Mais Que Um Professor
15 Capítulo 15 - Com o Russo em sua Rússia
A ansiedade corroía minha paciência. Parece que quanto mais queremos que o tempo passe, mais ele demora. Eu estava esperando no mesmo lugar de sempre e meu corpo tremia só de pensar que em alguns instantes ele seria tocado por aquelas mãos. Meus olhos brilhavam só de pensar que em instantes seria agraciado por aquele sorriso sereno. Ah, Vitor...
– Quer uma carona? – uma voz me puxou de volta.
Olhei para trás e era um menino da minha sala. Entrou esse ano na escola. Diego, se não estou enganada. Metade da sala já caiu sob seus encantos, menos minhas amigas e eu. Ainda não tínhamos falado com ele. Pelo pouco que observei, parecia ser um menino gentil. Educado. Sorridente. Aqueles olhos verdes eram realmente lindos.
– É a pé, mas não deixa de ser uma carona. Moramos perto – ele riu.
– Diego?
– Isso.
– Fica para próxima, estou esperando minha mãe. Muito obrigada pela gentileza – sorri.
– Sem problemas. Fica para próxima então, Anna – ele sorriu e voltou a caminhar.
Esperei que ele estivesse longe e ri sozinha pelo “estou esperando minha mãe”. Alguns minutos se passaram e um carro preto começou a virar a esquina. Era ele. Concentrado no volante, mas sorrindo. E de repente, meu corpo inteiro sorriu de volta. Ele aparentava estar contente, e eu aparentava ser o motivo. Como não explodir de alegria?
Acenei com as mãos, como quando pedem uma carona. Ele encostou o carro e baixou a janela.
– Pois não? – conteve um riso.
– Oi. Você poderia me dizer como chegar à Rússia? Estou perdida.
– Se quiser, posso te levar. Estava indo pra lá mesmo.
– Adoraria – ri e ele finalmente cedeu ao que estava segurando. Suas covinhas despontaram e aquele som adorável me inundou de êxtase. Entrei e fechei a porta. Não via a hora de ir para a Rússia, ou melhor, para os braços de um descendente de russo.
– Demorei muito? – ele perguntou.
– Um pouco.
– Desculpa.
– Não tem nada – sorri timidamente.
– Como está se sentindo?
– Como assim?
– Animada, ansiosa, com medo...?
– Posso escolher as três opções?
– Claro que pode.
Ele riu, tirou a mão do volante e a colocou sobre meu joelho. Apertou-o delicadamente e, como se tivesse cola em sua palma, não a tirou de lá até o fim do percurso. Até chegarmos a sua casa.
Na verdade, em seu apartamento. Que por sorte, eu não conhecia ninguém que pudesse ser seu vizinho, que pudesse me ver lá. Não era muito longe do colégio, nem muito perto. Uma distância tranquila até a minha casa.
Estacionou o carro em sua vaga de praxe. Sua mão ainda estava em meu joelho. Antes de sair, me inclinei sobre ele e dei um beijo em seu rosto. Deixamos o carro e adentramos no prédio, ele na frente e eu atrás.
Enquanto esperávamos o elevador fiquei imaginando sua rotina. Imaginando-o chegar todos os dias com sua mochila e seu chapéu, esperando o elevador, esperando algo que dê brilho aos seus dias... Durante todo o tempo também estive esperando meu elevador. Inconscientemente, esperando. Meus devaneios roubavam toda a minha atenção. E quando meu elevador parou no andar que eu menos esperava, meu coração explodiu pela surpresa. E agora, estou ao lado daquele que eu tanto esperava, aguardando para entrar em sua casa. Estou ao lado daquele que, a cada dia, vem juntando os pedacinhos da explosão que causou. Os pedacinhos do meu coração.
Devia estar distraída, já que ele pegou minha mão e me puxou para dentro. Eu estava prestes a conhecer um lugar nunca antes visto por ninguém, prestes a romper ainda mais a barreira que me limitava a uma simples aluna.
O elevador parou e ele saiu apalpando seus bolsos a procura de sua chave. Segundos depois, a porta estava aberta. Sentia-me sob um precipício. Maravilhada pela vista, pela excitação do momento. Coloquei o pé direito em seu território e foi como se eu tivesse pulado o precipício. Sem volta. Sem a chance de olhar para trás. Entrei em seu mundo e nada mais importava. Eu tinha de aproveitar o momento, tinha de jogar fora todos os sentimentos que me importunavam.
Ele fechou a porta e sorriu para mim. Segurou minha cabeça, fincou seus dedos nos meus cabelos e me devorou com seus olhos. Soltei minha mochila e apoiei minha mão em seu ombro. Inclinou-se sobre mim e agarrou minha cintura com sua outra mão. Seu cheiro entorpecedor, seu toque... Sua testa sobre a minha. Meu coração sobre o seu. Suavemente, mordiscou meu lábio inferior. Subi minhas mãos e as apoiei em seu pescoço. Sua língua adentrou em minha boca e eu estava entregue. Encostada na parede ao lado da porta, a aluna estava entregue ao seu professor.
