Mais Que Um Professor

30 Capítulo 30 - Uma Noite de Folga


Sinto ter colocado ingredientes a mais na receita da minha vida. Desde que o resultado seja agradável, ninguém precisa saber disso. Seguindo esse raciocínio, o Vitor não precisa saber sobre o Otávio. O ingrediente a mais pode gerar dúvidas sobre o sabor e tirar o apetite.

Torcendo para que o Otávio esteja normal, entro na sala e sorrio para ele. Ganho um sorriso de volta e respiro aliviada. O território era seguro.

– Está tudo bem com o Otávio? – Duda pergunta assim que sento em minha carteira. Isa e Vic ainda não estavam por perto.

– Agora sim. Nos desculpamos. Ele pelo exagero, eu por esconder um segredo.

– Não sei por que foi tão fácil pra mim.

– Por que eu não escondi nada de você? – respondo ironicamente.

Ela assentiu com a cabeça e riu.

O professor Vitor entrou na sala e o barulho cessou.

– Bom dia, turma – disse.

– Pra você é sempre um bom dia, né Vitor? – Otávio disparou.

– Sempre, Otávio.

Queria cavar um buraco e me esconder. Claro que o Otávio não iria segurar a língua. Mas é um bom sinal. Se ele estivesse quieto, aí eu teria problemas. Sei que está tudo bem quando ele vira e me olha do jeito debochado de sempre.

– Licença, Vitor? – Isa e Vic chegaram atrasadas.

– Perderam o horário? – Vitor pergunta.

– Mais ou menos. Estávamos entregando uns documentos na secretaria – Isa responde.

– Sem problemas.

Após alguns minutos de aula, Vic sussurra em meu ouvido:

– Impressão minha ou o Otávio não para de encarar nosso querido professor?

– Não é impressão sua.

– Como se o Vitor fosse ficar amedrontado... – e ri.

Estávamos resolvendo exercícios, quando alguém do fundo surgiu com uma dúvida sobre o mercúrio e a água.

– Quem fica em baixo e quem fica em cima? – Vitor indaga o aluno.

O rosto do Otávio se ruboriza. Ele olha para mim, olha para o Vitor... Posso imaginar o que ele está pensando.

– Acho que você é a pessoa certa para responder a pergunta, Anna – Victoria não perde tempo.

No final da aula, sou surpreendida com um chamado perante alguns alunos da sala.

– Anna, preciso falar com você – como ele não via nada demais nisso?

Permaneci no meu lugar. Após a sala esvaziar, fui até ele.

– Quer ir no cinema hoje à noite? As sessões são vazias em dia de semana.

– Pode ser – sorri para ele e saí.

Encontrei as meninas sentadas na escada.

– Tá vendo aquela ali? – Duda apontou para uma moça alta de cabelo preto. O meio-termo entre séria e sorridente. Bonita. – É a nova professora de português do segundo ano. Começou segunda-feira. Agora atenção para a parte que te interessa, as alunas perguntaram e ela disse que achou o professor Vitor bonito.

– E?

– E ela achou o Vitor bonito. Isso não significa nada pra você?

– Mas o Vitor é bonito mesmo.

– Parece que a Anna insegura não mora mais aí – e apontou para mim.

– Foi despejada – pisquei para ela.



– Posso ir no banheiro? – perguntei ao professor de história. Ele assentiu com a cabeça e deixei a sala.

Perto da cantina, avistei o professor Vitor conversando com a nova professora. Ela falava tocando. Ria e mantinha um contato visual fora do comum. Ele não sorria tanto quanto ela, mas havia abandonado sua expressão séria. De longe, parei para observá-los: mesma idade, mesma profissão, mesmo tamanho.

Passei em frente aos dois. O professor Vitor e a nova professora sorriram para mim. A aluna Anna sorriu de volta.

*

Avisei minha mãe que iria no cinema com as meninas e fui até a esquina espera-lo. Olhei ao redor e não havia ninguém na rua. Ninguém para perguntar a minha mãe quem era o homem de carro preto me buscando. Três minutos esperando, e ele apareceu.

– Está bonita, Anna – disse após eu entrar.

– Obrigada – inclinei-me para beijar sua bochecha. Assim que me afastei, ele segurou meu rosto e encontrou minha boca.

– Vamos assistir o quê? – perguntou.

– Não vou ir numa sessão de comédia romântica com meu professor de física. Não dá nem para disfarçar se alguém nos ver – ele riu.

– Isso faz bastante sentido. Tem um filme de terror em cartaz.

– Podemos vê-lo.

Não entramos de mãos dadas, mas caminhamos lado a lado até o cinema. O shopping estava vazio. E para minha felicidade, o cinema também estava. Pegamos a sessão das 21h30. Escolhemos uma fileira ao fundo.

Além de nós dois, tinham mais dez pessoas na sala. Não conhecia ninguém.

– Vou ir comprar pipoca.

– Ok – respondi.

