Mais Que Um Professor
13 Capítulo 13 - Razão x Emoção
Seu convite avivou o caos em minha mente. Um muro se levantou dentro de mim. Razão e emoção. E eu estava dividida entre vontades e coerências, sentada no muro analisando possibilidades. Com um pé na razão, e outro na emoção. Tentando me entender. Tentando entender o que eu queria, e pior, tentando interpretar o que ele queria. Não sabia o que fazer e não sabia o que sentir. Não quero que ele me controle emocionalmente. Ele sabia o que estava fazendo, sabia aonde iria me atingir. Eu não. Eu o queria e, pela primeira vez, tinha medo.
Ele me olhava atentamente, uma ansiedade visível em seu olhar. De repente, tudo veio à tona. Todos os sentimentos e questionamentos que escondi debaixo do tapete para não me atrapalharem, emergiram a superfície. Meu corpo exalava confusão. Minha mente me apertava contra a parede e exigia respostas.
Diante de tantos garotos mais novos, engraçados e bonitos, por que o professor de física? Ele havia me perguntado isso, mas por quê? Por que criar uma grande afeição pelo dono de uma voz grossa? Por um homem, um homem realmente bonito, realmente interessante? Por que devanear com o homem dos meus sonhos que se materializou em meu novo professor de física? Por quê? Isso era a minha emoção trabalhando. Mas a minha razão estava cansada de ser pisoteada por uma visão romântica das coisas.
Ele sabia o poder que tinha sobre mim. Ele sabia que tudo que dizia me encantava. Sabia que ao dizer que sou diferente iria me ganhar. Sabia que ao despertar essa afeição em mim, eu iria me achar madura para concordar com seus planos. Sei que não tenho nada a perder, e por isso mesmo fui em frente. A questão é: eu sei o que estou fazendo?
Ao mesmo tempo, meu lado “você só vive uma vez” clama por uma nova experiência. Grita para me relembrar que eu quero isso. Que eu o quero. E é nesse momento que meus pensamentos se embolam. Estou presa e não sei se avanço casas, se volto ou se perco a vez.
Por fora um silêncio avassalador, e por dentro um barulho ensurdecedor. Cadê a Anna devaneadora para me socorrer? Apesar de eu implorar por ela, sei que não é dela que preciso no momento.
Convidando-me para ir a sua casa... O que pretende fazer comigo? O receio se espalhava rapidamente por cada centímetro do meu corpo. O receio de não saber o que fazer.
Sua mão, brandamente, encostou-se à minha. Seu toque me libertou dos meus pensamentos e me trouxe de volta a realidade. De volta ao homem que desperta o brilho em meus olhos.
– Anna? O que foi?
– Alguns questionamentos tomaram conta de mim.
– Isso tudo está assustando você? – ele me olhava carinhosamente.
– Não. É só que... – hesitei.
– Anna, você pode me contar o que quiser.
– Uma vez a Isadora disse que é impossível um homem mais velho, professor bem resolvido gostar realmente de uma aluna do ensino médio. Mesmo se a aluna permitir algo, ainda seria errado. Que ela seria facilmente manipulada pelo homem ideal que criou. O que me assusta é não saber se estou sendo manipulada. É não saber se estou sendo coagida por um homem que sabe exatamente onde me atingir. Estou crendo estar fazendo algo com consentimento e na verdade não?
Ele me olhava fixamente e seu olhar mesmo sério, me contemplava. Não queria ser um poço de insegurança. Mas tinha que abrir meu coração antes de embarcar em territórios desconhecidos.
– Você se sente manipulada por mim?
– Não.
– A impressão de que sei onde te atingir existe porque sei como se sente em relação em mim. Eu não sei se um homem mais velho, professor bem resolvido pode realmente amar uma menina do ensino médio. Mas eu, Vitor, gosto de estar com você. Não quero manipular seus pensamentos, interferir em suas escolhas. Sempre fui muito claro com você, sempre pedi sua opinião. A única vez que fui irresponsável e só pensei em mim foi a vez em que te beijei na sala. A vez em que não pedi permissão, a vez em que errei e me desculpe por isso – ele falava pausadamente, concisamente e não desviava os olhos de mim.
– Eu queria aquilo, Vitor, não precisa se desculpar. E você sempre foi respeitoso. Só estou confusa. Eu também gosto de estar com você, gosto muito. Mas uma parte de mim, a insegura, não crê que estou fazendo realmente o que quero. É que são tantos casos de professores, homens mais velhos que se aproveitam, abusam de meninas sonhadoras que acreditam realmente em ser diferentes. Não quero imaginar que estou sendo controlada. Não quero entrar em algo que serei inferiorizada por minha idade.
