Mais Uma Vez

29 Capítulo 28: Perdição


Notas iniciais
Obrigada a Cella, minha beta que já estaria na cadeia de tanta porrada que ela promete me dar no fim dos capítulos.
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Olá! Como estão? Primeiro post do ano cof cof, vou nem falar nada. Só agradeço a quem ainda está acompanhando e comentando, e peço compreensão de vocês pelas minhas faltas. Leiam a N/A, por favor :)
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Obrigada a leitora Marie pela recomendação que escreveu pra fic! :)

Capítulo 28: Perdição*

Eu tentei. A minha missão de não pensar no que tinha acontecido ontem durou pouco. Exatamente o tempo de efeito de uma festa de despedida de solteira e alguns drinks de nomes estranhos.

Eu tentei, mas volta e meia a cena se repetia na minha cabeça, e era sempre a mesma: seus olhos esmaecidos do brilho, me fitando atordoado e me fazendo novamente ter aquela sensação estranha de que eu tinha feito algo errado. Eu não sabia dizer ao certo, porque me sentia assim, e isso estava me deixando louca.

Em momentos como esse eu desejava que nossa relação não fosse tão complicada. Se Edward fosse um amigo qualquer, eu já estaria fazendo piada sobre o ocorrido. Mas ele não era qualquer um. Nunca seria.

Ele era... ele. E a cada vez que nos encontrávamos parecia que ele se tornava ainda mais Edward– um novo homem, cuja personalidade eu já estava começava a delinear. Não era mais somente o meu Edward do passado, ou aquele que eu ressenti por tantos anos. Era a mistura de tudo, e a bagagem em suas costas o tornava uma pessoa real, a quem eu havia aprendido a admirar.

Tão admirável que me deixava desnorteada com todas essas novas sensações. Tão real que ficava cada vez mais difícil pensar em magoá-lo.

Naquele sábado acordei com a casa vazia e o corpo cobrando tudo o que eu havia exigido demais dele ontem à noite. Saí do meu quarto pra constatar que Claire já tinha ido com Edward. Eu não pude evitar, indaguei sobre o que ele teria pensado ao parar em frente a nossa casa... Como ele estava lidando com a situação. Talvez eu estivesse dando uma dimensão muito maior ao fato. Talvez ele sequer tenha perdido o sono com isso.

A urgência de pegar o celular e lhe telefonar foi grande. Em qualquer outra ocasião eu faria isso — já vinha se tornando uma rotina trocar ligações para contar pequenas coisas do nosso dia a dia. E como eu constatei — com ansiedade -, nós estávamos nos falando praticamente todos os dias.

A ideia de que essa rotina... amizade, como queira, pudesse estar ameaçada me apertava o peito. Agora, mais do que nunca, eu só precisava saber que tudo estava normal entre nós, como antes. Que nada havia mudado nessa nossa relação que desfilava em uma corda bamba.

Eu não podia perder tempo. Tratei de me arrumar para o dia cheio que tinha pela frente, tomei meu café e me arrumei. Lavei as louças da pia e varri o chão. Mas todo tempo eu só tentava decifrar o que havia se passado comigo para que eu me sentisse tão estranha após aquele beijo.

Eu me deixei levar, como uma adolescente. Afinal, onde estava com a cabeça? Beijar meu companheiro de trabalho em uma sala de reunião, correndo o risco de qualquer um nos flagrar. Era tão amador e anti-profissional, mal podia acreditar.

Quando saí de casa para ir ao cabeleireiro e vi o cd de Edward no carro, foi a minha brecha. Sem querer contar com a sorte, enviei uma SMS pedindo que me ligasse quando pudesse.

Dirigi por dez minutos em suspense, até ouvir meu celular tocar. Meu estômago pulou com o susto, e eu peguei o aparelho rapidamente.

– Oi.

Ele só respondeu dois segundos depois. — Tá tudo bem, Bella?

– Sim, tudo bem. Claire está por perto? Você pode falar agora?

– Posso.

Seu tom estava seco e objetivo demais para seu jeito. Mas podia muito bem ser coisa da minha cabeça.

– Bom… Seu cd ficou comigo. Eu só vi agora. Quando posso te entregar?

Uma pausa de silêncio até que ele respondesse, e eu decidi que seria melhor parar o carro em uma vaga. Quando ele falou, não foi a resposta que eu esperava.

– Certo…

Ouvi sua respiração pesada antes de um suspiro.

– Isso é tudo?

– Por que está falando assim comigo? — eu precisava perguntar.

– Assim como?

– Sei lá, como se tivesse querendo me despachar. Está com pressa?

– Eu não quero te despachar. Só... Só estou meio ocupado agora...

– Então por que não disse antes? — bufei.

– Desculpa. Você ligou de repente, e eu me assustei, achei que fosse algo importante. Mas agora que você já disse o que queria, bem...

– Edward, se você não quer conversar, é só me falar. Pensei que depois do último mês isso já tivesse mais do que claro.

– Você está certa. Fala.

– Certo. — suspirei. — Então... Sobre ontem...

Ele não me deixou terminar. Era claro que ele não deixaria.

– Não precisa explicar nada, Bella. Eu só fui pego de surpresa. Se eu soubesse que vocês estavam... juntos eu teria tido mais cuidado.

– Isso nem faz sentido. — eu bufei uma risada sem traço de humor. — Aquela cena não foi nada apropriada pra um local de trabalho. Foi um deslize meu, mas não vai se repetir. Só quero esclarecer, Edward... Eu não fiz de propósito.

