Mais Que Um Professor
32 Capítulo 32 - O Corpo Eletrizado e o Corpo Neutro
Voltei para a casa como se nada tivesse acontecido. Como se eu não tivesse experimentado sensações novas. Como se eu não tivesse pulado do precipício de emoções e pessoas não tivessem amortecido minha queda.
Ao mesmo tempo em que foi estranho estar fora de controle, foi maravilhoso. Senti tudo indo embora. No entanto, como um bumerangue, tudo voltou. Nada foi embora. Acordei com o alívio de as consequências não terem me destruído. Noites de folgas não somem com as preocupações, só oferecem ilusões.
No final de semana fui surpreendida por um convite dele:
Amanhã passo te pegar às 13h. Chame seus amigos. Vou leva-los a um parque de diversões.
Parque de diversões?
Surpresa, mandei de volta.
Depois de tantos mal-entendidos, preciso me acertar com eles.
Coincidentemente, estávamos todos estudando na casa do Otávio. Ri com a mensagem e olhei para eles:
Vitor vai nos levar a um parque de diversões amanhã.
A um parque de diversões? indagou Vic.
Isso mesmo. Vocês vão?
Por mim tudo bem Duda respondeu.
Fazer o quê... disse Isa. Fez uma expressão de entediada e depois riu.
Otávio sorriu e assentiu com a cabeça. Sei que ele não está contente com a ideia, mas também sei o quanto se esforça por mim. O amo exatamente por isso.
Voltamos para nossas casas e arrumamos nossas coisas. Combinamos de nos encontrar no Otávio ao meio-dia. Informei o Vitor sobre onde ele devia nos encontrar e pontualmente às 13h, seu carro parou em frente à casa do Otávio.
Animados? Vitor perguntou. Ele também estava se esforçando.
Isso é um pedido de desculpas? Isa pergunta.
Considere como ele responde.
A Anna deve estar ansiosa para ir na montanha-RUSSA rápida e potente Otávio diz e todos riem. Inclusive o Vitor.
Nos acomodamos e seguimos rumo a uma tarde diferente.
Chegamos uma hora e meia depois. Foi uma viagem silenciosa. Apenas músicas ecoavam em nossos ouvidos. Contamos aos nossos pais que iriamos passear com o pai do Otávio.
A Duda tem medo de altura Vic conta rindo. Duda revira os olhos.
Posso ficar com você quando não quiser ir em algum brinquedo digo.
Não se prive por minha causa ela diz e eu sorrio.
Saímos da montanha-russa envolvidos pela adrenalina do momento.
A montanha-RUSSA Vitor é tão rápida e potente quanto essa? Vic indaga e eu coro. Apenas rio e a cutuco com o braço. Meu rubor respondia a pergunta.
Rumo ao próximo brinquedo, Vitor me surpreende e passa seu braço pelo meu ombro. Por um minuto, ele esquece quem é e quem sou. Por um minuto, ele apaga o mundo ao seu redor e autoriza sua mente a enxergar somente nós dois. Olho para ele e o vejo com aquele sorriso extremamente prejudicial à saúde.
Sentamos para comer e uma lança de aceitação e paz me acerta. Observo a cena em minha frente e as ondas que tanto agitam minha mente se acalmam. Meus amigos aceitando o que vivo. O que vivo tentando aceitar outros âmbitos da minha vida.
Otávio conversava normalmente com o Vitor. Vic ria. Duda sorria à toa parecia mais leve depois do fardo que queimou. E Isa assentia o tempo todo.
Confesso que no começo foi difícil, mas ver todos aceitando a situação me moveu a aceitar também. Não queria ser a chata. Tudo isso me mostrou o quanto é errado eu querer decidir por alguém. A parte mais bonita do dia foi ver o quanto ele sorri ao te olhar Isa murmura para mim e meu coração incha de alegria.
Na volta para a casa, olho para o motorista e para aqueles que preenchem o banco de trás. O meu russo preferido e as minhas pessoas preferidas. Tento memorizar a cena e guardar cada detalhe. As pessoas esquecem de olharem ao redor e enxergar quem as cercam. Esquecem de captar os detalhes. Hoje percebi o quanto sou sortuda e o quanto a minha cerca é rica. Tenho pessoas maravilhosas ao meu lado.
*
O tempo começou a mudar assim que saí de casa. Andei dois metros e pude sentir alguns pingos de chuva. Crente de que a chuva iria esperar até eu chegar ao colégio, decidi não voltar para a casa e pegar um guarda-chuva. Apressei meus passos. O céu ficava cada vez mais escuro.
Inevitavelmente, na metade do caminho, começou a chover. A sensação era de que a cada passo, ela ficava mais forte. Minha visão ficou embaçada. Continuei caminhando e acreditando que poderia chegar sã e salva.
