Mais Uma Vez
36 Capítulo 35: Conforto
Notas iniciais
Capítulo 35: Conforto
Bella
Acordei com minha casa vazia na sexta-feira. Eu não tinha que ir trabalhar pois consegui uma folga, assim pude emendar o feriado. Meu pai havia saído antes do amanhecer, já que fora praticamente intimado ontem a acompanhar Carlisle e Esme em uma excursão até o parque estadual Bear Mountain, onde passariam o dia pescando e fazendo trilhas. Minha filha ainda estava dormindo na casa da amiga, e acabei deixando que ela ficasse lá até mais tarde.
Como meus planos com o papai e Claire tinham ido por água abaixo, meu foco único agora era ficar na cama o máximo de tempo possível. Levei meu café com waffles e morangos para a cama, e lá fiquei, aconchegada ao meu roupão de plush azul escuro no edredom, assistindo seriados dos anos 90 que reprisavam pela manhã.
Eram quase nove e meia quando ouvi meu celular vibrar. Uma mensagem de Edward.
"Já acordou?"
— Edward
"Primeiramente, bom dia, né?
Você não dormiu comigo!
Acordei há uma hora."
— Bella
"Hahaha! Desculpe. Bom dia.
Planos pra hoje?"
— Edward
"Cancelados. Ainda estou na cama,
enrolada na preguiça e no roupão."
— Bella
"Sozinha em casa?"
— Edward
"Sim. Pq?"
— Bella
Eu esperava que ele replicasse me chamando para sair mais tarde, porém foi minha alma que quase saiu do corpo ao ouvir a campainha tocando, menos de trinta segundos depois da minha última mensagem. Não é possível.
Larguei o celular sobre a cama e desci com pressa. Olhei pelo olho mágico por um segundo antes de abrir a porta, e lá estava ele. Cabelo molhado e perfumado, bonito demais para essa hora da manhã.
— Está me stalkeando? – brinquei.
— Talvez. – ele ofereceu um sorriso meio torto. – Posso entrar?
Eu assenti com a cabeça e Edward entrou. Tinha acabado de passar a chave na porta quando senti ser puxada para perto de seu corpo. Braços, mãos, lábios. Todos me tocando e me elevando a um rápido estágio de euforia, antes mesmo de entender direito o que acontecia.
Tentei lhe responder a altura, oferecendo minha língua e recebendo um leve gemido em troca. De algum modo nos locomovemos e senti o sofá da sala contra minhas coxas. Eu caí para trás meio desajeitadamente, trazendo-o junto comigo e me perdi naquela sensação. Todos os pelos do meu corpo ainda eriçados com sua manobra surpresa e eu dando graças a Deus por ter comprado um sofá de três lugares tão amplo.
— Você está doce. – ele sussurrou por um instante.
— Comi morango.
— Hmm. – E continuou aprofundando seu beijo como se buscasse me provar por inteira.
Ele passou a atacar meu pescoço, exatamente meu ponto fraco, enquanto sua mão percorria minha coxa enganchada em seu quadril, que ondulava lentamente contra meu centro. Uma manobra antiga que nunca deixou de funcionar para me deixar doida e sem fôlego. Minha mão vagava por suas costas, e a outra pegava o cabelo em sua nuca. Ele cessou por um instante, e arquejou.
— Você contou pra mim mãe.
Eu, concentrada demais ao me mexer em busca de mais fricção, só consegui registrar o que ele havia dito segundos depois.
— Ahm?
— Você contou pra minha mãe sobre a gente... – murmurou contra minha pele, e lambeu um trecho que me fez suspirar. Suas palavras demoraram a fazer sentido, até que a ficha caiu. Espera ai.
— Como assim?
— Você contou pra ela ontem, não foi? Eu vi vocês conversando. – mais um beijo na pele sob minha orelha, uma mordiscada no meu lóbulo. — Por isso ela tirou seu pai de casa hoje.
— Sim, mas pedi segredo... Então tirar meu pai de casa foi um plano entre vocês? – perguntei, a ideia me fazendo um pouco chateada pelos meus planos falidos. Apesar de que era difícil ficar chateada com sua boca descendo meu pescoço naquele momento, lentamente... descendo...
— Claro que não. – ele riu, parando sobre a abertura do decote no meu roupão. – Foi um plano dela. Antes de eu ir embora, ela me falou que iria convidar Charlie para pescar e que a sua casa ficaria vazia hoje. Aí ela piscou pra mim. Minha mãe não é muito discreta.
E então o filho da mãe piscou um olho e retirou a cobertura do roupão, revelando meus seios sem sutiã. Ajudei a abrir mais, oferecendo-os para seu deleite.
— Acesso fácil. Gosto. – falou antes de circular meus peitos com beijos até abocanhar um mamilo. E depois o outro. E de volta, e de volta. Sugava-os, arrastando língua e dentes sutilmente, aumentando cada vez mais a chama abaixo do meu ventre.
Eu precisava sentir sua pele quente contra a minha, então rapidamente retirei seu suéter e sua camiseta. Ele terminou de abrir meu roupão na cintura, e voltou à minha boca, manipulando meus seios. Nos beijamos por uma eternidade até que eu estivesse incomodada com tanto estímulo, implorando por algo a mais. Edward notou isso e esgueirou-se para baixo, deslizando carícias pela minha barriga.
Aproveitando a vantagem do sofá, ele ajoelhou-se e eu virei em sua direção. Mas o espaço entre a mesinha de centro e o sofá era pequeno, e Edward acabou esbarrando na mesinha, cambaleando e caindo sentado. Nós rimos com a cena.
— Quem botou isso aqui? – Ele ajeitou-se, empurrando a mesinha.
— Desculpa. – tentando ajudá-lo, joguei umas almofadas para aliviar sua posição e continuei rindo.
Mas meu riso esmaeceu quando ele voltou ao trabalho. Suas mãos puxaram minhas pernas para mais perto, de repente, separando-as de uma forma não tão suave como nas últimas vezes em que estivemos juntos – o que me fez sentir uma nova onda de excitação. Ele tinha urgência. Eu tinha me esquecido de como era Edward com uma pegada mais forte.
Puxou minha calcinha para o lado, e sem cerimônias me contemplou, seus olhos fixos ali me fazendo contorcer de desejo, suas mãos subindo e descendo por minhas coxas, apenas seu dedão provocando a parte interna. Ele lambeu os lábios.
— Tudo isso pra mim. – murmurou ao passar os dedos onde eu estava mais molhada, provando-os logo em seguida.
— Sempre. – sussurrei.