– Eu posso entender o seu receio. E casos assim são os que mais existem. Mas ao mesmo tempo em que tudo é novo pra você, também é novo pra mim, Anna. Minhas intenções são boas. Não vou ultrapassar limites que você não queira, e nunca passou pela minha cabeça te controlar. Quando estou a sós com você não te vejo como uma aluna. Te vejo como a Anna, uma menina que apesar de ter dezessete anos, gosta de mim. Não me considero superior. Só me considero atrevido por deixar minha vontade de viver algo novo tomar conta de mim.
– Não sei porque esses questionamentos surgiram só agora, depois de tudo. Mas estava sendo sufocada por eles, e que bom que me incentivou a vomitá-los. Apaixonei-me pela imagem que criei de você, mas estou contente em estar te conhecendo melhor.
– Se algo vai existir e existe entre nós, temos que confiar um no outro. E você pode abrir o seu coração sempre. Mas Anna, você não pode me endeusar pela imagem que criou de mim. Não me olhe como seu professor, apesar de eu ser. Me olhe como o Vitor, o rapaz que você gosta. Faça o que sente vontade, e não hesite em expor suas opiniões. Se for para estar comigo sem seu consentimento, se for para estar indo contra suas verdades, é melhor não estar comigo.
– Eu sou virgem – fechei os olhos e, impulsivamente, disse.
– Tudo bem.
– Você não se incomoda com isso?
– Não. E nem pretendo te forçar a nada. Seu medo é esse, eu estar te convidando pra ir à minha casa para abusar de você?
Abaixei a cabeça. Não conseguia fitá-lo.
– Anna, eu não vou fazer isso. Esse momento deve ser especial, e deve acontecer quando você se sentir pronta. E principalmente, com quem você se sentir pronta, confortável. Estou te convidando para ir a minha casa para ficarmos mais à vontade. Vamos ficar nos vendo em um beco, apertados dentro de carro todas às vezes? Não vou fazer nada que você não queira.
– Me sinto melhor com isso que disse. O meu medo era quando o momento em que você iria querer sexo chegasse. E como eu não estou pronta para me expor a isso, surtei por dentro. O meu medo era você se aproveitar. Quando percebi que não tinha me pressionado a nada disso, me sentia a vontade em estar com você. Mas ao me convidar para ir em sua casa, foi como se pensamentos que eu estava adiando e sabia que uma hora teria que enfrentar, viessem a tona.
– Anna, se eu quisesse sexo fácil eu não te procuraria. Não quero me aproveitar de você, entenda isso. Estou te tratando como uma moça que gosta de mim, uma moça de dezessete anos que sabe as escolhas que faz. Ou não sabe?
Minha mente então se aquietou. Os questionamentos se dissolviam diante da certeza de que eu podia confiar nele. Eu sempre soube o que estava fazendo, mas não sabia o que esperar dele. Minha vontade era arrancar meu coração, colocar num potinho e entregar para ele. Ele o compreendia. Ele gostava de estar com a Anna, não com sua aluna. Foi então que eu percebi que o Vitor real poderia ser ainda mais irresistível que o professor Vitor que criei na minha cabeça.
– Eu sei o que estou fazendo.
– Você se molda sozinha, Anna. Você é o exemplo de que tudo depende do referencial. Quando pensam que você está parada de onde a veem, você está em movimento. Sempre me surpreendendo, me encantando.
Sorri, e ele também.
– Quero ir sim à sua casa.
– Que bom. Depois te mando uma mensagem. Agora você precisa ir pra aula. E te digo isso como professor, não como Vitor controlador – ele sorriu e suas covinhas me tiraram o fôlego. – Confie mais em você, nas suas verdades e nas suas vontades. Não se intimide por opiniões alheias. Me guie por onde quiser, eu irei seguir seus passos, querida Anna.
E assim ele se virou e foi embora, e eu me levantei e segui para a sala. Não existia mais um muro em minha mente. Nesse momento a razão e emoção haviam se misturado, eram uma só. Eu não precisava estar dividida entre coerências e vontades. Estaria sendo incoerente se não estivesse fazendo o que quero. Ele era a minha razão, e a minha emoção só existia ao seu lado.
Sabia onde me atingir, mas hoje percebi que também poderia atingi-lo. Tenho consentimento do que faço. Ele nunca me controlou, nunca me manipulou. Meu medo fez isso. No fundo eu sempre soube que ele nunca seria capaz de me pressionar, e como foi bom ouvir isso dele.
Logo me dei conta de que se meus olhos não brilhassem constantemente, ele nunca teria me notado. Minhas escolhas de devanear com ele desencadearam tudo isso. Ele não estava no comando, não havia um comando. Eu estava livre para abandoná-lo.
Eu entendo que um compromisso é impossível. E fico feliz por ele me tratar normalmente. Por não me fazer juras de amor, e por sincero comigo. Talvez um professor possa gostar sim de sua aluna.
E não preciso dar significado a tudo, só quero aproveitar o momento.
Fale com o autor