Mais Que Um Professor

9 Capítulo 9 - Aproveitando o Momento


Entrei no carro. Ele começou a dirigir.

– Onde estamos indo?

– Não vou ficar conversando com uma aluna, dentro do meu carro, nos arredores do colégio. Vamos para algum lugar isolado.

Assenti. Ele tinha razão. Seria bem embaraçoso caso alguém nos visse.

Não muito perto do colégio e nem muito longe, tinha um beco bastante isolado. Não passava carros e nem ninguém. Ele dirigiu até lá.

Eu certamente não estava em perfeito juízo. O que me deu na cabeça em entrar, sozinha, no carro de um professor que eu mal sabia sobre? Mas decidi dar um voto de confiança para ele. E também onde mais teríamos nossa conversa? Dentro da sala que não iria ser.

Ele parou o carro. Ambos ficamos olhando para frente por algum tempo. Aquilo estava me deixando nervosa.

– Então... – ele se virou para mim.

Continuei olhando para frente, não conseguia encará-lo.

– Desculpa por te deixar confusa. Sei que já disse isso no e-mail, mas não custa repetir.

Atrevi-me a olhá-lo. Tão bonito, tão atraente...

– Não tem problema. Mas você bem que poderia ter me pedido para ficar depois da prova, no último dia de aula. Passei duas semanas me fazendo milhares de perguntas, e quase enlouquecendo diante de tantas incertezas.

– Tinha outra aluna na sala, eu não poderia correr o risco. Eu também me fiz milhares de perguntas, Anna. Não foi fácil.

– Não tão fácil a ponto de me provocar hoje. O que foi aquilo? Coisas do coração? Sério, Vitor? Você sabia o que estava acontecendo.

Ele me olhava cautelosamente. Quando eu acabei de falar, ele deu um riso contido e segurou uma das minhas mãos que estava sobre a minha perna. Aquele toque desencadeou várias lembranças em mim. Me tranquilizou.

– Não podia perder a oportunidade de te provocar – um sorriso torto apareceu em seu rosto. – Queria falar com você, queria que soubesse que eu não tinha esquecido o nosso momento, que eu não tinha te esquecido, – ele então, começou a acariciar minha mão. Não estou bem. – De que outro jeito eu poderia me dirigir a você sem levantar suspeitas?

Então ele queria me lembrar. Com a cabeça baixa, sorri. Ele novamente tinha razão. Poderíamos ser um do outro?

– Anna, você entende o que isso é? Ou melhor, o que isso será?

– Como assim?

– Nós dois.

– Existe um nós dois? – perguntei. Eu não podia acreditar.

– Ainda não, mas eu gostaria que houvesse. Você está de acordo com isso? – Tão formal, parecia que eu estava assinando um contrato.

Meu Deus. Ele ainda segurava minha mão. Não estou bem, definitivamente.

– Sim – não consegui fitá-lo. Eu estava tensa. Envergonhada, me virei para frente.

Ele começou a se aproximar de mim, e pegando no meu queixo, me virou de modo que eu o olhasse. Colocou uma de suas mãos na minha cintura, e continuou com a outra sob a minha.

– Mas você consegue entender o que será daqui pra frente? Anna, eu não vou poder ser o seu namorado. Sair com você, segurar sua mão publicamente, ir à sua casa, me apresentar para os seus pais. Ou até mesmo me aproximar muito de você. A sala de aula, a escola, será uma zona de perigo. Eu terei que, estritamente, manter a relação professor-aluna. Não mais do que isso.

– Eu sei. Tudo terá que ser escondido.

– Sim. Eu ainda não sei como isso vai funcionar, mas podemos tentar.

