Mais Que Um Professor

8 Capítulo 8 - Indecifrável


Tentei não pensar mais nesse assunto, as incertezas estavam me enlouquecendo. Descansar era o que eu ia fazer, afinal, duas semanas de férias me aguardavam. Sendo a mente vazia a propulsora das minhas paranoias, eu iria tentar aproveitar o máximo também. Me divertir e me distrair.

Ele não me mandou mais e-mails. E sabendo o quanto a pressão alheia incomoda, também não mandei nada. Não queria conduzir essa dança.

A Duda respeitou meu pedido e não contou para nenhuma das meninas, mas ficava me perturbando com constantes mensagens:

“Bom dia, Rússia!”

Mensagens que não abriam nenhuma margem a ponto de alguém ler e entender. Evitávamos falar sobre. Até mesmo porque não tinha nada para ser dito.

Uma semana se passou e não fiz absolutamente nada. Mas não me incomodei, foi bom. Fazer nada é algo que me alegra. Sem preocupações, sem estresse.

**

Na última semana de férias meus pais inventaram de viajar. Fomos à casa da minha avó, que morava em outro estado. Que saudades eu estava dela.

Dias normais se seguiram, acompanhados de uma boa dose de conversas e risadas. A família toda estava lá.

– E os meninos, minha querida? Nenhum namorado para me apresentar? – suavemente, minha avó me perguntou enquanto me abraçava no sofá. Ela tem uns setenta anos, não é muito pequena e é bem magrinha. Cabelos brancos e um sorriso sereno.

– Se contar os livros e os personagens fictícios, ela tem vários para te apresentar, vó – meu irmão, engraçadíssimo.

– Esses são os melhores namorados, continue assim querida.

Esses assuntos que antes eu fugia, agora, após o ocorrido, são engraçados. Não estou tão mal assim.

Aproveitei o clima do momento, e me atrevi a perguntar:

– Vó? Mãe? Vocês já namoraram um homem mais velho? O que acham disso?

– Seu avô é cinco anos mais velho que eu. Geralmente, por serem mais velhos, são mais maduros e sábios. E isso é bom. Mas acho que a idade não delimita nada, depende muito de quem é o homem também.

– Já namorei um homem que era seis anos mais velho que eu. Foi estranho, ele me inferiorizava por eu ser mais nova. Não ouvia minhas opiniões, era mandão, e sempre estava certo. Tudo isso por ser mais velho. Mas sempre me tratava muito bem, e gostava de mim. Foi uma boa experiência, mas eu não iria aguentar viver com ele – contou minha mãe.

– Como você ainda é novinha, se atenha aos no máximo, três anos mais velho – determinou minha avó.

– Três? Um ano mais velho está mais do que bom – fingindo uma feição de brava, murmurou minha mãe.

Sorri e saí da sala. O fato de ele ser maduro e sábio me encanta bastante. Mas não sei se quero ser inferiorizada por ser bem mais nova. Aliás, nem sei por que cogito opiniões. Não existe um nós para eu poder opinar.

Foi uma boa semana, mas nada melhor do que chegar em casa. A coisa que mais almejei durante esses dias foi a minha cama. Preciso descansar, amanhã voltam às aulas e meu psicológico clama por umas horas bem dormidas de sono.

**

Ultimamente venho tendo sonhos muito intensos, e na madrugada de hoje não foi diferente.

No sonho, fui com meu pai em um parque aquático, e ao chegar lá um grande temporal começou. Nunca fui muito fã de praias por conta dos mares imensos e infinitos, e só de pensar em maremotos sinto calafrios. No entanto, simpatizo com piscinas. Pequenas e finitas.

Mas não neste sonho, conforme o temporal ia aumentando as águas das piscinas iam crescendo, ondas se formavam e o meu medo de ser sufocada por toda aquela água ia cada vez mais aumentando. Foi horrível.