Nós só tínhamos transado duas vezes desde que nos reconciliamos, embora parecessem mais, pois era sempre tão intenso. Mas eu ainda não tinha sentido sua boca em mim desde o retorno – ao menos não dessa forma. E agora, o modo como ele me olhava, com tanto desejo e determinação, me fazia ansiar pelo que viria a seguir.
Ele distribuiu beijos suaves pelo interior das minhas coxas, de olhos fechados murmurando algo para si mesmo enquanto arrastava seu nariz pela minha pele.
— Fala pra mim? – implorei.
Edward encarou meu olhar.
— Tem ideia do quanto senti falta disso? Do seu cheiro... Do seu gosto? Eu amo tanto, tanto. – beijou meu clitóris de surpresa, eu sobressaltei. – Quantas noites eu passei tentando lembrar como era ter você assim, como era te sentir gozando na minha boca...
Eu gemi alto com as palavras e com a língua que arrastou por todo meu sexo. Lentamente. Ele queria me matar.
Ergui os quadris para que tirasse minha calcinha totalmente. Ele jogou minha perna sobre seu ombro e abriu a outra. Sua boca quente e faminta finalmente fez contato com meu centro, explorando cada parte. Cada caminho que sua língua fazia, cada sugada me elevavam a um estágio de prazer sublime. Ele sabia muito bem o que estava fazendo, e por um instante me perguntei se havia aprendido coisas novas.
Sua mão livre esticou ao longo do meu corpo para estimular meu mamilo, e eu fiz o mesmo com o outro. Ele sabia que eu adorava aquilo.
— Meu Deus, Edward. – lamuriei, ao olhar o que acontecia lá embaixo. O sorriso mais sacana dos últimos tempos apareceu por um instante enquanto sua língua trabalhava no meu clitóris. Ele estava rindo de mim, que sofria sob sua tortura deliciosa.
Meus quadris começaram a mexer em seu rosto. Ao invés de tentar me segurar, Edward aproveitou para colocar minha mão em seu cabelo, para que eu arrastasse as unhas pela sua cabeça. Eu também sabia que ele adorava aquilo.
Eu estava sendo chupada com maestria e habilidade por sua boca em um ritmo ideal, e gemi mais forte quando seus dedos me penetraram, buscando os lugares certos que me fariam perder a compostura. Minha respiração começou a ficar errática e muito pesada. Ele percebeu e começou a focar em meu centro mais sensível. Sentia a grande onda vindo abater meu corpo, e eu não tinha intenção nenhuma de lutar contra.
Deixei-me levar pela sensação irresistível que era Edward me reverenciando com tanta paixão e entrega. Nada me excitava mais do que isso quando estávamos juntos na intimidade.
— Quero te ouvir, amor. – pediu, porque eu tentava me conter.
Mas que se danassem os vizinhos.
Era demais. Irradiava do meu interior, subia pelas minhas pernas, até sentir os bicos dos meus seios ardendo. Sabia que os olhos dele me encaravam sem parar, mas não consegui mais segurar seu olhar e fechei o meu para apreciar o momento na totalidade. Meu corpo tencionou antes de liberar a energia contida em meu sexo, e um sonoro palavrão saiu cortando minha garganta enquanto o orgasmo me atingia.
Eu pulsava, vibrava. Me sentia viva. Deixei a sensação fluir pelo máximo de tempo possível.
Ainda de olhos fechados, senti seus dedos cessando aos poucos, antes de me deixar. Beijos suaves salpicaram pelas minhas pernas, enquanto ele me esperava acalmar. Minha pele formigava aqui e ali. Céus. Não me lembrava há quanto tempo eu não me sentia assim, mas era maravilhoso.
— Preciso de um tempo. – disse, toda mole e satisfeita.
— Eu sei. – ele me endireitou gentilmente no sofá, e sentou-se, trazendo minhas pernas para o seu colo. Começou a massagear meus pés, tornozelos e panturrilhas, antes tão tensos.
Ficamos quietos por alguns minutos, enquanto eu aproveitava sua massagem e as carícias.
— Essa foi a melhor visita surpresa que eu já tive. – brinquei. Ele riu.
— Se quiser eu posso vir todos os dias.
— Doido. – sacudi a cabeça. Ele me observou por um tempo, me fazendo perceber que eu estava deitada nua com meu roupão aberto, provavelmente desgrenhada e vermelha. — Que foi?
— Eu não me canso de te ver nessas horas. É uma visão e tanto. Tão solta... tão linda, a minha Bella.
Ouvir aquilo me deixou mais aquecida do que já estava. Ninguém nunca falou assim comigo. Ninguém nunca me olhou dessa forma. Só ele, desde sempre. Era muito mais do que apenas tesão.
— Obrigada. Posso dizer o mesmo de você. – disse, sentindo sua ereção que aparecia sutil sob meus pés. Arrastei lentamente meu pé ali, tentando obter alguma reação. E consegui. Edward gemeu e arqueou o quadril, pressionando contra meu movimento de vai-e-vem.
Eu precisava dele de novo, embora ainda pulsasse.
Sentei e me aproximei. Em meio a um beijo em sua boca, abri sua calça e o libertei da cueca, ávida por retribuir o imenso prazer que ele me proporcionara. Eu o tinha quente e firme nas minhas mãos, e logo inclinei-me, capturando-o em meus lábios. Subi e desci minha língua pela sua extensão e suguei a ponta, empolgada por tê-lo em minha boca. Edward sibilou entre os dentes, mas antes que eu pudesse ir mais fundo, ele me parou. Olhei para cima, confusa.
— Mais tarde. Senão não vou conseguir estar dentro de você. – disse, passando a mão por meu cabelo. – E eu preciso. Agora. Por favor.
Felizmente eu estava sentada, porque minhas pernas bambearam com o tamanho da sinceridade com a qual ele falou aquilo. E mais tarde. A possibilidade de passar a tarde toda com Edward na cama – ou sofá, ou qualquer outro lugar onde ele me quisesse — me deixou mais animada ainda.
— Então tira a roupa. – ordenei, me levantando. Estendi meu roupão para forrar o sofá enquanto ele descartava o que lhe restava de peças, e enfim o puxei, fazendo-o sentar em cima da cobertura.
Vê-lo largado com seu corpo nu em meu sofá foi empoderador. Só tirei mais uns segundos para apreciar a cena tão erótica quanto meus sonhos mais íntimos: a mão que subia e descia tentando aliviar a pressão em seu membro grosso, os ombros e braços torneados, os trechos de pelos espalhados pela pele alva, seus cabelos quase secos, uma revolução sobre seu lindo rosto, e o olhar de absoluto tesão que capturava o meu.
