Mais Que Um Professor
33 Capítulo 33 - Condução e Indução
Chego em casa e meu pai está sentado no sofá, como se estivesse me esperando. Olho confusa para minha mãe. Ela devolve o olhar. Estávamos com a minha avó.
– Oi – minha mãe o saudou. Ele não respondeu.
Um semblante sério me fitava. Em suas mãos um envelope, um papel dobrado e uma foto virada para baixo.
– Sente, Anna. Recebi algo hoje. Havia acabado de chegar em casa e a campainha tocou. Era uma menina. Antes que ela perguntasse algo, imaginando que fosse sua amiga, respondi que você não estava em casa. Ela sorriu e disse que só passou para deixar algo. “A Anna pediu para te entregar”, completou por fim.
Senti minha alma sendo golpeada. Senti o furacão avançando na minha direção.
Meu pai desdobrou o papel e se preparou para ler algo.
– O que sua filha anda fazendo durante esses últimos meses? Você sabe? Bem, se não sabe, posso te contar... – se o furacão estava avançando, agora eu me sentia dentro dele. – Ele sempre a olhou durante a aula. Um olhar curioso, como se quisesse desvendar algo, como se quisesse desbravar um território. Ela sorria e se esforçava. O olhava sem piscar. Era visível a admiração dela. Para ajudar, ele ainda a tratava muito bem. Um tratamento diferente. Foi fácil notar que ela era especial para ele. Você deve estar revirando os olhos neste momento. Mas não se trata de um romancezinho adolescente bobo. O moço do olhar curioso é um homem de trinta anos. Um homem que por acaso é o professor dela. Não sei o que o senhor pensa disso... “O que ela tem a ver com isso?” você pode pensar. Eu não tenho nada a ver com isso. Sequer sou amiga dela. Mas não aprovo esse tipo de relação. E não aprovo mentiras. Você realmente sabe o que sua filha anda fazendo? A aluna ingênua e boba que se encantou pelo professor – é bem provável que eu nunca esqueça a forma como meu pai está me olhando neste momento. Um olhar de hesitação.
Ele pega a foto e vira na minha direção. É a filha dele sorrindo dentro do carro do professor; é o professor olhando e sorrindo para sua filha.
Solto minha mochila no chão. Olho para ele e não sei o que dizer.
O silêncio de tudo a ser dito e nada ao mesmo tempo paira sobre a sala. Um silêncio perturbador.
– O que minha filha anda fazendo? – ele começa. – Será que ela mesma pode responder essa pergunta?
Fito o chão. Muitas palavras surgem em minha mente. Eu posso responder essa pergunta? Olhando para o nada, minha mãe permanece quieta e um tanto boquiaberta.
– Pai... – tentei começar. Mas logo fui interrompida.
– Será que ele gostou de desbravar esse território, Anna?
Meus olhos começaram a arder.
– Como você pode acreditar num bilhete de uma menina desconhecida? – é tudo o que consigo dizer.
– E essa foto? Ele a olha como se estivesse adorando desbravar um território. E você sorri como se estivesse adorando ser desvendada pelo professor.
– Foi uma carona. Apenas uma carona! – minha voz se eleva um pouco. E meu coração se aperta diante da certeza de que eu amo ser desvendada pelo meu professor.
– Não sou bobo, Anna. Já há algum tempo tenho suspeitado de algo. Você chega tarde sempre, vai na casa da amiga todos os dias e quem te traz nunca para aqui na porta. Logo pensei que algum menino estivesse envolvido. O que eu iria te dizer? Também fui adolescente. Mas o seu professor? Anna, ele tem quase a minha idade! Você pode imaginar como estou visualizando isso? É como se você estivesse se envolvendo com algum dos meus amigos. Isso é nojento.
A primeira lágrima cai seguida por outras.
O mais estranho é ele não aparentar estar com raiva. Ele só parecia nervoso.
– Você é uma menina. Tanta mulher por aí e ele vai direto na aluna. Impressionante. O que você anda fazendo? Ainda não me respondeu... Sabe, vou adorar conhece-lo. Estou pensando em ir vê-lo amanhã. Conversar um pouco sobre seu gosto por explorar adolescentes. Depois estou pensando em denunciá-lo – ele falava com uma assustadora calma, como se contasse trivialidades –, talvez passar na polícia, estupro de incapaz... Não sei.
