Mais Que Um Professor

20 Capítulo 20 - Bonjovski


– Seu período de exclusividade acabou – disse para Duda enquanto descíamos para o intervalo. Ela ergueu suas sobrancelhas e aqueles olhos azuis exigiam uma explicação melhor. – Rússia, física, como preferir... Você não é mais a única a saber.

Agora seus, arregalados, olhos azuis me envolviam em uma tamanha confusão. Ela me puxou para um canto e perguntou baixinho:

– Você contou para a Vic?

– Como sabe que é com a Vic?

– Se fosse com a Isa você não estaria viva hoje para contar história.

– Verdade – ri.

– Não é hora de rir, Anna Marin. Como contou?

– Na verdade, eu não precisei contar. Ela mesma viu.

– O quê? Como assim?

– Sem querer nos descuidamos. E mais sem querer ainda, Vic viu.

– Quando foi isso?

– Ontem, na sala.

– Ann... – boquiaberta, não conseguiu terminar meu nome.

– Mas está tudo bem. Conversamos após o momento constrangedor. Contei tudo, e ela conseguiu me compreender. Ela ficou sem reação, eu fiquei sem saber o que fazer...

– E me deixa tentar adivinhar: ele não demonstrou nenhuma reação.

– Mais ou menos. Seu olhar indicava uma aparente preocupação.

– Isso é interessante. Mais um tópico para meu projeto de história russa: talvez essas terras abrigue uma ilha desconhecida. Um Vitor diferente.

– Somos meras carcaças, Dudinha. Todos abrigam pessoas, sentimentos, mundos desconhecidos dentro de si.

– Meras carcaças... Realmente – passou um braço sobre meu ombro e continuou. – No fundo, sempre soube que a Vic iria te apoiar, Anna. Concordar não sei, mas seu apoio era inevitável. Fico feliz por estar tudo bem.

– Bonjovski – olhei para trás e Vic nos saudava com um sorriso. Ela havia acabado de chegar.

– Bonjovski? – Duda perguntou.

– É, acabei de pensar nisso. Uma junção de bonjour com o vski dos sobrenomes russos. Um adaptado bom dia em russo – caminhamos para o pátio rindo.

– Bonjovski... Eu adorei isso! A cota criatividade do dia vai pra você, Vic – disse.

Enquanto nos acomodávamos em um banco, Duda nos contou que a Isa não viria. Tinha um compromisso com sua mãe.

– Somos somente nós hoje – finalizou.

– Foi estranho para você como está sendo para mim, Dudinha? – Vic perguntou. Eu estava sentada no meio das duas.

– O que foi estranho?

– Você precisa trocar sua bateria interna urgente, Duda. Do que eu estaria falandovski?

– Ah... – rimos –, então Vic, a diferença entre nós é que para você os devaneios da Anna eram apenas devaneios. Para mim não. Para mim eram reais. Aventuras que presenciei enquanto observava – ela apontou para os meus olhos – essas pupilas dilatarem. Por isso não foi estranho.

– E eu esperando um simples sim ou não... – brincou Vic.

– Às vezes a bateria pega no tranco – falei.

– Lembro-me da expressão da Anna na primeira vez que viu ele – pelo visto seria um longo dia de lembranças, vistas com outros olhos, para a Vic.

– “AI MEU DEUS, o novo professor de física acabou de tomar meu coração” – imitei-a. Ela havia me dito isso no dia seguinte, pós-novo professor de física.

– Foi exatamente assim – ela sorriu. – Cenas ficam passando pela minha cabeça agora, Anna. Você pendurando as bandeirinhas na festa junina e o senhor Rússia segurando a escada, ele almoçando com nós no passeio da Lena...

– Logo você acostuma – Duda disse. – Vocês acham que ele planejou tudo ou agiu por impulso?

Fixei meus olhos ao nada. Queria ouvir a opinião das duas.

– Fico com a opção de que a Anna apareceu de supetão no caminho dele – Vic piscou para mim.

– Ele, por um acaso, passou pelo local onde ela estava pedindo carona – Duda continuou.

– Ou talvez ela tenha, por engano, errado o caminho. Pegado um atalho para a Rússia.

– São opções tentadoras, Vic. Difícil escolher uma só, afinal, todas se adéquam ao caso– falou Duda. Nós três estávamos rindo. Amizades movidas a risadas. – Estamos indo, Anna voltando.

O sinal tocou e a aula de espanhol nos esperava. Estávamos todos acomodados em nossas carteiras, quando o vulcão Rissi entra em erupção:

– Ei, Vic. Por que será que a Anna fica na aula de espanhol – olhou para mim e riu –, sendo que já aprende outra língua? Russo... – contive minha risada. Ele tem um jeito tão encantador de ser, que até seus comentários sarcásticos e ríspidos me comovem a amá-lo mais.

O engraçado foi que ao invés de seguir como de costume e rir, Vic me fitou preocupada como se o Otávio estivesse entrando em uma zona de perigo. Mas ele não estava. Era uma simples brincadeira. Eu é que tinha entrado em uma área não permitida e a levei junto comigo.

Sorri para ela como um sinal de que estava tudo bem. Foi como se ela finalmente pudesse expirar o ar que segurava, e após seu rosto abandonar o vermelho, ela riu. E riu bastante!

– Também não sei, Otávio. Boa pergunta. Por que hein, Anna? – e olhou para mim. Os dois me olhavam curiosos – considerando o quanto cada um sabe sobre as leis de Vitor, as curiosidades eram duas vertentes distintas. Otávio esperava uma risada, Victoria esperava um modo esplendoroso de sair de uma situação que me encontro e ninguém pode saber.

