Mais Uma Vez
18 Capítulo 17: Fuga
Notas iniciais
Obrigada a Cella, a beta que me faz querer roubar criancinhas. Vão ler a fic "A Beautiful Day" dela! Bella e Edward com a bebê mais fofa do mundo das fics.
(Marie Claire me olha torto nesse momento porque eu tinha dito que ela era a bebê mais fofa do mundo das fics. Tá bom, Claire, você e Gordinha estão empatadas, ok? São duas fofuchas.
...Garota chata! *corre da pirralha*)
Capítulo 17: Fuga
Bella
Não sei como consegui chegar a sala. Tinha mais gente do que nunca na merda da festa. Rindo, brindando, confraternizando. Tão diferentes de como eu me sentia, que tudo o que eu queria era sumir da face da Terra. Talvez uma ou duas pessoas tivessem notado o meu rosto vermelho e o cabelo desgrenhado enquanto descia as escadas. Algumas mãos preocupadas me tocaram por onde eu passava, mas eu segui pelas sombras, até encontrar quem eu procurava.
Me escondi por um instante sobre o vão abaixo da escada larga, quando avistei Alice entrando na cozinha. Segui seu rastro rapidamente, rezando para não haver ninguém mais ali.
- Mê dê as chaves do seu carro. – pedi, minha voz me traindo ao falhar de forma grotesca. Alice virou-se e eu vi refletido em seu olhar o meu estado. Seus olhos arregalaram-se, e ela me puxou para fora da casa, na varanda onde não havia ninguém.
- O que houve, Bella? – inquiriu.
- Não vou falar sobre isso agora. Só preciso que você me dê as chaves do carro, eu preciso ir embora daqui. – Maldita hora em que resolvi vir de carona com Riley.
- Eu não vou deixar você dirigir desse jeito, você está tremendo.
- Mas que merda, Alice! Só me dê a porra das chaves!
Alice pareceu assustada com meu pedido efusivo, mas virou-se rapidamente. Ótimo. Assim não haveriam perguntas.
Esperei por ela encostada na parede. Quando a adrenalina no meu corpo começou a diminuir seu efeito, eu podia sentir partes do meu corpo pulsando em protesto. Lugares que só deixavam em evidência o que eu havia feito de errado. Com a cabeça tombada para frente, tentei me acalmar. Meus dedos agarraram meus cabelos quase por reflexo ao tomar ciência de um detalhe.
- Merda! — escapou dos meus lábios. Edward está noivo de uma mulher que eu mal conheço, e eu o fodi sem camisinha. O pensamento pareceu infectar minha mente, mas antes que eu pudesse pensar demais nesse fato, minha ex-cunhada reapareceu.
- Aqui. – entregou as chaves, as quais eu peguei antes de sair pelos fundos da casa. — Espere! Bella, sua bolsa.
Apenas percebi que não pegara a bolsa quando Alice veio correndo atrás de mim. Parei para pegá-la, e segui meu caminho pelo jardim até a garagem. Se eu não saísse rápido o bastante, mais alguém poderia vir me procurar.
- Bella, por favor, fale comigo. O que aconteceu?
Eu balancei a cabeça. Sequer conseguiria pronunciar palavras coerentes agora. Alice me perseguia insistentemente, mas eu consegui chegar no carro e sentar. Liguei a ignição com mãos trêmulas.
- Nem eu sei, Alice. Pegue seu carro amanhã de manhã. – disse antes de dar a partida, arrancando para fora daquele lugar.
Eu sequer percebi o caminho de volta no carro. Foi sorte eu não ter me metido em um acidente. Minha cabeça estava em todo lugar, menos onde eu me encontrava. Eu só queria sumir, mas meu cérebro guiou-me, mecanicamente, para a rota de casa.
Assim que abri a porta, fiz o que mais queria. Arranquei minhas roupas, o chão da sala e as escadas sendo recipientes das peças enquanto eu subia.
Suja. Eu me sentia suja. O banheiro pareceu o paraíso perfeito para me abrigar. O calor e a fumaça do chuveiro envolveram meu corpo num abraço reconfortante, deixando que eu chorasse todo o tipo de sentimento que restara em mim.
Eu só me toquei que passei tempo demais sob o chuveiro depois que toda a água quente da casa terminou, me expulsando dali.
Apesar da limpeza e das roupas frescas, eu ainda me sentia pesada, e a tempestade de pensamentos dentro de mim agravava o quadro.
Hoje eu não queria mais pensar. Não queria mais sentir. Minhas energias haviam ficado naquele quarto eternizado com tudo o que já houve de doce, e tudo que já houve de fúria em mim. Eu sabia que estava num caminho sem volta. Teria que encarar a realidade uma hora ou outra, mas isso não seria possível agora.
