Mais Que Um Professor
31 Capítulo 31 - Descobertas
Parte 1
POV: Duda
– Anna? – a cutuco com força e ela continua deitada no chão. Haviam pessoas ao redor. A música tinha parado.
– O que aconteceu? – Isa, que estava no banheiro, a vê caída e se desespera. Sua voz estava bastante elevada.
– Não sei. Estava com o Otávio e a Vic. A Anna estava encostada nesse canto. Sorridente... Um segundo depois a vejo caída – os dois com seus semblantes confusos estavam do meu lado.
– Diego? – Otávio o encara. Ele está agachado ao lado da Anna; as mãos na cabeça, um olhar preocupado.
– Calma, Otávio! Ela só desmaiou. Já vai acordar – tentou aparentar calma, mas não conseguiu.
– Só desmaiou? Você ficou louco? A Anna nunca bebeu assim – um Otávio enfurecido surge.
– Anna? – a cutuco de novo. Um pavor toma conta de mim.
– O que vamos fazer? – Vic pergunta. – Desconsiderem a opção ligar para os pais dela.
– E para quem vamos ligar? – Isa diz. Ela estava vermelha.
Falho em tentar não pender para o lado pessimista. Olho para ela: frágil, pálida... Meu coração pulsava a base do desespero. Os pais dela não eram tão, se assim posso defini-los, modernos. O pai da Anna não era compreensivo. Dona Elisa teria um ataque cardíaco. Eles certamente não eram uma opção. Nos matariam e a matariam depois. Mal sabiam que a Anna estava numa festa. Para eles, ela estava na casa de um dos amigos.
– Nossos pais também não são uma boa opção. Qualquer um deles ligariam para a mãe dela. – Vic olha para o Diego – Você é um idiota!
De nós, só a Anna tem irmão mais velho... Um irmão que não tínhamos contato e não podíamos pedir ajuda. Mais uma opção a ser descartada.
Isa agacha ao lado dela e começa a agitá-la. Afasto sua mão.
– Estou tentando ajudar! – ela grita.
– Você não vai conseguir ajudar assim! – grito de volta.
Uma ideia surge de repente. Delicadamente, pego o celular da Anna em sua bolsa. Puxo a Vic para um canto.
– Há alguém que pode nos ajudar.
– Onde vocês vão? – Isa grita.
Não havia tempo para explicar.
– Vitor... Claro! – Vic diz para si mesma. – Duda – ela coloca a mão no meu ombro –, como ele pode vir até aqui? Como explicar para todos esses alunos por que temos o telefone do professor Vitor?
O pavor toma conta de mim novamente.
– Não pensei nisso! Ai, Vic...
– Não se culpe. É difícil raciocinar direito em momentos assim. Mas agora precisamos pensar algo.
– O Otávio foi para a minha casa depois da aula. Por isso viemos juntos. Mas ele não mora aqui por perto? – pergunto.
– Sim, ele mora.
– Os pais dele estão viajando?
– É bem provável que sim.
– Vamos levar a Anna para a casa dele. O Vitor a busca lá.
– Boa ideia, Duda!
Procuro por Vitor em sua agenda.
– Oi, Anna – ele atende rapidamente.
– Vitor?
– Alô?
– É a Duda. Escute, prometo que depois explico tudo, mas preciso de você agora. A Anna... Ela desmaiou. Estamos numa festa. Você pode vir até aqui?
Passei o endereço e desliguei o telefone.
– Ele vai vir – dou um longo suspiro. – Nem fez muitas perguntas. Disse que chega daqui uns minutos.
Corro até o Otávio.
– Seus pais estão viajando?
– Sim – ele olha assustado.
– Pega a Anna. Vamos para a sua casa.
– Lá é mais calmo – Vic diz para despistar dúvidas.
Com cuidado, Otávio carrega a Anna e segue para a porta.
– O que vocês estão fazendo? Vou ligar para alguém! – Diego grita.
– Cala boca – digo.
A casa do Otávio ficava há uns cinco minutos da casa do Diego.
Assim que entramos, a colocamos no sofá.
– Trazê-la aqui não vai ajudar em nada – Isa murmura.
– Não entendi também, mas aquele barulho estava me matando – Otávio suspira.
– Ligamos para alguém que já está vindo.
– Para quem? – Isa pergunta. Seu olhar de “você está fazendo tudo errado” estava me irritando.
Decido não contar para quem liguei. Não vou conseguir lidar com um ataque da Isadora. Não agora. A deixo falando sozinha e vou espera-lo na porta.
Tudo aconteceu tão rápido...
Um carro preto para em frente à casa do Otávio. Vitor. Abro a porta para ele e sem perguntas, entra.
Isadora e Otávio arregalam os olhos.
Vitor pega a Anna e a carrega até o seu carro. Ele parecia nervoso. Não por alunos confusos o encarando, que ele ignorou perfeitamente, mas pela Anna frágil no sofá.
