Mais Uma Vez
24 Capítulo 23: Primeiros Passos
Notas iniciais
Capítulo 23: Primeiros Passos
Edward tinha uma festa fora da cidade para ir no sábado com sua noiva, e por isso Claire decidiu ficar em casa ao invés de passar o final de semana na casa do pai. Por isso no momento estávamos andando no Central Park, aproveitando o sol, numa manhã que havia prometido ser inocente.
Apenas prometido.
— Não sei pra que coloquei esse tênis de corrida. – Claire reclamou ao meu lado enquanto passávamos em frente a uma barraca de flores. – Eu sabia que a gente não ia mesmo correr. Estava muito bom pra ser verdade.
— Quem disse que não? A gente vai correr, só estamos nos aquecendo.
Sim, eu tinha tido a ideia de correr no parque. Ela riu da minha cara quando falei, mas me acompanhou. Aparentemente, Claire havia adquirido o hábito de correr aos sábados com Edward, então eu apenas quis testar uma nova atividade, em um dia que eu quase nunca tinha oportunidade de passar com ela.
— Mãe, já estamos há uma hora rondando essa porcaria de lago.
— Eu preciso ficar bem aquecida, ué. Sou iniciante. – respondi, já um pouco sem fôlego.
— O nome disso é sedentarismo – ela riu.
— Olha quem fala!
— Pelo menos eu faço aulas de educação física. Você tá ficando velha, hein. Tem que se cuidar. Quero você bem inteirona na minha foto de casamento.
Eu olhei para ela, achando que tinham colocado um ET no lugar da minha filha. Desde quando essa menina pensava em casamento?
— Olha você me chamando de velha! Sua pirralha, sua mãe não te deu educação não? – brinquei.
— Qual é, mãe? Você não lembra o que aconteceu da última vez que fomos pra academia?
— Acabamos o dia tomando milkshake e comendo bolo.
— Viu! Essa é a criação que você me deu! Cadê a disciplina?
— Mas era aniversário do seu pai, não tinha como escapar! – eu quase choraminguei. Ela sacudiu a cabeça, e começou a aumentar o passo até sair correndo.
— Vem, mãe! – gritou para mim.
— Espera, Claire.
— Vem! Deus ajuda quem cedo queima as gorduras! – a doida gritou, me deixando para trás.
Eu tentei correr com passos lentos – se é que isso seria possível –, mas minhas pernas ficaram rapidamente cansadas. Então segui no meu ritmo atrás de Claire, vendo o longo rabo de cavalo em seu cabelo balançar de um lado a outro lá longe. Volta e meia ela virava o rosto e implicava comigo, fazendo uma careta. Eu respondia à altura e as duas caíam na gargalhada.
E estava sendo divertido demais, até que começamos a chegar perto de um dos portões de entrada do parque.
Assim que virei a esquina de um arbusto, colidi em cheio com um vulto branco e pesado, que me fez cair no chão. Era a minha sorte. Tudo o que eu precisava no momento era dar, literalmente, de cara com Riley enquanto corria feito uma gazela manca e descabelada no parque.
— Meu Deus, Bella, me desculpe. – ele falou, me reconhecendo. Mas assim que olhamos para o outro, estouramos em risada. Era uma situação ridícula, os dois marmanjos caídos lá no meio do parque.
Quer dizer, rimos até nos ajudarmos a levantar e então lembrarmos da última vez que nos vimos. Os risos cessaram, e eu desviei meus olhos rapidamente para o chão, buscando algo que pudesse falar. Ainda sentia vergonha pelo não-beijo, mesmo que ele tivesse dito que entendia minha posição.
— Tudo bem. – falei, limpando discretamente a terra da minha bunda.
— Então...
— Está tudo bem com você?
— Aham. E você?
— Tudo indo.
— Certo.
Eu bufei.
— Olha, Riley. Me desculpe. Isso aqui está... está muito desconfortável. Eu não queria que as coisas ficassem assim entre a gente.
— Bella, eu que deveria te pedir desculpas.
— É, mas... Fui eu que fiz as coisas se tornarem complicadas. Me desculpa se te deixei constrangido com toda aquela coisa do beijo...