– Não estou preocupado com isso.

– Com o que, então?

– Nada, Bella…

– Nada? Então vai ser assim agora? Vamos voltar a estaca zero, ao tempo das respostas evasivas?

– Só estou fazendo o que devo fazer. Sua vida amorosa não me diz respeito, muito menos sua vida profissional. Quando aceitamos ser amigos eu te prometi não me envolver demais, e é o que estou tentando.

– Nós não estamos juntos. — eu falei, de repente. Aquilo o calou.

– Você não precisa me dar satisfação, Bella.

– Não quero que você fique inventando coisas... — suspirei. — Desculpa por te importunar. Vá curtir o seu dia com Claire.

– É o que farei, obrigado. E… divirta-se mais tarde. Mande meus parabéns ao casal.

– Claro. Tchau.

xxxx

Às 19h, eu já tinha passado por todo o ritual de cumprimentos ao noivo e às famílias, e agora esperava na fila das damas e padrinhos, que terminavam de chegar. Foi nessa mesma hora que eu encararia o outro homem que também estava fazendo meu coração pulsar de preocupação.

Riley foi um dos últimos a chegar, quase deixando a irmã de Mary, a cerimonialista, em desespero. Nós trocamos um sorriso rápido, e eu não consegui dizer nada antes que as portas se abrissem e nós tivéssemos que andar até o altar improvisado.

– Oi. — ele sussurrou quando o quarteto de cordas iniciou a música da nossa entrada. Eu o olhei de soslaio, e retribui.

– Oi. — falei, sentindo a garganta seca. Passei meu braço pelo seu e ele pegou, segurando também minha mão.

– Que mão gelada. — ele me apertou, e só então percebi o quanto estava nervosa.

Eu sabia muito bem que não tinha nada a ver com estar em evidência naquela cerimônia, e sim com nossa... situação. O jeito como eu o deixei ontem era suficiente para me perturbar. Nós nos beijamos. Não foi uma coisa à toa. E eu precisava saber o que ia nos acontecer agora.

Respirei fundo quando nos chamaram para enfim adentrar, e me segurei em Riley. Mesmo que eu tropeçasse no meu vestido, eu sabia que ele não me deixaria cair. Mas era bom ter a segurança de sua autoconfiança sempre forte.

A cerimônia foi linda. Daquelas que faziam a gente sonhar — nem que fosse um sonho distante.

Meus amigos formavam um lindo casal, e não conseguiam conter o enorme sorriso que iluminava seus rostos. Os noivos trocaram suas palavras de amor e devoção com um brilho no olhar que me fez soltar algumas lágrimas. Mesmo que vez ou outra meus olhos viajassem para Riley, do outro lado, era cativante ver aquele momento acontecendo diante de todos. Só hoje entendia completamente o que Esme costumava dizer tanto para nós, e eu achava uma cafonice: a beleza nada mais era do que a expressão da felicidade.

Na fila dos abraços, eu fui uma das primeiras.

– Estou tão feliz por vocês! — falei quando chegou minha vez. — Me fizeram chorar. Vocês são tão lindos.

– Obrigado, Bella. — Garrett falou. — Minha esposa não é a mais linda de todas?

– Ai, posso com isso? Agora ele vai repetir essa palavra em toda frase. — Mary fingiu rolar os olhos, só para dar um selinho na boca do marido. — Obrigada, Bella. Meu coração não cabe de felicidade. Estou tão feliz por tudo! Obrigada por estar compartilhando esse momento com a gente.

– Eu não perderia por nada. — falei apertando sua mão e beijando. Riley veio logo atrás de mim, cumprimentando-os.

Eu me virei para falar com outros amigos que avistei, e assim todos nos dispersamos para seguir ao outro lado do salão, onde estavam as mesas. Bati papo com o pessoal enquanto via o altar ser desmontado para virar a pista de dança, e logo a festa começou de verdade.

Estava prestes a pegar um coquetel no bar quando ouvi a voz atrás de mim.

– Eu ainda não falei como você está linda hoje, né? — me virei para dar de cara com Riley. E sorri um pouco aliviada.

– Acho que não. — ri, sentando no banco do bar, ao lado dele. — Obrigada. E nem vou dizer o quanto o senhor está ridiculamente bonito nesse smoking. Acho que você já sabe.

– É, eu sei. Mas é sempre bom ouvir. — ele falou, me fazendo rir.

– Tem alguma coisa diferente... Você cortou o cabelo?

– Cortei. — ele falou alisando seu cabelo quase loiro. — Sabe como é a tradição, eu preciso estar impecável se for tentar me dar bem com alguma dama de honra hoje...

Aquilo bastou para que meu sorriso vacilasse um pouco. Pronto. O elefante branco tinha chegado mais cedo que eu pensava. Era isso mesmo que ele estava querendo insinuar? E eu queria ser sua dama?

Não ia negar, eu queria me divertir. Mas o meu instinto me alertou que isso entre nós estava indo rápido demais. Mesmo que não fosse nada sério, mesmo que eu tivesse certeza de que entre nós seria leve e sem dramas, algo me puxava para trás.

Com um suspiro, eu o olhei novamente. Riley era tão bonito, e sua presença me passava uma tranquilidade tão diferente da tensão que eu sempre sentia ao lado de... Edward.

Edward. Por que diabos ele tinha que estar no meio? Nunca foi assim antes. O que está havendo comigo, meu Deus?

