Mais Que Um Professor
17 Capítulo 17 - Exposição de Afeição
– Vamos, Anna, levanta – minha mãe e sua forma calma de me acordar.
– Mais cinco minutos, por favor – murmurei e virei para o outro lado da cama.
– O passeio da professora Lena... Esqueceu? Vai, levanta.
– Mas são 4h30 da manhã! – sentei na cama e esfreguei os olhos.
– E o ônibus sai daqui trinta minutos. Você não leu o bilhete?
– Não. Por que tão cedo?
– O único horário disponível para agendar uma visita ao museu era às 7h00, e a professora Lena não quer correr o risco de se atrasar. Agora vai, Anna. Levanta logo. Vou esperar no carro.
Rapidamente, troquei de roupa. Coloquei uma calça jeans, uma regata branca e um moletom. Estava frio. Peguei minha bolsa e uma colcha para me cobrir durante a viagem. Eu, obviamente, iria dormir no ônibus. Minha situação atual premeditava isso.
Desci as escadas, tranquei a porta e fui direto para o carro. Afundei no banco do passageiro.
Minha mãe parou o carro e o ônibus estava prestes a sair. Eu estava atrasada e a professora Lena me apressava:
– Vamos, Anna! Foi dormir tarde, aposto.
Sorri para ela como um pedido de desculpas e entrei no ônibus. Subi os degraus e uma vista tomou conta dos meus olhos. Todos já estavam lá. Todos os lugares ocupados. E o único vago era ao lado dele, no primeiro banco. Assim que me notou parada na entrada do ônibus, sorriu. Olhou para baixo e seu sorriso torto despontou. Seu sorriso falava. Tinha vida própria. E seus dizeres, ecoavam em meu coração, eu pude sentir: “Venha, Anna. O seu lugar é ao meu lado”.
– Você vai ter que sentar com o professor Vitor, Anna – professora Lena chegou por trás e disse. Olhei para ela, e considerando sua recente descoberta sobre minha admiração russa, um sorriso suspeito estampava seu rosto.
– Sem problemas, Lena – sorri.
Meus amigos estavam sentados alguns bancos atrás. Duda com a Isa. Otávio com a Vic. Não perceberam com quem eu iria sentar, mas acenaram para mim.
Ele afastou um pouco suas pernas para me dar espaço e sentei ao seu lado. O motorista deu partida e saímos. Olhando para a janela, me cobri com a colcha. Não consegui fitá-lo. As luzes se apagaram e ele, serenamente, pegou minha mão. Virei em sua direção e senti o mundo me segurando.
Antes de ele aparecer, o vazio tomava conta de mim cada vez mais. Zombava dos meus devaneios e me roubava à paz. Era difícil manter a esperança diante de uma vida monótona. Aos poucos, eu ia escorregando, e prestes a me perder em frustrações e sonhos não realizados, ele veio com seu inegável charme. Puxou a minha mão, me puxou para ele.
O ônibus estava em completo silêncio. Era como se fôssemos somente nós dois. Encostei minha cabeça em seu ombro e aconcheguei-me em sua afeição. Ele acariciou meus dedos e senti de repente, seu coração envolvendo o meu.
– Já chegamos? – acordei e perguntei para o Vitor.
– Já chegamos à cidade, mas faltam uns 20 minutos para o museu.
– Ah, sim. Dormi a viagem inteira?
– A viagem inteira – as luzes da manhã invadiam a janela e agora eu podia enxergá-lo. Ele sorria e meu corpo ansiava ser envolvido por aqueles braços.
Tirei minha cabeça do seu pescoço e me espreguicei.
– A cara amassada pelo cochilo, e continua bonita... – falou baixinho e apertou meu joelho. Fiz uma careta.
– Quem dera – ri e ele também.
– Mas e você, dormiu? – perguntei.
– Não consegui.
– Chegamos meus queridos. Levem as mochilas que não iremos voltar ao ônibus – professora Lena anunciou.
Duda, Isa, Vic e Otávio passaram pelo corredor e os seus olhos arregalaram ao me verem sentada ao lado do professor Vitor. Levantei, sorri para o Rogo e os segui.
– Danada – Otávio sussurrou em meu ouvido ao descermos do ônibus. Pisquei pra ele.
– Anna e sua tática de chegar atrasada para sentar ao lado do seu amor platônico. Aposto que planejou isso há uma semana – Victoria disse.
– Aposto – falou Duda olhando para mim e rindo.
– As pessoas vão começar a falar que você é oferecida, Anna. Onde o Vitor está, encontramos você – criticou Isadora.
– As pessoas podem falar o que quiserem Isa. Não me importo – convicta do que sou e do que acredito, respondi para ela.
Duda piscou para mim e seguimos para o museu. Vitor estava logo atrás com a professora Lena.
– É a Isa que gosta de artes, né? – Otávio perguntou.
