Mais Que Um Professor
5 Capítulo 5 - Quando o Inesperado Acontece
A festa junina ocorreria daqui dois dias. Estava quase tudo pronto, faltando apenas alguns detalhes. Tudo seguia normalmente, a não ser pelos segundos a mais que o Vitor me olhava após dizer meu nome durante a chamada. Isso estava ficando estranho. Mas ao mesmo tempo, abria uma ótima vertente para os meus devaneios. “Um olhar diz mais que mil palavras”, será?
Indo pra sala, quando o Otávio me para no meio do caminho:
– Anna, venha comigo. Acho melhor não ir para a sala agora, o clima por lá não é dos melhores.
– O que aconteceu? – comecei a ficar preocupada.
– Vamos para um lugar mais calmo.
– Não estou entendendo.
– Você já vai entender.
Otávio me levou para fora, e sentamos na escadaria do colégio. Eu realmente queria saber o que estava acontecendo.
– Por que não me deixou entrar na sala, e me trouxe até aqui? Foi uma briga? Eu poderia ajudar a apaziguar os envolvidos, como já fiz em outras ocasiões. Sabe que sei lidar com essas situações.
– Claro que sei. Mas você saberia chegar na sala e lidar com algo que te envolve?
– Com algo que me envolve? – estou confusa.
– Preciso te contar uma coisa, sobre o Felipe.
Felipe, o menino que gostei no primeiro ano. Há tempos que não penso nele... Foi a primeira pessoa que vi no colégio, a primeira que chamou minha atenção. Eu era uma aluna nova, não conhecia quase ninguém, e ao chegar à nova sala me deparei com ele: olhos puxados, cabelo bagunçado, um pouco alto e dono de um lindo sorriso tímido. Fiquei encantada. Uma nova escola era um novo mundo cheio de possibilidades e começos. Ele poderia ser um.
Devido a sua timidez, foi difícil iniciar uma conversa. Mas com o tempo fui me aproximando (e forçando algo que só existia na minha cabeça). Ele dirigia alguns sorrisos a mim, me olhava, e eu era sua única amiga menina. Mas fora esses pequenos detalhes, nunca demonstrou nada que pudesse ser interpretado como um sinal. Um sinal que me incentivasse a me declarar.
Muito pouco eu sabia sobre ele. Tratava-me tremendamente bem, e no outro segundo, tremendamente mal. Ele era estranho. Uma pergunta sem resposta. Às vezes eu tentava me aproximar mais, pegava em uma de suas mãos, mas ele rapidamente se afastava e retirava minha mão.
Todos nos viam como um casal, e como sabiam que eu queria muito que algo acontecesse, viviam tentando convencê-lo, o que o incomodava muito. Chegavam até a pressioná-lo. Depois de muita insistência por parte de todos, ele deve ter se irritado, e em uma das vezes aceitou ir conversar comigo a sós. Fomos a um dos cantos do colégio, e ele ficou lá, parado me olhando sem dizer nada. Entendi como um sinal, me aproximei e o beijei. Ele retribuiu o beijo, e depois de um tempo ali, saiu sem dizer nada.
Depois disso não se dirigiu a mim em nenhum momento, nem sequer respondeu minhas mensagens. Fiquei com vergonha em confrontá-lo na sala, perto de todos. O curioso foi que no dia seguinte ele estava parado no mesmo canto, no mesmo horário, como se estivesse me esperando. Fui até lá e nos beijamos novamente. Isso aconteceu durante três dias. No terceiro dia, ele interrompeu nosso beijo e disse:
– Não posso mais fazer isso, desculpa.
– Por que você é tão estranho? Sabe que sou a fim de você faz tempo, e mesmo assim deixou isso acontecer. Por quê?
– Foi um erro. É complicado. Não quero te magoar, Anna.
– Mas magoou.
Dessa vez quem saiu fui eu, e nunca mais falei com ele. Nunca mais falei com aquele que destruiu a minha autoestima. Eu não era boa o suficiente pra ele? O que havia de errado comigo? Ele também nunca mais falou comigo, muito menos olhou pra mim.