Eu andava tão acostumada a pensar demais nas coisas que, de repente, não fazia mais sentido refletir profundamente sobre o assunto. Eu era atraída por Riley e ele por mim, obviamente. Era um cara legal. Isso devia bastar, como sempre bastou antes.

Me forcei a sorrir através da preocupação e me inclinei para sussurrar.

– Não conte pra ninguém, mas há chances de você se dar bem hoje...

Afastei-me, tremendo por dentro à espera de sua reação. Riley ficou sem piscar por uns instantes. Talvez eu tenha o deixado um pouquinho desnorteado, e minha confiança subiu um degrau.

– Bella... — ele falou e senti sua mão na minha. Todo o ar de divertimento tinha ido embora. — Você é linda.

– Obrigada? — agradeci em pergunta, pois o seu olhar pesado me dizia outra coisa.

– Mas eu não quero que você se sinta... pressionada. Eu só falei aquilo na brincadeira.

– Eu não me sinto pressionada, Riley. — bufei. — Por Deus, eu tenho 33 anos! Devo saber a diferença entre pressão e desejo, não acha?

– Eu acho que você está tendo uma decisão precipitada.

– Riley, eu não estou te entendendo. Há meses você vem me dando todos os sinais do mundo, claros e óbvios. E agora que eu correspondo você dá pra trás?

– Não fique chateada comigo, por favor. — ele pegou minha mão de novo. — Acho que antes a gente precisa conversar sobre o que aconteceu ontem.

– Certo, o que aconteceu ontem. A gente se beijou. Foi legal. — argumentei sendo bastante direta. — E agora eu quero te beijar mais um pouco e você não me deixa.

Ele se afastou de mim como se eu tivesse lhe dado um choque. Passou uma mão pelo rosto, e murmurou para si.

– Céus, isso vai ser mais difícil que eu pensava.

Sem entender nada, eu tomei um gole do meu drinque esperando não amarelar. Ser tão abertamente rejeitada podia ser um pouco desconcertante. Complicado. Tudo sempre complicado comigo.

Nós ouvimos o DJ anunciar a primeira dança do casal. Sem dizer nada, Riley pegou meu drinque e colocou sobre a bancada do bar, puxando-me pela mão até a pista. Nós assistimos a valsa do casal e em seguida chamaram os padrinhos e convidados para se juntarem.

Riley me guiou, mas minha cabeça estava em outro lugar, e os pés se embolaram algumas vezes. Eu o observei, tentando compreender o que tinha dado errado entre nós antes mesmo de começar. De repente me senti em uma festa de debutante, com aquela estúpida valsa e o cara por quem eu tinha uma queda me dispensando na frente dos meus amigos. Todo tempo sem parar de pensar se eu tinha ou não magoado o meu ex, como fazia desde ontem.

Era todo o drama adolescente que eu nunca tive oportunidade de viver, e era patético. Minha risada soou alta em meio a música, enquanto ele me rodava em três tempos.

– O que foi? — Riley perguntou com um sorriso travado. Eu queria chorar.

– Isso é ridículo. — falei olhando para baixo.

– O quê?

– É ridículo quanto controle eu perdi sobre a minha vida nas últimas 48 horas. Estou até com medo do que me espera nos próximos dias.

Ele sacudiu a cabeça, me trazendo pra perto.

– Ei. Não entra nessa. Você não perdeu nada. Na verdade eu acho que você ganhou.

– Ganhei? — perguntei confusa.

– Eu nunca te vi tão feliz quanto nas últimas semanas.

Não precisei refletir muito sobre aquilo. Era verdade. Eu estava muito mais leve, apesar de todos os acontecimentos. Só achei curioso como ele havia observado isso.

– Eu me sinto mais feliz. — assenti. — Aconteceu tanta coisa...

– Eu perguntaria o quê, mas acho que é melhor não saber.

Sorri em agradecimento.

– Eu queria poder te contar. Mas, sabe, Riley... De certa forma, você é parte disso também.

– Sou?

– Sim. Eu nunca estive tão satisfeita com minha carreira, e poder compartilhar esse momento logo com você é muito bom. Gosto muito de ter você por perto.

A música de repente mudou da valsa para um pop e nós paramos de dançar. Ele largou minha mão para segurar minha cintura e meus braços apoiaram em seus ombros. Não nos movemos por alguns segundos. Seria o momento ideal para que eu me inclinasse e o beijasse.

E foi o que eu fiz. Riley não me impediu, mas eu senti a relutância em seus lábios. Senti somente um beijo casto e mais um outro, até que ele se afastasse o suficiente para me encarar. Me assustei com seu semblante preocupado.

– O que eu sou pra você, Bella?

Eu molhei os lábios, pressentindo que qualquer que fosse minha resposta, nós não terminaríamos essa conversa bem.

– Você... você é um grande amigo. Se tornou uma pessoa muito importante pra mim.

Ele assentiu, murmurando com os lábios "grande amigo" e suspirou.

– Vamos conversar sobre ontem, ok?

Eu concordei, deixando que ele me levasse até o lounge do hotel, longe do barulho da festa. Nos sentamos lado a lado no sofá, e eu esperei que ele falasse brincando com o pano verde do meu longo vestido.

– Eu esqueci de perguntar. Você quer beber alguma coisa? Posso ir lá pegar.

– Não, tudo bem. — encontrei seu olhar.

– Você está muito linda hoje.

– Obrigada. — eu ri. — Você já me disse isso, mas... não vou recusar elogio.

Riley sorriu até ficar sério novamente.

– Eu não quero fingir que nada aconteceu... E nem quero fingir que nós não temos uma sintonia legal, e que nos damos bem.