Desliguei o celular e todos os telefones da casa. Tomei um comprimido da caixa que permanecia intacta no armário do banheiro, e que me ajudaria a preservar a dormência do meu corpo e o torpor do meu espírito até amanhã. Adormeci para uma noite negra, sem sonhos.
xxxx
Meus olhos se abriram de repente.
Preciosos e breves segundos de alienação seguiram-se, antes que minha mente despertasse por completo.
Céus, o que foi que eu fiz?
As imagens da noite anterior rodavam como um filme agoniante, reprisando sem parar na memória. Fotos antigas. O mural. Caixas de mudança. Folha e folhas de umas cartas sem sentido. Edward e sua boca, seu corpo, seu cheiro. Era tudo de errado, mesmo que alguma parte de mim clamasse que fosse o certo.
E tudo aquilo que eu li... Eu nunca desejei tanto que algo fosse apenas um pesadelo e que eu acordasse em alguns instantes. Mas o destino não seria tão bom comigo.
O sono que consegui ter não havia sido suficiente para me salvar de uma ressaca moral. E talvez eu a merecesse. Eu fiz tudo que não podia ter feito. De todas as reações que poderia ter, tive a pior delas. E havia sido eu a iniciar tudo aquilo.
Sentei na cama de supetão, enquanto a caía a última ficha. Sentia-me hiperventilando e meu coração martelava em meu peito. Era como um forte tapa no rosto. Ou um soco.
O que foi que eu fiz? Repetia-se incessantemente na minha cabeça. A culpa me atingiu, inundando rapidamente antes que eu pudesse me livrar dela, racionalmente.
Porque não foi sem querer. Roupas íntimas não saíam do caminho sozinhas. Corpos não entravam em contato sozinhos. Eu escolhi agir daquele jeito, mesmo que impulsivamente. Escolhi partir para cima do meu ex-marido como uma qualquer. Escolhi trair a mim mesma e a minha promessa de nunca mais tocá-lo.
Onde eu estava com a cabeça? Como se eu pudesse atacá-lo carnalmente até que as explicações, pedidos de perdão e redimissão se derramassem aos meus pés. Eu só podia estar louca. Um ataque de insanidade, ao qual Edward me levara.
Eu te amo, ele falou. Eu tinha certeza que ouvira.
Mas o que isso significava? Edward me abandonou porque me amava? Isso não fazia o menor sentido. Eu queria que tivesse sido da boca para fora, e nada mais. Seria mais fácil assim. Mas a forma como ele disse, e depois de ler a comprovação de seus sentimentos naqueles papéis...
Ele não podia me amar, não tinha esse direito. Por Deus, Edward tinha outra pessoa agora, e estaria casando com ela em breve. Nada, nada disso era coerente na minha cabeça.
Agora, mais do que nunca, a ideia de um confronto parecia aterrorizante para mim. Eu não queria ter mais ideias viciosas a pensar; não saberia o que fazer se tudo o que ele dizia naquelas cartas fosse verdade. Como eu poderia conviver com isso? Toda a dinâmica do que um dia foi a nossa relação mudaria, e eu não me sentia forte o bastante para enfrentar o desmoronamento de um passado que preservava com tanto carinho.
Ele não acreditou o bastante em mim. Não acreditou no meu amor. Foi meu último pensamento antes de decidir que hoje eu merecia não ter que lidar com isso. Era algo duro demais para aguentar.
Eu já não sentia mais raiva. Pelo contrário, eu estava fora de mim, mas de outra maneira. A fúria da noite anterior havia dado lugar a uma tristeza que ameaçava me arrebatar com intensidade. Mas eu relutaria.
Tudo o que eu queria era me embolar na cama o dia inteiro, enquanto o sono amenizasse o sofrimento ainda contido. Talvez uma hora ou outra eu reunisse forças para sair e dar a cara a tapa, como a adulta que eu deveria ser. Só precisava não pensar na noite de ontem. Doía demais.
Meus olhos se fecharam novamente, talvez por cinco ou dez minutos.
Antes que me desligasse totalmente, entretanto, um forte sentimento me despertou. Pressentimento, seja como for, vindo pegar no meu pé pelo meu deslize — eu podia tentar me esconder do mundo, mas minha condição de mãe anulava qualquer oportunidade de fuga.
Simplesmente sabia que minha filha sentia minha falta, já que sequer pensei em me despedir antes de ir embora da festa, e eu não podia negligenciá-la dessa forma.