– Sobre o Felipe? O que aconteceu?
– Você sabe que ele e o Thomas tem se aproximado muito ultimamente. Só que essa aproximação rompeu uma barreira. E resumindo, o pai do Thomas flagrou os dois em um momento íntimo. E a irmã do Thomas, contou tudo para uma de suas amigas, que estuda na nossa sala. Maldosa como só, tratou de espalhar para todos. E tratou também de divulgar seus comentários preconceituosos, e através deles, zombar de quem um dia já gostou do Felipe. Você.
O Felipe gostava de meninos? Não consegui dizer nada. Apenas fiquei parada olhando para o nada. Otávio me olhava de forma condolente e tentou reviver alguma expressão em mim:
– Anna, é a resposta pra tudo. O problema nunca foi com você, era com ele mesmo. Não quero que se sinta mal. Isso tinha de ser dito a você por um amigo, por isso achei melhor você não entrar na sala. Não queria que soubesse dessa notícia por zombarias.
Durante dois minutos continuei sem dizer nada, mas o Otávio merecia um esforço da minha parte. Ele foi um bom amigo.
– Fez bem. Obrigada.
– Como você se sente em relação a isso?
– Sinto que perdi tempo. Me sinto usada. Usada em uma experiência na qual ele testou seu gosto por meninas. A experiência que falhou, que o fez perceber que gostava de meninos.
Vejo tudo o que acreditei por tanto tempo se desmoronar em uma ladeira de mentiras (que poderiam ser previstas).
– Não pense assim. Não se torture por isso. Veja por outro lado, você o ajudou a se encontrar. Tudo aconteceu porque tinha que acontecer. E tudo isso te transformou no que você é hoje. Cadê a menina que acredita que cada detalhe da sua vida a transforma no que ela é hoje, e no que será amanhã?
Uma lágrima caiu dos meus olhos. Por que essas coisas têm de acontecer justo comigo? Por que nada dá certo?
Logo me vi rodeada por três pessoas além do Otávio: Duda, Isa e Vic. Eles me abraçaram durante um tempo, até eu me sentir bem.
As zombarias eventualmente foram surgindo. Inclusive cheguei na sala e me deparei com a seguinte mensagem escrita na lousa:
“Para Anna: fazer aulas de interpretação de sinais urgente. Tratar com Felipe.”
A aula seguinte era do Vitor. Ele entrou, olhou para lousa e rapidamente apagou o recado. Disse, em seguida:
– O que mais aprecio em uma pessoa é o respeito. Quem escreveu isso deveria parar de se preocupar com assuntos alheios, e fazer uma aula de boas maneiras. Tratar comigo mesmo, aliás. Insensíveis.
Fui surpreendida por um papel na minha mesa. Era um bilhete, Duda havia mandado.
“O pai do Thomas veio conversar com os professores. Ele sabe. E deve saber de você também, o assunto se espalhou por todo o colégio.”
Ele prosseguiu com a aula. Fiquei feliz por sua atitude.
**
Marcada para o fim de maio, finalmente chegou o dia da festa junina. Eu estava um tanto desanimada, afinal fazia apenas dois dias desde que descobri a notícia que me deixou desolada.Mas tentei aproveitar da forma que pude.
No final da tarde, me afastei das minhas amigas para ir comprar um suco, e quando voltei ao lugar que as deixei, elas não estavam mais lá. Logo lembrei que os pirulitos do correio elegante haviam acabado, e elas iriam buscar mais em uma das salas do andar de cima para repor.
Andando sozinha, quando em um dos corredores, alguém me para:
– Anna! Deixa eu tirar uma foto sua... – era o professor Vitor. Aquela câmera era dele ou do colégio? De qualquer maneira, sorri para a foto.
Em seguida sou surpreendida por uma pergunta:
– E aí, você vai dançar com aquele menino que, vamos dizer, te assustou?
Ri de forma sarcástica, não teve graça.
Ele percebeu meu descontentamento e logo quebrou o breve silêncio:
– Você não pode ficar assim...
– E você nem sabe da história pra dizer como devo me sentir.