– Eu também não quero.

– Eu gosto muito de você, Bella. E é por isso mesmo que não quero sair mal dessa história. Não quero fazer você me magoar.

– Riley, eu nunca te magoaria. Não de propósito.

– Eu sei que não. Mas você vai.

O quê?

– Se você for me acusar assim, então eu tenho direito de defesa. — falei realmente sentida. — Se me comprometo com alguém, é totalmente. E a gente nem tentou ainda pra saber se daria certo ou não.

– Não estou acusando, estou só querendo dizer que... A gente não pode dar certo, Bella. Não é comigo que você quer estar.

– Não é com você? — inquiri, sentindo meu peito acelerar.

– Eu vi o seu rosto quando Edward entrou naquela sala.

Engoli em seco, desviando dele por um momento.

– O que está dizendo? — murmurei.

– Sabe, Bella, eu aprendi algumas coisas na vida. Poderia tentar ir atrás de você, te conquistar, e te vencer pelo cansaço. Você iria ficar caidinha por mim, é claro, porque meu charme é irresistível. — ele falou com um curto sorriso. — A gente iria começar a namorar, e seria legal no início. Mas depois... Você não iria se apaixonar por mim como eu estaria me apaixonando por você. E aí, o que eu iria fazer com uma mulher que só estaria ao meu lado de corpo presente, quando a cabeça e o coração estariam tão longe? Não ia adiantar nada. Só ia me decepcionar e te odiar. E eu não quero isso, não quero isso pra você também, com qualquer outro cara.

Eu o encarei, incrédula. Não sabia se me sentia ultrajada ou surpresa pela sua sinceridade tão aberta. Talvez os dois.

– Meu coração estaria longe? Que coisa absurda. De onde você tirou essa agora?

– Eu observo todas as vezes que você está com ele. Tem alguma coisa muito forte ali. E a forma como vocês se olham... Não é nem um terço do que você me daria, tenho certeza.

Dessa vez eu me levantei do sofá, pois não conseguiria ficar ao lado dele sem voar em cima.

– Eu não acredito que você está fazendo um julgamento bastante errado, diga-se de passagem, baseado na forma como eu olho pra Edward. Isso aqui é vida real, não é a porra de um livro do Nicholas Sparks!

– Bella, calma, senta aqui.

– Não quero sentar! Não quero nem mais ter essa conversa. Você conseguiu me humilhar totalmente em menos de uma hora. Parabéns!

– Eu te humilhei? Você não acha que eu já estou humilhado o bastante depois de ter falado tudo isso? De ter aberto mão da mulher mais interessante que eu encontrei nos últimos anos? Acho que já garanti minha vaga no céu, muito obrigado.

Eu o olhei pelo reflexo do enorme espelho e não consegui ficar com raiva dos seus olhos castanhos sinceros. Meu coração amoleceu um pouco e eu voltei para o seu lado. Sentia lágrimas inconformadas arderem meus olhos.

– Desculpa me exaltar. Mas me diz, o que estamos fazendo aqui? — perguntei, sentindo uma frustração que só aumentava a cada minuto. — Se não foi pra conversar sobre nós dois, foi pra quê então?

– Foi pra te dizer que eu vou agir como um homem e deixar o caminho livre. Você já é de outro.

Meu corpo retesou ao ouvir aquilo. Bom, essa era inédita. Jamais nenhum de meus namorados, pretendentes ou possíveis amantes havia dito algo assim. Como alguém responderia a isso? Eu era livre. O assunto que havia sido um fardo por anos ficou no passado. Eu poderia continuar sozinha pelo resto da vida, e agora estava convicta de que seria feliz assim. Mas não conseguia entender por quê minhas atitudes não demonstravam isso.

– Eu não sou de ninguém, Riley. — sacudi a cabeça com força. — Eu sou livre.

– Tem certeza?

O alarme começou a soar dentro da minha cabeça. Será que eu estava me envolvendo demais com Edward? Será que não deveria ter insistido tanto em manter nossa amizade? Riley estava conseguindo enxergar algo que eu não me permitia ver. Muito menos entender.

– Lógico que sim. Não tenho mais nada me prendendo ao passado... — Essa era a plena verdade, e eu a sentia com convicção. Não tinha dúvidas que nós havíamos evoluído muito nesses últimos meses.

– Tudo bem... Seja lá qual for essa lógica feminina que eu não entendo... O que quero dizer é que, pelo menos nesse momento, você não parece pronta pra ficar com alguém. Pode não ser por conta do passado, mas pelo que está acontecendo hoje, entende?

– Quem disse? Você não sabe o que eu sinto. Não fala essas coisas, senão eu vou achar que você está jogando sujo comigo.

– Bella, você é inteligente e sabe que não é essa minha intenção.

– Eu não sei, Riley! Que merda! — praticamente berrei. E choraminguei como uma criança, porque era o que me restava. — Me diz o que está errado! Eu achei que estava tudo se encaixando pra mim, no meu trabalho, nas minhas relações, na minha história. Mas aí... Não sei o que deu errado.

Para completar meu personagem no drama adolescente, o choro veio no embalo ao terminar de falar. Por alguns instantes era só o que se ouvia naquela antesala com cheiro de lavanda barata.

Eu estava toda bagunçada, mas não me importei. Como poderia? Ter que ouvir aquilo a essa altura, de repente me obrigando a repensar coisas que eu havia lutado tanto para deixar debaixo do tapete. A pressão no meu peito aumentava à medida que percebia como todos os caminhos que pretendia trilhar daqui pra frente já pareciam errados, e vinha o medo de que eu deveria recomeçar do zero.

