Mais Que Um Professor

22 Capítulo 22 - Presa na Rússia


Gosto de subir morros pela seguinte perspectiva: ao chegar à parte mais alta, olhar para trás e ver todo o caminho que percorri. O tanto que andei. O tanto que deixei ao seguir em frente.

Na primeira vez que o vi, na primeira vez que meu coração acelerou ao ouvir aquela voz grossa, não imaginei que estava subindo um morro. Não imaginei o tanto que eu iria percorrer. Não imaginei que no meio do caminho ele apareceria para alcançar a parte mais alta comigo.

É como se minha alma se alimentasse dele. Toda vez que o vejo ela se delicia saboreando sua imponência e seu sorriso torto. E então eu me avivo. Recarrego-me.

E o desejo de ser envolvida por aquelas mãos arde em mim.

Após dar sua aula e nos enriquecer com todos os pontos importantes acerca da História da Arte, a professora Lena sempre reservava uns minutos para ficarmos a vontade nos preparando para a aula seguinte. Neste tempo, minhas amigas e eu sempre aproveitávamos para conversar com ela. A Isa a amava. Todas nós a amávamos.

De praxe, Otávio se juntava a nós.

– Você não tem seus caras, Otávio? – Duda perguntou.

– Até tenho, Duda. Mas os caras extrapolam o nível “nerd” de ser. Estudar nesse meio tempo? Sério?

Rimos. A professora Lena interveio:

– Eles são esforçados, Otávio. Dá um tempo.

– Todo o tempo que eles quiserem professora. Por isso estou aqui – e sorriu.

– Lena, você não vai acreditar. Fomos a uma lanchonete ontem e sabe quem chegou acompanhado de dois rapazes maravilhosos? – Isa esperou a professora assentir e prosseguiu – O professor Vitor!

– Que coincidência bacana. E ele as cumprimentou?

– Quem ainda fala “bacana”? – Otávio falou baixinho no meu ouvido e eu, após disfarçar e rir, chutei sua perna.

– Sim. E nos apresentou como suas alunas para os amigos. Diferente dele, eles eram lindos, Lena!

– Isa, quanta implicância... O Vitor é lindo também – professora Lena advertiu.

– Não é mesmo, Anna? – Otávio me olha e finge uma expressão de dúvida. Devolvo um olhar de “sério que você está me perguntando isso?” e rio. Duda e Vic me olhavam com a mesma expressão. Otávio e seu poder de desencadear coisas...

– Ah é, a Anna tem uma paixão platônica por ele... Lembro que me contaram. Na sua idade, Anna, eu também era apaixonada pelo meu professor de física – contou Lena.

“Mas aposto que você não ia para um beco com seu professor”, pensei. Apenas sorri para ela.

– Aliás, Anna, a sorte esteve do seu lado no dia do nosso passeio, hein? O único lugar disponível era ao lado do seu querido professor. Parece até que você sabia que se chegasse atrasada poderia sentar com ele sem ninguém notar – continuou Lena.

– Para adquirir essa informação, ela contatou o além – brincou Otávio. E após rir, piscou para mim.

Ri e virei os olhos. Não consigo ficar brava com ele. E nem poderia. Sinto-me culpada por não poder compartilhar meu segredo com a pessoa que mais estimo. Mas para cada ação, uma reação. E eu já tinha muitas para lidar.

– A Anna agora é regida por sua obcessão – Vic sorria.

– E não bastou sentar ao lado dele, Lena. Não que ela tivesse andado atrás dele o dia inteiro, mas de alguma forma estranha e que me foge a razão, os dois estavam perto o tempo todo – Isa relembrou.

– Como um imã – disse Duda. – Não importa o quão longe estivessem, seus polos sempre se atraiam – Para ela não era estranho. Para ela havia sentido e razão.

– Gostei bastante dessa analogia, Duda. E se não fosse um professor e uma aluna, faria todo o sentido – disse o bom senso da professora Lena.

– Aí é que você se engana, professora. Faz todo o sentido justamente por se tratar de um professor e uma aluna. Os polos diferentes – respondeu Duda com um tom “eu sei do que estou falando”.

Tornei a olhar o grupo e os olhares que dirigiam à Duda. Isa a encarava e sua expressão alternava de “uma boa analogia” para “não entendi sua convicção perante este assunto”. Professora Lena a analisava serenamente. Otávio tinha um ponto de interrogação estampado em sua face. Vic olhava para o nada com um sorriso suspeito. E eu olhava para os meus pés. Não havia nada que eu pudesse falar ou fazer.

– Adoro conversar com vocês sobre tudo, meninas. Até sobre amores platônicos. Mas tomem cuidado com o que dizem. Se o Vitor ouvisse sobre essas hipóteses e sobre todas as fantasias que vocês criam, acho que não gostaria muito. Apesar de ser uma pessoa descontraída, é também sério. Tomem cuidado principalmente para quem dizem. Para o lugar onde comentam sobre isso. Nunca se sabe quem pode ouvir e interpretar de maneira errônea. Nunca esqueçam de que se trata de um professor e uma aluna.

