Mais Que Um Professor

16 Capítulo 16 - Quem Não Iria Querer?


Apertei a campainha da casa dela e logo sua mãe veio me receber. Não questionou sobre quem havia me deixado lá, sobre o horário... Sobre nada. Meu coração estava pingando alegria e excedendo êxtase, mas abriu uma exceção para o alívio. É como se tudo estivesse encaixando. Peça por peça. Como se eu não fosse mais uma bagunça, como se ele estivesse limpando cada poeira de insegurança acumulada dentro de mim.

– A Duda está no quarto dela – ela me deu um beijo no rosto e saí.

Bati na porta, esperei uns dois segundos e entrei. Duda estava deitada no chão do seu quarto com os olhos fechados e as duas mãos na barriga.

– Está tudo bem? – perguntei.

– Acho que sim. Não sei.

– Não sabe? – continuei em pé, próxima a porta que fechei.

– É. Estou irritada, Anna. Irritada comigo mesma. Irritada com as incertezas que ando armazenando.

Hesitei por um segundo, não sabia muito bem o que dizer.

– Espero que suas incertezas se transformem em certezas, Duda. Não seja tão dura consigo mesma. E quando quiser compartilhar suas agonias, conte comigo – não sorri, só assenti com a cabeça com o intuito de que ela sinta minha compreensão. Minha preocupação.

Foi complicado ouvir isso. Eu estava tão contente e de repente não mais. Queria sorrir, mas não podia. Queria que ela estivesse contente também, mas não, ela estava irritada. Cheia de incertezas... O caos mental pode ser tão aterrorizante quanto o físico. Eu sei.

Deixei minha mochila perto da porta e deitei ao lado dela no chão. Dois corações antagônicos: o entusiasmado e o amuado. O silêncio pairou no ar. Eu não precisava compartilhar meu momento especial, não havia necessidade. Ele estava vivo dentro de mim e era isso que importava. Ainda com seu agasalho, eu estava envolvida por seu cheiro. E a Duda, bem, ela precisava de mim.

– Como foi lá? – ela quebrou o silêncio, mas seu tom de voz ainda estava murcho.

– Foi bom. Especial.

– Fico feliz por você. A casa dele tem cara de Vitor? – olhou para mim e cedeu a um sorriso comedido.

– Tem – sorri de volta, mas não muito.

O silêncio tornou a penetrar o ambiente e aos poucos o sono foi me tomando.

Acordamos no chão. Estávamos tão cansadas que nem nos preocupamos em ir para a cama. A Duda cansada pela energia que suas incertezas tomaram, e eu cansada pela energia que a Rússia me roubou.

Sentei-me e ergui os braços para me espreguiçar.

– Acho que passaremos o dia sentindo um incômodo nas costas – Duda murmurou olhando para mim.

– É bem provável.

Levantamos e nos arrumamos. Sua mãe iria nos dar uma carona.

Enquanto eu escovava os dentes, do nada, ela me perguntou:

– E quando ele quiser algo a mais? – meus extremos atraíram os dela, só isso explica nossa amizade maluca de polos negativos, positivos, devaneadores e de polos curiosos. – O que você vai fazer?

Cuspi a espuma da minha boca e respondi:

– Ele sabe que sou virgem.

– Sabe? – indagou.

– Sim, eu contei.

– E o que ele disse?

– Que o momento deve ser especial, e deve acontecer quando eu me sentir pronta e confortável. E que não irá me forçar a nada – bochechei água em minha boca.

– Uau... Ele é realmente gentil – disse enquanto saía do banheiro.

Estava indo para a sala até que, no corredor, uma voz me parou:

– Oi – ele estava sorrindo.

– Oi, Diego – sorri de volta.

– Chegou bem na sua casa ontem sem minha carona?

– Ah, cheguei sim. Obrigada – ri.

– Qual é a nossa primeira aula?

– Vitor. Física – todas as terminações nervosas do meu corpo se avivaram. Automaticamente. Dizer o nome dele em voz alta era um tanto surreal. Tudo está sendo surreal.

– Ah sim, o Vitor. Você gosta dele?

– O quê? – a pergunta me trouxe de volta. Eu passava boa parte do tempo envolta por meu coração, meus pensamentos. Como um casco de tartaruga. Protegia-me com eles.

– Se você gosta dele... Como professor, pessoa, estilo de aula – ele olhou meio surpreso, como se quisesse dizer: “Foi uma pergunta simples. Não entendi o espanto”.

– Ah. Não tinha entendido. Enfim, eu gosto. Como professor, pessoa e estilo de aula. E você?

