Mais Um Livro de Contos
1 Jamais diga isso
Notas iniciais
Nevava lá fora. A casa aparentava ser velha, mas não tanto quanto a sua verdadeira idade. Lá morava um homem, com metade de um século já de vida. Vivia com simplicidade, tirando pelo fato de que antigamente trabalhava caçando todos os tipos de seres existentes, neste mundo e em outros. Naquele dia, duas visitas o esperavam na porta. Eram suas sobrinhas, já crescidas, Emma e Lucy. As duas vinham com más notícias. Seus pais haviam sido mortos, e Emma quase morrera, mas conseguiu se safar, com um braço mordido.
Lucy tinha 21 anos, enquanto que a irmã, Emma, chegava em seus 23. As duas tinham seus cabelos loiros, sendo a da primeira mais claros e lisos, e a mais velha, compridos e mais escuros.
Emma andava de um lado para o ouro no quarto, trajava um grande sobretudo marrom escuro de couro, seus cabelos esvoaçando a cada movimento. Arrumava as malas. Lucy só a observava, sentada na ponta da cama, vestindo um sobretudo preto. Com uma expressão séria, decidida, mas triste. -Sou eu que tenho que ir, irmã.
-Fui eu quem fez a besteira, não deveria ter deixado mamãe e papai sozinhos. Eu cuido daquele monstro.
-Você não entende? Aquele monstro, não é só um monstrinho, é um daqueles bixos enviados por demônios! Não é só dar um tiro que já basta.
-Acha que eu já não aprendi desde a ultima vez?
-É, mas parece que você ainda não entendeu o significado de monstro.
-Emma! Não me trate como se fosse uma criança, eu sei me cuidar.
-Se soubesse se cuidar, nossos pais poderiam estar vivos! Aquilo foi demais para Lucy. Lágrimas formaram-se na ponta de seus olhos.
-Desculpe, Lucy, minha querida. Não quis culpá-la. Não foi sua culpa que estávamos distraidas demais para aquilo. Nós vamos derrotá-lo, não se preocupe.
-Não, Emma, você não pode voltar lá. Ainda está com o braço ferido, não devia ter saltado na minha frente daquele jeito. Eu não deveria ter fugido. Deixe, deixe que eu cuido daquilo sozinha.
-Você não entendeu?
-A culpa foi minha. Eu que deixei com que os dois ficassem sozinhos. E eu fugi. Eu deveria ter cuidado de vocês três melhor.
-Não diga como se só você tivesse fugido, eu parti também. E você diz como se fosse a babá de crianças, quando é a mais nova aqui.
-Só porque sou mais nova, não quer dizer que tenha menos responsabilidadde! -E a vida dos outros é sua responsabilidade agora?
-Não! Mas cuidar de quem eu amo, sempre foi. — Lucy virou o rosto, para esconder suas lágrimas. Emma ficara constrangida também, e continuou arrumando suas malas, para distrair-se.
-Você acha que toma conta de tudo, quando não consegue nem abrir um pote de pepino em concerva direito.
-Não comece.
-Não, você não comece, ok? Não quero ficar braba com você, então cale a boca e fique bem sentadinha aí, enquanto eu termino de arrumar as coisas.
Seguiu-se um silêncio então, e Emma sentou ao lado de Lucy:
-Não quero brigar com você.
-Até parece, mana, a gente tá sempre brigando por bobagens.
-Caçar não é bobagem.
-Que seja, a nossa briga é boba.
-Não entende que a gente pode morrer?
-A gente não, eu. Você vai ficar aqui e cuidar do tio Charlie.
-Ele é grandinho suficiente pra cuidar de sí mesmo. Ao contrário de certas pessoas. — Emma disse, levantando-se novamente.
-Nem vem. Eu sei me cuidar sozinha. E eu vou cuidar desse bixo sozinha.
-Não vai nem morta.
-Vou assim mesmo.
Emma então parou.
-Lucy, não vou deixar você ir sozinha!
-Olhe nossos pais. Acha que vou deixar você ir junto?
-Eles não eram caçadores!
-Você está ferida, vai acabar se matando!
-Você que vai acabar se matando, não sabe onde está se metendo!
-Óbvio que sei, já fizemos isso antes!
-Com o Charlie, e os amigos dele! Não sozinhas!
-Sozinha. Farei sozinha.
Emma não conseguia aceitar. As duas se encararam por um tempo, e a mais velha começou a mecher os armários, procurando alguma coisa pra botar a mais na mala.
-Se acha que vou deixar você se matar, está enganada.
-Eu não vou me matar. E se eu me matar, não vai fazer tanta diferença. Eu só dou trabalho mesmo. Não gosto de ser um encosto. Vou até facilitar a sua... — Lucy não terminou de falar, pois sentira algo chocando contra seu rosto. Emma dera um tapa.
-Jamais diga isso. — Ela disse, devagar, para que a mais nova entendesse perfeitamente sua raiva.
-E-Emma?
-Eu estou falando sério. Nunca, NUNCA MAIS diga uma coisa dessas.
-Mas...
-Você...jamais...será um encosto — Emma então a abraçou. Forte. Mais forte do que nunca se abraçaram.
-Emma...
-Eu te amo, Lucy. Amo mais do que qualquer coisa nesse mundo.
-Emma, eu também te amo.
-Se você fracassar, eu vou até o inferno e o diabo que o parta atrás de você.
-Emma-
-Eu falo sério.
-...Eu sei — Lucy apertou mais o corpo de sua irmã contra o seu. Sabia que o que faria era a coisa mais dificil que teria feito até ali, e que se conseguisse ficar viva, seria um grande feito. Mas sabia que deveria fazer aquilo, não para se vingar da morte dos pais, ou para manter a cidade a salvo, mas para cuidar de sua irmã, mesmo que ela cuide mais de Lucy do que Lucy dela, mas porque uma dependia da outra para viver.
Lá fora estava frio, e nevava mais do que o normal.
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