Mais Que Um Professor

7 Capítulo 7 - Festa do Pijama


Devo ter ficado paralisada em frente ao computador por uns dez minutos. Ele me mandou um e-mail! Li, reli, li de novo. Um pedido de desculpas, gentil da parte dele.

Não sei ao certo como me sinto. Estou feliz por ele ter se preocupado comigo, claro. Mas a falta de afeição em seu e-mail me assusta um pouco. Se bem que, sendo a frieza sua marca, já era algo a se esperar.

Acredito que o estado exato para me definir no momento é aliviada. Estava quase surtando pela conversa que não tivemos, pela sua descontração perante uma situação nem um pouco casual, e pelos seus sorrisos tortos. Mal podia esperar pela nossa conversa.

Questionei-me sobre como ele conseguiu entrar em contato comigo durante alguns instantes, mas logo lembrei que os professores recebem uma lista com os e-mails de todos os alunos. Da mesma forma, os alunos recebem uma lista com os e-mails de todos os professores. Eu tinha o dele. Mas do que adiantaria? Não teria coragem para mandar um de volta. Mesmo que eu tivesse, não ousaria mandar nada sobre o que penso. Já dizia minha mãe: “A partir do momento que as palavras saem da nossa cabeça, já não nos pertencem mais. Pense bem antes de escrever qualquer coisa, pode voltar contra você. Pode ser provado”.

Mas ele merecia uma resposta, merecia saber que eu havia lido sua mensagem. Pensei sobre isso por uns minutos, ignorei minha aparente vergonha e rapidamente digitei:

“Ok.

Anna.”

Que maravilhoso seria se as escolhas dependessem somente de mim. Dedico boa parte do meu tempo refletindo sobre isso, mas também refletindo se a vida que fantasio em minha cabeça é a certa para mim (que é encantadora eu tenho certeza). Se determinadas situações não competem as nossas escolhas, ao nosso controle, no que acreditar? Seria isso o destino? Você faz a sua escolha, mas sua escolha não faz você? Caso eu pudesse ser a roteirista da minha vida: Estaria tudo em ordem comigo, e de bônus um professor descendente de russos estaria à minha disposição. Isso seria o certo? Faria de mim o que sou hoje? Num piscar de olhos as situações a minha volta tornaram-se muito mais difíceis de entender, e mais complicadas do que eu jamais havia imaginado. No momento, só almejo que essa ansiedade e essa preocupação sumam, sendo substituídas por uma plena satisfação.

**

No dia seguinte, as meninas marcaram uma festa do pijama na casa da Vic, já que seus pais iam sair. Um final de semana para as garotas, como de costume. Imediatamente me animei, eu precisava me distrair.

Ao tocar a campainha, a Isa foi me recepcionar. Fui a última a chegar das três.

– Anninha, estávamos te esperando!

Mal entrei em sua casa, e a Vic já foi jogando um travesseiro em mim.

– Seja bem-vinda ao paraíso dos travesseiros.

Pelo o que via, já estava tudo arrumado: Colchões a postos, travesseiros...

– Arrumamos tudo. Só estava faltando você – Duda surgiu de algum lugar e veio me dar um abraço.

Cumprimentei a Vic jogando de volta um travesseiro nela, e fui guardar minhas coisas.

– Vamos pedir as pizzas agora ou mais tarde? – perguntou Isa.

– Depende da vontade da Duda em ver o entregador bonito. Você quer ver agora ou depois? – brincou Vic.

– Acho que seu sorriso indica que as pizzas devem ser pedidas agora – respondi.

Duda assentiu com a cabeça, e depois se jogou nos colchões fingindo que desmaiara de tanta emoção.

Sempre pedimos pizza no mesmo lugar, e toda vez quem vem entregar é um rapaz muito bonito. Altura mediana, pele clara, cabelos e olhos castanhos. Deve ter a nossa idade, e mesmo com um semblante de cansado, nunca deixa de sorrir para nós. Quem buscou as pizzas na primeira vez que ligamos para esse lugar foi a Duda. Lembro como se fosse ontem, ela de boca aberta, sem dizer uma palavra, com a mão no coração. Depois até brincou:

– Vocês podem comer logo a pizza para chamarmos outra e ele vir entregar de novo?