Olhávamos atentamente para ela. O brilho da conversa foi substituído pela seriedade do assunto. Entretanto, os únicos arrebatados pela seriedade do momento foram a Isa, meu querido Otávio e a professora Lena. Os únicos que não sabiam a verdade.

Se estivéssemos tendo essa conversa meses atrás, ela acertaria em dizer “hipóteses e fantasias” – que ele acharia uma bobagem –, mas hoje são fatos. Fatos desencadeados pelo seu querido, descontraído e sério Vitor. Mas assenti minha cabeça por concordar com pontos específicos que ela abordou: para quem dizemos e onde dizemos. Arriscarei tudo e mais um pouco se alguém errado ouvir. Afinal, mais do que Anna e Vitor, somos a aluna e o professor que se veem escondidos. O envolvimento ilegal.

No final do dia, o dono dos meus suspiros chegou à sala para dar sua aula. Tudo seguiu como de costume: matéria explicada, exercícios resolvidos, dúvidas respondidas e olhares discretos para a minha direção.

Ele havia dado uma atividade para a nota, quem terminasse poderia ir embora. Terminei o último exercício da atividade, juntei minhas coisas e deixei o papel em sua mesa. Ele estava sentado corrigindo as que tinha recebido até então. Antes que eu pudesse me retirar, ele pegou um lápis e escreveu em minha folha:

“No mesmo lugar de sempre?”

Assenti discretamente e sai da sala.

Entrei no carro e dei um beijo em seu rosto. Sua barba raspou em meus lábios. Seu cheiro dominou minha mente. Estávamos indo para a sua casa.

– Foi estranho sábado – quebrei o silêncio que poderia pairar sobre nós.

– Sim. Mas foi bom te ver – ele tirou uma de suas mãos do volante e afagou meu joelho.

– Foi bom te ver também. Mas estranho. Do nada, olho para a porta e vejo você com dois amigos.

– Eles vieram me visitar. E se te conforta, foi estranho também ver minhas alunas num sábado à noite. Uma surpresa agradável se meus amigos não fossem carentes de atenção e minhas alunas carentes de algo que roubem suas atenções.

Ri.

– É. Nossas mesas trocaram bastantes olhares – ele riu. – Elas os acharam muito bonitos. “Maravilhosos”, “uau”, “poderiam ser professores e dar aulas para nós”... – imitei-as.

– E o que você achou Anna? – ele me olhou curioso.

– Ah, bonitos.

– É? Porque foi isso o que falaram de você e das suas acompanhantes. Não sei como o assunto prosseguiu na sua mesa após eu ter chego. Mas na minha se baseou em “que alunas bonitas, Vitor. São todas assim? Uma pena serem menores de idade”.

– As meninas adorariam saber disso.

– Você não?

– Não. Estou um tanto constrangida por saber. Não gosto de ser analisada. No começo de tudo, fui analisada por você?

– Não, Anna. Nunca olhei para você e pensei “uma pena ser menor de idade”. E de meninas bonitas o mundo está cheio. Se eu estivesse interessado em me aventurar, meu destino não seria a sala de aula – ele deu uma pausa no que dizia –, Você me analisava?

– Vitor, você entrou na sala e foi como se tivesse arrancado meu coração e guardado na sua mochila. Mal deu tempo de eu te analisar – eu disse da forma mais espontânea que consegui. Ele sorriu e subiu sua mão para minha coxa. “Mas deu tempo suficiente para eu captar todos os seus detalhes”, prossegui em minha mente.

– Eles perguntaram se vocês davam em cima de mim – contou.

– E o que você respondeu?

– Que vocês não, mas algumas de outras salas sim. Que só os olhos de vocês faziam coisas. “Dar em cima” era um limite que vocês não ultrapassavam. – Após alguns segundos de silêncio, continuou com o que tinha a dizer – Eles atrapalharam vocês, não foi? Aqueles sorrisos maliciosos estavam me dando tontura – perguntou.

– Atrapalharam a mim, mas a elas não. As três adoraram ser contempladas por aquela vista inusitada – rimos. – Quando você foi a nossa mesa nos cumprimentar, um deles não parava de me olhar. Ele obviamente deve ter notado meu olhar para a direção de vocês ao entrarem pela porta. Não desviei um segundo sequer – contei.

– Ele realmente percebeu. Sentou-se à mesa e disse: “Aquela Anna deve ser uma graça, não parava de olhar para nós”. “Adorável”, respondi com um olhar não tão adorável quanto minha resposta.

– Tudo isso me inspira a pensar que os dois são o tipo de rapazes que eu detesto. O tipo de rapazes que buscam tirar proveito de olhos encantados.

– O que te garante que não sou assim? – indaga Vitor.

– Nada me garante. Mas escolhi abraçar sua gentileza e confiar na autenticidade de seus atos – lentamente pego sua mão de minha coxa e a seguro. Ele a pressiona forte.

Havíamos chegado ao nosso destino. Sem delongas, subimos para o seu apartamento. Assim que entrei, coloquei minha mochila num canto e deixei meu casaco no sofá. O acompanhei até a cozinha.