– Gosto do estilo de aula. Mas não sei se gosto como professor e pessoa. Ele parece ser legal e ao mesmo parece ser metido. Não sei explicar. Como a maioria dos alunos gostam dele, acredito que seja apenas uma cisma minha.

Como gostar do estilo de aula dele e não gostar de sua postura como professor?

– Também acredito que seja uma cisma sua. Ele não é, de forma alguma, metido. Não vejo motivos para achar isso.

– Então você é uma das encantadas por ele, Anna? – ele riu.

– Uma das encantadas?

– É. As meninas daqui se encantaram, pelo o que vejo, facilmente por ele...

– Não sou uma delas. Apenas disse a verdade, que ele não é metido e é uma pessoa legal. Por que o acha metido?

– O olhar dele. A confiança que exala. O olhar dele pra você.

– O olhar dele pra mim? Como assim? E desde quando ser confiante é um problema? Ele nunca ultrapassou a linha tênue da arrogância – O. Olhar. Dele. Pra. Mim. Por que ele repara nisso?

– Sim, ele te olha de uma forma curiosa. Vampiros precisam de sangue, ele precisa do encanto de suas alunas. É sua fonte de energia. E através do seu olhar, por exemplo, ele absorve tudo o que precisa.

– É uma teoria muito interessante. Mas ele não me olha de forma curiosa, Diego. E meu encanto por ele não o manteria em pé. Tão pequeno... – sorri. E que mentira mais descarada a minha! É claro que ele me olha de forma curiosa, sempre achei isso. E o meu encanto por ele forneceria, se a teoria do Diego fosse verdadeira, energia para mantê-lo em pé por semanas.

– Os das outras alunas mantêm. Fique tranquila – ele riu e eu fingi uma risada para acompanhá-lo. – Mudando de assunto, você tem a matéria da aula passada de física anotada?

– Sim – respondi.

– Você pode me emprestar?

– Claro. No final do dia te dou meu caderno.

Eis que uma pessoa passa pelo corredor. Passa por mim e pelo Diego conversando e observa rapidamente a cena. Vitor. O professor Vitor. Passa e me dirige um olhar não tão amistoso. Passa e logo continua seu caminho até a sala. A minha sala.

Aquele sim era um olhar curioso.

– Acho melhor entrarmos, Diego.

– Concordo. Não quero tomar uma bronca do Sr. Charmoso pelo atraso.

Entramos na sala e ele estava colocando a mochila em sua mesa. Olhou para mim e se sentou.

– A prova é semana que vem, não esqueçam – disse para a classe.

– Quer estudar em casa? – Otávio virou-se para mim e perguntou.

– Pode ser – sorri para ele e depois para as meninas, para cumprimentá-las.

– Anna Marin – a voz grossa anunciou.

– Presente – sorri para ele. Seus olhos amoleceram um pouco e ele ergueu um pouco sua boca; a metade de um sorriso torto. Mas estava de bom tamanho.

Após terminar a chamada se levantou e começou a fazer esquemas e escrever fórmulas na lousa. Iniciou sua explicação e eu apertei meu botão de atenção. Deixei para pensar o quanto aquilo era louco – eu tinha passado a noite anterior com ele, tinha ido a sua casa! – no final da aula.

Depois de algum tempo, deixou-nos resolvendo exercícios e foi ao banheiro. Não demorou muito e meu celular vibrou:

“É amiga do Diego agora?”

“Não. Estava conversando com ele.”

“Ele me olha estranho.”

“É. Ele não gosta muito de você, mas gosta das suas aulas.”

“A única coisa que ele tem gostar são as minhas aulas mesmo. E a única pessoa que, no momento, faço questão que goste de mim é você.”

Sorri.

“Eu gosto. Não se preocupe.”

– E esses sorrisos ao trocar mensagens? – Otávio Intrometido e Querido Rissi.

– Que sorrisos?

– Deu de se fazer de desentendida agora, Anna Marin? – abaixou um pouco os óculos – Tô de olho em você.

Elevei minhas mãos ao canto da testa e o saudei com uma continência. Otávio não perdoava uma.

Vitor voltou à sala.

– Terminaram? – perguntou a todos. Olhou para mim. – E você, Anna, terminou?

– Só o exercício um. Não consegui fazer os outros.

– Vá à lousa, compartilhe com a sala sua resolução.

– Eu? – olhei bem pra ele e, assustada, perguntei.

– Você mesmo. Vamos, Anna. Sem demorar – sorriu.

Fui até a lousa. Fiz e expliquei o exercício. Ele estava sentado em sua mesa e não tirava os olhos de mim. Prestando atenção minuciosamente no que eu fazia.