Ficamos olhando um para o outro. Eu o queria, e queria que ele me quisesse. Eu queria tentar, e não poderia estar mais feliz por ele querer também. Assim, também segurei a mão dele. E com esse gesto de reciprocidade ele se aproximou ainda mais. Começou a me acariciar, tirou uma mecha de cabelo que estava caída em meu rosto, e passou seu dedo polegar pelo meu queixo, meu lábio inferior... Eu o olhava atônita. Colocou uma mão em meu pescoço, e lentamente, desceu a outra para minha coxa. Deu-me um demorado selinho, e depois me olhou para confirmar se eu estava de acordo com tudo. É claro que eu estava. Então me aproximei ainda mais dele. Coloquei minhas mãos em seu pescoço e o beijei. E ele retribuiu. A euforia do momento me queimava por dentro. Aquela boca macia que me tomava sem pressa.

Repentinamente, ele parou. O que eu havia feito de errado? Antes que minha insegurança pudesse me torturar, ele começa a me olhar de forma profunda. De uma forma que nenhum garoto havia me olhado. Seu sorriso malicioso de praxe surge, e ele toma meu rosto em suas mãos. Me abraça mais firme, e me beija de novo. Mais precisamente, mais forte. Sua mão deslizava pela minha perna. E quando sua barba começou a roçar meu pescoço, eu senti algo que eu nunca senti antes. Se esse termo cabe ao momento, eu transcendi.

Ficamos nos beijando por alguns minutos. Assim que paramos, eu me inclino e descanso minha cabeça em seu ombro. Como se ele fosse meu namorado de verdade, por mais inadequado que toda essa situação fosse.

Ele segurava minha mão. Para quebrar o silêncio, perguntou:

– Como foi seu recesso?

– Descansei bastante, passei uma semana na casa da minha avó com meus pais... Nada demais. E o seu?

– Assim como você, descansei bastante. Fiquei também revivendo o ocorrido, e imaginando formas disso dar certo.

– Pelo visto você não chegou a uma conclusão.

– É, não cheguei. Existe alguma conclusão para isso?

– Certamente não.

– Eu tinha que conversar com você, não poderia decidir sozinho. Já que você está de acordo, a melhor maneira de isso dar certo é tentando. Nunca tive que me esconder em um beco, por exemplo – ele riu. Eu também.

– Pensei que você fosse daqui.

– Não. Eu me mudei esse ano, depois de passar no concurso.

Eu tinha algumas curiosidades a serem supridas. O momento era propício.

– Desde a festa junina algo me incomoda, aquela câmera era sua?

– Era.

– Você tem uma foto minha então?

– Tenho. Como eu não quero parecer um perseguidor ou algo do gênero, devo te avisar que tirei foto da maioria dos alunos. Mas quando te vi você estava sozinha, e como não sabia em que momento a veria de novo, pedi para tirar a foto. Você está linda nela – corei de vergonha. – Agora ela é uma foto importante.

– E aquele papo de “muitos esperam a chance de te conhecer, inclusive aqui nesta festa”?

– Era eu te provocando. Nada mais.

Continuei com meu questionário:

– É meio ilógico eu perguntar isso agora, mas, você tem namorada?

Depois de rir, ele respondeu:

– Não, Anna. Se eu tivesse eu não estaria com você aqui agora. Eu nem olharia pra você.

– Vai saber... Tantos homens canalhas por aí, você poderia ser um. Pior do que sair com um professor, é ser amante de um professor treze anos mais velho que você – rimos juntos.

– Eu tenho cara de canalha?

– Um pouco – tirei minha cabeça do seu ombro e sorri para ele. Dei um beijo em seu rosto. – Por que eu?

– Te acho interessante.

– Desenvolva essa resposta – tentei imitá-lo. Ele sempre diz isso quando alguém não responde direito suas perguntas.

Ele riu.