– Estou tão perdida. Não sei... Não sei. — falei entre soluços e senti os braços do meu amigo me envolvendo.

– Posso te dizer uma coisa?

– Pode.

– Não sei como é o relacionamento de vocês fora do trabalho, mas pra mim está bem claro. Ele voltou pra sua vida e você está mexida. Não é fácil mesmo.

Sim. Ele voltou para a minha vida. E tinha voltado de vez. O pânico começou a alastrar enquanto me dava conta da grandiosidade desse fato, como nunca antes. Me desgrudei de Riley e tentei me recompor, respirando fundo para manter o controle.

– O problema é que... — falei fungando o nariz, e vomitando as palavras que nunca deviam ter saído. — Eu estou apavorada porque está ficando cada vez mais difícil manter distância. Eu só quero mais e mais. E eu não posso, entende?

– É o que estou tentando dizer desde o início. — ele concordou. — Foi o que eu presenciei. Mas se eu fosse você, Bella... Apesar de tudo, seja lá o que te impeça, eu daria um jeito.

– Não tem jeito que possa dar. É tudo diferente agora.

– Conheci vocês quando ainda eram casados. Te garanto, parece que não passou nem um dia. Mas... Siga sua consciência. Eu só quero você feliz.

Era um discurso tão bonito na teoria. Eu rezei para que fosse fácil como ele fazia parecer enquanto secava minhas lágrimas com as mãos. Riley sorria complacente para mim. Inclinei-me no sofá e beijei sua boca suavamente mais uma vez — a última -, para depois deixar um beijo em sua bochecha. E o abracei apertado, como deveria.

– Me desculpe. Eu não sei o que está havendo comigo. Você não merece nada dessa minha bagunça, nada. Desculpe mesmo por tudo. Pareço uma histérica... Não sou assim, estou morrendo de vergonha.

– Não se envergonhe. E não precisa se desculpar, eu já passei por coisa muito pior. — ele ajudou a secar uma última lágrima que escapava. — Você está bem pra voltar pra festa ou prefere ir embora? Posso te levar em casa.

Eu lhe sorri. Riley merecia um troféu. Que outro homem teria tanta paciência?

– Não, tudo bem. — levantei-me e respirei fundo. — Vou até o banheiro me ajeitar. Daqui a pouco eu volto. Obrigada.

– Fique bem. — ele beijou minha testa e voltou para o salão, me deixando ali sozinha com meus medos e pensamentos emaranhados.

Eu não queria admitir que o resto da minha noite foi arruinado depois disso, porém... Foi bem, ao menos em partes.

Depois de tomar um ar e enxugar meu rosto, eu consegui voltar ao salão. Dancei com meus amigos, comi o jantar delicioso e bebi os drinks mais doces do bar, com o frívolo intuito de me libertar das preocupações. Meus momentos de euforia duravam pouco, intercalados por um sentimento de ansiedade e tristeza que eu não sabia explicar.

Volta e meia minha cabeça tornava a pensar demais em tudo o que Riley e eu conversamos. Piorava à medida que a bebida subia, e em certo ponto quase quis bater no idiota por ter me feito perder um dia que eu havia esperado tanto. Será que ele não podia ter me poupado, justo em dia de festa? Será que seria esforço demais sucumbir e dormir comigo só por uma noite, mesmo que não significasse nada amanhã? Riley era um homem. Homens deveriam estar acostumados a fazer isso, não é?

Quando comecei a pensar besteiras demais enquanto dançava Beyoncé e Shakira descalça ao lado de uma garotinha na pista, achei melhor parar antes de jogar fora o resto de dignidade que eu tinha. Juntei minhas coisas, me despedi do casal e dos amigos e parti. Riley me avistou enquanto eu saía e pegou meu braço.

Relutei, com raiva, mas ele só me soltou ao me pôr dentro de um taxi. No fim das contas, eu concluí que ele só queria o meu bem, sendo tão gentil comigo mesmo depois de eu ter ludibriado-o tanto. Chorei de agradecimento no caminho para casa, baixinho para o taxista não reparar. Mas obviamente aquele drink rosa tinha feito alguma coisa em mim além de deixar gosto de xarope na minha boca, e eu sabia que estava sendo patética.

Cheguei em casa dentro da madrugada, e sem conseguir parar de chorar, me deitei no sofá. Adormeci quase instantaneamente enquanto um último pensamento lúcido me veio: o que eu iria fazer para parar de pensar em Edward?

xxxx

Sempre acreditei que a pior parte do dia para quem tinha problemas era a noite. Só que dessa vez, minha angústia foi aumentando enquanto o sol ainda brilhava, dia após dia. A angústia da espera.

Não tive nenhum sinal de Edward durante aquela semana. Era como se tivéssemos voltado seis meses no tempo, quando apenas sabíamos da existência um do outro e nada mais. E, para ser sincera, mal conseguia me lembrar o que acontecia seis meses atrás.

Eu esperei por quatro dias, sentada ao lado do telefone na minha mesa de trabalho; celular em mãos.

Ele não apareceu para me levar a um novo restaurante na hora do almoço, não mandou nenhuma mensagem besta no meio do dia para me fazer rir. Não ligou para perguntar qualquer coisa sobre tarefas domésticas — o que já tinha feito algumas vezes — e nem mesmo para me pentelhar quando aquela bendita banda que ele me fez gostar passou na TV a noite.

