Mais Que Um Professor
4 Capítulo 4 - Saindo da Inércia
Ao contrário da maioria, adoro segundas-feiras. Apesar de todo desânimo que as cerca, é a chance que temos de a cada semana, recomeçar.
Acordei com o meu celular vibrando, uma mensagem. Esfreguei meus olhos e li:
“Psicólogo amanhã, às 15h tá? Newton mandou lembranças.”
Otávio. Mal acordei e já tive que entrar no espírito da brincadeira. Mandei de volta:
“Ok, já sabe quem vai me levar né?”
Meu celular vibrou de novo:
“Esse vai te levar para o fundo do poço, também conhecido como Vara da Infância e Juventude.”
Ri. Impossível não acordar de bom humor após as mensagens diárias do Otávio.
Até o ano passado não me arrumava para ir ao colégio, não só por preguiça, mas também por não me importar com a opinião dos outros. Sei que a maioria das meninas se arrumam para elas mesmas, mas me sinto bem saindo de casa sem pentear o cabelo. Como tudo tem seu fim, minha fase “não me importo com nada” acabou, e desde o primeiro dia de aula venho me arrumando mais, desde o primeiro dia de aula tenho algo para me motivar. Não me importo com o que os demais vão achar, me importo com o que ele vai achar.
– Você penteou o cabelo? – pergunta minha mãe, com uma feição de abismada e surpresa.
– É o que aparenta, não?
– Quem é o felizardo?
– Por que teria um felizardo?
– Porque você não costuma pentear os cabelos, e repentinamente, começa a pentear. Se não existe um felizardo, um motivo talvez? Afinal, um corpo em repouso tende a permanecer em repouso. Não é mesmo?
– Porém, um corpo só altera seu estado de inércia, se alguém, ou alguma coisa aplicar nele uma força resultante diferente de zero. Não é mesmo?
– Com isso posso concluir que está dando muita atenção para a física e as leis de Newton?
– Sim, e para quem as ensina também.
Ela riu.
– Sempre há um felizardo. Enquanto você está indo, eu já estou voltando – mães e suas previsões certeiras. – Anna em repouso tende a permanecer em repouso. Ou seja, ela irá continuar a não pentear seus cabelos. Até que alguém ou alguma coisa, como por exemplo, o seu mais novo professor de física, aplique nela um encantamento diferente de zero. A mesma então, sairá do seu estado habitual de inércia.
– Muito interessante. Em um mundo paralelo onde você cursa Física, esse seria seu trabalho de conclusão de curso. Cada dia você me surpreende mais, Dona Elisa.
Sorrimos uma pra outra, ela veio até a mim e me deu um beijo na testa, depois disse:
– Vamos, te dou uma carona, aspirante a Newton.
– Na verdade, filha de uma aspirante a Newton.
Algo que abomino e faço questão de anunciar ao mundo, são pessoas superficiais e o modo como analisam superficialmente as coisas ao seu redor. Na porta da sala, dificultando minha passagem, estavam os três meninos mais detestáveis e medíocres que já conheci, e que infelizmente estudam na mesma classe que eu.
– Licença?
– Olha quem pela primeira vez no ano fala com a gente, meninos...
– Olha quem pela milésima vez no ano está sendo estúpido. Quando eu começar a falar sobre futilidades como festas, academia e quantas meninas “peguei” em uma só noite, falo mais com vocês. Mas por enquanto, não vai rolar.
Apertei-me entre eles e passei pelo pequeno espaço. Mesmo de costas podia sentir que eles continuavam me olhando. Sei que fui ríspida, mas não suporto o “pseudo-sarcasmo” que algumas pessoas oferecem, afinal, eles não devem nem saber o que é sarcasmo. E não me importo caso zombem de mim, e da aleatoriedade das coisas que digo.
Fui até a minha carteira e sentei, havia chegado tão cedo que nem minhas amigas estavam lá. Passado alguns minutos, elas apareceram.
– A Anna chegou cedo, milagre – Isa disse.
– Minha mãe me deu uma carona, por isso.
Duda assim que me viu, veio me abraçar amistosamente. Se eu acreditasse em vidas passadas, defenderia a ideia de que ela foi uma hippie nos anos 60. Claro que não seria uma extremista, mas adepta ao pacifismo e ao misticismo como é, posso imaginá-la sentada em um gramado, com roupas folgadas, contemplando a natureza e argumentando como “é proibido proibir”.
– Paz e amor, Duda – sorri.
Não sei se ela entendeu, mas sorriu de volta e também disse:
– Paz e amor, Anna.
As duas primeiras aulas foram exaustivas, odeio matemática. Mas rapidamente me animei. Tenho aula de física à tarde, eu o veria. “Um agrado diário aos nossos olhos faz muito bem a saúde” logo me lembrei do que disse minha mãe quando contei a ela sobre o novo professor de física.
Voltei do intervalo da manhã sentindo uma forte dor no estômago. Assisti à terceira aula gemendo baixo de tanta dor. Estava impossível e insuportável de aguentar. As batatas-fritas e a previsão de sorte da Duda são de eficiência duvidosa. Quanta sorte tive até agora!