Puxei o celular de dentro da bolsa que estava no chão ao lado da cama, e o liguei. Uma carranca formou-se em meu rosto ao ler sobre as 12 novas mensagens e as 25 chamadas não atendidas. Algumas de Alice, algumas da casa dos Cullen e muitas de Edward. Ignorei a todos, e assim que busquei ligar para o celular de Claire, o seu número piscou na pequena tela.
- Alô?
- Mãe, até que enfim você atendeu! – pude ver o alívio descarregado em sua voz. — Está tudo bem? Me disseram que você saiu correndo da festa, nem se despediu de mim.
A forma como ela falou, assustada e preocupada, fez minha consciência pesar com as consequências dos meu erros.
- Eu estou bem, só com muita enxaqueca. – limpei minha garganta para falar uma frase inteira pela primeira vez no dia. Meus olhos pousaram no relógio e me surpreendi ao ver que já passava do meio-dia. — Desculpe, minha flor, eu precisei sair cedo, fui chamada pra uma conferência urgente. Só uma troca de capa de última hora, essas coisas.
A facilidade com que as mentiras jorravam de minha boca era desprezível.
- Ah... ok. – falou suspeitosa. — Mas sua voz está esquisita. Tem certeza que tá tudo bem mesmo?
- Está sim, eu juro.
- Ok. Se você precisar de alguma coisa, me liga, tá?
Um sorriso fraco formou-se em meu rosto pela sua atitude atenciosa.
- Claro, meu amor.
Assim que afirmei estar bem, Claire emendou o papo na conversa mais descontraída possível, com sua voz espivitada de sempre. Embora eu estivesse longe de um bem-estar, era reconfortante ouvir a voz da minha menina.
- Ai, mãe, daqui a pouco eu vou começar a me arrumar para o show de hoje à noite. Você acha que eu posso ir com aquela saia jeans vermelha, ou com uma calça? Eu já perguntei pro papai, mas ele tá todo estranho hoje, sabe. – disse ela, fazendo meu coração dar um salto desconfortável dentro do peito ao ouvir a menção de Edward.
Ele estava estranho. Que bom que eu não era a única então.
Voltei minha atenção para Claire, que continuava a disparar palavras ao telefone.
- E além disso, ele não tem o menor senso de estilo. Perguntei pra Rachel também, mas por ela eu iria de shortinho, como se estivesse na praia, sabe como é. Então, o que você acha?
- Ahn... acho que é melhor uma calça, é mais confortável pra um show, não é? – tentei a resposta. Eu podia pensar em tudo agora, menos em roupas.
- É? Ah, então acho que vou assim mesmo. Obrigada, mãe. Até amanhã! – falou rapidamente, deixando o outro lado da linha mudo ao desligar.
Não demorou dois minutos para que o telefone voltasse a tocar, dessa vez, com o número de Alice piscando.
- Eu não sei se você se finge de tonta ou o quê, Alice. – resmunguei ao colocar o celular em modo de vibrar e escondê-lo na bolsa novamente. Só pelo fato de eu ignorar todos os telefonemas já deveria ser óbvio que eu não tinha vontade de falar com ninguém, mas Alice continuava a ser teimosa e não entender o recado.
Fiquei deitada na cama por muito mais tempo. Não conseguia pegar no sono de novo, então rolei de um lado para outro. Minha cabeça latejava para valer agora e eu percebi que deveria comer alguma coisa.
Fui para a cozinha e coloquei no microondas a primeira comida congelada que achei. Comi sem fome, apenas engolindo a massa insosa e gordurosa.
Eu não me sentia a mesma. Algo havia mudado dentro de mim. Talvez até mesmo fisicamente, como consequência. Edward havia me quebrado, mais uma vez, e eu sequer me surpreendia com isso. Seria sorte se estivesse criando resistência para enfrentar qualquer tipo de golpe que ele me afligia. E eu sabia que sairia dessa com a cabeça erguida. Se consegui uma vez, então seria fácil conseguir novamente.
Precisava distrair a cabeça, então liguei a televisão no programa mais imbecil que encontrei. As imagens coloridas do programa de auditório, juntamente com o som estridente me fez prestar atenção em outra coisa a não ser na pequena voz dentro de mim que me culpava por estar fugindo e ignorando a realidade novamente. Quando me cansei, rapidamente dei um jeito de calar aquela vozinha. Mais um comprimido da caixa foi consumido na noite de domingo, me auxiliando a adormecer pesadamente.
A segunda-feira apareceu, para meu desgosto. Eu não tinha a menor vontade de entrar naquela redação, porém toda uma equipe existia e dependia de mim. Não poderia decepcioná-los.
Fiz a minha rotina matinal com muito custo, grata quando lembrei que Claire dormiria na casa do pai após o show, e só voltaria pela tarde. Assim eu não teria que encarar Edward quando ele viesse deixá-la em casa.