— Bella. – ele deu um passo inesperado a frente e segurou meus ombros. Eu me retraí por impulso, mas logo relaxei. De alguma forma, seu toque me deixou mais tranquilizada. Seu sorriso amigável era sempre bem-vindo para minha mente. – Não tem problema, é sério. Eu já estou bem grandinho, sei muito bem lidar com a rejeição. Já tomei tantos foras na minha vida, que já estou craque nisso.
— Não fala assim. Eu não te rejeitei. É só que... Não é o melhor momento, entende?
— Entendo. – ele assentiu e sorriu, se afastando. – Fique tranquila. Relaxe. Se está tudo bem pra mim, então pode ficar tudo bem pra você também.
Eu peguei em sua mão e apertei, oferecendo-lhe um sorriso.
— Obrigada.
— Mãe? – ouvi e vi Claire vindo em nossa direção. Ela olhou entre nós dois e a minha mão, que sem perceber ainda estava segurando a dele. Eu rapidamente a soltei.
— Encontrei com Riley aqui, paramos pra conversar. – expliquei.
— Foi um encontrão, literalmente. – ele riu e virou-se para ela. – Oi, Claire.
— Oi. – ela acenou, do jeito meio envergonhado que às vezes ainda tinha em certas ocasiões. – Mãe, já corri meus trezentos metros do dia... Podemos ir tomar aquele café que você prometeu?
— Claro, filha. Quer acompanhar a gente, Riley?
— Eu adoraria, mas tenho que pegar meu cachorro no petshop. Estava só dando uma volta esperando a tosa terminar.
— Tudo bem então. – falei, envolvendo um braço ao redor dos ombros de Claire e seguindo meu curso. – A gente se fala! Eu te ligo pra marcamos nossa reunião da semana.
— Até mais! – ele acenou e nós o perdemos de vista após a curva de arbustos.
A primeira coisa que minha filha resolveu perguntar quando estávamos a uma boa distância quase me fez tropeçar e cair de bunda no chão novamente.
— Você está saindo com ele?
— Claro que não. – eu ri sem graça.
Nunca tinha tido problemas em contar a Claire que estava saindo com alguém, ou gostando de um homem novo, mas por algum motivo dessa vez eu me sentia estranha em falar sobre o assunto com ela. Certamente um reflexo de tudo o que eu estava vivendo nesse período louco da minha vida.
— Tem certeza?
— Absoluta. Por quê?
— Bom, porque... Ai, mãe, você sabe, né.
— Não sei não. O que você quer dizer?
— Poxa, o cara está louco por você. E você também parece meio a fim dele.
— Eu? Não, Claire, a gente não tá saindo. Eu prometo. Ele é só muito amigo, nada mais que isso.
Ela me deu um olhar de avalição antes de rolar os olhos.
— Então tá. Se você diz... – suspirou. – Vem, vamos logo pra essa padaria. Tem um monstro acordando no meu estômago.
A segunda-feira chegou mais rápido do que eu gostaria.
Minha reunião com Riley ao fim do expediente foi agradável, e parecia que tudo tinha voltado ao normal. A pré-produção do livro estava chegando ao meio, e em breve teríamos que começar a trabalhar na redação dele.
Eu estava tendo uma boa semana, até que a quinta-feira chegou e voltei a me comportar da mesma forma como na semana passada: completamente ansiosa para o encontro marcado que teria com Edward no final do dia.
Minha desculpa para chegar mais tarde em casa tinha sido a de mais reuniões com Riley. Claire sequer duvidou, mesmo que tenha reclamado um pouco quando eu disse.
Dessa vez, eu tinha chegado antes dele.
Sentei-me na mesma mesa, acompanhada de um café forte e fiquei a olhar a porta de entrada cada vez que ela abria. Ele entrou no Joe's um pouco antes de 18h30. Assim que me viu, foi em minha direção.
— Droga, estou super atrasado, não é? – falou meio esbaforido, jogando sua pasta na cadeira vazia e sentando-se.
— Tudo bem, não estou com pressa.
— Mas eu estou, Bella. – respondeu enquanto tirava seu paletó, erguendo as mangas.
— Está?
— Você tem que saber que sempre quando o assunto for esse... Eu tenho pressa. Não consigo evitar. Tenho muito a dizer.
— Eu também. – assenti minha compreensão.
Edward chamou a sra. Moore e pediu o jantar do dia. Ele me lançou um olhar constrangido.
— Estou morrendo de fome e não vou ter como jantar em casa hoje. Se não se importa...