– Anna, você tem que estar preparada para essas coisas, vivemos em um mundo moderno e você não pode ficar triste simplesmente porque não tem culpa. Como dizem mesmo? A fila anda...E aposto que muitos estão esperando uma chance para te conhecer. Inclusive aqui nesta festa – um sorriso torto apareceu em seu rosto.
Assenti com a cabeça. “Inclusive aqui nesta festa”?
– Tem razão – disse.
– Sei que tenho.
Mal pude imaginar que seria dele, o melhor conselho que eu viria a receber. Realista e conciso.
Para quebrar o segundo breve silêncio da conversa, desta vez, eu perguntei:
– Mas e você, vai dançar?
Ele sorriu, me olhou nos olhos e respondeu de forma subjetiva:
– Depende com quem...
Meu Deus. Que homem!
**
Felipe e Thomas, ambos, saíram do colégio. Não tive mais notícias dos dois, e acho que nem quero ter. Com isso, as zombarias foram parando e aos poucos os comentários referente à minha “má pontaria” foram cessando.
As provas do segundo bimestre estavam chegando, e minhas dúvidas sobre física estavam aumentando cada vez mais. É difícil se concentrar quando o homem que para você, é o mais charmoso do mundo, está parado em frente à lousa soltando palavras que apesar de não fazerem sentido para você, parecem ser música aos seus ouvidos. Como era possível que só uma voz fizesse isso? Eventualmente, me indagava a respeito disso. O professor Vitor inclusive, no início das aulas sempre nos lembrava da sua disposição para atender nossas dúvidas referentes à matéria.
Parece que ao longo dos dias ele foi me instigando cada vez mais, e parecia também, que ele sabia o que estava fazendo. Como a vez em que o sinal bateu e todos se apressaram para ir embora. Ao sair, me virei em sua direção e disse:
– Tchau, professor Vitor.
Ele me olhou dos pés a cabeça, depois me encarou e respondeu:
– Ô lá em Anna... – e de forma maliciosa (a Duda define como safada) sorriu para mim.
O que aconteceria se eu me aproximasse dele? O que aconteceria caso deixasse apenas um espaço de dez centímetros entre nós e tocasse suas mãos? Como ele me trataria? Quem ele é fora da sala de aula? Sei que são pensamentos tolos, mas gosto de imaginar. Sonhos nos ajudam a suportar a realidade, realmente.
**
Daqui uma semana seria a prova, e todos estavam empenhados em tirar uma nota boa. O sinal da saída tocou,e como sempre, fui a última sair. Impressionante, como isso acontece em todas as aulas. Apesar de que, nesta aula em particular não faço questão de me apressar.
Mas, novamente, quando eu estava prestes a sair, uma voz me interrompe, e desta vez tenho certeza de que não esqueci nenhum casaco:
– Anna, espere!
Olhei em sua direção.
– Cuidado para não esquecer seu casaco... – ele completou.
– Será impossível eu esquecer meu casaco hoje, eu não trouxe um casaco para esquecer.
– Eu sei, só estava brincando – ele sorri. Parecia querer dizer algo, não sei.
Aproveitei o momento e perguntei:
– Ah, professor? Já que estou aqui, será que eu poderia incomodá-lo com uma dúvida? É sobre um dos exercícios que você passou.
– Claro que pode Anna, aliás, você nunca me incomoda – seu sorriso sarcástico que incita suas alunas havia dado espaço a um novo sorriso, um sorriso sincero e doce. Como ele consegue ser tão irresistível? E como conseguir não retribuir um sorriso dele?
Peguei meu caderno na mochila, e me aproximei de sua mesa para procurar o exercício em questão. Notei que ele começou a olhar fixamente para mim. Instantaneamente, fiquei nervosa, mas me esforcei para não deixar isso transparecer.
– Já tentei de todas as maneiras, não consigo chegar ao resulta...
Sou então interrompida, não por um aviso sobre o casaco que poderia ser esquecido, mas por um beijo.
