, os pais dela estão em casa. Não tem problema. – afirmei.
— Deixa a menina se divertir, homem. Não tem nada de mais. – Alice interveio ao nosso favor.
Edward, com o cenho franzido, olhou para mim e depois para nossa filha. E suspirou.
— Está bem. – falou, enfim cedendo.
— Tá, será que podemos começar esse jogo logo? – perguntou Rosalie.
Esme e eu deixamos as crianças brincando e andamos em direção a porta da rua.
— Vamos dar uma volta no quarteirão e depois encontramos os rapazes na piscina. – ela disse, pegando meu braço para entrelaçá-lo quando saímos para a calçada.
Uma brisa leve da alta noite trazia o frio, então o calor da sua proximidade foi um alívio. A rua estava vazia, porém não deserta. Aqui e ali via pessoas saindo de suas casas, cumprimentando parentes, outras chegando dos jantares. Quase todas as casas pareciam acesas, vivas com música e risadas que se misturavam no ar. A casa ficava numa vizinhança bem afastada do centro, um local muito amigável onde eu me sentia totalmente segura.
O outono permitia um clima mais agradável do que no Natal, mas que também era igualmente mágico por aqui. O cheiro das folhas secas no chão e os sons da rua me traziam a memória de quando eu costumava morar nesse lugar.
— Posso saber no que está pensando? – Esme perguntou suavemente ao meu lado.
— Estou pensando que eu adoro essa vizinhança, ainda mais nos feriados... Essa é realmente minha época do ano favorita.
— Eu também amo. – ela concordou com a cabeça, olhando ao redor. — Costumava ser mais calma antigamente. Mas ainda é um lugar de paz em meio a selva de pedra que é Nova York.
— O que tem acontecido?
— Ah, algumas crianças cresceram e se tornaram jovens sem noção que dão festas absurdas quando os pais saem.
— Sério? Que droga. Bom, acho que isso é comum. Na minha época também tinha.
— É, mas hoje a juventude parece mais... desrespeitosa, eu diria. Eles não conhecem limites. Sou totalmente a favor de dar festas, Deus sabe como eu adoro. Mas sempre respeitei a lei do silêncio e o conforto dos meus vizinhos.
— Entendo. E suas festas são mesmo maravilhosas.
Ela sorriu. Nós viramos a primeira esquina.
— Obrigada. Fico feliz. Estou ansiosa pra festa de Claire.
— Ah, não é só você. Não imagina o quanto eu tive que aguentar por conta dessa bendita festa. A criatura não me deixou em paz! – eu reclamei, fazendo Esme rir.
— Coisa da idade. Mas eu pensei que Claire quisesse algo mais simples?
— Ela sempre diz isso, mas no fim acaba pesquisando coisas e mais coisas na internet e vai se empolgando. E ainda tem as festinhas que frequenta das amigas da escola, ela fica deslumbrada... Sabe como é.
— Aquelas crianças são mimadas demais. Espere até começarem as festas de debutante! A cada ano inventam uma coisa, e todos querem se superar, competem sobre quem faz a festa mais cara e extravagante.
— Deus me livre! – falei, e bati na madeira de um cercadinho branco por onde passávamos. — Mas ela já disse que não quer.
— Que ótimo, então. Ela deve preferir uma viagem.
— Não, Esme. Ela veio com papo de querer um carro. Vê se pode?
Ela parou de andar e me olhou um pouco boquiaberta.
— Ah mas isso é coisa de Alice, eu aposto! – falou, voltando a andar. – Eu disse que era muito cedo pra motorizar Rosalie. Agora ela deve ter enchido a cabeça da minha outra neta.
— Eu conversei com Claire e já disse que não tem chances. Acho-a muito imatura ainda. Claro que não falei isso, mas expliquei que não tem motivos para ela ter um carro. Fora que eu deixei bem claro que ela teria que comprar um com o próprio dinheiro. Eu e Edward ralamos muito pra conseguir nosso primeiro.
— Eu lembro. – ela sorriu. – Como tudo o que vocês construíram juntos, foi suado. E muito merecido.