Sem quebrar nosso contato visual, subi no sofá e me posicionei sobre ele, uma perna de cada lado. Peguei seu membro, o passei entre minhas dobras, umedecendo-o com minha excitação e estimulando meu clitóris.
Suas mãos espalmaram sobre minha bunda, apertando para me chamar atenção. – Para de brincar. – ele suplicou, gemendo. — Por favor.
Me compadeci do seu sofrimento, que agora era meu também, e o trouxe para o meu interior. A deliciosa invasão nos fez gemer. Mãos fortes se arrastaram até minha cintura, e eu busquei equilíbrio no encosto para começar a me mexer.
Investi contra ele lentamente por alguns instantes, até se tornar impossível, e logo minhas coxas se esforçavam para aumentar o ritmo. Edward tomou o mamilo que balançava mais próximo a sua boca, e eu inclinei mais para colar-me a ele. Minha pele ardia com o prazer por todos os pontos onde encostávamos.
— Por que é sempre tão bom? – sussurrei.
Seus lábios soltaram meu seio e ele abaixou a cabeça.
— Porque é perfeito.
Olhei para baixo, tentando enxergar o que ele via, sem parar de me mover. A imagem dos nossos corpos se unindo me fez lamuriar seu nome. Edward tinha reconquistado seu lugar na minha vida, e agora no meu corpo. Sim, era um encaixe perfeito.
Senti sua respiração com nossos rostos tão próximos. Seu cheiro de sabonete masculino misturado ao leve suor que brotava entre nós subiu à minha cabeça, me intoxicando. Eu queria inspirá-lo, tomar tudo que ele me oferecia e me fundir a seu corpo. Queria nos tornar infinitos. Mas o máximo que eu podia fazer era trazê-lo o mais profundo que eu conseguia.
Parei um momento para direcionar Edward até que ele deitasse no sofá. Debrucei-me sobre ele, minhas mãos em seu torso me auxiliando a mover. A mudança de ângulo ajudou a aprofundar nossa conexão, e eu senti novamente meu clímax se aproximando. Cavalguei por um bom tempo aumentando gradualmente minha cadência, amando a liberdade que sentia naquela hora e a forma como ele me preenchia.
Edward segurava minha bunda, e ajudou a guiar meus quadris, que agora ondulavam com mais intensidade. Em sincronia com o ritmo que eu havia estabelecido, ele começou a investir contra mim. Quando encarei seu rosto, o vi tão perdido na sensação quanto eu devia estar. Senti que ele começava a enrijecer ainda mais.
— Está perto? – perguntou, o esforço nítido na voz.
— Quase.
— Bella, eu preciso...
Peguei sua mão, rapidamente colocando-a sobre meu clitóris, enquanto eu lhe dava acesso ao reclinar um pouco sobre suas coxas.
— Daquele jeito que eu gosto. – orientei. Ele entendeu e passou a me esfregar com a pressão e velocidade necessárias para me levar ao limite.
Meus gemidos iniciaram baixinho, sentindo o novo orgasmo que chegava. Sua mão livre passeava pelo meu corpo. Nossos quadris se chocavam conforme eu aumentava a velocidade em busca de curar o que ardia em meu sexo. Ouvir os sons que preenchiam a sala de casa me ajudavam. Nossa respiração entrecortada, seus gemidos roucos e graves, seu membro entrando e saindo de mim com facilidade, tamanha era minha excitação.
— Vou gozar. – avisou. – Vai, Bella. Tira o que você precisa de mim.
Me concentrei em suas palavras, e cheguei lá bem rápido, sem parar de mexer e de sentir seus dedos. Meu interior se apertou ao seu redor, meus nervos super estimulados. Edward lamuriava e grunhia meu nome em meio a palavras chulas enquanto gozava, enfim.
Joguei-me para frente e capturei sua boca em um beijo desajeitado pela falta de fôlego, tentando aproveitar os últimos choques do meu clímax. Suas mãos passaram por minhas costas, fechando-as num abraço, e ele saiu de mim. Ficamos ali por um tempo, até nossa respiração normalizar.
— Você não existe. – arquejou ele. Beijei sua bochecha, ele beijou meu ombro.
— Existo. E te amo.
— Ama mesmo? – inquiriu ao captar meu olhar, me deixando apreensiva com seu rosto preocupado.
— Sim.
— Não é só porque eu acabei de te dar orgasmos incríveis?
Estava me zombando, o babaca. Eu rolei os olhos.
— Idiota.
Ele me deu um selinho e riu, antes de nos virar para o lado. Limpou-se um pouco com a ponta do meu roupão e levantou-se.
— Desculpa por isso. – ele segurava a peça azul marinho arruinada.
— Tudo bem. Pelo menos não foi o sofá. – dei de ombros, deitada sobre a bagunça.
— Preciso muito de água. Você quer?
— Quero, por favor.
Eu ia sair de qualquer jeito, mas levei um tempo a mais para me debruçar no encosto e observar Edward andando pelado até a cozinha, cujo grande portal vazado me permitia enxergá-lo. Aquelas corridas matinais que ele fazia davam conta de manter seu corpo firme, e suas pernas e bunda ainda eram magníficas. Fiz uma anotação mental de começar a me exercitar para valer, e tentar seguir seu pique. Eu sempre fui uma falsa magra satisfeita com minhas curvas, mas as coisas estavam começando a cair aos poucos.
— Vou cobrar ingresso, hein. – falou ele enquanto pegava copos e abria a geladeira como se morasse aqui.
— Tão convencido... Só estou admirando. Queria que minha bunda ainda fosse durinha assim. Vocês, homens, tem tudo tão fácil.
Edward sorriu, sacudindo a cabeça enquanto enchia os copos.
— São muitos quilômetros de treino. E vossa digníssima bunda continua uma delícia, não se preocupe.
— Que horas são?
— Quase onze. – respondeu, voltando para me entregar o copo.
— O que acha de tomarmos um banho e depois pedirmos uma comida pro almoço?
— Banho... Juntos?
— Sim, se quiser. – respondi, mas sua reticência me preocupou. — Que houve, Edward?
Ele evitou meu olhar, o semblante preocupado e o cenho franzido. Passou a mão pelos cabelos antes de falar mais baixo.
— Não sei se dou conta de outro round assim tão rápido. Tive uma semana meio difícil com meu remédio, você sabe...
Eu entendi o que ele dizia, lembrando da nossa conversa na banheira. Toquei seu braço, confortando-o. Sabia que era um assunto que iria aparecer com frequência, agora que realmente voltamos a ter uma vida sexual em comum, e senti necessidade de reafirmar meu apoio.
