Mais Que Um Professor
21 Capítulo 21 - Por Acaso
Notas iniciais
Sábado à noite. As meninas, ou melhor, a Isadora queria sair. Marcamos de nos encontrarmos numa lanchonete. No fim, foi uma ótima ideia. Estava com saudades disso... As amigas se encontrando.
Pedi uma carona para minha mãe e minutos depois estávamos dentro do carro. Durante o caminho pensei nas diversas reações que ela teria caso descobrisse os rumos que ando tomando. Nunca fui uma menina problemática, aliás, nunca dei problema. Até porque, as coisas não aconteciam pra mim. E justo quando acontece, é da forma considerada “não convencional”. Não existe a possibilidade de dona Elisa aprovar isso. Ela provavelmente ficaria decepcionada. A menininha dela agora sai com um professor.
Quase ultrapassando a linha tênue do estar bem e estar mal, quando decidi parar de pensar no assunto. Parar de sofrer por antecipação. A “coisa” já está feita. Se algo tiver que dar errado, lido com isso depois. Afinal, nada sai como o planejado. Meus planos nunca seguem o roteiro mesmo.
Sinto como se ele tivesse retirado algumas camadas de mim. Minhas peles mortas. Retirado sentimentos que me faziam questionar a mim e ao mundo a cada segundo. Toda a minha insegurança desnecessária. De alguma maneira, me sinto preparada para tudo. Tranquila. Bonita. Desejada.
Nunca cansarei de me surpreender com o quanto minha mente consegue dar voltas em curtos períodos. Minha mãe parou na frente da lanchonete. Dei um beijo em seu rosto, peguei meu casaco e saí do carro. Assim que entrei avistei as meninas. Estavam no segundo andar. E acompanhadas: Duda, seus olhos azuis e seu sorriso. Isadora, seu nariz arrebitado e seu longo cabelo. Victoria, seu cabelo no ombro e seu jeito inconfundível. Subi as escadas pensando no quanto elas são únicas.
– Num mundo onde a Victoria é a última a chegar, é surpreendente que isso não tenha acontecido hoje – saudou-me Duda.
– Num mundo onde a própria Victoria está na mesa e gostaria de se defender, você não deveria falar dela assim – brinca Vic. Rimos.
– Oi, meninas – digo.
– Oi, Anna. Já fizemos seu pedido – meneei a cabeça para a Isa e roubei uma batata da Duda antes de sentar. Pisquei para ela em sinal de vingança.
Automaticamente, lembrei-me do que ela disse em nosso último almoço sozinhas: “Só mais uma, para dar sorte no amor, uma no começo e outra no final”. Sorri.
Conversas e risadas regiam nossa noite.
– O Diego tem meu apoio – disse Isa antes de tomar um gole do seu refrigerante.
Olhei confusa.
– Apoio? – indaguei.
– É. Vocês combinam. Ficam bonitos juntos. E acho que ele gosta de você.
Engoli em seco. Duda olhou para o seu lanche. Victoria segurou uma risada.
– Então, ele é legal. Mas...
– Mas? – ela me olhava diretamente nos olhos. Um olhar afiado como o de um gavião.
– Mas não quero combinar com ninguém no momento – agora ela me estuda com seu olhar.
– Não estou entendendo mais nada. Qual o problema em se divertir com alguém, Anna? Qual o problema em conhecê-lo melhor?
Meu coração gritava que o problema era que eu já andava me divertindo com alguém, mas minha boca disse:
– Nenhum. É só que, no momento, prefiro me divertir comigo mesma.
– Se prefere assim... – ela olha para a Duda e Vic – Vocês não acham que ela combina com o Diego?
– Eu acho que ela combina com o professor Vitor – Vic piscou para mim. Agora quem segurava uma risada era eu.
– Um lindo casal – falou Duda. Estávamos as três rindo. Isadora nos encarava.
– Lindo casal? Sério? Um professor e uma aluna adolescente? Sério? A doce Anna e o arrogante Vitor?
– Estamos brincando Isa – Duda disse e dessa vez, parei de rir. Não era uma brincadeira. – E não sei da onde você tirou que ele é arrogante.
“Agora eu entendo, doce Anna”.
Instantaneamente, recebi essa mensagem da Vic, e sei ao quê ela estava se referindo. Agora ela conseguia entender o porquê guardei segredo, o porquê de a Isa não saber. Olhei para ela, que estava sorrindo para mim, e sorri de volta. Eu sempre soube que ela era incrível.