– Sempre bom aprender novas línguas... – falei.

– Vou procurar um rapaz espanhol pra você, Anninha – Duda, que estava com a cabeça abaixada, disse.

Os minutos para o fim da aula iam acordando cada borboleta em meu estômago. Minutos que me separavam da aula mais interessante.

Nos anos anteriores era diferente. Nosso antigo professor de física entrava, nos cumprimentava e seguia com suas monótonas explicações. Dias comuns. Parados. Tediosos. Agora é diferente. Outro ano. Outro professor. E desde o primeiro dia em que ele roubou meu primeiro suspiro eu sabia que seria um adorável ano. Até porque, mais do que o barulho da sala, minha atenção e a atenção de todos. Ele conseguiu roubar todas as batidas do meu coração, todas as sensações que dormiam dentro de mim.

Enquanto sua frieza visível à distância congelava todos, hipnotizada, eu via além. Aqueles não eram simples olhos, eram os olhos que me contemplaram dias atrás.

Otávio estalava seus dedos em frente ao meu rosto.

– Vamos acordar dessa Rússia particular que o real príncipe russo, não o platônico da sua cabeça, chegou e está cheio de matéria pra dar. Matéria hein – mostrei a língua pra ele e ele riu. Qual seria sua reação ao descobrir que o real príncipe russo e o platônico da minha cabeça são a mesma pessoa?

Otávio pegou seu celular e apontou para o meu, em seguida, o senti vibrar:

“Vitor me lembra prova (que está chegando), que me lembra que você é ruim em física e que estarei a disposição para ajudar hoje à tarde. Prometo ensinar a fórmula do sorvete com sorvete.”

Respondi:

“Se vai ter sorvete, irei.”

Olhei para ele e mexi a boca em um obrigado. Otávio é, sem dúvidas, uma parte de mim.

– Você está entendendo? – Otávio me perguntou. Fomos para sua casa depois da aula. Antigamente eu ia frequentemente. Ele sempre se preocupou com minha falta de empenho nas matérias de exatas. E sempre se propunha a ajudar quando as provas estavam a caminho.

– Mais ou menos – respondi.

– Mas deu pra entender o conceito pelo menos?

Assenti com a cabeça.

– Tá a fim daquele sorvete agora?

Assenti de novo. Dessa vez com um sorriso.

Sentados no chão com nossas costas apoiadas na cama, saboreávamos um delicioso sorvete regado a fórmulas chatas de física.

– Sei que a parte legal da física fica toda para o Rogo lindo – fechou os olhos e fez sinal de aspas com sua mão –, mas você vai ter de estudar mais. Captou bem o recado?

Balancei a cabeça e o abracei.

– Confesso que fiquei preocupado na viagem da Lena. Jurava que a Máfia Russa iria aparecer do nada e te raptar – ri.

– Sendo a Máfia Russa composta de um só homem, e sendo esse homem o Vitor, adoraria ser raptada – ri.

Encostei-me a ele e terminei meu sorvete.

Estava começando a escurecer quando minha mãe chegou para me buscar.

– Oi, meu querido! – Dona Elisa adorava o Otávio. E era um sentimento recíproco. Ele acenou pra ela.

Entrei no carro e afundei no banco.

– Sabe onde eu estava?

– Onde? – perguntei.

– Na sua escola, fui entregar uns documentos pendentes.

– Hum – balbuciei.

– E sabe quem eu finalmente conheci? – imediatamente corei. Seu olhar indicava as palavras que viriam a seguir. – O professor Vitor.

– Que legal – não sabia o que dizer ao certo.

– Bonito ele, não ao ponto de tirar o fôlego como você havia dito, mas bonito. O achei meio frio. Porém, bastante educado. Foi engraçado...

– O quê?

– O encontrei por acaso. Esbarramos-nos, e o reconheci segundo as características que você repete sempre. Perguntei se ele era o professor Vitor e ele perguntou de quem eu era mãe. Quando respondi, ele me olhou surpreso, deu um meio sorriso e disse: “A Anna é uma aluna muito especial”. Recebendo elogios do imponente Vitor... Que honra. Estou orgulhosa de você – sorri, mas sem olhar em sua direção. Não queria me entregar com um simples olhar.

Se ela soubesse o tipo de aluna especial que sou... Garanto que não estaria tão orgulhosa.

Notas finais
Ah, desculpem-me por não ter postado semana passada, e por não ter respondido alguns comentários. Estive tão atarefada! Obrigada por serem pacientes e gentis. Espero que tenham gostado desse capítulo! E espero que comentem contando sobre. Como prometido, montei o tumblr com o elenco dos sonhos que me enviaram: http://maisqueumprofessor.tumblr.com/ É só clicar em um dos álbuns e ir movendo as fotos com o mouse. Dá pra comentar nos posts também. Contem o que acharam sobre cada dreamcast: parecidos com o que imaginam, totalmente diferente... Divirtam-se explorando a imaginação alheia. Eu adorei montá-los. Às meninas que mandaram: obrigada! E quem ainda não montou o seu, montem sem pressa e me mandem. Inclusive, deixei o submit em aberto caso alguém queira mandar por lá (http://maisqueumprofessor.tumblr.com/submit). Tem a opção "ask me anything" também. Enfim, é isso. Obrigada por todos os comentários! Vocês são leitoras maravilhosas. Beijos.