Mais Que Um Professor
12 Capítulo 12 - Interação Entre Dois Corpos
– Acorda – senti alguém me chacoalhando –, Anna.
Bem lentamente abri meus olhos. Não era o homem dos meus sonhos me acordando, era Duda. Até que bastava.
Com o cabelo todo bagunçado, sentei-me na cama e fiquei contemplando o nada por alguns instantes.
– Você tem vinte minutos para se arrumar. Vai logo.
Olhei para ela. Pelo visto, a mesma acordou à La Isadora, mandona.
Pulei para fora da cama e me espreguicei. Ah, Vitor, eu tive uma noite ótima. Meus sonhos então, perfeitos.
Enquanto trocava de roupa me indaguei sobre o motivo de eu não ter respondido sua mensagem. Fiquei atônita quando li. Paralisada. Deve ter sido por isso. Mas também, o que eu iria responder? “E eu que sinto falta do seu sorriso a cada segundo? Poderia morar nele.”? Sou grata por ainda existir algum resquício de racionalidade em mim, caso não houvesse, eu certamente teria mandado algo do tipo. Certamente teria aparentado uma desesperada.
Se bem que, acredito que não haveria problemas em mandar. Ele poderia compreender, gostar. O problema é que, não quero que tenha conhecimento sobre o nível do meu encanto. Apesar de que, no fundo, ele deve saber. Ainda há dignidade em mim. Ou talvez não haja, não sei.
Mas não tem como ignorar o fato de ele ter sido atencioso ontem. A mensagem me derreteu toda. E por isso, ele merecia uma resposta. Juntei toda a minha coragem e mandei:
“Bom dia, professor.
Da sua aluna, Anna. ”
– Você vai assim? – diretamente do mundo real, Duda, me puxou do mundo russo.
– Nossa Isadora, você está difícil hoje.
– Isadora? – ela riu.
– É – ri também.
– Seu cabelo está todo bagunçado. Vem cá – aproximei-me dela e delicadamente passou a mão em meu cabelo com o intuito de arrumá-lo.
– Obrigada – sorri.
– Vamos, estamos atrasadas.
A mãe dela nos deixou na porta da escola. Estávamos subindo a escola quando ela me parou:
– Não temos aula com ele – deu ênfase no “ele” – hoje.
– Nunca pensei que fosse sentir falta de uma aula de física.
Entramos na sala rindo. Atrasadas. Todos ficaram olhando e logo cessamos as risadas. Pedimos licença. Aula de história. Provavelmente eu iria dormir.
Deitada sobre a carteira, quase caindo no sono, quando meu celular vibra. Uma mensagem.
“Eu até perguntaria se você dormiu bem, mas como sei que está em aula, como professor é minha obrigação dizer: preste atenção e guarde o celular.
E bom dia, aluna Anna.”
Isso me despertou. Acordou todas as minhas terminações nervosas, aliás. Com um sorriso de orelha a orelha, levantei a cabeça e fiquei olhando para a lousa.
– Anna! Você por aqui. – arregalei os olhos. Ele estava falando comigo? Qual o problema desse japonês (vulgo meu professor de história)? Típico de Anna Marin: chamar atenção de quem não quer.
– Eu por aqui? Que eu saiba, sempre estive – disse sarcasticamente. Não sei como consegui a proeza de ser sarcástica logo de manhã, na primeira aula.
– Acordada? Mentalmente presente? Primeira vez. A que devo a honra?
– Estou a fim de uma história hoje – ri.
– De uma história? – ele levantou uma de uma suas sobrancelhas.
– É. Qualquer uma.
– Você ao menos sabe o que estamos estudando?
– No momento nada. Isso porque você está perdendo tempo usando seu sarcasmo com uma aluna pela mesma estar prestando atenção na aula. Que feio – eu disse mesmo isso? Nossa.
Ele me olhou com um ar de “estou com tanta vontade de te dar uma advertência, chamar seus pais”, mas sorriu e disse:
– Que bom que acordou – e sei que não está se referindo somente a aula.
Num esforço máximo, contive o desejo de responder: “Agradeça ao seu colega de trabalho, professor Vitor, o responsável por me acordar. Em todos os sentidos.”. Ri sozinha.
– Menina Anna está ousada hoje – Victoria sussurrou em meu ouvido. Virei pra trás e sorri, ela estava rindo.
– E confiante – Otávio, que como sinal de aprovação, me fazia um “joia” com a mão.
Olhei ao meu redor e as expressões eram engraçadas. Isadora estava séria me encarando, e os outros me olhavam curiosos, sem nenhuma preocupação ou afeto.
