Mais Que Um Professor
19 Capítulo 19 - O Trem, o Percurso, os Empecilhos e a Rússia
Imagine uma estrada, um carro, um motorista. Tudo caminha bem. Até que, de repente, um cachorro para no meio da rodovia. Freio então bruscamente e meu coração acelera. Preciso passar, mas ele não se move. Não sei o que fazer. Não sei se espero. Não sei se devo ir tentar tirá-lo do meio do caminho. E durante o segundo de transição entre o relaxar e o enrijecer, foi nisso que pensei: Victoria boquiaberta parada no meio de uma rodovia, interrompendo minha viagem tranquila.
Três estátuas se encarando dentro de uma sala. Imóveis. Eu não sabia o que fazer. Ela fixou seus olhos em mim e eu sentia o quanto sua mente se embolava em um redemoinho de confusão. Ele, apesar de um tanto tenso, manteve a compostura. Respirava pausadamente. E eu ia lentamente desfalecendo por dentro. Lanças iam me perfurando, e questões apossavam minha mente.
É aquilo de muitos momentos caberem dentro de segundos. Pareceu demorar, mas tudo aconteceu muito rápido. Ela piscou três vezes. Talvez para ver se estava mesmo acordada ou para o caso de abrir os olhos e a cena ter desaparecido. Virou as costas. Passo a passo ia se afastando, e como se segurasse uma corda invisível, ia levando meu coração junto. Não disse nada. Olhou e saiu.
Eu tinha de ir atrás dela. A mão dele ainda estava sob minha coxa.
– Você confia nela? – meus olhos ainda fitavam a porta.
– Sim – um pensamento me veio em mente –, mas não sei se ela confia mais em mim – tirei sua mão da minha perna.
Peguei minha mochila e levantei da cadeira. Ele me olhava. Aparentava equilíbrio, mas o sorriso murcho que começava a nascer em seu rosto, indicava uma pequena preocupação.
Desci as escadas que levavam ao pátio e a encontrei sentada em uma das mesas. Olhava fixamente para a frente, contemplava o nada. Sua mochila estava entreaberta, com o livro – que segurava a me ver com o Vitor – metade dentro e metade fora. Sentei ao seu lado. Ela permaneceu do mesmo jeito. Como se tivesse levado um choque. Um choque de realidade. A fantasia golpeando a monotonia do cotidiano.
Aos poucos eu ia me preparando para o que viria a seguir. Preparando minha mente, meus argumentos... Meu coração.
Eu tinha medo de descobrir o que ela estava pensando. Sempre imaginei o que todos iriam pensar, mas nunca pensei no que eu faria a seguir. No quê iria vir depois. Sou dessas que cogita, mas não analisa as consequências.
Victoria apesar de brincalhona era a mais quieta das amigas. Sarcástica, sempre pronta para amenizar uma situação com seus comentários engraçados. Mas sempre suspeitei de sua fragilidade. Duda era maluca, Isadora explosiva, Victoria... Aquele mar calmo borbulhava por dentro. Rir não era o melhor jeito de lidar com as situações. Pelo menos, não com essa.
– Eu não sei o que dizer – seus olhos ainda não haviam encontrado os meus. – Meus sentimentos estão embaralhados. Ao mesmo tempo em que estou triste por não ter me contado, estou confusa sobre isso tudo ser errado ou não.
– Me desculpa por não ter te contado, Vic. Não queria que ninguém me julgasse. Tudo aconteceu tão rápido... Quando vi eu tinha chegado ao topo da montanha, sem saber como, quando, por que. Não sabia se você iria apoiar ou não.
– O fato de eu ter visto nosso professor de física mordiscando seu lábio me incomoda menos do que o fato de você não ter me contado. Talvez eu apoiasse, talvez não. Sinto-me traída, mas te entendo. Não sei o que faria no seu lugar.
– Você entende o motivo de eu não ter te contado? – foi a vez de eu ficar com olhos arregalados.
– Sim – ela olhou para mim.
– E você me desculpa?
– Sim. E quem sou eu para te julgar? Apesar de distraída, você nunca foi imprudente – pude então respirar aliviada. Soltar toda a tensão que prendi quando aqueles olhos arregalados me pegaram no flagra.
Há males que vêm para o bem. Para o bem de uma amizade. Talvez eu tenha acordado uma fera que dormia por não estar preparada para lidar com situações que exigiam mais do que rir. Pela primeira vez notei o quanto ela podia ser sensível e forte. Forte para esconder por tanto tempo o quanto podia ser frágil.
– Talvez eu seja prudente demais – rimos juntas.
– E talvez isso te atrapalhe. Aproveite esses momentos de imprudência então – disse. Pisquei para ela.
– Estamos bem?
– Acho que sim. Só estou assustada com tudo ainda. Coloque-se no meu lugar. Não é todo dia que vemos nossa amiga beijando o professor russo charmoso. Não é todo dia que nossa amiga esconde o fato de ela estar tendo algo com um professor – ela segurou minha mão e senti um alicerce mais sólido.
– Eu queria ter te contado...
– Agora já foi, Anna. Agora você pode me contar o que eu perdi por todo esse tempo. Desde quando isso acontece?
Eu estava feliz por ela ter entendido. Por ela não ser dramática. Por estarmos bem. Por ter compreendido que assuntos passados não devem ser retomados, somente ações que decorrerem deles.
– Desde depois das férias. Ele aproveitou as migalhas que joguei, e eu subestimei a mim.