— Claro que não. Estava quase pedindo também. Mas acho que vou esperar pra comer em casa, deixei um frango pronto. Isso se Claire não devorou tudo.
— Frango ao curry, né? Ela disse que estava ótimo.
— Você falou com ela hoje?
— Aham... Por quê?
— Ela reclamou outro dia que não tem conseguido falar muito com você durante a semana. Mas que bom que finalmente achou tempo na sua agenda. – eu tentei não soar como uma acusação, mas foi difícil.
— Eu sei... – ele suspirou, parecendo culpado. – Andei trabalhando muito nos últimos meses, super estressado...
— E isso é desculpa?
— Não é desculpa. Fiquei antissocial, mas ela não devia pagar por isso. Pisei na bola mesmo.
Eu concordei com a cabeça.
— Pisou.
— Acredite, estou disposto a remediar isso. Quero passar mais tempo com Claire. O quanto eu puder, e o quanto ela quiser. Depois do susto com a minha sobrinha, e tudo o que estamos conversando aqui... Foi uma sacudida pra eu acordar.
Eu o encarei, vendo a sinceridade em seu rosto. Edward nunca tinha sido um pai ruim, pelo contrário. Porém Claire sentia sua falta todos os dias, e sempre expressou a vontade de conviver mais com ele. Era bom saber que ele percebia e tentava melhorar nesse aspecto.
— Que bom. Você só tem a ganhar passando mais tempo com ela. É uma menina incrível.
— Não é mais do que minha obrigação, né? Mas não mais quero perder o crescimento dela, de verdade. Quero consertar isso. Estou focado em consertar os meus erros, em todos os aspectos da minha vida.
Fomos interrompidos pela garçonete trazendo sua comida. Edward me ofereceu uma prova, mas eu neguei gentilmente.
— Bom... – respirei fundo, pronta para iniciarmos de fato a conversa principal.
— O que você tem em mente hoje?
O que eu tinha em mente hoje? Obviamente tantas coisas. Mas após a semana passada e meu desabafo sobre o que eu havia compreendido sobre mim mesma, achei que estava na hora de compreender mais sobre Edward. E não era fácil.
Admitir que tinha curiosidade sobre sua vida, sobre tudo aquilo que perdi esses anos todos era mais difícil que eu imaginava. Passei tantos anos me acostumando a evitar qualquer tipo de notícias sobre ele, mantendo nosso contato o mínimo possível, e agora precisaria tomar consciência dessa curiosidade que sempre existiu.
Então resolvi começar do início. Aquilo que me fascinou e ao mesmo tempo intrigou desde que soube da existência.
— Eu estava pensando... Sobre a sua terapia. Digo, sobre a sua doença...
— Transtorno. – ele me corrigiu. – É um transtorno, não é uma doença.
— Certo. Desculpe. – falei, engolindo o café. – Edward, é que... pra mim é muito difícil aceitar isso como um motivo principal pra... tudo que aconteceu. Não consegui ainda compreender como isso poderia fazer você agir de uma forma tão...
— Imbecil. – ele completou pra mim. – Pode dizer.
Eu sacudi a cabeça.
— Não. Não quero que esse papo se torne uma sessão de insultos. Isso só acaba sugando minhas energias.
Ele abaixou os talheres para olhar para mim.
— Bella, se você me permitir, eu gostaria de te informar um pouco mais sobre o que eu tenho.
— Por favor. – assenti. – Alice já tinha me aconselhado a fazer isso. Buscar saber. Quero ouvir.
— Que bom. – ele sorriu. – Obrigado por querer saber. Isso é parte de mim... Obrigado por estar interessada.
— É pro meu próprio progresso também. – dei de ombros.
Ele assentiu, e então começou a me mostrar uma parte do seu mundo que poucos tinham acesso – sua mente.
Ele explicou sobre o que sentia quando tinha crises, e quais eram os fundamentos delas. Falou de como seu histórico familiar poderia ter influenciado no surgimento do transtorno, e como sua própria história de vida na infância tinha sido crucial pra isso.
Me surpreendi quando ele disse que muitas vezes não havia qualquer motivo, apenas o medo irracional de coisas que não ofereciam nenhum perigo real.