Meu sorriso se abriu involuntariamente ao ouvir aquilo. Pensar no que Edward e eu construímos juntos no passado me fazia ansiosa para saber o que construiríamos a seguir. Ambos já tínhamos conquistado tanto estando separados. Imagine o que poderíamos fazer juntos, com o apoio um do outro?
Nós duas retornamos para a calçada de sua casa, e nos dirigimos para a entrada lateral, que passava pelo jardim e levava à piscina.
— Bella, você sabe como tenho orgulho de você, não é? – perguntou Esme, e eu sentia que ela gostaria de dizer algo importante.
— Acho que você já falou uma ou duas vezes, mas é sempre bom ouvir mais. Pode falar. – brinquei.
Ela me guiou para sentarmos em um banco mais afastado da piscina. Meu pai e Carlisle ainda estavam na casinha vendo material de pescaria.
— É verdade. – Esme riu. — Sinto orgulho por você ser uma mulher que chegou tão longe com as próprias pernas, numa carreira tão bonita. Por estar realizando seu sonho de escrever um livro. Por ter criado minha neta praticamente sozinha... E vamos combinar, que trabalhão, hein?
— Um pouquinho só, quase nada. – eu ri. – Não, é brincadeira. Apesar de tudo, eu não tenho do que reclamar. Claire é um anjinho perto do que eu fui. Todas as vezes que eu fugi de casa pra namorar...
— Todas as vezes que eu tive que tirar vocês da sala da direção do St. Patrick. – ela sacudiu a cabeça, falando como se tivesse acontecido hoje. — Que abuso fugir das aulas da própria mãe e sogra! E ainda correndo o risco de perder as bolsas de estudo... Eu não tinha onde enfiar a cara, minha reputação com meus colegas ia para o lixo.
— Pedir desculpas com quase vinte anos de atraso está valendo? – falei, sentindo uma pontada de vergonha pela lembrança. Mas eu devia admitir que fugir com meu namorado das aulas de História da mãe dele era a coisa mais excitante e aventureira dos meus quinze anos. Bem, uma das coisas mais excitantes.
Sacudi a cabeça, lembrando de todas as nossas travessuras.
— Às vezes fico imaginando o que eu faria se minha filha aprontasse algumas coisas que eu aprontei, e sempre acabo lembrando das broncas que eu levava. Sabe, acho que finalmente eu comecei a entender um pouco os meus pais... Esse processo do crescimento de Claire está sendo um crescimento pra mim também.
— Os filhos fazem isso com a gente. – Esme concordou. — É tanto aprendizado que nossa cabeça dá um nó. De coisas boas e de coisas ruins também, mas tudo faz parte.
— Imagine eu, que não sabia nada e de repente fui obrigada a saber de tudo tão cedo. Por pouco meu cérebro não explodiu de tanta informação nova com a maternidade.
— Espere só até você ter netos, querida. – ela disse com aquele olhar malicioso, só para me provocar.
— Nem mencione isso, já fico toda arrepiada. Cedo demais, Esme, cedo demais! – eu ri de nervoso.
Esme riu e apoiou um cotovelo sobre o encosto do banco para repousar sua cabeça na mão. Seu riso esvaneceu em sua garganta e ela ficou em silêncio ao me fitar por uns segundos.
— Que foi? – perguntei. Seu sorriso misterioso me deixava apreensiva.
— Você está com uma carinha tão boa. Parece uma garotinha.
Eu ri para suas palavras, mesmo sem entender.
— Como assim?
— Olha ai, o jeito como você acabou de rir… Me lembrou aquela Bella de 19 anos que morava na minha casa.
— Acordei de bom humor hoje, acho que é isso. – disse desviando os olhos, de repente tímida. — Estou feliz pelo dia.
— Não, não é só bom humor… Você está mais leve, mais jovial. Seu olhar sempre carregava uma certa melancolia, mas não estou vendo isso hoje. Parece uma menina... Remoçou, como dizia minha mãe.