Respirei fundo antes de pisar para fora de casa, religando o celular. Ainda muitas chamadas perdidas. Todos os telefones de casa estiveram no mudo desde a tarde de ontem, e eu fiz uma nota mental para não esquecer de ajustá-los quando Claire chegasse em casa. Eu não queria que ela desconfiasse de nada.
O dia passou rapidamente, já que eu fiz de tudo que podia fazer para me sentir ocupada. Se ficasse por muito tempo à toa, toda a emoção repreendida iria me engolir.
Os telefonemas à minha procura não pararam, mas tentei driblá-los da melhor forma possível. O celular estava constantemente em vibração. A caixa postal piscava sem parar. As mensagens sempre chegavam. Dessa vez, apenas Edward ainda insistia. Mas eu não podia atender. Não conseguiria. Sequer era capaz de imaginar como começaria uma conversa com ele. Eu tive medo até mesmo de sair para almoçar, caso eu o encontrasse pela rua, então fiz minha refeição no escritório.
Quando cheguei em casa, minha filha lá estava, vindo correndo me abraçar.
- Mãe, já estava com saudades!
- Oi, meu amor. – sorri contra seu cabelo. — Eu também.
- Ai, mãe, eu ainda nem te contei. Pensei que nada pudesse superar a sexta, quando conheci o McSky, mas o show ontem foi perfeito. O melhor dia da minha vida, com certeza.
Claire começou a me contar todos os detalhes do que havia sido o quinto "dia mais feliz da sua vida" nesse ano, pelas minhas contas. Ao terminar, o barulho do chuveiro correndo no andar de cima me fez gelar.
- Quem está aí? – perguntei alfita.
- Ih, calma, mãe. É só Rose, não lembra? Ela vai passar uns dias aqui com a gente enquanto a tia Ali e o tio Jasper viajam.
- Oh. – soltei o ar aliviada. Como eu pude pensar que podia ser Edward? Paranóica, era isso que eu estava ficando. — Não, eu não me lembrava.
- Tsc, você precisa de umas vitaminas. Está ficando gagá. – provocou Claire, dando meia volta para entrar na cozinha. Eu balancei a cabeça, e segui para o quarto, a fim de retirar as roupas e tentar passar uma noite tranquila. Eu sabia, porém, que não conseguiria agir normalmente na presença de duas meninas curiosas, sabendo de tudo o que me aguardava em breve. Talvez mais um comprimido da outra caixa — de calmantes — pudesse ser bom, e decidi tentar a sorte.
O torpor induzido artificialmente durou até o momento em que fui capaz de prolongá-lo.
Na quarta-feira pela manhã, Riley me ligou durante o almoço para me lembrar da reunião semanal que tínhamos no Le Printemps, com a equipe de marketing no dia seguinte. E então todos os meus medos voltaram. Eu sabia que não teria escapatória dessa vez. Edward me pegaria de um jeito ou de outro.
Você já está melhor, Bella. Você consegue encarar isso.
Eu apenas temia pela reação que poderia ter ao vê-lo na minha frente. Pensava em duas, opostas. Talvez meu instinto auto-protetor iria querer estraçalhar Edward, dilacerá-lo com as palavras emperradas em minha garganta até não restar pedaços, ou quem sabe o mesmo impulso que dirigiu meu corpo na noite de sábado voltaria com toda a força, e eu iria de encontro a Edward como se buscasse a explicação para o sentido da vida.
As duas perspectivas pareciam terríveis, e o medo do que aconteceria na tarde de amanhã subiu por meus nervos, aos poucos. A cada hora que passava sentia piorar o meu estado, ficando mais alerta, quase produzindo um choque com a súbita aparição da apreensão tomando espaço da dormência de emoções que eu havia cultivado durante toda a semana.
A quinta-feira estava ali, marcando o primeiro dia de férias escolares de Claire. Sua excitação atípica pela manhã foi o bastante para me recordar que hoje era um dia importante. Ela faria o último ensaio antes de sua apresentação com a banda, no festival de encerramento dos jogos estudantis, na sexta-feira. Eu já me sentia exausta só de pensar que teria que enfrentar uma noite num ginásio, após passar um dia tenso, assim como para o qual eu estava a caminho.
E assim permaneci durante todo o tempo, até me encontrar na porta da sala de reuniões da sede do Le Printemps. Riley me olhava estranho.
- O que foi? – perguntei.
- Nada. – deu de ombros.
- Fale logo, porque minha tolerância está baixa essa semana. – falei, soando mais grossa do que pretendia. Quase pedi desculpas, mas ele preencheu o silêncio.