Eis então que o universo resolve brincar comigo. Resolve unir o útil ao agradável. Porque quando olho para a porta, meu querido professor Vitor, acompanhado de dois rapazes, estava entrando na lanchonete.
Meu coração foi parar na garganta, e meus olhos congelaram.
As meninas seguiram meu olhar e também congelaram. Um professor numa lanchonete: estranho. O professor que sai com uma aluna entrando numa lanchonete, e a aluna e suas amigas estando no local: mais estranho ainda.
Não tinha a pretensão de ele começar a me contar para onde ia, não somos namorados nem nada do tipo. Mas a perspectiva de que ambos tínhamos uma vida fora daquela no beco, por um segundo, me assustou. E perceber que nunca pensei na possibilidade de nos encontrarmos fora da escola por acaso, me assustou ainda mais.
Seus olhos encontraram os meus, e por incrível que pareça, ele também congelou. Ao entrar, ondas de energia quebraram em mim. E ao me olhar, meu corpo vibrou. Duda e Victoria agora me fitavam.
Um segundo se passou e sua expressão suavizou-se. Ele, que estava de costas para seus amigos, sorriu. E os dois rapazes, se assim posso dizer e se entendi da forma certa, me comiam com os olhos. Afinal, eu não parava de encarar a direção em que eles estavam. Mas não sou atraente o suficiente para chamar a atenção desses rapazes. Talvez fossem da mesma linha russa: confiantes, famintos por olhares brilhantes de meninas que os venerassem.
Eles eram bonitos. Mais encorpados que o Vitor, da mesma altura. Um tinha os olhos verdes, cabelo castanho escuro. O outro tinha o cabelo mais claro e uma barba a fazer, mais forte que o outro.
– Até aqui temos de vê-lo... – suspirou Isadora acordando nossa mesa do momento constrangedor.
Para ir até as mesas disponíveis do segundo andar, ele tinha que passar pela nossa.
– Oi, professor Vitor – Isadora cumprimenta-o com uma expressão sarcástica.
Ele para em nossa mesa. Seus amigos, que pararam de me encarar, atrás. Eu olhava para o meu lanche, Duda sorria e Victoria olhava séria para o nada. Um pensamento logo tomou conta de mim: o que seus amigos pensariam se eu fosse apresentada como uma “aluna especial”?
– Oi, meninas – ele olha para nós e dá aquele sorriso tímido e típico, e depois olha para os seus amigos. – Essas são minhas alunas – aponta para cada uma de nós na ordem em que nos sentamos e conta nossos nomes –, Victoria, Isadora, Eduarda e – seus olhos sorriem para mim – Anna.
– Oi, meninas – os rapazes sorriem, e um deles continua – Oi, Anna.
Desta vez levanto o rosto e olho sem entender, olho também Vitor enrugando as sobrancelhas para eles.
– O único nome fácil de decorar – o que me cumprimentou, o de olhos verdes, levanta as mãos em defesa. Duda e Victoria riem baixinho. Isadora tem um ar suave sobre ela, o que é estranho dado seu olhar gelado de minutos atrás para o Vitor.
Espero que minha vida não siga o roteiro dessa noite: calma, agradável, estranha, constrangedora. Não era um professor e suas alunas se encontrando por acaso numa lanchonete. Era o professor e a aluna que conhece sua casa com suas amigas se encontrando por acaso numa lanchonete.
– Vamos ir para a nossa mesa, meninas. Estamos com fome. Tchau – anuncia nosso querido professor, que toma a frente e caminha até uma mesa nem tão perto nem tão distante da nossa.
– Foi um prazer – o amigo mais forte com o cabelo claro vira pra trás e diz. As meninas riem e eu olho para o Vitor, que olha torto para o amigo.
– Uau... Eles são muito bonitos – Isa diz em meio a suspiros. – Não são?
Duda, Vic e até mesmo eu, balançamos a cabeça em afirmativa. Eles eram realmente bonitos.
– Vamos usar um pouco do instrumento Marin – Vic brinca.
– Instrumento Marin?
– Imaginação – ela ri, e por mais que eu tente olhar torto, falho. Rio junto. E ela prossegue – Se são amigos do Vitor, podem ser da faculdade. Podem ser professores. Podem...
– Imaginem eles dando aulas para nós – Duda fala e fecha os olhos para contemplar melhor a cena em sua mente.