– Muito bem, Anna. Está certo. Estou contente por ter ido à lousa.

Dei um sorriso tímido e fui me sentar. Sei que ele não fez por mal, mas poderia ter me poupado dessa. Ou talvez tenha sido bom pra mim, não sei.

O sinal anunciando o fim da aula bateu e logo arrumamos nossas mochilas. Assim como o professor Vitor saiu apressado para a próxima aula, saímos junto, afinal a professora Lena nos aguardava em sua sala.

Sentamos em nossos respectivos lugares e, depois de nos saudar amistosamente, iniciou sua sala. História da Arte. A Isadora adorava...

Às vezes ficávamos dentro da sala no intervalo, como fizemos hoje. Aproveitávamos que ninguém mais ficava. Para descansar meus pensamentos um pouco, abaixei minha cabeça.

– Já pensou a Anna tem um caso com o professor Vitor e ninguém sabe? – brincou Victoria.

– Já pensou minhas suspeitas de que ele faz parte da Máfia Russa são verdadeiras? – continuou Otávio.

Os dois riram. De repente a ideia de que os dois eram bem parecidos me veio, mas logo foi embora e substituída pela ideia de levantar a cabeça e rir daquilo junto com eles.

– Tontos.

– Anna e professor Vitor? – professora Lena perguntou.

– A Anna tem uma paixão platônica por ele – Isadora, que estava sentada ao seu lado, respondeu.

– Sério? – dirigiu-se a mim.

– Sim. Ela o acha bonito – Duda contou a Lena.

– Ele é mesmo. Concordo com você, Anna.

– Mas do jeito que é ríspido...

– Você o acha ríspido, Isa? – Lena, surpresa, perguntou.

– Ele não é ríspido. É que a Isadora não possui empatia e cisma com ele – Duda e suas manifestações. Ela sabia que ele não era assim, e meus relatos só afirmavam isso.

– Não sei se ríspido é a palavra certa. Sem sentimentos talvez? Enfim, quem iria querer namorá-lo? – Isadora e sua rispidez. Ela sim era ríspida.

– Quem não iria querer? Ele é legal, charmoso, inteligente – um ponto para a professora Lena.

– Mas ele tem namorada? – Victoria pergunta e, considerando as atuais circunstâncias, foi como se eu tivesse levado um soco no estômago.

– Ah, deve ter. Vocês acham que não? Ela deve morar em outra cidade. Na cidade que a família dele mora.

Eu estava ali na sala, mas meus pensamentos viajaram para longe. A não ser pelas minhas risadas, não me pronunciei em nenhum momento. A paixão platônica já não era mais tão platônica. Ele não era ríspido, de jeito nenhum. Bonito, inteligente e charmoso. Quem não iria querer? Duas vertentes me dominaram instantaneamente.

Ele poderia muito bem ter uma namorada em outra cidade, mas me afirmou que não e eu acredito nele. Porém, o fato de ter muitos momentos sólidos deixados para trás em sua vida, como ex-namoradas. Por ter vivido mais do que eu, me arrebatou. E ao mesmo tempo, um sentimento estranho não me deixou sentir triunfo por ser a “namorada” atual dele. Era estranho falar daquilo. Mais estranho ainda é ouvir e presenciar todos falando de uma vida que você participa.

Duda não parava de me olhar. Ela sabia que ele tinha um alguém, e ela sabia muito bem quem era. Com o intuito de acabar com o assunto, levantei e fingi que fui jogar algo no lixo.

– É possível que ele tenha – disse a Vic. – Ei, Anna, quer que eu encha sua garrafa? Vou ir ao banheiro.

– Por favor, Vic. Está na minha mochila. Pode pegar.

Ela abriu a mochila e eu logo me arrependi de ter pedido aquilo. Certo agasalho, emprestado por certa pessoa, estava dentro.

Tirou o agasalho para pegar a garrafa e o analisou rapidamente.

– Nossa, é bem parecido com aquele que o professor Vitor sempre usa – disse.

– A Anna é tão obcecada que comprou até uma blusa igual à dele. Psicóloga urgente – Otávio e seu poder de me atormentar. Apesar de eu amar essas sacadas.

– Ou é a dele. Já pensou, Otávio? – Vic riu e eu engoli seco. Mal sabem eles que o que cogitam, na verdade, acontece.

Notas finais
Quero muito saber o que acharam, o que fariam, o que esperam... Do que mais gostaram e etc. Comentem me contando! Obrigada por acompanharem! Beijos. P.s.: Quem não iria querer?