De repente meu mudou parou, não por um milhão de coisas estarem acontecendo, mas pelo o que eu nem em milhão de anos imaginaria que acontecesse, e aconteceu. Foi como se existisse somente eu e ele no mundo. O professor e a aluna. Seu toque, sua barba roçando em meu rosto, meu corpo contra o dele, suas mãos me entrelaçando... Não sabia o que pensar ao certo, só sei que, retribui o beijo. E ali, naquela sala de praxe, na mesma sala onde a rotina e as mesmas pessoas de sempre me cansavam, aconteceu o inesperado. Eu e meu querido professor.
Um temor tomou conta de mim de forma repentina, será que ele estava se aproveitando de mim? A câmera não conseguia pegar sua mesa, mas e se alguém entrasse na sala? Decidi então acabar com aquele momento, e me desfiz daqueles braços e daquele beijo que me envolvia com tanta cautela.
– Por que fez isso? Nós estamos na escola... Não estou entendendo, você é meu professor e não deveria se interessar por mim, não deveria muito menos fazer o que fez – eu sabia que sempre havia desejado aquilo, mas no momento parecia errado.
Ele me olhou atordoado, mas seu olhar indicava que ele sabia exatamente o que estava fazendo. Ele sorriu, esperou um pouco, riu do meu “ataque”, e pacientemente, disse:
– Por que eu fiz isso? A pergunta é, por que eu não deveria ter feito?
– Não estou entendendo.
– Anna, o que você sente por mim? É visível em seu olhar que sua admiração vai além, que não é apenas uma mera admiração...
– Claro que não é só uma admiração. Mas nunca cogitei que isso realmente pudesse acontecer. Eu cumpria devidamente o meu papel de aluna apaixonada, mas você descumpriu o seu de apenas me incitar. Agora que isso aconteceu, não sei como reagir. Estou sendo uma boba. Mas o que eu posso fazer? Você me deixa encantada, Vitor. Provavelmente você faz isso com todas as suas alunas que o olham com um certo brilho, que não piscam e não param de sorrir. E por mais que eu sempre tenha desejado, sinto que é errado porque não confio em você. E que discurso mais bobo esse meu! Eu deveria sair correndo, não sei o que fazer.
Ele riu e me olhou diretamente nos olhos.
– É exatamente por isso que você me chamou a atenção. Você é diferente. E para sua informação, nunca beijei uma aluna. Anna, você é treze anos mais nova que eu! Não sou apaixonado por você, não alimento sentimentos amorosos por você. Não sei ao certo o quê, mas hoje, você se aproximou de mim e eu senti que deveria fazer isso. Me desculpa. Eu sabia que você aceitaria. Estou farto da similaridade das mulheres de hoje em dia, basicamente dedico todo meu tempo ao estudo e ao trabalho, mas ao longo dos meses que se passaram eu comecei a te notar – ajeitei o cabelo atrás da orelha. – Você ajeita o cabelo atrás da orelha quando está com vergonha, não é? – ele deu um sorriso tímido -. Com o passar das aulas eu fui te conhecendo melhor, fui conhecendo a sua falta de modos, a sua tamanha espontaneidade. Tudo isso também é muito estranho pra mim.
Por um tempo, ficamos em silêncio, meus pensamentos se embolavam cada vez mais. Minha insegurança é horrível, mas sempre me salva, sempre me priva de futuras decepções. Será que isto seria uma decepção?
– Anna...
– Professor. Vitor. Eu não sei o que te dizer, eu queria que tudo fosse simples, mas não é. Eu sou uma adolescente boba, mas você é um adulto que possui responsabilidades e além de tudo, é meu professor. Acho que isso nunca daria certo. Aliás, você pretende empenhar em algo pra dar certo? Isso significa algo? Você gosta de mim? Estou tão confusa... Eu me deixei ser levada por você.
Sinto então um toque em meus braços, ele me olha por um breve momento e sem hesitar, diz:
– Nós poderíamos tentar. Seria interessante passar um tempo com você. Por mais que eu seja seu professor... Você se deixou levar por mim? Eu me deixei ser levado por você também.
Meu mundo parou, novamente.
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