- Uau. Ok. É só que você parece abatida. Eu não quis comentar, porque pode ser que você esteja naqueles dias. Só isso.
Eu sorri para sua gentileza, sentindo mal pela resposta atravessada.
- Eu estou bem... eu acho. Obrigada por se preocupar.
Não tínhamos mais tempo para trocar palavras, então fomos convidados a finalmente entrar na sala. Todos os lugares já estavam ocupados, mas um membro intruso que não fazia parte daquela equipe entrou no meu campo de visão. Eu não esperava sentir vertigem ao ver Edward ali, mas me sentei rapidamente. Bem longe de onde ele estava.
Merda. O que ele fazia aqui? Eu não iria conseguir me concentrar dessa forma. Isso era golpe baixo, se intrometer no meu trabalho assim.
Fiz de tudo para tentar bloqueá-lo da minha mente, e apagá-lo daquela mesa de reuniões. Todo meu corpo estava travado, e eu sentia que para minhas mãos começarem a tremer era só uma questão de descuido. Senti Riley, sentado ao meu lado, tocar meu joelho.
- Tem certeza que está tudo bem? Você está pálida. – sussurrou enquanto apresentavam um slide no quadro branco. Eu assenti a cabeça.
- Acho que é pressão baixa. – menti pela milésima vez no dia. — Vai passar.
Durante todo o tempo da reunião, eu pude sentir seus olhos queimando sobre mim. Tudo parecia tão mais intenso agora. Eu queria chorar, ou gritar. Fugir dali. Mal conseguia concluir meus pensamentos ao apresentar as propostas que havia preparado.
Edward não podia ter feito uma coisa dessas. Por que diabos ele estaria ali? Toda minha concentração estava indo para o buraco. A parede branca e decorada por artigos caros de arte pareciam interessantíssimos nesse momento.
- O que você acha, senhorita Swan? – ouvi uma voz perguntar, e me virei em direção a quem me chamava. Uma das coordenadoras da equipe, Julie Nicholls, esperava minha resposta.
- Desculpe? – respondi.
- O que você acha da sugestão que o senhor Cullen deu? Mais entrevistas com hóspedes.
- Ahn... – balbuciei. Minha voz saiu estrangulada. — Talvez. Podemos pensar com mais calma.
- Talvez podemos marcar reuniões extras? – falou Edward, olhando diretamente para mim. Não pude desviar o olhar, sem que todos notassem algo errado.
- Talvez. – afirmei com a cabeça.
Para meu alívio, Julie ergueu-se antes de anunciar.
- Acho que nosso tempo acabou por aqui. Obrigada pela presença dos senhores. Até semana que vem.
Eu nunca saí tão rápido de um lugar. Me levantei ao terminar de guardar minhas coisas, sem esperar por Riley. Era rude, mas que se dane, definitivamente não estava em condições de tratar de Edward agora.
Se eu podia ser rápida, porém, um homem de quase dois metros de altura, e pernas com vinte centímetros de vantagem sobre mim, conseguiria me alcançar com a velocidade de uma pantera. Como eu era tola em pensar que pudesse escapar.
- Bella! – Edward me gritou pelo corredor. Mais dois segundos se passaram antes que ele se pusesse à minha frente, bloqueando minha entrada no elevador.
- Saia da minha frente. – falei com a voz baixa.
- Bella, eu não te entendo. Como você pode se esconder justo agora?
- Edward, eu não quero falar sobre isso agora, ok? Me deixe passar. – disse, mas sua grande forma atrapalhava minhas manobras. Quando percebi, eu já estava dentro do elevador, e a porta havia se fechado. Com Edward dentro.
- Aperte o botão do térreo, por favor.
- Não. – bradou ele, me fazendo erguer os olhos, que antes permaneceram grudados no chão. O andar de seu escritório estava no marcador, ao invés disso.
- Primeiro você me cerca, entra numa reunião que nem lhe dizia respeito, e agora vai me obrigar a ir a algum lugar com você? Eu posso pedir ajuda dos seguranças. – ameacei, mas soou patético até mesmo aos meus ouvidos.
- Nós precisamos conversar e você sabe disso. – ele falou em seu tom mais sério.
- O que você quer, hein? – sentia a raiva que estava apenas escondida debaixo do tapete fazer sua primeira aparição em dias. — Por acaso, a vítima dessa situação toda sou eu. Acho que eu tenho direito de escolher quando e se irei me pronunciar sobre isso.
- Você está sendo imatura, Bella. Eu achei que você tivesse entendido tudo que eu quis dizer todo esse tempo, mas não. Não vê que essa sua atitude só prejudica a você?