Ele logo me pressionou contra o balcão e tornou a me olhar. Nossas respirações se entrelaçavam. Seu corpo estava colado no meu. Eu queria tanto aqueles lábios... Suas mãos abraçaram minha cintura com força. Sua boca foi parar em meu pescoço. O contato de sua barba em minha pele era alucinante.

Seus lábios encontraram os meus e minhas mãos se moveram para suas costas. Docemente sua língua percorria a minha. E conforme eu o apertava, ele retribuía o ato.

– Eles me perguntaram se eu estava saindo com alguém – sussurrou em meu ouvido.

– E o que você respondeu?

– Que sim. Eles perguntaram se podia conhecer a moça, e eu respondi que ela não queria conhecer ninguém.

Ri em seu pescoço.

– Por isso olhou pra mim àquela hora?

– Sim, Anna Karenina – e piscou para mim. – Está com fome? Vou pegar algo para comermos – soltou minha cintura e deu um beijo em minha bochecha esquerda.

– Eles foram embora no dia seguinte?

– Sim. Depois que terminamos de comer, voltamos para cá. Assistimos a um filme e dormimos. – Com as mãos na porta da geladeira olhou para mim – Ah, e eu vi aquela mão esperta na sua cintura – disse e abriu a porta.

– Fiquei muito desconfortável, aliás.

– Eu vi seu rosto. E disse depois para ele que pela sua expressão você não devia ter ficado muito à vontade. Ele respondeu que a mão escapou – e riu como quem diria “escapou? Sei...”.

Enquanto ele preparava um lanche para nós, sentei-me à mesa. Continuamos conversando até que a campainha toca. Olho para ele e ele olha mim.

Ele vai até a porta ver quem é. Fico sozinha na cozinha. E engano-me ao pensar que minha preocupação não poderia ser maior. Engano-me, pois escuto vozes familiares. Vozes que me acompanham todos os dias.

Eram professores do colégio.

Meu coração disparou. Instintivamente, fui para a sala, peguei minha mochila e corri para o quarto do Vitor. Não tinha como eu ir embora. Meus outros professores não podiam me ver ali. Os colegas professores do Vitor não podiam vê-lo com uma aluna.

Depois que percebeu minha ida ao seu quarto, abriu mais a porta e convidou seus colegas professores para entrarem.

– Fiquem a vontade, vou guardar este casaco e já volto – Vitor diz e dentro do seu quarto eu estremeço. Meu casaco estava no sofá.

A porta range e Vitor entra com o casaco dobrado de qualquer jeito em suas mãos. Seus olhos estavam um tanto arregalados. Ele estava sem graça, mas logo se recompôs. Sentou na cama, ao meu lado.

– Eu tinha os convidado para conhecer meu apartamento. Esqueci que a visita iria ser hoje – falou bem baixinho, com o rosto quase colado ao meu. – Você pode esperar?

Meneei a cabeça num sim.

– Oh, Anna, obrigada. Espero que compreenda a situação e desculpe minha indelicadeza – sorri para ele. É claro que eu compreendo.

Então uma de suas mãos se move para minha perna e a outra segura a minha que estava próxima à sua. Ele me olha serenamente.

– Os professores podem demorar um pouco. Tenho duas alternativas. Posso te levar embora mais tarde. Ou se houver algum problema em você chegar tarde em casa, pode dormir aqui. O que resolver está bom para mim. Você está com fome?

Balanço a cabeça num não.

– Fique a vontade e me mande uma mensagem se precisar de algo. Tente não fazer barulho – deu-me um beijo e levemente puxou meu lábio inferior, depois saiu do quarto e fechou a porta.

Após o susto do momento se esvair de mim, começo a pensar nas alternativas que ele me deu. Chegar tarde não era uma boa opção, iria gerar muitas perguntas. Quando vou à casa da Duda nunca chego tarde na minha. Ou eu voltava cedo, ou dormia por lá. Sendo assim, a única e melhor opção que me restava era dormir no recanto russo. Eu confio nele.

Pego meu celular e digito uma mensagem para a Duda:

“Dudu... Você pode me acobertar? Vou dizer à minha mãe que irei dormir na sua casa. Estou bem. Não se preocupe.”

“Claro, minha querida. Não faça nada que eu não faria e tome cuidado.”

Recebi logo em seguida e sorri para o celular.

Fui até o banheiro do quarto dele e liguei para minha mãe:

– Oi, filha! – ela atendeu me saudando.

– Oi, mãe!

– Me deixa adivinhar: posso dormir na casa da Duda? – e riu. – Pode.

Desliguei o celular e expirei o ar nervoso abrigado dentro de mim. Eu iria dormir na casa do meu professor.

Notas finais
Olá, leitores maravilhosos! Tô esperando vocês nos comentários contando tudo o que acharam do capítulo. A parte que mais gostaram, o que acham que vai acontecer nos próximos, o que esperam que aconteçam... Nunca se esqueçam do quanto vocês me alegram e motivam. Obrigada por serem atenciosos e pacientes. Beijos. P.s.: Adoraria ficar presa na Rússia. E vocês?