O cansaço de ouvir “aluna ingênua” me impulsiona a deixar a raiva emergir. Rapidamente ela toma conta de mim.
– Claro que posso responder sua pergunta. Só peço que não me interrompa – olho para ele. – Sua filha anda vivendo, pai. Antes que você faça planos, eu tenho dezoito anos e um envolvimento assim não é ilegal. Mesmo que fosse, como você pode provar? Quando você começou a ler a carta, pensei em mentir. Mil hipóteses passaram pela minha cabeça. Mas eu não sou uma aluna ingênua. Sua filha sabe o que faz, ela não é mais uma menina. Portanto, isso não é nojento. Eu estou crescendo, essas coisas são normais – então uma luz pairou sobre mim. Eu precisava omitir algumas partes. – Mas calma. Nada disso significa que ele realmente seguiu em frente. Eu apenas aproveitei o que pude. Uma carona, um sorriso demorado... Não sei como ele se sente. Já eu gosto dele. Você lembra do lampejo que seu primeiro amor na adolescência te trouxe? É o mesmo que esse amor me traz. E você não pode fazer nada. Até porque, nada de fato acontece. Você vai denunciá-lo por sua filha gostar dele? A menina da carta mal sabe que sou eu quem possui um olhar que ama desbravar territórios. Consegue me compreender, pai? Por favor, só tente – forço-me a adoçar minha voz.
Ele me analisa minuciosamente. Minha mãe continua boquiaberta.
– Quando eu tinha sua idade fiz uma besteira. Pensei que seria meu fim. Para minha surpresa recebi um voto de confiança do meu pai. Pode ser que você esteja mentido pra mim, mas chegou a hora de eu retribuir a generosidade do meu pai. Foi fundamental que ele acreditasse em mim – ele suspirou fundo –, vou tentar acreditar em você. Não irei fazer nada.
Sorrio por dentro e tenho vontade de abraça-lo. Mas uma pessoa sem culpas não teria essa reação. Forço-me a conter um sorriso.
– Confesso que posso me lembrar dos lampejos do primeiro amor e também fui adolescente – seu semblante vai abandonando aos poucos o estado de indignação. – Talvez você não entenda, mas li a carta e algumas coisas fizeram sentido. E eu não quero privá-la de nada. Não tem problema você se divertir por aí... como uma adolescente normal. Convenhamos, Anna, um professor e uma aluna não é normal.
– Não mesmo – afirmo mesmo não concordando.
Minutos passam e somente nos olhamos. Meu pai, minha mãe e eu.
Desde o começo eu sabia que meu pai não iria fazer nada. Ele é daquele tipo que fala e não faz. O que me assustou foi vê-lo nervoso, foi a surpresa de ser acusada. Consigo me colocar no lugar dele e imaginar que a filha com um amigo não é algo legal. No máximo meu pai poderia bater no Vitor, que por sua vez não iria bater de volta.
– Obrigada por tentar compreender – digo por fim.
Ele se limita a sorrir. Um sorriso murcho, mas já é um começo. É maravilhosa a sensação de ser liberta de mais um âmbito que me prendia. Sei que não fui totalmente liberta, já que omiti muitos fatos. E fico um tanto incomodada por não poder contar. Com tudo o que omiti, a única pessoa da história era eu. Foi fácil contar tudo sem envolver outra pessoa. Se alguém fosse ser prejudicado, essa pessoa seria eu. Talvez ele nunca saiba a verdade, mas foi importante ele saber que sei o que faço.
Olho para a minha mãe e vejo que ela força um sorriso. Porém, sua expressão era de que algo ainda a incomodava. Ela me olha e suspira como se estivesse aliviada.
A menina da carta me vem à mente. Não estou com raiva dela. Na verdade, sinto pena. É tão difícil deixar os outros em paz e seguir com a sua vida?
Fui para o meu quarto e me joguei na cama. Decidi não mandar nada para o Vitor. E pelo visto, ele havia tomado a mesma decisão. Esses assuntos não deveriam ser discutidos por mensagens.
