Notas iniciais
Uma amizade dentro de um onibus, com história de vida de duas pessoas normais, vivendo os problemas normais - da vida.

O garoto todos os dias pegava o mesmo onibus de manhã cedo. Como pegava sempre o mesmo onibus, acabara definindo um lugar específico. Todos os dias de manhã, o garoto pegava o mesmo onibus e sentava no mesmo lugar.

Um dia, uma garota pegou o seu lugar. Então o garoto, emburrado, pegou o lugar do lado do vidro. Não que ele não gostasse de sentar olhando para a rua, mas não gostava de sentar ao lado de ninguém.

Aí que as coisas começaram a se repetir. Todo o dia, a garota chegava antes que ele, e sentava no mesmo lugar. E ele, contrariado, tinha que sentar no lugar da janela.

Até que a garota começou a puxar conversa com o garoto.

Ele não reclamava, não era mal educado com ela, respondia tudo, mas não dava continuidade a conversa.

Mas passaram tantos dias de conversas, que ele não se importou mais com aquelas coisas, e tornou a garota como uma \"companheira de onibus\" — Pode se dizer que eram amigos, mas amizades eram coisas de outro mundo para aquele garoto.

E, um dia, choveu.

O garoto entrou no onibus e a garota logo percebeu que ele não estava bem. Sabia que seu humor não era dos melhores, mas parecia beem pior, comparado com o normal. Eles tinham uma boa conversa sim, mas ela sabia que o garoto era do tipo quieto, solitário, talvez até triste. Mas aquele dia, estava pior.

-Que tempinho, não?

-Ahãm.

Ela tentou puxar mais algum assunto, mas era dificil. O garoto estava do mesmo jeito do dia em que ela conversou com ele pela primeira vez. Talvez até pior.

No segundo dia de chuva, estava pior. O garoto parecia que iria socá-la cada vez que a garota abria a boca.

No terceiro dia, o garoto não aguentou.

-Você poderia, por favor, fechar essa boca e não abri-la mais até eu descer do onibus?

-Sinto muito se estou querendo ser educada.

-Não-sinta-muito.

Os dois continuaram de mau humor. Estavam no quarto dia de chuva, e a garota tentou mais uma vez, melhorar a situação.

-A previsão diz que vai parar de chover hoje.

-Ainda bem. Escute, eu... eu deveria me desculpar por ontem. Não deveria ter sido tão grosseiro com.... com quem só quer conversar comigo.

-Não tem problema. Mas... há algum motivo pra você estar assim?

-Não. Eu estou normal.

A garota percebia que ele estava mentindo. Aliás, achou o garoto um péssimo mentiroso.

-Desculpe. Não queria me meter nos seus assuntos particulares.

-Olha, eu... não é que eu não queira te contar, é que... quer mesmo saber?

Ela olhou para ele, séria, e depois balançou a cabeça, concordando.

-Eu... digamos que a minha família não era das melhores. Quero dizer, tinha mãe, pai, irmãos... Mas... não era aquilo que se espera pra uma familia.

A garota continuou em silêncio, não querendo interrompê-lo. Ele apenas virou o rosto para a janela, olhando as gotas escorrerem lentamente do vidro.

-Nossa vida financeira não era das melhores, e só complicou depois de... Nós eramos em seis. Meu pai, minha mãe, eu e meus três irmãos. Porém, o mais velho morreu em um assalto e meu pai.... digamos que ele era o favorito, então meu pai enlouqueceu. Começou a se embebedar e... não parou mais.

-Isso é terrivel. — A garota colocou as mãos nos lábios, aterrorizada.

-Na verdade, o pior talvez não fosse isso. Eu estava lá quando meu irmão foi morto. Na verdade, ele morreu por tentar me defender. E meu pai... começou a me culpar por causa disso. E... como foi em um dia de chuva... Toda vez que chovia, meu pai relembrava de momentos com seu precioso filho, e dizia toda vez o quanto ele se arrependia de ter um filho bastardo como eu.

-Que coisa mais horrivel de se dizer!

-Eu sei. Ele tentava me bater, mas minha mãe me defendia, o que era pior... Ela apanhava, e quando eu a defendia, nós dois apanhavamos. Até que, finalmente, nosso pai morreu do fígado. Minha mãe ficou doente após isso, e morreu também. E o resto de meus irmãos, bem... o mais novo me culpava também, pois não sabia de nada do que acontecera por ser muito pequeno na epoca em que acontecera tudo, então a anos não falo mais com ele, e a mais velha... ela também presenciou tudo, e digamos que é meio... protetora. Me liga todos os dias, sempre querendo me ajudar nos meus problemas. Bem metida.

-Mas isso é bom. Digo, alguém que se preocupe com você.

-É, mas mesmo assim, as vezes chega a ser grudenta. Não que eu não a ame. Mas... eu prometi a mim mesmo que nunca seria alguém como meu pai, mas... percebi que tenho o mesmo mau humor dele em dias de chuva.

O garoto disse isso colocando a mão no rosto, envergonhado. A garota sorriu.

-Mas isso não tem problema, afinal, você tem o porque ficar chateado em dia de chuva. Na verdade, a maior parte da população fica estressado em dia de chuva, sabia?

-E você? É estressada na chuva?

-Eu? Não não. Amo chuva. Quando era pequena, minha avó dizia que chovia porque era dia de faxina na casa dos anjos. E aquilo era tudo que sobrava da santidade deles. Ando de guarda-chuva pra não reclamarem da agua nos locais, mas se pudesse, nunca usaria, para ter um pouco das sobras da santidade dos anjos em meu corpo.

-Isso é ...esquisito.

A garota riu.

-Eu sei. Mas é divertido, não acha?

-Bastante.

A menina levou sua mão enluvada até a mão gelada do garoto, e assim eles ficaram, rindo e de mãos dadas, em um onibus no meio da chuva.

Notas finais
Se ficou muito confuso o inicio desculpem, eu arrumo depois