— No primeiro ano da terapia, eu tive crises fortes no meio da rua. Você não tem ideia do que é estar tentando pagar uma conta no banco e de repente achar que perdeu o controle de si mesmo, fazer uma besteira, ou que pode morrer a qualquer instante.
O seu olhar desamparado mexia em minha compaixão, me fazendo sentir realmente mal pelo seu sofrimento.
— Eu não sabia que era assim tão forte... Soa terrível. – falei suavemente.
— E é. Além de ser um constrangimento, porque as pessoas começam a te olhar como um maluco. Eu tive que aprender a lidar e a conviver com o pânico, e mesmo assim um dos sintomas é sempre o medo de ter uma crise novamente. Isso pode acabar gerando novas crises e picos de ansiedade, é um ciclo vicioso.
— E depois que você começou a terapia, como conseguiu lidar com essas crises?
— Com remédios e exercícios de controle que Stefan me ensinou. Também passei a correr, me exercitar e ter uma vida mais saudável como um todo. E comecei a escrever... pra desabafar.
— Então aquelas cartas... – deduzi, lembrando-me do momento exato que comecei a ler as cartas jamais entregues a mim. O baque ainda era forte.
— Sim, aquele caderno que você achou na festa tinha um pouco disso. Era uma coisa que já fazia antes, mas comecei a escrever com mais frequência. Eu sempre achava que teria coragem de te enviá-las, só que nunca consegui.
Eu balancei a cabeça para me livrar da lembrança daquele dia na casa dos Cullen em que eu perdera o meu controle meticulosamente construído por anos ao redor de Edward. Talvez o momento mais surreal da minha vida, e que para mim ficaria guardado como um episódio de uma realidade paralela.
— Como funcionam os remédios? – perguntei para desviar o foco. – Ainda toma?
— Sim. Fiquei muito tempo tomando antidepressivos, até que meu psiquiatra decidiu que eu poderia parar ano passado. Hoje em dia só tomo um ansiolítico pra ansiedade.
— E quando esse tratamento termina?
— Teoricamente, nunca.
— Nunca?
— A terapia, os remédios, os exercícios... Tudo isso trabalha em conjunto. Eu não posso e nem quero correr o risco de ficar sem. Hoje em dia eu estou na menor dose possível do ansiolítico, e vou ao terapeuta só uma vez por semana. Estou bem monitorado e sob controle, há quase um ano não tenho uma crise forte. Mas uma cura total é quase impossível.
— E você não tem nem vontade de parar?
— Às vezes, sim... Dá vontade de ver como meu cérebro reagiria, se eu ainda seria a mesma pessoa... Mas, Bella, é como um diabético ficar sem insulina. Ele pode tentar controlar sozinho, mas uma hora vai dar merda.
Eu podia sentir sua impotência diante de algo maior que ele. Devia mesmo ser desolador não ter como controlar suas emoções. Aos poucos, o que ele me contava começava a fazer mais sentido para mim. Porém novas dúvidas surgiam.
— Edward, quando a gente ainda vivia junto... Você chegou a ter alguma crise?
— Sim, sempre que Anthony reaparecia. Mas era bem menos intenso das que vim a ter mais tarde, e na época achava que era apenas nervosismo comum. E eu conseguia disfarçar bem.
— Como?
— Me trancava no banheiro ou ia pra rua... Só ficava chorando e pensando sobre o que podia dar errado enquanto Anthony estivesse por perto da minha família.
Eu pensei sobre aquilo, recordando de alguns desses momentos confusos.
— Nessas horas eu pensava que você só queria um tempo sozinho, e não que estivesse sofrendo assim...
— Eu queria um tempo sozinho, sim. Mas antes de tudo, eu nunca quis que você me visse chorando. – confessou seu constrangimento em voz baixa. – Não gostava que ninguém me visse chorando, porque isso significaria que eu tinha fraquejado, e que meu pai teria vencido e conseguido me deixar mal.
— Sim, eu lembro que sentia você bastante abalado. Só que você nunca queria conversar sobre seu pai, e sinceramente me deixa furiosa saber que eu poderia ter ajudado nisso, mas você nunca permitiu.
— Doía muito. Bella... Pense no que você passou. – seus olhos imploraram que eu acompanhasse sua lógica – Pense na forma como você evitou o assunto durante anos. Era assim pra mim, exatamente. Eu sabia que se eu confrontasse a mim mesmo eu iria sair muito machucado. E eu nunca quis enfrentar essa dor.