Meus amigos, a julgar pelas mensagens que enviaram, estavam preocupados. Infelizmente, eu estava cansada demais para discutir teorias e contar a mesma história quatro vezes.
Amanhã será um longo dia. Fecho os meus olhos e tento dormir.
– Você está atrasada, Anna – escuto a voz distante da minha mãe. – Te dou uma carona se você ficar pronta em vinte minutos.
Jogo o cobertor no chão. Em exatos vinte minutos fico pronta.
Desço até a garagem e entro no carro.
– Antes de te deixar, precisamos conversar – ela para uma rua acima do colégio.
Logo deduzo o teor da conversa. Minha mãe estava quieta demais ontem.
– Sem mais delongas, sei que você está mentindo – ela começa. Sua voz é suave, então me permito continuar tranquila. – Acredito que algo realmente aconteceu. Anna, você pode dizer a verdade para mim. Não precisa ter medo. Só quero saber o que de fato aconteceu. E se por um acaso mentiu, entendo. Seu pai não é muito bom em compreender o que não o convém.
De repente, sinto meu coração sendo aninhado. Talvez pudesse me xingar, mas fora isso, sei que ela não irá fazer nada com a verdade. No fundo, eu sempre soube que não precisava ter receio em esconder nada dela.
– Confesso ter escondido uma parte importante do ocorrido – fito meus pés. – Há algum tempo tenho me encontrado com ele. Não fui pressionada, manipulada, forçada a nada. Apenas gosto dele e aproveitei as oportunidades. Ele sempre me respeitou, mãe. E sempre tomamos cuidado – levanto minha cabeça por fim.
– Fico feliz por ter me contato, Anna. Se você sabe o que está fazendo, não acho errado. Só não é muito comum. Gostei de algo que citou ontem... Muitos adultos apagam de suas mentes a adolescência. Eu lembro da minha. Também tive meu professor dos sonhos. Mas ele nunca saiu da minha imaginação – ela ri. – Pelo o que presumo, algumas pessoas que não gostam de você descobriram seu segredo.
– Na verdade, eu nunca falei com essas pessoas. Então não se trata de gostar ou não de mim. São boatos, mãe. O colégio está infestado. Ontem estava chovendo, ele apenas me deu uma carona. Aí as pessoas ligaram as pontas soltas.
– E ele sabe desses boatos?
– Sabe – digo. – Escondida, escutei uma conversa da professora Lena com ele. Ela tentou alertá-lo sobre o perigo de os boatos chegarem até a diretoria. Depois esbarrou comigo e disse as mesmas coisas, que ele pode ter que deixar o cargo e etc.
– O fim está próximo então?
– Há algumas semanas está.
– Por quê? – ela pergunta com um ar triste.
– São muitas as dúvidas que tenho. Costumo sonhar acordada, mas não fujo da realidade. Sei que as opções de futuro que podem nos abranger são limitadas. E mesmo que o futuro possa nos abranger, é bem provável que não haja espaço para muitos sonhos que guardei durante esses anos. Estudar, viajar... Ele também deve ter os sonhos dele.
– É uma questão bastante pertinente. Posso dizer uma coisa? – assinto com a cabeça. – Se todas essas dúvidas andam te rondando, é sinal que seu coração já não quer mais comportar somente ele. E talvez elas ainda não tenham se transformado em certeza porque você se recusa a admitir. Agora que começou a viver e a escolher de fato, quer mais.
Como um brinquedo velho. Quero um novo, mas ao mesmo tempo não estou pronta para doar o velho que sempre me fez bem.
– Só não quero que ele se prejudique, mãe.
– Anna, boatos só deixam de ser boatos com provas. Aquela carta que seu pai recebeu não prova nada. A foto também não. Não deixe que os receios te atrapalhem. Você vai saber o que fazer.
Assim que ela termina de falar, a abraço com a vontade de quem abraça uma pessoa que não vê há tempos. Essa mãe compreensiva eu não via há tempos.
– Bem que notei um clima diferente entre vocês quando o vimos no shopping. Você ficou estranha do nada e mal o cumprimentou... – disse mais para si mesma.
Com isso, rio e saio do carro.
– Obrigada – digo e fecho a porta.
A vejo seguir seu caminho e preparo meu coração para seguir o meu. Mentalmente, preparo-me para a onda de boatos que me espera.