Duda estava toda corada, mas reuniu suas forças e virou-se para mim:
– E ainda há quem duvide do poder da física – rimos.
E há quem duvide... Segundo o que meu querido professor escreve na lousa, muitas coisas podem ser compreendidas segundo alguns conceitos da física:
“O conceito de força, nada mais é, do que uma interação entre dois corpos. Para um melhor entendimento, devemos nos basear nos efeitos causados por ela, como:
A aceleração, que faz com que o corpo altere a sua velocidade quando uma força é aplicada. E a deformação, que faz com que o corpo mude seu formato quando sofre a ação de uma força.”
Ah, a força, interação entre dois corpos. Algo me vem em mente: carro. Professor e aluna.
Se a aceleração faz com que o corpo altere sua velocidade quando essa interação acontece, seria ele o causador? Aquele que alterou minha velocidade? Aquele que me deformou? Certamente mudei o meu formato. A Anna insegura nunca responderia com toda essa audácia para um professor. A Anna insegura nunca subiria no colo de um professor e o beijaria. Ela ainda existe dentro de mim, claro, mas está bem escondida. Inibida diante de tanto de charme e atenção provenientes de um quase russo.
Durante o almoço fiquei sentada num banco em frente à escola, estava sem fome. Quando me dei conta havia perdido o horário, perdido a primeira aula. Aula de biologia. Não me importei muito, era revisão e depois pegaria as anotações de alguém.
Coloquei meus fones de ouvido e continuei adentrando fundo na minha mente, especificamente, nas minhas lembranças. Revivendo-as. Apreciando-as.
Abruptamente, senti um movimento. Alguém sentando ao meu lado. Virei-me. Vitor. Meus olhos automaticamente começaram a brilhar.
Ele sorria aquele sorriso de lado que tanto me entorpecia, que me fazia desejar estar em seu carro, estar em seus braços. Tirei os fones de ouvido.
– Oi – deveria ser proibido alguém ter uma voz grossa dessa.
– Oi – aqueles olhos e aquele lindo sorriso ainda iriam me engolir.
– Está ciente de que está perdendo aula?
– Sim senhor, professor Vitor.
Quando o silêncio ameaçava surgir, ele continuou:
– Caso você estivesse na aula não iríamos nos ver. Que estranha e boa coincidência.
– Boa? – intrigada, perguntei.
– É sempre bom te ver – contive um sorriso de orelha a orelha, mas por dentro sentia meu corpo borbulhando êxtase.
– O que está fazendo aqui?
– Vim assinar um documento e pegar umas coisas que esqueci no meu armário.
– Por que não me contou que vinha?
– Porque eu não iria vir. O colégio me ligou.
Ficamos em silêncio durante alguns segundos.
– Vitor, e se alguém nos vir sentados aqui?
– Apenas um professor conversando com a sua aluna. Deduzir não é sinônimo de ter certeza, Anna.
Tão inteligente. Conciso. Lindo.
– “Vou sentir falta do seu sorriso” – reproduzi em voz alta a frase que me mandou. – Sério que me mandou isso? Sério que Vitor Leis de Newton me mandou isso? Claro que tive uma boa noite, mas tenho motivos para desconfiar, não? – sentado com as mãos apoiadas em seu joelho, ele riu.
– Têm muitos motivos para desconfiar – seu sorriso de lado tornou a surgir –, mas eu queria te ganhar. E pelo visto, consegui.
Como consegue ser tão irresistível? Sincero e irresistível. Minha vontade era agarrá-lo ali mesmo. É óbvio que tinha me ganhado e ele sabia disso. Sabe desde o começo, desde o primeiro dia de aula, o efeito que tem sobre mim. Só um sorriso torto e sou dele, nem era preciso uma mensagem. Não era preciso, mas um agrado também, não faz mal.
Olhei para ele. Devia estar corada, devia estar com aquele habitual brilho nos olhos. Com a cabeça um tanto abaixada, sorri. Tinha tantos motivos para sorrir... Meus devaneios não eram mais devaneios, e meu diretor, ou melhor, meu professor, estava seguindo devidamente o roteiro que construí em minha mente nas vezes em que sonhei acordada. Sorri, principalmente, porque a vida não estava me negando bons momentos.
Seus olhos, gentilmente, me acariciavam. As borboletas do meu estômago se agitavam euforicamente. Um silêncio pairou no ar, até que...
– Quer ir à minha casa amanhã? – e meu coração quase escapou pela garganta.
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