Nem precisei refletir muito, pois o sentimento de fuga eu conhecia de cor. Sabia exatamente do que ele falava.
— Fugir acabou sendo nossa maior maldição, não? – disse quase sem pensar. – Fugimos de formas diferentes, e cada um teve sua consequência.
A tristeza daquela conclusão quis me arrematar, mas eu não deixei. Nós trocamos um olhar desconfortável, e então prossegui perguntando quando ele passou a ter crises mais intensas de pânico.
— Foi nos últimos dois anos do nosso casamento, você lembra? – ele respondeu. – Eu não conseguia entrar na Escola de Medicina, não conseguia mais emprego e o dinheiro estava curto... Isso tudo me levou a um estado de vulnerabilidade e ansiedade muito grande que eu não conseguia lidar.
— Você ficou mesmo muito mexido por ter ido mal naquelas provas, não é?
Ele assentiu.
— Muito. Acho que foi o que me sugou pra depressão. E daí foi um pulo pra que o pânico explodisse...
— Como era a depressão? Eu já ouvi dizer que pra cada pessoa é diferente.
Ele pausou um pouco antes de formular sua resposta.
— Você lembra daquela briga que a gente teve depois que nossa luz foi cortada? Provavelmente a maior das nossas vidas.
— Claro que lembro. Eu tinha acabado de descobrir que você só estava ficando em casa no horário de expediente porque tinha perdido o emprego há quatro meses, e tinha desistido de estudar e não me contou nada. Eu nunca fiquei tão furiosa.
— E aí uma hora você me perguntou o que eu estava pensando da vida pra agir daquela forma. Lembra o que respondi?
— Lembro... – engoli em seco. – Que você simplesmente não queria estar naquela posição. Que desejava que sua vida fosse diferente. Foi um choque ouvir aquilo.
— Então. Isso foi fruto da depressão. Eu já queria fugir das obrigações e do que eu gostava de fazer, e o meu estado emocional só ajudou. Negligenciar tarefas domésticas, ficar no sofá quando deveria estar no trabalho, sair com amigos no meio da semana...
— Eu achava que essas coisas eram só irresponsabilidade e falta de vontade sua.
— E eram. Mas também, em grande parte, eram a minha forma de tentar me esconder de uma realidade que estava saindo do meu controle. Eu não queria existir.
As memórias dos exemplos que ele havia dado começaram a vir nítidas. Momentos que deviam ter servido de alerta para mim.
Quando eu o pegava em casa jogando videogame com Claire vestindo o mesmo pijama há uma semana, ele dizia que tinha sido liberado mais cedo. Quando aparecia em casa à meia-noite cheirando a cerveja e cigarros eu, com medo da resposta, não questionava. A casa uma bagunça, e ele dizia que tinha esquecido das tarefas que combinamos.
Cada hora uma desculpa diferente. Quantos outros sinais deixei passar?
— Ei. Volta pra mim? – ele me chamou após uns minutos de silêncio, me fazendo largar o guardanapo de papel que minhas mãos nervosas destruíram.
Eu o encarei relutante.
— Edward, eu só... – enfim, respondi suspirando. – Eu só quero entender como nunca reparei nada de errado? Eu sempre fui tão perceptiva, a gente se entendia tão bem. Não é possível.
— Claro que é, Bella. Eu me esforcei pra que você não reparasse, como você iria adivinhar que havia algo de errado? E a gente se entendia muito bem até que as circunstâncias fizeram isso mudar. Naquela época a gente já quase não se via, conciliar nossos horários era complicado e o fins de semana eram dedicados à Claire. Não tinha como você reparar, não estávamos mais na mesma sintonia.
Não era exagero dele. Nos meses precedentes a sua partida, eu recordava de momentos em que eu procurava por Edward e ele simplesmente... não estava lá.
Ficando cada vez mais distante de mim, mais fechado. A cada dia mais arredio – jamais agressivo fisicamente, porém sua falta de compromisso comigo pesava uma tonelada. Aos poucos, nossa conexão e intimidade foram minando.
Eu só podia concluir que Edward foi me abandonado em um processo gradual antes do final dramático. Como eu não havia reparado a tempo que o homem que eu tinha escolhido não era mais o mesmo?
No entanto, eu precisava admitir. Se ele era bom em omitir a verdade, eu era ótima em não questionar.