Enquanto caminho para o colégio, repasso todos os conselhos que recebi. Sinto que as dúvidas me empurraram para a curva onde eu finalmente tenho que tomar uma decisão. Eu o quero tanto e ao mesmo tempo não sei se quero. O medo de sair da zona de conforto me confunde. Mas aí lembro da zona não tão confortável que vivia antes de conhece-lo. Também tive medo de sair dela. Quando saí, percebi o quão boba fui por todas as dúvidas que mantive. Arriscar não é uma qualidade minha. No entanto, não sei se vale a pena continuar onde estou com tantas dúvidas.
Sinto que cada vez mais o processo de pensar sobre tudo e pesar consequências se aproxima.
– Anna! – olho para a frente e vejo a Duda correndo até mim. Atrás dela vinham Isa, Otávio e Vic. – Está tudo bem?
– Se os boatos ainda continuam, não.
– Ah, Anna, venha cá – e abre os braços para me confortar num abraço.
– Nos assustamos quando você abriu a porta chorando ontem. Depois que você saiu correndo, os meninos do fundo comentaram sobre você e o professor Vitor. Logo percebemos do que se tratava.
– Não fica assim não, Anna – Otávio nos alcança e também me abraça. – São só boatos. Não vai acontecer nada.
– E você não é uma vadia – Vic também se aproxima. – As pessoas é que são maldosas.
– Sei que não sou. O meu medo é a proporção que esses boatos estão tomando. Ontem meu pai recebeu uma carta e uma foto – os quatro arregalaram os olhos –, foi difícil mas consegui convencê-lo.
– Você contou a verdade? – indaga Isa.
– Em partes. Para ele, nada aconteceu. Eu apenas gosto do professor. Para minha mãe eu contei. Recebi ótimos conselhos.
– A foto era comprometedora? – Vic pergunta.
– Não. Eu só estava dentro do carro dele sorrindo.
– Isso não prova nada. Boatos não provam nada – Duda diz.
– É... Vamos esperar para ver.
– A Rússia está chegando ao fim? – Vic pergunta e faz uma cara triste.
– É provável que eu esteja de saída. Preciso conversar com ele – e seguimos para entrar no colégio.
Ignorei todas as risadas, as expressões boquiabertas e os insultos equivocados. Fui direto para a sala.
A professora de biologia entrou e me olhou de relance. Um olhar que indicava suspeita, surpresa e um tanto desaprovador. Será que ela olhou seu colega de trabalho da mesma forma?
Trinta minutos se passaram. A porta se abriu e o diretor entrou na sala.
– Licença, professora. Posso falar com a Anna?
Olhei assustada. Meu estômago se contraiu ao ouvir meu nome. Senti meu mundo desmoronando.
A professora meneou a cabeça num sim e o diretor olhou diretamente na minha direção.
– Vamos, Anna? – a princípio, hesitei. Continuei sentada olhando para ele. Mas depois levantei e o segui. Seja lá o assunto a tratar comigo, ele tinha de ser resolvido logo.
Ao entrarmos em sua sala, ele indicou uma cadeira para eu sentar. Imediatamente enxerguei em sua mesa o mesmo envelope que meu pai recebeu. Então o assunto se tornou óbvio. Revirei os olhos pensando no tempo que a menina perdeu em tomar conta do que não lhe diz respeito.
– Bom, Anna. Sabe por que está aqui? – pergunta enquanto senta em sua cadeira.
– Não – minto.
– Não? Será que o professor Vitor saberia dizer? – indaga num tom nada amigável. Mas ele não parecia com raiva de mim. Seu tom se endureceu ao citar o meu querido professor de física.
– Não sei. Você se refere aos boatos? – deixo a ironia em saber mais do que ele pensa que sabe tomar conta de mim.
– Recebi um relato bastante interessante. E como se não bastasse o relato, uma foto interessante também – ele me encara. – Quando contratei o professor Vitor, pensei que poderia confiar em seu comprometimento com o trabalho. A princípio, achei ter visto um homem íntegro.
– Sabe o que eu acho engraçado? Ninguém considera o que sinto – solto sem pensar nas consequências. Digo pensando no quanto é injusto quando supõem que tudo não passa de uma manipulação. Eu não posso gostar dele de verdade?