Parei no meio da calçada para me ajustar. Provavelmente eu não chegaria sã e salva. Tirei meu moletom e o coloquei sobre a cabeça. O arrependimento de ter saído de casa crescia a cada instante.
Ouço o céu trovejar. Estremeço com a terrível possibilidade de um raio cair perto de mim.
Então seu carro para alguns passos a minha frente. Estreito os olhos para enxergar melhor. Ando até a porta aberta.
Venha, Anna seu cabelo e seus óculos estão um pouco molhados.
Que sorte você passar por aqui! digo depois de entrar no carro. Ele me olha por instante. Estou toda molhada. Desculpe por isso aponto para o banco seco e fecho a porta.
Não tem problema. Não passei por acaso. Fiz esse caminho imaginando te encontrar.
Dei-lhe um beijo. Sua bochecha estava úmida.
Começo a tremer de frio. Afago meus braços. Meu moletom estava totalmente molhado. Meu cabelo, minha mochila... Minha camiseta branca.
Aqui, tome ele tira seu agasalho e o coloca na minha mão.
Você não está com frio? pergunto.
Não tanto quanto você ele responde e parte com o carro.
Seu cheiro bom me ajuda a aquecer mais rápido.
E se alguém nos ver chegando juntos? apreensiva, indago.
Com essa chuva, é bem provável que ninguém esteja do lado de fora do colégio.
Conforme ele se aproxima da entrada, obtenho a certeza de que sua probabilidade não é tão precisa. Haviam pessoas na entrada. Particularmente, pessoas que adoravam supor coisas. Pessoas que arregalaram os olhos ao me ver dentro do carro do professor física.
Abaixei a cabeça e corei de vergonha.
Anna, é só uma carona. Não precisa ficar assim.
Isso não é só uma carona, é tudo em que consigo pensar.
Olho pela janela e vejo olhos queimando de curiosidade. Assim que ele estaciona o carro, pego minha mochila e saio. Não digo nada. Com a cabeça abaixada, sigo para a entrada do colégio.
Anna! escuto a voz dele e continuo andando. As pessoas ainda estavam paradas olhando.
Esbarro com a Vic no corredor.
Desculpa digo.
Você está encharcada, Anna! Venha, vamos no banheiro ela coloca sua mão em meu ombro e me guia até lá. Esse agasalho é do professor Vitor? e ri.
Vic me empresta uma camiseta limpa e me ajuda a tentar secar o cabelo. Pelo menos vou para a sala menos bagunçada. Deixo a preocupação ir embora. Aquilo foi apenas uma carona, digo a mim mesma. Guardo o agasalho dele na mochila.
Licença, professora? e saio da sala.
Desço até o refeitório vazio e peço um chocolate quente na cantina. Ainda sinto frio. Enquanto espero, reparo que as mesmas pessoas da entrada estão por perto. Olho para trás e noto olhares e sussurros na minha direção. Uma sensação estranha toma conta de mim. Finjo que não é comigo.
Pego o copo em cima do balcão e tento seguir meu caminho. Tento, pois sou interrompida por dizeres que atingem diretamente minha alegria.
Ei, Anna. Estávamos falando de você. Que coincidência, não? falando alto, a menina de cabelo claro rouba minha atenção. Não recordo seu nome, mas lembro dela na festa do Diego.
Viro para ela. Ao seu lado estava uma menina e dois meninos.
Sabe, estava aqui pensando ela continua , como alguns fatos nos passam despercebidos. De repente, lembro seu nome. Letícia. Você é bem próxima do professor Vitor, não? Ou melhor, aparenta ser Ela me olha diretamente nos olhos. Meus amigos e eu começamos a juntar alguns acontecimentos e através deles, uma história interessante começou a se formar.
Pelo o que escuto nos corredores prossegue o menino alto sentado ao seu lado , você não se incomoda em ficar com o professor Vitor na sala durante os intervalos, depois de o sinal bater... São muitas dúvidas, Anna? Suas notas aumentaram. Os alunos comentam bastante sobre isso.
Sinto meus olhos arderem, mas me mantenho firme os encarando.
Você acredita que outro dia os vi juntos no supermercado? Sábado à noite... Estranho, não? Letícia diz cautelosamente e eu posso sentir sua mão apertando meu coração. Ela sorri. Isso foi bastante comentado na nossa sala. Mas olha como somos legais, não espalhamos nada. Apenas boatos.
E agora você chega de carona com ele completa o outro menino.
O que dizer? Eu mal sei desses boatos. Não consigo mais encará-los. Viro as costas.
Vadia o menino grita e todos riem. Imaginem o que ele faz com ela... mais risadas.
Nojenta, puta grita a menina que não conheço. Ele tem idade pra ser seu pai!
A direção vai adorar saber disso grita Letícia por fim.
Subo as escadas enquanto lágrimas se acumulam no canto dos meus olhos. Assim que entro na sala, escuto o primeiro vadia vindo dos babacas do fundo. Alguém deve ter avisado a eles. Olho para os meus amigos e suspiro fundo. A comporta dos meus olhos se abrem e as lágrimas caem.