Será que essas ondas representavam os meus sentimentos, e o medo que tenho é de ser afogada, sufocada por eles? Devo eu confiar em Freud, que dizia que sonhos são gerados na busca pela realização de um desejo reprimido?

Indo para o colégio, comecei a imaginar a reação dos outros caso soubessem do meu segredo. Das minhas amigas, eu já sabia que poderia contar com uma só. Mas tem alguém que aviva bastante a minha curiosidade: Otávio. Não sei até que ponto suas brincadeiras afetam sua opinião. Também não sei se quero cruzar essa linha tênue para descobrir.

Primeiramente, ele nunca gostou do nosso adorável professor de física. E segundo suas mensagens, ele chamaria a polícia se algo acontecesse. Além de considerá-lo um aproveitador de situações. Isso tudo era dito em tom de brincadeira, mas e se o meu querido amigo realmente acredita nas coisas que diz? Caso sim, eu não poderia contar com ele também.

Acho que se as outras pessoas descobrissem, suas opiniões iriam se dividir em duas: uma parte iria me julgar por ter me insinuado (o que é uma calúnia, já que, apesar dos meus olhos estarem constantemente brilhando, nunca me insinuei de modo provocativo). E a outra parte iria julgá-lo de aproveitador, canalha e antiético. O que eu não o considero.

Quanto mais eu me aproximava do meu destino, mais eu me apavorava. Segunda-feira tinha aula de física. Eu o veria.

Entrei na sala e fui, como de costume, sentar ao meu lugar. Todos da sala estavam conversando, contando novidades. Já que eu não tinha nenhuma, e a que eu tinha não podia contar, me aquietei em minha carteira. As meninas logo chegaram: Isa me cumprimentou, Vic acenou para mim, e a Duda me dirigiu um lindo sorriso seguido por uma piscada demorada. Ela sabia que eu o veria hoje.

Não demorou para o Otávio perceber que eu estava estranha, e sem delongas, veio até a mim:

– O que aconteceu, Anna?

– Oi, Anna. Como foram suas férias? – tentei fugir do assunto o provocando por não ter me cumprimentado formalmente.

– Oi Anna. A segunda pergunta me recuso a fazer, independente do que acontece nelas, férias são sempre boas. Descansar e passar duas semanas sem preocupações fazendo nada é maravilhoso – ele tinha razão – Mas voltando ao assunto inicial, de acordo com a sua feição, você não está muito bem.

Claro que eu não estava bem, o meu receio estava me sufocando. Mas, infelizmente, não podia contar para ele. Nem eu sabia o que estava acontecendo ao certo.

– O que aconteceu? Nada. Por isso estou estranha. Nada acontece na minha vida, nada acontece comigo – meu tom soou um tanto ríspido, mas não consegui controlar, estava impaciente.

Ele me olhou de forma “não é isso que está acontecendo, eu sei” por alguns instantes e para me agradar, disse:

– Nada acontece na minha vida também, vamos ficar estranhos o dia todo então.

Ao se virar, notei que apesar de suas brincadeiras e de a maioria das pessoas gostarem dele, assim como eu, ele era bem solitário. Seus pais viajavam frequentemente por conta do trabalho, e ele ficava sozinho em sua casa. Tinha uma irmã mais velha que já era casada, mas não gostava de ficar na casa dela. Teve uma época que o Otávio praticamente morou na minha casa, não saía de lá. Meus pais nunca se importaram, compreendiam o quanto era difícil ficar sozinho.

Ele tinha uma namorada. Ficaram dois anos juntos, do primeiro ao segundo ano. Terminaram nas férias desse ano. Ela iria mudar de colégio, e os dois acharam melhor se afastar. A meu ver, é um motivo bobo, mas nunca expressei essa minha opinião. O Otávio nunca foi um daqueles meninos loucamente apaixonados, mas gostava dela. E ela dele. Desde então, ele lida bem com esse término.