Assim, o menino da pizza se tornou uma tradição.

Passado uns quarenta minutos, a campainha tocou. Empurramos a Duda para ir atender a porta, mas ela recusou:

– Não vou conseguir ir sozinha, tenho vergonha.

– Precisamos descobrir o nome dele – enfatizou Isa.

– Sim! Duda, ordeno sua ida até a porta para descobrir – gritou Vic jogando um travesseiro nela.

– Enquanto as enroladas decidem tem um menino perdendo tempo na porta. Vou buscar o dinheiro na cozinha – disse, por fim.

Achei um bloco de anotações perto do telefone, arranquei uma folha, peguei uma caneta e anotei o número do celular da Duda nele. Sabia que ela teria vergonha. Abri a porta, e o menino estava, como sempre, sorrindo:

– Aqui estão suas pizzas.

– Obrigada, e desculpa a demora – peguei as caixas de sua mão, e junto com o dinheiro, entreguei o papel. Ele sorriu e eu fechei a porta.

– Anna Marin, o que você fez? – Isa, de boca aberta, perguntou.

– Você passou seu telefone pra ele? – murmurou Duda.

– Na verdade, passei o seu – sorri.

Ela ficou vermelha, e abaixou sua cabeça de vergonha. Vic subiu no sofá e estabeleceu:

– A heroína da noite.

Ri. Interessante analisar como sou confiante para resolver assuntos alheios, e insegura com os meus. Queria todos os dias, ser a minha heroína.

Comemos a pizza enquanto ouvíamos música, e conversávamos. Isa então entrou em uma zona de perigo:

– Já faz um tempo desde a última vez que nos atualizamos...

– Quanto ao quê? – com a boca cheia, Vic perguntou.

– Quanto a meninos, Vic.

– A Duda acabou de se atualizar.

Rimos.

– Mas sério, como anda a vida amorosa de vocês?

Continuamos comendo. Logo me senti estranha. O último menino que me beijou foi na verdade, um homem. Especificamente, nosso professor de física. Como vai a minha vida amorosa? Eu não podia contar. Ou será que eu deveria? Afinal, elas são as minhas melhores amigas.

– Ninguém tem nada pra contar? Que desinteressante.

– E você tem? – questionou Vic.

– Não exatamente. Comecei a conversar com o meu vizinho, só.

– E como ele é? – Duda se pronunciou.

– Ele é legal. Mas totalmente diferente de mim, não sei se daria certo.

– Talvez você se surpreenda. Conversei com a Anna sobre isso uma vez, que no fim só o que vai importar é o quesito “nos fazer bem”.

Sem perceber, assenti com a cabeça. Eu queria me surpreender com algo totalmente diferente de mim.

– É, pode ser que sim – me incomoda um pouco o fato de a Isa concordar discordando do que dizemos a ela.

Ainda de boca cheia, Vic nos atualiza:

– Me encontro na mesma situação da nossa última conversa, sem novidades.

– Ouvi dizer que o Marcelo está a fim de você – comenta Isa.

– O da nossa sala? Que ele venha falar comigo então.

– Ele teria chances?

– É bem provável que sim.

Isa levanta e muda a música triste que estava tocando, ninguém precisava de drama naquele momento. Ela volta ao seu lugar:

– Mas e a nossa heroína da noite, quem é o protagonista da vez em seus devaneios?

Não me pronunciei até agora para o assunto não voltar a mim, mas de nada adiantou.

– A Anna está em um devaneio sério com a Rússia – Duda piscou pra mim.

O momento pareceu propício, não podia perder a chance:

– E se uma de nós ficasse com um professor?

– Seria completamente inadequado. Além de mais velho, um professor, o que piora ainda mais a situação – a senhorita princípios, Isadora, deu sua opinião. Já esperava essa reação dela.

– Seria estranho, um cara mais velho. Mas não sei exatamente o que pensar disso – opinou Vic, enquanto limpava suas mãos engorduradas de pizza em um guardanapo.

– A meu ver, não haveria problemas. Isso se o professor gostar realmente da aluna. Acredito em novas experiências – disse Duda. Esperava essa reação dela, sempre adorável.

