Mais Que Um Professor

6 Capítulo 6 - Divagando


Notas iniciais
Escrevi este capítulo ouvindo (em modo repeat) a música "Silhouettes", da banda Of Monsters and Men. Para quem quiser, fica como sugestão para acompanhar a leitura.

– Vitor... – eu estava assustada.

É engraçado como em questão de minutos, situações podem tomar proporções de consequências irreparáveis.

– Anna, eu preciso ir agora. Daqui a pouco tem reunião dos professores e não posso faltar. Prometo que depois conversamos. E espero que isso fique somente entre nós – então ele pega suas coisas e sai.

Sai, sem mais nenhuma explicação. Como assim, “prometo que depois conversamos”? Além de extasiada, eu estava com medo. Feliz também, claro. Mas com muito medo. Medo do que acabou de acontecer e do que pode acontecer em seguida. Depois de tantas decepções, de tanto fantasiar, de tanto não acreditar em mim e de tanto esperar pela novidade, pelo o que iria movimentar a minha vida, finalmente fui surpreendida. Mas no momento, aquilo parecia mais uma pergunta sem resposta. Por quê? Tudo aconteceu tão rápido... E eu aqui, parada e sozinha na sala de aula, sem entender a velocidade com que as coisas acontecem. Ansiando por uma resposta concreta. Parece que o discernimento que tanto me acompanhava, havia fugido de mim. Ele era meu professor, o que eu estava fazendo?

Pelo jeito, eu iria passar o resto do dia à deriva. Somente pensando, revivendo o momento em minha mente, o momento pelo qual tanto esperei. Foi melhor do que eu podia imaginar, melhor do que em qualquer devaneio. Sua boca é macia, e seu beijo é suave. Além de ele ser maravilhoso, e cheiroso. O que mais me impressionou, foi que durante todo momento ele se manteve seguro. Como se tudo aquilo fosse normal. Sua confiança e sua sinceridade o deixam ainda mais irresistível. Aquele sorriso magnético, impossível de escapar.

Queria ter agido naturalmente. Mas não, como sempre, agi de forma atrapalhada. Até agora não digeri toda a situação. Afinal, ninguém nunca havia reparado no fato de eu ajeitar o cabelo atrás da orelha quando fico nervosa.

“Seria interessante passar um tempo com você”, passar um tempo comigo? O que isso significava? Ele, por um acaso, esqueceu que sou sua aluna?

No momento, me vejo parada em uma velha ponte sobre um precipício. Não sei se continuo andando e correndo o risco de cair, ou se volto para trás. Não quero ficar parada, mas ainda estou em dúvida. Voltar significa segurança, estabilidade, mas também significa não estar bem. “Arrisque-se”, esse é o melhor conselho que posso dar a mim mesma.

Todo mundo sonha, mas ninguém para pra pensar no próximo passo. Caso um sonho se realizasse o que fazer em seguida? Como agir? Dentro da nossa imaginação é muito fácil, mas fora... O ato “professor e aluna” nunca foi estranho na minha cabeça, mas na prática foi. Principalmente por eu ter sido pega de surpresa. Apesar dos sinais que indicavam apenas um professor que incita suas alunas por sorrisos e olhares, ele não fez nada que me preparasse para esse momento.

Será que eu devia contar pra alguém? Para alguma amiga? Não sei se devo. Elas podem não acreditar em mim, ou pior, me julgarem. Não iria gostar disso. Acho melhor deixar em segredo, como ele pediu.

Inevitavelmente, fui para casa revivendo aquela cena em minha mente. Logo me deparei com outro porém: meus pais. Eles ficariam loucos se soubessem disso. Eles me matariam depois de matar o Vitor, imagino a reação do meu pai... Isso não daria certo, não mesmo.

Estaria sendo infantil se eu acreditasse em um “final feliz” para isso. Não há como, aliás, não há maneiras de nada entre nós fluir. Mundos diferentes, completamente diferentes. Mas e se houvesse um jeito? E se isso fluísse? Pode ser que sim. Entretanto, minha insegurança me diz a todo o momento que tudo não passou de um beijo. Como ele iria gostar de mim? Por que ele iria querer tentar algo comigo? Não sou interessante nem para meninos da minha idade, vou ser para um homem mais velho? Eu não tinha muito a perder, ao contrário dele. Aliás, não sei nem por que fico considerando possibilidades, é bem provável que não haja uma próxima vez.