Se eu não fosse tão amiga dele, e não o conhecesse desde os doze anos, a probabilidade de eu me encantar por ele seria grande. Divertido, companheiro, inteligente e gentil. Além de bonito. Mas sou muito sortuda por tê-lo como melhor amigo, e não arriscaria perdê-lo por algo incerto e que pode muito bem ser passageiro. “Namorados vão, amigos ficam”, já ouvi muito isso.

Recebi uma mensagem da Duda:

“Está ansiosa?”

Respondi:

“Estou insatisfeita.”

E ela mandou de volta:

“Está mal-humorada também. Conte-me uma coisa: o temperamento russo pode ser transmitido através da saliva?”

Estava distraída quando percebi que ele havia chego. Entrou na sala e sorriu pra mim. Não sorri de volta, não senti vontade. Ainda não sei as intenções dele.

Passei a aula com uma expressão diferente da que adoto habitualmente. Eu não estava feliz, não precisava esconder. Eu queria saber o que ele tinha a dizer, e não aguentava mais esperar.

Final da aula, as pessoas estavam saindo para o intervalo. E eu estava sentada em minha cadeira, presa em um redemoinho de pensamentos. Quando, de repente, fui surpreendida por uma voz grave:

– O que aconteceu, Anna? – ele estava sorrindo descaradamente para mim. O que tinha acontecido? Só ele podia responder. – Está tudo bem? Parece que está meio amuada.

Tentei sorrir de forma sarcástica, queria mostrar confiança. Mas aposto que eu mais aparentava um daqueles sorrisos murchos obrigatórios.

– O que aconteceu? Nada? – ele continuava a sorrir descaradamente.

– É, nada – e assenti com a cabeça, querendo e não querendo dizer isto ao mesmo tempo.

– Coisas do coração? – e ele dá aquele sorriso bobo e malicioso irresistível.

Ele queria me provocar.

– Talvez – respondi.

E antes de sair da sala, ele olha pra mim, dá mais um sorriso que salientou suas covinhas, e diz para os alunos que ainda estavam na sala:

– Às quatro horas volto. Até a próxima aula.

Por conta dessa breve conversa, comecei a seguir outra vertente de pensamento. Comecei a achar que ele estava debochando de mim, que ele realmente se aproveitou do meu encantamento por ele. Coisas do coração? Sério? Ele sabia o que estava acontecendo. Pela primeira vez, essa personalidade indecifrável dele estava me irritando.

A aula depois do intervalo era dele. Durante todo o tempo fiquei com a cabeça abaixada. Não conseguia fitá-lo. E nas vezes que espiei, ele seguia com sua aula como se nada tivesse acontecido, como se eu não existisse. Sou uma estúpida mesmo.

O sinal estava prestes a bater e me apressei como pude, para ser a primeira a sair. Não queria esperar para falar com o senhor Vitor. Se ele quisesse falar comigo já teria dado algum sinal.

Voltei para a casa me torturando pelo o quanto me deixo levar pelas situações. Estava no meio do caminho, quando um carro para ao meu lado. Antes que eu pudesse surtar com um possível sequestro, a janela se abaixa. Era ele.

Rapidamente esqueci tudo o que pensei ao longo do dia, ele havia vindo atrás de mim. Forcei-me a não sorrir, tentei ficar séria.

– Ainda podemos ter a nossa conversa? – ele deve ter percebido meu descontentamento, pois seus olhos indicavam um aparente pedido de desculpas.

Assenti, e sem sair do carro, ele abriu a porta do passageiro pra mim.

Por um breve momento ponderei se o que eu estava prestes a fazer era certo, mas eu não podia me dar o luxo de pensar no quanto aquilo era errado. Eu tinha que aproveitar o momento.

Notas finais
Como vocês estão? Gostaram do capítulo? O que esperam nos próximos? Comentem me contando. Obrigada por acompanharem! Beijos. P.s.: Vocês têm um professor como o Vitor? Se sim, já fantasiaram (ou participaram de) alguma situação com ele?