Eu não tive tempo de pensar em uma resposta, pois o elevador chegara no penúltimo andar. Edward ficou parado na porta esperando que eu saísse. Fitei-o por um instante. Ele tinha razão dessa vez. Eu estava sendo covarde de não enfrentá-lo. Mas não me sentia preparada ainda. Havia o receio de que se eu me machucasse dessa vez, não haveria formas de reparar-me, nunca mais. Entretanto, eu via sua perseverança em seu rosto, e sabia que ele não desistiria até que eu entrasse na porcaria do seu escritório.
Engoli em seco e disparei para frente, sem olhar para trás, prometendo que não sucumbiria a todas as suas vontades e apelos hoje, mas rezando para que eu não enlouquecesse de vez.
Edward fechou a porta atrás de si.
- Sente-se. – falou, acenando para o sofá. Me sentei na ponta. Uma posição que favorecia uma fuga a qualquer instante. Ele sentou na cadeira, e a puxou para ficar a uma distância considerável da minha frente. Puxou o fôlego uma vez, e passou uma mão pelo cabelo antes de falar.
- Eu não vou te obrigar a dizer nada, e nem vou te obrigar a me ouvir. Isso tem que partir de você. Eu vi tudo o que você teve conhecimento, e acredito que você deva ter lido tudo daquele caderno. Você agora sabe de muitos dos meus motivos, e dos meus pensamentos. E você também sabe tudo o que eu sempre quis te dizer, mas nunca tive oportunidade. Eu não vou te pressionar, Bella, porque não é certo. Então eu vou deixar que você diga o que quiser dizer... Por favor, só não me ignore mais.
Seu discurso me pegou de surpresa. Seu comportamento de decisão agressiva de antes fez um giro, agora se mostrando complacente. Edward estava aberto a me ouvir, esperando que eu estivesse na mesma página.
Mas eu ainda não estava.
- Você falou com alguém sobre o que aconteceu? – pronunciei a primeira coisa que me veio a cabeça. — Porque eu preferia que não falasse.
- Na verdade, não. Quer dizer, eu fui atrás de você depois que você foi embora, e Alice veio ao meu encontro, me contando como você havia saído de repente. Ela me perguntou se você havia mexido nas caixas que ela tinha colocado no meu antigo quarto.
- Claro. – falei com sarcasmo, interrompendo-o. Era óbvio que ela teria algo a ver com isso. — E o que você respondeu?
- Respondi que sim, e ela começou a ficar nervosa. Disse que sabia que algo muito ruim poderia acontecer, e que ela não sabia onde estava com a cabeça quando pensou que pudesse resolver alguma coisa entre nós por vontade própria.
- E você contou mais? – perguntei em voz baixa. A lembrança do momento em que induzi Edward a me penetrar veio à tona.
A vergonha que tomava conta me deixava com agonia em meu próprio corpo. Ninguém mais poderia ficar sabendo disso. Ninguém.
- Bella, eu estava tão atordoado quanto você. Tudo o que eu fiz depois de deixar Alice falando sozinha na cozinha, foi me esconder na casa da piscina, até que fosse a hora de cortar o maldito bolo e eu pudesse ir embora com nossa filha. – disse ele, fazendo uma curta pausa. Aproveitei para falar.
- Eu tenho certeza que ela queria me mostrar aquelas coisas quando me procurou na semana passada. Só podia ser isso.
- Certamente. Eu precisava de mais espaço no armário, então levei as caixas para a casa da minha mãe, quando Tanya terminou de empacotá-las. – explicou. Obviamente, sua noiva iria querer espaço para morar em sua casa. Ele continuou. — Eu só queria que você soubesse que não era pra você ter descoberto aquelas coisas, daquela forma. Deve ter sido pior do que eu posso imaginar.
Eu dei de ombros.
- Quem procura, acha. – apontei, já que era verdade. Eu havia me intrometido em lugares indevidos.
Nós caímos em silêncio, o que apenas serviu para evidenciar o fato de que ambos não sabíamos como proceder na situação. Ele parecia tão nervoso quanto eu, mas foi o primeiro a quebrar a falsa calmaria.
- Bella, por favor, fale comigo. Me diga o que está pensando.
- Eu estou pensando que... Não foi certo o que eu fiz. Eu sinto muito por ter agido da forma como agi... – falei, sacudindo a cabeça, e dizendo o que realmente estava me incomodando. — Não sei o que deu em mim. Acho que você já sabe que eu posso ser muito impulsiva às vezes.
Foi a vez de Edward balançar a cabeça em negação.