De qualquer forma, ele ainda vai continuar sendo meu professor. Como vou conseguir enfrentar a vergonha e olhar de novo para ele? Já havia premeditado isso, eu estava ferrada desde o primeiro devaneio que tive dele. Que problema eu me meti!

O que viria a acontecer? Gostaria de apressar o tempo, um final de semana me separava dele. Ao dizer “Prometo que depois conversamos”, ele não pensou no quanto eu ficaria confusa por esperar? E pra piorar, quinta-feira é o dia da prova de física. Como vou estudar com tantos pensamentos me enlouquecendo? É definitivo, atingi o nível máximo de ansiedade.

**

Professor Vitor estava atrasado, e entrou de pressa na sala. Mal olhou para mim. Fiquei um pouco abalada, logicamente. Mas tentei manter a calma, tinha que tirar uma boa nota na prova. Inclusive, afastei qualquer pensamento sobre ele e seu ato impulsivo durante todo o final de semana, precisava me concentrar totalmente em sua matéria.

Com o intuito de esperá-lo, enrolei até o fim da prova para poder falar com ele no final, quando todos os alunos tivessem saído da sala. Eu tinha que falar com ele. Fosse boa ou não sua resposta, eu precisava saber.

Porém, não cogitei que o outro aluno também poderia demorar e ficar até o final. A aluna em questão era a Duda. E assim que terminou sua prova, me puxou para ir embora com ela. Seria muito estranho e suspeito eu dizer que precisava falar a sós com o professor, e depois não poder contar o assunto da conversa. Isso me incomodava bastante, sempre contava tudo pra ela e dessa vez não poderia, pois não envolvia só a mim.

Duda estava na minha frente e não viu, mas antes de sair da sala, olhei para ele com um semblante de “precisamos conversar, o que foi aquilo ontem?”. Ele olhou de volta e sorriu. Um sorriso lindo, único e diferente. Quem consegue resistir?

Sai da sala corada, atordoada e com o coração na garganta. Não consegui falar com ele.

Quando estava deixando a escola me dei conta, essa era a última semana de aula antes do recesso de julho. Ou seja, eu só iria vê-lo daqui a duas semanas. Será que ele tinha percebido isso também?

Duda veio para a casa comigo. Desenfreadamente, ela falou sobre assuntos diversos, como provas, meninos e etc. Não consegui prestar atenção em nada, muitas coisas estavam me incomodando, muitas coisas estavam na minha cabeça. Precisava ficar sozinha, mas não podia dizer a ela. Juntei o pouco de compreensão e atenção que eu tinha, e me forcei a sorrir e balançar a cabeça como se estivesse entendendo. Mesmo estando quase surtando pela conversa que não tive com (meu?) o professor Vitor.

Às 23h a Duda foi embora, e logo fui me deitar, estava mentalmente exausta. Dificilmente deixo meu otimismo me guiar, justamente pelo fato de eu devanear muito. Apesar de um sonho ter se tornado realidade, não posso me esquecer de que o sonho é o meu professor treze anos mais velho. Não posso me esquecer também de que ele realmente pode ter se aproveitado de mim, e se eu não impor limites, não terei controle algum.

Tinha que me distrair de alguma forma, seriam duas longas semanas. Talvez seja até melhor eu esquecer, fingir que nada aconteceu.

Decidi então arrumar o meu quarto, e passei o dia organizando meus livros e tudo o que estava bagunçado. À noite, após sair do banho e colocar o pijama, resolvi verificar meus e-mails. Tinha um novo, abri:

“Me desculpe pela falta de tempo, e por te deixar confusa. Vou visitar minha família durante essas duas semanas. Ainda teremos nossa conversa.

Vitor.”

Notas finais
A Anna divaga muito, não? Vocês também são ansiosas como ela? Espero que ao fim deste capítulo a expectativa de vocês para o próximo esteja enorme. Continuem acompanhando! Fico contente quando comentam. Beijos. P.s.: Gostaram de ler com a música? Acertei na sugestão?