O semblante de Otávio se alivia. Por saber da existência dele na vida dela e por vê-la daquele jeito, a compreensão o atingiu mais rápido. Porém, o outro lado não se encontrava da mesma forma. Conforme o Vitor agia normalmente, mais pontos de interrogação pairavam sobre a Isa.
Ele beija a testa dela.
– O que está acontecendo? O que ele está fazendo aqui? – Isa vocifera.
– Alguma de vocês pode vir comigo? Preciso que alguém segure ela.
– Vou junto – entro no carro e ele coloca a Anna no meu colo.
– Também vou – Vic diz e senta no banco da frente.
Olho para a Isa.
– Prometo que explico depois. Explicarei tudo. Mas agora, dá para parar de pensar em você e sossegar sua incompreensão? Ela não está bem. Só por um momento, Isa. Por favor. Venha com nós.
Ela entra no carro e fecha a porta com força. Seu rosto parecia banhado a raiva.
– Vou ligar para a mãe dela e avisar que ela vai dormir aqui – Otávio diz. – Liguem quando ela melhorar!
Vitor sai com o carro.
– Não sabia que a Anna bebia.
– Nem nós. Ela perdeu o controle. Estava animada... – olho para ela em meu colo e acaricio seu cabelo.
– Como soube que ela bebeu? – Vic pergunta ao Vitor.
– Festa, desmaio... Bastante óbvio.
– É... O Diego é um otário. Ela vai ficar bem?
– Sim. Ela vai tomar glicose no hospital e vai ficar melhor. Os documentos dela estão na carteira?
Isa estava incrivelmente muda. Alguma hora ela iria explodir.
– Estão – respondo.
– Faz tempo que sabem sobre mim?
– Não muito – minto.
O hospital estava praticamente vazio. Sem muitas perguntas, a recepcionista encaminha a Anna para a enfermeira disponível. A levam para um quarto e informam que irão avisar quando estiver tudo bem.
Sentamos os quatro na sala de espera.
– Não aguento mais! Alguém pode me explicar agora? – inquieta, Isa diz.
Vitor olhou confuso.
Levanto e puxo a Isadora para fora. Vic vem atrás.
– Por que eu vi meu professor de física, todo preocupado, buscar minha amiga desacordada? Por que vocês têm o telefone dele? Por que ele deu um beijo na testa dela?
– Isa, preciso muito da sua compreensão agora – digo. – Não sei por onde começar...
– Pelo começo? – sua voz soava debochada.
– A Anna tem algo com o professor Vitor – ela move a cabeça de um lado para o outro e me olha incrédula.
– Isso é doente. Treze anos mais velho do que ela... Ele é um pervertido! Por que ela nunca me contou?
– Olha o seu estado, Isa. Não dá para contar com a sua compreensão. Ela tem medo de ser julgada. Ora seu apoio emerge, ora não. É difícil... Tenta entender. Por isso ela não te contou. Ele é bom para ela.
– Sei que na maioria das vezes ajo de forma egoísta e quero ditar regras. Também sei que não posso ser assim. Mas isso é errado, Duda. Os pais dela sabem disso? – sua voz se elevava a cada palavra.
Vitor vem até nós.
– A recepcionista pediu para que falem mais baixo.
– Você é ridículo – Isadora aponta seu dedo e o confronta.
– Eu? – ele a encara de volta.
Vic e eu olhamos uma para a outra.
– Você sabe o que está fazendo? Porque ela claramente não sabe. Ela é ingênua. Você é um aproveitador – seu instinto "mãe" fala mais alto.
– Sei muito bem o que estou fazendo. E que grande equívoco da sua parte, Isadora. Não a subestime. Ela sabe muito bem o que está fazendo. Faz porque quer, porque gosta. E isso não é ser ingênua. Isso não me torna um aproveitador – ele diz.
– Tenho nojo de você.
– E eu tenho nojo da sua presunção em querer ditar regras. Você não decide por ela.
– Duvido que você goste dela!
– É, não devo gostar mesmo. Só queria aproveitar daquela ingênua menina... Inclusive, não sei o que estou fazendo, em pleno sábado à noite, na sala de espera de um hospital.
– Chega, Isa. Deixe os dois em paz. Se não consegue apoiar, pelo menos não interfira – digo.
– Você perdeu seu bom senso, Duda? Como apoiar isso? Ele é um enganador. Ela sempre o achou charmoso, inteligente... Foi facilmente convencida. Ele soube onde procurar. Roubou toda a pureza dela. Será que ninguém consegue ver isso? – Vitor revira os olhos.
– Convenhamos, Isa, pureza não combina com a nossa Anna. Como apoiar? É simples. Você não a ama? A deixe viver, aprender sozinha. Ele soube onde procurar. Mas ela também soube onde e como se promover. Ela está construindo seu próprio caminho e aprendendo a guiar seus passos. E se tudo der errado, é nosso dever resgata-la do fundo do poço.