— É só um banho mesmo. – sorri e tentei brincar. — Ainda estou mole também, não aguento mais uma agora. Não temos mais vinte anos, danadinho.
Mas ele continuava tenso. Me ofereceu sua mão para que eu levantasse, e falou com pesar.
— Me desculpe, Bella. Está fora do meu controle.
Eu o abracei e segurei seu rosto para encará-lo.
— Não tem problema, sério. Se te serve de consolo, saiba que tem semanas que meu anticoncepcional me deixa com a libido baixíssima. Sei que não se compara ao seu caso, mas me desanima, às vezes. Acredite, eu te entendo.
— Obrigado. – me beijou e sussurrou. — A gente tem a tarde toda...
A tarde finalmente chegou, nós saímos do banho, nos vestimos e eu pedi nossa comida. Liguei para Claire e para o meu pai, a fim de certificar que eles estavam bem e que não pretendiam retornar para casa tão cedo. Havia ainda muito tempo livre.
Estávamos conversando na sala e ouvindo música quando chegou o delivery. Edward levantou-se rapidamente para atender, buscando sua carteira no bolso da calça e contando dinheiro.
— O que está fazendo? – perguntei, me erguendo.
— Deixa que eu pago.
— Nem pensar. – coloquei a mão sobre a carteira, impedindo-o.
— Bella, por favor.
— Você está na minha casa.
A campainha tocou novamente.
— Eu insisto. Se eu não estivesse aqui, você não precisaria pedir tanta comida.
— É claro que pediria. Meu amor, você não sabe como a gente come nessa casa! Guarda isso. – ordenei, tentando pegar a carteira de suas mãos para colocar de volta em seu bolso. Mas ele fazia força contrária, puxando a peça para si.
— Não!
Eu puxei de novo, e ele também. Nós parecíamos irmãos brigando pelo controle remoto. Era ridículo. Obviamente, a bendita carteira caiu no chão, de cabeça para baixo e aberta, espalhando pelo tapete e embaixo do sofá notas de dinheiro, cartões e porcarias diversas que ele guardava ali.
Nos abaixamos juntos para catar tudo. Um vento encanado vindo da cozinha resolver passar bem naquela hora, aumentando ainda mais a bagunça.
— Olha o que você fez. – bufei.
— Eu? Se você não fosse tão teimosa e orgulhosa...
A campainha tocou mais uma vez.
— Ok! – ele estava começando a me irritar. Eu tinha fome. — A gente divide, está bem?
— Certo. – pegou uma nota de vinte e me entregou.
Eu levantei, deixando-o agachado no chão e uni a minha própria nota a dele para receber a encomenda. Estava retirando o almoço das sacolas, na bancada da cozinha, quando senti seus braços me rodeando por trás.
— Desculpa. – ele sussurrou, beijando meu pescoço. Por um momento eu me desmanchei contra seu peito, mas mantive a pose.
— Tudo bem. Só não faça mais isso. Quando eu quiser pagar por algo, eu vou pagar.
— Entendido. Prometo que vou lembrar disso.
Edward me soltou e começou a me ajudar a montar os pratos.
— Pegou tudo do chão? – inquiri.
— Espero que sim.
— Se tiver algo perdido sob o sofá, eu te entrego depois. Devo faxinar a sala essa semana e vou achar.
— Sem problemas. Agora, pelo amor de Deus, vamos comer, estou morto de fome!
Nós almoçamos, descansamos um pouco, e subimos para ver um filme na minha cama.
Eu estava quentinha e confortável abraçada a ele, e seu cafuné lânguido me fez pegar no sono. Acordei no meio da tarde, com a TV desligada, e vi que ele também havia adormecido. Sorri. Senti meu peito inflar de amor ao constatar que Edward estava comigo numa cama de casal que eu nunca pude dividir com ele. Era a primeira vez que eu o deixava entrar em meu quarto nessa casa. Apesar de sua presença no meu ambiente ser estranha, ela me tranquilizava. Parecia certo. Outros homens passaram por aqui sem muito alarde, mas com ele era diferente.
Eu não havia sido obcecada por Edward durante todos esses anos, eu fiz a minha escolha – segui minha vida e vivi. Tive namorados, casos de uma noite só, fiz novas amizades. Todos os momentos tiveram a minha entrega e intensidade.
Porém sua ausência esteve sempre lá. Presente nos silêncios das madrugadas, nos segundos antes do inconsciente reivindicar seu lugar.
Foram anos imaginando o que poderia ter sido. Noites solitárias ansiando por um amante há muito tempo perdido. E agora que havíamos achado uma resolução, só precisávamos achar um jeito de fazer nossa segunda chance dar certo. Ainda tínhamos um mundo inteiro para encarar. E isso me afligia muito mais do que eu queria admitir.
Nós fizemos amor de novo quando ele acordou, perguntando o motivo da minha cara de preocupação e prontamente me fazendo esquecer de tudo ao me cobrir com seu corpo. Dessa vez, ele preferiu usar um preservativo, uma tática sua para prolongar nosso prazer.
Ficamos abraçados por um tempo depois, apenas sentindo um ao outro. Edward não conseguia parar de me tocar, e nem eu a ele. Seus dedos percorriam preguiçosos pelo meu corpo, me provocando e me acendendo novamente enquanto conversávamos banalidades. Aquilo me arrepiava como se nunca tivéssemos feito nada parecido.
Ele sabia que eu queria mais, mas eu também sabia que não seria possível. Eu já começava a roçar meu sexo em sua perna, quando, para minha surpresa, Edward pediu para ver meus brinquedos. Por curiosidade, perguntei como ele sabia que eu possuía alguns vibradores e dildos, e a resposta não podia ser outra: Alice, claro.
Até o anoitecer, Edward me estimulou e me ajudou a gozar em suas mãos e boca, auxiliado pelos apetrechos que ele sabia usar muito bem e pelas palavras que me excitavam sem tamanho. Eu definitivamente acordaria moída amanhã para a festa de Claire, mas valia a pena. E muito.
Quando tivemos forças para sair da cama, eu fui buscar nossa filha, enquanto Edward partiu para a casa dos pais. Iríamos todos nos encontrar lá, pois meu pai, Esme e Carlisle haviam chegado do dia de pescaria e nos chamaram para um jantar de peixe na brasa. Nós dois tentamos agir como se nada tivesse acontecido, porém foi difícil escapar da esperteza da Dona Esme, que não parava de sorrir para nós.