Ainda me segurando, disse:
– Pode deixar sua mochila aí. Fique a vontade, vou pedir uma pizza.
Desvencilhou-se de mim para fazer a ligação, e só então pude apreciar o lugar que tanto visitei em meus sonhos. O lugar que tanto imaginei. Era um apartamento pequeno: dois quartos, cozinha, banheiro, sala e lavanderia. Era aconchegante, organizado e tinha cara de Vitor. Sua sala tinha uma enorme TV, um sofá e uma estante repleta de livros. Ele se sentou e eu o acompanhei. Pediu uma pizza de mussarela.
– Logo chega. Quer tomar alguma coisa?
– Não. Estou bem, obrigada.
– Estou feliz que está aqui – segurou minha mão.
– Também estou – encostei minha cabeça no seu ombro.
O silêncio estava prestes a pairar no ar, mas ele não deixou:
– Então a montanha-russa é o seu brinquedo favorito num parque de diversões? – sussurrou em meu ouvido.
Ri, ele também.
– É o que dizem...
– Quis muito rir aquele dia, Anna.
– Vi que o sorriso não saiu do seu rosto.
– Aquilo foi engraçado. Rápido e potente? Senti-me lisonjeado pela referência – e mais uma vez, o sorriso não saia do seu rosto.
Eu estava corada. Ele fez cócegas na minha barriga. Soltei um grito e gargalhei. Recuperei meu fôlego e disse:
– Ah, o Otávio... Eu não tinha dito nada.
– Mas ele deve ter se baseado em algo para dizer aquilo, não acha? – seu sorriso torto deu o ar da graça e meu coração pulsava êxtase.
Envergonhada, abaixei minha cabeça.
– Estou brincando – ele beijou minha cabeça –, meu brinquedo favorito num parque de diversões também é a montanha-russa. Gosto da adrenalina.
– É por isso que fica com uma aluna? – ri. De envergonhada para audaciosa, em questão de segundos.
– Pode-se considerar como um dos motivos – ele riu.
– Já parou pra pensar no que pode acontecer se alguém nos descobrir? – a campeã em mudar de assuntos tornou a aparecer. Campeã também na insistência de assuntos, mas isso não vem ao caso.
– Não. Nunca parei pra pensar nisso. Não fico supondo situações, Anna. Provavelmente, se alguém nos descobrir, não irá acontecer algo bom. Mas prefiro não pensar nisso. Só temos que tomar cuidado.
Tomar cuidado. Sim. Era o que devia ser feito.
– Sua relação com seus pais é boa, Anna? – após alguns segundos em silêncio, ele perguntou.
– É. São bastante abertos e participativos. Sinto-me a vontade onde vivo. E a sua com os seus? Você tem irmãos?
– É boa também. Tenho uma irmã. Perguntei isso pela lembrança que me veio. Esses dias minha mãe perguntou como estava minha vida amorosa – seu sorriso de lado me saudou com um caloroso “olá”.
– E o que você disse?
– Disse que conheci uma garota – ele passou a língua pelos lábios, como sempre faz. – Ela pediu mais detalhes, mas falei que ainda estava a conhecendo. E contei que assim como ela, a menina se chamava Anna.
Ele me olhava cautelosamente. Explorava cada detalhe. A imensidão dos seus olhos... Olhos que me contemplavam. Sorri, e se eu pudesse lhe daria mil sorrisos. O momento pedia por isso.
Aconcheguei-me em seus braços, e perguntei:
– Você nunca pensou em casar?
– Nunca me relacionei com alguém que despertasse essa vontade em mim. Mas não sei se quero casar.
– Ah... Você já se relacionou bastante? Ou melhor, teve muitas relações?
– Não muitas. Tive quatro namoros sérios. E gosto de sair, mas nada muito fora do normal.
– E filhos, você pensa em ter?
– Sim, ainda quero ter. Mas daqui a muitos anos. Quem sabe com sessenta? – e riu. Sorri pra ele.
– E você, Anna, pretende casar, ter filhos?
– Filhos sim, mas ainda estou indecisa sobre o casamento. Meu lado devaneadora acha lindo o ato casar. Já meu lado realista acha tedioso o ato passar a vida com a mesma pessoa. Não sei o que pensar. Talvez seja isso mesmo, encontrar aquela pessoa que te faça ter esse desejo.
– Você fala bem, Anna. Quer fazer o quê?
– Penso em psicologia, mas ainda não tenho certeza.
– Oh, sério? Avise-me quando se formar. Adoraria marcar umas sessões com você – rimos juntos.
– Eu aviso. Pode deixar.
– Como você teve a certeza de que queria fazer física?
– Na verdade, não tive essa certeza. Eu gostava de física, não tinha nenhuma outra opção e decidi fazer. Fui gostando do curso e percebi que a ideia de dar aulas me agradava. Arrisquei.
– Você gosta de arriscar, hein?
