Mais Um Livro de Contos
2 Amada Dorothy
Notas iniciais
Ó, celebre leitor, que gosta de estudar todo o preenchimento de minhas palavras, todo o vazio de minhas letras, todo espaço de meus pensamentos. Creio que depois de ler o que tenho a dizer, terá opiniões mudadas sobre a minha pessoa, e acredito que muitos deixarão de querer saber até de meu nome.
Mas, meu enfático leitor, você nunca saberia como é. Esta doença, que me consumia cada dia que passava, cada noite que passava, cada vez que... ela passava. Sim, ela era meu desejo, minha vontade, minha vida, minha morte. Aquela, com seus longos fios louros, escondendo seus finos ombros, com seus olhos verdes e brilhantes, curiosos com o mundo, seus lindos sapatinhos de boneca, seu vestidinho de boneca, seu rosto de boneca... ela era inteira, uma boneca.
Que eu queria roubar, consumir, possuí-la e não a perder nunca mais.
Esta era minha doença pela doce Dorothy.
Morar na casa de meu querido irmão jamais fora das minhas escolhas a melhor. Mas os dias transcorriam, e meu vício pela garotinha aumentava.
“Pequena Dolly!” Era como a chamavam. E cada vez que eu ouvia aquele nome, meus olhos a procuravam, pois seus passos apressados me encantavam, seu pulinhos me alegravam, e eu não podia deixar de querê-la por perto ainda mais.
Quando dançava então! Seu pai, meu irmão do meu sangue, sentava em seu majestoso piano, tocando uma melodia maravilhosa. Mas não tanto quanto a voz da pequena Dolly. Aquele som, me fazendo sair do chão, bater a cabeça no teto, e voar como gaivotas ao longo de um pôr-do-sol magnífico. Se a existência de anjos fosse algo a se considerar, seu canto não se compararia com a de minha amada Dolly.
Eu estava fissurado naquela garotinha! Aquela menininha, com seus inocentes 5 anos de idade, mal tinha compreensão sobre o mundo, e com aquela beleza extraordinária que eu nunca vira em mais nenhuma mulher em toda a minha vida. E eu sentia nojo de mim mesmo. Com tantas mulheres, tantos gostos, tantas atitudes, justo uma garotinha assim? Justo a filha de meu irmão? Justo a única por quem eu não deveria me apaixonar?
Sua mãe jamais me causara algum tipo de atração. A ela eu via apenas uma simples mulher, com sua beleza a parte, é claro, mas nada que a tenha se compara com Dolly. Apesar de uma se parecer muita com a outra, a mulher em hipótese alguma me chamava tanta atenção quanto Dorothy.
Quando saíam, era uma tristeza. Se não conseguia manter a concentração quando a pequenina estava perto, imagine quando estava distante de meus olhos! Havia um aperto em meu coração, um cordão me enforcando por dentro e me tirando o ar a cada minuto que passava, até que ela voltava, com seus olhos grandes e cheios de novidades para me contar, repetindo com aquela bela voz “Tio Chris, tio Chris, olha só o que papai me comprou!”. E eu pegava em suas macias mãos, observando o objeto tão falado que ela segurava tão delicadamente, seus dedos curtos e cheios de carne, me inspirando cada vez mais.
Pois se você leu até aqui, meu queridíssimo leitor, então saberá qual foi a grande tragédia, que pôs um fim naquilo tudo que era de suma importância para mim.
Um dia, como eu deveria ter imaginado, meu caro irmão achou textos sobre a minha overdose de Dorothy. Magoado, pediu para que eu me retirasse de sua casa, e eu, sem muito a que dizer, apenas abaixei meu velho rosto de mais de cinqüenta anos e agradeci sua hospitalidade. Porém, meu erro foi demorar demais para sair da sala. A pequena e belíssima Dorothy entrou, com o pijama mais fofo que continha, querendo saber o que estava acontecendo. Sua mãe a pegou no colo, com mãos tremulas. Foi quando a garotinha viu minhas malas, e, triste e rouca, disse que não queria que eu fosse embora. Eu enlouqueci. Quis ir em direção a garota, quis pegá-la no colo, roubar dos braços da mãe, levá-la e esquecer de tudo que poderia estragar nosso amor. Mas meu irmão me impediu. Me empurrou, me socou, chamou-me de insano, e disse que me internaria em qualquer lugar longe daquele lar. A confusão assustou a garota, que abriu um berreiro, e as duas mulheres saíram do local. E aquele choro, aquelas lágrimas, aquele medo, me pararam, e parecia que meu coração se tingira de negro. Meu irmão, percebendo que algo havia me paralisado, se distanciou de mim, e pediu a minha retirada imediatamente.
Eu o fiz, com meus passos lentos e mortais, como se algo houvesse mudado completamente minha vida.
E algo mudou.
Fui para o primeiro local que eu pudesse dormir por uma noite, e cá estou eu, tirando todos os meus pensamentos para fora.
Pois toda minha angústia, de não ter minha pequena Dorothy em mãos, não fora tão grande por ter a visto assustada da minha própria pessoa. Descobri enfim, o monstro que realmente me tornei, e termino dizendo que meu final foi digno de um ser desprezível como eu.
Meu nó já está pronto. Agora, eu hei de partir de mãos vazias. Sem minha amada Dorothy.
Christopher Hughes
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