Alguns minutos se passaram e o Vitor chegou com a pipoca. Atrás dele, um rosto familiar sorria para mim.

– Anna, quanto tempo!

Por sorte, era apenas a Marina, uma conhecida. Levantei e a abracei.

– Pois é, quanto tempo! Como você está?

Sempre estudamos juntas. Não na mesma sala, mas no mesmo colégio. Ela terminou os estudos ano passado.

– Estou bem. Passei numa universidade em outro estado, acredita? Agora moro lá. Foi estranho no começo, mas já acostumei. Não tenho aula essa semana e vim ver meus pais. – Ao lado dela estava um menino. – Esse é meu namorado. Nos conhecemos na fila da matrícula.

– Oi – acenei para ele.

Era visível o quanto estavam encantados um pelo outro. Mesmas idades, mesmas profissões, mesmos tamanhos. Ele segurou a mão dela e senti uma pontada no coração.

Por um momento esqueci da minha companhia. Vi que a Marina não parava de olhá-lo. Quem era ele? Eu poderia dizer tranquilamente que é um rapaz que estou saindo, ou até mesmo que é meu professor. Não haveria problemas. A Marina não apresentava perigo, não iria ficar indignada. O problema é que não me sinto confortável com nenhuma dessas opções.

A ânsia toma conta de mim.

– Esse é meu tio, Marina – ele engoliu em seco e sorriu.

– Não o conhecia – ingênua como é, sorriu para ele.

– Meus pais não queriam me trazer aqui, tive que recorrer ao tio.

– Você é um bom tio – Marina disse para o Vitor. – Bom, o filme já vai começar. Fiquei feliz em te ver!

– Também fiquei.

Assim que ela e seu namorado se acomodaram duas fileiras abaixo, Vitor virou para mim:

– Tio?

– Não sabia o que dizer – respondo olhando para a tela.

No meio do filme, ele pegou minha mão. Olhei ao redor. Ninguém estava olhando. Um sentimento estranho pairou sobre mim. Apesar de não conseguir decifrá-lo, arrisco apostar em vergonha.

Não consegui prender minha atenção no filme. Parecia assustador o suficiente, mas toda vez que eu tentava me concentrar, minha mente retomava a observação: mesmas idades, mesmas profissões, mesmos tamanhos.

Coloquei o mundo no mudo e aumentei o volume dos meus pensamentos. Pensei em mim ao lado dele. Idades diferentes, tamanhos diferentes. Não me incomoda pensar no que somos, mas sim no que seremos. Nunca me imaginei nessa posição. Quando aconteceu, não pensei que fosse durar. Quando durou, não sabia o que pensar. Por tudo ser tão incerto, fui impulsionada a não pensar nos próximos passos.

Penso na cena que vi de manhã. Ele conversando com a professora... Não senti ciúmes, não me senti inferior. Só senti o futuro batendo na minha porta. Penso na cena duas fileiras abaixo de mim. Ambos jovens, dividindo a mesma época da vida. As mesmas dúvidas, os planos se entrelaçando.

Lembro dos sonhos que tinha antes de conhece-lo. Passar numa universidade, morar em outra cidade, dividir o apartamento com uma amiga, viajar pelo mundo. Penso neles agora e em nenhum o professor de física se encaixa. O que será desse mundo a ser explorado junto com o Vitor? Se o futuro bateu em minha porta, os questionamentos invadiram minha casa. Qual futuro tenho com ele?

Ele combina com os devaneios da Anna de meses atrás, mas não combina comigo e com tudo que ainda quero viver.

O filme acabou e nos dirigimos para o estacionamento.

– Você está estranha.

– Impressão sua – para evitar mais questionamentos, o beijei.

Fiquei em silêncio no resto do caminho para casa, perdida em meus próprios pensamentos.

*

Guardei minhas preocupações no bolso e fui para o colégio. Mal entrei na sala e o Diego veio até mim.

– O que você vai fazer no final de semana?

– Não sei. Por que?

– Meus pais não vão estar em casa e vou dar uma festa.

– Que original... – bufei.

– O quê?

– Nada. Continue.

– Então, se quiser, apareça por lá. Chame suas amigas – o Otávio apareceu na porta. – Ei, Otávio, aparece em casa no sábado.

– Vou pensar – fingi um sorriso.

– Pense com carinho – ele dá uma piscada e a princípio tenho vontade de rir, mas essa vontade passa quando reparo naqueles olhos verdes.

– Aparecer na casa dele? Não entendi – Otávio diz depois de dar um beijo no meu rosto.

– Ele vai dar uma festa – as meninas entraram na sala e acenei para elas. – Diego nos convidou para sua festa no sábado. Querem ir?

– Estou tão ansiosa para passar a noite de sábado com esse pessoal do colégio – ironiza Vic.

– Acho que devíamos ir. Nunca fomos em nenhuma – opina Duda.

– Concordo com a Duda – Isa diz.

– Sei que não somos muito de ir festas, mas podemos ir nessa. Combinado, então? – todos assentem com a cabeça e sentamos em nossos lugares.