– É. Gosto bastante – suas mãos que seguravam as minhas, agora acariciam minha cintura.
Curvou seu rosto sobre o meu e me beijou. Voltei-me para e ele e retribui. Nossas línguas se misturavam, e nossas mãos exploravam o que podiam. As minhas passearam sobre seus cabelos, suas costas... As dele pela barriga, minhas pernas... Sua boca alternava entre a minha e o meu pescoço. Aquela sensação, aquele homem... Sua barba roçando meu rosto. Apertou-me contra ele e a vontade de transcender essa sensação era imensa. Serenamente, foi se inclinando, me deitando em seu sofá, deitando sobre mim. Aquele mar de êxtase me dominava com suas ondas. Minha blusa estava um pouco levantada e a estática causada por nossas peles se encostando me fazia o querer cada vez mais.
A campainha tocou. A pizza. Ele voltou com a caixa na mão e com a cabeça acenou para eu acompanhá-lo. Sua cozinha era pequena, mas graciosa. A mesa estava cheia de papéis e livros. Colocou a caixa com a pizza no balcão e limpou a mesa.
– Você toma refrigerante? – perguntou.
– Tomo.
– E bebidas alcoólicas?
– Não. Não tenho costume de beber. E você?
– Bebo de tudo, mas tenho preferência por vinhos.
Sentamos e começamos a comer.
– A pizza está boa – disse.
– Está mesmo. O que você costuma jantar?
– Depende do dia. Às vezes comidas prontas, rápidas. Às vezes comidas que exigem tempo de preparo. Ou as simples, como arroz, feijão...
– Você gosta de cozinhar?
– Um pouco.
Enquanto comíamos, nos olhávamos. Era surreal estar ali.
– Você vai à viagem da professora Lena?
– É bem provável que sim. Ainda não falei com a minha mãe. E você?
– Ela me convidou para ir. Acompanhar os alunos. Acho que vou.
– Gosta de exposições?
– Sim.
– E de acompanhar alunos? – sorri.
– E de acompanhar alunos – ele sorriu de volta. – Já está ficando tarde. Quer ir?
– Nossa, me esqueci do horário. Quero sim. Por favor.
Ajudei a limpar a mesa e depois fui pegar minha mochila para ir embora.
– Quer um agasalho emprestado? – ele deve ter me visto passar a mão nos braços.
Hesitei por uns segundos, mas decidi aceitar. Acenei a cabeça. Ele pegou a blusa, me entregou e nos dirigimos para o elevador. Do elevador para o carro. Estava quente lá dentro.
– Esfriou – disse.
– Sim. Do nada.
Meu coração também esfriava quando chegava o momento de me despedir. Eu o aquecia recordando momentos. Recordando o quão bom é ficar ao lado dele. Ao lado do meu professor.
Antes de ele ligar o carro contei que iria dormir na casa da Duda. Expliquei o endereço e seguimos.
– Sem questionamentos? – indaguei.
– Já fui adolescente, Anna. Também fazia de tudo para fugir dos questionamentos dos meus pais – sorri por dentro.
Logo chegamos à casa da Duda. Como de costume, parou na esquina. Ambos olhávamos para frente.
– Foi uma ótima noite – quebrei o silêncio.
– Foi mesmo. Você é uma boa companhia, Anna.
Algo estava me atormentando, precisava me livrar daquilo.
– Vitor?
– Sim?
– Posso te falar uma coisa?
– Pode.
– Sabe, sei que não namoramos. Não sei se faz isso, mas gostaria de pedir que enquanto estiver comigo, não esteja com outras pessoas. Quando não me quiser mais, me avise, por favor. Não gosto de ser enganada. De ser usada – gastei todo meu estoque de coragem e não havia sobrado fôlego para encará-lo.
– Anna – ele pegou minha mão, se virou e puxou meu queixo de modo que eu o olhasse –, eu não faço e nem vou fazer isso. Não se preocupe. Enquanto eu estiver com você, será só você. Também não gosto de ser enganado e prezo o respeito. Não seria capaz de magoá-la dessa forma. Serei sempre sincero quanto aos meus sentimentos e gostaria que fosse também. E não estou te usando, Anna. Não quero que se sinta assim. Não farei isso com você. Do mesmo modo que causo algum efeito em você, saiba que você também causa em mim. Não se esqueça.
Olhamos-nos por alguns segundos. Aqueles olhos eram hipnotizadores. Aquela barba, o conjunto todo. Abracei-o. Meus olhos cintilavam o efeito que ele me causa, e o efeito que posso causar. Dei-lhe um beijo. Um generoso beijo. Não tão entusiasmado quanto outros, mas um bom beijo. Absorvi o máximo que pude daquela barba pinicando meu rosto, daquelas mãos me segurando.
– Até amanhã – sussurrei em seu ouvido.
– Até amanhã – ele sussurrou no meu.
Saí do carro e conforme eu caminhava para a casa da Duda, me afogava numa alegria estranhamente dolorosa. Nos confins da Rússia. Na alegria do meu coração.
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