Teria sido esse o meu papel no fracasso do casamento?
Hoje eu conseguia ver que havia sido um tempo difícil para ambos, pessoalmente e como casal. Colocar nosso distanciamento somente na conta dele agora parecia um pouco injusto.
— Me parece que muita coisa estava na minha cara e eu não enxerguei... Ou não quis enxergar. – continuei. – Quantas vezes cheguei em casa e te vi jogado no sofá? Eu mal dava um boa noite e ia pra cozinha preparar o jantar. Talvez devesse ter me importado mais.
— Fazer comida pro marmanjo jogado no sofá já era se importar pra caramba. Não acha? – ele tentou brincar, mas não respondi de acordo.
— Não é isso que sustenta um casamento, Edward. Você sempre foi meu parceiro em tudo, com Claire e com a casa, até o vendaval acontecer. Eu devia ter reparado que algo estava errado na sua mudança de comportamento.
— Bella, não. Para. Você fez o que pôde. Não foi você mesma que me disse que não podemos só culpar os outros pelos nossos problemas? – ele cruzou os braços, me desafiando. – Então, acredite, eu não te culpo por não ter notado o meu.
Eu relevei o fato de ele ter usado minhas palavras contra mim, e continuei com minha linha de raciocínio.
— Não falo de culpa. Eu me propus a vir aqui de cabeça aberta, então, agora, ouvindo você explicar tudo... – eu fechei os olhos para me concentrar na admissão que faria. – Acho que não posso colocar todo o peso sobre suas costas. Eu sou mulher o suficiente pra assumir minhas responsabilidades. O que aconteceu foi grande demais pra ser obra de uma pessoa só. Você errou feio nas suas escolhas, mas de certa forma, eu fui negligente com você também.
— Eu simplesmente não vejo como.
— Eu poderia ter sido mais atenciosa, principalmente nos anos últimos anos do casamento. – expliquei. – Desde antes de você ir embora, outras coisas já tinham tomado um espaço muito maior na minha vida. Nosso relacionamento ficou em último plano.
— Que coisas foram essas?
— Tentar sobreviver à vida adulta, por exemplo. Cuidar da casa e da nossa filha, se virar pra pagar as contas, estudar e ainda tentar seguir uma vida normal de alguém de vinte e poucos anos. Responsabilidades demais pra pessoas tão jovens, não acha?
— Sem dúvidas. – ele suspirou. – Só que essa foi a vida que escolhemos, a gente se virou como deu...
— Sim, mas a situação difícil me fez ficar acomodada, fazer vista grossa pras suas atitudes estranhas. Me parece que não lutei como deveria. Você errou em sair fora daquele jeito, mas se houve negligência durante o casamento, ela foi de ambas as partes.
— Não concordo. Mas vou tentar pensar sobre isso.
Eu me inclinei para frente, para que ele escutasse a firmeza do meu pedido.
— Por favor, pense. Fale com seu terapeuta, veja o que ele tem a dizer a respeito disso.
Vi seu sorriso tímido sair quando eu falei aquilo.
— O que foi? – perguntei. Ele sacudiu a cabeça.
— Você está sendo tão receptiva sobre meu tratamento... Achei que seria muito mais difícil que você aceitasse. Isso é reconfortante. Obrigado.
Sem querer, eu havia ajudá-lo. A grandiosidade desse passo não tinha me escapado.
— Eu só... Não quero mais guardar rancor, Edward. – falei, desviando os olhos por um momento, sem saber porque sentia uma pontada de choro. Me segurei firme.
Nós ficamos quietos por um tempo, absorvendo toda a conversa. Até que vi um brilho diferente em seu olhar, e me preparei para ouvir o que iria dizer.
— Então... Eu já abri todo meu coração pra você. Mereço um perdão ou não?
Eu franzi a testa para ele. O que responder agora? Nada vinha à mente. Apenas forcei uma risada curta e sarcástica.
— Uau, bem direto.
— Bom, eu tinha que tentar, né? – ele se defendeu erguendo os antebraços.
— É só que... eu mal acabei de ouvir o que você tinha pra falar. Me dê mais um tempo, preciso digerir as coisas. Ainda é difícil. Você me magoou tanto...