Refleti um pouco sobre aquilo, e enfim suspirei, me dando conta de que eu realmente me sentia mais leve. Não havia quase nada hoje que eu me queixasse. Minha satisfação e alegria enchiam meu peito. E a sensação era impressionante e nova para mim.
— Acho que me sinto mais leve sim, Esme. Nos últimos tempos tenho passado por tantos momentos de autoconhecimento, tantas resoluções... Tirei alguns pesos das minhas costas, com certeza. Com exceção de uma ou outra coisa, tenho estado muito satisfeita com a minha vida. As coisas estão entrando nos eixos, finalmente.
Ela acariciou meu rosto de uma forma tão maternal, que me fez chegar mais perto do seu toque.
— O que quer que esteja te fazendo feliz, eu fico grata por isso. – disse, alisando meu cabelo para trás da minha orelha. – Você sabe que eu te tenho como minha filha, Bella. Tudo o que desejo aos meus filhos e as minhas netas, é o que te desejo. E te ver tão bem, tão feliz me enche de felicidade também.
Eu não vou chorar. Eu não vou chorar.
— Obrigada, Esme. – minha voz saiu embargada. — Você não sabe como é importante pra mim ouvir isso. E é reciproco.
Ela me aconchegou em seu ombro, e nós ficamos em silêncio depois disso.
E foi ali, em meio a todos os sentimentos e palavras lindas, que pela primeira vez senti uma urgência imensa de contar tudo o que estava acontecendo. Precisava compartilhar essa alegria com alguém. Sabia que tinha um pacto com Edward sobre não expor nossa intimidade por enquanto, mas Esme era especial. Ela seria uma pessoa que não me julgaria, que me acolheria totalmente e eu sei que podia confiar nela.
Sem pensar muito no que estava saindo da minha boca, eu comecei a falar.
— Esme eu... Eu queria te dizer uma coisa.
— Sim? – ela sorriu. Me preparei, sentando direito para encará-la. Meu coração começando a acelerar.
— É sobre Edward e eu... Nós estamos juntos... Mais uma vez.
Esme soltou um breve arfar de surpresa, e após segundos de choque, derreteu-se num sorriso que culminou com seu abraço.
— Ah, como é bom ouvir isso, Bella. Que notícia maravilhosa! – disse afagando meu cabelo. — Eu sabia!
— Você sabia? – perguntei, com medo de que Edward tivesse dado com a língua nos dentes antes do tempo.
Ela riu e se afastou, limpando uma lágrima que havia escorrido. Meus próprios olhos estavam turvos, a emoção imensa finalmente me pegando de jeito.
— Não sabia com toda certeza, mas desconfiava. Eu só sabia que vocês tinham voltado a se entender, mas sentia que algo muito bom estava acontecendo. Meu filho tem estado tão melhor ultimamente. – explicou. — E depois de ver os dois sentados na mesa hoje... Me lembrou tanto daquele tempo. Achei que era coisa da minha cabeça a forma como vocês se olharam às vezes. Mãe sempre sabe de tudo mesmo, né?
Eu ri com ela, um pouco estupefata. E eu achando que Edward e eu estávamos sendo super discretos no jantar.
— Mas por favor, vamos manter em segredo por enquanto, ok? – pedi gentilmente. — É tudo muito novo ainda, nem contamos pra Claire. Você é a primeira. Ele terminou com Tanya há pouco tempo, e eu não quero causar problemas com a família dela, ainda mais depois da confusão toda... Ainda não tornamos nada oficial, mas estamos conversando e... tentando.
— Você tem minha palavra, ficarei de boca fechada. – ela pegou minha mão. — Vou estar aqui só com meus pensamentos positivos pra que dê tudo certo. Vocês merecem isso.
— Obrigada. – respirei aliviada. – Nossa, eu estava precisando mesmo contar pra alguém. Estou sentindo um alívio. Edward tem o terapeuta dele, mas eu não tinha ninguém pra dividir. Estava morrendo de medo de ser julgada.
— Você sabe que pode confiar em mim, minha querida. Eu jamais te julgaria.
— Eu sei.