– Imaginem... Eles são muito bonitos. Nossa – Isadora continua com seus suspiros e eu meio que me irrito.
– Eles provavelmente são treze anos mais velhos que você. Que nojo – imitei-a.
– E agora, Isa? – Vic diz e ri. Mas não era hora para rir, apesar de eu entender que ela queria amenizar o clima que a conversa iria tomar.
– Como se eu fosse fazer algo, né Anna. E outra, um homem mais velho é até que aceitável, mas um professor mais velho e uma aluna não.
“Ela não disse isso”, foi tudo o que pensei na hora.
– Você é contraditória e um tanto hipócrita, Isa. Se você estiver incluída, tudo bem. Se for com você, tudo bem. E isso não é certo – disse e comi um pedaço do meu lanche. As palavras simplesmente jorraram da minha boca. Ela me olhava perplexa, mas sabia que eu estava certa.
– Você está me chamando de egocêntrica?
– Também. O mundo não gira sobre suas regras – respondi e continuei comendo meu lanche. Por que era errado uma aluna sair com um professor, e uma menina de dezessete anos admirar um homem mais velho não? A única diferença entre quem faz e quem imagina, é o ato.
“Confiante ao ponto de ‘enfrentar’ nossa Isadora, doce Anna? A Rússia está fazendo bem pra você.
P.s.: Os países vizinhos parecem ser ainda mais interessantes.”
Outra mensagem da Vic. Olhei para ela e dei um meio sorriso.
Não ia pedir desculpas para a Isa. Pedir desculpas significaria voltar à trás. E além do mais, é quem ela vive dizendo que aprecia a sinceridade, aprecia quem diz o que pensa. Amo-a assim, e espero que toda minha compreensão seja recíproca.
– Não se mexam, mas tem dois rapazes bonitos olhando para vocês. Para nós. Que seja. – Vic anuncia – Para nossa direção – pareciam que eles estavam falando de nós.
Elas, menos a Vic, sorriem e arrumam o cabelo. Adolescentes... Inevitável não pensar no quão fácil é homens mais velhos se aproveitarem de meninas ingênuas que suspiram por eles. No quão difícil é para essas meninas ingênuas não deixar se enganar. No quão difícil é não seguir o instinto de viver algo por uma única vez.
Olhei para trás e meus olhos encontraram meu conde Vronsky*. E os olhos dele encontraram sua Anna Karenina. Ali eu entendi o real significado da frase “Não se pode perguntar o ‘porque’ do amor”**. Ele não queria se aproveitar de mim.
Peguei meu celular e enviei para ele:
"Os cavalos fogosos conhecem-se pela marca e as pessoas apaixonadas pelos olhos."
Assim que terminou de ler, me fitou brandamente e sorriu. Digitou algo em seu celular e rapidamente meu celular vibrou:
“Anna Karenina.”
Não estávamos apaixonados, mas ele havia entendido a referência. Se isso for possível, meu coração se abriu em um sorriso. E o mais estranho de tudo foi que nenhuma das meninas percebeu. No fim, seus amigos foram belas distrações. Talvez a noite de hoje não passasse de um plano que arquitetamos em nossos subconscientes. Nós dois em uma lanchonete, uma distração para as minhas amigas.
– Já está ficando um pouco tarde, minha mãe está vindo me buscar. Querem uma carona? – Vic disse.
Aceitamos a carona e agradecemos. Pedimos para o garçom fechar nossa conta, pegamos nossos casacos e levantamos para ir embora.
Assim que passamos por certa mesa...
– Tchau, meninas – os rapazes bonitos, para minha surpresa e felicidade das minhas amigas, fizeram questão de levantar para se despedirem de nós. Vitor continuou sentado.
Uma por uma, eles abraçaram e se despediram com um beijo no rosto. Quando chegou a minha vez, meneei a cabeça somente. Não queria um abraço. Mas quando um deles se aproximou, seria extremamente chato se eu recuasse. Tentei o abraçar da forma menos íntima que eu podia, porém, quando senti suas mãos em minha cintura, soube que falhei. “Que moço mais invasivo” pensei de imediato. Arregalei meus olhos, e engoli seco quando vi o olhar áspero que meu querido professor dirigiu a seu amigo.
– Tchau, meninas – ele diz por fim, após parar de fitar seu amigo. – Até segunda.
*Conde Vronsky é um dos personagens do romance russo Anna Karenina, de Liev Tolstói. O conde da Anna.
**Famosa frase do romance Anna Karenina.
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