– E o que você sente? Que um professor se relacionar com uma aluna menor de idade é normal?
– Dá vontade de rir de uma direção que leva boatos a sério.
– Boatos não surgem do nada, Anna. E não estou levando nada a sério. Você está aqui para me ajudar a averiguar a veracidade do que li no relato e do que escutei pelos corredores. Não tenho tempo a perder. O professor Vitor te induziu a fazer algo?
Pelo modo como ele me olhava, a resposta que eu desse iria decidir alguns rumos.
– Não – respondi. – Nada aconteceu para o professor Vitor poder me induzir a algo.
– Pode me contar, Anna. Você não tem culpa de nada.
– Culpa? – quis rir na cara dele.
– É. Você não tem culpa por ele ter te induzido a fazer coisas. Talvez você ache que não foi manipulada. Mas foi. As regras da instituição não permitem a relação de um professor e uma aluna. Principalmente se a aluna for menor de idade. Dependendo do que eu descobrir, o professor Vitor não dará mais aulas neste colégio. E faço questão de que ele não consiga mais aulas em nenhum lugar nessa cidade.
Não posso deixar que ele se prejudique por mim. Não posso arriscar o futuro dele por algo incerto. Eu estou em constante mudança, eu estou aprendendo. E ser prejudicado por uma menina volátil é uma culpa que não quero carregar. Ver meu pai ir atrás dele, a polícia, o diretor é uma culpa que não quero carregar.
Subitamente, uma estratégia surge em minha mente. Uma estratégia que guiaria a decisão do diretor para onde eu quero. O Vitor não irá se prejudicar.
Começo a rir.
– Desculpa, diretor. Você realmente está levando isso a sério? Nada aconteceu. Quantas vezes tenho que repetir? Você está perdendo seu tempo com um típico caso de amor platônico da aluna pelo professor. No primeiro dia de aula vi o homem mais charmoso entrando em minha sala. Surtei. Comecei a imaginar um mundo paralelo onde o professor se apaixona pela aluna. É claro que esse mundo só poderia ocorrer na minha imaginação. O professor Vitor nunca deu atenção para o meu encanto. Ele sempre foi educado e simpático. Não só comigo, mas com todos. Porém, para minha infelicidade, o que eu queria dele nunca foi acessível. Esse relato que você recebeu, meu pai também recebeu. Alguma aluna daqui certamente não gosta de mim. A foto que você vê é de um dia que pedi carona a ele. Eu pedi. Ele não negou. Sorrio à toa porque estou no carro do meu professor dos sonhos. Todo esse relato que você leu e levou a sério é baseado em devaneios que compartilho em voz alta com meus amigos. Tudo isso é uma brincadeira que passou dos limites. Um mal-entendido. Sempre fui daquelas que imagina as coisas, pergunte a quem quiser.
Suspiro fundo torcendo para que ele tenha acreditado.
– Um mal-entendido? Espero mesmo que seja. Se você afirma que não passa disso, termino com você aqui. Agora só preciso falar com o outro lado da história. Ele afirmará o mesmo que você? Já houve casos em que o professor confirmou os boatos. Torço para que ele também trate isso como uma simples carona. Pode ir agora, Anna.
Saio da sala desejando que ele não tenha a audácia de assumir nada. Preciso vê-lo antes que ele chegue ao colégio.
– Onde você está? – ligo para ele.
– Em casa.
– Você pode me pegar na rua de cima do colégio em vinte minutos?
– Posso.
Desligo e volto para a sala.
– Preciso sair daqui. Vou dizer para o segurança que a direção me autorizou a sair e minha mãe está me esperando lá fora – digo para a Duda.
– Ele vai acreditar?
– Espero que sim. Fique com a minha mochila. Voltarei para as aulas da tarde.
Sempre pontual, nos encontramos na rua de cima. Entrei no carro e pedi para que ele nos levasse longe do colégio. Alguns minutos depois, ele parou num bairro distante. O silêncio nos acompanhou durante todo o percurso.
– Oi – ele me cumprimenta. Seus olhos oscilavam entre a alegria em me ver e a confusão que rondava seus pensamentos.