Vic que senta atrás de mim, percebeu minha agitação e perguntou:
– Está tudo bem, Anna?
– Estou com muita dor, preciso ir embora e ligar para minha mãe.
– Aviso a professora, pode ir.
Fui ao hospital e tomei uma injeção para dor. Cólica. Sempre confundo com dor de estômago. Voltei para minha casa, e dormi o dia inteiro.
Na manhã seguinte, assim que a Duda me viu veio até a mim. A animação que ela aparentava era intensa:
– Anna, sente-se, preciso te contar algo. Todavia devo te alertar, pode ser que suas dores voltem.
Olhei desconfiada. O que aquela louca estava dizendo?
– Oi, Anna. Tudo bem? Você está melhor? Ah, estou muito bem. Obrigada por perguntar, Duda – ironizei.
– Ah, não seja boba. E sei que está melhor, liguei pra sua mãe perguntando. E caso não estiver, vai ficar depois do que tenho a dizer.
– Então diga.
– Ao ir embora, você perdeu o restante das aulas do dia. Perdeu uma em particular, a que nós esperamos durante a semana inteira, já que compartilhamos um gosto em comum. Já sabe a que estou me referindo, né? Rússia, barba e chapéus. Enfim, ele entrou na sala, e juro, o primeiro lugar que ele dirigiu o olhar foi para sua carteira, que estava vazia. Depois olhou para o resto da sala, parecia que estava te procurando.
– Devia estar pensando: “Hoje não terei quem me bajule. Que triste”.
– Não me interrompa.
– Desculpa.
– Continuando... Como de costume, ele sentou em sua mesa, abriu seu notebook e iniciou a chamada: “Anna Marin” – ela tentou imitar uma voz grossa e charmosa, mas falhou. – As meninas e eu respondemos que você tinha ido embora. Ele olhou para nós, e todo preocupado perguntou o que tinha acontecido. Se era algo grave, se você tinha dado algum recado sobre sua melhora, e que caso algo acontecesse deveríamos comunicá-lo.
Conforme ela foi falando, não pude evitar, um sorriso surgiu em meu rosto. Ele havia dito isso? Ele estava preocupado comigo? O contentamento que eu sentia era enorme, e segui o dia sorrindo à toa.
**
Todo ano nosso colégio dava uma grande festa junina a fim de angariar fundos para a formatura dos terceiros anos (que ocorreria no final do ano). Era uma tradição. A festa seria no fim de maio. Minha classe ficou responsável pela decoração, assim, passamos as semanas que antecederam a festa nos preparando e arrumando o local.
Como todos os meus amigos estavam ocupados demais para me auxiliar, e eu estava impaciente para terminar logo minha tarefa, peguei uma escada e sozinha, subi para pendurar algumas bandeirinhas. A escada balançava muito, mas decidi continuar correndo o risco; eu tomaria cuidado. De repente, senti que ela se estabilizou e parou de balançar. Olhei para baixo. Vitor.
– O que você está fazendo?
– Te ajudando – ele deu aquele sorriso maldoso e doce.
Terminei de colocar os enfeites. Estava descendo as escadas quando distraidamente piso em falso. Inesperadamente, sinto duas mãos em meu quadril me firmando. Seu toque libera um sentimento desconhecido em mim, algo entre o êxtase e a excitação. Mas ainda bem que eu estava de costas pra ele, pois corei rapidamente. Em um segundo mil coisas se passaram pela minha cabeça, inclusive se ele estava olhando para minha bunda (o que é bastante plausível devido as nossas posições). Já no chão, virei para ele e agradeci:
– Obrigada.
– De nada. Te aconselho a pedir ajuda da próxima vez. Sorte sua eu estar passando por aqui, você poderia ter caído.
– Sorte a minha – mesmo estando envergonhada, olhei nos olhos dele e sorri. Ele assentiu e saiu andando.
Vic e Duda se aproximaram:
– O que acabou de acontecer aqui? – perguntou Vic.
– Não disse que as batatas-fritas dariam sorte? – disse Duda toda animada.
– Não foi nada demais, ele apenas me ajudou.
– De professor a super-herói, a cada dia uma nova surpresa – brincou Vic.
– Máfia russa e seus sentidos aguçados – Otávio entrou na conversa. – Ou apenas um aproveitador de situações?
– Como vocês são exagerados...
**
Estava sentada no pátio, segurando a mochila e o livro da Duda que tinha ido ao banheiro, até que algo roubou minha atenção. Meu querido professor estava usando uma camisa azul-escuro, e seu chapéu de praxe. Aproximou-se e perguntou:
– O que está lendo?
Lembrei que estava segurando o livro da Duda.
– Não sou eu que estou lendo, é da Duda. Mas o livro é “Um Homem de Sorte”.
– Ah... E quem é seu homem de sorte? – perguntou.
– Não tem um homem de sorte em minha vida. E caso houvesse, não seria muito certo dizer que ele tem sorte por ser o meu homem.
– Por que não? – sorriu de forma pretensiosa, e saiu.
Continuei olhando para frente. Essa situação sim merecia um “o que acabou de acontecer aqui?”. Vou deixar em seu armário um requerimento pedindo que ele pague as próximas sessões com minha psicóloga. Vou precisar.
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