— Ele não vai ficar chateado por você me contar?
— Com certeza não. Você conhece o seu filho, ele está doido pra gritar isso aos quatro cantos. Eu é que estou tentando nos preservar por enquanto.
— Faz muito bem, Bella. É melhor ir com calma e cautela agora, para não se arrependerem no futuro. – ela me aconselhou com seriedade. – E eu acho que vocês tem um lindo futuro pela frente.
Sorri para o seu otimismo e amor incondicional. Espero que esteja certa, pensei.
— Sim, estamos indo com calma. Nós estamos nos conhecendo de novo, literalmente. Foram muitos anos longe, muitas mudanças. Há meses nós viemos conversando muito, tentando entender o lado um do outro na nossa história doida. – suspirei. — Acho que o melhor de tudo é que eu consegui finalmente perdoá-lo. Agora que eu o compreendo, meu coração está leve.
— Que ótimo. Eu disse que dá pra ver isso na sua cara, você está brilhando, Bella. – Esme comentou entusiasmada, me fazendo ruborizar. – Taí, acho que não tem segredo de beleza melhor que a felicidade. Tristeza envelhece a gente, faz um monte de ruga desnecessária.
Eu sorri, abraçando-a novamente.
— Obrigada, Esme. Obrigada por me ouvir, e por me acolher tão bem.
— O que faz as madames sorrirem tanto? – ouvi a voz de Carlisle se aproximando. Nos separamos do abraço e viramos para ver ele e meu pai chegando.
— Nada, coisa de mulher. – Esme disse, limpando o resto de lágrimas. – Então, Charlie, meu marido já te convenceu que ele tem a maior e melhor vara do mundo?
Eu tive que cobrir minha gargalhada com a mão. A reação dos homens foi impagável.
— Bem... – Charlie desviou os olhos para o chão.
— Não repare na minha esposa, ela tem um humor bem sacana às vezes. – Carlisle falou com um tapinha nas costas dele.
— Bom, esse papo está divertidíssimo, mas tenho que ir. – disse me levantando. – Preciso levar Claire na casa da amiga antes que fique tarde. Pai, vamos?
Esme levantou e nos interrompeu.
— Ah Bella, eu gostaria de falar com Charlie sobre uma reserva de pesca que descobri aqui perto. Você pode ir agora, e ele volta de carona com Jasper e Alice. Pode ser?
— Por mim, tudo bem. Se não for dar trabalho. – meu pai falou. Ele parecia mesmo interessado.
— Trabalho nenhum, eles moram perto da Bella. – Carlisle falou.
Eu me despedi deles e fui buscar Claire na mesa onde o jogo de Monopoly estava em seu auge. Aparentemente, Jasper e Rose disputavam o lugar de mais rico no jogo. Eu chamei minha filha e ela levantou prontamente.
— Quer saber, vou embora mesmo. – disse ela, injuriada. — Vocês estão muito arrogantes pro meu gosto.
— Ah, provando do próprio veneno, Claire? Que bom. – eu provoquei.
— Nem vem! Eu tenho certeza que tio Jasper roubou do banco, eu vi!
— Ok, ok. Calma. – falei, alisando seus ombros. – É só um jogo. Vamos?
Ela se despediu de todos na mesa e dos avós que conversavam animados na piscina, e nós partimos para buscar suas coisas em casa antes de ir para a casa da amiga dela.
Na metade do caminho, meu celular notificou uma mensagem nova. Abri quando parei em um semáforo.
"Senti falta do seu beijo hoje.
Tive que me controlar.
Te amo."
— Edward
Suspirei e sorri ao mesmo tempo. Rapidamente fechei a mensagem e voltei-me para o trânsito. Mas a sensação calorosa me acompanhou por muito tempo. Suas palavras doces voltando a minha mente a todo momento.
— Por que você tanto sorri, hein? – Claire perguntou, quando chegávamos à casa da Ashley.
Eu estiquei o braço para afagar seu lindo rosto que também iniciava um sorriso.
— Só estou feliz, filha.
Muito, muito feliz.
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