Eu já estava apreensiva com essa ausência. A falta de notícias, o sentimento de que ele não iria mais me procurar... Era pouco para o que já havia sofrido com Edward, mas aquela sensação conhecida retornava, mesmo branda.

Era esse nosso fim, então? Um beijo que ele viu, e tudo que construímos tinha desandado para sempre? Eu não me conformava. Ainda mais sem poder saber o que ele estava pensando para agir assim.

Respirei fundo. Minha tendência para ser exagerada me fazia pensar coisas mirabolantes, e eu sabia que precisava controlá-la. Edward devia estar tendo uma semana ocupada, só isso. No dia seguinte tínhamos uma reunião no hotel, e provavelmente ele estaria lá, então isso me acalmou um pouco.

Enquanto assistia o show deitada na cama, antes de dormir, meus dedos não paravam de brincar com meu celular. Eu não iria ligar, não mesmo. Mas mesmo sabendo que já era tarde, ainda tinha esperanças que sua televisão estivesse ligada no mesmo canal, e a qualquer momento ele telefonaria para me mandar assistir.

O sono estava quase me vencendo quando senti o celular vibrando.

Pulei na cama, assim como meu fez meu coração, ao pateticamente pular na minha boca. Olhei o visor para comprovar — era ele. Sentei-me, respirei, limpei a garganta e atendi.

– Alô?

Mas não ouvi nada de volta. Por segundos, ouvi apenas o barulho da televisão ao fundo, um pouco alta. Um calafrio percorreu meu corpo. Mas que merda é essa?

– Edward, fala comigo. Está tudo bem aí?

Foi tão rápido. O telefone ficou mudo de repente, e eu percebi que a ligação havia encerrado. Continuei olhando para a tela por mais tempo do que deveria.

Edward desligou na minha cara. Isso definitivamente não era de seu feitio. Me perguntei se ele estava com Tanya... Ou se talvez a própria Tanya tivesse pegado seu celular e ligado. Vai saber? Mulheres ciumentas faziam de tudo.

Quando me acalmei, decidi telefonar de volta. Mas agora a ligação caía direto para a caixa postal. Eu tentei não me assustar mais ainda com minhas hipóteses, e não telefonei novamente. Ao invés disso, enviei a mensagem "O que está acontecendo?".

E dormi com aquela pergunta que não fazia ideia de quando seria respondida.

xxxx

Na manhã de quinta-feira, eu levava Claire para a escola, antes de ir direto para a reunião do livro, no Le Printemps. Nós estávamos batendo papo no carro quando eu decidi perguntar.

– Claire, você... tem falado com seu pai?

– Aham.

– Quando foi a última vez?

– Ontem à tarde, na hora do almoço. Por quê?

Ontem. Então o problema era mesmo eu, e não sua falta de tempo.

– Ah, nada... É que ele ligou pra cá quando você estava no ensaio. — inventei para despistar.

– Mas ele podia ter ligado pro meu celular. — ela respondeu confusa. — Não lembro de ter tido nenhuma chamada naquele dia.

– Ah, sei lá, Claire. Você sabe como seu pai é, né?

Ela ficou quieta por uns instantes para bocejar e então disparou.

– Falando nisso... O que houve entre vocês?

A ansiedade tomou conta e eu senti minha orelha queimar. Do que ela poderia estar falando?

– Como assim o que houve? — perguntei, a voz mais branda possível.

– Fim de semana passado eu fui contar pra ele a história de quando a nossa cozinha inundou, e recebi a maior cortada.

Interessante. Nem sabia o por quê, mas era.

– O que ele falou?

– Que não queria falar sobre isso... Que não queria saber de fofoca sobre você. O que, convenhamos, é uma novidade. Então... vocês brigaram de novo, né?

– Não, a gente não brigou. Claro que não. — rolei os olhos para enfatizar. — Nem daria, porque eu não vejo Edward desde...

– Desde o seu aniversário na casa da tia Ali.

– É. Isso. — engoli para amenizar minha garganta seca. Já disse que eu odeio mentir para minha filha?

– Ele está meio estranho essa semana... Parecia triste. Fiquei preocupada.

– Talvez ele tenha brigado com aquela moça?

– Tanya? Pode ser. — vi Claire colocando um pé no assento e mexer no tênis. — Mas eles já brigaram outras vezes e não foi assim.

– Eles brigam muito? — perguntei, antes de liberar uma mão do volante para chamar sua atenção. — E faz o favor de tirar esse tênis sujo do banco?

– É de couro, não suja fácil, vai. — ela resmungou, mas se ajeitou. — Eles não brigam tanto. Não que eu saiba. Acho que até estão bem... O papai parece muito mais alegre ultimamente.

Nós chegamos na calçada do colégio e eu parei o carro.

– Sério? Que bom. Bom pra ele.

– É. Tipo como você...

– O que tem eu? — indaguei virando para encará-la.

– Você está mais alegre também. — ela sorriu timidamente e inclinou-se para me beijar antes de abrir a porta. — Espero que continue assim. Eu te amo, mas você sabe ser bem chata de vez em quando.

– E você sabe ser bem delicada... como um elefante. — zombei e ela mostrou a língua ao sair. — Vai logo, garotinha.

Desejei bom dia para minha filha e rezei para que o meu fosse assim também. Mas eu sabia que seria uma longa camihada até conseguir isso.

Minha apreensão só aumentou depois da reunião, porque obviamente Edward não deu as caras, nem um recado explicando a ausência. Isso já estava beirando o absurdo. E minha paciência ficava escassa conforme mais um dia chegava ao fim.