No dia seguinte, eu tinha mil músculos reclamando, um ardor entre as pernas e uma cama vazia demais. Mas também possuía uma festa para organizar, a qual não me permitia ficar deitada o dia todo na cama. Nada que um analgésico não resolvesse.
Eu e Claire tomamos café, fizemos algumas tarefas pendentes, e ela foi tomar banho antes de irmos para a casa dos avós. Quando eu estava levando o lixo para fora, o carro dos correios parou do outro lado da rua, e o carteiro saltou, vindo em minha direção com um pacote.
— Bom dia. Correspondência para Marie Claire Swan. – falou, lendo seu caderno.
— Aqui mesmo, sou a mãe dela. – ele me entregou o pacote, e eu assinei o recebimento. – Obrigada, tenha um bom dia.
Voltei para dentro, olhando o pacote com um selo do Arizona. Meu coração se apertou, pois eu já sabia de quem era. Renee Dwyer estava escrito em negrito no remetente. Coloquei a caixa sobre a mesinha da sala, para entregar a Claire mais tarde, embora minha vontade real fosse a de jogar aquilo no lixo.
Eu jamais me acostumaria ao fato da minha mãe mandar presentes de vez em quando à minha filha, porém não dar a mínima para saber como ela estava. Nada me doía mais do que esse pequeno gesto frio e impessoal. Era melhor que não mandasse nada, que não tivéssemos lembranças nenhuma de sua distância e ausência espalhadas pela minha casa.
Mas minha mãe fazia tudo premeditado, sempre fora metódica e objetiva. Por isso, não foi surpresa nenhuma quando ouvi meu celular tocando, alguns minutos depois. Ela devia saber que o pacote chegaria nessa hora através do rastreio.
A última vez que ela me ligou foi no meu aniversário, em setembro, e aquilo havia me deixado baqueada. Não poderia permitir que isso acontecesse justo hoje. Respirei profundamente antes de atendê-la.
— Alô?
— Alô, Isabella? Sou eu, Renee. – seca. Como sempre. Nada de bom dias, nada de como vai.
— Oi, mãe. Está tudo bem?
— Está. Eu só... estou ligando porque é aniversário da sua filha, não é?
— Foi quinta.
— Ah, desculpa, Charlie falou algo sobre o fim de semana.
— Tem conversado com o papai?
— Tivemos que resolver uns assuntos pendentes esse mês.
Não fazia ideia de que tipo de assunto pendente eles teriam, mas preferi não prolongar o papo.
— Entendi.
— Ahm... Eu posso falar com ela, dar os parabéns?
— Claire está no banho. Se quiser ligar depois...
— Não, tudo bem. Só diga que eu liguei, por favor. Ela gostou do presente?
— Ela ainda não abriu, acabou de chegar aqui. Mas obrigada.
— Certo. – ela calou-se por um longo período. E retornou. – Quinze anos, não é?
— É...
Eram quinze anos sem ter minha mãe por perto. Quinze anos de rejeição e mágoa. Tanto tempo depois, e eu ainda lembrava da última vez que eu a vi pessoalmente, quase dez anos atrás. No fundo da minha mente, isso ainda me atormentava. Entretanto, nós duas éramos orgulhosas demais para o conceito de perdão.
O choro teimoso ficou preso em minha garganta.
— Passou rápido, não? – ela continuou.
— Pra mim foi uma eternidade. – minha voz saiu embargada, meus olhos ardiam com lágrimas. Respirei profundamente, tentando me estabilizar.
— Bella, eu...
— Sim?
— Gostaria de visitá-las, se for possível.
Sua frase me surpreendeu e me desconsertou. Ela nunca pediu para visitar antes. O que a fez mudar de ideia? Eu tinha um sentimento misto. Não queria vê-la, mas ao mesmo tempo sempre desejei que ela viesse até mim. Era tudo muito confuso.
— Vamos ver... Eu ando bem ocupada. Trabalhando muito.
— Claro. Eu imagino.
Esse telefonema estava me deixando ansiosa demais. Não queria mais ouvi-la. Não sabia mais o que responder.
— Tenho que desligar. Hoje é a festa de Claire, ainda temos muito pra arrumar.
Minha mãe ficou em silêncio por mais um tempo, e quando achei que havia desligado, ela voltou a falar num fio de voz.
— Estou com saudades, Bella.
Eu queria perguntar "por quê? Por que diz que está com saudades só agora?". Mas eu não conseguia, não podia. Soava cruel, e eu não estava pronta para um confronto.
— Eu... Eu preciso ir mesmo. Tchau, mãe.
— Tudo bem... Tchau, filha.
Ela enfim desligou, para o meu alívio. Caí na poltrona chorando. Mas tirei um momento para respirar, deixando meus pensamentos se acalmarem.
Não era a hora de me deixar envolver com isso. Sequei as lágrimas, e fui terminar de me arrumar. Minha filha achou o pacote em algum momento da manhã, porém deu tanta importância a ele quanto eu. Quando passei na sala em direção a porta da rua, vi a caixa rasgada e aberta no lugar onde eu tinha deixado. Claire não disse nada a respeito.
O dia passou corrido. Toda a família Cullen ajudou na preparação da festa desde a manhã. Colocamos os enfeites, recebemos as encomendas de doces e salgados do buffet, arrumamos as mesas. Eu estava no pique, empolgada com a arrumação toda, que já era tão divertida quanto uma festa. No entanto, minha cabeça volta e meia tornava a lembrar do bendito telefonema.
Era quase meio dia, e havia grupos espalhados pela grande casa e jardim executando tarefas diferentes. Alice tinha acabado de me deixar sentada no chão da garagem com Edward, onde ele me ajudava a encher vários balões cintilantes com a máquina de gás hélio.
O silêncio deixado por Alice preencheu o espaço e arrebatou minha mente. Foi quando os pensamentos voltaram à tona. Não demorou muito para que Edward notasse que algo me incomodava.
— Ei. Você tá legal?
Eu o encarei, passando mais um balão para ele enrolar fitilhos nas pontas.
— Sim... Só estou pensando.
— Posso ajudar?
Me silenciei por alguns instantes. Se eu falasse, eu choraria de novo. Se eu não falasse, o choro preso iria me implodir. Meio contrariada, decidi por responder.
— Minha mãe ligou hoje pra parabenizar Claire. Fiquei um pouco mexida, só isso.
— Ah... Ela não costuma ligar nos aniversários?
— No meu sim. No de Claire, só às vezes, quando lembra... – suspirei, aguardando a máquina encher mais um balão. – Só que hoje foi estranho. Ela falou que estava com saudades e queria nos visitar. Minha mãe nunca disse isso antes, é a primeira vez.