– É impossível um homem mais velho, professor bem resolvido gostar realmente de uma aluna do ensino médio. É uma fantasia da sua cabeça, Eduarda. Pedofilia, abuso... Vocês não consideram essas opções, não?

– Mas e se a aluna permitir, ainda seria um abuso? – queria saber o que elas achavam.

– Claro que seria. Alienada pelo homem ideal que criou, a aluna seria facilmente manipulada.

Será que eu havia sido manipulada?

– Acho que não podemos considerar isso somente como algo unilateral, se a aluna possui sentimentos pelo professor, ela também tem culpa nisso. Os dois quiseram – a argumentadora hippie dos anos 60 surge.

– Mas como um homem mais velho e professor, ele deveria saber que é errado. Mesmo se a aluna insistir, seu papel é evitar que a situação se transforme em algo a mais.

– E se ele quiser também, como evitar? Algumas vontades são incontroláveis, Isa. Sendo uma menina da nossa idade, ela não é tão influenciável quanto uma de doze. Na maioria das vezes, ela sabe o que está fazendo. Ele também sabe.

– Não acredito em amor verdadeiro entre professor e aluna, mas sim em uma atração. Só não sei definir os limites entre o que é certo e o que é errado – defendeu Vic.

– Exatamente. Repito, acredito em novas experiências.

– Discordo totalmente de vocês. Inquestionavelmente, seria errado – afirma Isa.

Fiquei olhando enquanto debatiam o assunto, e absorvendo tudo o que elas falavam. Isa me consideraria depravada, Vic não saberia o que pensar, e a Duda apoiaria novas experiências.

Não acho que fui manipulada, e depois do seu e-mail, também não acredito em abuso. Do seu jeito, ele foi atencioso comigo e me prometeu uma conversa. Se tivesse que abusar de mim, teria naquele dia explorado melhor o momento. Não foi algo unilateral, eu também quis, inconscientemente ansiei por aquilo. Deixei acontecer. Não houve certo e errado. Algumas vontades são incontroláveis, realmente.

Quanto ao amor verdadeiro entre um professor e aluna, também não acredito. Mas defendo a ideia de atração, de paixão. Paixão que vem de pathos e significa dor/doença. Por isso dizem que a paixão acaba e o amor fica. A paixão entra no encanto, e o encanto nada mais é do que revestir algo de magia. Estou doente, o revesti de magia.

Após a pizza, decidimos assistir um filme. Não participei da escolha do filme. Estava muito confusa para prestar atenção em algo. Como já era tarde, todas estavam cansadas e logo pegaram no sono. Menos a Duda.

Não estava conseguindo lidar com aquilo sozinha, precisava dividir com alguém. Vi que ela foi à cozinha, e fui atrás. Com o barulho do filme, seria difícil alguma das outras meninas ouvirem nossa conversa.

– Preciso te contar uma coisa – murmurei.

– Quer ir lá fora?

Assenti, e sentamos na varanda.

– Não sei como te contar isso.

– Apenas diga – com seu dedo indicador ela tocou seu ombro –, acabei de ativar meu lado compreensivo – a junção dos seus olhos azuis mais seu lindo sorriso podem causar grandes danos a quem é submetido. Sorri para ela.

Pausadamente e delicadamente, falei sem mais delongas:

– O professor Vitor me beijou.

Ela deve ter ficado com a boca aberta por algum tempo, até que se recompôs:

– O professor Vitor te beijou? Inacreditável. Como isso aconteceu?

– Desde um determinado dia que não me lembro, ele começou a me olhar mais. Na festa junina me disse algo sobre muitos estarem esperando a chance de me conhecer, o que foi estranho. Mas como ele sempre diz e olha de forma provocante, ignorei. Na semana seguinte após o sinal da saída bater, fui tirar uma dúvida com ele sobre a matéria. Eu tinha acabado de folhear meu caderno quando fui surpreendida por um beijo. Do nada.

– E o que você fez?

– Retribui.

– Safado. Eu sabia! Aquele olhar nunca me enganou.