Foi assim que eu decidi fazer algo que jamais me imaginaria fazendo. Se me perguntassem a respeito, diria que estavam todos loucos.

Eu fui atrás dele. Pessoalmente saber o que estava acontecendo.

Saí meia hora mais cedo da redação, para evitar trânsito e parei próximo ao seu prédio, na esquina. Tentei observar o movimento daquela calçada o mais sigilosamente possível — mesmo que o sol ainda não tivesse se posto e todos pudessem me ver.

Não demorou muito até que eu o avistasse, ao longe. Ele andava rápido, então eu teria que ser rápida também. Saltei do carro só levando minha chave e fui em sua direção. Somente depois de alguns segundos Edward pareceu me enxergar entre todas as pessoas, e o que vi me magoou mais do que eu podia pensar.

Ele parou de repente, e virou-se. Não podia acreditar que ele estava mesmo atravessando a porra da rua para me evitar. Como duas crianças brincando de pique-pega, eu corri até conseguir alcançá-lo. Quando finalmente estava perto o bastante, não me controlei.

– Para de fugir, Edward, eu já te vi! — gritei, assustando alguns transeuntes.

Aquilo o fez parar seu caminhar apressado. Ele só girou um pouco o corpo, nem mesmo para me encarar de frente. Eu que precisei ir até lá.

– O que você quer, Bella?

– Por que essa atitude agora? Por que você tá me tratando feito uma desconhecida qualquer, uma inimiga? O que foi que eu te fiz?

– Não fez nada. Nada é culpa sua. Eu já disse milhões de vezes.

– Que merda é essa agora? — inquiri. Ele me fitou por um longo tempo antes de me puxar pelo braço. — Ei! Pra onde está indo?

– Pra um lugar menos óbvio que a fachada do meu condomínio.

Fui carregada até a lateral de um prédio na rua menos movimentada dali. Escondido de todos, para que ele pudesse me humilhar a vontade. Que maravilha.

– Vai. Fala! — demandei. Edward deixou sua pasta no chão e me olhou, respirando pesadamente várias vezes. Meu coração ia implodir a qualquer momento.

– Não tá dando mais pra mim, ok? — falou, enfim.

– O quê?

– Isso entre nós... Não quero mais fingir que consigo ser só seu amigo. Isso tem que ser um adeus, Bella.

Minha indignação não podia ser contida.

– Então é isso, um adeus. Você esperou por 8 anos que eu olhasse direito pra sua cara e agora vai me evitar sempre que me vir na rua? É esse nosso fim?

– Você sabe todos os meus motivos por ter esperado esse tempo todo. Mas agora, por favor, eu te imploro, fique longe de mim. Não me procure mais. Esqueça que um dia tentamos ser amigos... Pelo seu bem.

Pelo meu bem? Eu me recuso a aceitar essa lógica imatura de novo, Edward. Eu não quero ficar longe de você! Não agora que já chegamos tão longe. Por que eu sequer deveria?

Ele se afastou, nervosamente mexendo nos cabelos com uma mão.

– Eu te avisei, estava ficando cada vez mais difícil. Então é isso, meu limite chegou. Eu nem sei como eu pude ser idiota o bastante pra achar que conseguiria estar na sua vida desse jeito.

Eu não estava ouvindo isso. Não estava.

– Você me prometeu que iria dar certo... Você nem ia me avisar que não somos mais amigos. Como pôde?

– Eu te garanto que você não está me odiando mais do que eu mesmo nesse momento.

– Isso é por causa do beijo? — perguntei, enfim. Mas ele riu com uma ironia que eu repudiava.

– Você realmente não sabe a resposta, Bella? Ou finge que não sabe?

– Para de joguinho! Me diz logo, como a porra do homem que você é!

Ao invés de intimidá-lo, o efeito foi contrário. Edward me encurralou na parede com uma ferocidade no olhar que eu não estava esperando.

– Sim, foi o beijo. Ver aquilo foi só a ponta do iceberg... — sacudiu a cabeça. — Como você não percebe?

– Perceber o quê? Me fala, anda!

– Você é tão orgulhosa. Quer ouvir por algum motivo sádico, mas você já sabe de tudo... Que ficar ao seu lado e saber que não importa o quanto eu te deseje, você nunca mais vai poder ser minha, e que isso é uma tortura. Que isso me mata, mas eu continuo voltando pra te ver. — Edward molhou os lábios e eu engoli em seco. Podia ouvir meu coração nos ouvidos, enquanto sua voz intensa dizia. — Faz ideia que eu preciso conviver com o fato que te perdi pra sempre? Faz ideia de como é terrível estar tão perto e não poder te tocar? E ainda ter que te ver com outro... Eu tenho limites. Por Deus, eu juro que tentei, Bella, mas se eu continuar assim eu tenho medo de enlouquecer, e definitivamente é o que eu menos preciso agora.

O impacto das suas palavras surtia seu efeito.

O calor que se espalhara pelo meu corpo com certeza chegara à minha face. Era um misto de raiva, revolta, e uma satisfação traiçoeira — nem eu sabia que meu ego precisava daquelas palavras. Ele só confirmou o que eu já sabia e a todo tempo tinha medo de crer.

Mas não importava. Porque nada daquilo fazia sentido quando Edward não tinha sequer direito de falar assim. Suas palavras diziam uma coisa e seus atos diziam outra. Minha cabeça não conseguia compreender.