Largo a porta aberta e corro para o banheiro.
Entro em uma das cabines e penso em como tudo é repentino, em como é impossível manter o controle das situações. Sinto meu prédio se desmoronar; o prédio que construí com tanto cuidado.
Poucos deixam passar a oportunidade de importunar alguém. O que mais me entristece é o fato de o boato não interferir na vida de ninguém. Sendo mentira, sendo verdade... Não atrapalha nenhum deles. Sou uma vadia por ficar com quem gosto? Por decidir pelo meu corpo e minhas vontades?
A direção vai adorar saber disso, ecoava em minha mente.
Escuto pessoas entrando no banheiro. Evito me mexer.
A Anna e o professor Vitor? é a voz da professora Lena.
É o que estão dizendo uma voz desconhecida responde.
As duas saem. Espero alguns segundos e também saio. Vou atrás da professora Lena.
Ela entra na sala que o professor Vitor está. Posiciono-me no corredor vazio e tento escutar a conversa.
Vitor?
Oi, Lena pelo tom da sua voz ele não sabia o que estava acontecendo.
Posso te fazer uma pergunta?
Claro.
Talvez te incomode, mas há alguns boatos sobre você se envolvendo com uma aluna...
Isso é sobre a carona que dei para a Anna? Se for, foi apenas uma carona como ele conseguia se manter tranquilo?
Não Vitor, não é só sobre isso. Há algum tempo venho escutando teorias, observando e tentando me convencer de que estou criando suposições impossíveis. Os outros alunos andam comentando bastante sobre a aluna Anna e a atenção que recebe do professor de física. Te vi olhando pra ela uma vez. Olhando como se ela fosse a pessoa mais incrível. Você sorriu ao vê-la sorrindo! Eu balancei a cabeça e fingi que aquilo era apenas um mal-entendido. Outro dia pensei que a vi entrando no seu carro, mas também achei que me confundi. O Vitor não é desses, pensei. Mas agora receio que meus palpites não estavam tão errados. Você sabe que pode confiar em mim e contar o que quiser. Gosto de você, Vitor. E agora, mais do que nunca, preciso que seja sincero comigo. Você sai com essa menina?
Alguns segundos de silêncio sustentaram a conversa.
Lena, ela me encantou. Não sei o que dizer.
Não precisa tentar explicar o efeito que ela tem sobre você. Vim aqui somente para te alertar o quanto as emoções podem causar problemas. Você está a par do que faz? Ela está a par do que faz? Até ontem você tomou cuidado, hoje os corredores estão infestados de boatos. Achar e saber são coisas diferentes. O problema, Vitor, é que todos acham que sabem de algo e esse achar está gerando dúvidas. Só você e a menina realmente sabem. Você está preparado para todos saberem como vocês? Se não, meu querido, para o seu bem, fica longe dela. Por enquanto são apenas boatos bobos. E se isso chegar até a diretoria? Até os pais dela? Vá para a sua casa e pense. Assumir isso? Tentar desmentir esse boato? Pense sobre a responsabilidade de tê-la.
Escutei movimentos e para que ninguém me visse, entrei na sala ao lado. Ouvi o professor Vitor passando. Segundos depois, a professora Lena saiu da sala. Esperei um pouco e saí também. No fim do corredor, esbarrei com ela voltando pelo caminho que fez. Devia ter esquecido algo.
Ela olhou assustada. Devolvi o olhar. Delicadamente, pegou meu braço.
Sabe, Anna, temos que tomar muito cuidado com o que desejamos, porque podemos conseguir. Você não o desejou secretamente no começo do ano? Agora as consequências batem na sua porta. Se ele assumi-la, terá que deixar a escola. As regras da instituição não permitem esse tipo de relação. Se ele assumir um envolvimento com uma aluna, isso pode manchar tudo o que construiu até agora.
Meu celular toca. É minha mãe. Devia estar me esperando. Temos compromisso hoje.
Anna? Estou te esperando no estacionamento.
Olhei para a Lena e saí. Meu coração flutuava em meio ao desespero. Sem saber, minha mãe me salvou.
Encontrei com o professor Vitor na saída. Ambos estávamos saindo. Nos olhamos rapidamente, porém, não com o mesmo brilho de ontem. Seu olhar indicava preocupação. Ao vê-lo, pensei em nós e em sua aula sobre indução. O corpo eletrizado (a aluna que tinha a paixão por ele; os olhos brilhando que o atraiu) que atrai um corpo neutro (Vitor). Sem tocar, o corpo neutro (pela sua diferença de idade) vai rejeitar as cargas para que o corpo eletrizado seja atraído. Então o corpo eletrizado é atraído e assim quebram as regras de que não podem se tocar. Nós, a aluna e o professor, quebramos as regras.
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