– Sim, a Isa é a artista das amigas – respondeu Duda.
– Notem os olhos dela brilhando de alegria – Vic e suas observações.
– Estamos indo para uma exposição de artes?
– Sim – ri –, você não sabia para onde estava indo?
– Esqueci por um momento. E não li o bilhete, vim por vir – rimos juntos.
– Dividam-se em dois grupos. Um comigo, e outro com o Vitor – professora Lena gritou antes de entrarmos.
Isadora olhou para nós e falamos em coro:
– Vitor, obviamente.
– Não o aguento, vou com a Lena. Tchau.
– Tchau – ainda em coro, nos despedimos dela.
– A Isa não gosta do Vitor? – Otávio perguntou.
– Acho que nem ela sabe ao certo se gosta ou não. Até porque, ele nunca fez nada pra ela. A Isa, na verdade, gosta de ser a diferente – Duda respondeu.
O grupo que escolheu a professora Lena saiu na frente. Vitor se aproximou de nós. Estávamos perto da porta.
– Só te escolhemos pelo boato de que seu grupo iria ganhar passagens para a Rússia – se tem algo que eu amo muito no Otávio, esse algo é inegavelmente, seu senso de humor. Rimos. Inclusive, o Vitor. – E a Anna – continuou –, só te escolheu pelo boato passagem para Rússia mais um acompanhante russo – desta vez fiquei vermelha, mas o Vitor riu.
Ah, meu caro Otávio, mal sabe você, mas meu passaporte está lotado de visitas para Rússia com um acompanhante russo. Aliás, espero que esse visto demore pra expirar.
– O que você tomou hoje de manhã? Café, dez colheres de açúcar mais uma dose extra de senso de humor? – perguntei baixinho para o Otávio. E, delicadamente, o belisquei.
– Quase isso – ele riu e me abraçou. – Meu senso de humor estava com saudade de você.
– E eu com saudades dele.
O monitor do museu nos orientou a seguir em frente. Todos saíram andando e eu fiquei propositalmente para trás, esperando um determinado professor passar.
– Passagem para a Rússia mais um acompanhante russo? Esse é o seu desejo senhorita? – seu sorriso torto era tão lindo que eu suspeitava que ele tivesse vida própria.
– Pego com você no final? – e rimos juntos.
O funcionário do museu nos acompanhou durante a visita. Explicou cada obra e ao final nos deixou observá-las livremente.
– É tudo tão bonito! – disse para a Vic.
– Não é? Pensei que não iria gostar, mas me enganei.
– Toca a alma – Isa, que até então estava com a professora Lena, nos encontrou. Sorrimos para ela.
A visita acabou e retornamos para saída do museu. Lena nos avisou que iríamos almoçar em algum restaurante, e que depois iríamos a um mirante.
Já estávamos acomodados em uma mesa quando o professor Vitor chegou com sua bandeja.
– Posso me sentar com vocês?
– Claro – sorri.
– Mas é óbvio que ela iria aceitar – cochichou Otávio com a Vic. Chutei a perna dele por debaixo da mesa.
– Perceba que, daqui a pouco, a Anna vai explodir de alegria porque ele sentou ao lado dela – dessa vez chutei a perna do Otávio mais forte.
– Isadora, o que fiz pra você me olhar brava assim? – perguntou Vitor após sentar-se.
– Nasceu – olhamos indignados para ela. – Estou brincando gente, calma. É só uma cisma minha. Você é legal, Vitor – e sorriu.
– A arte a acalma – rimos. – Mas sinto em lhe dizer Vitor, as cismas dela perduram por um bom tempo – concluiu Duda.
– Espero que não, Duda – Vitor respondeu. Deu um gole em seu refrigerante e continuou. – O que acharam da exposição?
– Gostei bastante – contou Vic.
– Foi legal – concentrado em seu prato, respondeu Otávio.
– A Anna e eu adoramos. E a Isadora, bem, a resposta é óbvia – Duda e seu jeitinho de, às vezes, tomar a frente das coisas.
– Por que sentou com a gente, professor? – perguntou Vic.
– Gosto de vocês – e deu lhes um sorriso tímido, daquele que somente os que se aventuravam em seu mundo conhecem.
Nunca sequer imaginei essa cena, de tão improvável. Eu, meus amigos e o dono dos meus devaneios. Almoçando juntos em um restaurante. Tendo uma conversa agradável. Estava permitido esquecer, por um momento, que o Vitor era nosso professor. Estava permitido acreditar que em mundo paralelo todos aceitariam uma aluna sair com um professor.
Estava permitido, principalmente, criar esperanças de que meus amigos aceitariam o fato de que as coisas já não são mais platônicas. De que o fato de eu utilizar as passagens para a Rússia era normal.
Todos, exceto o Vitor e eu, levantaram da mesa para irem pagar. Estava prestes a ir junto quando o Vitor segurou minha mão, me parando. Pegou a conta da minha mão e levantou.