Como ele podia me desejar tanto, e mesmo assim viver com outra mulher? Como eu podia acreditar que era um sentimento verdadeiro?

Eu não sabia o que responder, com tantas coisas que se passavam na minha cabeça naqueles segundos. Diante do meu silêncio, ele pediu novamente.

– Me deixa ir...

Eu respirei fundo e tentei arranjar o que falar. Respirei várias vezes. Segurei mais forte do que nunca em seu braço. A gente já tinha chegado até aqui, eu precisava dizer alguma coisa.

– Eu não quero. — foi só o que saiu.

– Por que não? Estou sofrendo, Bella. Não quero mais sentir isso. — ele sacudiu a cabeça lentamente, e passou um dedo sobre minha bochecha, limpando uma lágrima solta. — Me dê só uma boa razão.

– Eu não tenho uma razão melhor que essa... n-não quero mais sua ausência. Eu gosto de ter você por perto... Eu... nem sei porque. — desviei o olhar antes de desabar. — Merda, nem sei o que eu estou falando mais, olha o que você fez!

– Eu queria poder te dar isso, mas eu não posso. Não do jeito que você quer.

– De que outro jeito eu poderia ter, então...?

Eu tive um forte pressentimento de que estávamos chegando à beira de algo grande. Tive medo de ouvir sua resposta e dar de cara com algo maior do que poderia suportar, mas precisei esclarecer.

– Você sabe.

Você ser dele. A voz na minha consciência sussurrou, e eu fingi não ouvir.

– Não. Não pode ser assim!

– Se não for desse jeito, então o melhor pra nós dois é cada um seguir com sua vida, e fingir que o outro não existe.

– Porra, por que está fazendo isso comigo? Você vai me deixar maluca! — praticamente gritei. — Diz que não consegue deixar de me amar, e que me quer tanto... Mas nada muda. Você continua noivo. E agora quer fingir que eu não existo. Você está manipulando algo que não devia.

– Isso... — ele chegou incrivelmente perto. — Repete o que você disse.

– Para de palhaçada, Edward.

– Repete.

– Você está me deixando maluca porque não consegue agir de acordo com nada do que fala. Era isso que queria ouvir?

– Era. — ele assentiu, e sorriu. Como um louco, que estava querendo me dragar com sua loucura.

– O que você quer agora, Edward?

– Você tem noção do que está falando?

– Estou só argumentando com os fatos que você deve estar cansado de saber.

– Mais do que isso. — ele riu rispidamente. — Você está me dando uma brecha. Está dizendo que se eu não fosse noivo, a situação poderia ser diferente entre nós... não é?

– Vá a merda, Edward! — senti um sufoco, de repente, e então dei-lhe um empurrão. — Não me deixe mais confusa. A nossa história já é complicada o bastante e você só sabe complicar tudo ainda mais!

Eu me esquivei da sua redoma e saí andando. Porém sua mão me puxou de volta, como eu tinha feito outras vezes. As pessoas passando por aquela rua deviam estar adorando o show.

– Me solta. — pedi.

– Não posso deixar você escapar agora. E nem vou me desculpar. Eu preciso fazer isso. — falou com convicção, me deixando apavorada.

– Fazer o quê?

– Provar que a minha teoria está certa.

Uma hora ele estava ridiculamente perto, e na outra, ele estava sobre mim. Em mim, e ao meu redor, em toda parte. Uma mão segurando meu rosto e outra em minha cintura me capturando rente a seu corpo. Meu choque não foi tão grande com o ato em si, mas sim como ele o executava.

Sua boca não forçou-se sobre a minha, como eu fiz com ele há poucos meses e como eu esperava. Não, é claro que não. Afinal, ele sempre foi só um garoto idiota que fazia de tudo para me enlouquecer. A ternura com que seus lábios se moveram esperando minha resposta e a delicadeza firme de suas mãos não me deram escolhas.

Edward sempre me olhava como se eu fosse a mulher mais preciosa do seu mundo, e agora eu podia fisicamente sentir isso.

Segurei seu rosto porque meu corpo pedia por mais. Mais... Movi minha boca tentando me saciar dos seus lábios. Mais... Meus dedos entrelaçaram em seus cabelos. Mais... Minha língua fez contato com a sua.

Interrompe esse beijo agora, você está no meio da rua, qualquer um pode ver. Mas estava tão bom e eu não queria parar tão cedo. O que estava acontecendo comigo? Quando foi que perdi tanto o controle da minha vida e dos meus sentimentos? Eu deveria ser mais forte que isso. Mas era difícil ser forte quando as mãos e os lábios que te conheciam da forma mais íntima que qualquer outro te tratavam tão bem.

Eu queria parar, mas não conseguia. E por que logo agora, logo aqui? Não havia respostas. Eu nunca me senti tão perdida, e nesse momento eu não tinha a menor vontade de me encontrar.

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*Só um parênteses sobre o título...

perdição

s. f.

1. Ato de perder ou perder-se.
2. Desonra.
3. Imoralidade.
4. Vício.
5. Condenação eterna.
6. Pessoa ou coisa que desperta paixão irresistível em alguém.

Notas finais
Entrem no meu grupo do Facebook! - http://bit.ly/grupoFics
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Data certa pro próximo capítulo eu não sei, pois minha monografia tá tomando meu tempo. MAS, prometo não demorar mais 5 meses.
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Deixem reviews, suas impressões, coisa e tal... isso me motiva a escrever mais rápido! Enviarei um SPOILER a quem gentilmente comentar. Aliás, eu adoraria saber: qual é a sua perdição?
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Beijos!