– Eu a amo – a voz dela vacila. – Talvez minha compreensão esteja escondida dentro de mim.
– Procure por ela, Isa – Vic diz e coloca a mão em seu ombro. – Ele a respeita e é bondoso. No começo foi difícil para mim também. Descobri por acaso e não conseguia aceitar. Mas quando vi aqueles olhos brilhando pedindo para que eu a ajudasse, não havia como recusar.
Isa suspira fundo. Olha para mim, para a Vic e para o Vitor.
– Às vezes, ou quase sempre, a raiva toma de mim, perco o controle e quero ter razão em tudo. Vou tentar apoia-la. Se – ela olhou diretamente para ele – você é bom com ela, é bom pra mim. Desculpem-me pelas bobagens que disse. Não quero atrapalhar ninguém.
Vitor sorri para ela e volta para a sala de espera. A abraço forte. Após o momento de tensão ter se esvaído, Vic sussurra em seu ouvido:
– Imagine um caminho. Vitor e Anna. Movimento retilíneo uniforme. Vitor indo, Anna vindo. Se encontraram. Estavam no espaço e tempo certos. Numa mesma aceleração. É isso, fim.
Entramos rindo na sala de espera.
– Vocês podem vê-la agora – a enfermeira veio até nós.
Com o cabelo bagunçado, sorri ao nos ver. Vitor vem atrás. Seus olhos brilham ao vê-lo.
– Oi – ela diz.
Sorrimos de volta e paramos ao seu redor.
– Que susto você nos deu, Anna! – vou até ela e a abraço.
Como ela estava diferente da menina que conheci há alguns anos. Agora seu olhar era firme. Seu sorriso não era mais frágil. É um prazer vê-la segura de si. Olho para ela e penso em como o desejo a guiou por um caminho bonito. A vontade de encontrar o meu envolveu minha alma. Eu sinto algumas peças fora do lugar e sei que preciso arruma-las antes de seguir em frente. A Anna nova sendo aceita me faz querer libertar as mudanças que se acumulam dentro de mim.
Parte 2
POV: Anna
– Desculpem-me – digo envergonhada. – Perdi o controle. Estou bem agora. Obrigada por tudo.
De longe, seu olhar me acaricia. E seu sorriso torto varre todas as preocupações para debaixo do tapete. Fiquei feliz em vê-lo. Sei que o final do ano está perto, mas ainda não me ameaçou o suficiente para eu estragar tudo.
Vejo a Isa e não consigo entender.
– Isa?
– Agora sei de tudo, Anna. Conte com o meu apoio – ela pisca e sorri para mim.
– Aposto que você surtou.
– Foi exatamente o que eu fiz – ri.
– Não sabia que a Isadora era sua mãe, Anna – Vitor diz e nós rimos.
– De vez em quando ela faz esse papel.
A enfermeira me libera minutos depois.
– Vou leva-las embora – Vitor diz e passa seu braço direito para o meu ombro.
– Mandei mensagem para o Otávio. Ele estava preocupado – avisa Vic.
Primeiro ele deixou a Isa e depois a Vic.
– Vai para a casa do Otávio ou da Duda?
– Ela vai para a minha – Duda responde por mim.
Vitor para há alguns metros da casa dela.
– Obrigada – ela agradece e sai do carro.
Olho para ele e seguro sua mão quente.
– Obrigada, professor Vitor – curvo-me sobre ele e roubo um beijo. – Desculpe o ataque da Isadora e todo o trabalho que dei – ele me beija de volta e saio do carro.
– Não faça barulho. Meus pais já estão dormindo – Duda diz assim que entramos.
– Eu poderia ter ido dormir no Otávio. Você também.
– Eu sei, mas preciso te contar algo – e fecha a porta do seu quarto.
Ela não estava sorrindo.
– Conte.
– Você não vai entender – seus olhos se encheram de lágrimas.
– O que está acontecendo?
– Por que tudo é tão simples pra você?
– Simples? As coisas não são simples pra mim, Duda. Mas estou aprendendo a deixa-las menos difíceis.
– Estou tão confusa... – ela suspira e meu coração se aperta.
– Às vezes, a bagunça dentro de nós é tão grande que tudo parece complicado. Deixa eu arrumar a sua bagunça.
– O jogo conquistar meninos era divertido. Mas nenhum nunca me tocou de fato. Gosto de meninas.
– Tudo bem – digo.
– Tudo bem?
– Eu te amo de qualquer jeito. Independente das suas escolhas.
Duda então me abraça. Forte.
De certa forma, foi uma surpresa. Ela sempre foi confusa, mas soube esconder muito bem esse lado. Eu tinha alguns questionamentos; ela descobriu esse gosto pela falta de alguém, ou era esse gosto que a impedia de ter alguém, de se envolver? Aprendi com um certo russo que não importa o método, desde que você resolva a questão. E se ela está com a questão resolvida, não me importava o método. Ela estava bem, eu também estava.
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