– Quem diria em... Diretamente de um romance russo – e me cutucou com seu cotovelo.
– Não era diretamente da máfia? – ri.
– Também – sua amizade me acalmava. – Como ele é com você?
– Bom. Respeita meus limites.
– O Vitor é muito diferente do professor Vitor?
– Não muito – e então percebi que cada vez mais o Vitor ia se distanciando do professor Vitor. Eram a mesma pessoa, agiam igualmente. Mas um detalhe os diferenciava: o professor Vitor não podia ficar com uma aluna. Já o Vitor podia ficar com uma Anna.
O pátio estava vazio e, enquanto sua mãe não chegava para buscá-la, contei baixinho tudo o que podia. Como tudo começou, o primeiro beijo, os encontros no beco, nossas conversas, a ida à sua casa...
– Então aquela blusa era a dele?
– Sim – um tanto envergonhada, abaixei a cabeça.
– Sou boa em cogitar as coisas.
– A Duda sabe – falei por fim.
– Já era de se esperar. Você queria alguém que não a julgasse... Ela cumpre bem sua função de ombro amigo.
– É. Ela poderia trabalhar como “apoiadora” se essa profissão existisse.
– Isa, Otávio...?
– Nenhum dos dois sabem. Acho que eles não reagiriam muito bem. E também tem o fato de que não só eu estou envolvida. Preciso poupá-lo também. Por isso hesito em contar. A Isa explodiria e iria me atormentar até arrancar todo meu bem estar, o Otávio me acharia irresponsável.
– Você sabe o quê está fazendo?
– Sim.
– Então você não é irresponsável. E concordo com sua intuição sobre a Isa. Ela é complicada. Mas quem não é?
– Quem não? – sorri para ela.
– Conforme vou sabendo mais sobre tudo, mais vou ligando os fatos. Você me deu um super óculos, Anna. Agora posso enxergar tudo claramente. Ver as coisas como são. E como tudo faz sentido. Sempre esteve lá, mas nunca reparei. – Alguns segundos de silêncio tomaram conta do nosso momento – Ah, só quero deixar claro que aquela hora eu estava indo tirar uma dúvida da matéria. Minha mãe estava no supermercado, iria atrasar e como eu estava sentada na mesa do pátio sem fazer nada, decidi ir até ele. Aproveitar o tempo livre.
– Tudo bem – ri. – Você pode guardar segredo? – perguntei após mais alguns segundos de silêncio.
– Pensei que isso já estivesse explícito – estávamos fora do colégio. Sua mãe chegou e buzinou. Ela me deu um longo abraço e sorriu. Sorri de volta. Que banho longo eu tomei nesse rio chamado “sorte”!
Vitor apareceu no estacionamento. Como não havia ninguém lá ele fez um movimento com a cabeça para que eu entrasse no carro. Precisávamos conversar.
– Vamos, te dou uma carona – falou.
Já estávamos longe da escola.
– E sobre o “temos que tomar cuidado”? – indaguei-o. Mas disse de forma descontraída, afinal, eu também deveria ter tomado cuidado.
– Temos que revisar essa parte da matéria, Anna – ri. – Ela entendeu?
– Sim. Ficou triste por eu não ter contado antes.
– Espero que ela considere sua amizade a ponto de guardar segredo.
– Ela não é do tipo que espalha as coisas.
O carro parou na esquina da minha rua. Demos um beijo rápido e eu saí.
Entrei em casa e minha mãe estava na sala assistindo um filme. Dei um beijo nela.
– Como foi seu dia? – perguntou.
– Surpreendente.
– Surpreendente?
– É. Falo de amizades.
– Como assim?
– Às vezes nos esquecemos do quanto um tesouro é precioso.
Acordei animada. Era boa a sensação de que o mundo paralelo onde todos aceitariam uma aluna sair com um professor existia. Encontrei com a Vic na escadaria do colégio. As meninas não haviam chegado ainda. Ela sorriu pra mim, e enquanto caminhávamos para a sala, disse:
– Vai ser estranho vê-lo. Ele não é mais meu professor de física, agora ele é o meu professor de física que flagrei beijando minha amiga. Mas tudo bem. Gosto dele. Ainda tenho que me acostumar com tudo.
– Senti a mesma coisa, Vic. De modo diferente, claro. Mas senti. Também tive que me acostumar com o fato de que seria estranho vê-lo depois de tudo.
– E ah, estou contente por você. Todo mundo merece conhecer o mundo dos sonhos uma vez na vida – sorri. Ela tinha razão. Todos merecem.
Ao mesmo tempo em que viramos o corredor, ele, por um acaso, nos alcançou. Não tínhamos aula de física hoje.
– Oi, Anna. Oi, Victoria – disse e olhou amistosamente para mim e para Vic. Um sorriso seguro estampava seu rosto. Nem um evento embaraçoso como o de ontem o fazia perder seu equilíbrio.
Eu estava fazendo os exercícios de matemática quando um papel dobrado ao meio surgiu em minha mesa. Veio de trás. Victoria. Abri. Era um desenho.
A Catedral de São Basílio, um dos monumentos mais conhecidos de Moscou, toda colorida. No canto direito um trilho e um trem sobre ele, e no canto esquerdo uma menina com um casaco, cabelos soltos e um Ushanka na cabeça, aquele gorro típico da Rússia. No rodapé da folha estava escrito:
Você já está no trem. Aproveite o percurso.
V.
P.s.: Se necessário, pule. Amenizarei sua queda.
Fale com o autor