– Sempre percebi seus olhos brilhando. Percebo o de todas as alunas que olham assim pra mim. Nunca retribui o olhar de nenhuma aluna que tive, nunca as olhei de forma diferente. Sempre fui muito profissional. Além de que adolescentes não costumam chamar minha atenção. Mas foi eu me atrever a olhá-la de forma diferente que algo aflorou em mim. Comecei a brincar com você, falar mais com você, voltar minha atenção a você. No entanto, nada disso parecia certo, e ao mesmo tempo, não parecia errado. Você é especial, Anna. O momento apareceu e eu me atrevi a aproveitá-lo.

Aproveitar o momento. Sorri.

– Me atrevi a correr o risco – sussurrou em meu ouvido.

Queria poder ficar ali para sempre, mas já estava começando a escurecer e minha mãe daria minha falta.

– Vitor, é melhor eu ir.

– Por um momento esqueci que você tem dezessete anos e deve satisfações a seus pais – rimos. – Vou te levar pra casa.

– Você ficou louco? – exclamei.

– Não vou te deixar na porta da sua casa, Anna. Mas você não vai andar sozinha. Agora eu tomo conta de você – ele me beijou rapidamente e ligou o carro.

Não consegui digerir aquilo. O professor responsável pelos devaneios me beijou: ok. Me mandou um e-mail onde pedia desculpas por me deixar confusa: ok. Me provocou durante a aula: ok. Me parou no meio do caminho com seu carro: ok. Decidimos tentar algo e nos beijamos intensamente: ainda estou digerindo. Agora ele iria tomar conta de mim? Estou sonhando, só pode ser.

– Anna? – sua voz me trouxe de volta a realidade.

– Oi?

– Você contou para alguém sobre nós?

– Não – menti.

– É importante que não conte. Nem para suas amigas. Ninguém sabe o dia de amanhã, vocês podem brigar e elas usarem isso contra você. Ambos temos muito a perder.

Assenti. Ele, como sempre, tinha razão. Mas eu não conseguiria lidar com isso sozinha, tinha que falar para alguém. Eu havia contado somente para a Duda. Confio nela. Confio também na nossa amizade. Mesmo que brigássemos, ela não seria tão baixa a ponto de usar um segredo contra mim. Um segredo que prejudicaria outra pessoa além de mim. Ela é sensata demais para tal.

Ele parou há uns dez metros da minha casa. Antes de eu ir, peguei seu celular que estava no seu bolso e gravei meu número. Sorrimos um para o outro e eu saí. De longe, me observou até eu entrar em casa e só depois foi embora.

Felizmente, não tinha ninguém em casa para notar e questionar meu estado de êxtase. Em cima da mesa da cozinha estava um bilhete:

“Fomos ao supermercado. Seu irmão foi para a academia.

Te amamos.

Beijos, mamãe e papai.”

Eles raramente se denominavam “mamãe e papai”, mas achava fofo quando faziam.

Subi para o meu quarto. Parecia que eu estava flutuando em meio aos meus delírios, que agora não eram mais delírios. Tanta coisa havia acontecido, depois de tanto tempo. A mudança que eu ansiava, a novidade.

Após um tempo escutei meus pais chegando, mas não consegui descer para cumprimentá-los. Nem jantar eu fui. Só levantei para tomar banho e colocar meu pijama. Eu estava presa dentro dos meus pensamentos revivendo os acontecimentos do dia.

Estava contente comigo mesma, pela nova experiência, pelo momento que eu me deixei aproveitar. Ele era especial e muito cauteloso. Nunca havia sido tratada daquela maneira. Ao mesmo tempo em que é carinhoso, é conciso e bem resolvido. Confiante. Discreto e equilibrado. Qualidades que me faltam. Logo me lembrei da sua primeira aula: as cargas opostas se atraem.

Eu me questionava a todo tempo se eu sabia onde estava me metendo. Mas qual o problema em tentar? Seria escondido mesmo.

Mal posso esperar para vê-lo amanhã.

Notas finais
O que acharam do capítulo? Gostaram? Estão felizes com o rumo que a fic que está tomando? Fico bastante contente quando comentam! Beijos.