- Eu não acredito que você está se culpando por isso. Eu também deixei que aquilo acontecesse. E eu percebo que você está envergonhada. Nem consegue me olhar nos olhos. – ele reparou, me fazendo prestar atenção no que eu fazia. Meus olhos estavam direcionados a qualquer lugar menos Edward. De fato, eu não conseguia encará-lo por dois segundos inteiros.
- Eu não me sinto orgulhosa por ter feito aquilo. – comentei.
- Shh. Não quero que você se sinta assim. Você tem razão quando disse que a vítima é você. Não se sinta mal, por favor.
Sacudi a cabeça, agora realmente lembrando de detalhes que me mostravam o quão errada foi minha atitude. Mas que merda. Edward conseguira virar o jogo, ao invés de me fazer sentir ódio por ele. E talvez isso só mostrasse o quão despreparada eu estava para lidar com emoções pesadas nesse momento.
- Aquilo foi... imprudente. Irresponsável. Além de ter sido um desrespeito a sua noiva. – balbuciei a explicação lógica que rodeava minha cabeça. — Mas eu não estava com a mente mais sã naquela hora.
- Eu não me importo pelos motivos que te impulsionaram a agir assim. Pra dizer a verdade, eu só estou preocupado com... – ele começou a dizer, porém eu o interrompi para continuar a sua frase, já prevendo onde ele chegaria.
- Se você está preocupado sobre não termos usado nenhuma proteção... – céus, falar disso com esse homem era pior do que eu imaginava. Mas era necessário. Edward desviou o olhar por um instante, parecendo tão desconfortável quanto eu.
- Pode ficar tranquilo, eu estou completamente saudável e em dia com a pílula. – falei, sutilmente oferecendo uma deixa para que ele me reafirmasse positivamente.
Ele assentiu.
- Que bom. Eu também estou limpo. Mas eu só estava mesmo preocupado em saber como você estava se sentindo.
- Como você acha que estou me sentindo? Não pareço que estou bem o bastante? Estou funcionando, e estou de pé. Isso já basta, por enquanto. – declarei mecanicamente. E novamente o silêncio baixou no escritório. Anoitecia lá fora, e o trânsito soava como loucura daqui de cima.
- Você não vai me dizer nada hoje, vai? – perguntou ele depois de um tempo. Eu sacudi a cabeça, negando. — Por favor, qualquer coisa. Eu te permito até que você me dê uma surra.
Bufei uma meia risada.
- Não seja absurdo, Edward. Bom, eu acho que esclarecemos tudo de mais urgente. Eu preciso ir.
Me levantei antes de mudar de ideia.
- Bella. – sua voz chamou com um tom reprovador. Esperei calada até que ele voltasse a falar. — Tem certeza que vai sair assim?
- Assim, sem mais nem menos? – indaguei de forma seca. — Acho que eu estou no meu direito.
Eu me virei, andando em direção à porta, porém Edward foi mais ágil. Saiu de seu posto na cadeira e, com duas passadas largas, me alcançou, pegando-me pelo antebraço descoberto pela blusa de mangas curtas. Ele viu o olhar assustado em meu rosto, e rapidamente retirou a mão. O calor de sua palma demorou-se por mais alguns segundos sobre a região que havia sido tocada. O primeiro contato após aquela noite, e eu queria gritar de agonia, porque ele ainda me afetava tanto. Como uma menina tola, imbecil e ingênua.
- Por favor, não fuja de mim de novo. Não agora. – falou suavemente. Seus olhos apelavam aos meus. — Creio que nós dois merecemos essa conversa.
Suspirei pesadamente. Seja uma adulta, Bella. Aja como uma. Encare a realidade. Não se esconda.
Pela primeira vez desde que entrara no escritório, levantei meu olhar para fitá-lo diretamente, encontrando seu rosto apreensivo durante meus instantes de silêncio. Enfim, respondi com sinceridade.
- Edward, eu estou cansada e estressada. A semana foi puxada. Um milhão de coisas diferentes aconteceram num período muito curto de tempo, e eu preciso de um descanso, ou então minha cabeça estourará de tanto pensar. Por favor, me dê um tempo pra absorver tudo isso. Eu só preciso refletir sobre tudo. – disse exatamente o que eu necessitava: tempo, para colocar o que precisava ser colocado em ordem. Quando chegasse o momento de enfrentá-lo, eu não poderia estar desarmada.
Ele assentiu compreensivamente.
- Tudo bem. Eu espero. Quando você se sentir melhor, estarei aqui. Estou disposto a ouvir e a dizer o que quer que eu diga, sem limitações. Eu juro. – em seu olhar havia promessa, honestidade, e súplica.
Assim, eu soube que não seria mais capaz de me esconder, nem que tentasse. Tinha a certeza de que Edward estaria livre de qualquer redoma ou pretensão no momento em que eu o procurasse novamente, o que só me compelia a procurar a verdade de uma vez por todas.