— E o que você respondeu?
— Que eu estava ocupada. Não dei uma resposta.
— Mas você sente saudades dela. – ele afirmou.
— Sim... Não. Não sei, Edward.
— Bem, se quer minha opinião, eu acho que você deveria aceitar a proposta dela.
— Está brincando?
— Nem um pouco, Bella. Se Renee nunca havia dito isso antes, e agora disse... Bom, ela te deu uma brecha. Parece interessada em voltar a falar com você, de verdade.
— Não sei, não, Edward. Não confio na minha mãe.
Finalizei meu pensamento, e continuei com meu trabalho, já vasculhando a mente para mudar de assunto. Porém Edward não estava nada a fim de me dar sossego sobre aquilo.
— Por que não marca um fim de semana com ela em Phoenix?
— Não acho que eu conseguiria. – sacudi a cabeça, a ideia me soando absurda.
— Por que não conseguiria? Tentem recomeçar. Vá aos poucos, como fez comigo. – ele deu de ombros, como se fosse muito simples.
— Com você foi diferente, nossa relação era diferente. A sua situação era outra.
— O que te faz pensar isso? Não entendo.
— Minha mãe, Edward. Alguém do meu próprio sangue, me abandonou quando eu mais precisava. A falta de amor que eu senti dela me quebrou. Foi tanto egoísmo.
— Não acho que seja tão diferente assim... Ela errou também, e talvez agora esteja realmente arrependida e com saudades. Ela não teria nada a ganhar dizendo que estava com saudades. Eu acredito no perdão.
Parei a máquina de uma vez só, largando um balão que subiu leve ao teto, tão indiferente à tensão que eu exalava no momento. Eu o invejava.
— Você não entende mesmo, Edward? Se eu encontrar com Renee, vai ser pra despejar tudo o que eu senti esses anos todos. Como você se sentiria se seu pai biológico voltasse agora pedindo para entrar na sua vida?
— Não há comparação. Meu pai é um homem violento e alcoólatra, uma alma atormentada. Eu jamais deixaria que se aproximasse da minha família, e o cortei todas as vezes que tentou porque sei que ele nunca vai mudar. Mas sua mãe... Ela é dura e orgulhosa, só isso. Eu lembro bem como ela era muito rígida, mas também lembro como ela nunca deixou te amar e querer o melhor pra você.
— Se ela me amasse, não teria me evitado por tantos anos, como se eu fosse uma estranha. Não teria se mudado pro outro lado do país. Teria passado por cima do orgulho e vindo atrás de mim, me ajudado a criar minha filha. – argumentei, o fel da mágoa corroendo minha fala. — Ela me vê como um fracasso. Que tipo de amor materno é esse?
— Nem todas nascem pra serem mães maravilhosas como você, meu amor. – ele inclinou-se. Seus dedos fizeram contato com minha bochecha, limpando uma lágrima que eu nem senti. – Bella, se eu tivesse a chance que você está tendo, eu não perderia tempo. Se o único defeito do meu pai fosse ter virado as costas pra mim quando te engravidei, eu não hesitaria em tentar retomar nossa relação. Por mais que seja difícil, eu acredito sim que tem jeito.
— É só que... Tem muita coisa em jogo. Não quero correr o risco de me magoar mais com ela. Não preciso de Renee criticando toda a minha vida, o modo como eu escolho criar Claire, logo agora que consegui me estabilizar, porque tenho certeza que ela fará isso...
— Amor, você está baseando sua decisão em suposições. Calma. Se isso acontecer, basta colocar limites, como eu ponho nos meus pais e Alice também. Você vai arrumar uma forma de conviver com ela, se realmente quiser tentar, eu acredito em você. Fale com ela. Vocês duas estão mais velhas agora, provavelmente já aprenderam as lições que deveriam.
— Não sei o que fazer. Tenho tanto medo. – ao ouvir minha voz dizer aquilo, eu desabei. Edward veio ao meu encontro e me abraçou forte.
— Eu sei. – sussurrou.
Ele me segurou por um tempo enquanto eu chorava em seu ombro. Seus braços firmes me mantendo segura e seus beijos suaves na face me acalmando aos poucos.
Quando senti que o aperto no meu peito tinha dissipado, voltei a realidade. Estava um pouco melhor após o desabafo. Fungando e secando meu rosto, levantei minha cabeça. Fiz careta ao ver a bagunça do meu choro no ombro da sua camisa, e tentei arrumar.
— Desculpa por te molhar. Espero que ninguém pergunte.
— Sem problemas, já já seca. Ninguém vai reparar, estão todos ocupados... Está melhor?
— Sim. – assenti e beijei sua bochecha. — Obrigada.
— Ótimo. Vamos, que hoje é dia de festa e ainda temos mais balões pra encher. – ele se ergueu, estendendo a mão para me por de pé.
— Acho que faltam uns cinquenta.
— Droga. Quem foi o doido que teve essa ideia mesmo?
— Sua filha.
— Minha? Só se for a sua! A minha filha gosta de coisas simples, o brinquedo favorito dela é uma caixa de papelão vazia.
Ele me fez rir ao relembrar de um velho hábito de Claire aos dois ou três anos de idade. Ela amava se esconder em caixas, por mais que nós lhe déssemos brinquedos coloridos e barulhentos.
— Desculpe te informar, mas algumas coisinhas mudaram de uns 13 anos pra cá. – retruquei.
Nós voltamos ao trabalho. Meu humor se elevou consideravelmente devido a todos os esforços de Edward para me ver sorrindo de novo. Ele sabia ser muito bobo quando queria, e eu era extremamente grata por isso.
Meia hora depois, precisei ir ao banheiro e o deixei lá para terminar de amarrar os grupos de bexigas da decoração. Quando entrei pela cozinha, ouvi vozes na sala, e fui espiar. Claire recebia Jacob, Rachel e Kim e os orientava para começarem a montar o espaço onde a banda das meninas tocaria.
Voltei do banheiro correndo para a garagem. Carlisle e Jasper, que faziam instalações elétricas no jardim, me olharam, estranhando meu saltitar. Uma parte juvenil e diabólica em mim ria quando percebi que agora era a hora da verdade. Edward e Jacob se conheceriam. Eu estava doida para ver a reação dele.
— Adivinha quem chegou?! – Edward sobressaltou com susto, pois falei um pouco alto demais ao entrar na garagem.
— Porra! Quer ficar viúva antes do tempo, mulher? – ele passou a mão no peito. — Não sei, quem?