– Oi – noto um tom de ansiedade em minha voz.
– Tudo está uma bagunça, né?
– Uma bagunça que ainda pode ser controlada. Escutei o que a professora Lena te disse ontem.
– Ela nunca esteve tão certa quando disse sobre a responsabilidade de tê-la – seus olhos encontraram os meus. Por um instante tive a vontade de esquecer tudo e me aninhar em seus braços.
– Alguém nos denunciou anonimamente para os meus pais e para a direção, Vitor. Lá em casa está tudo bem. Convenci meu pai de que nada aconteceu. Lá no colégio o diretor te espera.
Ficamos em silêncio por algum tempo como se nossos olhos falassem por si só, como se nossos pensamentos estivessem se desentrelaçando para que cada um pudesse seguir seu caminho.
– Eu precisava te ver antes que você chegasse ao colégio – quebrando o silêncio, continuei. – Precisava garantir que você também dirá que tudo não passou de um mal-entendido. Por mais que nada disso seja. Sei que sempre pensou onde isso iria chegar.
– No começo sim. Pensei bastante. Depois deixei que as coisas caminhassem para onde quer que fossem. Pelo visto elas terminam numa escolha.
– Precisamos ver o que é melhor pra cada um. Qual futuro nós temos, Vitor?
– Não sei, Anna. Mas sei que se você tem sonhos como tive na sua idade, eu não me encaixo no seu – ele pega minha mão e fecho meus olhos por uns segundos.
– Se você espera uma namorada, também não me encaixo no seu – olho para ele e dou um sorriso murcho.
– Sempre terei um carinho por você, sempre – ele diz.
Logo me dou conta de onde essa conversa irá terminar. Absorvo então as coisas positivas e dirijo meu olhar para o futuro.
– Sabe, eu só tinha histórias na minha cabeça. Você me fez de verdade.
– Se é assim, então você me trouxe de volta. Devolveu vida ao meu coração – ele ainda segurava minha mão.
– Nos envolvemos por condução e indução – digo.
– Por condução e indução? – ele pergunta.
– Você nunca pensou em usar o amor como exemplo em suas aulas? Por condução é quando você se apaixona por alguém e esse alguém se apaixona de volta. Já por indução é quando a pessoa que você é apaixonada passa, deixa algo com você e vai embora. Deixa a energia dela com você e vai embora – seus olhos estavam a ponto de adentrar aos meus. – Você deixou sua energia comigo.
– Você também, Anna. Deixa-me momentos bons.
Talvez nosso presente incluísse um ao outro, mas nosso futuro não. Crescer no fim é isso, fazer escolhas. Sorrio para ele e recebo de volta o sorriso que mais amo no mundo.
– Por falar em física, precisamos ir – ele diz após olhar em seu relógio. – Hoje é a avaliação final de física. Não esquece, hein!
– Por um momento havia me esquecido.
Se a inércia é a tendência de continuar o movimento, ambos interrompemos o fluxo do outro. Ele fez com que eu enxergasse além de onde consigo ver. E eu o fiz quebrar as regras.
Encontrei Duda, Isa, Otávio e Vic perto da cantina. Sorriram ao me ver. Pelas suas feições, eles sabiam o que havia acabado de acontecer.
– E a Rússia, Anna? – Vic pergunta ao mesmo tempo em que subimos para a sala.
– Estou no aeroporto esperando para ir embora – apesar de tudo, sorrio. Aliviada pelos danos que poupei e feliz por tudo que vivi.
O professor Vitor entra sorrindo. Nenhum aluno se atreveu a incitar os boatos. Pelo o que ouvi, ele tinha acabado de sair da diretoria. Ileso.
Sem delongas, começou a entregar as provas. Felizmente, eu sabia o conteúdo. Quando chegou a minha mesa, sussurrou sem olhar para mim:
– Boa sorte.
O primeiro detalhe que observo no cabeçalho é o nome Professor Vitor. Acima, faço questão de escrever: mais que um professor. Ele irá entender.
Enquanto leio o primeiro exercício, distraio-me pensando em como tudo aconteceu no lugar errado, na hora certa.
Na equação da minha vida, ele subtraiu toda minha insegurança e adicionou brilho aos meus dias.
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