– Eu pago – sussurrou para mim.
Fui tentar pegar a conta dele, mas não consegui. E se eu tentasse mais um pouco, a situação seria bastante suspeita. Contra a minha vontade, o deixei pagar.
Caminhando junto ao fluxo de alunos em direção ao mirante, e ao mesmo tempo, guardando meu moletom em minha bolsa, percebi que estava um pouco afastada do grupo e apressei o passo. Nisso, percebi que um homem estranho não parava de me olhar. E conforme eu seguia em frente, ele se aproximava descaradamente.
– Está indo para onde? – continuei andando e tentei ignorá-lo – Ei – sua mão tocou meu braço. Meus pelos, automaticamente, se arrepiaram.
Eis que o toque suave de duas mãos paira em meus ombros, e me empurra serenamente para frente. Vitor. No caso, professor Vitor.
Ele olhou para o homem, e instantaneamente, o homem foi embora. Não deve ter sido um olhar muito amigável.
– Não é para se afastar do grupo, Anna. Não escutou as orientações? – falou irritado. – Cadê seus amigos?
Eu ainda estava aflita, mas deixei o alívio tomar conta de mim.
– Me distraí. Desculpa. E obrigada.
– Abordar alguém sem o seu consentimento... Eu queria socá-lo.
– Está tudo bem? – a professora Lena se aproximou de nós.
– A Anna levou um susto, mas está tudo bem agora – ele passou o braço pelo meu ombro e apertou-me contra ele. Um professor acalmando sua aluna. A professora Lena também fez sua parte. Acariciou meu rosto e dirigiu-me um olhar pacífico que indicava um porto seguro. Estava tudo bem.
Para subir ao mirante, tivemos que pegar um elevador. Fomos divididos em grupos de cinco pessoas (Duda, Isa, Vic, Otávio e eu). E quando chegou a nossa vez, quem nos acompanhou foi o Vitor.
O elevador não era tão espaçoso, e obrigou-nos a ficarmos um tanto apertados. O que não foi um problema devido às circunstâncias: espaço apertado. Professor Vitor.
Senti-me pressa entre a realidade e a fantasia. A realidade de estar publicamente apertada ao lado dele, e a fantasia de estar segurando sua mão, de ser abraçada por ele.
Pensamentos que foram interrompidos por uma onda de preocupação:
– Está melhor, Anna? – o dono da voz mais arrebatadora, perguntou.
– Sim.
– O que aconteceu? – indagou Isadora.
– Um homem a abordou na rua. Mas o susto já passou – respondendo por mim. Ah, que dia (apesar do pesar) bom.
Olhos assustados me devoravam.
– Nossa – balbuciou Isa.
– Bem que notei o sumiço da Anna... – disse Otávio.
– É, você falou mesmo – contou Vic.
– Que bom que está tudo bem – Duda. E ao mesmo tempo em que se pronunciava, me aconchegava em seu olhar.
– Agora iremos te chamar de Super-Rússia, Vitor – Otávio e seu poder de aliviar momentos tensos. Rimos.
Duda encostou a cabeça em meu ombro e Vitor acariciou o topo da minha cabeça.
A vista era linda. E me fazia pensar em como olhar para baixo era pesaroso, denotativamente e conotativamente. Em como eu devia seguir em frente sempre, que a vista, eventualmente, se abriria para mim. Em como flutuar em meio aos devaneios tornava meus dias surreais.
Na volta, os lugares se mantiveram os mesmos. Sentei ao meu e logo o professor Vitor chegou. A Lena nos agradeceu pelo dia ótimo que a proporcionamos e rapidamente se acomodou em seu assento.
– Está cansada?
– Um pouco – ambos olhávamos para frente. – Obrigada por tudo – precisava agradecê-lo.
– Por tudo? – virou-se para mim. Olhei para ele.
– É. Pela companhia, pelo almoço... Por ter ficado comigo o dia todo.
– Ah, Anna, foi um prazer. Eu vim para isso – sorriu e eu me deixei ser devorada por aqueles olhos inebriantes.
O ambiente estava envolto por várias conversas paralelas. Além do Vitor, ninguém estava prestando atenção em mim. Peguei meu celular e encostei-me a ele.
– Vamos tirar uma foto – ele sorriu para a câmera e apertei o botão. E foi como se minha memória criasse forma. Um pedaço da Rússia estava capturado em meu celular.
E agora, sempre que o medo tomasse conta de mim, eu teria o que olhar. O que lembrar: o professor Vitor e sua aluna Anna.
– Ficou bonita – disse, e rapidamente acariciou minha mão.
– Posso te perguntar uma coisa? – ele assentiu com a cabeça e eu prossegui. – Àquela hora no corredor, em que eu estava conversando com o Diego, por que olhou estranho?
– Eu não olhei estranho, Anna. Apenas olhei. Era você.
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