– Mas logo interrompi o momento, fiquei com medo de alguém aparecer.

– O que aconteceu depois?

– Eu meio que surtei. Comecei a indagá-lo sobre o motivo de ele ter feito aquilo, que ele não devia se interessar por mim, que eu não sabia o que fazer. Aí ele riu de mim, sério. Mas não de forma debochada, riu como se quisesse dizer “calma”. Justificou-se com o argumento de que ao eu ter me aproximado sentiu que deveria ter feito o que fez, e deixou claro que não alimenta sentimentos por mim. Perguntei então se aquilo significava algo, e novamente fui pega de surpresa. Ele respondeu que poderíamos tentar, que seria interessante passar um tempo comigo.

– E depois?

– Depois ele precisava ir para uma reunião e saiu, sem mais nenhuma explicação. Ia falar com ele no dia seguinte depois da prova, mas você me apressou para ir embora. Ele pediu para não contar para ninguém, e concordei. No começo, também achei melhor ninguém saber. Mas não estava aguentando mais, precisava contar para uma amiga.

– Desculpa por te privar de uma conversa a sós com ele. E você fez bem em ter me contado. É mesmo algo muito complicado para entender sozinha.

– Você não sabia, não precisa pedir desculpa. Ainda mais porque ontem, ao verificar meu e-mail, me deparei com um em particular que me pedia desculpas pela falta de tempo e por ter me deixado confusa. Também no final, me prometia uma conversa.

– Esse e-mail terminou assinado “Vitor”?

– Sim – rimos juntas.

– Uau – suspirou – Anna, você tem ideia do que aconteceu? Um professor, o nosso professor de física, te beijou!

Olhamos para o nada durante alguns segundos, e depois olhamos uma para a outra. Duda quebrou o silêncio:

– E agora?

– Eu não sei.

Passado o momento da descoberta, ela brinca:

– Anna Marin, agora você se encontra em outro patamar, minha querida.

– Sua boba – sorri.

– Está pensando em seguir em frente com isso? Acho que deveria. Você gosta dele?

– A questão não é gostar dele, Duda. A questão é como isso poderia dar certo? Ele é nosso professor. Até eu devanear com ele, tudo bem. Era apenas uma fantasia, eu não tinha que lidar com isso. Agora eu tenho.

Ela me olhava com carinho. Não poderia ter escolhido uma pessoa melhor para contar o ocorrido. Continuei:

– E se eu quiser algo, quem garante que ele quer também? Ando pensando nisso, ele pode ter apenas se aproveitado do meu encantamento por ele. Não posso ser uma boba. Tudo vai ser muito estranho. Na hora que eu me deixei levar, tudo parecia um sonho, um sonho que eu não queria acordar. Agora não sei como reagir. Estou tentando não surtar com isso, agir como se fosse nada demais, mas é difícil.

– Isso está longe de ser “nada demais”. Será uma nova experiência pra você, não custa nada tentar. Espere ouvir o que ele tem a dizer. Ele não irá te pedir em casamento, não precisa ficar nervosa. Ele nunca fez nada disso com nenhuma das meninas da sala. Um canalha se reconhece de longe, o que não é o caso dele. Nunca o senti me olhando diferente, ou dizendo meu nome como ele diz o seu. E não acho que ele se aproveitou da situação, você é bem ajuizada e ele também. Você quis e ele também. E se for apenas um beijo, que seja Anna, você não gostou? Aproveite as oportunidades.

– É...

– Pense nisso – ela se aproximou de mim e sussurrou em meu ouvido. Em seguida me abraçou, sorriu e se virou para ir se deitar.

Mas antes de ela voltar para a sala, pedi:

– Duda?

– Sim?

– Você pode guardar segredo? Não quero contar para as meninas ainda.

– Claro que posso. Uma boa amiga guarda seus segredos, não é mesmo?

“Aproveite as oportunidades”, a frase ecoava em minha mente.

Notas finais
O que acharam do capítulo? Estão ansiosas pelo próximo, e pelo o que vai acontecer? Quero agradecer a cada uma de vocês que reservam um tempo para ler e comentar a fic. Fico muito feliz quando comentam que estão gostando. Obrigada! Beijos.