— Alguém que você está doido pra conhecer...
Sua ficha demorou um instante a cair, e só então seu rosto deu uma murchada.
— Ah não. – e gemeu em protesto. Mesmo assim, agarrei sua mão e o puxei.
— Vem, vou apresentar vocês.
— Tem que ser agora? – seus pés estancaram no lugar, um burro empacado.
— Claro, Edward. Vai ficar o dia inteiro na mesma casa que o garoto está, e vai evitá-lo o tempo todo?
— Se for possível, sim.
Eu rolei os olhos para sua teimosia.
— Deixa de besteira. Achei que você já tinha superado a coisa de ser pai ciumento. Isso não combina nada com você, fala sério.
— Não é isso...
— Então o que é?
— Tsc. – clicou a língua e passou a mãos pelos cabelos, bufando. — Odeio admitir, mas... Estou um pouco nervoso... Tem certeza que eu vou gostar dele?
— Prometo que vai. Jacob é ótimo, não precisa se preocupar. Eu conheço a família, conheço o pai e a irmã. Você conhece Rachel, não? Elas são melhores amigas há uns anos já, toca com ela na banda.
— Conheço, claro.
— Bom, ela está aqui também. Ah, por falar nisso, você sabe que eles são órfãos de mãe, não sabe?
— Oh. Sério? Não lembrava disso.
— Então, vou te explicar a situação pra evitar alguma saia justa... – eu abaixei a voz. — Os pais sofreram um acidente de carro quando Jacob tinha uns doze anos. O pai ficou paraplégico e a mãe morreu.
O rosto dele suavizou a carranca que portava até então.
— Nossa. Eu não fazia ideia. Isso é... pesado. Que merda.
— Pois é. Por conta disso, Jake aprendeu a se virar desde cedo. Tem responsabilidades em casa, cuida do pai e da irmã mais nova. Está até trabalhando pra ajudar a pagar a faculdade. Ele dirige pra um professor, que também é cadeirante.
— Parece uma vida dura. – ele falou com pesar.
— Sim. Mas Jake é um doce. E tá sempre rindo, nem parece que sofreu tanto. Vocês tem muito em comum, sabe.
— Ok, ok, você venceu. – ele bufou ao ser convencido, e nós andamos em direção a cozinha. Mas antes, soltou a última reclamação. – Já odeio esse fedelho por me deixar de coração todo mole. Como que eu vou botar medo nele assim?
Eu gargalhei.
— Ah tá, como se você fosse muito durão normalmente. Nem tentando!
Os garotos não estavam mais na casa, então atravessamos o jardim, e os avistamos na calçada, terminando de tirar equipamentos de um carro que eu deduzi ser de Jacob. Senti a energia de Edward tensionar ao meu lado, mas não parei de andar. Entretanto, eu queria evitar um desconforto geral, então decidi mandá-lo aguardar na varandinha em frente a porta, enquanto eu falava com eles.
— Oi, crianças.
— Oi, tia! — as meninas falaram quase em uníssono, deixando uma caixa pesada no chão. Jake saiu de trás do carro e sorriu largamente ao me ver.
— Bella! Como vai?
— Tudo bom, e você?
Claire veio para o seu lado, abraçando sua cintura. O braço dele foi parar em seus ombros. Os movimentos tinham tanta naturalidade que eu até estranhei.
— Estou ótimo. Na verdade, bem ansioso pra festa.
— Eu também. – sorri. – Como vocês dizem, vai bombar.
— Com certeza.
— Bem, eu não sei vocês, mas minha barriga tá roncando de fome. – Claire interrompeu nossa interação. — Já são quase três e eu ainda nem almocei.
— Espera, filha. Vamos levar Jake pra conhecer seu pai antes? O que acha?
Seus olhos arregalados alternaram entre o namorado e eu, enquanto ela mordia o interior da bochecha.
— Ahm... Agora? Sério mesmo?
— Por mim, tudo bem. – Jacob respondeu, parecendo bem seguro. Eu nem hesitei.
— Vamos, ele está na varanda descansando.
Assim que terminei de falar, saí andando, sem dar chance para eles desistirem. O casal demorou uns segundos, mas enfim me seguiram. Edward estava sentado no balanço branco com a cabeça pendendo para trás, os olhos fechados e franzidos, enquanto massageava suas têmporas. Eu rolei os olhos. Tão dramático.
Ele nos ouviu subindo as escadas e voltou o rosto para olhar, sem se mover do lugar.
— Claire trouxe alguém pra te apresentar. – introduzi, deixando que os dois passassem a minha frente. Edward continuou sentando, então Claire se aproximou.
— Pai, esse é meu namorado, Jake... Digo, Jacob... Jacob Black.
O danado do garoto abriu o sorriso mais brilhante e galanteador, aquecendo o ambiente inteiro. Esticou a mão para Edward, que sorria amarelo, e deram um aperto firme.
— Como vai, senhor Cullen?
— É Edward. – Claire murmurou.
— O Jacob pode me chamar de senhor Cullen, se ele quiser. É cordial. – Edward levantou, de repente, fazendo uma cena para que os dois dessem um passo atrás.
Claramente sua intenção era intimidá-los, mas Jake parecia inabalável. Também, pudera, o rapaz era apenas alguns centímetros mais baixo que ele. Eu precisaria intervir, para que Edward deixasse de ser ridículo.
— Ah me poupe, ninguém nunca te chama de senhor Cullen, e você não tem mais de sessenta. – falei, e reafirmei para Jake. — É Edward.
Cruzei os braços e ergui as sobrancelhas para o homem a minha frente. Ele desmanchou a face dura, mas sorriu travado. Minha filha me deu um olhar desesperado, e eu sorri e pisquei para tentar confortá-la.
— Desculpe, estava brincando. Não precisa me tratar como senhor, essa é a vantagem de ser um pai jovem. – Edward ofereceu a trégua. — Bom te conhecer, Jacob. Ouvi coisas boas sobre você.
O jovem casal relaxou um pouco, finalmente.
— Sério? Que legal, eu também ouvi muito do senh... de você. Claire idolatra você e Bella.
— Shh! Não diz isso, ele vai ficar todo convencido e insuportável. – minha filha advertiu. Eu ri quietamente no meu canto, observando tudo.
— Tudo bem, depois você me conta o que ela tem falado de mim. Mas então, você faz faculdade?
— Sim, comecei Direito há três meses na NYU.
— É uma ótima universidade, parabéns. Tenho amigos que dão aula lá. – Edward assentiu. – Já tem ideia de qual especialização vai fazer?