O clima entre nós ficou tenso novamente, e nós caímos em um silêncio prolongado, minha cabeça girando. Minha vontade de ser pacífica e gentil foi dando lugar ao sentimento amargo que eu carregava no peito.
— Fala o que você tá pensando? – ele perguntou com a voz mais sóbria e grave.
— Estou pensando nas formas como você me magoou.
— Então fala... – ele assentiu.
Tomei um pouco de água a fim de desfazer o nó na minha garganta. Minhas mãos começaram a tremer e suar com as lembranças do que eu iria contar.
— Imagine acordar um dia e ver que seu marido foi embora? Imagine se ver sozinha com uma filha pra criar, abandonada à própria sorte?
Minha perguntas eram retóricas. Ele, sem coragem de me encarar, olhava para o guardanapo sujo sobre a mesa.
— Você foi embora com um bilhete, Edward. Sem mais explicações, deixando todo mundo apavorado. Isso me doeu tanto. – continuei. – Imagine como me senti quando percebi que eu não era digna de um adeus cara a cara?
— Não foi isso... – eu não o deixei completar a frase.
— Tá, eu entendo que no seu momento de descontrole você sentiu a necessidade de fugir, um bilhete era a coisa mais prática. Mas não podia ter ao menos me acordado, falado um adeus?
— Você nunca me deixaria ir. – respondeu ele em um fio de voz. – Foi só mais uma estupidez minha. E eu também não teria coragem de ir em frente se tivesse que te encarar.
— Não queria me encarar, mas teve coragem de inventar uma mentira pra Claire antes de partir?
— Ahm?
— Você mentiu, disse que iria passar um tempo com o tio Jasper pra estudar. E eu tive que me virar com essa historinha. Imagine, como eu podia explicar pra uma criança que o pai havia mentido só pra fugir de casa?
— Eu nunca quis mentir pra nossa filha, mas estando sob aquelas condições, eu não tive opção... – ele assumiu. – Ela estava sonolenta, eu nem fazia ideia que ela tinha mesmo escutado. Será que ainda se lembra disso?
— Não sei o que ela lembra, ela não fala muito sobre essa época... A gente teve foi sorte por ela não ter todos aqueles problemas de pessoa traumatizada na infância.
Claire era uma verdadeira benção na minha vida em muitos aspectos, mas principalmente por me ajudar a passar pelos piores períodos da minha vida. Era tão vívida a memória de tantas noites nas quais só consegui um pouco de paz pois tinha minha filha ao meu lado. As mãos pequenas que acariciavam meu cabelo enquanto dizia "Vai ficar tudo bem, mãezinha" até eu adormecer. Era o que me motivava a levantar no dia seguinte.
— E você, como ficou? — Edward me indagou, com uma enorme expressão de culpa e desolação em seu rosto, e que me incomodou. Descartei a sensação para continuar colocando para fora tudo o que precisava ser expulso.
— Como você acha? Péssima. Eu fazia de tudo pra esquecer. Parecia um robô de tanto que trabalhava. E isso durou muito tempo... Meus amigos não me reconheciam mais, muitos até me aconselharam a ver um terapeuta, mas eu recusei. Os meses foram passando, e depois os anos... E aí fui me dando conta de que nada iria mais ser como antigamente, e fui aceitando a dor. Aceitando e aprendendo a escondê-la até conseguir esquecer.
Sua mão atravessou a mesa e alcançou a minha. Eu deixei que ele a apertasse por alguns segundos até que me senti desconfortável e me esquivei. Ele estava me consolando pelo mal que ele próprio havia causado. Não parecia uma equação correta.
— Me perdoe. – pediu. – Eu vou dizer mil vezes, o quanto precisar, me perdoe. Ouvir você falando sobre seu sofrimento é uma dor pior do que eu podia imaginar. Me sinto um lixo.
Quase rolei os olhos.
— Dispense, Edward. Eu não preciso desse drama pra te perdoar. O que eu preciso é fazer as pazes com uma realidade do passado.
— A realidade que eu te machuquei.
Eu tive que concordar com a cabeça.
— Você me machucou muito. Muito. E eu me senti tão desrespeitada, foi um tombo descobrir que você era capaz de me fazer sentir assim... – prossegui. – Hoje eu sei que você não chegou a me trair com outra mulher, mas ter ido embora daquele jeito, sem adeus e explicações, pra mim foi uma traição. Uma falta de respeito imensa à mim, à nossa família, ao pacto que fizemos diante do juiz... Meu amor sempre foi libertário, sem cobranças, a única coisa que eu esperava era que você me respeitasse.