– Mantenho a opinião de que a Anna deveria ficar com o Diego – sussurra Isa.

– Não começa, Isadora. Por favor – digo e abaixo a cabeça.

*

Meu celular vibra.

“Quer vir em casa?”

– Mensagem do Vitor? – Vic pergunta.

– É.

“Hoje não dá. Vou sair com as meninas.”

“Divirta-se.”

Ele respondeu.

Estamos sentadas em frente à minha casa esperando o resto do grupo: Duda, Isa e Otávio. A mãe da Duda irá nos levar.

– Está pensativa hoje – observou Vic.

– Aluna e professor não é um problema, mas a falta de perspectiva sobre o futuro que a diferença de idade traz é. Seria incrível se eu pudesse guardar o Vitor numa gaveta e tirá-lo de lá daqui uns dez anos. Estaríamos na mesma faixa etária, poderíamos construir um futuro juntos... Ele seria perfeito pra mim.

– Mas Anna, você não seria a mesma. Os tempos seriam outros. Ele é perfeito pra você agora.

Sorri para ela.

A mãe da Duda começou a buzinar desde a esquina. Acenamos.

– Desculpa a demora, meninas – ela diz e seguimos para a casa do Diego.

– Juízo, hein meninas. E você também tenha Otávio! Liguem para eu vir buscar – acenamos para a mãe da Duda e entramos na festa.

A casa do Diego estava cheia. A maioria eram pessoas do colégio. Havia um sofá vazio no canto da sala. Fomos até lá.

– Não bebemos, não dançamos, não gostamos dessas pessoas... O que viemos fazer aqui? – pergunta Vic.

– Viemos conhecer outro mundo, Vic. Relaxa um pouco – Duda a puxa do sofá e numa tentativa de animá-la, mexe seus braços. Vic continua parada.

– Ela está rindo, Duda. É um bom sinal – digo.

Isa se levanta e começa a dançar com a Duda. A música era animada. As duas puxam o Otávio. Vic volta a se sentar.

– Vem, Anna – Isa me chama.

– Daqui a pouco.

Em um piscar de olhos, as dúvidas voltaram a bater na minha porta. A ânsia em decifrar o amanhã me colocou a observar o ambiente. Jovens dançando como se fosse a última vez, rindo, flertando... Nenhum deles passava a noite escondida num beco.

O final do ano se aproxima. O que quero pra minha vida? Confessar para os meus pais meu envolvimento inapropriado? Ser julgada? Ser impedida de ir para outro lugar por causa de um homem?

O grande problema disso é que gosto dele. Não quero me ver sem ele. Mas parece que quanto mais puxo o cobertor da vida, mais vou ficando descoberta da Rússia. Tenho a impressão de que ela já me cobriu por tempo suficiente.

– Vocês vieram! – Diego se aproximou ao nos ver. Levantei para cumprimenta-lo.

– Acho que sim – ironizou Otávio. O cutuquei com o braço.

– Fiquem à vontade. Por que não está dançando, Anna? Venha, vamos pegar algo para eles.

– Agradecemos a gentileza, Diego. Mas depois nos servimos – Duda sempre me salvando.

– Diego sempre gentil. Vá com ele, Anna. Não seja chata. Está sentada desde que chegou – Isa piscou para mim. Aproveitei a distração do Diego e olhei com ódio para ela.

– Vamos antes que eu desista – e o acompanhei até a cozinha. Estava vazia.

– Parece estar chateada.

– Na verdade, estou cansada – respondo.

Ele pegou um copo e o encheu.

– Mantenho a minha opinião. Meu pai diz que tenho um bom instinto e não acho que esteja bem – esticou o copo para mim.

– Obrigada, mas não bebo.

– Você está muito para baixo, Anna. Aproveite a festa. Vá dançar com seus amigos. Um copo só. Não tem nada demais.

Olhei para ele, para o copo... Não quero aparentar desânimo. Não quero deixar as ameaças emanadas pelos meus pensamentos martelarem em minha mente.

Pego o copo e tomo de uma vez. Um calor emerge no meu corpo. A música ecoa e pulsa em mim. Ele pega uma garrafa fechada na geladeira.

– Uma noite de folga – sussurra em meu ouvido e me empurra para a sala.

Conforme o líquido preenche cada preocupação, mais eu me sintonizo com o momento. Danço com o Diego e deixo a ideia de tirar uma folga se concretizar.

A adrenalina toma conta de mim e pede por mais. Um copo atrás do outro...

Sinto uma vertigem e encosto na parede. Pouco a pouco, tudo vai se apagando.

Notas finais
Desculpem a demora. Pelo visto a Rússia está sendo invadida por um turbilhão de emoções... O que acharam do capítulo? E os questionamentos da Anna? Quais serão as consequências desses acontecimentos? Estamos na reta final da história. Obrigada por serem sempre tão gentis! Semana que vem posto o meu dreamcast. Vou tentar montar uma playlist com as músicas da fic também. Beijos.