— Bom... Ainda é cedo, mas eu tenho muita afinidade com a área de direitos humanos, principalmente os direitos de pessoas com deficiência. Tenho certa experiência com isso no dia a dia, e sei como é difícil.
— Diz pra ele o que você me contou outro dia. – Claire falou, sorrateira. — Sobre o projeto social da faculdade.
— Projeto social? – seu pai indagou.
— Ah, não é nada concreto ainda. Estou trabalhando pra um professor deficiente, e ele está pensando em começar um projeto de acessibilidade nas escolas públicas, nem sabemos se vai vingar. Eu só queria poder trabalhar em algo que ajudasse na inclusão deles na sociedade. Sei que não vai me trazer muita grana, mas...
Pronto, eu sabia que aquilo desarmaria Edward de vez. Ajudar pessoas profissionalmente era tudo o que ele sempre quis fazer e nunca pode, já que jamais concluiu a faculdade de Medicina. Na juventude, ele sempre fazia trabalhos voluntários, e eu sabia que ainda participava de alguns, de vez em quando. Mas a pressão de manter seu emprego diário não permitia uma dedicação maior, para sua frustração.
Vi o sorriso de Edward se abrir para valer. Estava tocado.
— Isso é muito bonito, Jacob. Tomara que dê certo. É um belo trabalho. – ele falou, plácido e genuíno. – Está muito além do dinheiro.
Jake sorriu encabulado.
— É, eu sei... Mas é pesado. É um mundo bem complicado e burocrático.
— Eu imagino. Mas você vai estudar pra resolver isso. – ele afirmou sorrindo. — Sabe, uns anos atrás, eu e um colega de trabalho suamos pra convencer nossos chefes a dispensar uma grana e tornar nosso Hotel totalmente acessível. Nunca pensei que seria tão difícil, e olha que são medidas simples.
— Pois é, incrível como as pessoas podem ser mesquinhas com o outro que é diferente. Cara, elas simplesmente... não entendem.
Edward concordou com a cabeça. O silêncio após isso durou pouco, pois logo ouvimos um barulho discreto. Eu sabia que era Claire.
— Foi mal. Meu estômago está reclamando. – falou, envergonhada.
— Eu também estou faminta. – tentei salvá-la. — Vamos? Esme deixou tudo no forno. Jake, acompanha a gente? Ela fez um macarrão à parisiense maravilhoso.
— Eu já almocei, obrigado. Vocês se importam se eu for ajudar as meninas? Tem muita coisa pra montar ainda.
— Ah, claro. Vai lá. – Claire respondeu. Eles se inclinaram para beijar, mas logo mudaram de ideia, e o rapaz decidiu por um beijo na testa.
Ele saiu, e nós três andamos para a cozinha. A comida foi servida em silêncio. Quando sentamos para comer, finalmente minha filha falou alguma coisa para o pai.
— Então... E aí?
— E aí, o quê?
— Não se faça de desentendido, senhor Cullen.
— Bem... Ele é decente. – respondeu Edward. – Me soou sincero.
— Admita que você gostou de Jake. – provoquei do outro lado da mesa.
— É, parece gente boa.
— Ah, para de bancar o machão. – reclamei. — Já vi que rolou até uma identificação entre vocês.
— Deixa, mãe. Daqui a pouco ele vai ver como Jake é legal e divertido. Sabia que ele também tem uma coleção incrível de videogames, e é ótimo jogador?
Com o interesse captado, Edward virou-se rapidamente para ela.
— Então ele é um gamer também?
— É.
— Ah é? Vocês jogam juntos?
— Uhum. Toda semana. – assentiu, sugando um macarrão para dentro.
Eu sorri com a interação. Edward era viciado em videogames, desde adolescente, e acabou viciando nossa filha também. Até hoje, os dois passavam horas jogando nos fins de semana, na casa dele. Já perdi a conta de quantos jogos ela tinha, e em quantos Halloweens já havia se fantasiado de Lara Croft, sua personagem favorita. Felizmente, ela nunca quis se vestir de Kitana.
— O que vocês tem jogado? – ele inquiriu.
— Ah, o de sempre. Mortal Kombat, Left 4 Dead, Diablo, Resident Evil...
— Então vamos marcar um dia lá em casa, quero ver se esse moleque é bom mesmo.
— Fechado! – Claire sorriu. – Pai?
— Sim.
— Obrigada por se comportar.
— Não fiz mais que minha obrigação... Mas estou de olho, hein.
Sacudi a cabeça para ele. Eu ficaria de olho tanto quanto, pois era instintivo. No entanto, jamais sufocaria minha filha.
Em pouco tempo, tudo estava pronto e conseguimos montar uma festa simples, porém linda e divertida. A noite enfim chegou, e com ela os primeiros convidados começaram a aparecer. Claire estava radiante, sua felicidade e simpatia conquistando a todos. Era uma ótima anfitriã, tal qual a avó Esme.
A avó que, por sinal, vinha dançando em minha direção ao me ver sozinha no canto da pista de dança à beira da piscina, bebendo minha Margarita que Carlisle preparou para os adultos. Ela portava um sorriso diabólico e se movia ao som do hip hop alto.
— Quero te ver dançando, Bella. Vamos lá!
— Ah não, mais tarde... Deixa fazer efeito. – falei mostrando meu copo.
— Gostou do presente que te mandei ontem?
— Que presente? – eu sabia muito bem do que ela falava, mas me fiz de desentendida.
— Um com incríveis olhos verdes e um sorriso arrebatador, que por acaso herdou da mãe.
Eu gargalhei e abracei sua cintura com um braço, beijando sua bochecha.
— Você é demais, Esme. Vamos dançar!
Nós ficamos no canto para não atrapalhar os jovens, e também não envergonhar Claire – mesmo ela não admitindo, eu sabia que ainda estava naquela fase de sentir vergonha dos pais. Alice nos viu e veio se juntar a nossa rodinha, trazendo Kate para dançar conosco.
Em dado momento, Kate pegou minha mão e me girou no lugar. Minha visão captou Edward saindo da casa, e vi que ele parou e começou a nos observar de longe. Me virei, ficando de costas com Kate para brincar com ela. Intencionalmente, fiz contato visual com Edward por uns instantes enquanto rebolava, tentando ser sensual – mas é claro que falhei terrivelmente e caí na gargalhada. Ele mordeu os lábios jocosamente, mas enfim o sorriso arrebatador apareceu enquanto olhava para meu corpo.
Aquele frio na barriga apareceu, e um calor me invadiu. Ele era, sem dúvidas, o melhor presente que uma garota apaixonada poderia receber.
Fale com o autor