Ele me fitou por um tempo, olhando minhas mãos. Eu as escondi.
— Que é?
— Você está tremendo, está vermelha.
— Você queria que eu estivesse gargalhando de felicidade?
— Desculpa, estou vendo que isso te afeta muito. – ele sussurrou, como que para si mesmo, antes de admitir. – Nunca quis te trair ou faltar com respeito. Jamais pensei que meus atos fossem te machucar tanto. Nada disso foi calculado, eu juro.
Eu não tinha uma resposta. Meu nervosismo aumentava exponencialmente, então eu me permiti um longo suspiro para me acalmar.
— Enfim... Consegue entender agora porque eu nunca quis olhar pra sua cara enquanto você tentava se explicar? Porque eu nunca imaginei que você fosse ser capaz de fazer algo como aquilo. Pra mim você tinha se tornado um estranho, uma pessoa que eu não conhecia. Você não era mais o meu Edward. Era só um cara que tinha partido meu coração, me traído e me largado.
— Você tem razão. Eu não era mais eu mesmo naquela época. Já deixei isso claro.
— Mas eu não tinha como adivinhar isso na época... E aí quando a realidade do acontecimento começou a tomar corpo no meu dia a dia, eu tentei reprimi-la. Eu não queria confrontar o homem que você tinha se tornado de verdade, não queria me afastar do passado que me fez tão feliz. Podia ser uma lógica corrosiva, mas era a melhor forma de proteger as boas lembranças dentro de mim.
Minha última frase saiu estrangulada pelo choro que já despontava há minutos. Eu limpei meu rosto discretamente quando fomos interrompidos pelo meu celular.
A contragosto, peguei e vi que minha filha ligava. Ela já estava aflita perguntando onde eu tinha me enfiado hoje, pois já eram quase nove da noite. Afirmei que chegaria em casa em vinte minutos, rezando para que ela não tivesse notado minha voz chorosa.
— Você precisa ir? – perguntou Edward.
Ele também não parecia muito melhor do que eu. A agonia estampada em seu semblante me deu um infantil sentimento de satisfação; Era uma sensação torpe de revanche, e eu tinha plena consciência que era prejudicial a ambos. Respirei fundo pela milésima vez hoje, a fim de me manter longe dos pensamentos ruins e focada no que minha mente precisava nesse momento.
— Preciso. Acho que já chega por hoje. – falei me levantando e deixando uma nota na mesa. – Eu pago dessa vez. Você paga na próxima quinta.
Seu olhar esperançoso foi fácil notar.
— Vai haver a próxima quinta?
— A gente precisa da próxima quinta. – respondi me ajeitando e pronta para partir. Edward se levantou, mas eu o impedi de vir atrás de mim.
— Está escuro lá fora. – ele argumentou.
— Eu parei o carro aqui na porta, não tem problema. Tchau, Edward.
— Tchau... Se cuida.
Virei as costas deixando-o ali na cafeteria vazia.
Quando cheguei em casa, tomei um banho e coloquei um pijama para passar o resto da noite vendo um filme com Claire. Mas não sem parar de pensar como tinha corrido o encontro de hoje.
Eu podia dizer que sim, eu já compreendia melhor suas motivações, embora ainda tentasse assimilar totalmente o que o levou a criar aquilo dentro de si – sua crise de pânico.
Mas eu podia imaginar algumas teorias. Edward sempre fora tão preocupado com o futuro, que acabou esquecendo-se de viver o presente, encarar de frente nossos problemas. Por outro lado, agora eu sabia e admitia que nosso relacionamento também estivera abalado há tempos.
Minha maior questão, agora, era aceitar a minha hipótese de que Edward não tinha uma culpa solitária em nossa separação, e que a rotina pesada fora um veneno lento para nosso casamento. Aguentar a pressão de ter uma família para sustentar aos dezenove anos não havia como ser saudável para ninguém. Nem para ele, nem para mim.
Nessa noite eu pude dormir com o coração um pouco mais quieto. No fundo, eu sabia que estava de frente a uma possível conclusão a respeito de tudo – dos seus motivos que eu tanto relutei para aceitar.
Talvez um passo mais perto de perdoar Edward.
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