E ele tinha razão, ambos merecíamos uma conclusão nessa história, um ponto final. Era apenas incrivelmente difícil aceitar que ainda haveria um final para ser posto em um ciclo que eu sempre classifiquei como terminado, enganando a mim mesma durante tanto tempo.
- Eu te ligo. – falei suavemente.
- Não demore muito, Bella. Por favor.
Eu apenas meneei a cabeça, e saí do local sem pronunciar mais palavras.
O caminho de volta para casa foi silencioso, e o cenário de chuva leve na noite da cidade me fazia pensar e repensar em diversas questões que foram me ocorrendo. Novas dúvidas surgiam, e aos poucos eu me munia de argumentações. Isso não era nem de longe a forma como eu imaginava que tudo isso iria terminar, mas tinha que ser assim. Eu precisava estar preparada da melhor forma possível, senão iria enlouquecer de vez.
Ao chegar em casa, senti que as duas garotas já se preparavam para dormir. Eu havia acabado de passar por Rosalie no corredor, e ela me desejou boa noite antes de entrar no quarto de hóspedes. Adentrei o quarto da minha filha para lhe deixar um beijo, e a encontrei deitada em sua cama vendo um filme.
O olhar sonolento de Claire sequer perdeu tempo em me dar atenção, apenas retribuindo meu beijo e voltando a ver o filme. Sentei ao seu lado na cama, a fim de aproveitar a sensação de serenidade que o ambiente escurecido e sua aura aquietada proporcionavam. Comecei a fazer carinho em sua cabeça, e ela rapidamente aconchegou-se para meu colo e minhas pernas. Minha cabeça tombou para o lado, e o único objeto que foi capaz de chamar minha atenção foi o porta-retratos sobre a sua mesa de cabeceira.
Edward, Claire sobre seus ombros, e eu ao seu lado. Nossas mãos estavam entrelaçadas, e ambos olhávamos para nossa filha de 5 anos, que parecia extremamente feliz de ser como era. Todos nós parecíamos. Tínhamos tudo para ser a família perfeita, ou o mais próximo que podíamos chegar disso. A felicidade não faltava, e isso já bastava para nós. Minha garganta apertou-se ao pensar naquilo.
- Edward. – o nome em forma de lamentação escapou em um sussurro, e eu apenas continuei a pensar a única coisa que mais me punha em agonia. Como deixamos tudo isso acontecer com a gente? Onde foi que a gente se perdeu?
Senti um aperto mais forte ao redor de minhas coxas, e virei o rosto para baixo, quebrando o feitiço dos devaneios sobre o passado. Claire tinha os braços firmemente abraçando-me, e seu rosto estava relaxado em seu sono. Não quis perturbá-la tão rapidamente, então apenas recostei-me contra a cabeceira, continuando os afagos em seu cabelo. Sussurrando minhas juras para a doce menina que dormia sobre mim.
- Eu prometo ser forte, meu amor. Por nós duas. Eu prometo que você vai ser sempre feliz, como aquela garotinha sorridente de 5 anos. Nada do que acontecer entre seu pai e eu irá te atingir. Eu prometo.
O futuro próximo parecia turvo, e eu ainda tinha dúvidas sobre como conseguiria caminhar por ele. Mas era agora ou nunca. Eu poderia perder para sempre o homem que um dia julguei ser minha metade mais perfeita, e aprender a conviver com isso, como convivi por tantos anos. Eu poderia ter que repensar todo o nosso passado, mas eu sabia que iria fazer de tudo para não ferir o único elo que nos ligaria para sempre.
Era um passo que eu estaria dando para frente, e que poderia mudar todo o meu destino. E eu apenas rezei para que esse destino tivesse piedade de mim.
Notas finais
Sobre o cronograma de postagem, LEIAM:
Eu já aceitei o fato de que eu nunca vou conseguir escrever um capítulo por semana enquanto estudo, estagio e ainda tento ter uma vida social. Portanto, vou postar no máximo a cada 2 semanas. Assim terei dias a mais pra escrever que farão a diferença, e pode ser até que eu termine antes algum capítulo e poste mais cedo. Eu juro que por mim teria atualização toda semana, mas infelizmente a realidade é uma bitch. Talvez quando entrar de férias eu consiga postar num intervalo de tempo menor.
Agora uso um Formspring para perguntas aleatórias. Respondo quase tudo em: http://formsping.me/OhxCarol
Vamos torcer pra eu que consiga terminar rápido o outro capítulo. Por rápido eu quero dizer menos de 15 dias...
Até breve!
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